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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Grécia – Ministros do Eurogrupo a Syriza: Danem-se! Morram!

11/2/2015, [*] Yves SmithNaked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


- Você precisa apertar seu cinto
Apesar de os EUA terem-se intrometido no impasse Grécia versus Troika para pressionar os funcionários da Eurozona a suavizar a posição deles sobre o arrocho [também chamado “austeridade” (NTs)], parece que as linhas de batalha só endurecem cada vez mais.

Hoje [ontem], 11/2/2015, uma reunião de emergência do Eurogrupo – comitê da União Europeia, constituído dos Ministros de Finanças de 19 nações-membros – começa a começar negociações sobre um possível “resgate” para a Grécia. Mas não esqueçam: “resgate” não significa que algo ou alguém seja resgatado: o termo é usado para designar especificamente o tipo de “resgate” que tem data marcada para acabar dia 28/2/2015. A menos que seja prorrogado, a Grécia não receberá os 7,2 bilhões de euros dos fundos do “resgate” plus 1,9 bilhão de euros adicionais de renda sobre os bônus gregos em posse do Banco Central Europeu, de que a Grécia precisa desesperadamente, segundo muitos observadores. Mas a coligação governante Syriza continua a rejeitar esses fundos de “resgate”, porque vêm associados a medidas de arrocho [também chamadas de “austeridade”, o que não são (NTs)] como “reformas estruturais” para esmagar o trabalho e a classe trabalhadora.

Yanis Varoufakis
Na 2ª-feira (9/2/2015), o Ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, informou a imprensa sobre suas propostas de reforma. Ainda que os mercados financeiros tenham respondido positivamente às notícias de que os EUA teriam pressionado a Alemanha [1], e os esforços de Varoufakis para posicionar sua proposta como resultado de concessões, nenhum dos lados moveu-se um milímetro. Como o Financial Times observou, “vários funcionários, na reunião do G20 em Istambul, disseram que as novas concessões não parecem nem novas nem concessões”.

E apesar das ações dos EUA, funcionários europeus insistem ainda mais fortemente na direção de que a Grécia tem de ceder. From Bloomberg:

Schaeuble diminuiu muito qualquer esperança de que as conversações possam levar a algum novo acordo, ao dizer em Istambul, ontem, depois de uma reunião de autoridades financeiras do G20 que se a Grécia não quer receber a parcela final do atual programa de ajuda, “está tudo acabado”. Os credores “não podem negociar sobre novidades” – disse ele. O presidente do Banco Central Alemão e do Conselho de Administração do Banco Central Europeu Jens Weidmann disse que os esforços gregos para obter financiamento-ponte mediante instrumentos da dívida é “non-starter” [não permite iniciar nenhuma negociação real].


- Alguém tem uma moeda?
- Não... Não!
O comissário para assuntos econômicos da UE uniu-se ao coro dos “nada-feito” e disse à Grécia que o país tem só até o dia 16/2/2015 para obter algum acordo. From Reuters:

A Grécia terá de pedir uma prorrogação do atual resgate (sic) para dar a ela mesma e à zona do euro tempo para montar um novo acordo, porque hoje não há qualquer plano específico para Atenas, disse na 3ª-feira (10/2/2015) o comissário da UE para assuntos econômicos (...).

A Grécia terá de aceitar uma extensão do resgate e apresentar-se para recebê-lo na próxima reunião dos Ministros de Finanças da Eurozona, dia 16/2/2015, disse ele. Sem isso, não haverá tempo para que os parlamentos de alguns países da zona do euro aprovem a prorrogação do programa, antes de que expire, dia 28/2/2015.

Financial Times também registrou o “incômodo” que a Grécia causa aos eurocratas:

Funcionários da União Europeia mostram-se cada dia mais frustrados com o que creem que seja má compreensão dos procedimentos da UE pelo novo governo grego, e esperam que a reunião com o Eurogrupo dê ao Sr. Varoufakis a oportunidade de iniciar conversações mais formais sobre como Atenas quer agir.

