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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Ucrânia: para a Rússia as questões estratégicas (não só as táticas)

8/7/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Acho que a inesperada queda de Slaviansk nos atingiu com muita força. Estávamos habituados a pensar na cidade como uma nova Stalingrado, versão Donbass de Bint Jbeil, [1] e a repentina retirada das forças de Strelkov nos surpreendeu. E “nós”, aqui, significa mesmo todos nós, inclusive os Ukies (que apostavam que Strelkov lutaria até a última bala). Era o que Strelkov queria.

Eu poderia voltar linha a linha aos argumentos de Auslander ou do general Ukie anônimo, mas o máximo que teria a acrescentar é que concordo com eles. Não vejo por que voltar a tudo isso. Já discuti a evolução provável da situação de combate no Donbass e especificamente discuti a única real importância de Slaviansk, que é importância simbólica. Se alguém sinceramente ainda crê que a retirada comandada por Strelkov tenha sido qualquer coisa menos que movimento perfeito, em perfeito timing, de posição insustentável, não tenho mais o que argumentar para demovê-lo dessa crença.

Aos demais, lembro o seguinte: a retirada é uma dos movimentos mais difíceis e importantes em qualquer combate e exige competências complexas e refinadíssimas; é movimento sempre completamente subestimado por civis, e é o teste mais radical a que se pode submeter a qualidade do comando que a ordene e das forças que a executem. Pelo que se sabe, Strelkov fez retirada perfeita, em perfeita ordem e cronometrada com precisão impecável, de uma Slaviansk já cercada. Não há melhor prova de que é homem de soberbos talentos táticos.

O que quero fazer agora é considerar, não as questões táticas, mas as opções estratégicas da Rússia. Não como a Rússia tentará fazer isso ou aquilo, mas, em vez disso, considerar o que me parece que seja o provável objetivo final dos russos nessa campanha.

Os objetivos e motivos de Putin

Primeiro, tenho de dizer que a única hipótese de trabalho lógica sobre Putin é que ele está fazendo o que crê que seja o melhor para a Rússia e o povo russo. A noção de que seria “covarde”, ou que estaria “vendido” são ridículas prima facie: fosse esse o caso, não teria ordenado que as forças russas cercassem e protegessem imediata e completamente da Península da Crimeia, bem sob o nariz dos EUA e da OTAN. Nem teria ousado desafiar abertamente os anglo-sionistas na questão da Síria. Não. Se Putin ainda não mandou forças russas para o Donbass, isso nada tem a ver com medo ou com alguma suposta fraqueza russa. Isso tem tudo a ver com o fato de que Putin chegou à conclusão de que a tática certa não é essa, para alcançar o seu objetivo estratégico. Essa é a única explicação lógica.

Putin joga xadrez com o império anglo-sionista
Observo que pesquisa recente mostrou também que 60% (sessenta por cento!) dos russos concordam com ele e não querem que Putin envie tropas para o Donbass. Significará que 60% dos russos são covardes ou foram subornados pela OTAN? Improvável.

Mandar tropas russas para a Novorrússia é uma tática, um meio para alcançar outro objetivo. Não é o objetivo per se, certo? Assim sendo, qual é o objetivo?

A primeira pergunta que temos de propor é a seguinte: a Rússia pode aceitar, ou, no mínimo, conviver com o projeto dos EUA? Outra vez, qual é esse projeto? Uma Ucrânia unitária (não federal), governada por nazistas russófobos absolutamente controlados pelos EUA, com a OTAN dentro da Ucrânia e todas as formas de influência russa fora de lá.

No melhor dos casos, significaria que a Crimeia ficaria sob constante ameaça de ataque; no pior, significaria um ataque de Ukies/OTAN/EUA contra a Crimeia tão logo se tenham concentrado forças suficientes na Ucrânia. Respondam vocês mesmos: esse quadro como resultado final é aceitável para a Rússia? Há qualquer chance de Putin ser convencido a aceitar isso? Minha resposta é um enfático “de jeito nenhum, NUNCA!”. Esse simplesmente não é resultado que a Rússia possa aceitar, independente de quem esteja sentado no Kremlin.

Ok, então, quem sabe um acordo com Poroshenko? Algo como “você cede a Crimeia, eu cedo o Donbass”?

Nonsense. Primeiro, porque não há Poroshenko. Bem, OK, há um sujeito que atende pelo nome Poroshenko em Kiev, mas não tem poder algum. O poder real não é, sequer, Obama, mas o “estado profundo” dos EUA: os que manejam os cordões do fantoche Obama e os que manejam os cordões de Poroshenko. Agora, façam a vocês mesmos uma pergunta básica: o “estado profundo” dos EUA precisa do Donbass? Não. Claro que não!

O Donbass – quem precisa e quem não precisa?

O que é o Donbass? Em poucas palavras, o Donbass é região completamente russa a qual pelos absurdos da história, acabou convertida em parte da Ucrânia, exatamente como a Crimeia. Além disso, o Donbass é região quase exclusivamente focada no comércio com a Rússia. Tem carvão e capacidades industriais high tech (inclusive militares). Os EUA, a UE ou mesmo o império anglo-sionistas como um todo têm exatamente ZERO necessidade do Donbass. A Rússia sim, a Rússia poderia com certeza usar muito do potencial do Donbass, mas não outros.

Cidades e áreas controladas no Donbass (legenda)
Agora, se o Donbass for entregue em mãos da Ucrânia falida controlada pelos nazistas (o que costumo chamar de Banderastão) , ele automaticamente perderá todo e qualquer valor que tenha: amputado da Rússia, o Donbass é inútil. Como uma chave que só é útil se necessária para abrir/fechar uma porta, o Donbass só é útil dentro da relação que mantém com a Rússia. Rompa essa relação, e o Donbass vale nada.

Assim sendo, o que aconteceria com uma parte Donbass de um Banderastão unitário? Em primeiro lugar, a Rússia terá de imediatamente excluir o Donbass da Zona Comum de Comércio (para proteger Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e membros futuros), contra os produtos da União Europeia. Além disso, os doidos da Junta em Kiev já anunciaram que o Banderastão não produzirá para a indústria militar russa. Como se não bastasse o Donbass já estar em queda livre – desde o início do ano, as exportações para a Rússia caíram, se não estou enganado nos números, algo como ¼, ou 25%. Por tudo isso, encaremos os fatos: se a Junta nazista de Kiev algum dia vier a invadir e ocupar o Donbass, a região será terra abandonada e de miséria, não a grande fonte de renda que tem sido desde 1991.

