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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dupla explosão em Volgogrado (1ª avaliação)

30/12/2013, The Saker, Blog The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
A recente dupla explosão em Volgogrado (ex-Stalingrado) manifesta escalada considerável na guerra de baixo nível, mas ininterrupta, que opõe insurgentes wahhabistas não só ao Kremlin, mas também às tradicionais autoridades muçulmanas na Rússia. Antes de examinar o que esses dois recentes ataques podem significar para a Rússia em geral e para os próximos Jogos Olímpicos de Sochi, será útil reunir aqui alguns fatos básicos.

Explosão de um ônibus, um dos 2 atentados em Volgogrado na Rússia em 23/12/2013
Chechênia

Primeiro, é erro assumir que qualquer ato terrorista “islâmico” cometido na Rússia, sempre envolveria chechenos. A realidade é que a Chechênia não apenas “foi pacificada”: está hoje realmente em paz. O líder checheno, Ramzan Kadyrov, realmente operou um milagre, quando converteu o “buraco negro” checheno, devastado pela guerra, em república próspera e REALMENTE em paz.

O fato de esse milagre não ter sido jamais nem noticiado nem ridicularizado pelos veículos da imprensa-empresa anglo-sionista, que chegou a publicar que a insurgência chechena jamais seria destruída, faz perfeito sentido: seria politicamente impensável, para o bloco anglo-sionista, admitir esse sucesso local.

Mesmo assim, o fato de um jovem, com perfeita aparência externa de bandido checheno, ter-se revelado líder político extremamente capaz, inteligente e esperto, é inegável. Embora nenhuma “guerra ao terror” possa ser jamais realmente “vencida”, é justo dizer que, pelo menos atualmente, o fenômeno do terrorismo checheno foi, sim, reduzido a quase zero. Infelizmente, se o futuro se abre radioso, para a Chechênia, as coisas estão infinitamente piores no vizinho Daguestão.

Mapa do sul da Rússia caucasiana com as repúblicas vizinhas
Daguestão

Chechênia e Daguestão são vizinhos, mas se fossem antípodas não seriam mais diferentes. Para começar, a Chechênia é habitada predominantemente, por chechenos, mas não existe sequer o adjetivo pátrio “daguestanês”: no Daguestão vivem mais de uma dúzia de diferentes grupos étnicos. De fato, o Daguestão é a mais diversificada de todas as repúblicas russas; ali, nenhum grupo constitui qualquer tipo de maioria. Esse aspecto é crucial, porque o fato de não haver um grupo étnico dominante significa que não há como surgir um “Kadyrov daguestanês”.

Segundo, a economia do Daguestão está em mãos de elites muito corruptas, que lutam entre elas e entre outros clãs. Em termos práticos, significa que a “receita” usada na Chechênia (dar a um líder checheno local nível máximo de autonomia e autoridade) seria um desastre para o Daguestão. A”‘solução” para o Daguestão envolve provavelmente intervenção forçada do Centro Federal e a destruição do atual sistema clânico baseado nas etnias – coisa que ninguém no Kremlin vê como possibilidade a tentar.

Por hora, contudo, o Daguestão é o ninho, para o terrorismo wahhabista. Alguém pode dizer que o câncer wahhabista tomou conta, primeiro, da Chechênia, e disseminou-se para o Daguestão enquanto era destruído na Chechênia. A extrema pobreza do Daguestão, combinada aos milhões de dólares fornecidos pelos sauditas aos seus aliados e agentes facilitou muito para eles a operação de implantar sua griffe de wahhabismo no Daguestão e recrutar agentes locais de influência e terroristas.

Mapa étnico do cáucaso russo e a diversidade do Daguestão
(clique no mapa para aumentar)
Os terroristas daguestaneses aprenderam bem as lições da Chechênia e jamais tentaram tomar posse de qualquer território ou criar alguma espécie de “estado” wahhabista no Daguestão. Exatamente o contrário disso: dia após dia, após dia, após dia, as forças de segurança combatem os terroristas daguestaneses, os quais, na maioria das vezes acabam presos ou mortos (mais frequentemente, mortos). A razão disso é óbvia: os terroristas daguestaneses são fracos e não conseguem impor-se nem à polícia local. Mas são suficientemente fortes para amarrar um colete de explosivos na cintura de um adolescente ou de um adulto jovem, homem ou mulher, e mandá-los explodirem-se numa estação de ônibus ou de trem.

Wahhabistas no resto da Rússia

Também seria erro assumir que todo o terrorismo wahhabista na Rússia teria de vir do Daguestão ou mesmo do Cáucaso. Os wahhabistas financiados pelos sauditas estão recrutando literalmente por todos os cantos – do sul da Rússia a São Petersburgo e, nas duas direções, do Tartarstão a Moscou. Resultado disso, há russos étnicos envolvidos em atos terroristas wahhabistas. Resumo disso tudo: o terrorismo wahhabista na Rússia não é nem problema regional nem problema étnico; é problema ideológico. Assim sendo, que ninguém pule diretamente a qualquer conclusão. Não se pode assumir coisa alguma sobre quem estaria por trás dos últimos ataques; literalmente, pode ser qualquer um.

De Volgogrado a Sochi?

Volgogrado tem sido cenário de vários ataques terroristas no passado recente, e os dois mais recentes são apenas isso: os mais recentes de uma longa série. Por que Volgogrado?

