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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Laços econômicos mais fortes entre EUA e China facilitarão o serviço de Obama



“A China convida Obama p’rá dança” – (orig.: China invites Obama to the dance floor: (Título do artigo de M.K. Bhadrakumar, que comenta este artigo no blog Indian Punch Line) (NT)

13/2/2013, Yang Qingchuan, Xinhua, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

China e EUA... e suas "emissões"
PEQUIM – Como esperado, o discurso “Estado da União” do presidente Barack Obama dos EUA foi construído integralmente sobre o que fazer para estimular o crescimento da maior economia do mundo, provavelmente a questão definitória de toda sua presidência.

Como o desempenho do presidente no primeiro mandato já mostrou e comprovou, pôr em ordem a desarrumada casa fiscal, financeira e econômica dos EUA é mais fácil de dizer, que de fazer. Ainda assim, se forjar laços econômicos mais fortes com a China nos próximos quatro anos, as chances de o presidente Obama cumprir as promessas que fez no plano doméstico aumentam bem.

A lógica, aqui, é simples e clara, porque EUA e China estão tão profundamente ligadas entre si no plano econômico, que o bem-estar promovido num dos campos inevitavelmente afetará o outro. Dado que já são o segundo maior parceiro comercial um do outro, nenhuma das duas economias poder-se-á considerar em bom estado, se na outra reinar o mais lamentável descalabro.

Por mais que promover crescimento seja prioridade das duas nações, um relacionamento econômico bilateral forte e saudável tornará mais fácil a empreitada, como os laços econômicos existentes em décadas passadas já comprovaram.

Obviamente, o sucesso do segundo mandato de Obama dependerá muito do ritmo do crescimento econômico – que já se beneficiou do sempre crescente comércio com a China.

Os EUA já superaram a União Europeia e tornaram-se o maior mercado para as exportações chinesas em 2012, mas a China sempre esteve entre os mercados para exportações norte-americanas que mais cresceram ao longo da década passada e não se cansa de empreender esforços para comprar cada vez mais dos EUA. São ótimas notícias para Obama, cuja agenda comercial terá de ver dobrarem as exportações norte-americanas nos próximos cinco anos, para conseguir criar dois milhões de empregos.

Segundo estudo do Conselho de Comércio EUA-China [orig. U.S.-China Business Council (USCBC), importações de boa qualidade e baixo preço vindas da China mantiveram os preços ao consumidor nos EUA relativamente baixos e fizeram aumentar o poder de compra das famílias norte-americanas, ajudando a aumentar o crescimento líquido dos EUA.

Em vez de culpar outros pelo alto desemprego nos EUA, alguns políticos norte-americanos bem fariam se reconhecem o fato óbvio de que comércio robusto com a China realmente ajudou a criar empregos nos EUA, eixo central do discurso “Estado da União” de Obama em 2013.

A mesma pesquisa do USCBC mostrou também que, entre 2001 e 2010, criaram-se três milhões de empregos nos EUA como resultado do aumento das exportações para a China.

Além disso, a mudança rumo a maior crescimento econômico na China hoje em andamento e a promessa reafirmada de abrir ainda mais seus mercados oferecem novas oportunidades de cooperação bilateral em novas áreas, como energia limpa – também prioridade da agenda econômica de Obama.

Como beneficiária também dos laços econômicos de ida-e-volta e como a maior credora da dívida pública do governo dos EUA, a China já aposta muito alto no fortalecimento econômico do EUA, que são o maior mercado de produtos chineses de exportação e destino crescente dos investimentos chineses no exterior.

Nesse sentido, repor nos trilhos a economia dos EUA não é desejo só de Obama e dos cidadãos norte-americanos, mas atende também aos interesses da China e, no geral, de todo o mundo.

Ao longo de muitos anos, a China vem buscando ativamente uma parceria econômica mais forte com os EUA e continua empenhada nessa causa. Simultaneamente, Obama e seu primeiro governo reconheceram a importância de forte relacionamento econômico entre EUA e China e movimentaram-se na direção de fortalecer e aprofundar laços.

