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terça-feira, 26 de junho de 2012

Sanções dos EUA são ameaça mais grave que o Irã


A China falará... (grosso)

17/6/2012, Charles Gray, Global Times, Pequim
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu


“(...) Aproxima-se mais um prazo crucial: 1º de julho. Nessa data, os EUA estarão obrigados a “castigar” a China por o país ter ignorado as sanções contra o Irã. A China é o único caso em que, até agora, os EUA não concederam a chamada “isenção”. E agora? Washington recolherá a cauda-crista de pavão e concederá a “isenção”? O mais provável é que, sim, sim, sem dúvida. Como preveem os especialistas em Dinheiro, da rede CNN [1] “os EUA não estão em posição que lhes permita desencadear guerra comercial contra a China. Com certeza Obama & Clinton inventarão algum álibi e, sim, a China receberá a isenção [e o que mais exija]”. [2]

A decisão de não garantir à China qualquer tipo de isenção nas sanções unilaterais que os EUA tentam impor contra importadores de petróleo iraniano, considerada à primeira vista, já parece insana.

[Mais bem analisada, é decisão do mais irresponsável e temerário oportunismo]. Vila Vudu

Aquelas sanções, autorizadas pela Lei de Defesa Nacional [ing. National Defense Authorization Act (NDAA)] para o ano fiscal de 2012, visam nações que continuam a importar petróleo do Irã e não demonstraram ao governo dos EUA que tomaram medidas para reduzir suas importações daquele país.

É exigência que, evidentemente, ofende muitos países. De fato, a Lei de Defesa Nacional dos EUA obra para estender a soberania dos EUA a todos os países que aquela lei cita. A lei “determina” e informa à China que os EUA, não a China, decidirão quanto e como as instituições financeiras chinesas gastarão da própria moeda.

Mesmo que se ignore a longa e escandalosa história do ocidente tentar impor controles sobre a economia chinesa, o que aí se vê é indefensável agressão à soberania econômica da China.

Nem nações que, como a Índia, receberam o “favor” da isenção e foram “liberadas” de obedecer aos EUA, têm muito a agradecer aos EUA. A Índia descreveu o ato como regido, exclusivamente pela lei norte-americana é válido, evidentemente, só em território dos EUA. É mais que claro que o governo da Índia não quer que os indianos vejam o quanto o próprio governo curvou-se às exigências descabidas dos EUA.

Nada menos provável do que supor que o governo chinês se deixará apanhar nessa posição de submissão às “ordens” dos EUA. As sanções enfurecerão a opinião pública chinesa, no curto prazo. No longo prazo, serão duro teste à capacidade dos diplomatas chineses, para conviver com os desmandos dos EUA pelo mundo.

Por ironia, a obsessão norte-americana com as tais “sanções” reduzirá a capacidade dos chineses, na luta para convencer o Irã de que mais transparência e mais cooperação promoverão com mais eficácia o interesse dos próprios iranianos.

Além de tudo isso, as consequências financeiras das sanções sempre serão devastadoras para os EUA, ainda mais que para a China. No mínimo, farão aumentar perigosamente a incerteza, nos mercados financeiros. E o risco só aumenta, porque sem dúvida alguma a China retaliará contra instituições financeiras norte-americanas.

No limite extremo, pode acontecer de romperem-se as relações de comércio entre EUA e China. No pior cenário, o mundo será assim lançado de volta à mais desesperadora depressão.

Barack Obama e Hillary Clinton
Mas... o presidente Barack Obama e a secretária de Estado Clinton dos EUA sabem perfeitamente disso tudo e conhecem perfeitamente todos esses riscos. Por que, sendo assim, tomaram essas decisões temerárias? A resposta mais provável é que falam, falam, mas não têm qualquer intenção de realmente tentar impor qualquer tipo de “dever de obedecer” à China.

Tudo leva a crer que o movimento de Obama e Clinton visa, exclusivamente ao cenário doméstico e absolutamente pouco tem a ver com Irã ou China – ou com o mundo real.

Obama enfrentará eleições difíceis e seus adversários têm tentado usar a “questão chinesa” como arma contra ele. Negando qualquer isenção à China, quanto ao “dever” de não importar petróleo iraniano, Obama expõe-se ao ridículo aos olhos do mundo, mas – como há quem suponha –se fortalece no plano eleitoral doméstico.