Bem... Volgogrado – com Rostov-sobre-o-Don e Krasnodar – é uma das maiores cidades do sul da Rússia e é suficientemente perto do Daguestão para permitir que os wahhabistas dagestaneses (assumindo-se que estejam envolvidos) organizem um ataque terrorista naquela cidade. Na verdade, entre Daguestão e Volgogrado a distância é praticamente igual à que separa o Daguestão e Sochi. Não é pensamento agradável.

Os estados caucasianos do sul da Rússia e as distâncias referidas
Outro fator que deve ter pesado na decisão dos terroristas de atacarem em Volgogrado é que a expressiva maioria dos esforços contraterroristas russos estão atualmente concentrados em, e em torno de, Sochi. Uma das regras básicas do contraterrorismo ensina que sempre há mais alvos a proteger, que recursos para protegê-los. Ainda que Volgogrado estivesse totalmente fechada e protegida, o terrorista poderia ter escolhido Astracã, Elista, Savropol ou qualquer outra cidade. Meu palpite é que a infraestrutura local e federal de segurança está focada, basicamente, em proteger a infraestrutura dos Jogos Olímpicos; assim, Volgogrado pode ter ficado mais exposta que o “normal”.

O que se sabe até agora?

Pavel Pechenkin
Recebi muitas mensagens, diretas, por e-mail, ou na seção de comentários, de pessoas que me perguntam se penso que os recentes ataques são efeito de ameaças recentes dos sauditas. Honestamente: ainda não sei, é muito cedo para dizer. Os russos estão trabalhando rápido e a imprensa noticiou que o suicida-bomba que explodiu a estação de trem ontem foi identificado como Pavel Pechenkin.

Que eu saiba, ainda não há confirmação oficial, e ainda estão sendo feitas análises de DNA. Se for verdade, o indício apontará para um grupo de russos étnicos que deve incluir Dimitri Sokolov, recentemente morto por forças de segurança; era russo étnico que vivia no Daguestão e que se ligou a um grupo terrorista na cidade de Makhachkala. Contudo, é interessante registrar que seu contato com os wahhabistas clandestinos não começou no Daguestão, mas numa mesquita em Moscou, onde se inscreveu para aulas do idioma árabe. Sokolov era amante de Naida Asiialova, também suicida-bomba, que se autoexplodiu num ônibus lotado em Volgogrado em outubro desse ano. Pechenkin, Sokolov e Asiialova aparentemente eram parte da mesma célula terrorista que, embora baseada no Daguestão, incluía russos étnicos.

Dimitri Sokolov                                           Naida Asiialova
Esse grupo é muito bem conhecido dos serviços de segurança russos. Os pais de Sokolov e Pechenkin apareceram várias vezes na mídia russa, implorando que os filhos não cometessem atos violentos e que abandonassem a vida de terroristas. Embora evidentemente trabalhassem com cúmplices, Sokolov e Pechenkin eram a imagem pública desse grupo e, tanto quanto sei, não há outras figuras importantes nessa célula, que os serviços de segurança já não tenham apanhado.

Por enquanto – e essa é uma avaliação muito preliminar – não se veem “impressões digitais” sauditas nesses ataques. Parecem ser o que os norte-americanos chamam de “terror doméstico”. Se alguma pegada saudita há aí, está na quantidade massiva de dinheiro que os sauditas fornecem a mesquitas wahhabistas na Rússia (e em todo o mundo).

Opções russas internas

Como H.L.Mencken escreveu, “para todo problema complexo sempre há uma resposta clara, simples e errada”. Nesse caso, a solução simples é fechar todas as mesquitas ligadas a wahhabistas na Rússia, e algumas cabeças-fracas na Rússia já manifestaram desejo de ver acontecer precisamente isso. Há inúmeros problemas com essa “solução”.

Vladimir Putin
1). Seria, numa palavra, ilegal. A Rússia (finalmente!) tornou-se país no qual (mais ou menos) a lei é respeitada, ou, pelo menos, a Rússia está a caminho de vir a ser esse tipo de país. Certo é que a vasta maioria dos russos querem que o país deles torne-se país normal, civilizado, onde a lei está no centro da vida política. Fechar mesquitas seria, simplesmente, ilegal. Para começar, fechar mesquitas por quê? Por “suspeita de wahhabismo”? Não há lei na Rússia que proíba o wahhabismo. Por receberem dinheiro? Também não é proibido. Por estarem ligadas a redes terroristas? Sim, seria ilegal, mas é preciso provar a ligação, o que é muito difícil, e não há meio para fazer “colar” esse tipo de “acusação”, em tribunais legais, contra muitas daquelas mesquitas.

Resumo, até aqui: Putin não é ditador e não pode agir à margem da lei russa. De fato, nem quer.

2). Seria também imoral. Vivi durante muitos anos literalmente ao lado de uma grande mesquita integralmente financiada pelos sauditas e, que eu saiba, nem aquela mesquita jamais teve algo a ver com terrorismo, nem as pessoas que frequentavam aquela mesquita jamais cometeram sequer algum pequeno crime. Deus sabe que odeio, do fundo do coração e da mente, a ideologia wahhabista. Mas isso não implica que a maioria dos wahhabistas sejam bandidos, ou ligados ao terrorismo. A maioria não é, nem se pode convertê-los em, bodes expiatórios para ações de outras pessoas. Sou absolutamente a favor da destruição física de todos os terroristas wahhabista que haja no mundo, mas, enquanto não se armam e põem-se a matar seres humanos, os seguidores de Ibn Taymiyyah, Ahmad ibn Hanbal e Muhammad ibn Abd al-Wahhab não podem ser forçados a pagar por atos de outros.

