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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Nouriel Roubini em Davos: Governo dos EUA opera com “corrupção legalizada”

21/1/2015, DSWright, Firedoglake
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Embora possa haver confusão entre alguns nos EUA sobre como opera o sistema político norte-americano, tudo indica que os participantes do Fórum Econômico Mundial que se reúne em Davos, Suíça, já sabem que a política nos EUA feita à base de propinas e corrupção.

Numa entrevista em Davos à rede Bloomberg News relacionada a preocupações com a desigualdade crescente e a influência no sentido de corrupção também crescente, que essa desigualdade gera na política dos EUA, o economista e professor de negócios na New York University Nouriel Roubini disse, sem pestanejar nem qualquer hesitação, que será muito difícil para os EUA superarem a desigualdade entre ricos e pobres, porque o sistema político nos EUA opera baseado na “corrupção legalizada”, o que significa que os ricos, sempre com mais recursos para subornar políticos [e a imprensa-empresa], prevalecerão sempre.

Tom Keene, Bloomberg: Que dimensões terá o efeito plutocracia em 2015?

Nouriel Roubini: Significativo, porque estamos numa democracia na qual supostamente seria “um homem, um voto”, mas a realidade é que os bilionários, os que têm poder econômico e financeiro, podem afetar a legislação sobre impostos, sobre ganhos de capital, sobre interesses distorcidos pelos que têm aquele poder político.
Nos EUA, se se pensa bem, temos um sistema de corrupção legalizada. K Street [1] e os grandes lobbies alteram as leis, com o dinheiro que distribuem entre os políticos; é assim que quem tem recursos financeiros tem impacto maior sobre o sistema político que os que quem não têm. Por isso não é verdadeira democracia: é uma plutocracia.

Não que seja novidade, para quem preste atenção. Na verdade, a Universidade de Princeton produziu estudo exaustivo que andou pelas manchetes, no qual demonstra que a riqueza determina a forma final das leis (o que o estudo chama de “resultados legislativos”) no Congresso dos EUA.

Acrescente-se a isso um experimento do grupo progressista CREDO e de UC Berkeley no qual os pesquisadores ofereciam aos deputados encontros com eleitores reais e com doadores não eleitores; e os deputados sempre escolheram com mais frequência os doadores, e você com certeza terá o retrato de um sistema cínico, comandado pelo dinheiro.

De novidade, só, que a coisa já seja tão óbvia a ponto de intelectuais e especialistas importantes como Roubini concluírem que “corrupção legalizada” é a melhor expressão para descrever o sistema político nos EUA.

O pessoal já nem tenta enganar. Nunca caímos tão baixo.
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Nota dos tradutores
[1] K street - Rua, em Washington, onde se localizam os principais escritórios de lobbying, think tanks, advogados e grupos de pressão [com informações da Wikipedia].
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[*] Nouriel Roubini (nasceu em Istambul, Turquia em 29/3/1959) é um economista estadunidense, de origem de judeus iranianos da Stern School of Business da Universidade de Nova York, desde 2009. É também presidente do grupo de consultoria RGE Monitor, especializado em análise financeira.
No início dos anos 2000, Roubini foi apelidado Dr. Doom ou Doutor Catástrofe em razão das suas previsões econômicas catastróficas - ou, pelo menos, muito mais pessimistas do que as da maioria dos economistas, na época.
Em 2005, segundo a revista Fortune, Roubini afirmou que “o preço dos imóveis residenciais surfava em uma onda especulativa, que brevemente faria afundar a economia”. Naquela época, foi qualificado de Cassandra. Agora, é considerado um sábio. Suas previsões atuais são igualmente apocalípticas: uma recessão persistente, com mais de dois trilhões de dólares de perdas em créditos e uma crise bancária sistêmica. “O FDIC gastou 10% das suas reservas para socorrer IndyMac, e esta foi a primeira onda de falências”,  diz Roubini.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pepe Escobar: “Rouhani e 1914 remix”

24/1/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hassan Rouhani, Presidente da República Islâmica do Irã
O presidente Hassan Rouhani do Irã é, hoje, o homem que mais trabalha no show business geopolítico. Agora, entrou na toca do leão – ou rede para apanhar peixinhos dourados – o Fórum Econômico Mundial de Davos. E enfeitiçou eles todos, só com sua estratégia de “moderação prudente”, que diz o que todos os Patrões do Universo, verdadeiros ou falsificados, realmente querem ouvir: o Irã está aberto aos negócios.

Jim O'Neill
Rouhani destacou o que até o inventor dos BRICS, Jim O'Neill, já reconheceu: o Irã tem potencial para ser uma das economias Top Tem do mundo, antes de 2040. Sua estratégia para chegar lá é extremamente sólida: política externa muito equilibrada subordinada à promoção do desenvolvimento econômico. Começa com acordo definitivo com o P5+1 – os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha – até o final de 2014; fim de todas as sanções; e, então, fluxo sustentado de investimentos que virão do ocidente.

