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terça-feira, 29 de outubro de 2013

O coronel da PM e o Black Bloc do PT

Texto de Raul Longo [*]
Ilustrações: redecastorphoto (colhidas na internet)

Os Black Blocs e a PM na manifestação em São Paulo
É como dizem: “ainda morro sem ver tudo”.

Aqui, no caso, seria ouvir. Não sei se por ser “da Magia”, nesta Ilha de Florianópolis por vezes tenho a impressão de ouvir vozes do além ou, para usar uma terminologia mais antropológica, de um universo paralelo, daqueles onde tudo ocorre ao inverso.

Foi a sensação que experimentei certa vez ao ouvir uma política do PT local ameaçar de pedir a cabeça de alguém por não ter atendido a uma convocação. E o mais interessante é que nem a política nem o ameaçado de acefalia compulsória pertencem a alguma organização de rígidas formações hierárquicas, dessas em que o soldado raso tem de atender o chamado e ouvir de cabeça baixa o que o superior tiver a falar, respondendo somente ao que lhe for inquirido.

Bem... Passou, faz tempo, esqueci. Mas ainda há pouco tempo escuto outras vozes bastante estranhas, insolitamente também vindas de alguém que se apresenta como do PT. E essa era tétrica: “Escreve o que tô dizendo: até a eleição de 2014 vai correr sangue nas ruas do país”.

Black Blocs vandalizam entrada de agência bancária no Rio de Janeiro
Como anteriormente essa mesma voz já assoprara a mesma ordem de escrever como inconteste o fato de que Dilma estaria apenas preenchendo buraco para Lula se candidatar à presidência neste 2014, não levei a sério a sanguinolenta advertência. No entanto, conforme se lê no excelente comentário do Sérgio Saraiva publicado no link do Nassif (disponibilizado no link adiante) a previsão já se cumpre e o sangue anunciado escorreu pela cabeça de um coronel da PM.

Mas aquilo de Lula usar o mandato da Dilma como “tapa buraco”, tal qual se imaginava ser o propósito do Fernando Henrique com a indicação do José Serra para o período 2002 – 2006 me pareceu exagero. No caso que não deu certo, o da indicação do Serra, houve alguém que afirmou ter ouvido a declaração do intento pela boca do próprio FHC, mas tenho minhas dúvidas sobre os poderes de premonição dessa voz que me sussurra acusações de traições de Lula a personagens com os quais me correspondo na vida real e, todos, por ele demonstram a mesma admiração que nutro pelo ex-presidente.


Ainda ontem mesmo, de alguns desses recebi entusiásticas mensagens em homenagem ao aniversário de 68 anos de idade do Luís Ignácio Lula da Silva.

Mas, conforme me ensinaram alguns xamãs nos tempos em que andei lá pelas aldeias indígenas do Mato Grosso, nisso de universo paralelo pode acontecer de ser assim mesmo: tudo exatamente ao inverso do mundo real. O que é bom fica ruim, o certo está errado, o amigo vira inimigo. Claro exemplo é o dessa “voz sombra” - como dizia Macunaíma daquelas que se transmitem pela “máquina telefone” - que a despeito de se afirmar como palavra de político da linha trabalhista, costumeiramente se manifesta em exigências que reportam inflexíveis intolerâncias ditatoriais.

Negociações e alianças políticas nem pensar! Angela Merkel sofreria sérias retaliações se os discursos dessa voz soassem lá praquelas bandas, pois é radical e diz que se governa pela marra e apoios têm de ser conquistados no berro. O que não pode é conceder cargo nem se sujeitar a decisões parlamentares. Concedeu um trisco não é mais PT de verdade. Nem esquerda.

Mas comecei a desconfiar do petismo ou do esquerdismo reivindicado pela voz quando num deslize comentei algo sobre a influência da mídia nas manifestações de junho. De forma alguma! O Brasil do universo paralelo está numa situação nunca antes sequer imaginada de tão ruim e os que foram às ruas pedir o impeachment da Presidenta, foram motivados por justa causa, pois tudo está mesmo insuportável.

Tentei analisar, comparar incongruências com resultados de pesquisas que pouco antes de junho indicavam a Presidenta como recordista de popularidade, mas não teve jeito. Não pôde admitir nenhuma procedência em minha conclusão da participação da mídia na eclosão do espontâneo movimento contra o qual – garantiu - foi a primeira a se levantar.

Insisti comparando outros piores momentos da história política do país sem qualquer reação popular, mas só fiz irritar a voz que rouquejou lembranças de envolvimentos próprios igualados em desproporcionais dimensões ahayauasqueiras.

Mas o que sombreou mesmo a voz foram minhas brincadeiras ao remeter, via internet, algumas das conclusões de observadores nacionais e internacionais, acompanhadas de cópias de colunas de jornais e capas de revistas que na primeira hora enalteceram o movimento de junho, para só lamentá-lo no mês seguinte. Mandou que eu respeitasse os fios brancos de meus cabelos e não consegui entender a simbologia na miração provocada pelos meus cabelos efetivamente brancos. (miração - alucinação visual provocada por ingestão de ayahuasca, no jargão dos adeptos da seita do Santo Daime).

Em ocasião seguinte, ainda insatisfeita, a voz se manifestou novamente iniciando por um discurso de aversão ao samba dominical promovido por um meu amigo. Aquilo me aborreceu, mas na sequência não me importei com a reclamação pela cor que usei na pintura de minha casa ou contra o meu gosto pelos versos do Fernando Pessoa.

Já antes alguns conhecidos e um amigo por quem tenho muito carinho pela gentileza e elegância, reconhecido em diversos centros do Brasil pela coerência política no que faz, haviam me alertado sobre as arrogâncias e prepotências daquela voz. Como pouco a conhecia, nem tive o que dizer aos comentários, inclusive porque em 1964 eu tinha 12 anos de idade e dali até o final da ditadura acostumei-me de tal forma a esse tipo de comportamento que nem mais me incomodo. Apenas mudo de canal, desligo a TV, viro a página ou jogo no lixo e vou procurar algo de melhor a fazer na vida.

Portanto, já de sobreaviso, deixei-me divertir um pouco com os rompantes da voz desconexa e muito mal informada que repentinamente e sem ser solicitada, por algum propósito ou sem nenhum, passou a discorrer preconceitos contra o ex-presidente Lula. Não sei se houve intenção de me provocar em minhas admirações por Lula, mas, se isso, não obteve efeito porque elencou considerações sobejamente conhecidas através de vozes do mundo real. E foi como rever Collor de Melo, Arthur Virgílio, ACM Neto e até o Larry Rohter, aquele ex-correspondente do New York Times que acusou Lula de bêbado por ter inaugurado a festa do chope de Blumenau brindando com uma caneca de chope.