Mais significativo: Obama tem poder, nos termos da mesma Lei de Segurança Nacional, para adiar para depois das eleições a aplicação de sanções. E parece esperar que, reeleito, possa renegociar essa e outras questões, de posição mais forte do que a sua, hoje, quando é mais candidato à reeleição, que presidente dos EUA. Ou o problema de acertar-se com a China ficará para o Republicano que o suceder.

Em outras palavras: a decisão do governo Obama, de negar qualquer isenção à China, na questão das sanções contra o Irã, não é ameaça de mais sanções futuras: não passa, de fato, de movimento “de campanha eleitoral”, para escapar de confronto político direto com outros candidatos.

Nada disso, de fato, reduz o risco de dano potencial grave às relações entre China e EUA.

A primeira questão é a mais visível: sejam ameaças cenográficas ou não, mesmo assim as ameaças de Obama contra a China criam riscos para a economia doméstica chinesa e são agressão direta ao direito de o governo chinês gerir a própria política exterior sem ser chantageado. Não há hoje dúvida alguma de que a China mantém relações comerciais plenas e legítimas com o Irã, sem qualquer infração a qualquer resolução da ONU ou desrespeito a qualquer lei internacional. Infração e erro (além de chantagem) cometem, isso sim, os EUA, ao tentar impor leis norte-americanas e controles norte-americanos e interesses nacionais dos EUA a outras nações soberanas.

Além do impacto de curto prazo, a via de ação pela qual Obama e Clinton estão optando gerará ambiente mundial em que cada dia menos os EUA encontrarão nações dispostas a cooperar, sobretudo se as nações pressentirem que estejam sendo chantageadas ou coagidas a cooperar. Com isso, aumentarão ainda mais as já graves dificuldades que o mundo enfrenta hoje para chegar a soluções multilateralistas para os problemas.

Diferente do que os EUA dizem, o Irã não representa nenhum tipo de ameaça imediata à segurança do mundo. Mas as sanções que os EUA tentam obcecadamente impor, contra interesses e direitos de nações soberanas, como a China e outras, essas, sim, ameaçam a estabilidade da ordem mundial.

Hoje, os EUA – não o Irã – são o principal obstáculo a impedir que se construam abordagem efetivamente multilateralistas e progressistas para superar as dificuldades que tantos países e povos enfrentam, em todo o mundo.




Notas dos tradutores
[1] 25/6/2012, CNN money em: Sanctions on China for Iran oil buys unlikely” (.pdf).
[2] 25/6/2012, Indian Punchline, MK Bhadrakumar, EU’s Iran sanctions trouble India (“Sanções incomodam a Índia”) 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Irã: A Índia que não prevarique

14/6/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Fato é que todos os BRICS são muito mais parecidos uns com os outros do que supõe a nossa vã imprensa brasileira e os muito mais vãos celsoslafers e demétriosmagnollis que entediam semanalmente os assinantes da Globo News & William Waack...
Se Rússia, China e Índia vão, aos poucos, entendendo que ninguém precisa, de fato, temer tanto o sinistro lobby sionista, o mais provável é que ninguém  (exceto Obama e, mesmo assim, só em ano eleitoral) precise, afinal de contas, temer tanto o sinistro lobby sionista.
São tigres de papel.
Sic transit gloria mundi. Quem diria?
Há reflexões interessantes aí, de fato, pra todos os BRICS...

Sergey Lavrov
A Rússia está tentando tirar algo da cartola para próxima reunião, semana que vem, entre o P5+1 e o Irã, que o país hospedará. Na 4ª-feira, o ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, esteve em Teerã. Aparentemente, levava ideias novas. De Teerã, foi a Kabul, para participar de encontro lá, na 5ª-feira (sobre o futuro do Afeganistão), para o qual também desembarcou na capital afegã o vice-secretário de Estado dos EUA William Burns (ex-embaixador dos EUA na Rússia). É muito provável que Lavrov e Burns tenham achado tempo para trocar ideias. E o ministro das Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi também participou da conferência em Kabul.

Ali Akbar Salehi
Salehi disse a jornalistas, depois de reunir-se com Lavrov em Teerã, que estava otimista em relação à rodada de conversações em Moscou, semana que vem; e que esperava que as conversações fossem “construtivas”. Mas a opinião dominante é que dificilmente haverá grandes novidades na próxima rodada de conversações sobre o Irã.

