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terça-feira, 5 de maio de 2015

Afeganistão: O que se oculta por trás do ataque dos Talibã a Kunduz?

1/5/2015, [*] MK Bhadrakumar, Asia Times Online rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


(...) e surge também uma pergunta de um milhão de dólares: onde ficam os EUA no cenário que se desdobra no norte do Afeganistão, onde os Talibã voltaram a atacar? Para dizê-lo do modo mais gentil: a volta dos Talibã em ataques no norte do Afeganistão pode até, afinal de contas, não ser tão má ideia, do ponto de vista das estratégias dos EUA para “conter” Rússia e China, ou das ações norte-americanas para “mudança de regime” na Ásia Central.


Afeganistão - Divisões Administrativas
(clique na legenda para aumentar)
A atual ofensiva dos Talibã no norte do Afeganistão, focada em capturar Kunduz, faz-me lembrar os dias finais, tensos e angustiantes, do tempo que servi como diplomata em Tashkent nos últimos anos da década dos 1990s, e os Talibã surgiram na região de Amy Darya, deixando um rastro de sangue, horror e vingança. Quando a cidade de Kunduz caiu sob controle dos Talibã daquela vez, dois fatores comprovaram-se decisivos.

●– O primeiro foi o tradicional predomínio do grupo Mujahideen Hizb-i-Islami liderado por Gulbuddin Hekmatyar (agente favorito dos Interserviços de Inteligência do Paquistão [orig. Inter-Services Intelligence, ISI durante a “jihad afegã”) naquela região, onde vive população pashtun de dimensões consideráveis.

●– O segundo foi a realidade, ali constatável em campo, de que a marcha inexorável dos Talibã para dentro da região de Amu Darya, depois que capturaram Cabul em 1996, era de fato operação dos militares paquistaneses, para ir empurrando (e eventualmente estrangulá-las nos estreitos confins do Vale do Panjshir) as forças residuais da Aliança do Norte lideradas por Ahmad Shah Massoud.

Afeganistão - Vale do Panjshir (hachurado)
(clique na legenda para aumentar)
Esses dois fatores voltam à cena hoje – embora de modos diferentes. A verdadeira “identidade” entre os Talibã e Hezb-i-Islami – que sempre foi muito rala (apesar da influência do ISI paquistanês sobre os dois grupos) e sempre intrigou muito a olho nu, porque as dinâmicas locais sempre entravam em ação no labirinto das políticas tribais e regionais; e dado o papel confuso dos “comandantes em campo” – continua a ser criticamente importante mesmo hoje.

De fato, a política durante a presidência de Hamid Karzai consistia em “terceirizar” a segurança e as redes de inteligência para o Hizb-i-Islami, assim explorando os medos existenciais desses últimos de serem invadidos por enxames de Talibã. Evidentemente portanto, se o ISI continua a controlar o Hizb-i-Islami, o ISI poderia alterar a dinâmica no campo de batalha em Kunduz (embora o grupo insurgente esteja hoje relativamente muito enfraquecido, se comparado ao que foi nos últimos anos 1990s).

Claro, o resumo disso depende de onde, exatamente, está o serviço secreto paquistanês ante a atual ofensiva dos Talibã. A posição oficial do Paquistão é de que Islamabad não encoraja “o aumento da violência” que advém da ofensiva de primavera dos Talibã. Até aí, nada de novo. Mas o fato que realmente conta é que o ISI de modo algum poderia não ter percebido tamanho influxo de insurgentes, inclusive dos chamados combatentes “estrangeiros” (chechenos, uzbeques, etc.), que cruzava a fronteira para dentro do Afeganistão para apoiar uma ofensiva prolongada, dos Talibã, contra Kunduz. Isso, principalmente quando estão em pleno andamento operações militares paquistanesas nas áreas tribais adjacentes.

Aviação paquistanesa bombardeou alvos
na fronteira com o Afeganistão (1/5/2015)
Nesse caso, qual o plano de jogo dos serviços secretos do Paquistão? Será o caso de supormos que os Talibã escaparam completamente ao controle dos paquistaneses? Ou é o caso de os Talibã terem agora uma agenda própria? Ou os Talibã estão agindo a serviço de um ou outro ou vários outros serviços de inteligência? Isso, por um lado.

Há muitos indícios de que o clima das relações afegãs-paquistanesas possa deteriorar em breve, se o Talibã pressionar robustamente com a atual ofensiva. O jornal paquistanês Down  observou que Kabul e Islamabad também abrigam mútuos ressentimentos:

Há também a questão muito maior da reconciliação interna no Afeganistão que parece não estar avançando – impasse que está começando a tornar-se visível em termos de acusações nada diplomáticas que começam a ser ouvidas outra vez entre Paquistão e Afeganistão.

Do ponto de vista afegão, a abertura sem precedentes do presidente Ashraf Ghani para Islamabad não gerou a desejada cooperação em termos de usar a influência do Paquistão sobre os Talibã Afegãos, para empurrá-los até a mesa de negociações.

Do ponto de vista paquistanês, apesar da Operação Zarb-i-Azb, Operação Khyber-II e do massacre da escola em Peshawar, o estado afegão não respondeu com a presteza necessária às preocupações de segurança dos paquistaneses, nessa hora de necessidade. Confiança, como sempre, é item de oferta sempre pequena dos dois lados.