Pois naquela conversa aprendi que bêbado, vagabundo e mau pai também são os preconceitos dedicados ao Lula no universo paralelo do petismo radical. Lembrei-me da amizade e admiração do enteado Marcos Lula, mas quando derivou para o José Dirceu preferi estimular a voz para ver a que ponto atingia a borracheira e ressuscitei o Waldomiro Diniz. (borracheira – alucinação desagradável no estado alterado de consciência por ingestão de ayahuasca).

Ambulâncias superfaturadas na gestão Serra (FHC) no Ministério da Saúde (Sanguessugas)
Note que a cabine de atendimento do veículo comporta o doente apenas SENTADO...
Continuei explorando as variações e potencialidades do delírio e resgatei o caso dos Aloprados, mas aí a peia pegou braba e a voz partiu pro macabro, atribuindo o recente falecimento do Gushiken ao comentário do Lula sobre o grupo que as vésperas da eleição de 2006 caiu na armadilha armada pela Globo com a isca do dossiê dos Vedoin (peia – forte sensação de mal estar provocada pela ingestão do ayahuasca).

Tentei dar alguma coerência para a conversa desconexa procurando denotar a ausência de relação entre os Aloprados e o dirigente da campanha de Lula, mas teimou do alto das já alertadas prepotências e, cansado de tanto delírio para uma única noite, me despedi prometendo novamente passar a real pela internet.

Dessa vez maneirei na brincadeira para não ferir os brios da torcida, mas de toda forma se exacerbou nas patentes que, mesmo não as tendo, em algo me faz compreender os Black Blocs que neste comentário do Saraiva me provocam cogitações sobre a possibilidade das intolerâncias e incivilidades da ditadura militar ou da formação patriarcal de nossa elite agrária, provavelmente oriundas dos séculos de escravismos, serem herdadas não apenas exclusivamente por fardas e galões, mas inclusive por todos os demais segmentos e estratos sociais.

Coronel da PM surrado por Black Blocs

Não se tramará nas malhas das máscaras negras do vandalismo o mesmo rancor das aspirações individuais contrariadas? Seja onde for, nos Black Blocs das ruas ou nas gravatas das telas de TV, no tailleur da analista econômica ou no linho do chapéu do editor de revista ou articulista de jornal, não haverá algo do mundo real de ser derrubado, destruído, servindo de passagem, espécie de portal para o destruidor conseguir encontrar o que tenha perdido de si próprio?

Não se imiscuirá à intolerância alguma insuficiência, desinformação, falta de real interesse ou comodismo? Não será mais imediato e menos operoso promover a aniquilação, destruição, quebra, rompimento?

Fazer calar é mais fácil do que ouvir. Impor é mais fácil do que explicar. Achar é mais fácil do que procurar.  

Destruir é mais fácil do que construir, embora na surdez, na incompreensão, na ausência de curiosidade e na incapacidade de realização se gere a insatisfação que se tenta compensar pela prepotência. A prepotência do verdadeiro coronelismo.

A farda é abstrata. Um general nu não é nada. Por mais general que seja terá de berrar, exigir, manter a pose e a palavra.

Mas o que se equipara ao poder de quebrar, destruir, romper? Só esse poder compensa a frustração por aquilo que não se compreende e se tem preguiça de tentar entender. Provavelmente não seja uma solução, mas a frustração não procura por solução e, sim, por compensação.

Compensará o quebrar, destruir, romper com o que houver de concreto ou abstrato: a cabeça do coronel, o ponto do ônibus, a porta do banco, o telefone público ou qualquer vínculo com a civilidade?

Black Blocs atacam coronel da PM Reynaldo Rossi em SP
O coronel da PM a quem racharam a cabeça certamente não terá resposta para esta questão que talvez apenas um velho coronel -- daqueles de terras, gado e gente -- pudesse responder se conseguisse ser sincero consigo mesmo, mas compensando ou não, uma coisa é certa: o estigma da prepotência e da arrogância do coronelismo ainda é uma herança entre todas as classes sociais no Brasil.

Até no PT, onde também há quem busque se compensar tentado quebrar a reputação do Lula. Tem alguma lógica, afinal o mais sólido sempre será o maior desafio do Black Bloc que, conforme demonstra o Sérgio Saraiva, [1] não são mudos. Muito pelo contrário, fazem questão de que quem seja pego como vítima os escute até o fim. E falam muito, embora sem nada de novo a dizer.

Eu hein!... Mudo de canal!
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Nota do autor:
[1] Não, esse é o problema. Os blacks blocs podem ser cegos e surdos, mas não são mudos e nem aleijados. E não é o seu silêncio, mas os gritos de suas vítimas, que estão contrapondo a sociedade brasileira. Por Sergio Saraiva

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[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Muito obrigado, grande Ministro José Dirceu!


Viva o Partido dos Trabalhadores! Viva o Partido Comunista do Brasil! Viva o Brasil!

Ministro José Dirceu
Fato é que é preciso resistir SEMPRE. Dirceu parece ser o único petista (além de Lula e Dilma e, sabe-se lá, talvez mais alguns da mesma geração histórico-política, impenetravelmente mudos, infelizmente) a ter visão revolucionária clara desse processo. Como Mao Tse Tung aprendeu e ensinou “Só a luta ensina”.

Não vemos nenhum interesse em  aprofundar a discussão “sobre” o julgamento, porque nos parece que nenhuma discussão 'jurídica', construída em juridiquês, ajudará o Brasil a entender o que houve e continua a haver. 

Mas queremos anotar aqui uma ideia, surgida na nossa roda de conversa: que todos DEVEMOS MUITO ao grande ministro José Dirceu.

O ministro José Dirceu conseguiu -- em boa parte à custa dele mesmo -- e sem contar, sequer, com clara e forte defesa política que tivesse recebido do próprio partido, porque, isso, Dirceu não teve --MOSTRAR ao Brasil o que é, como opera, o que faz o STF.

Com isso, o ministro José Dirceu mostrou também ao Brasil o quanto ainda é precária e frágil a tal “redemocratização” – que tão levianamente tantos dão por consumada e que, de fato, apenas começou e nem em sonhos pode ser considerada completada. Mas “redemocratização” que, sim, começou afinal a andar a passos muito rápidos, a partir da primeira eleição do presidente Lula.

Temos um STF, sim: um belo prédio e juízes bem falantes, que não erram nos pronomes e têm vasto vocabulário, bem educados, que sabem discordar com compostura (nem sempre, nem todos, mas muitas vezes), com elegante representação feminina e, até, com um juiz negro. Temos pois, para vários efeitos, o que pode ser apresentado como boa amostra 'de gêneros' e 'de raças' do que é o Brasil 2012. 

E todos ali – com a honrosa exceção do juiz Lewandovski – são doutos representantes do udenismo golpista mais bronco, mais arrogante, mais metido a “ético” e mais metido a “democrático”, com leitura ético-de-classe moralista brutal do mundo e do Brasil. Dispensam-se nomes, mas, sendo preciso, triste exemplo extremo disso é o juiz Gilmar Mendes.