Pondo de lado os valores “patrióticos” de um estado imaginário (a Ucrânia) “retomar” terras históricas (que nunca teve), o Donbass tem valor zero. Portanto, nem a Junta nem os EUA jamais aceitarão a tal troca Crimeia pelo Donbass.

Pode-se perguntar então por qual objetivo os Ukies estão lutando tanto, por que tanta luta para pôr as mãos num pedaço de terra inútil. É muito simples.

Luta-se afinal para obter o quê?

Em primeiro lugar, lembrem, os Ukies não decidem coisa alguma. Tudo é decisão do Tio Sam. E Tio Sam quer uma nova Guerra Fria. E Tio Sam inventa e incendeia guerras e crises por todos os cantos, porque é preciso justificar a existência da OTAN e manter à tona o dólar. Para Tio Sam, uma guerra no Donbass que se arraste por uma década é perfeita! E os amaldiçoados russos pagarão pela Síria, a OTAN se infiltra para mais perto da fronteira russa, os europeus borram-se de medo, o euro vira papel picado durante o processo, e a OTAN está explicada! O que seria melhor que isso?!

Mas também a Junta em Kiev precisa de uma guerra. Por um lado, a guerra gera o perfeito bode expiatório: Putin, os Moskals, o todo poderoso FSB, [2] etc.. Também cria uma atmosfera de medo, excelente para abusos políticos, agressões a direitos humanos e civis, etc.. Também permite que os nazistas ponham-se a caçar “sabotadores” e “agentes russos” (qualquer um que discorde da ideologia ou das políticas nazistas). Uma guerra é também meio perfeito para explicar a crise. É útil, até, para fazer muito dinheiro: Kolomoiski já fez milhões, cobrando sobrepreço no combustível que vende aos militares Ukies. Por fim, mas não menos importante, guerras geram caos e os escroques e bandidos sempre gostam de caos e tempos e terras sem lei: é ambiente no qual sempre prosperam.

Por tudo isso, o Tio Sam e sua Junta nazista em Kiev querem guerra, não o Donbass.

O que significa tudo isso para a Rússia?

Ora, já demonstramos que a Rússia não pode permitir que os planos dos EUA para a Ucrânia sejam bem-sucedidos. A Rússia não pode permitir um estado nazista e armado com a OTAN, junto à sua fronteira oeste. Também já demonstramos que nenhum acordo é possível, que nada há a ser negociado, simplesmente porque nem o Tio Sam nem a Junta nazista tem qualquer interesse, absolutamente nenhum interesse, em tipo algum de negociações ou acordo. A única conclusão possível a extrair disso é que só resta à Rússia uma única opção: a vitória. Ou, se vocês preferirem, a derrota total do projeto da Junta em Kiev e do Tio Sam.

Na realidade, a Rússia não tem escolha

Quero deixar bem claro que não há, falando em termos precisos, qualquer “opção” ou “escolha”. Pensem do seguinte modo: se aponto uma arma para o seu peito e digo “a bolsa ou a vida”, pode-se admitir que, em certo sentido, você tenha algo a escolher. Mas ninguém em são consciência chamaria a isso “uma opção”, “uma escolha”. É o mesmo caso: a Rússia pode, é claro, escolher pôr em risco a própria existência, mas nenhum governante russo jamais aceitará a existência de uma Ucrânia nazista unitária na fronteira da Rússia. A Rússia portanto tem de resistir contra essa probabilidade. A Rússia tem de derrotar essa aliança EUA-nazistas e seus objetivos. E para isso a Junta nazista em Kiev tem de cair.

Em termos mais simples: o objetivo real da Rússia na Ucrânia é mudança de regime.

Azul escuro - Banderastão
Amarelo escuro - Área a ser "desnazificada"
(a divisa no mapa acima é o Rio Dniepr)
E não bastará nada menos que isso. A Rússia é absolutamente obrigada a pelo menos desnazificar a maior parte da Ucrânia, no mínimo, tem de desnazificar todo o oeste do rio Dniepr e, provavelmente, também Kiev. Se a Rússia tiver fronteira com uma Ucrânia sã, normal, não nazi-louca, e aquela Ucrânia tiver fronteira comum com algum tipo de pequeno Banderastão Galiciano, acho razoável supor que a Rússia admita. Mas esse mini Banderastão será fatalmente ou inviável, ou altamente subversivo face ao resto da Ucrânia. Não consigo imaginar tal arranjo. Além do mais, as probabilidades sugerem fortemente que o pessoal do oeste da Ucrânia recuperará a racionalidade mais cedo ou mais tarde e dar-se-á conta de que nenhum governo nazista jamais fez ou fará bem a alguém, nem mesmo a eles.

No momento, o povo ucraniano está visivelmente enlouquecido. Pesquisas recentes mostram que Liashko – que é maníaco pedófilo – é a figura política mais popular no Banderastão. Depois dele, vêm Yulia Timoshenko e Vitaly Klitschko. É terrível, sim, mas reexamine esses números: todos esses nomes somados fazem 74%. Há outros 26% de eleitores. Preferem quem?

Liashko tem 23,1% dos votos. Quando o nome mais popular não chega a 25% e os seis mais populares alcançam 74% – é visível que o país está em profunda crise política. E não se sabe por que os eleitores ucranianos preferiram essas figuras. Para “preferir” Liashko é preciso ser doido, perfeito idiota ou as duas coisas. Mas e os demais? Talvez tenham sido escolhidos não como os melhores, mas como os “menos piores”? Seja qual for o caso, entendo que a maioria dos ucranianos é gente decente, mentalmente sã, boas pessoas. Claro que há doidos, mas sempre há; e o número de doidos aumenta em país em crise, em bancarrota, que há 20 anos é alvo de lavagem cerebral por neonazistas russofóbicos. Essa situação tem de mudar. Não há dúvida de que, mais cedo ou mais tarde, mudará.

Freak Show no Banderastão
Se se acrescenta a isso o fato de que a Ucrânia está basicamente acabada, em termos econômicos, morta para todas as finalidades práticas, e que não há o que consiga impedir que a crise econômica exploda antes do final do ano, pode-se ver por que a mudança de regime pode acontecer, mesmo sem qualquer intervenção russa.

O único plano de jogo à vista

De tudo que se viu acima, podem-se extrair três conclusões simples e básicas:

1) Em nenhum caso a Rússia pode deixar que a Novorrússia caia.
2) Mudar o regime de Kiev é objetivo estratégico russo vital.
3) Moscou só movimentará suas forças militares como último recurso.