Rouhani não vê “obstáculos intransponíveis” na trilha de um acordo nuclear permanente e amplo – “a menos que outras partes não mostrem vontade suficientemente séria”. Sanções, disse ele, “só fazem exacerbar” a instabilidade, em vez de criar alguma paz.

Rouhani não poderia ter sido mais equilibrado, no movimento para “engajar a comunidade mundial numa base justa”. Voltou a dizer que o programa nuclear do Irã visa exclusivamente a finalidades pacíficas:

Não temos qualquer ambição de criar uma arma nuclear (...). Firmemente declaro que armas nucleares não têm lugar em nossa estratégia de segurança. Mas o povo do Irã não está disposto a desistir de sua tecnologia pacífica. Continuaremos a desenvolver o uso pacífico da energia nuclear.

Por isso, quando perguntado sobre duplo uso de tecnologia nuclear, ele respondeu: “40 países fazem duplo uso da tecnologia nuclear. O Irã não aceitará ser discriminado”.

Rouhani destacou que o Irã está construindo laços comerciais mais fortes com seus vizinhos – a longa lista inclui Rússia, Turquia e Paquistão – e nada quer além de normalizar os negócios com os europeus. Para tanto, faz a corte a líderes comerciais ocidentais. Conversou com o Big Oil ocidental, num “quadro de mútuos interesses”. E que grande negócio está, potencialmente, sobre a mesa: se você investir em nossa indústria de energia – e eles estão babando para fazer exatamente isso – ajudaremos no seu crescimento econômico, e isso é bom para a paz mundial.

Jamie Dimon
Disse que a crise financeira provou que as nações não se podem trancar dentro delas mesmas. Até elogiou o tema de Davos, esse ano: economias bem sucedidas têm também de ser éticas. Contem essa para Jamie Dimon, do JP Morgan.

Segundo Rouhani,

Os últimos seis anos nos ensinaram que nenhum país sozinho pode ser bem-sucedido (...) Nenhum país pode considerar permanente a sua dominação. E todos estamos ligados mediante a globalização. Se não escolhermos pilotos sábios, a tempestade nos afogará, todos.

Contem essa para a claque barulhenta que não poupará esforços para bombardear qualquer possibilidade de qualquer entente com o Irã.

Sua posição sobre a Síria foi, mais uma vez, firme.

Matadores sanguinários chegam aos milhares à Síria, e fazem guerra – até uns contra os outros (...) Temos de trabalhar juntos para ajudar a Síria e para expulsar da Síria aqueles matadores. Em seguida, temos de reunir a oposição em torno da mesa, e organizar eleições gerais e justas na Síria.

Contem essa à Casa de Saud e à Casa de Thani, do Qatar.

A gangue de 1914

Só porque Rouhani não incluiu Israel na lista dos países com os quais o Irã está construindo laços mais próximos – falou de paz “com todos os países (...) que reconhecemos oficialmente” – os leões-de-chácara de sempre, no lobby pró-Israel, já entraram em surto. Teerã não precisa reconhecer um regime bandido em Telavive que, há anos, todos os dias, ameaça atacar o Irã, com ou sem o escudo dos EUA. Por falar nisso, os renomados democratas da Casa de Saud tampouco reconhecem o estado de Israel. Mas... são os “nossos” filhos da puta.

Manifestação em Davos (2014)
Tudo isso teria, necessariamente, de misturar-se com uma das obsessões chaves em Davos esse ano – a ideia de que se trata, tudo outra vez, de 1914. Para os que ainda não saibam, Davos não prima pela capacidade de antevisão: demoraram anos para admitir, afinal, que a desigualdade de renda e o desemprego são ameaças mortais contra a economia global. Empresários e altos executivos, com seus gordos “bônus”, não tendem ao igualitarismo; só quando é bom p’rôs negócios.

No que tenha a ver com a desigualdade, esse relatório da Oxfam, distribuído na 2ª-feira (20/1/2014), diz o que é: “as 85 pessoas mais ricas do mundo concentram riqueza equivalente a tudo que a metade mais pobre da população mundial possui”.


Outro relatório distribuído na 2ª-feira (20/1/2014) pela Organização Internacional do Trabalho, OIT [orig. International Labor Organization (ILO)] mostra que o desemprego, em nível mundial, afetou nada menos que 202 milhões de seres humanos, em 2013; e em 2018 serão 215 milhões. O desemprego está crescendo no sudeste da Ásia, no sul da Ásia e, em menor escala, no Oriente Médio, Norte da África e Europa Central. Para nem falar do desemprego entre os jovens, que cresce rapidamente no sul da Europa – Grécia, Espanha, Itália –e na Irlanda.

E adivinhem quem a OIT responsabiliza? Os Patrões do Universo, os mesmos que estão reunidos em Davos; as corporações preferiram manter o dinheiro em caixa ou comprar ações delas mesmas, em vez de investir em maior capacidade de produção ou para criar empregos.