O presidente Barack Obama dos EUA está sem meios para negociar com o Irã, nesse escorregadio ano eleitoral. E o Congresso não o perde de vista, atento para impedir qualquer concessão que Obama pense em fazer ao Irã. Essa pressão do Congresso não diminuirá. A matrix é mais ou menos a seguinte: Obama tem interesse em relaxar as tensões com o Irã, temeroso de que o preço do petróleo e da gasolina cause alvoroço na opinião pública nos EUA; mas para relaxar as tensões, teria de negociar alguma concessão, o que não pode fazer, apesar da manifesta disposição dos iranianos para retribuir concessão com concessão.

Resultado: as sanções dos EUA contra o Irã só aumentam.

A história demonstra que sanções jamais funcionaram. Mas a discussão, em tom sempre crescente, ajuda o governo Obama a fazer crer, pelo discurso de especialistas e pela mídia, que sua política para o Irã está(ria) gerando algum efeito. Coluna publicada hoje no New York Times, assinada por Trita Parsi [1], iraniano criado na Suécia e premiado especialista em Oriente Médio, que trabalha hoje nos EUA, analisa a fracassada política dos EUA para o Irã.

S.M. Krishna
É mais importante, a cada dia, que a Índia assuma posição sem ambiguidades, que se posicione claramente contra as sanções norte-americanas contra o Irã. O ministro dos Assuntos Externos da Índia, S.M. Krishna, deveria ter-se manifestado com firmeza e sem meias palavras sobre o assunto, como fazem hoje a Rússia e a China. Em Teerã, Lavrov não tergiversou. [2]

Funcionários dos EUA já sinalizam que é impensável, para Washington, impor sanções contra a China, caso não se deixe pautar pelas sanções norte-americanas contra ao Irã. Por que os indianos estamos falando como poodles que tivessem satisfações a dar, ao decidir sobre nossas posições? Convenhamos: quais seriam as tais “situações internacionais” às quais se referiu em tom enigmático o ministro dos Assuntos Internos da Índia, que obrigariam a Índia a reduzir as importações de petróleo iraniano e a aumentar as importações da Arábia Saudita?

Quanto ao sempre referido e temido lobby israelense, que a Índia não quereria incomodar, e se o problema é esse, por que não pedimos que os judeus norte-americanos garantam à Índia a posição de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, em troca do que façamos no caso do Irã? Pois se tanto já nos exaurimos em rompantes de que nunca mais deixaríamos a cadeira no Conselho de Segurança à qual chegamos ano passado, com mandato de dois anos!

Recep Tayyip Erdoğan
Por que, afinal, o lobby israelense em Washington não consegue que os EUA apertem o garrote no pescoço da Turquia, que anda fazendo o diabo contra Israel? A Turquia impediu que Israel tivesse acesso à reunião de cúpula da OTAN em Chicago, da qual Israel queria desesperadamente participar. Líderes israelenses estão sendo processados, acusados de vários tipos de crime, em cortes judiciais turcas. E o que, me digam, o lobby do Estado Judeu pode fazer para vingar as dificuldades que o governo de Recep Tayyip Erdoğan vem impondo a Israel já há dois, três anos? Zilch. Nada.

E mais importante: a atitude da Turquia contra o governo israelense maculou as relações EUA-Turquia? Exatamente o contrário: as relações EUA-Turquia são hoje as melhores e mais sólidas de toda a era pós-guerra fria.

Às vezes tenho a impressão de que nosso próprio pessoal indiano, que pode ter sido “conversado” por Israel por vias obscuras, está deliberadamente espalhando essa lorota, para assustar nossos ministros com a tese risível de que os EUA buscam parceria com a Índia por sugestão de algum lobby israelense. Que sandice! As relações EUA-Índia são baseadas em interesses mútuos. E a Índia deve confiar nela mesma, o suficiente, pelo menos, para entender a raison d’etre do relacionamento EUA-Índia.




Notas de rodapé
[1] 14/6/2012, Abram espaço para Obama, na negociação com o Irã”, Trita Parsi, (em inglês).
[2] 16/6/2012, A Rússia rejeita quaisquer sanções unilaterais contra o Irã”, FarsNews, Teerã, (em inglês). 

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.