3). Seria contraproducente. A favor de deixar livres para operar as mesquitas ligadas aos wahhabistas, pesa, sim, também, a evidência de que muitas delas oferecem às forças de segurança um “elo fraco” e alvo perfeito, pelo qual podem entrar e mantê-las sob observação. Fechem aquelas mesquitas, e os terroristas que ali haja serão empurrados para a clandestinidade, espaço sempre muito mais difícil para qualquer tipo de infiltração. De fato, as mesquitas ligadas aos wahhabistas podem até ser usadas como pote de mel para atrair, identificar e prender terroristas domésticos.

Não. O melhor modo de lidar com a propaganda e o terror financiados pelos sauditas é apoiar organizações islamistas tradicionais, anti-wahhabistas, e líderes religiosos. Há muitos, muitos muçulmanos inteligentes e bem educados na Rússia, inclusive alguns imãs bem conhecidos, que podem fazer a luta espiritual e de ideias contra os terroristas wahhabistas e denunciá-los pelo que realmente são. O estado russo deve:

(a) proteger fisicamente essas pessoas;
(b) ouvi-los e ouvir a avaliação que façam da situação atual;
(c) explicar à população não muçulmana que aquelas figuras religiosas são aliados vitalmente importantes na luta contra o terrorismo wahhabista.

E se se encontrarem pegadas sauditas?

Aí está um grande “se”! Mas assumamos, só para argumentar, que os russos descubram alguma espécie de “impressão digital” saudita nesses ataques, ou em outros, durante os Jogos Olímpicos, e examine várias respostas russas:

Base naval russa de Tartus na Síria (vista aérea)
1). Ataque aberto, de retaliação, contra a Arábia Saudita:

Em termos puramente militares, coisa facílima de fazer. Os russos poderiam atacar com bombardeiros, mísseis cruzadores disparados de submarinos, mísseis balísticos – de fato, tudo, qualquer coisa. Os EUA manifestariam todas as variantes de ofensa e ultraje, mas o CENTCOM faria absolutamente nada, porque o propósito original do CENTCOM era impedir invasão soviética no Irã, não defender os sauditas contra ataque russo de retaliação. O problema, nessa resposta, é que seria ilegal nos termos da lei internacional; e a Rússia não quer saber desse tipo de problema. Se a Rússia decidir acusar oficialmente e publicamente a Arábia Saudita, de ataques terroristas contra a Rússia, terá de ir ao Conselho de Segurança da ONU ou à Corte Internacional de Justiça, e encaminhar legalmente o próprio caso.

Conselho de Segurança da ONU
2). Registrar queixa oficial na Corte Internacional de Justiça e tentar arrancar do Conselho de Segurança da ONU um voto de condenação contra o Reino da Arábia Saudita:

Essa é opção clara e limpa, porque poria os sauditas em posição política muito embaraçosa. Dependendo dos termos da Resolução, os EUA podem ou abster-se de votar ou vetar a proposta de resolução, porque, não importa quantos e quais problemas haja atualmente entre os dois lados, EUA e Reino Saudita são ainda aliados estratégicos. Mesmo assim, a queixa oficial russa contra o regime saudita jogaria mais um ovo no nariz dos macacos medievais no poder em Riad. Pessoalmente, gostaria que acontecesse. Mas não faz o estilo de Putin – que prefere diplomacia em chave muito mais discreta.

3). Ataque não aberto de retaliação, contra a Arábia Saudita:

Também nada difícil de fazer com os meios do Kremlin, não só porque poderia usar capacidades russas para atingir um ou dois príncipes sauditas, mas porque poderia facilmente subempreitar o serviço, transferindo-o a força aliada. O problema nesse caso é que, ainda que resposta de retaliação, mesmo assim seria ato de terrorismo.

Ibn al-Khattab
Até hoje, o único caso que eu conheça de os russos assassinarem alguém foi quando mataram Ibn al-Khattab, terrorista conhecido e procurado: os serviços especiais russos interceptaram uma carta endereçada a Khattab, trataram a carta com um veneno especial que nada causaria a ninguém, exceto ao próprio Khattab (coisa muito mais efetiva e método muito mais sofisticado que a bobagem de que os russos são acusados, de que usariam polônio para matar alguém). Mas naquele caso, os russos admitiram o papel que tiveram, e até fizeram declarações mais ou menos oficiais, fornecendo detalhes da operação. Foi assassinato que usou métodos não abertos, mas não foi propriamente operação não aberta completa, porque os russos voluntariamente admitiram que estavam por trás de tudo aquilo. Khattab era bandido de tal ordem que ninguém mentalmente são manifestou qualquer problema contra a ação: é um daqueles raros casos, claros, branco e preto, caso em que ninguém discorda, em que praticamente toda a humanidade concorda que o executado realmente teve o que merecia e que se fez justiça. Mas aquele caso foi absolutamente excepcional. Na grande maioria das vezes, as chamadas “operações secretas” não passam de eufemismo para (contra)ataque terrorista, vale dizer: ato que nenhum país civilizado deve cometer ou admitir.