Shinzo Abe
Coube principalmente ao Primeiro-Ministro do Japão, Shinzo Abe, mexer nas brasas do 1914 remix – com seu balãozinho de história em quadrinhos de demonização da China, onde se lê que a “expansão militar” na Ásia pode sair de controle. (Ver Cowbells, or how Davos saves the world, Asia Times Online, 23/1/2014).

Mas o homem da hora do 1914 remix é o economista Nouriel Roubini. OK. Exatamente como há um século, a desigualdade de renda está alta (agora, foi provocada pelos negócios turvos do turbocapitalismo que a maioria dos Patrões do Universo abraçaram). Estamos numa “era dourada de desigualdade” (Roubini). E há obviamente um revide disseminado contra a globalização – por causa dos lucros ilimitados que as corporações arrancam do mercadeamento de tudo.

Quanto a “tensões geopolíticas crescentes”, ninguém em Davos parece ter colhões para dizer de onde elas vêm: do declínio do Império Americano com todas as suas convulsões centrífugas e centrípetas; do medo de muitos no ocidente e especialmente o Japão no leste, de um crescimento imparável, da China; e da nada-santa aliança entre Israel e a Casa de Saud para conservar o Oriente Médio expandido sempre a chafurdar em conflito sectário. Essas são as verdadeiras “tensões geopolíticas” que podem reciclar 1914; não as estratégias de política exterior de Irã, China ou Rússia.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive quase sempre entre São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
- Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Crise da economia global


Bruno Cava

6/12/2011, Bruno Cava, Coletivo Amálgama – 
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Resenha de: FUMAGALLI, Andrea; MEZZADRA, Sandro (orgs.) “A crise da economia global. Mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos”. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2011, 364 páginas

“É preciso organizar a crise, antes que o capitalismo se reorganize em nome dela”


"A crise da economia global:
Mercados financeiros, lutas sociais e
novos cenários políticos", de
 Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra
O capitalismo é crise. E não morrerá de morte natural, como dizia Walter Benjamin. Aprendeu a governar a crise, alimentar-se dela, perpetuar-se nela. Mas, quando a palavra capitalismo volta à ordem do dia, algo vai mal no reino. Até pouco tempo atrás, era simplesmente romântico falar em capitalismo. Esse é um livro sobre a crise. Traz o sentido da urgência de quem vive tempos comprimidos, críticos. É motivado pela premência de organizar a crise, antes que o capitalismo se reorganize em nome dela. 

Nessas horas, nada mais oportuno do que uma política radical. Radicada nas causas materiais e nas lutas concretas, de baixo pra cima, somente uma atuação política que vá às raízes pode evitar que a crise se traduza em regimes políticos muito piores, em warfare, em novos-velhos racismos e fascismos. Eis a primeira premissa, que explica o subtítulo: “mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos“.

O desenrolar de narrativa, que vai das finanças à revolução, não se vai encontrar nas páginas de economia dos jornais ou nas revistas “especializadas”. Nas 364 páginas, nove pesquisadores ligados à rede militante Universidade Nômade oferecem interpretações outras para a crise da economia global. Seu foco é os EUA e a Europa, foco dos múltiplos colapsos de 2007 até hoje. Suas inquietações: qual a participação das pessoas não só como objetos da crise, mas como sujeitos? Quais as oportunidades para a organização política? Como reabrir um horizonte de mudança radical, à altura de nossos tempos? Em meio a tantos especialistas de olhos azuis e populismos de última hora, o que se pode fazer?!

A resposta padrão à crise tem sido reportá-la à esfera econômica. E ponto. Contorna-se o aspecto propriamente político, a dimensão social, para atribuir a crise a desvios, abusos ou corrupções da ordem financeira. A culpa é de um capitalismo financeiro demasiado desregulado e corrompido. No fundo, é desses yuppies de Wall Street, sua ganância, seu cotidiano profissional que mistura ética de pôquer com videogame, regado a cocaína, uísque e putas de luxo. E quando tudo vem abaixo como um castelo de cartas, saem à francesa com “greed is good and so is Marx” [1].

Então é hora de pôr os pés no chão e chamar os tecnocratas para salvar o que resta da economia global. Fazer o que tem de ser feito, sem muita firula, sem inventar moda. É caso de opor-se a especuladores e favorecer empreendedores reais e produtivos. Retornar aos bons tempos do século 19, saudosos da teoria do valor de David Ricardo, em que o melhor para os trabalhadores é aliar-se aos bons capitalistas — esses que organizam a produção e geram a riqueza, a ser ordenadamente distribuída, a cada um o seu. Ética do trabalho, da produção real, do desenvolvimento sustentável, contra todo tipo de rentismo fácil. Eis o discurso do Partido Republicano dos EUA e do Tea Party, que o livro descarta.