Agora, me parece, o plano de jogo de Putin vai-se tornando claro: manter a Novorrússia capaz de resistir, enquanto espera por mudança de regime em Kiev. Não significa, é claro, que a ajuda russa se tornará oficial, embora possa acontecer, especialmente se os Ukies surtarem completamente e a situação humanitária agravar-se muito. Além disso, e por cínico que possa parecer, a guerra na Novorossia é fantástico fator psicológico de mobilização do povo russo e na Novorrússia a. Mais uma vez, tratemos de encarar, o que chamo de “potencial de resistência” da Novorrússia está longe de ter sido alcançado e muitos novorrussos ainda estão em casa, assistindo a tudo pela TV. Mas agora que Slaviansk caiu e parecem estar próximas a quedas de Donetsk e Lugansk, e agora que do centro da cidade já se ouve a artilharia Ukie, não tenham dúvidas de que mais e mais novorrussos vão dar-se conta de que não se trata de guerra a que possam simplesmente assistir pela televisão: votaram em massa pela independência; agora terão de defender também em massa o próprio voto e a própria escolha.

Quanto à Rússia, posso assegurar que a onda gigante de notícias horríveis, ofensivas, de enfurecer, que chegam da Ucrânia, já tiveram impacto enorme na Rússia. Considerem esses números que um funcionário do Kremlin distribuiu ontem. Oficialmente, há agora 481.268 refugiados da Ucrânia na Rússia; 414.726 só na área da fronteira (Rostov); e 20.461 já solicitaram status oficial de refugiados. Assim, enquanto o Departamento de Estado nega a realidade desse fenômeno, ou, quando não nega, explica que o êxodo se deve ao frio nas “montanhas Rostov” (não existem) ou por pessoas que visitam os avós”, os públicos russos veem enormes aviões Il-76 de transporte abarrotados de passageiros, famílias inteiras, longas filas de refugiados nos postos de fronteira russos (os quais, vale lembrar, os Ukies atingem a tiros regulamente “por engano”), conjuntos de música popular (dentre outros, DDT) fazem concertos beneficentes para levantar fundos para os refugiados, cidades inteiras de barracas são construídas pelo EMERCOM (ministério russo de Defesa Civil, Emergências) e grupos imensos de refugiados são hospedados por toda a Rússia, em hotéis, casas de família ou em centros especialmente organizados ou construídos. Por tudo isso, que ninguém se engane: embora os horrores no Donbass continuem “não vistos” na imprensa-empresa anglo-sionista ocidental, são imagens diárias sempre presentes na imprensa russa; e essa barragem de eventos e imagens está tendo efeito profundo, que é efeito de longo prazo, sobre a população em geral.

Ucrânia: entradas e saídas de gás para a Europa 
Boas notícias para Novorossia e Rússia

O Banderastão está condenado. Nesse momento, ainda está sendo mantido artificialmente vivo pela ajuda ocidental, pelo gás russo (desviado ilegalmente para reservas locais durante a primavera) e, sobretudo, por ação da inércia. Assim como um grande trem não pode parar instantaneamente, assim também um grande estado como a (hoje defunta) Ucrânia não acaba da noite para o dia. Mas vai perdendo energia em altíssima velocidade. Moscou fechou a torneira do gás, os empréstimos externos mal conseguirão cobrir os juros da dívida Ukie, e a guerra no leste do país não só está custando bilhões, como também está destruindo a infraestrutura da parte mais rica da ex-Ucrânia. A Junta de Kiev é constituída de doidos incompetentes, que não têm sequer ideia sobre o que fazer para enfrentar os problemas reais, e que, também por isso, nada fazem além de executar ordens que recebem do Tio Sam. Quanto ao Tio Sam, não só não dá a mínima bola aos Ukies e àquele patético Banderastão-lá-deles – como, também, está felicíssimo por ter conseguido criar uma grande crise entre a União Europeia e a Rússia.

E quanto a chamada “operação antiterroristas” contra a Novorrússia? Bem, digamos apenas que o ministério da Defesa do Banderastão tem exatamente ZERO de experiência militar, e que já anunciou que a estratégia Ukie será cercar e bloquear Lugansk e Donetsk. É, é verdade: os Ukies já anunciaram que não tentarão tomar essas cidades.  Claro: dado que a Junta mentiu sempre em tudo que “declarou”, pode-se ter certeza que tentarão tomar as cidades. Mas, dado que as chances de sucesso estão bem perto de zero (operações de ataque urbano comprometeriam praticamente todas as vantagens que os Ukies conseguiram até agora), tomaram a providência de anunciar que não tentarão.

[Como tema colateral, quero anotar fato interessante: depois da “vitória” Ukie em Slaviansk, uma longa lista de altos oficiais Ukies foram demitidos e substituídos. É informação eloquente sobre o real significado do que aconteceu, ou não é?!].

Não há dúvidas de que o tempo corre a favor da Rússia e que o colapso de todo o estado do Banderastão é inevitável dentro dos próximos 4-6 meses. O que realmente falta saber é se a Novorossia será capaz de resistir por todo esse tempo sem ajuda russa declarada. Meu palpite é que, sim, resistirá, mas com a tomada pelos Ukies de todo o noroeste da Novorossia (a grande área em torno de Slaviansk-Kramatorsk) os novorrussos não têm mais profundidade estratégica. Agora, é tempo de “nem um passo para trás” para a Novorrússia e para a própria Rússia. Outro sucesso dos Ukie poderia virar a maré, sobretudo psicologicamente. Uma coisa é desistir de defender cidade indefensável; outra coisa bem diferente é perder Gorlovka ou Snezhnoe e arriscar-se a perder o núcleo Krasnyi Luch - Antartsit. Se esses núcleos-chaves forem tomados pelos Ukies, defender Lugansk e Donetsk passará a ser o último recurso da Novorossia.

Em conclusão (derrubar alguns mitos)

Acho que, em conclusão, há alguns mitos a serem derrubados. O primeiro é o mito de que a resistência teria sido inútil, que Strelkov ou Putin (ou ambos) fizeram aos novorrussos o que Papa Bush fez aos xiitas iraquianos: disse-lhes que se levantassem em motim, para serem massacrados. Essa ideia assume que nazistas possam operar sem terror e massacres.

Permitam-me lembrá-los de que não houve levante, nem Strelkov, em Odessa, cidade que, mesmo sem levante, foi massacrada e vive hoje em regime diário de terror. Além disso, o mesmo regime de terror vê-se também na Carcóvia que, inicialmente, só queria unir-se à Novorrússia, mas cuja resistência bem efetivamente esmagada pelas forças especiais da Ucrânia e pelos bandidos do Setor Direita (Pravy Sektor). O mesmo vale para Mariupol.