Bem feitas as contas, o STF ainda é uma espécie de cenáculo onde se reúne uma variante neoliberal letrada e formada em Direito, das muito broncas Senhoras-de-Santana, as quais, saídas das colunas do pseudo jornalismo, chegaram agora à toga.

O bloco histórico que construiu o golpe de 64 e, depois, foi forçado a aceitar uma abertura que foi, como se recomendava para que os negócios não fossem abalados, “lenta, gradual e segura”, sobrevive e continua ativo no STF, como também continua vivo na USP, na imprensa-empresa e em inúmeras instituições brasileiras. Pode-se conceder que a abertura prossegue – embora nunca seja simples ou fácil e tenha de ser sempre duramente disputada, todos os dias (tema de que nunca se falou no Brasil d’A Privataria Tucana e tampouco se fala no Brasil petista). E é bom, parece, que prossiga.

Mas, se há coisa que não mudou e continua uniformemente distribuída na sociedade brasileira, que afeta igualmente todos os “gêneros” e todas as “raças”, é o udenismo figadal daquele bloco histórico. Esse udenismo figadal é promovido, para dentro e para fora do MESMO BLOCO HISTÓRICO, pela imprensa-empresa que milita no Brasil e por uma ideologia “jornalístico-comunicacional” dura de matar, porque se reproduz também na universidade. E não é difícil ver que é a MESMA, mesmíssima imprensa-empresa e a mesmíssima ideologia jornalística (falava-se menos em “comunicação” naqueles anos) que já estava ativa em 1964 (e antes disso).

A ideologia daquele bloco histórico libera o caminho para uma discussão dita “ética” -- como também é dita “feminista” e como também é dita “ecológica” e pode ser tudo e qualquer coisa, desde que não seja discussão POLÍTICA --, a qual, essa discussão despolitizada, é facultada “às massas”. Mas só.

Chega a ser engraçado! Hoje o Brasil sangra-se em saúde, discutindo a tal “Teoria do Domínio do Fato”. OK. “Teoria do Domínio do Fato” todos podem discutir. Mas que a ninguém ocorra discutir alguma “Teoria do Domínio do BUG” (Bloco Udenista Golpista).

Assim, o que se vê são empenhados militantes suando a camisa para contra-argumentar com advogados e juristas experientes, condenados a sempre perder, sempre, a discussão. E assim se vai consumindo o empenho político...

O xororô chatíssimo dos petistas, a chatíssima repetição do argumento “como nos perseguem!” pode bem ser resultado também desse mecanismo ideológico: dado que a discussão política é vedada, resta a eterna “se-lamentação” (pros depressivos) e a euforia sem-noção e sem-estratégia (prôs mais animados). E nenhuma discussão política.

POR FALAR NISSO: Não é ESPANTOSO o silêncio do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que é petista e professor de Direito, ante a escandalosa degola do mais importante quadro político e ex-ministro do SEU PRÓPRIO GOVERNO PETISTA?! Taí. Esse silêncio, para nós, é TOTALMENTE INCOMPREENSÍVEL.

Pelo mesmo argumento, do apagamento da discussão política, operada pelo bloco histórico que continua ativo no Brasil desde 1950, se entende (quase), até, o abjeto sarcasmo que o juiz “Collor de Mello” não se envergonhou de manifestar para as câmeras de televisão. Rindo, ele, provavelmente, de nós, do nosso voto, da democracia brasileira. Santo Deus! 


Nem em tribunais nazistas jamais se viu juiz sarcástico! O carrasco, na guilhotina, é sério como a morte. Até ele entende que, naquele momento, nenhum sarcasmo é admissível. Risinhos e caretas no STF, no Brasil-2012?! É repugnante. É abjeto. É udenista e golpista.

Aquele udenismo figadal também se manifestou pela boca do JB e não pôde ser efetivamente “revisto” pelo juiz revisor, porque o MESMO udenismo figadal, de classe, histórico no Brasil, também continua representado pelos demais juízes do STF. E a disputa política democrática está, ali, reduzida à contabilidade, dentre nove votos, como em qualquer reunião de condomínio, ou para decidir pendengas de futebol de várzea. Provas?! Prá quê?!

A democracia brasileira ainda é mis-en-scène, puro espetáculo, “ideologia objetivada”, como escreveu Debord, quando previu que, na sociedade do espetáculo, assim aconteceria. Está acontecendo, mais claramente detectável no Brasil que em muitos outros países, porque aqui opera o Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) e aqui se faz o pior jornalismo do mundo (o que não é dizer pouco).

Mas – e isso é vitória da democracia brasileira – já se pôde ouvir, dentro do STF, uma voz de razão democrática, que falou pela boca do ministro Lewandovski. Isso NUNCA SE VIU ANTES. É um momento histórico de extraordinária importância. É preciso festejar COM DIRCEU, que tenhamos já chegado a ter uma voz democrática no STF pós-ditadura. Viva o Brasil!

Pois bem. Tudo isso o Brasil VIU ao longo dessa semana e pela televisão. O serviço valiosíssimo de ter levado tudo isso às televisões do Brasil, o Brasil deve, integralmente, ao Ministro José Dirceu.

Dirceu já poderia estar vivendo, rico e feliz, bem longe do Brasil e esquecido do Brasil. Bastaria ter decidido ir. E decidiu ficar. Grande homem, o Ministro José Dirceu! Rasteiro, rastaquera, é o juiz sarcástico, aquele, o feio, o tolo, o reacionário, o udenista golpista.

Continua o Partido dos Trabalhadores, portanto, ainda, a dever aos seus militantes e ao Brasil – que tão empenhadamente, tão apaixonadamente, tão vitalmente, acompanham o presidente Lula, a presidenta Dilma e quem os dois mandem acompanhar – a parte histórico-política de explicar o PT e o Brasil a eles mesmos.

Para tanto, o PT tem de parar de supor que o Big Bang ocorreu num palanque da Vila Euclides, que a história só começou a andar em 1980.

O PT só existe porque, antes, houve um Brasil de Getúlio, houve um Brasil de Brizola, houve um Brasil de Jango, houve um Brasil de Marighela, houve resistência, houve sindicatos, houve um sindicato de metalúrgicos, houve um pensamento político, houve agentes políticos que não se deixaram matar, houve Lula, Dirceu, Dilma e outros, que não se deixaram matar e dos quais nasceu o PT. Nada teria acontecido naquele palanque da Vila Euclides, sem essa longa procissão de lutadores, sem o MST, sem Lamarca, sem tantos e tantos heróis do Brasil.

De fato, há muuuuitas razões que explicam por que o PT é perseguido. O PT carrega, sem, parece, entender o que carrega, a própria história das lutas de resistência à ditadura e ao golpismo udenista no Brasil. Mas, estranhamente, o PT (i) não sabe disso; e, o que parece muito mais grave (ii) vê mérito nessa ignorância e (iii) ostenta a própria ignorância histórica como se fosse vantagem. Não é. Todas as fragilidades do PT advêm de o PT supor que alguma força política brotaria do zero, do nada, de Lula-sem-passado e de algum papim de classe “ético”-fascista, embora sinceramente “ético”-fascista.