Para os autores, a financeirização da economia não é acessória ou dispensável. Não basta regulá-la, coibi-la, mitigá-la — para revalorizar a dinâmica real que lhe serviria de substrato. Na cópula “capitalismo financeiro”, o “financeiro” está sobrando. Isso já sabia Rudolph Hilferding, no clássico de 1909. As finanças estão disseminadas por todo o ciclo econômico, social e político. Não há mais opção de voltar atrás em busca do elo perdido do capitalismo produtivo. Na produção, circulação, distribuição e consumo, habita o crédito como elemento essencial. As operações econômicas de um modo ou de outro passam pelos bancos, pelos cartões de crédito, pelas prestações, pelos investimentos a curto, médio e longo prazo, pela atribuição de valor segundo as ações, as cotações na bolsa, os juros e as expectativas. Hoje, não se fala mais em previdência, educação ou saúde sem falar nos fundos de investimento correspondentes: públicos ou privados ou público-privados. A métrica passa a ser definida pelas bolsas de valores, que, sob a mão invisível dos grandes players, repartem as cotas de mais-valor entre a massa.

Uma tese do livro sustenta que, para a roda continuar girando — na lógica capitalista de rendimentos a curto prazo e líquidos –, só mesmo ampliando a base financeira. Isto significa implementar uma política monetária expansiva, alavancar (leverage) em fluxo permanente e versátil, e engendrar mirabolantes produtos financeiros (securitização, refinanciamento, mercado futuro ou opções, swaps, etc.). Portanto, menos do que ganância de um punhado de tubarões de Wall Street, o sistema capitalista se dilatou na financeirização por razões estruturais. Foi o que contribuiu para manter o aquecimento da economia americana e do mundo por boa parte da década passada. Por isso, quando Alan Greenspan se dizia movido por ideologia, não estava de todo errado. De fato, na lógica sistêmica, era coerente.

Para os autores, a crise não é um problema técnico, como se acontecesse acima das nuvens, numa atividade esotérica reservada aos iniciados. É um problema de todos nós. Somos o alfa e o ômega da financeirização, numa reedição contemporânea da servidão voluntária. É que a financeirização não se trata de uma etapa do capitalismo, mas de uma forma específica de governo, de um “modo de regulação”, de uma “governança social” com dimensões políticas, morais e jurídicas.

Nessa forma de governo, o endividamento é uma estratégia. Ele é encorajado e chega mesmo a valer a pena. Se, antigamente, as pessoas eram consideradas incluídas quando conquistavam o welfare (emprego e seguridade social), agora o são quando auferem acesso a crédito abundante. Daí se torna normal financiar (e refinanciar) a casa própria, bens de consumo, os negócios, a bolsa de estudos, o plano de saúde, o casamento da filha, a viagem internacional etc. etc..

Vive-se uma sociedade de acionistas, investidores, rentistas e 99% de endividados. Através do crédito, as pessoas acabam enquadradas e amarradas a estilos de vida. É uma moral creditícia, que demanda meticuloso planejamento da carreira, do patrimônio, da família. Suas expectativas de consumo são formatadas, metrificadas e, assim, capitalizadas. É como se o desejo fosse projetado para o futuro, dando origem a um duplo, a sua gêmea maligna: a esperança. Essa colossal esperança do conjunto da sociedade endividada é então processada (financeiramente) em títulos e promissórias. Por sua vez, esses papéis são garantidos por outros títulos, por outros produtos financeiros, os “derivativos”. O futuro é derivado do presente e então capitalizado. Estes se multiplicam como os pães de Jesus, à casa da dezena (2004), da centena de trilhão de dólares (2008). O fiador definitivo dessa sofisticada corrente de Santo Antônio? A fé no sistema. Daí que descrer no capitalismo já é resistir.

Que é essa operação milagrosa senão a colonização massiva e sistemática do futuro, das crenças populares, do enquadramento no sistema capitalista e sua forma de governar? Nunca o capitalismo foi tão místico, tão abstrato na sua maneira de medir e distribuir a produção social. E injustamente. O rentismo financeiro tem produzido uma brutal transferência de renda dos mais pobres aos mais ricos. Boa parte dessa expropriação se dá com o aumento da dívida pública. Com a crise, os estados emitem títulos para salvar os bancos, comprar títulos tóxicos (desvalorizados), semi-nacionalizar empresas (como a GM americana) e reinjetar liquidez. Acabam transferindo boa parte da arrecadação aos agora rentistas da dívida pública. Assim, pode parecer que as bolhas estouram no vácuo, na ficção de créditos e títulos derivados. Porém, no fundo desse processo, enormes jazidas humanas estão sendo governadas e espoliadas, na produção, distribuição ou consumo. Na realidade, por todo o ciclo econômico, já que as finanças atuam em cada momento.