E essas versões “midiáticas” parecem ser versões polidas das diferenças e de o quanto são profundas. Para versão não “suavizada”, ver “Fontes da UE: Relações UE-Grécia azedaram por causa dos vazamentos. Os dois lados estão cada dia mais distantes” (ing) em MNI Euro Insight (excelente trabalho de Jim Haygood).

É fundamental observar que a fricção não é efeito só de os dois lados estarem em posições tão distantes. Os dois lados estão tomando medidas jamais vistas para minar o opositor fora do espaço das negociações. Peter Doyle, economista e ex-funcionário do FMI, explicou em FT Alphaville:

Por outro lado, em virada inacreditável das práticas que se viam durante a crise financeira global – quando os bancos centrais faziam de tudo para esconder as instituições que recebiam sua ajuda de emergência, por medo de reforçar sinais adversos e aprofundar a crise – o Banco Central Europeu (BCE) não se cansou de repetir, ufano, o quanto (muito) os bancos gregos precisavam de sua ajuda. E ameaçou abertamente que retiraria qualquer ajuda. Assim, o BCE ameaçou declaradamente que podia fazer voar pelos ares o sistema bancário grego, para fazer funcionar o Euro. Walter Bagehot, pai, no século XIX, dos emprestadores de último recurso, ficaria completamente desentendido.

Por outro lado, a [coligação] Syriza não gostaria de coisa alguma mais do que de ver crescerem as implicações sobre a dívida soberana de Espanha, Portugal ou Itália relativas ao pulo da Alemanha, sinalizando mais ampla inquietação nos mercados — que a saída da Grécia da Eurozona (ing. Grexit) pode ser iminente, e pode desestabilizar muito gravemente a já atormentada Eurozona – o que forçaria o Banco Central Europeu a ceder. Assim, a coligação Syriza, associada ao partido Podemos na Espanha e a forças políticas anti-euro na Itália, está abertamente ameaçando fazer voar pelos ares o próprio regime de câmbio, o euro, para fazê-lo funcionar. Os muitos pais da credibilidade do regime de câmbio ficariam tão completamente desentendidos quanto Bagehot.

Grexit, a dança do Euro
Ouvi hoje de uma fonte que conhece as discussões entre EUA e Alemanha, que eles veem sinais de movimento; e que a Grécia tem apoiadores em outras burocracias da Eurozona. Não é inconsistente com o que dissemos, que há um grupo que reconhece que o arrocho [também chamado “austeridade”, mas é arrocho, não é “austeridade” porraniúma (NTs)] fracassou; e que pode servir-se da negociação grega para fazer avançar sua causa; e esse grupo pode montar seu alazão a qualquer momento e partir para resgatar (REALMENTE) a Grécia.

Mas isso foi antes de tanta gente ter manifestado tantas posições tão linha-duríssima contra as propostas da coligação Syriza. Os simpatizantes não parecem estar suficientemente próximos das negociações para pressionar a favor de algum acordo.

Seria melhor se eu estivesse errada, mas o que tenho ouvido da leitura que os EUA parecem estar fazendo, tudo me parece projeção clássica da visão de mundo dos norte-americanos. Primeiro, figurões do governo convencidos de que, se obrigarem a Alemanha a aceitar algum acordo, o resto da Eurozona “obedecerá”. Mas a estrutura não funciona assim. Se a Grécia continua a rejeitar o quadro do arrocho, a Alemanha terá de obter algum tipo de extensão do empréstimo fora da estrutura da Eurozona. Esse processo tem número muito superior de partes móveis, além de simplesmente “acertar” diferenças sobre, digamos, quanto a menos a Grécia pode obter (se puder), no que está pedindo como superávit fiscal. O pressuposto da Casa Branca/Tesouro parece ser que os dois lados negociação no quadro do atual arrocho – mesmo que Varoufakis nunca se canse de repetir que não negociará. Se amanhã [ontem, 11/2/2015)] Varoufakis não piscar, a premissa básica da posição dos EUA de que os dois lados poderiam ser empurrados para um acordo estará muito longe de ser viável e terá caído fora do alvo.