Fato é que todos os que perseguem o PT sabem – conscientemente ou hipnotizados pela ideologia “ético” golpista dominante – por que perseguem o PT. E cada vez que um petista começa com xororô – ou cada vez que o senador Suplicy pede desculpas e chora – os perseguidores riem. Há muito disso, também, no risinho sarcástico-cafajeste daquele juiz.

Verdade é que, isso -- construir um discurso POLÍTICO para o PT -- o ministro José Dirceu não conseguiria fazer também, e também sozinho. O Brasil ainda não tem discurso político de democratização. Há impedimentos históricos, de fundo, que nos impedem (ainda) de tê-lo.

Mas é mérito TAMBÉM do Ministro José Dirceu JAMAIS ter desistido do PT, nem quando o PT o abandonou.

Construímos para nós mesmos, cá na Vila Vudu, uma teoria, segundo a qual o ministro José Dirceu sempre soube que o PT não é o partido do qual ele precisaria. Mas, pela teoria que inventamos para nós, o ministro José Dirceu pensa o PT, não como o partido que é, mas como o partido que um dia talvez pudesse ter nascido, se o Brasil não tivesse sido assassinado, uma geração inteira, pelo golpe de 1964.

Isso também é pensar revolucionariamente: ver o presente como a possibilidade que há ali, viva, mesmo que ainda só potencial. Não fosse essa capacidade revolucionária de ver futuros que ainda não há, nenhum futuro buscado jamais teria chegado a ser.

É sorte histórica -- e motivo de felicidade pessoal -- pensar que nos, cá na Vila Vudu, somos sobreviventes da mesma geração política do Ministro José Dirceu, do presidente Lula e da presidenta Dilma. Essa sorte histórica a maioria dos petistas não tem, infelizmente para eles e para o Brasil. Então, é seguir lutando, que a luta ensina.

Começamos a pensar que talvez haja, em andamento, um processo subterrâneo, ainda sem voz, que vai sendo empurrado adiante pelos muitos, no Brasil, que ainda não tem discurso, talvez, provavelmente, porque os discursos novos só aparecem quando o processo já mudou de fase: então, já empurrado o Brasil para uma outra fase, tornar-se-á possível (ou, pelo menos, mais fácil, menos difícil) olhar para a fase que ficou para trás.

E quem olhar bem, verá que a fase que ficou para trás não teria jamais sido o que foi sem a apaixonada militância dos jovens petistas, que não têm culpa de terem nascido em mundo neoliberal, de individualismo e capitalismo de exploração “ética” triunfante, quando a imprensa-empresa e a universidade já haviam cuidado de construir mundo à sua própria imagem. Vai-se ver, a coisa funciona assim.

Vai-se ver, aquele mundo que a tucanaria udenista da privataria tanto se empenhou em construir aqui, e até construiu – até que o primeiro governo Lula lhe impussesse o primeiro grande revés – é o mundo que se vê hoje, caindo aos pedaços, em ruínas, em cacos.

O ex-FHC e atual NADA tanto fez para "deixar para trás a era Vargas"... E a parte "trabalho" do mundo, que a era Vargas soube ver e fortalecer no Brasil resiste, e volta aí, pra puxar-lhe o tapete uspeano udenista & privataria. Grandes tempos, vivemos hoje no Brasil!

Ter permanecido no Brasil e ter defendido o PT até quando o PT o abandonou, e sempre a empurrar adiante a história e a luta, é mérito revolucionário de proporções leninistas, que se tem de atribuir ao Ministro José Dirceu.

Por isso, agradecemos, nós, aqui, historicamente reverentes, e publicamente.

A luta continua! Viva o Partido dos Trabalhadores! Viva o Brasil!

[assina] Coletivo de Tradutores Vila Vudu

CHORAR SOBRE O LEITE DERRAMADO


Por Laerte Braga*

José Carlos Aleluia
Por ocasião da CPI do Mensalão o deputado José Carlos Aleluia, do então PFL, afirmou de forma enfática não acreditar que José Dirceu, à época ministro chefe do Gabinete Civil, tivesse praticado ato de corrupção em benefício próprio. Aleluia deixou claro que Dirceu era um político que jamais tiraria proveito em benefício próprio de qualquer cargo que ocupasse, mas citou a “causa”, como sendo o fator que gerou o mensalão.

Dirceu foi vítima de sua própria estratégia. Da obsessão de eleger Lula presidente a qualquer preço e esse preço começou a ficar impagável quando o candidato, em 2002, quis dar mostras de “responsabilidade” para os brasileiros, ao se comprometer com a carta de intenções do governo FHC junto ao Fundo Monetário Internacional.

O governo estava falido, liquidado, bastaria mostrar essa realidade que os brasileiros compreenderiam, a maioria tinha ciência do fracasso do ex-presidente, das mistificações tucanas.

Num País como o nosso são interessantes algumas contradições. A maioria dos brasileiros considera que bancos e governos internacionais saqueiam o País, mas votam em políticas que são ligadas a bancos e governos internacionais. Lula quando assinou o documento quis apenas dizer que ia continuar aceitando a chantagem do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, de governos e organizações financeiras em várias partes do mundo (EUA e Europa).

Esse procedimento levou o título de “candidato responsável”. Lula não entendeu, equivocadamente, que o momento não era de concessões, mas de ruptura e que essa percepção passiva pelos brasileiros se transformaria em indignação com FHC. Estava latente.

José Dirceu
O preço dessa irresponsabilidade de ter caído na armadilha das elites políticas e econômicas, no cinismo de FHC, se materializa, hoje, na decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) condenando desde Dirceu e Genoíno a outras figuras de destaque no PT (Partido dos Trabalhadores).  Sete dos onze ministros da suprema corte foram indicados por Lula (cinco) e Dilma (dois).

Lula imaginou que seria possível governar formando alianças com elites políticas e econômicas podres e depois de oito anos de um governo que, entre outras coisas, protagonizou um processo de desmanche do Brasil e o maior escândalo de corrupção de toda a nossa história, o golpe branco da reeleição.

Tancredo Neves costumava dizer que não se entra numa luta para perder, com consciência da derrota antecipada. Ou se garante o empate, no mínimo, ou a vitória. Lula entrou no escuro e amarrado numa carta de intenções que, hoje se percebe com clareza (muitos perceberam à época),  foi uma das mais perfeitas armadilhas do neoliberalismo.

Os dois mandatos que exerceu, o fez na corda bamba e enfrentando sucessivas tentativas de golpes dos mais variados matizes. Sobreviveu seja por seu carisma, seja pelas políticas assistencialistas que acabaram primeiro viabilizando sua reeleição e num segundo momento permitindo a eleição de Dilma Rousseff.