Igor Strelkov -Ministro da Defesa da RPD
Todas essas cidades vivem hoje em atmosfera de medo, governadas pelos esquadrões-da-morte e gangues de bandidos dos oligarcas locais, aos quais essas cidades literalmente *dadas* pela Junta (gente como Kolomoiski ou seu testa-de-ferro Palitsa, em Odessa).

Contra nazistas, recomenda-se sempre resistir até a última bala, e a solução para a parte que os nazistas ocuparam da Ucrânia ainda é a mesma: luta, luta e mudança de regime em Kiev. Culpar Putin e/ou Strelkov pela guerra é simplesmente ridículo.

Outro desses mitos é comparar a Crimeia e o Donbass. Em termos simples, absolutamente não há o que comparar. São regiões completamente diferentes, com geografia radicalmente diferente e formação étnica e ideológica completamente diferente. Supor simploriamente que Putin poderia ter feito no Donbass o que fez na Crimeia é absolutamente fechar os olhos à realidade em campo. Não há absolutamente razão alguma que faça crer que o povo de Novorrússia está todo ele unido num único desejo de ser parte da Rússia – como era o caso na Crimeia.  Sim, eles votaram a favor da soberania, mas “soberania” pode significar qualquer coisa, desde uma entidade soberana numa Ucrânia federal ou confederada, até um status independente como parte da Federação Russa. Não devemos confundir sentimentos antinazistas e sentimentos antiucranianos. Pode-se detestar a Junta nazista em Kiev e, mesmo assim, desejar permanecer ucraniano, na identidade. Assim sendo, sim, há sinais claros de que o Donbass nada quer ter a ver com o regime nazista que está no poder em Kiev; mas absolutamente nada autoriza a concluir automaticamente que uma maioria de novorrussos quer que o Donbass seja parte da Rússia. É possível que isso esteja mudando, agora, com a guerra; mas ainda nada se pode afirmar.

Por fim, há a questão da Rússia potência global. Alguns acreditam que a Rússia é fraca e simplesmente não pode sustentar luta aberta global contra o Império Anglo-sionista. Esses dizem, com razão, que a Rússia depende de vários itens que tem de importar (medicamentos, chips de computadores, etc.). Outros dizem que a Rússia é quase invulnerável, que pode sustentar confronto econômico direto com o ocidente e levar a melhor. Nenhuma dessas avaliações é correta.

A Rússia é dependente de importações para várias coisas. E há muito dinheiro russo no ocidente, em bancos britânicos e em paraísos fiscais. A economia russa está OK, no máximo, mas, com toda a União Europeia em recessão, há sinais de que a Rússia pode, sim, seguir a mesma via. E é normal. Há apenas 15 anos, a Rússia estava a um passo de virar estado falido, como a Ucrânia hoje; e o que Putin conseguiu é um quase milagre, mas também os quase milagres exigem tempo, e a Rússia está longe, muito longe, de ter recobrado sua plena saúde. Há também grandes problemas sistêmicos dentro da Rússia, como corrupção, fuga de capitais, política ensandecida de juros, muitas empresas russas operando fora do país, sistema de impostos sub-par, etc.. Sim, sim, a Rússia está melhorando e melhorando, tem reservas gigantes de dinheiro e de recursos naturais e humanos, e as perspectivas de longo prazo são, sim, excelentes. Mas há coisas que a história, sim, ensina. Também na história da Rússia.

Piotr Stolypin
O brilhante primeiro-ministro e reformador russo Piotr Stolypin disse em frase que ficou famosa, que:

Deem à Rússia 20 anos de paz interna e externa, e vocês não reconhecerão o país.

Foi assassinado por um revolucionário em 1911 e todos sabemos o que aconteceu na sequência. Putin tampouco ganhou seus 20 anos de paz, e nada sugere que venha a ganhar; e nem a Rússia, não, pelo menos, enquanto o anglo-sionistas ocuparem o planeta. Implica que, tão cedo, a Rússia não recuperará saúde plena e todo o seu potencial.

Em outras palavras, não importa que a Rússia possa ou não de algum modo sobreviver a confronto em grande escala com o ocidente– o que interessa, aqui e agora, é que a Rússia tem interesse estratégico em fazer tudo que esteja ao seu alcance para evitar esse confronto.

Essa é a razão pela qual Putin tem sido tão cuidadoso, e é provavelmente a razão pela qual 60% dos russos não querem que o poder militar russo entre na Novorrússia: não querem comprometer o que foi alcançado com tanto esforço e a tão alto preço, pela Rússia de Putin, nos últimos 15 anos. Mais uma vez: se não houver outro meio para salvar a Novorrússia de ser tomada pelos nazistas, forças russas entrarão, muito provavelmente, na Novorrússia. Mas entendo que o Kremlin tem um mandato recebido do povo russo, para guardar essa opção como absoluto último recurso (com ações militares menores, mesmo limitadas, sempre, por definição, possíveis).

The Saker


Notas dos tradutores
[1] A Batalha de Bint Jbeil foi das principais batalhas da guerra de 2006, quando Israel atacou o Líbano e foi derrotada pela Resistência do Hezbollah.
[2] FSB é a sigla, transliterada do russo, de Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (substituiu a KGB). Por exemplo, lê-se sobre esses especialistas, em português.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

O raiar da Novorossia

6/7/2014, [*] Coronel W. Patrick Lang − The Twisted Genius (TTG)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Do blogueiro de “Moon of Alabama”:
O blogueiro The Twisted Genius (TTG) [O Gênio Pervertido/Retorcido [1]], ex-Boina Verde do exército dos EUA, treinado para inventar e comandar insurgências locais pelo planeta e veterano da guerra do Vietnã, tem opinião muito semelhante à minha, sobre a Ucrânia.

Entreouvido na rampa do Bodum na Vila Vudu: Taí! TAÍ! Opinião do MoA, concordando com o TTG, ISSO é opinião que interessa, sô! Opiniões que NÃO INTERESSAM são as das maitesproenças, dos manholis, dos pondês, dos faustões, das tacanhedes, da Rádio Estadão [Pêqêmêpê! Já nem me lembrava, sô! Ouvi dia desses, por acaso... Ma ke baaaaita meeeeerda é a Rádio Estadão! 8-))].

Azul - Crimeia/Sebastopol - Repúblicas da Federação da Rússia 
Vermelho - Províncias disputadas
Vermelho escuro - Províncias atacadas da Novorossia
Compreendo e partilho a amargura e o ressentimento de todos que souberam hoje cedo que a Força de Defesa deixou Slaviansk. As notícias horrorizaram todos – os patriotas do “viva-viva”, os patriotas do “chora-chora” e até os figuras metidos a “analistas”.