Além do mais, sem pressão do mercado financeiro sobre Merkel, os EUA parecem não ver a extensão da derrota que será, para Merkel, fazer qualquer concessão à Grécia. Temos discutido repetidas vezes que os líderes políticos alemães conseguiram, sim, demonizar os gregos; resultado disso é que os eleitores alemães veem os gregos como preguiçosos, pouco aplicados, maus operários, que merecem integralmente a miséria que se abateu sobre eles. Que justificativa encontrariam para assegurar qualquer facilidade agora, aos gregos, nas negociações, se se sabe o quanto os alemães dão grave importância à necessidade de cumprir compromissos assumidos, muito mais do que os norte-americanos? Absolutamente não há, longe disso, tempo para lançar campanha de propaganda pró-Grécia pela imprensa-empresa, e modificar a opinião pública alemã. Como Doyle lembra, os riscos domésticos a que Merkel se expõe são imediatos e imensos:

Assim chegamos à segunda parte dessa aterrorizante eurodança – a polka que Merkel e os mercados têm de dançar. Na última vez que se viu em passo semelhante, em 2012, com os mercados, Syriza e o Banco Central Europeu, todos, sabem muito bem, Merkel piscou; e nós ficamos “com todo o custo” e as Operações Monetárias Relevantes [orig. Outright Monetary Transaction (OMT)] do BCE. Naquele momento, o ministro de Finança de Merkel, Schäuble, comandava pessoalmente a pressão para expulsar a Grécia. Merkel hesitou, tempo durante o qual os mercados em toda a Eurozona – e no planeta – ferveram. Mas em (grande) parte como resultado daquela fervência, Merkel convenceu-se de que a Alemanha não conseguiria isolar-se do tumulto que adviria depois do Grexit. Então, ela desautorizou seu ministro Schäuble. O mesmo ministro que recebeu inúmeros sorrisos de Varoufakis durante a conferência de imprensa, semana passada, em Berlim.

Agora, os mercados não-gregos do euro estão calados, e, embora os mercados gregos estejam estressados, não se vê, nem parecido, o pandemônio que com certeza já estaria instalado se Grexit estivesse iminente.

Será tudo isso porque os mercados creem – e também a coligação Syriza – que Merkel acabará piscando, como em 2012, se os gregos mantiverem pé firme? Ou será porque os mercados estão acalmados pelo “alívio quantitativo” (orig. Quantitative Easing) e creem que todos aqueles burocratas acabarão por convencer Merkel de que as eurodefesas para enfrentar Grexit foram “aprimoradas” depois de 2012? É impossível responder antes dos fatos.

Mas os riscos de má interpretação dos dois lados e sobre os dois lados, entre Merkel e os mercados, nessa questão, são potencialmente catastróficos. Se ela, erradamente, está interpretando a aquiescência dos mercados como evidência de que as defesas são fortes para enfrentar o Grexit, e assim sendo, a Grécia que se vá, mas a aquiescência dos mercados só refletir “alívio quantitativo”, e a convicção de que ela (Merkel) piscará novamente, nesse caso o euro... BANG. Mas se Merkel finca pé pela segunda vez, em vez de arriscar-se a interpretar erradamente, é difícil crer que Schäuble tolerará mais essa humilhação, muito menos logo depois de ser derrotado na questão do “alívio quantitativo”. E se esse ministro entregar o boné, será prelúdio de tumultos sem precedentes na política alemã. Merkel sempre prefere a opção de menor risco. Mas no contexto atual é difícil saber onde está o risco menor. E segue a polka mortal, de Merkel & mercados.


Merkel em 2012
Não se deve esquecer o comentário de Schäuble de que, se a Grécia recusar-se a aceitar o atual “resgate”, praticamente nos mesmos termos de antes, nada mais haverá a discutir. É comentário que reflete o nível de fé na “austeridade”, digno de Dr. Fantástico, que anima Schäuble. Mas ele também pode estar tentando “ajudar” Merkel a resistir à pressão-chantagem dos EUA.