De lá para cá a descida da ladeira é uma realidade e a decisão do STF de julgar o caso do mensalão em cima de provas tênues ou indícios, o que cria sempre o benefício da dúvida e essa favorece aos réus, soa como golpe, a guilhotina pronta a cortar cabeças e todos de olhos postos nas eleições de 2014.

Tudo menos Lula são os propósitos das elites que governam o Brasil faz séculos.

E Lula nem é um homem de esquerda, ou um revolucionário. Sequer conseguiu ser reformista. Moldou o seu governo dentro das estruturas seculares do coronelismo político e no modelo traçado por FHC, aquele que Brizola dizia que “veio de longe”.

Ivan Pinheiro
O secretário geral do PCB – Partido Comunista Brasileiro – Ivan Pinheiro definiu com precisão os períodos presidenciais do ex-presidente: “capitalismo a brasileira”. Lembra a frase do jurista Sobral Pinto dita a um coronel da ditadura que falou sobre “democracia a brasileira”. Como respondeu Sobral, “democracia não é como peru, não existe a brasileira. Ou é democracia ou não é”.

Capitalismo não existe a brasileira, ou é capitalismo ou não é.

Lula manteve intocado o desenho neoliberal de FHC, pior, aprofundou-o em vários setores da economia brasileira e acreditou, por exemplo, como acredita Dilma, que Eike Batista está preocupado com o Brasil ou com os brasileiros. São meros detalhes no que o empresário chama de “kit de felicidade” ao referir-se ao pacote de meses atrás da presidente Dilma Rousseff sobre “concessões” de bens públicos à iniciativa privada.

O ex-presidente, antes mesmo de sua posse, recebeu sugestões de vários líderes do PT, seu partido, dentre eles o seu principal mentor político, o extraordinário Chico Oliveira, sobre como escapar da armadilha neoliberal sem provocar reações que pudessem colocar em risco seu mandato.

Roberto Jefferson
Desprezou a todas. Seguiu a cabeça “lógica” de Dirceu, acreditando que Roberto Jefferson  um homem da ditadura militar, que nasceu politicamente na ditadura militar, pudesse vir a ser um “aliado confiável”.

O que todos queriam, os tais “aliados” era a manutenção do esquema de compra e venda do governo FHC. Manteve e o resultado está aí. FHC impune e a campanha de desmoralização do ex-presidente e seu partido em curso acelerado, seja pela mídia podre, seja pela incompetência do PT e Lula. Não percebeu ainda o tamanho da armadilha e se debate preso às garras dessa armadilha na suposição que vencendo, se vencer, as eleições para a prefeitura de São Paulo tudo estará resolvido. Pode até ser. Mas dentro do modelo, sem mudar uma vírgula sequer do modelo e ampliando as políticas neoliberais de privatização e concentração de renda, um abismo entre a classe trabalhadora, a própria classe média (iludida por celulares que só faltam falar se é que já não falam).

O clube de amigos e inimigos cordiais. O faz de conta da política brasileira. De um mundo institucional falido.

A velha imagem de ligar a seta para a esquerda e virar o carro à direita. Caso do tratado de livre comércio assinado com Israel. Um cavalo de Troia que o complexo político, econômico e terrorista ISRAEL/EUA TERRORISMO S/A fez entrar em nosso País e hoje começa a fechar o cerco do que foi iniciado no governo FHC em torno dos setores estratégicos da economia brasileira.

Somos um País imenso, com dimensões continentais, mas somos um País manco. Capazes de gerar tecnologias de ponta indispensáveis no mundo contemporâneo, capazes de nos transformarmos em potência de verdade e não de ilusão, mas estamos abrindo mão dessas potencialidades.

O sucateamento da indústria nacional, os absurdos de um código florestal ao sabor dos interesses de latifundiários, o controle que o sistema financeiro exerce sobre o Banco Central e o Ministério da Fazenda (a ponto do ministro Guido Mantega afirmar que se o Brasil disponibilizar 10% do PIB para a educação quebra), todo o processo político e econômico que vem nos transformando de País líder da América Latina em parte do Plano Grande Colômbia.

Vamos a reboque de uma locomotiva onde os maquinistas já perceberam que Lula e Dilma não vão mudar o rumo. Nem diminuem a velocidade.

Nossas universidades (professores por extensão, óbvio) públicas transformadas em sucata, os hospitais universitários a ponto de serem privatizados na falácia de uma empresa estatal de direito privado (caminho para a privatização), os serviços públicos em franco desmanche (são servidores públicos que materializam os direitos básicos dos trabalhadores, da população) e dependentes nas tecnologias essenciais. Caso, para citar um exemplo, da EMBRAER (EMPRESA BRASILEIRA DE AERONÁUTICA). Ou dos arsenais da Marinha de Guerra.

Nem o governo Lula e nem o governo Dilma investem no Brasil. Aceitaram passivamente a realidade neoliberal e sobrevivem no populismo de programas assistencialistas que já começam a se perder e a encontrar becos sem saída. Em Pernambuco onde o PT tomou uma surra, ou no Amazonas, onde Arthur Virgílio renasce de escombros políticos/eleitorais numa ressurreição que nunca se podia imaginar.

E olha que os adversários são FHC. José Serra, Aécio Neves, contumazes corruptos, ou o governador Geraldo Alckmin, num estado onde a violência acorda, caminha e deita impune e brutal como sempre.

O fracasso é de Lula e do PT. Das alianças “mágicas” com as classes dominantes. Da falta de perspectiva revolucionária do ex-presidente e do partido.

Supremo Tribunal Federal

Já sabiam que o STF julgaria da forma que julgou e nem iria ou irá se preocupar com “A Privataria Tucana”. Nem a Corte e nem o Procurador Geral.

É o clube de amigos e inimigos cordiais e Lula agora, entra pela porta dos fundos, onde até um provável retorno, ou uma reeleição de Dilma, não muda e não altera nada. A ordem dos fatores capitalistas se mantém intacta e o produto vai ser sempre o mesmo.

Que a decisão, ou decisões do STF, se constituiu num golpe ninguém tem dúvida. Mas Gilmar Mendes, por exemplo, poderia estar fora da Corte desde episódios sobejamente conhecidos de corrupção. Lula preferiu ir conversar com ele num encontro arranjado por Nelson Jobim, figura chave de FHC para o processo de privatizações.

Por essas e outras Lula merece ir para o canto da sala e por lá ficar por horas a fio com o chapéu de burro. 

Não adianta chorar sobre o leite derramado.

Essa luta de mudanças vai ser construída pelas forças populares e nas ruas. O mundo institucional está falido. E Lula ou Dilma teimam em jogar o jogo dessa turma. Logo...

... Mais que nunca as forças populares precisam se mostrar diferentes do PT e do ex-presidente, de Dilma, pois no afã de manter o domínio real sobre o Brasil, jogam a todas no mesmo cesto. 