Mas, agora, me façam o favor, ouçam uma pessoa que passou os últimos 45 dias em Slaviansk.

45 dias, dos primeiros, quando os primeiros postos de controle nos arredores da cidade estavam sendo instalados, até a cidade ser completamente cercada. Saímos de Slaviansk, pela rota ‘'de guerrilha'’ que contornava a cidade em meados de junho; horas depois, já havia ali um posto de controle do exército ucraniano. É isso: a cidade foi bloqueada de todos os lados. Suprimento para os soldados logo virou dor de cabeça gigante, incompatível com a vantagem tática.

Mas, apesar de todo o desespero que se percebe nas declarações públicas feitas por Igor Ivanovich, quando disse ao mundo que “só conseguiremos aguentar até 12 de julho”, tenho absoluta, total certeza, de que, se a Guarda-Nazista [Atenção: nosso informante NÃO DISSE “Guarda Nacional Ucraniana”] conseguir, lá pelo Dia de Ano Novo, entrar, afinal em Slaviansk, mesmo que a cidade esteja reduzida a uma panqueca de escombros, ainda haverá lá gente com rifles automáticos e lança-granadas para resistir contra as tropas ucranianas, de dentro dos porões que houver.

Na realidade, o destino de Slaviansk foi decidido em abril-maio, quando o monte Karachun foi tomado. É impossível conduzir defesa ativa e efetiva, se você enfrenta uma força estratégica dominante, implantada sobre toda a cidade, quilômetros de comprimento, tudo ocupado pelo adversário, com artilharia pesada. Nessas circunstâncias, a luta é impossível. É impossível lutar, se você não tem os meios militares. É impossível. Mas mesmo assim, sim, Igor Ivanovich e as Forças de Defesa conseguiram resistir.

Mais que isso: não só resistiram como, em apenas poucos dias, conseguiram acabar com qualquer interesse que aquele exército, várias vezes superior, tivesse, de engajar-se em combate contra as Forças de Defesa. A informação que tenho é que o exército ucraniano desistiu de tomar a cidade, no instante em que as Forças de Defesa entregaram a cidade de Semyonovka que tinham sob seu controle.

Não há dúvidas de que Slaviansk já é símbolo da “Primavera Russa”. Mais que isso, já fez história, e para sempre.

Mas o objetivo em Slaviansk era outro: a cidade atraiu para ela as forças efetivas do exército da Ucrânia. Com isso, permitiu a mobilização das Forças de Defesa em Lugansk e Donetsk. 

[5/7/2014, Dmitry Steshin, Komsomolskaya Pravda, em: “Slavyansk is out of sight now…”, traduzido do russo para inglês por Gleb Bazov, (NTs)].


Concordo integralmente com essa avaliação de Dmitry Steshin.

Os rebeldes parecem bem treinados, bem organizados e bem motivados. Excelente exemplo é esse vídeo curto, dos morteiros 120mm dos rebeldes em ação:


As varetas-de-alvo [original “aiming stakes] estão abertas. Significa que há observadores avançados e um centro de direção de fogo. Os artilheiros nivelam os canos entre os turnos de tiro. Tudo isso exige treinamento e disciplina. Fiquei impressionado. Muitos dos líderes rebeldes e provavelmente quantidade considerável dos soldados rebeldes são veteranos de uma ou das duas guerras da Chechênia. As unidades do exército ucraniano não estão com o coração nessa luta. As unidades da Guarda Nacional (na maioria, os bandidos do Setor Direita e suas gangues) estão muito motivados pela “Operação AntiTerroristas” [orig. ATO], mas foram treinados para tumultos urbanos (na Praça Maidan), não para guerra de vários tipos de armamento.

Vladimir Putin
Por que Putin não iniciou sua operação de manutenção da paz para pôr fim à luta e ao massacre de civis? O Saker e muitos outros estão clamando por intervenção.

Há muitas razões lógicas para não intervir muito abertamente. Mas não creio que a ameaça de sanções e de uma nova guerra fria sejam fatores que estariam “contendo” Putin. Não. Putin é casca-grossa [orig. he is another hard hearted empath]. Ele sabe que a Novorossiya terá de ser forjada em fogo, se vier para sobreviver. Terão de querer e de estar dispostos a lutar por eles mesmos.

Igor Strelkov
Em abril passado, Igor Strelkov, ex-coronel das Forças Especiais de Defesa Nacional da Rússia, SPETZNAZ, e comandante militar dos rebeldes, reclamou que poucos se apresentaram para alistar-se nas Forças de Defesa. Isso mudou. Os rebeldes já são mais de 20 mil alistados. Os mineiros do Donbass levantaram-se contra seus patrões oligarcas e já desde junho começaram a alistar-se em grandes números.

Além disso, Putin despreza a “tendência” que o “ocidente” tem manifestado, pela chamada “responsabilidade de proteger” (R2P) sempre mediante interferência agressiva em assuntos de outros. Mas é claro que Putin se movimentará, se considerar necessário e quando considerar necessário.

Por hora, parece-me que Putin e seu governo estão cuidando de garantir o necessário apoio secreto aos rebeldes; e trabalham incansavelmente para obter o cessar-fogo e para construir solução política. Assim, vão criando condições para que uma nova nação – o Estado Federal de Novorossia, que quer implantar-se de Carcóvia até Odessa e Transnistria – nasça, afinal, por vida própria.
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[*] Coronel W. Patrick Lang é alto oficial aposentado da Inteligência dos EUA e das Forças Especiais dos EUA (“Boinas Verdes”). Serviu no Departamento de Defesa, agente de campo e de gabinete, por muitos anos. É veterano condecorado de várias guerras dos EUA em todo o mundo, inclusive no Vietnã. Foi formado e treinado como especialista em Oriente Médio para o Exército dos EUA e serviu por muitos anos na região. Foi o primeiro professor de língua árabe na Academia Militar dos EUA em West Point, New York (...).
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Nota dos tradutores

[1] Para começar a poder saber do que se trata, ver:  The Twisted Genius.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Até onde os russos podem recuar?

1/7/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Em memória de Anatolii Klian:
Со святыми упокой, Анатолий, и вечная память!
Que descanse em paz entre os santos, Anatoly. Eterna lembrança.
Балобан
Saker



The Saker
Situação atual: pacote misturado

O noticiário que sai da Novorossia é pacote misturado de razões para manter a esperança e razões para desesperar completamente. A chamada “iniciativa de paz” de Poroshenko ou é mistificação obscena ou, na melhor das hipóteses, é piada bem sem graça: os Ukies continuam a bombardear civis e os atiradores continuam a atirar contra civis todos os dias, e um Kiev aconteceu um grande comício, não para exigir real cessar fogo, oh não, mas para exigir que as hostilidades recomecem com força total!