Mas, para que se construa padrão sustentável de relacionamento econômico forte e saudável entre EUA e China, exigem-se esforços ainda maiores.

Com vistas a esses objetivos, os políticos norte-americanos devem evitar criar dificuldades e obstáculos, como medidas de protecionismo contra o livre comércio, a xenofobia no campo dos investimentos, a guerra monetária e a mentalidade de Guerra Fria, tão evidente na recente decisão de Washington de impor sanções contra empresas chinesas.

Os EUA devem também pôr fim ao vício de culpar outros por seus próprios erros e devem agir de modo mais responsável, para efetivamente superar o caos financeiro e o abismo fiscal.

Ainda mais importante, Washington deve aprender a ver os laços econômicos com a China sob a perspectiva correta de mais longo prazo, e evitar o risco mortal de vender esse importante relacionamento, em troca de ganhos políticos de curtíssimo prazo.

A prosperidade do mundo, inclusive de China e EUA, exige laços mais fortes entre as duas maiores economias do mundo. Por tudo isso, construir sobre esforços passados e fazer avançar esse relacionamento será escolha inteligente, da qual Obama não deve fugir, agora que tenta pôr em andamento a agenda de seu segundo governo.



terça-feira, 26 de junho de 2012

Sanções dos EUA são ameaça mais grave que o Irã


A China falará... (grosso)

17/6/2012, Charles Gray, Global Times, Pequim
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu


“(...) Aproxima-se mais um prazo crucial: 1º de julho. Nessa data, os EUA estarão obrigados a “castigar” a China por o país ter ignorado as sanções contra o Irã. A China é o único caso em que, até agora, os EUA não concederam a chamada “isenção”. E agora? Washington recolherá a cauda-crista de pavão e concederá a “isenção”? O mais provável é que, sim, sim, sem dúvida. Como preveem os especialistas em Dinheiro, da rede CNN [1] “os EUA não estão em posição que lhes permita desencadear guerra comercial contra a China. Com certeza Obama & Clinton inventarão algum álibi e, sim, a China receberá a isenção [e o que mais exija]”. [2]

A decisão de não garantir à China qualquer tipo de isenção nas sanções unilaterais que os EUA tentam impor contra importadores de petróleo iraniano, considerada à primeira vista, já parece insana.

[Mais bem analisada, é decisão do mais irresponsável e temerário oportunismo]. Vila Vudu

Aquelas sanções, autorizadas pela Lei de Defesa Nacional [ing. National Defense Authorization Act (NDAA)] para o ano fiscal de 2012, visam nações que continuam a importar petróleo do Irã e não demonstraram ao governo dos EUA que tomaram medidas para reduzir suas importações daquele país.

É exigência que, evidentemente, ofende muitos países. De fato, a Lei de Defesa Nacional dos EUA obra para estender a soberania dos EUA a todos os países que aquela lei cita. A lei “determina” e informa à China que os EUA, não a China, decidirão quanto e como as instituições financeiras chinesas gastarão da própria moeda.

Mesmo que se ignore a longa e escandalosa história do ocidente tentar impor controles sobre a economia chinesa, o que aí se vê é indefensável agressão à soberania econômica da China.

Nem nações que, como a Índia, receberam o “favor” da isenção e foram “liberadas” de obedecer aos EUA, têm muito a agradecer aos EUA. A Índia descreveu o ato como regido, exclusivamente pela lei norte-americana é válido, evidentemente, só em território dos EUA. É mais que claro que o governo da Índia não quer que os indianos vejam o quanto o próprio governo curvou-se às exigências descabidas dos EUA.

Nada menos provável do que supor que o governo chinês se deixará apanhar nessa posição de submissão às “ordens” dos EUA. As sanções enfurecerão a opinião pública chinesa, no curto prazo. No longo prazo, serão duro teste à capacidade dos diplomatas chineses, para conviver com os desmandos dos EUA pelo mundo.

Por ironia, a obsessão norte-americana com as tais “sanções” reduzirá a capacidade dos chineses, na luta para convencer o Irã de que mais transparência e mais cooperação promoverão com mais eficácia o interesse dos próprios iranianos.