Para os autores, a crise é mais do que um acidente de percurso. A crise foi precipitada pela própria sociedade, por 99% dela. Se, com efeito, o sistema consegue governar a esperança e o medo (da insegurança), não pode fazer o mesmo com o desejo, que se coloca sempre em relação de desmedida. Daí a crise dos subprimes nos EUA, no fundo, basear-se numa luta social pela moradia (hipotecas…) e pela educação (bolsas…). A crise da dívida soberana européia, por sua vez, na precarização das populações, sem crédito nem welfare; principalmente os jovens, que protagonizaram os movimentos do 15 de Maio e do 15 de Outubro. Já as insurreições na Inglaterra se ancoram na desigualdade social, tão aparente em termos de consumo. O movimento Occupy, na percepção derradeira que a verdadeira forma de governo vigente no ocidente não é a democracia liberal representativa, de fachada, mas uma aristocracia capitalista, profundamente ideológica, articulada globalmente e entranhada nos principais estados-nações. Para os resistentes ficou claro como, de cima pra baixo, não tem como sair nada de bom: nem novo Bretton Woods, nem novo New Deal.

Há um fracasso generalizado nas tentativas de saída da crise, porque ela acontece fora da lógica simplesmente financeira. Não há sinal da tão esperada reacomodação de crenças e confianças na economia política em vigor. Em 2011, os tumultos cresceram e se multiplicaram. O xis da questão continua sendo o conflito entre o desejo social e a lógica dos mercados, entre as forças produtivas (a multidão) e as relações de produção (a governança financeira). A crise é da medida.

Mas que os autores propõem? Além de apostar as fichas no poder criativo das redes militantes, acampadas e tumultos?

Entre outras coisas, a rediscutir o que efetivamente se deve. Até que ponto as pessoas tem de pagar pelo colapso do sistema de crédito, pela socialização das perdas operada pelos estados? Em tempos de crise global, é plausível falar em um direito ao calote [2]. Para ajudar não os bancos, mas as pessoas. Uma das tentativas de instituí-lo nos EUA se deu com a Lei de Ajuda às Famílias para Salvar Suas Casas (2009). O projeto original continha inédita cláusula que autorizaria o juízo de falência a modificar o valor devido pelas pessoas, quando do resgate das hipotecas. Mas o Senado americano vetou-a.

Em segundo lugar, os artigos convergem ao redor do direito à renda universal. Se o capitalismo se tornou rentista, também é nesse caminho que se pode imaginar a reapropriação da riqueza. Menos assistencialismo ou justiça social do que a devida remuneração à população. Como o valor é extraído difusamente em todo o ciclo econômico, nada mais justo do que restituir a parte dos produtores. É a “ressocialização da moeda”, que opera dentro e contra a financeirização da vida. Na renda universal, trata-se de desquantificar o valor de troca e requalificar o próprio sentido do dinheiro e da riqueza.

A qualidade desse livro está em fazer o percurso inverso do economês predominante. Ou seja, resgatar a crise do capitalismo global das páginas de economia e reportá-la à sua dimensão política. Afinal, o quanto pode ser extorquido de nós nunca deixou de ser uma questão política.

Notas do autor

[1] 11/8/2011, Wall Street Journal (entrevista com Nouriel Roubini), em: “Nouriel “Dr. Doom” Roubini: Karl Marx Was Right” (em inglês).

sábado, 20 de agosto de 2011

Discussão sobre “Danou-se então o capitalismo?”


Nouriel Roubini
Leia antes o artigo traduzido de Nouriel Roubini “Danou-se , então o capitalismo?” na redecastorphoto publicado em 17/8/2011

A rede de televisão The Real News Network comentou hoje o artigo de Nouriel Roubini - “Danou-se, então o capitalismo?”, traduzido ontem pelo Coletivo da Vila Vudu. A seguir transcrição, também traduzida pelo pessoal da Vila Vudu, dos comentários do canal.

Hoje, Paul Jay, editor-chefe da TRNN entrevista Gerry Epstein, co-diretor do Instituto PERI (Political Economy Research Institute), em Amherst, Massachusetts, sobre aquele artigo. A entrevista pode ser acompanhada em:

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PAUL JAY, editor-chefe, TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Paul Jay, falando de Washington. Ontem e anteontem, muita gente que acompanha temas de economia e inúmeros blogs estão discutindo artigo publicado por Nouriel Roubini. 

Roubini preside um think tank de pesquisa em New York e é professor da New York University. É frequentemente apresentado como o único especialista que previu o crash de 2008. E é também conhecido como homem que crê nos mercados e no capitalismo. Seja como for, há alguns dias NR escreveu que:

“Tudo isso leva a concluir que, ao que parece, Karl Marx acertou, no mínimo em parte, quando disse que a globalização, a intermediação financeira sem qualquer controle, e a redistribuição de renda e riqueza, do trabalho para o capital, poderia levar o capitalismo à autodestruição (embora, pelo que já se viu, o socialismo não tenha conseguido fazer melhor). As empresas cortam empregos porque não há demanda final suficiente. Mas, com menos empregos, cai a renda do trabalho, aumenta a desigualdade e a demanda final acaba por ficar ainda mais reduzida. 

Manifestações populares, do Oriente Médio a Israel e ao Reino Unido – e logo também, sem dúvida, em outras economias avançadas e mercados emergentes – são todas provocadas pelas mesmas questões e tensões: desigualdade crescente, pobreza, desemprego e desesperança. Até as classes médias já sentem, em todo o mundo, que a renda e as oportunidades encolheram.”