4). Nesse caso... fazer o quê? Com vistas ao longo prazo:

Dick Cheney
Numa luta contra o terrorismo, é absolutamente vital manter alta a moral em campo: você tem de fazer o máximo, para negar ao inimigo o status de “combatente da liberdade”. Para fazer isso, é absolutamente necessário que você conserve as suas mãos o mais limpas possível; e você só deve engajar-se em ações que, se descobertas, o mostrarão como gente honrada. A noção de Dick Cheney, segundo o qual, em dado momento, “[agora] tiramos as luvas” é reflexo de seu pensamento absolutamente sem refinamento e sofisticação. O mesmo se pode dizer da “negabilidade plausível”, da CIA. O resultado dessa autoilusão é que os EUA são odiados e desprezados em todo o mundo, e literalmente, não há ação vil, vergonhosa ou estúpida que alguém não acredite facilmente que possa ter sido cometida pela comunidade norte-americana de operações secretas. Por que a Rússia desejaria tornar-se “o vilão da hora” (outra vez)?!

Pessoalmente, entendo que é crucial, para país civilizado, manter sua política oficial, pública, declaratória, em harmonia com o que faz por trás do palco. Nada há de inerentemente errado em operações clandestinas, se forem conduzidas de modo tal que os que as ordenam continuem a mostrar atitude racional e honrada, no caso de a operação ser descoberta. A Rússia não pode falar constantemente do papel crucial que deve ter a lei internacional nas relações internacionais, e, de repente, sem mais nem menos, pôr-se a violar as leis internacionais mais básicas.

Por essa razão, qualquer uso de força (militar ou de serviços especiais) pela Rússia terá de basear-se nos seguintes princípios:

a). Só depois de todas as opções não violentas terem sido tentadas ou quando seja absolutamente impossível pô-las em prática.
b) A força usada tem de ser proporcional ao ataque que a provocou.
c) Todos os esforços devem ser empreendidos, para evitar que inocentes sejam mortos, feridos ou atingidos de qualquer modo.

Soa como fala de Poliana? Pois não deveria soar assim.

Décadas de uso absolutamente irresponsável, temerário e impiedoso da força, por EUA, Israel, europeus, e soviéticos acabaram por nos dessensibilizar: já poucos percebem que a violência é fundamentalmente imoral. “Educados” como fomos muitos de nós pelos filmes de John Wayne e pelos governos de Ronald Reagan, perdemos a capacidade de nos horrorizar, como se horrorizaria qualquer pessoa civilizada, com a feiúra e a imoralidade da violência. Pior: estamos tão condicionados por décadas de audiência ante os televisores, assistindo a “reportagens especiais” da CNN, a repetir o mais recente briefing sobre uma ou outra intervenção militar norte-americana, que já esquecemos que “atirar sem sacar a arma do coldre” é o meio menos eficiente de lidar com qualquer problema.

Quando se enfrenta questão como o terrorismo, o melhor é, sempre, planejar para o longo prazo. Desse ponto de vista, entendo que o regime saudita é problema suficientemente grande, para merecer ser considerado como ameaça inerente à segurança nacional da Rússia; e isso, por sua vez, implica que a Rússia deve ter, como objetivo de sua estratégia de segurança nacional, obter mudança de regime no Reino da Arábia Saudita.

Mas essa meta deve ser buscada exclusivamente ou, no mínimo, principalmente, mediante meios legais. Por exemplo, armando iranianos e sírios os quais, por sua vez, armarão o Hezbollah. A mesma meta pode também ser alcançada isolando a Arábia Saudita no cenário internacional, mediante “consultas” com aliados e nações amigas. Além disso, a Rússia deve buscar ampliar seu papel e sua influência no mundo muçulmano e árabe, para contra-atacar a atual influência dos sauditas e de outras monarquias do Golfo.

No curto prazo, o público russo tem de ser abertamente informado de que o terrorismo não pode ser erradicado; que qualquer ideia nessa direção é delírio de fumaças alimentadas por políticos desonestos. Mas se nenhuma nação ou governo conseguirá jamais erradicar o terrorismo, é possível aprender a conviver com ele. Afinal, o número total de vítimas de terrorismo é extremamente pequeno; muito, muito menor que o número de vítimas, digamos, de acidentes de carro. O real poder do terrorismo está no efeito psicológico que tem, não sobre as vítimas diretas, mas sobre as testemunhas. Tão logo a opinião pública aceite a ideia de que é possível reduzir ao mínimo o número de ataques terroristas, mesmo que alguns sempre possam ocorrer, o terrorismo perderá a única força que realmente tem.

O terrorismo tem de ser aceito como fato da vida [exatamente o que a imprensa-empresa do capital existe para IMPEDIR que aconteça (NTs)], porque, se não for assim, qualquer país sempre acabará arrastado para uma interminável espiral de medidas perfeitamente inócuas de contraterrorismo, que são, de fato, muito mais daninhas à vida social que o terrorismo que as inspirou.

Será que interessa à Rússia converter-se em estado paranoico fascista aterrorizado, como são hoje os EUA? Não será mais produtivo aceitar o fato de que o terrorismo jamais será “derrotado”, e tocar a vida do melhor modo possível, nesse mundo sempre tão perigoso?

Já há políticos russos debatendo acaloradamente a importância de suspender a atual “moratória” que suspendeu a pena de morte no país: Nikolay Pligin, deputado do Partido Rússia Unida, e presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Parlamento Russo, declarou que:

(...) nenhum grupo social será discriminado, nenhuma atividade especial será dirigida contra nenhum grupo específico – todas as atividades serão conduzidas estritamente segundo as normas constitucionais e a lei vigente.

Ramzan Kadyrov
E Ramzan Kadyrov exigiu que o Parlamento

(...) aumente infinitamente a pena para os que, não apenas cometam atos terroristas, mas também partilhem as ideias dos terroristas, disseminem sua ideologia e lhes deem treinamento. Estou absolutamente convencido de que não venceremos esse mal só com democracia e humanidade.