Quanto aos anglo-sionistas, nem um pouco impressionados pelas várias tentativas de Putin para acalmar a russofobia paranoica deles, estão outra vez ameaçando a Rússia com mais sanções. Por outro lado, há muitos sinais de que o lado da Novorossia vai-se tornando mais forte a cada dia: unidades inteiras mudam de lado, sem disparar um único tiro; as forças especiais da Novorossia parecem ter conseguido tomar o controle de alguns sistemas avançados de mísseis de defesa aérea perto do Donetsk (embora eu ainda não tenha certeza de que aqueles sistemas sejam ou não operacionais); alguém aparentemente “perdeu” na estrada pelo menos três howitzers (que foram imediatamente apreendidos pelas Forças de Defesa da Novorossia) e o número de combatentes voluntários dispostos a defender o Donbass não para de aumentar. Onde dará tudo isso, ainda é cedo demais para dizer: os Ukies já usaram armas químicas e há relatos consistentes de longas colunas de comboios militares dos Ukies entrando no Donbass. Por mais que eu espere, pessoalmente, que os Ukies tenham já alcançado sua capacidade máxima nesse esforço de guerra, nada garante que seja assim, e há ainda possibilidades muito reais de que o “Plano B” de Poroshenko esteja já a caminho: o plano, aparentemente, consiste de um ataque de três braços contra o Donbass: do noroeste (Carcóvia), do oeste (Dnepropetrovsk) e do sul (Mariupol). Combinado a um movimento para fechar a fronteira no leste, esse “Plano B” pode pôr toda a Novorussia sob gigantesco risco.

Mísseis móveis de defesa aérea de Donetsk
Confesso que estou em crise da minha Desordem da Personalidade Analítica Múltipla (DePAM)

Como vocês sabem, sofro de DePAM – “Desordem da Personalidade Analítica Múltipla”: metade de mim simplesmente já não consegue esperar por intervenção militar russa para pôr fim ao massacre Ucro-Nazista na Novorossia; e a outra metade sabe perfeitamente que tal intervenção seria erro. Minhas tripas me dizem “esmague esses bastardos!”; e meu cérebro me diz “não morda essa isca!”.

Ontem à noite, depois de ouvir os noticiários, pus-me a andar de um lado para outro, com o nó no estômago que já se tornou habitual: do lado de fora, uma dúzia de “e se” me atormentavam: e se Putin tiver sido intimidado ou comprado? E se Putin não tiver plano algum? E se situação em que está a Rússia não passar de reflexo de uma liderança russa confusa e com tendências de direita? E se Putin e seus conselheiros tiverem decidido, cinicamente, trocar a Novorossia pela Crimeia? Ou, e ainda pior: a Novorossia, por lucrativos contratos?

A julgar por alguns comentários postados aqui, muitos de vocês parecem estar convencidos de que sou ‘'fã'’ de Putin, que nunca tenho dúvidas sobre ele. Não sabem o quanto se enganam! Tenho dúvidas, tenho até medos, mas tento não deixar que me dominem, porque não acredito que dúvidas e medos sejam ferramentas que ajudem nas análises. Mas àqueles dentre vocês que dizem que Putin não sabe o que faz ou que está vendido, respondo o seguinte: você não têm mais provas disso do que eu, do contrário; e não saberemos quem acerta mais, até que toda essa situação tenha-se desdobrado completamente.

Assim sendo, todos estamos condenados à angústia de ter de esperar. Esperar, enquanto gente inocente continua a ser morta, enquanto os plutocratas da UE recebem com ovação um regime claramente nazista em Kiev, e enquanto Tio Sam faz mais e mais ameaças contra a Rússia todos os dias. Para todos que sincera e realmente se preocupam com o povo de Novorossia esse tipo de espera é terrível tortura psicológica. Acreditem, meu último pensamento antes de dormir e meu primeiro pensamento ao acordar é:

Howitzer do tipo encontrado na Ucrânia
Até onde os russos podem recuar?

Ontem, de repente, dei-me conta de que não é a primeira vez que essa pergunta divide a sociedade russa. Durante a invasão da Rússia pela Europa de Napoleão (dos quase 700 mil soldados que invadiram a Rússia em 1812 só cerca da metade eram franceses: os demais eram de quase todos os demais países europeus, a maioria, alemães e poloneses) a mesma questão dividiu a sociedade russa.

Daquela vez, ambos, o marechal de campo Barclay de Tolly e, depois, o marechal de campo Mihail Kutuzov foram ferozmente criticados pela política de recuar ante os exércitos de Napoleão. Diferente do que se viu durante a IIª Guerra Mundial, quando os soviéticos tiveram de recuar, recuo não planejado, mas forçado por ataque alemão surpreendentemente bem-sucedido, o recuo russo na Guerra de 1812 foi completamente deliberado e, eu diria, lógico.

As coisas ficaram tão ruins, que Barclay de Tolly (escocês étnico) foi acusado de covardia em combate e de ser agente secreto a serviço de Napoleão. Quando o “etnicamente correto” russo Kutuzov (que servira com distinção sob as ordens do mais famoso general russo de todos os tempos, Alexander Suvorov, e cujo patriotismo e coragem não poderiam ser postos em dúvida) foi nomeado para substituir Barclay de Tolly... ele decidiu manter exatamente a mesma estratégia.

Napoleão observa a batalha, próximo de Borodino
De fato, Kutuzov ordenou que o exército russo recuasse até a pequena cidade de Borodino, apenas 120km a oeste de Moscou, antes de enfrentar os exércitos russos numa batalha feroz. O resultado foi o que se pode classificar como mútuo banho de sangue e empate (eu diria uma vitória tática para os franceses, e uma vitória estratégico-operacional para os russos); e Kutuzov recuou ainda mais e deixou Moscou sem disparar um tiro! Arrastado pela húbris e por seu ego avassalador, Napoleão mordeu a isca e entrou em Moscou, à espera de que os russos lhe entregassem as chaves da cidades. Os russos não apareceram e, depois de muito esperar (usando as capelas do Kremlin como estábulos para seus cavalos!), a Grande Armée iniciou o que seria uma terrível retirada de volta a Paris. Dos 690 mil soldados europeus que compunham a força de invasão inicial, só 93 mil sobreviveram (em Berezina, o exército europeu foi praticamente cercado!). Em março de 1814 o exército russo estava acampado em Paris e Talleyrant teve de entregar as chaves da capital francesa ao czar Alexandre I, da Rússia.