JAY: O título do artigo é “Danou-se, então, o capitalismo?”. Hoje, para conversar conosco sobre o artigo e o blog de mesmo título e o estado da economia global, convidamos Gerry Epstein, co-diretor do Instituto PERI em Amherst, Massachusetts. Obrigado por aceitar nosso convite. E então, Gerry? O que lhe parece? O capitalismo acabará por destruir-se, como diz Roubini?

EPSTEIN: Bem, é verdade que nada vai muito bem. Quanto a isso, concordo com Roubini. Ele, evidentemente, usou o nome de Marx para chocar e chamar atenção, e deu certo. Marx, é claro, não foi o único a usar esse tipo de argumento. Mas não há dúvidas de que, sim, a economia global enfrenta problemas seríssimos, alguns dos quais Roubini destaca. Está em curso essa gigantesca deriva, com o poder e a riqueza desertando da classe trabalhadora e das classes médias em muitas partes do mundo, e isso, somado à farra e à crise financeiras, levou a um grave problema de demanda agregada. E não – absolutamente não há instituições, conjunto de instituições ou agentes nos EUA e na Europa e em outras economias capazes e competentes para gastar dinheiro, gastar renda, para fazer reviver a economia. E os únicos grupos com alguma possibilidade de fazer a economia reviver, no ponto a que chegamos desse processo, são governos e bancos centrais. As forças de direita na Europa e aqui, nos EUA, estão fazendo o possível para impedir que o governo e os bancos centrais tirem a economia global da estagnação e da crise em que estamos hoje. Por tudo isso, sim, a situação parece-me gravíssima.

JAY: Mas, nem só a direita... Não sei exatamente o que você define como direita. Quero dizer, se você divide a elite entre liberais neoliberais e conservadores ... Que diferença faz, se estão todos embarcados, direita e esquerda, no trem da ‘austeridade’? Há poucas vozes, todas da elite, que falam sobre estímulos e empregos... Nas páginas de finanças que se leem nos jornais, há até gerentes de fundos que dizem o que precisa ser feito. Mas... são poucos e são vozes solitárias. 

EPSTEIN: Sim, há bem poucas vozes, e acho bom que gente como Roubini comece a falar mais alto e argumentando contra a tal ‘austeridade’ que nos cerca por todos os lados. O xis da questão, contudo, é que, com a Europa sem querer e sem poder cumprir um papel expansionista, com Obama rendido às forças de Wall Street, e com a direita norte-americana ativa, com o Japão afundado em problemas financeiros e econômicos – e com até a China já reduzindo suas políticas de aumentar a demanda e o crescimento econômico –, o que parece é que em lugar algum da economia mundial há agentes que queiram impulsionar uma política de expandir a economia. Claro que vários pontos, inclusive os EUA e os europeus, poderiam desempenhar essa função, mas todos se recusam a trabalhar para expandir a economia global.

JAY: Veja... Você sabe que Roubini cita Marx, mas a citação não é absolutamente fiel nem completa, porque Marx não... – O que Marx disse nada tinha a ver com desigualdade e distribuição de renda. Se entendi bem, Marx nunca falou sobre crescimento e desenvolvimento, no caso de haver um percentual mínimo de pessoas que de fato comandam toda a economia. Hoje se trata de apenas uns muito poucos que possuem praticamente tudo. E há pouca gente interessada em falar da questão da propriedade, porque, você sabe, a questão é a concentração da propriedade. E todos sabemos o que aconteceu em termos de regulação financeira: o poder político que deriva dessa propriedade torna inócua qualquer política racional que pudesse, talvez, mitigar o que está acontecendo, a crise em que estamos; torna impossível qualquer tentativa.

EPSTEIN: É. Há 1% de muito ricos nos EUA que abarcam praticamente todos os ganhos do crescimento econômico há, pelo menos, 30 anos; abarcaram, acumularam praticamente toda a riqueza que o país produziu e, pela mesma via, abarcaram e acumularam enorme poder político. O que Marx disse é que, quando se tem um sistema comandado por pequeno grupo de capitalistas que empobrece cada vez mais toda a economia, a economia está madura para uma revolução. Infelizmente, o que estamos vendo nos EUA é que essa direita está tirando vantagem do quadro em que vivemos, em boa parte financiada pelos irmãos Koch e outros fabulosamente ricos e apoiada por parte significativa da imprensa. Assim sendo, em vez de os trabalhadores e as classes médias organizarem-se sob programa progressista ou de esquerda, como Marx escreveu que aconteceria, para derrubar o sistema existente, o que estamos vendo é a direita cada vez mais mobilizada e organizada. 