Há mais uma possível peça, das mais feias, nessa equação. A Grécia recebeu prazo fatal, até 16/2/2015, para pedir prorrogação do “resgate”. A próxima reunião do board do Banco Central Europeu está marcada para dois dias depois, 18/2/2015. A diretoria do Banco Central Europeu faz-se por rotação, e o grupo que assumirá dia 18 tende fortemente para os partidos mais hostis à Grécia. Aquele grupo poderia usar a rejeição grega ao “resgate”, para justificar uma mudança de postura, usando a justificação de que a recusa resultou em aumento considerável no risco, e usar essa argumentação para chutar a Grécia para o calote e/ou umGrexit presumido. O grande ponto de vulnerabilidade é preservar o acesso do Banco Central grego a um sistema de banking europeu através do programa Emergency Liquidity Assistance, ou ELA. Se se leem as regras do ELA, a assistência é pensada para instituições solventes e para operar abaixo de um determinado limite só por “períodos curtos e especificados de tempo”. Os membros votantes dia 18/2/2015, podem impor limites de tempo ou, até, dar passos mais brutais e baixar o limite do ELA para 60 bilhões de euros. Embora Draghi presumivelmente tente moderar as ações do board, pode não obter o suficiente.

Mais confirmações de o quanto improvável é que alguém consiga que os países da Eurozona “aliviem” na hostilidade contra a Grécia, ou, mesmo, que ofereçam alguma solução duradoura no atual contexto, aparecem no Telegraph. O jornal britânico sugere que os EUA e o Reino Unido têm de garantir estímulo a uma Europa que reluta em “meter a mão no bolso”:

A abordagem da Casa Branca, até aqui, parece ter-se focado em tentar persuadir Berlim a ceder e aceitar a realidade de que a Grécia não pode pagar. Quer também que a Alemanha “alivie” na “austeridade”, na esperança de garantir mais ampla recuperação econômica na Europa.

Dificilmente funcionará.

A Europa não é país único, e está ainda a décadas de distância de agir como país único. Muito tempo e muita energia já se consumiram tentando manter coesa a Eurozona. Ainda que se encontre meio para sair da crise imediata, só durará até a próxima crise. A Grécia, e talvez também outros países, exigem soluções diferentes, e a saída da Zona do Euro é sempre o primeiro passo, permitindo que a dívida seja denominada em dracmas desvalorizadas, o que aparará bem baixo o cabelo dos credores.

Implica que a Grécia tem de ser apoiada com programa de apoio internacional construído com realismo, incluindo empréstimos bilaterais dos EUA e da Grã-Bretanha, em vez da insensatez que a Troika tenta impor à força. Sem o mecanismo de ajuste da desvalorização, tudo sempre continuará condenado a fracassar.


Uh... O que foi isso?
E há também questões muito maiores em jogo, como Swedish Lex destaca, por e-mail:

Espero que Obama já seja suficientemente experiente (cínico que chegue) agora para compreender que ele tem de pressionar os europeus para que evitem a autodestruição. Em minha opinião, essa pressão deve vir mediante argumentos de política de segurança, não argumentos econômicos. Uma implosão grega fará descarrilar a “recuperação” dos EUA, mandará o dólar norte-americano à estratosfera (veja que os números de Coke, já caíram muito pelo US-dólar) e fará de Putin o homem mais feliz do planeta. Os planos e ambições de longo prazo de Putin terão impulso inacreditável se/quando a União Europeia começar a desabar. Não esqueça que Putin, o esperto, já está “aquecendo seus relacionamentos”, dentre outros, com a Frente Nacional na França.

Divida e conquiste. Nesse caso, Putin nem precisará dividir: os europeus, “liderados” pela Alemanha, dividir-se-ão, eles mesmos.

Esse confronto é visível, e não surpreende que os comentadores deixem-se envolver no drama pessoal, tanto quanto nas apostas altíssimas.

Mas aqui não estamos lidando só com o teatro das negociações muito públicas, de altas apostas. Essa batalha encarniçada é sintoma de que o fracasso da Eurozona, que não consegue dar conta de suas contradições fundamentais, é problema urgentíssimo, cujo encaminhamento não pode ser adiado. Ainda que Syriza capitule nos próximos dias, a grande, imensa ameaça de Marine Le Pen aí está e aí permanece.