Algumas dessas forças, pelo menos, são diferentes.

Laerte Braga* foi o candidato do Partido Comunista Brasileiro (PCB) à Prefeitura de Juiz de Fora - MG. Afirmando que a importância nesta eleição, para o seu partido, foi o debate e a conscientização política do eleitor para a construção do socialismo. Julgando que Juiz de Fora perde sua história dia a dia, Laerte elaborou diversos projetos que dariam mais voz à população, o que ele chama de Poder Popular.

Enviado por Sílvio de Barros Pinheiro

domingo, 16 de setembro de 2012

A nova classe e o lulismo além da esquerda


Publicado em 15 de setembro de 2012 por Bruno Cava,
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Devo boa parte do conteúdo deste artigo às conversas com Hugo Albuquerque, Giuseppe Cocco e Homero Santiago.

Bruno Cava
No Brasil, de uns tempos pra cá, pessoas de uma raça diferente começaram a se fazer frequentes em certos espaços. Começaram a frequentar espaços outrora inacessíveis: aeroportos, universidades, restaurantes, shoppings, boates, pet shops. Começaram a fazer turismo, a comer iogurte, beber vinho, fazer escova progressiva ou cirurgia plástica, a comprar carro, computador, tablet, tudo o que agora podem e têm direito.

Essa raça não se comporta como os antigos frequentadores gostariam que se comportasse. Essa raça rude que se agita do fundo da história não quer, simplesmente, ser como seus antigos senhores. Um escândalo. Os senhores jamais lhe perdoarão o fato de não reconhecer a eles, a velha e autointitulada “classe média”, o lugar privilegiado que teriam conquistado com mérito e esforço individual. Pouco importa aos novos bárbaros, no entanto, o que pensam deles. Eles vieram para ficar e nada será como antes.

A nova classe média virou um Dasein sociológico. Uma monstruosidade teórica e prática.

As tentativas mais recentes da velha sociologia alternam uma matemática primária com palpitaria generalizada.

Por um lado, sociólogos orgânicos quantificam e tabelam, para reforçar a numerologia oficial, tão facilmente convertida em publicidade e campanha nas eleições.

Por outro, tem sempre um “porteiro” que pensa assim, uma “empregada” que faz assado, os pobres genéricos que o humanismo burguês se propõe a conhecer de perto, e de onde se elaboram as ilações mais imbecis, decalcadas nos seus livrinhos de cátedra.

À direita, a reedição do argumento das plebes ignaras. O povão se guia essencialmente por estômago e sexo e, portanto, precisa de autoridade e moral. Deve ser conduzido no caminho da ordem e do progresso. Ele mesmo não pensaria de outra forma, se pensasse por si só. Platonismo de madame.

À esquerda, o argumento de que agora é hora de qualificar a nova classe. É preciso que a raça emergente se eduque para a política séria, que aprenda os velhos truques e modos, que se conscientize de seu papel. Está muito crua, muito propensa a ceder aos cantos da sereia. Uma pedagogia de esquerda, igualmente elitista. Não é por acaso que o jargão que divide esquerda e direita tenha surgido no âmbito das revoluções burguesas.

Por que a velha classe média não se sente comprada, quando seus estudos são pagos com dinheiro público, mas é a primeira a acusar os pobres de se venderem aos governos, pelo primeiro miserê que conquistaram?

Por que bolsas de doutorado não são assistencialismo?

Consideram-se racionalmente desinteressados e inspirados por altos ideais, mas se tornam histéricos, vitimizam-se, escrevem colunas raivosas nos jornais, quando ameaçados, em qualquer dimensão, nos privilégios de seu lugar intermediário.

Passaram a história do Brasil pleiteando melhores salários e condições, e agora não hesitam em tachar os pobres de vendidos, quando estes podem finalmente votar em quem os contempla com renda e acesso.

Acusam os pobres de não saber consumir, mas estão cobertos, da sola dos pés à ponta dos cabelos, de marcas e produtos. É só vê-los desfilando nos aeroportos, o lugar onde desde criança aprenderam a exibir os selos de sua casta.

Sua parafernália de roupas, eletrônicos, cosméticos, tratamentos, sessões de análise — nada disso seria consumismo. Consumista é sempre o outro, que não pode controlar os apetites. É sempre o outro, o descerebrado que o império capitalista submete com pão e circo, alienado, estupidificado, mediocritizado.

Quanta falta de generosidade, de crença nas pessoas, quanto preconceito disfarçado de humanismo e esquerdismo!

O lulismo não criou uma nova classe.

Essa nova classe — essa classe selvagem sem nome, suas mil raças consideradas “inferiores” que agora se afirmam — é que conferiu as bases materiais para que algo como o evento Lula ou o lulismo — o que de mais democrático e democratizante já aconteceu no Brasil — pudesse existir.

O governo Lula é uma peça de uma engrenagem maior, um processo mais amplo e profundo, político e antropológico, e cujo índice mais visível se situa na franja dos anos 1980, no contexto da fundação do Partido dos Trabalhadores.

O ressentimento coagulado como antipetismo perde de vista que o evento Lula, com todas as limitações, contradições e paradoxos, foi exatamente o que não traiu a configuração de forças nas bases originais do PT. Traíram a composição de forças que mudou o Brasil nos últimos tempos aqueles que acreditam que a nova classe deva se filiar à moral deles mesmos, seguir suas referências, ouvir a sua ciência credenciada. Como se os pobres tivessem alguma dívida com a Esquerda, o Socialismo ou, suprema piada, o Planeta!

Não adianta tentar convencer com pedagogias. Muito menos tentar pilotar o monstro. Se o governo Lula pôde sobreviver aos piores ataques moralistas, e das piores crises do capitalismo de todos os tempos, foi porque governou junto com o monstro.

A reaparição do mensalão e a crítica moralista sobre a “classe C” tentam a todo custo desacreditar essa memória de lutas e conquistas.

Se tem algo a aprender hoje com o lulismo, é construir junto com o monstro, sem julgá-lo, sem tentar enquadrá-lo a velhos esquemas, construir por dentro, de seu estômago, de seu sexo, de sua rudeza pagã.

O governo Lula aprendeu com o monstro. Agasalhou-o, amou e deixou-se amar por ele.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mundo revolto, Brasil agitado


Enviado pelo pessoal da Vila Vudu
Publicado inicialmente no sítio Página PT13
Articulação de Esquerda 

Agosto de 2012 será um mês tenso. Em primeiro lugar no terreno internacional, onde se destacam quatro conflitos.

O primeiro deles é a guerra na Síria

Independentemente da avaliação que façamos sobre Assad, o partido Baath e o regime existente naquele país, o que está em curso não é propriamente uma rebelião pela democracia, mas sim uma batalha geopolítica impulsionada pelos Estados Unidos e aliados.