Mas Roubini também disse que o socialismo não seria alternativa viável, porque já teria sido testado e não teria funcionado. Isso não é bem assim. Nunca conhecemos socialismo amplo em países ricos como os EUA. E, como Eric Hobsbawm escreveu repetidas vezes, foi a ameaça do socialismo e a ameaça do comunismo considerados como alternativa possível e viável ao sistema capitalista que forçou o capitalismo a reformar-se, quando se reformou e assumiu característica de capitalismo com redistribuição de renda e riquezas.

JAY: Em outras palavras, o New Deal. Você está falando do New Deal e de programas europeus semelhantes.

EPSTEIN: Mas não só durante o New Deal. Vários programas e políticas sociais foram resultado da Guerra Fria e da existência – vista como ameaça – da União Soviética. Hoje... Vivemos provavelmente o primeiro momento, na história do capitalismo, em que, nos grandes países capitalistas, não há qualquer tipo de ameaça real, pela esquerda, contra o capitalismo – embora, claro, partidos de esquerda tenham alcançado poder político considerável em vários países da América Latina e noutros pontos. 

Seja como for, entendo que o principal desafio à nossa frente é o que fazer para mobilizar a classe média e os trabalhadores, a partir de um fundamento progressista, para que realmente se oponham e desafiem o sistema em que vivem – necessariamente oprimidos e sacrificados –, como Marx pensava que aconteceria (mas não está acontecendo). 

JAY: Permita-me perguntar diretamente: o quanto, em que medida, o momento em que vivemos lhe parece perigoso? Se se lê o que Roubini escreveu, é como se estivéssemos à beira de outro precipício equivalente aos anos 1930s.

EPSTEIN: O momento parece-me extraordinariamente perigoso, porque acho que vivemos um momento no qual as forças da ‘austeridade’ estão no pleno comando. Nos anos 1930s foi o que aconteceu, exatamente: as forças da “austeridade” assumiram o pleno comando na Europa; e, em 1937, assumiram o pleno comando também nos EUA. Nessa situação, com o déficit pendente sobre a cabeça de todos, mercados financeiros, públicos e privados, não há ‘gás’ para que se possa esperar qualquer tipo de pressão expansionista, pró crescimento, na economia global. Essa é a situação que, sim, obriga a temer a desintegração política, além da desintegração econômica. O perigo, me parece, é muito real. 

E a menos que alguns líderes, ou se forem empurrados de baixo para cima, como sugeri, a assumir posição a favor da expansão da economia, da redistribuição de renda e riqueza, do combate à miséria, tirando dos mais ricos para dar aos médios e mais pobres... Só restará ao mundo esperar profunda estagnação econômica ou crise econômica extremamente séria.
[Fim da entrevista]

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Danou-se, então, o capitalismo?


Nouriel  Roubini


15/8/2011, Nouriel Roubini, Project Syndicate
Traduzido pelo pessoal da VilaVudu



NEW YORK. A volatilidade massiva e as fortes quedas nas cotações de bolsa que hoje atingem os mercados financeiros globais mostram que as mais avançadas economias estão à beira de um segundo mergulho na mesma recessão. Uma crise financeira e econômica causada por excesso de dívidas e de alavancagem no setor privado levou a uma massiva realavancagem pelo setor público, para evitar uma Grande Depressão 2.0. Mas a ‘recuperação’ subsequente foi anêmica e inferior ao que se esperava nas economias mais avançadas, por causa de uma dolorosa desalavancagem.

Agora, uma combinação de altos preços de petróleo e commodities, turbilhão no Oriente Médio, terremoto e tsunami no Japão, crises de dívida na zona do euro e os problemas fiscais nos EUA (e, recentemente, a desvalorização dos papéis americanos por uma agência de avaliação de riscos) levaram a aumento massivo do comportamento de aversão a riscos. Economicamente, os EUA, a zona do euro, o Reino Unido e o Japão estão ociosos. E até mercados emergentes de rápido crescimento (China, os emergentes asiáticos e a América Latina), e economias orientadas para exportação que dependem daqueles mercados (a Alemanha e a Austrália, rica em recursos), experimentam fortes freadas.

Até o ano passado, os políticos sempre conseguiram inventar algum novo coelho para tirar das cartolas, reinflar preços e tentar alguma recuperação econômica. Estímulos fiscais, taxas de juro próximas de zero, duas rodadas de “injeção de dinheiro novo” [orig. quantitative easing], cerco aos papéis podres e trilhões de dólares em “resgates” e provisão de liquidez para bancos e instituições financeiras: tudo isso já foi tentado. Agora, acabaram-se os coelhos.

Atualmente, a política fiscal é o peso que impede o crescimento tanto na zona do euro como no Reino Unido. E até os EUA, governos estaduais e governos locais, e agora também o governo federal, estão cortando gastos e reduzindo pagamentos. Em pouco tempo, não há dúvidas, começarão a aumentar impostos.

Mais uma rodada de “resgate” de bancos é politicamente inaceitável e economicamente irrealizável: a maioria dos governos, sobretudo na Europa, estão tão depauperados que não têm fundos para “resgatar” coisa alguma; de fato, seus riscos soberanos são de tal ordem que já há preocupação sobre a saúde dos bancos europeus que detêm a maior parte dos papéis cada dia mais desvalorizados, dos estados europeus.