Havia mais, nessa estratégia russa de recuo, que apenas o desejo de, literalmente, “negociar territórios, por vidas” ou o desejo de desgastar as linhas de suprimento do inimigo. Os russos aprenderam dolorosamente, dos mongóis, essa estratégia; os mongóis com frequência recuavam ante forças russas, antes de avançar e destruí-las (quase sempre, incendiando a estepe e com manobra de cerco). Na guerra, como no xadrez, a oportunidade em contexto [orig. timing] são fatores cruciais que não podem ser ignorados.

Mas voltando a Barclay de Tolly e Kutuzov, é possível pelo menos começar a imaginar o tipo de angústia que enfrentaram? Foram chamados de traidores, agentes estrangeiros, covardes, por toda a corte (que se mudara para São Petersburgo e lá vivia em perfeita segurança) e, provavelmente, também pela maioria da sociedade russa. Acho que ninguém pode imaginar o tipo de pressão para mudar de estratégia, que Alexandre I, Barclay de Tolly e Kutuzov enfrentaram, sobretudo depois da rendição de Moscou. Pois o tempo comprovou que estavam certos, e o acerto dos seus soberbos instintos estratégicos. Embora não seja coisa que se possa provar, o consenso entre historiadores da história militar, hoje, é que, se o exército russo tivesse dado combate a Napoleão, na sua primeira batalha real, em algum ponto a oeste de Smolensk, teria sido destruído e teria tido de recuar do mesmo modo, mas em completo caos e com poucos sobreviventes.

Portanto, a resposta certa à pergunta acima é: a Rússia pode recuar tanto quanto seja necessário, para vencer.

Vladimir Putin
Objeções: Putin não é nenhum Alexandre I

Concordo. Nem Poroshenko ou Obama é Napoleão, nem de longe, nem de muito longe! Mas tampouco a guerra atual contra a Rússia (porque é isso, precisamente, o que estamos vendo acontecer) é guerra à maneira do século XIX. A guerra contra a Rússia, hoje, é guerra do século XXI. Se a IIIª Guerra Mundial foi a chamada “Guerra Fria”, estamos hoje em plena IVª Guerra Mundial.

Se os russos aprenderam de suas muitas derrotas militares nas mãos dos mongóis, os europeus ocidentais aprenderam de suas muitas derrotas nas mãos dos russos.

Muitas e muitas vezes invasores ocidentais atacaram a Rússia e muitas e muitas vezes foram derrotados, pelo menos em termos militares. Mas essas derrotas militares que o ocidente sofreu encobrem uma lista igualmente longa de bens sucedidas intervenções culturais e religiosas.

Primeiro, o Papado conseguiu converter (pela força e pela corrupção) lituanos e russos ocidentais (que adiante viriam a ser os ucranianos). Na sequência, por algum tempo, a ocupação da Rússia pelos mongóis ofereceu um tipo de escudo, doloroso mas efetivo, contra os Cruzados ocidentais; mas no fim da ocupação mongol, e depois do brilhante reinado de Ivã III (um dos melhores governantes que a Rússia teve em todos os tempos), com Vasilii III e Ivã IV (“Ivã, o Terrível”) o estado russo degenerou rapidamente, no período chamado “Tempos Difíceis” [orig. Troubled Times].

Foi quando, outra vez, o ocidente tentou invadir a Rússia, e os poloneses até puseram no trono da Rússia um dos seus agentes, o chamado “Falso Dimitri” – em típico ato do ódio latino contra a Igreja Ortodoxa, depois de espancar e levar à morte por fome o patriarca russo, São Hermógenes (algumas coisas nunca mudam). Adiante, os poloneses e seus mestres jesuítas foram expulsos, e um Zemskii Sobor [Parlamento da Terra] pôs no trono, como czar da Rússia, Miguel Romanov, o filho caçula de Feodor Nikitich Romanov (que depois ficaria conhecido como “Patriarca Filareto”.

Feodor Nikitich Romanov (Patriaca Filareto)
Embora externamente a paz tivesse sido restaurada na Rússia, internamente estavam crescendo poderosas forças pró-Ocidente, especialmente nas elites russas. A vez delas chegou quando Pedro I (“Pedro, O Grande”) subiu ao poder, em 1682.

Embora eu não queira me estender demais em detalhada análise histórica, quero dizer que o povo e a cultura russa têm sido mais ou menos reprimidos, e com sucesso considerável, desde Pedro I até Vladimir Putin.

Embora alguns governantes da Rússia tenham-se esforçado para restaurar e manter a cultura russa e o Cristianismo Ortodoxo (especialmente Alexander III e São Nicolau II), a aristocracia russa – em grande proporção constituída de membros da Maçonaria –sempre e obsessivamente opôs-se àqueles esforços. O que vemos hoje na Rússia – o governante apoiado pelas lutas populares contra elites apoiadas pelo ocidente – absolutamente não é novidade: é o que se viu por lá, ao longo de vários séculos.

Além disso, o que é a simples existência de uma chamada “Ucrânia” (sem o artigo definido), se não a evidência de um imenso sucesso estratégico das elites da Europa Ocidental? Vejam bem: em 1812 não havia “colaboradores ucranianos dando boas vindas aos franceses, ainda que os franceses prometessem “libertar” os camponeses russos.

Apenas um século adiante, não só muitos ucranianos recepcionaram com flores os alemães (o quê, considerando que os Comissários Soviéticos haviam feito aos ucranianos, eu compreendo perfeitamente), mas muitos ucranianos viam-se, eles mesmos, sinceramente, como grupo étnico distinto, que nada partilhava, de bom, com o povo russo. É claro que aí está um notável sucesso das elites ocidentais! [...]

Seja como for, durante a IIª Guerra Mundial e depois, a cultura russa e uma consciência nacional recomeçaram lentamente a reemergir, mesmo durante o governo de canalhas degenerados como Khrushchev ou Ieltsin. Como já escrevi no passado, entendo que Vladimir Putin chegou ao poder empurrado por forças “nacionais” dentro da KGB, mas teve de ir atrelado a Medvedev, apoiado pela oligarquia, para “fiscalizá-lo”.

Medvedev e Putin relaxam nos jardins do Kremlin
Tudo isso para fazer lembrar um fato crucial, quase sempre desconsiderado: o ocidente tem mantido as garras, mais ou menos firmemente, no “pescoço das autoridades russas”, desde pelo menos 1682 e até 2000 – são 318 anos!