Ora... Pelo menos os dois concordam que o lugar certo para discutir a questão e decidir sobre quais políticas adotar é o Parlamento. Espero que a Duma se manifeste com clareza e dê ao Kremlin as leis de que o Kremlin precise. Porque, de fato, a decisão real estará nas mãos de Putin.

Pessoalmente, tenho confiança de que Putin se pautará estritamente pela letra e pelo espírito da lei nacional russa e pela lei internacional. E que não haverá excessos, na reação russa.

[assina] The Saker




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Sauditas, Síria e a tal “volta do chicote”

19/12/2013, [*] Gary Brecher - The War Nerd  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Sauditas financiam o terrorismo no Oriente Médio, principalmente na Síria
Muita gente anda dizendo que os sauditas estão-se expondo ao risco de grandes calamidades, que desabariam sobre eles por apoiarem uma jihad contra o presidente Assad da Síria.

Segundo o [blog] Daily Beast: [1]

A Arábia Saudita está jogando perigoso jogo duplo – fingindo que não vê as levas de jihadistas que partem de Riad para a Síria, ao mesmo tempo em que repete, para o ocidente, o seu compromisso na luta contra o terror.

É a famosa teoria da “volta do chicote sobre o lombo do chicoteador” [orig. “blowback” theory]: a própria Arábia Saudita será o alvo, quando os sauditas que estão hoje na Síria voltarem para casa. Teria havido grave “volta do chicote”, nos dizem tantos, depois que uma geração de sauditas, o mais famoso dos quais, aquele cara magro e alto chamado Osama, partiu para sua jihad no Afeganistão; e pode acontecer outra vez.

Fácil ver que essa historia carrega implícita uma espécie de “justiça poética”: os sauditas colherão o que semearam, e o terror que infligem a outros recairá sobre eles. Eis uma dica para quem lê histórias de guerra: sempre que alguém falar dessa “justiça poética”, desconfie. Não há justiça poética; só muita, sempre, prosaica injustiça. Nem tudo que vai, volta. O Karma não é “injusto”: é mito. O único chicote que volta sobre os sauditas tem a ver com aqueles feijões gigantes (favas) que eles comem sem parar.

A teoria da “volta do chicote” repousa sobre o pressuposto de que os sauditas não passam de idiotas ricos, brincando com coisas poderosas demais para que saibam controlá-las. É fácil vê-los como tolos que, por pura sorte, encontraram a maior reserva de petróleo do mundo, ali sob a superfície do deserto deles. Sauditas tolos, é? Que nem sabe(ria)m com o que estão mexendo? Bom. É o que se lê na matéria de Daily Beast:

O governo saudita nada está fazendo para deter os [jihadistas sauditas] que partem do aeroporto de Riad – mais um sinal, dizem diplomatas ocidentais, de que o Reino jogou ao lixo qualquer cautela, no que tenha a ver com a guerra civil síria.

Terroristas sauditas combatendo na Síria
Examinemos outra ideia, uma outra teoria: de que os sauditas sabem exatamente o que estão fazendo. Que são gênios, no que tenha a ver com exportar o problema, ao mesmo tempo em que mantêm a calma em casa. Que outra facção no Oriente Médio mantém-se o poder há tanto tempo quanto a Casa de Saud? Estão no comando do “núcleo duro” da Península Arábica há um século, e durante esse século enterraram vários grupos que aspiravam a país e estado melhores, a começar pelos Al Rashidi, mais cosmopolitas, tolerantes e adaptáveis que os Sauds. Os Sauds logo os esmagaram.

Depois, vieram os comunistas. Já quase ninguém lembra do Oriente Médio, há 50 anos, cheio de marxistas árabes cultos, formados em universidades, que varreriam de lá as velhas monarquias retrógradas. Hoje, marxistas, na Síria, são só uma pequena milícia [guevarista] que combate ao lado de Assad, contra uma tsunami de jihadismo sunita.

O partido Ba’ath, que ia secularizar e modernizar o mundo árabe, viu sua ideologia evanescer completamente, e já nem Assad combate pelo socialismo pan-árabe.

O Oriente Médio foi sauditizado, enquanto nós olhávamos e ríamos dos ridículos sauditas que não compreendiam o progresso. Não surpreende que eles não se incomodem por parecerem idiotas. Se olhássemos a sério para eles, aí sim, os veríamos como são: aterradores.

E, de todas as suas muitas habilidades, a habilidade que os sauditas desenvolveram em mais alto grau é a habilidade para dividir, partir, rachar. Não as divisões, cortes, rachaduras bonitinhas à moda dos doidos por tecnologias, mas a coisa a sério, a própria coisa, a feia, a horrenda. 

Não estão “fingindo que não vêem” os jovens sauditas que embarcam em levas para fazer sua jihad: os sauditas os estimulam a fazê-la. É estratégia brilhante, que mata dois perigosos pássaros, só com uma passagem de avião. Ao exportar os seus jovens irados mais violentos, os sauditas livram-se de criadores potenciais de problemas, ao mesmo tempo em que minam por dentro e causam muita dor aos povos para onde voam aqueles homens jovens.

Os sauditas embarcaram dinheiro, sermões e voluntários para o Afeganistão, a Bósnia e o Cáucaso no norte da Rússia, precisamente como agora fazem na Síria. É um pacote: para receber o dinheiro, vocês têm de aceitar o wahhabismo e os voluntários. E funciona. O pacote saudita é duro de engolir, no começo, como foi para os afegãos ultrajados ao ouvir que seriam “maus muçulmanos”, como lhes diziam os voluntários sauditas.