Nem a política monetária poderá ajudar muito. Novas injeções de dinheiro [ing. quantitative easing] são limitadas pela inflação que já ultrapassa as metas fixadas na eurozona e no Reino Unido. O Federal Reserve dos EUA talvez inicie uma terceira injeção de dinheiro [ing. quantitative easing (QE3)], mas será pequena demais, vinda tarde demais. Os 600 bilhões da injeção QE2 do ano passado e $1 trilhão em cortes de impostos e transferências conseguiram crescimento pífio de apenas 3% durante um trimestre. E em seguida o crescimento despencou para menos de 1% no primeiro semestre de 2011. A terceira injeção de dinheiro (QE3) será menor e conseguirá ainda menos, em termos de revalorizar os ativos e restaurar o crescimento.

A depreciação da moeda não é opção viável para todas as economias avançadas: todas precisam de moeda mais fraca e melhor equilíbrio na balança comercial, mas não podem ter tudo isso todas ao mesmo tempo. Portanto, depender de taxas de câmbio para influenciar equilíbrios comerciais é jogo de soma zero. Veem-se guerras monetárias no horizonte, com Japão e Suíça já engajados nas primeiras escaramuças para enfraquecer a taxa de câmbio. Em seguida virão outras.

Enquanto isso, na zona do euro, Itália e Espanha estão em risco de perder acesso aos mercados, com pressões financeiras subindo também na França. Mas Itália e Espanha são ambas grandes demais para quebrar e grandes demais, também, para serem resgatadas. Por hora, o Banco Central Europeu trocará alguns bônus, como ponte para a nova Instituição de Estabilização Financeira da Europa [ing. European Financial Stabilization Facility (EFSF)]. Mas, se Itália e/ou Espanha perdem acesso aos mercados, os €440 bilhões ($627 bilhões) do escudo da EFSF já estarão desvalorizados ao final de 2011 ou início de 2012.

Assim sendo, a menos que se triplique o montante do EFSF – movimento contra o qual a Alemanha resistirá –, só resta, como opção, a reestruturação ordeira, mas coercitiva das dívidas de Itália e Espanha, como aconteceu na Grécia. A reestruturação coercitiva de dívidas não securitizadas de bancos insolventes virá em seguida. Assim, apesar de o processo de desalavancagem mal ter começado, logo será indispensável reduzir as dívidas, se os países não conseguem crescer nem salvar-se nem se autoinflacionar a partir de seus problemas fiscais.

Tudo isso leva a concluir que, ao que parece, Karl Marx acertou, no mínimo em parte, quando disse que a globalização, a intermediação financeira sem qualquer controle, e a redistribuição de renda e riqueza, do trabalho para o capital, poderia levar o capitalismo à autodestruição (embora, pelo que já se viu, o socialismo não seja capaz de fazer melhor). As empresas cortam empregos porque não há demanda final suficiente. Mas, com menos empregos, cai a renda do trabalho, aumenta a desigualdade e a demanda final acaba por ficar ainda mais reduzida. 

Manifestações populares, do Oriente Médio a Israel e ao Reino Unido – e logo também, sem dúvida, em outras economias avançadas e mercados emergentes – são todas provocadas pelas mesmas questões e tensões: desigualdade crescente, pobreza, desemprego e desesperança. Até as classes médias já sentem, em todo o mundo, que a renda e as oportunidades encolheram.

Para conseguir que as economias orientadas pelo mercado operem como podem e devem, temos de voltar ao equilíbrio adequado entre mercados e provisão de bens públicos. Isso implica fugir tanto do modelo anglo-saxão de economia de laissez-faire e vudu, quanto do modelo europeu continental dos estados de bem-estar movidos a déficits. Esses dois modelos faliram.

O equilíbrio adequado exige que se criem empregos em parte por estímulos fiscais orientados para o investimento em infraestrutura produtiva. Exige também taxação mais progressiva; mas estímulos fiscais de curto prazo, com disciplina fiscal de longo prazo; empréstimos-só-em-último-caso por autoridades monetárias, para evitar corridas a bancos, e só nesse caso; redução da carga da dívida para proprietários insolventes e outros agentes econômicos super pressionados; e supervisão e regulação mais estrita de um sistema financeiro que perdeu o rumo e o prumo. Além disso, é preciso quebrar e dividir todos os bancos e trustes oligopolistas grandes demais para quebrar.

Ao longo do tempo, as economias avançadas terão de investir em capital humano, formação e redes de segurança social, para aumentar a produtividade e permitir que os trabalhadores sejam competitivos, flexíveis e encontrem seu nicho numa economia globalizada. É isso. A única alternativa é – como nos anos 1930s – estagnação sem fim, depressão, guerras monetárias e comerciais, controle de capitais, crises financeiras, fundos soberanos insolventes e incontrolável instabilidade social e política massiva.