Uma eventual deposição de Assad não resultará em democracia, nem bem-estar na Síria. Quem duvida disto, deve olhar o que se passou no Afeganistão, Iraque e Líbia. O que teremos será mais instabilidade regional e a estrada aberta para um ataque direto contra o Irã.

O que parece estar muito claro para a presidenta Dilma, mas não parece estar tão claro para setores do Itamaraty, que têm dado declarações, subscrito notas e aprovado resoluções aparentemente imparciais, mas que na melhor das hipóteses demonstram falta de percepção acerca do que efetivamente está em jogo.

É preciso que o Brasil adote uma postura mais forte, não apenas contra a intervenção militar estrangeira na Síria, mas também denunciando a intervenção militar que já está em curso.

O segundo conflito é a crise na Europa

Como era previsível, a vitória dos Socialistas franceses não alterou o curso geral da política da União Européia. Isto significa que principalmente Espanha, Itália e Portugal –além de Grécia—continuam submetidos ao estrangulamento de suas políticas sociais e a perda da soberania nacional. Embora a esquerda consequente esteja presente, mobilizada e crescendo, a ultra-direita está se fortalecendo (vide os resultados obtidos na Grécia e na França pelo nacionalismo fascista e racista) e na prática imediata tem ajudado a dar maior liberdade para a política externa dos Estados Unidos.

É preciso que o PT e a esquerda latinoamericana tirem os ensinamentos da crise européia, não apenas no que diz respeito à natureza periodicamente catastrófica do capitalismo, mas também quanto ao caminho para superar o neoliberalismo, que passa por derrotar o capital financeiro e as transnacionais. Sem ter isso claro, o destino da esquerda social-democrata será o pântano social-liberal.

O terceiro conflito que marca a conjuntura internacional é a campanha eleitoral na Venezuela

Hugo Chávez segue liderando as pesquisas e, por isto mesmo, a direita latinoamericana e seus patrões gringos buscam pintar um quadro eleitoral diferente do real, preparando o ambiente para um questionamento pós-7 de outubro.

Deste ponto de vista, a integração da Venezuela ao MERCOSUL, além de vantajosa para todos os países e para o processo regional, constitui também um instrumento de proteção para a chamada Revolução Bolivariana, contra eventuais tentativas de intervenção estrangeira.

É preciso acelerar a integração, ampliar o mais rapidamente que for possível o MERCOSUL –através da adesão de Equador e Bolívia, fortalecer os mecanismos da UNASUL e, também, apoiar a esquerda paraguaia, para que derrote nas ruas e nas urnas o golpismo.

Para tudo isto, é importante ampliar os recursos humanos e materiais dedicados à atuação internacional do PT.

O quarto conflito é a eleição presidencial, em novembro, nos Estados Unidos

Embora o mais provável ainda seja a vitória de Obama, não devemos subestimar a força da direita cavernícola expressa pela candidatura republicana. Nem devemos esquecer que Obama –no terreno da política externa—assumiu a pauta da direita do Partido Democrata, capitaneada pela senhora Hillary Clinton. Ou seja, se a vitória de Romney projeta uma hecatombe, a de Obama não significa um desanuviamento. Neste sentido, uma alternativa positiva só pode surgir da organização político-social independente da classe trabalhadora estadunidense, a começar pelos migrantes latinos.

No cenário nacional, o mês de agosto de 2012 também será muito tenso

De cara, temos o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do chamado mensalão.

Dizemos do chamado, porque o próprio autor do termo –o então deputado Roberto Jefferson, ainda hoje dirigente do Partido Trabalhista Brasileiro— reconheceu em seu depoimento à Justiça que ele inventou este termo, admitindo não ter existido pagamento mensal para que parlamentares votassem de acordo com as posições do governo federal.

Dizemos julgamento no STF, mas deveríamos acrescentar: & linchamento na mídia. Os grandes meios de comunicação estão alinhados em torno de uma posição única, que lembra a rainha de Alice no País das Maravilhas: cortar cabeças (no caso, condenar e prender).

Como não existe mobilização social –nem a favor, nem contra os réus—os meios de comunicação estão fazendo um esforço imenso para provocar tal mobilização, seja nas ruas, seja nas urnas, direcionando-a contra o PT.

Para isto, fazem uma cobertura totalmente parcial do julgamento. Exemplo desta cobertura parcial é o silêncio acerca dos dois pesos e duas medidas adotados pelo Supremo Tribunal Federal, no tratamento do chamado mensalão (que certa imprensa adjetiva como petista) versus o tratamento dado ao caso envolvendo tucanos (que a mesma imprensa prefere chamar de mensalinho mineiro).

O caso tucano ocorreu antes, mas ainda não foi a julgamento; e neste caso, o STF decidiu desmembrar o processo. No caso que envolve réus petistas, manteve tudo no Supremo e antecipou o julgamento. E não por acaso as sessões foram marcadas para iniciar em agosto, coincidindo com as eleições municipais.

A verdade é que a mídia monopolista está fazendo um brutal esforço para que os réus sejam condenados, especialmente aqueles cuja condenação possa causar danos ao Partido dos Trabalhadores.

Como não podia deixar de ser, a desfaçatez e a hipocrisia da direita geram um movimento de solidariedade aos réus vinculados ao Partido. É natural que isto ocorra: embora o Partido não esteja sob julgamento, esta é a pretensão da direita e da mídia. Neste contexto, é importante deixar clara nossa posição, até para que não se confunda a defesa irrestrita que fazemos do Partido frente a direita, com a defesa, esquecimento ou anistia dos erros cometidos.

Em primeiro lugar, reiteramos as posições que defendemos acerca das causas da crise de 2005, acerca dos erros políticos cometidos por importantes dirigentes do Partido, acerca do pano de fundo estratégico destes erros, bem como reiteramos a defesa que o PT faz sobre a necessidade de adotar o financiamento público de campanhas eleitorais. Esta posição pode ser assim resumida: o financiamento privado empresarial gera uma democracia corrompida, como a que existe nos Estados Unidos, onde como disse um famoso escritor, pode-se ter o melhor governo que o dinheiro pode comprar.

Por isto mesmo, reiteramos nosso posicionamento e nosso voto, nos debates travados no interior do Partido dos Trabalhadores. Seja na eleição das direções partidárias, seja no Diretório Nacional, seja nos temas éticos, votamos contra os que colocaram em risco a sobrevivência do PT.

Em segundo lugar, entendemos que o julgamento político cabível num Partido, não cabe na Justiça. Os critérios do Partido, não são os critérios da Justiça. O que é legal para a Justiça, não necessariamente é legítimo para o Partido. E o que é legítimo para o Partido, não necessariamente é legal perante a Justiça. É o caso, por exemplo, das ocupações de terra.

Também por isto, sempre criticamos submeter à Justiça Eleitoral as decisões adotadas pelo Partido (como fizeram, para citar dois exemplos politicamente opostos, tanto Wladimir Palmeira em 1998 quanto João da Costa em 2012).