Mas, com o tempo, o Islã afegão foi wahhabizado. O mesmo aconteceu, muito mais dramaticamente, na Chechênia, onde voluntários sauditas mostraram que não estavam brincando em matéria de guerra e religião, mudança bem recebida, depois dos imãs quase-soviéticos cooptados, que os chechenos conheceram antes. Sauditas como Ibn al-Khattab, Abu al-Walid e Muhannad (codinomes) ofereciam os únicos empregos reais que havia para homens jovens na Chechênia, e, no mesmo processo, faziam o serviço completo de envolver os chechenos naquela guerra sem fim, que matou coisa como 160 mil pessoas, ao mesmo tempo em que forçava as mulheres chechenas para o estilo de isolamento saudita, e que pôs a Chechênia sob controle de Ramzan Kadyrov, comandante de esquadrão da morte, já de segunda geração, que se encarregou da matança. É resultado típico da ajuda saudita: desastre para os “ajudados”, os chechenos; e também para os inimigos deles, os russos; mas grande vitória para os sauditas. O mesmo está acontecendo no resto do norte do Cáucaso russo, especialmente no Daguestão, onde vivem os pais dos bombardeadores da Maratona de Boston. 

Ramzam Kadyrov de chefe de "Esquadrão da Morte" a presidente da Chechênia
E um dos aspectos dessa vitória é a eliminação de homens jovens potencialmente criadores de problemas, que criariam problemas dentro da Arábia Saudita. A Jihad é como a princesa daqueles contos de fada: atrai em direção a ela todos os jovens príncipes mais audazes, que ali se põem a enfrentar testes e mais testes de seleção, na disputa por um prêmio que ninguém lhes pode garantir, o que, no processo, os mantém bem longe de casa, durante os anos mais ativos (e agressivos) da juventude. E, melhor ainda, do ponto de vista da Casa de Saud: muitos deles morrem. Os três maiores jihadistas sauditas na Chechênia, Khattab, Walid e Muhannad, todos tiveram morte violenta. A morte de Khattab, de fato, foi tecida com o mesmo material de que se tecem histórias de fada: os russos afinal o mataram com uma carta envenenada, impregnada com uma toxina absorvida pela pele. Umberto Eco roubou o método e fez dele seu O Nome da Rosa, pedante romance medieval “de suspense”.

Toda a agressividade desses jovens machos alfa sauditas despeja-se longe de casa – método que funcionou muito bem para os europeus durante o século 19. Exportaram a ameaça, a testosterona; e alguém, longe de casa, que desse conta delas. Hoje, a Síria é, para a Arábia Saudita, uma espécie de quarto de despejo para homens jovens incontroláveis, que contribuem para destruir um dos últimos regimes seculares que ainda sobrevive no mundo árabe.

Se se examina o modo como operam em Riad, converter a Síria em algo como a Europa Central durante a Guerra dos 30 Anos é política externa de manual acadêmico: despache a guerra para o território de qualquer outro país. Grã-Bretanha e EUA têm longa prática nesse tipo de exportação de guerras, mas operam de modo muito mais silencioso; os sauditas têm usado dinheiro e religião para incendiar a casa de seus rivais regionais. A Síria é a vítima mais recente, e já arde de modo bem satisfatório, do ponto de vista dos sunitas. Não só atrai e distrai os jovens sauditas mais agressivos e engajados; também contribui a favor do principal objetivo estratégico dos sauditas: destruir o Irã. A Síria de Assad é o único estado árabe em aliança com o Irã; quebrar essa aliança já seria, em si, imensa vitória – do modo como Riad vê as coisas. 

Os sauditas, como os israelenses, vivem perfeitamente confortáveis com o caos jihadista. O que eles não admitem é estado inimigo coeso.

Voltemos algumas décadas, e os sauditas enfrentavam invasão armada por um desses estados coesos: o Iraque de Saddam Hussein. Khafji, cidade saudita próxima à fronteira do Iraque, foi capturada por tropas de Saddam, em 1991, num ataque direto, com tanques.

Cidade de Khafji na Arábia Saudita
Naquele momento, as coisas estavam realmente feias para aqueles pobres, desamparados velhos sauditas, e não só porque seus soldados não lutavam: é que eles estavam do lado errado da história. O secularismo! Essa a grande onda do futuro! E os infelizes velhos wahhabistas não haviam entendido! 

Como sempre, o mundo não levou a sério a ameaça saudita. 22 anos depois que as tropas sauditas fugiram de Khafji, tudo está virando saudita. Ninguém, no Oriente Médio admite ser secularista. Todos aqueles baathistas inteligentes estão mortos, ou em fuga. Saddam jaz em sua tumba. Assad luta pela vida numa faixa montanhosa de território, junto ao litoral. São dois dos três regimes que preocupavam os sauditas. E podem estar-se acabando, sem guerra contra a Arábia Saudita.

O Iraque e a Síria foram, e continuam a ser, vitórias estratégicas de baixo custo – para a Arábia Saudita. De altíssimo custo para os povos que vivem no Iraque e na Síria, mas isso, de fato, não incomoda os rapazes em Riad.

Ah, mas o chicote não tardará a voltar sobre as costas deles, diz Daily Beast:

Um funcionário da inteligência dos EUA que não quis identificar-se, disse que os sauditas correm o risco de repetir a história. “Houve revide, contra os sauditas, dos jihadistas que lutaram no Afeganistão nos anos 1980s, e pode acontecer outra vez”.