Seria Merkel, não Varoufakis, quem teria de assumir o estandarte de líder que desafia a convenção, mas a história dela mostra líder cautelosa demais, jogador do tipo de pisca mais do que o recomendável, e que não assumirá o papel que a Europa precisa desesperadamente que ela assuma.
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Nota dos tradutores
[1] Os EUA mandam na Alemanha, que é estado ocupado. Sobre o real relacionamento entre EUA e Alemanha, nos termos da legislação do pós-guerra, ainda vigente, ver em redecastorphotoProblema de Moscou: lidar só com IMBECIS e VASSALOS, 10/2/2015, Finian CUNNINGHAM, Strategic Culture (traduzido) [NTs].
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[*] Yves Smith passou mais de 25 anos na indústria de serviços financeiros e atualmente dirige Aurora Advisors, uma empresa de consultoria sediada em New York, especializada em consultoria de finanças corporativas e serviços financeiros. Sua experiência inclui trabalho na Goldman Sachs (em finanças corporativas), McKinsey & Co. e Sumitomo Bank (como chefe de fusões e aquisições). Yves já escreveu para várias publicações nos EUA e na Austrália, incluindo The New York TimesThe Christian Science MonitorSlateThe Review Conference BoardInstitutional InvestorThe Daily Deal e na Australian Financial Review. É graduada no Harvard College e Harvard Business School. Anima o blog Naked Capitalism desde 2006.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Primeiro-ministro grego não retrocede

8/2/2015, Ekathimerini, Atenas - Grécia
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras discursa no Parlamento grego
Com semana difícil pela frente para a Grécia, e sob pressão crescente dos credores, o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, apresentou ontem ao Parlamento seu programa político de governo, prometendo implementar as promessas pré-eleitorais de revogar medidas de austeridade, embora não todas ao mesmo tempo.

“Temos um único compromisso – servir aos interesses do povo e ao bem da sociedade” – disse Tsipras, acrescentando que é decisão irrevogável de seu governo implementar “integralmente” as promessas de campanha.

O premiê disse que o governo não tentará qualquer prorrogação do “resgate” da Grécia; disse que seria “prorrogar os mesmos erros e o mesmo desastre”; reiterou que os gregos exigem um acordo “ponte” a ser firmado até que se alcance “acordo mutuamente aceitável” com os credores. “Não temos nenhuma intenção de ameaçar a estabilidade na Europa”, disse ele, acrescentando que, contudo, não “negociaria” a soberania do país.

Tsipras e seu governo precisam de “espaço fiscal” para uma discussão sobre a reestruturação da dívida grega e um novo acordo; disse também que austeridade cada vez maior só exacerbaria o problema.

Prometeu substituir um imposto unificado sobre a propriedade (ENFIA), por novo imposto sobre grandes propriedades; e aumentar a base isenta de imposto de renda para 12 mil euros (hoje, é de 5 mil euros). Também prometeu introduzir sistema mais justo de impostos e acabar com a evasão fiscal e a corrupção. Será restaurada a negociação coletiva de salários, disse Tsipras, acrescentando que o salário mínimo voltará aos 751 euros/mês (foi reduzido para 586 euros, como medida de “austeridade”), em etapas, de agora até 2016. Tsipras disse também que as autoridades gregas recriarão a chamada 13ª pensão ao final do ano para aposentados que ganhem menos de 700 euros/mês.

Crise humanitária na Grécia
Alta prioridade continua a ser enfrentar a “crise humanitária”, disse o premiê grego, prometendo eletricidade gratuita e comida para famílias vítimas das “medidas bárbaras” dos anos recentes. Para o funcionalismo público, haverá imediata readmissão que incluirá empregados da limpeza no Ministério das Finanças, guardas escolares e pessoal administrativo das universidades. Tsipras disse que nenhuma dessas medidas comprometerão o orçamento e incluirão contratações planejadas para 2015.

O premiê também prometeu reabrir a ERT, rede de rádio estatal, abruptamente fechada em junho de 2013 pelo governo anterior, e iniciar investigação, por comissão parlamentar, para determinar de que modo a Grécia entrou no “memorandum”. 