A ausência de controle democrático, a falta de transparência, os critério de seleção e promoção, o modus operandi, aliado a legislação voltada no fundamental para defender o status quo e o direito dos grandes proprietários privados, fazem da Justiça o terreno privilegiado da burguesia, não da classe trabalhadora.

Mesmo assim, no Supremo Tribunal Federal e em qualquer outra instância judicial, exigimos que eventuais condenações estejam baseadas na lei, sustentadas em provas, com pleno direito à defesa, cabendo ao acusador o ônus de provar, garantida a inocência do acusado até prova em contrário. Estas são as premissas básicas para que, mesmo quando questionamos o mérito das decisões, elas possam ser formalmente legítimas.

A oposição de direita e a mídia monopolista não estão preocupadas com isto. Pretendem que o Supremo Tribunal Federal atue como seu Partido, ou seja: que no comando esteja a política que defendem, não a Lei. Por isso, se a aplicação da Lei indicar que os réus devem ser absolvidos, eles buscarão corrigir a conhecida máxima da seguinte forma: aos amigos tudo, aos inimigos nem mesmo a Lei.

Sabendo disto, mesmo levando em consideração que há réus contra os quais não há provas que permitam uma condenação; mesmo lembrando as surpresas positivas que podem derivar da composição e do funcionamento do Supremo Tribunal Federal; mesmo considerando que a pressão excessiva por parte da mídia pode provocar, sobre alguns ministros do Supremo, um efeito oposto ao pretendido pela direita; devemos preparar politicamente o Partido para a condenação de diversos réus ligados ao PT, o que terá algum impacto sobre o transcorrer das eleições e sobre seu resultado final, especialmente se as penas forem duras.

Devemos nos preparar, não exatamente para um impacto direto sobre as intenções de voto do grande eleitorado, que em 2006 e 2010 já se manifestou, reelegendo Lula e Dilma; sendo que a preferência popular pelo PT é hoje superior a dos demais partidos somados. Mas uma eventual condenação pode impactar tanto em situações municipais específicas, quanto na capacidade de mobilização militante do petismo, extremamente necessária em algumas cidades, especialmente nas semanas que antecedem o horário eleitoral gratuito.

Além disso, uma condenação terá impacto de médio prazo sobre a imagem do PT, em alguns setores da população. Não podemos subestimar os efeitos da campanha corrosiva, insidiosa e cotidiana que se faz contra nosso Partido; ao invés de subestimar, nos cabe defender o PT, reconhecer e corrigir os erros, enfrentar e derrotar a direita.

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Um segundo elemento do cenário nacional é, exatamente, a eleição municipal. Na maior parte do país, ainda estamos numa fase de aquecimento das campanhas: só nos últimos dez dias deste mês de agosto, com o início da campanha na televisão, é que a campanha vai tomar conta do cotidiano nacional.

Será neste momento que veremos quais candidaturas petistas souberam apropriar-se da força do voto potencial no PT; e quais candidaturas aparecerão, aos olhos do eleitor médio, como sendo as sintonizadas com a obra dos governos Lula e Dilma. Sintonia que é fortemente disputada, contra o PT, por partidos que fazem parte da base do governo, conduzindo a uma situação perigosa, que alguns querem resolver de maneira tão perigosa quanto: ampliando o espaço do PMDB.

Ainda é cedo para avaliações definitivas, mas é preciso entretanto acender o sinal amarelo: se dependesse da situação atual, o quadro nacional estaria mais para negativo do que para positivo. Motivo pelo qual não basta esperar que as coisas melhorem, após o início do horário eleitoral gratuito. É preciso fazer um esforço imenso para mobilizar a militância e politizar as campanhas, inclusive para neutralizar a tentativa que a mídia faz para desgastar o PT.
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É preciso levar em conta, também –este é o terceiro elemento do cenário nacional— que o resultado eleitoral está fortemente vinculado ao maior ou menor êxito do governo, nas medidas que visam manter a atividade econômica em níveis compatíveis com a geração de empregos e salários de qualidade. Deste ponto de vista, a batalha contra o setor financeiro e contra as transnacionais segue na ordem do dia.

Motivo pelo qual apoiamos os trabalhadores da General Motors. As demissões, apesar dos subsídios e incentivos recebidos do governo por todo o setor automobilístico, constituem nada menos que um acinte. Frente a isto, esperamos do ministério da Fazenda uma atitude pelo menos tão firme quanto a da presidenta Dilma, que já deixou claro que subsídio deve estar vinculado a manutenção de empregos.

Neste sentido, nos congratulamos com as posições firmes adotadas pela Central Única dos Trabalhadores e reiteramos a necessidade do movimento social se manter mobilizado em torno de suas demandas. Pelos mesmos motivos, reafirmamos o conteúdo da nota Valorização do funcionalismo, encaminhada por nós à direção nacional do Partido dos Trabalhadores.

Tal nota encerra dizendo que:

A valorização do funcionalismo público não pode ser interditada em nome de suposta necessidade de contingenciamento orçamentário. A experiência dos anos recentes já demonstrou que a melhor maneira de enfrentarmos os efeitos (e as raízes) da crise econômica internacional é aumentar o gasto público com equivalente aumento da capacidade geral do Estado em prover serviços e infraestrura de qualidade para o conjunto da população. Cabe ao PT cumprir um papel ativo na tentativa de fortalecer os canais de diálogo e negociação efetiva entre o governo e o movimento sindical do funcionalismo.

A atitude do governo em relação às reivindicações do funcionalismo está estruturalmente relacionada com o esgotamento da estratégia de crescimento via ampliação do consumo de massas, sem mudanças na estrutura de investimentos, produção e propriedade.

É óbvio que o acréscimo no poder de compra do funcionalismo, com os justos aumentos pedidos, vai pressionar a demanda. Mas este problema não pode ser resolvido como deseja o setor conservador da equipe econômica, que parece acreditar que este problema pode ser resolvido voltando ao velho método do arrocho que tanto combatemos.

A solução virtuosa passa pela ampliação combinada dos investimentos, da produção e do consumo. Temas que precisam entrar urgentemente na pauta de discussão do Partido, antes que o debate sobre a estratégia de crescimento se torne a questão política central da oposição contra nós.

As dificuldades do mês de agosto confirmam, portanto, algo que temos destacado desde 2005: nosso Partido precisa retomar o debate estratégico.

A defesa do socialismo e das reformas estruturais, como a agrária e a urbana; a reconstrução do campo democrático-popular, envolvendo os partidos de esquerda e os movimentos sociais em torno de um programa de transformações; a reforma política, a democratização da comunicação, as medidas de proteção da economia e da soberania nacionais; assim como a ampliação da nossa organicidade militante precisam receber atenção permanente, de uma direção partidária que pretenda ser algo mais do que administradora de campanhas eleitorais bianuais.

Brasília, 13 de agosto
A Direção Nacional da Articulação de Esquerda