Nonsense. Só bobagens. Os sauditas que combateram no Afeganistão não causaram problema algum para os seus concidadãos sauditas. Causaram muitos problemas em muito outros locais, e para estrangeiros dentro da Arábia Saudita – mas não para os seus concidadãos sauditas. Para ver o quanto o “revide” foi pequeno, de fato insignificante, contra sauditas, depois da missão no Afeganistão, é preciso examinar atentamente as datas. 

Qualquer “volta do chicote” contra sauditas, por conta de terem exportado jihadistas para o Afeganistão, teria de ter acontecido em algum momento entre a invasão russa (24/12/1979) e a década posterior à retirada dos russos, completada dia 15/2/1989. Fala-se, pois, de “volta do chicote”, de 1980 a 2000. E simplesmente não aconteceu coisa alguma, nada – aos sauditas.

Afeganistão: invasão soviética em 1979
Muitos relembram o massacre, quando a Grande Mesquita foi atacada, mas isso aconteceu dia 20/11/1979, um mês antes de o Exército Soviético invadir o Afeganistão. 


Há um aspecto, no ataque à Grande Mesquita, que foi exemplar, das técnicas sauditas: conseguiram convencer quase o mundo inteiro, de que xiitas iranianos estavam por trás daquele ataque, embora tenha sido obra de Juhayman al-Otaybi, descendente de um miliciano wahhabista, que ascendeu com o próprio Ibn Saud.

Entre a invasão russa e a virada do milênio, não houve, de fato, nenhum ataque terrorista contra sauditas, dentro do Reino da Arábia Saudita. Em toda a década dos 1980s, só encontrei um incidente – e foi triste tentativa de explodir alguns tanques de petróleo em Jubail, empreendida por xiitas sauditas em 1988. Quatro xiitas foram decapitados, e um tanque de petróleo queimou durante uns poucos dias. Nenhum saudita sunita foi ferido. Nada que permita ver aí alguma “volta do chicote sobre o lombo do chicoteador saudita”. O grande ataque seguinte dentro da Arábia Saudita só aconteceria em 1995 e, outra vez, só feriu estrangeiros, nenhum saudita: cinco cidadãos dos EUA, dois indianos, mortos em Riad. Nenhum saudita foi ferido.

Khobar Towers - vista em planta (legendada) e marcando o local da explosão em frente ao edifício 131 e bem distante da área ocupada por sauditas
Um ano depois, dia 25/6/1996, alguém detonou um caminhão carregado de explosivos nas Khobar Towers, complexo habitacional cheio de soldados dos EUA. 19 norte-americanos foram mortos, e centenas de outros, feridos. Foi um grande ataque, mas nenhum dos Mortos em Ação era saudita. E o que torna o evento ainda mais exemplar das técnicas sauditas de desorientação e dissimulação, é que os EUA imediatamente decidiram que não podia ser ação de seus amigos e aliados sauditas, que nunca teriam feito tal coisa. Só podia ser coisa dos iranianos do mal e de seus fantoches xiitas, um grupo que (supostamente) se chamaria “Hezbollah Saudita” – gente que nunca, nem antes, nem até hoje, fez qualquer coisa sequer comparável à operação gigante que resultou no ataque em Khobar.

Todo mundo “que contava” queria meter-se no Irã: os sauditas, Israel e o Departamento de Defesa. Apesar de todas as provas apontarem cada dia mais claramente na direção dos velhos bons sauditas sunitas do tipo Al-Qaeda, toda a Washington oficial continuou agarrada à teoria dos persas-do-mal. Quem queira conhecer a confusão que se seguiu, basta ler matéria de 2003 publicada no New York Times, que diz, primeiro, que a Al-Qaeda é suspeita nos ataques de Khobar; e, logo depois, publica uma correção com pedido de desculpas: a culpa é toda, mesmo, dos iranianos.

Os sauditas devem ter ficado excitadíssimos por a história da culpa dos persas ter “colado”. Só há um país no mundo que trabalha mais duro que os sauditas, na demonização do Irã: Israel, inimigo público número 1 dos sauditas e amante secreto. Israel e os sauditas; romance, daqueles livrinhos de banca, em cuja capa a mocinha aparece desgrenhada, com as vestes derrubadas pelos ombros, aos pés de um sedutor-violentador gostosão, mas as vestes de ambos são à prova de fogo e de bala, e tapas e beijos são p’rá valer, como diria a propaganda na capa do livrinho:

Um usava um kippah, o outro, um thobe; e quanto mais falavam do ódio de um pelo outro, mais quente ardia o amor!

Willam Perry
Só em 2007 foi que William Perry, secretário de Defesa dos EUA à época do ataque, disse publicamente que quem explodira as Torres Khobar fora a Al-Qaeda, não o Irã.

Assim sendo, podemos somar o número de sauditas sunitas mortos na tal “volta do chicote” sobre o lombo deles, depois da jihad afegã. Não sou bom em matemática, mas acho que posso oferecer resposta bastante correta: zero, nenhum. 

Para resumir: não houve volta alguma, de chicote algum, sobre os sauditas. Que o chicote cantou no lombo de outros, manobrado pelos sauditas e por grupos mantidos pelos sauditas, santo deus, isso sim, e muito. Mas nenhum chicote voltou jamais para bater em lombos sauditas, dentro da Arábia Saudita, contra sauditas (sauditas verdadeiros, o que significa: sunitas), não, não. Nunca. 