Sobre as privatizações, disse que o governo considera bem vindo o investimento privado, mas rejeita a “queima” de bens públicos. Acrescentou que nada será posto à venda. Num aceno direto à Alemanha, disse que é “dever histórico” da Grécia buscar reparação e pagamento por empréstimo forçado durante a IIª-Guerra Mundial.

O discurso de Tsipras marcou o início de três dias de debate no Parlamento, depois dos quais será votada uma moção de confiança em seu governo. A coalizão não tem dúvidas de que obterá o voto de confiança, com 162 assentos, dos 300 do Parlamento grego.

Yanis Varoufakis
Muito mais dura será a negociação com os credores do país. O Ministro de Finanças, Yanis Varoufakis, deve encontrar seus contrapartes da eurozona em Bruxelas, para reunião de emergência na 4ª-feira (11/2/2015), e sugeriu, no fim de semana, que lhes apresentará “proposta compreensiva” para uma solução. Tsipras deve reunir-se com seus pares europeus no dia seguinte, em reunião de chefes de Estado em Bruxelas.

Outra reunião de ministros de Finanças da Eurozona na 2ª-feira (9/2/2015) foi fixada como prazo fatal pelo presidente do Eurogroup, Jeroen Dijsselbloem, para que a Grécia peça prorrogação da parte europeia do “resgate” que expirará [são os empréstimos; a palavra certa é “vencerão”; empréstimos “vencem”, não “expiram”! Santo Deus! Tuuuuuuuudo é kumunicassão! (NTs)] dia 28/2/2015. 

sábado, 20 de dezembro de 2014

China prepara-se para resgatar a Rússia

17/12/2014, [*] Tyler Durden, Zero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Xi Jinping e Vladimir Putin brindam...
Na noite de hoje [16/12/2014], há pouco, Wang Yungui, da Administração Chinesa de Câmbio [orig. State Administration of Foreign Exchange's (SAFE)] observou que “o impacto da depreciação do rublo russo ainda não aparece com clareza, e, como Bloomberg noticiou, “SAFE está acompanhando de perto a depreciação do rublo e encorajando as empresas a proteger-se contra os riscos do rublo”.

Seus comentários ecoaram também na agenda de reforma do mercado de moedas para dar mais flexibilidade ao yuan, tema para o qual o jornal The South China Morning Postapontou em matéria intitulada “Rússia pode procurar ajuda da China, para enfrentar crise” – na qual se lia que a Rússia pode recorrer ao acordo de swap[troca] de moeda, de 150 bilhões de yuan (US$ 24 bilhões) com a China, assinado em outubro, se o rublo continuar a cair.

Além disso, dois banqueiros próximos do Banco Central da China [People’s Bank of China, PBOC] disseram que a linha de swap foi criada para reduzir o papel do dólar norte-americano, se China e Rússia precisarem ajudar-se uma a outra, para superar algum aperto de liquidez.

Como Bloomberg noticiou também ontem à noite, mais cedo, Wang Yungui da China disse que:

·  *CHINA OBSERVA DE PERTO A DEPRECIAÇÃO DO RUBLO: WANG DO SAFE
·  *CHINA ESTIMULA EMPRESAS A PROTEGER-SE CONTRA RISCOS DO RUBLO, DIZ WANG DO SAFE
·  *REAL IMPACTO DA DEPRECIAÇÃO DO RUBLO AINDA NÃO ESTÁ CLARO, DIZ  WANG DO SAFE

Acrescentando que a China planeja reformas nas regras dos swaps, para flexibilizar trocas de moedas.


Rússia pode servir-se do acordo de troca de moeda (150 bilhões de yuan (HK$189,8 bilhões) que tem com a China, se o rublo continuar em queda.

Se o acordo for ativado para essa finalidade, será a primeira vez que a China será chamada a usar a própria moeda para resgatar outro país em crise. Onegócio foi assinado pelos dois bancos centrais em outubro, quando o premier Li Keqiang visitou a Rússia.

“Rússia precisa muito de apoio de liquidez, e a linha de swap pode ser ferramenta ideal”, disse o economista Lian Ping, do Banco de Comunicações.

O swap permite que os bancos centrais comprem yuan e rublos diretamente nas duas moedas, não mais via o dólar norte-americano.