Quanto a Putin, foi formalmente indicado em 1999, e eleito em 2000, mas seu período de controle mais ou menos pleno da Rússia só começou em 2012, há apenas dois anos (já escrevi sobre isso, especialmente aqui mas também aqui e aqui). E nesses dois anos, a oposição sistemática que Putin tem feito ao Império anglo-sionista já lhe valeu o ódio visceral da plutocracia ocidental – a qual, aparentemente, Putin teria “decepcionado”. Os que tão levianamente acusam Putin de estar acovardado, de ser agente da “Nova Ordem Mundial”, ou de ter-se vendido, ou de estar-se deixando manipular devem, pelo menos, tratar de conhecer melhor os elementos básicos da história russa, e comparar o que Putin fez nos últimos dois anos, com o que vem acontecendo há 300 anos!

Seja como for, tenho de reconhecer que, por mais que o currículo de Putin seja absolutamente sensacional, pelo menos até agora, ainda temos uma grande pergunta que permanece sem resposta:

O que Putin fará a seguir?

Minha resposta mais honesta é simples: não sei. Não sei mesmo. Com total franqueza tenho partilhado aqui os meus piores medos, e tenho repetido muitas vezes que não vejo razões suficientes para duvidar de que Putin agirá quando entender que seja o momento certo para agir. Significa que confio nele? Não. Mas, sim, significa que não tenho motivos para desconfiar totalmente e perder toda a esperança nele.

Aos que muito criticam Putin por não fazer o suficiente (até por não fazer coisa alguma, nada), quero dizer que não há razões para assumir que a junta em Kiev tenha os meios para esmagar a resistência na Novorossia.

Assim sendo, permitam-me acrescentar imediatamente o seguinte – será muito melhor, muitas vezes preferível, para a Novorossia, para a Rússia e até para a Europa, se a Novorossia conseguir dar combate e derrotar os esquadrões da morte nazistas, sem ajuda declarada dos russos, do que se conseguir o mesmo efeito com a ajuda russa. Quanto a uma aberta intervenção militar russa, seria resultado altamente indesejável para todos, exceto para o Tio Sam e seus estados-fantoches na UE.

É provável que cheguemos a uma aberta intervenção militar, sempre suspeitei que provavelmente chegaremos a ela, mas será resultado forçado, resultado que constituirá uma vitória para os anglo-sionistas, seja qual for o resultado da operação militar russa (conclusão da qual ninguém, mesmo que só medianamente bem informado, pode duvidar).

Petro Poroshenko

Mais uma vez, temos uma situação na qual Poroshenko ou, devo dizer, os que movimentam as cordinhas do fantoche Poroshenko, estão absolutamente determinados a alcançar um dos seguintes objetivos:

1) Estender o Banderastão até a fronteira russa;
2) Forçar a Rússia a intervir abertamente, militarmente, no Donbass.

É estratégia vitoriosa, porque Kiev tem os meios para conseguir pelo menos um desses objetivos, e Putin não tem terceira opção. A solução preferencial para o Kremlin – que Novorossia consiga resistir com sucesso à agressão dos Ukies – não parece alcançável, pelo menos não se o Kremlin não empreender ação dramática para mudar a dinâmica em campo.

A questão a responder é “o quanto a ação terá de ser dramática”? Entendo que qualquer ação que permita que Novorossia resista com sucesso à agressão Ukie já é, pela própria definição, ação “suficientemente dramática”.

E essa ação será, mais precisamente, o quê? Respondo:

  1. Ajuda militar e técnica (encoberta) à resistência na Novorossia.
  2. Denúncia, para finalidades políticas, das atrocidades e provocações da junta de Kiev.
  3. Tentativa constante de instalar uma cunha política e financeira entre a UE e os EUA.
  4. Preparação constante da opinião pública russa para o possível uso de forças armadas russas para “salvar a Novorussia”.
  5. Uma luta ininterrupta para substituir o maior número possível de “Atlanticistas Integracionistas” por “Soberanistas Eurasianos”, em posições chaves no Kremlin.

Tenho todas as razões para crer que isso, exatamente, é o que está sendo feito. Não sei sobre amanhã, menos ainda sobre o que acontecerá numa semana, num mês ou num ano. Mas por hora – isso é o que estou vendo agora, e é cedo demais para acusar Putin; por hora, que se veja, só há prudência e excelente planejamento.

Operadores Vympel
Mas... tenho de dizer e admito-o já, que essa estratégia, por mais “suficientemente dramática” que seja, em termos puramente racionais, não é dramática que chegue, para o meu coração. Tenho visões em que aparecem os esquadrões-da-morte do Setor Direita (Pravy Sektor) à frente dos Homens Polidos Vestidos de Verde e Armados; visões de um par de MiG-31 fechando todo o espaço aéreo da Novorossia, com os Su-34 russos bombardeando aquela merda (perdoem!) de posições da artilharia Ukie. Em meus sonhos, vejo um grupo de operadores Vympel que arrancam Liashko ou Kolomoiski da cama, na calada da noite, e os levam para Kolyma via Moscou, assim como tenho visões dos franceses derrubando a plutocracia sionista no poder e trocando-a por uma verdadeira comissão de salvação nacional. Também tenho visões do verdadeiro povo norte-americano, que afinal chuta o traseiro desses satânicos 1% que ocuparam os EUA. Sonho com os EUA tornando-se “país normal”. Posso sonhar e sonho, e tudo bem, comigo, cá, que não passo de “blogueiro-ninguém”. Mas é luxo que Putin, como chefe de estado, não pode usufruir.

Digo, para concluir, que ninguém ficará mais envergonhado e mais mortificado do que eu, se acontecer de a Rússia de Putin abandonar o povo da Novorussia à sanha dos invasores nazistas apoiados por EUA e UE, e aos seus esquadrões-da-morte. Se acontecer, ninguém precisará lembrar-me de que vocês me avisaram. De fato, não há “aviso” possível, porque se alguém me “avisar” disso hoje, estará falando sem fundamentos, por todos os motivos errados. Claro que tal traição é possível, mas não e não, enfaticamente não: não há hoje NENHUM fundamento que permita concluir que tal traição teria acontecido ou possa estar em construção.

Todos os dias acordo com medo de que já tenhamos sido traídos, misturado com a esperança de que a tão esperada ação russa começou. Até aqui, nada aconteceu, nem uma coisa, nem outra; e, sim, a Rússia continua a recuar. E só Deus sabe por quanto tempo e até que ponto.


The Saker