William Sampson
Algumas das histórias que os sauditas contaram para encobrir seus ataques contra estrangeiros foram tão ridículas, que custa crer que algum governo ocidental as tenha levado a sério. Mas, sim, levaram, porque os sauditas são fregueses e dão boas gorjetas e o freguês tem sempre razão, mesmo quando conta deslavadas mentiras, como as que meteram na prisão William Sampson – especialista em química, que trabalhava em Riad – onde foi torturado, espancado, violentado. Sampson foi preso acusado de ter participado de uma série de explosões de carros-bombas que mataram ocidentais em Riad em 2000.

O ministro saudita do Interior, wahhabista linha dura, disse que os ocidentais estavam matando-se uns os outros numa guerra de quadrilhas que disputavam o mercado do tráfico de cerveja. A base dessa acusação foi que Sampson e amigos costumavam reunir-se em clubes privados para tomar umas cervejinhas, jogar dardos, sabe-se lá o que fazem os britânicos expatriados para passar o tempo até o fim de seus contratos de trabalho.

E puseram-se a torturar Sampson e seis outros estrangeiros, até que confessassem. Enquanto isso, continuavam as explosões de carros-bombas, as quais – se se tratasse de um clássico de Agatha Christie – bastariam para provar que os prisioneiros não eram os responsáveis, para pô-los em liberdade, com pedidos de desculpas. Nada disso. Sampson passou dois anos e meio numa cela solitária e morreu de amargura em 2012, amaldiçoando o governo canadense, que repetiu, até a morte de Sampson, que os sauditas diziam a verdade e que Sampson mentia. Os sauditas jamais admitiram responsabilidade pelas bombas. 

Mas em 2003 havia tanta violência jihadista ativa dentro do Reino, que já era óbvio que não fora alguma briga entre traficantes de cerveja que matara aqueles estrangeiros. Mas, sim! Os sauditas convenceram do contrário vários governos ocidentais. Qualquer álibi sempre explica tudo, se você é a Arábia Saudita.

Mapa completo dos primeiros dias da invasão do Iraque em 2003
(clique na imagem para aumentar)
O crescimento repentino de violência ideológica saudita-contra-saudita em 2003 nada tem a ver com veteranos do Afeganistão. Tem a ver, isso sim, muito claramente, com outra coisa, que começou em 2003. Levante a mão se alguém lembra um grande evento ocorrido em 2003 [os EUA invadiram o Iraque dia 20/3/2003 (NTs)]. E como, com o tal grande evento, a violência saudita-contra-saudita teve um pico em 2005-2006, depois desapareceu. E quase toda a violência naqueles três anos de aumento consistiu de muito adiado castigo a terroristas sunitas, pelas autoridades, que afinal agiram, porque vizinhos sunitas muito excitados, enfurecidos por causa da invasão dos EUA ao Iraque, estavam, pela primeira vez, atacando outros sunitas. Foi preciso uma gigantesca, descomunal provocação, logo ali, na casa ao lado, para abalar o tabu que proíbe o terror de sauditas contra sauditas.

Não é difícil compreender por que os sauditas são sempre tão rápidos em infligir violência a outros, e relutam tanto quando se cogita de atacar outros sauditas. Dei aulas de inglês a um capitão de Polícia saudita, e ele me dava algumas pistas de seus métodos de segurança. Um dia, chegou atrasado para a aula e explicou que o dia fora difícil: “Tivemos um caso de assassinato”. Perguntei se o assassino fora preso. “Não. Ele fugiu. Mas vamos prendê-lo logo”. Perguntei o que lhe dava tanta certeza. “Já prendemos o irmão dele. Ele não deixará o irmão apodrecer na prisão”.

É sistema muito simples: o clã todo é tomado como refém. Em casos extremos, como o que esse capitão de Polícia contava, significa que um dos parentes do acusado é realmente preso. Nem sempre implica coisa assim tão dramática, só o medo de que, por sua causa, as possibilidades de casamento de seus irmãos e primos fiquem gravemente prejudicadas.

Na vez seguinte em que encontrei meu amigo policial, ele já estava muito mais feliz. O assassino, ele contou, já se apresentara, voluntariamente, para salvar o irmão. Todos, na sociedade saudita – todos, exceto os empregados estrangeiros descartáveis e os xiitas – são interligados em vastas redes tribais e clânicas. Essas redes controlam a vida, do nascimento à morte. O que você faz reflete-se sobre o grupo e todo o grupo pode ser castigado por causa das ações de um dos membros. Mas isso, claro, só se você agredir a uma pessoa “de verdade”, quer dizer, um cidadão saudita sunita. 

Se você nasce em mundo assim, você naturalmente quererá produzir sua própria violência, tipo beber e encontrar prostitutas, do outro lado da fronteira. Por isso, as autoridades sauditas têm todas as razões para deixar que aqueles jovens irados e perigosos voem para longe de Riad, e vão fazer sua jihad na Síria.



[*] Gary Brecher é animador do blog The War Nerd e autor do coluna quinzenal do mesmo nome, onde discute guerras atuais e outros conflitos militares, publicado em The eXile e agora NSFWCorp. Uma coleção de suas colunas foi publicado pelo Soft Skull Press, em Junho de 2008 (ISBN 0979663687).
Analisa estratégias e táticas militares bem como contextos de conflitos atuais e passados. Brecher não tem experiência militar ou treinamento formal em guerra; creditou-se como autodidata por uma obsessão pessoal pela guerra, e dedicou sua vida e esse estudo. Também descreve a si mesmo como um gordo preguiçoso que passa cerca de oito horas por dia na internet em busca de notícias da guerra.