Além de tudo isso, as consequências financeiras das sanções sempre serão devastadoras para os EUA, ainda mais que para a China. No mínimo, farão aumentar perigosamente a incerteza, nos mercados financeiros. E o risco só aumenta, porque sem dúvida alguma a China retaliará contra instituições financeiras norte-americanas.

No limite extremo, pode acontecer de romperem-se as relações de comércio entre EUA e China. No pior cenário, o mundo será assim lançado de volta à mais desesperadora depressão.

Barack Obama e Hillary Clinton
Mas... o presidente Barack Obama e a secretária de Estado Clinton dos EUA sabem perfeitamente disso tudo e conhecem perfeitamente todos esses riscos. Por que, sendo assim, tomaram essas decisões temerárias? A resposta mais provável é que falam, falam, mas não têm qualquer intenção de realmente tentar impor qualquer tipo de “dever de obedecer” à China.

Tudo leva a crer que o movimento de Obama e Clinton visa, exclusivamente ao cenário doméstico e absolutamente pouco tem a ver com Irã ou China – ou com o mundo real.

Obama enfrentará eleições difíceis e seus adversários têm tentado usar a “questão chinesa” como arma contra ele. Negando qualquer isenção à China, quanto ao “dever” de não importar petróleo iraniano, Obama expõe-se ao ridículo aos olhos do mundo, mas – como há quem suponha –se fortalece no plano eleitoral doméstico.

Mais significativo: Obama tem poder, nos termos da mesma Lei de Segurança Nacional, para adiar para depois das eleições a aplicação de sanções. E parece esperar que, reeleito, possa renegociar essa e outras questões, de posição mais forte do que a sua, hoje, quando é mais candidato à reeleição, que presidente dos EUA. Ou o problema de acertar-se com a China ficará para o Republicano que o suceder.

Em outras palavras: a decisão do governo Obama, de negar qualquer isenção à China, na questão das sanções contra o Irã, não é ameaça de mais sanções futuras: não passa, de fato, de movimento “de campanha eleitoral”, para escapar de confronto político direto com outros candidatos.

Nada disso, de fato, reduz o risco de dano potencial grave às relações entre China e EUA.

A primeira questão é a mais visível: sejam ameaças cenográficas ou não, mesmo assim as ameaças de Obama contra a China criam riscos para a economia doméstica chinesa e são agressão direta ao direito de o governo chinês gerir a própria política exterior sem ser chantageado. Não há hoje dúvida alguma de que a China mantém relações comerciais plenas e legítimas com o Irã, sem qualquer infração a qualquer resolução da ONU ou desrespeito a qualquer lei internacional. Infração e erro (além de chantagem) cometem, isso sim, os EUA, ao tentar impor leis norte-americanas e controles norte-americanos e interesses nacionais dos EUA a outras nações soberanas.

Além do impacto de curto prazo, a via de ação pela qual Obama e Clinton estão optando gerará ambiente mundial em que cada dia menos os EUA encontrarão nações dispostas a cooperar, sobretudo se as nações pressentirem que estejam sendo chantageadas ou coagidas a cooperar. Com isso, aumentarão ainda mais as já graves dificuldades que o mundo enfrenta hoje para chegar a soluções multilateralistas para os problemas.

Diferente do que os EUA dizem, o Irã não representa nenhum tipo de ameaça imediata à segurança do mundo. Mas as sanções que os EUA tentam obcecadamente impor, contra interesses e direitos de nações soberanas, como a China e outras, essas, sim, ameaçam a estabilidade da ordem mundial.

Hoje, os EUA – não o Irã – são o principal obstáculo a impedir que se construam abordagem efetivamente multilateralistas e progressistas para superar as dificuldades que tantos países e povos enfrentam, em todo o mundo.




Notas dos tradutores
[1] 25/6/2012, CNN money em: Sanctions on China for Iran oil buys unlikely” (.pdf).
[2] 25/6/2012, Indian Punchline, MK Bhadrakumar, EU’s Iran sanctions trouble India (“Sanções incomodam a Índia”)