Dois banqueiros próximos do Banco Central da China disseram que aquele acordo visa a reduzir o papel do dólar norte-americano, se China e Rússia precisarem ajudar uma a outra, no caso de aperto de liquidez.

Atualmente, a China mantém acordos de swap de moedas com mais de 20 autoridades monetárias em todo o mundo. Esses swaps, em geral, são usados para pagamentos.

“O acordo de swap não foi questão exclusivamente financeira” – disse Wang Feng, presidente de um grupo de corretores privados com sede em Xangai, Yinshu Capital. – “Teve implicações políticas, como sinal declarado de confiança mútua”.

O rublo perdeu mais de 50% em relação ao dólar esse ano, empurrando a Rússia para a beira de uma crise de moeda; medidas anunciadas pelo banco central, contudo, ajudaram o rublo, ontem, a recuperar algum terreno.

Li Lifan, pesquisador na Academia de Ciências Sociais de Xangai, disse que o swapnão será suficiente para a Rússia, mesmo que seja inteiramente usado. “O Banco Central da China pode concordar com acrescentar cerca de 15 bilhões de yuan ao acordado inicialmente, como meio de manifestar o compromisso da China em relação à Rússia".

*  *  *


(...) como que para garantir a todas as partes envolvidas que haverá suficiente apoio de capital dos dois lados, o Banco Central da China distribuiu uma surpreendente declaração, em que informa que os bancos centrais de China e Rússia assinaram acordo bilateral de troca de moeda vigente por três anos, no valor de 150 bilhões de yuan, como se lê na página internet do Banco Central Chinês. O acordo pode ser ampliado, no caso de ambos os signatários o desejarem. O acordo visa a tornar mais convenientes os investimentos diretos e o comércio bilateral, e a promover o desenvolvimento nas duas nações.

De fato, alguns, como Bloomberg, continuam céticos, sem acreditar que esse pivô sem precedentes da Rússia em direção à China, que deixa de lado o ocidente, venha a ferir só o Kremlin. Mas outros veem de outro modo: quem sairá beneficiado? A Europa, com déficit crônico de energia e dependente da energia russa? Ou a Rússia, país riquíssimo em recursos naturais, cuja economia passa atualmente por deriva dramática e dolorosa, no processo para romper todas as amarras que o ligam ao petrodólar e criar laços de Gas-O-Yuan?

*  *  *

A “isolada” Rússia estará a um passo de ser resgatada pela China, maior economia do mundo? 

Talvez, de fato, até já tenha começado a ser resgatada...




Mas então, outra vez – com as moedas BRICS em tumulto... (ZAR -22% não aparece)


Talvez nem seja surpresa, se os países-membros servirem-se da reserva de US$ 100 bilhões do Banco dos BRICS...

Presidentes dos BRICS - Fortaleza 2014
Mas a linha-da-cintura, que está sendo atacada, é que, ao usar acordos bilaterais de troca de moeda, os países BRICS já estão efetivamente se desacorrentando de um “mundo desenvolvido” à moda Fed e dominado por esse e outros bancos centrais, para assumirem, eles mesmos, suas próprias exigências de financiamento.

Temos o prazer de anunciar a assinatura do Acordo que estabelece a Reserva de Contingência, Contingent Reserve Arrangement, o CRA dos BRICS – que começa com US$ 100 bilhões.

Esse acordo terá efeito positivo de precaução; ajudará países a livrar-se de pressões de liquidez de curto prazo; promoverá maior cooperação entre os BRICS; fortalecerá a rede de segurança financeira global e complementará outros acordos internacionais já existentes (...). O acordo é um arcabouço que proverá liquidez mediante troca de moedas, em resposta a pressões reais ou potenciais de equilíbrio de curto prazo na balança de pagamentos.

Ah! Vale registrar: o papel do dólar nesse mundo é, bem... É zero, nada, zero.

Para quem talvez tenha esquecido quem são os BRICS, além de uma sigla criada por ex-banqueiro do Goldman, vai aí esse gráfico, para ajudar a lembrar que nesses países vivem 3 bilhões de pessoas.


[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).