Claro que os Talibã, praticamente com certeza, há muito tempo têm uma agenda para a Ásia Central. Ninguém precisa contar novamente sobre o nexo entre os Talibã e os grupos militantes do Uzbequistão, Xinjiang, Caxemira e Norte do Cáucaso. Esse é o ponto no qual a atual ofensiva dos Talibã contra Kunduz, na qual os militantes da Ásia Central estão tendo, como já se sabe, papel chave, ganha seu significado regional.

Ásia Central - mapa político
A atual ação dos Talibã pode bem ter o objetivo de enfraquecer a capacidade da Rússia para resistir contra as tentativas dos extremistas para desestabilizar a Ásia Central e o Norte do Cáucaso. O controle sobre o norte do Afeganistão pode ajudar os Talibã – e seus grupos afiliados na Ásia Central – a negar “profundidade estratégica” aos grupos tadjiques e uzbeques nos estados vizinhos da Ásia Central. Tradicionalmente, a inteligência russa sempre trabalhou bem com esses grupos, na antiga oposição que sempre fizeram aos Talibã e a afiliados da al-Qaeda.

Por tudo isso, surge também uma pergunta de um milhão de dólares: onde ficam os EUA no cenário que se desdobra no norte do Afeganistão, onde os Talibã voltaram a atacar? Para dizê-lo do modo mais gentil: a presença dos Talibã no norte do Afeganistão pode até, afinal de contas, não ser tão má ideia, do ponto de vista das estratégias dos EUA para “conter” Rússia e China, ou das ações norte-americanas para “mudança de regime” na Ásia Central.

Leiam um colunista da revista National Interest, que explica o que a Rússia pode estar enfrentando: “ISIS em movimento: o mortal problema islamista, na Rússia”. Significativamente, o presidente Putin “revelou” (porque era informação sigilosa), em entrevista à televisão, que a inteligência russa tem provas de negociações clandestinas, inclusive com troca de logística, entre os EUA e os separatistas chechenos. Mas aqui entramos em região de fumaça e espelhos.

Por fim, as “Iniciativas do Cinturão e Estradas” [as Rota(s) da Seda”] da China, podem nem decolar, se tiverem de dar o primeiro passo nessas terríveis circunstâncias na Ásia Central.

China e Paquistão fecham acordo de investimento
em infraestrutura de US$ 40 bi (20/4/2015)
Será que se viam ares de “xeque-xeque-mate” na manhã depois da recente visita do presidente chinês Xi Jinping ao Paquistão? Ou agora, às vésperas da esperada inclusão do Paquistão (e do Irã) como membros plenos da Organização de Cooperação de Xangai – o que converte esses dois estados regionais em garantidores da segurança e da estabilidade na Ásia Central?

Não há respostas fáceis. Entrementes, nos informam que o “Estado Islâmico” (EI) está trabalhando para renascer em Kunduz. Um comentarista afegão disse à rádio Deutsche Welle essa semana, que:

(...) o EI recrutou várias centenas de combatentes no Chardarra, distrito de Kunduz. O governador da província já confirmara a informação há alguns meses. Naquele momento, os funcionários disseram que o grupo poderia lançar algum grande ataque. Agora que já atacaram Kunduz, as autoridades confirmaram que aumentou muito o número de militantes estrangeiros em Kunduz, que lutam contra forças afegãs. Testemunhas oculares dizem também que é muito alto o número de jihadistas estrangeiros.

Não há dúvidas de que se devem, sim, considerar as mais sinistras possibilidades, sobretudo agora, quando os alemães já dizem insistente e veementemente que é indispensável uma “instalação” de longo prazo, de militares dos EUA e da OTAN, no Afeganistão – independente do que desejem ou digam o povo afegão e os governos regionais.

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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Revelações de Bowe Bergdahl: E-mails mostram extensão do fracasso dos EUA no Afeganistão

3/6/2014, [*]  Patrick CockburnThe Independent, UK e ICH
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Para os EUA, receber de volta o único prisioneiro norte-americano que ainda havia naquele país os afasta ainda mais do Afeganistão. Para os afegãos, receber de volta os seus cinco comandantes prisioneiros em Guantánamo é sinal de reconhecimento da força e da legitimidade dos Talibã.

Sargento Bowe Bergdahl
O exército dos EUA é a maior piada que há hoje para o mundo rir – escreveu o sargento Bergdahl num e-mail depois publicado pela revista Rolling Stone.

É dura condenação para qualquer exército em dificuldades. E foi escrita por um soldado norte-americano, Bowe Bergdahl, no último e-mail para o pai e a mãe, enviado pouco antes de ele abandonar sua base no leste do Afeganistão, dia 30/6/2009.

Em questão de horas Bergdahl foi capturado pelos Talibã, que o mantiveram prisioneiro por cinco anos, até ser trocado por cinco altos comandantes dos Talibã que estavam presos na prisão norte-americana na Baía de Guantánamo.

O exército dos EUA é a maior piada que há hoje para o mundo rirÉ exército de mentirosos, traidores, doidos e pervertidos. Os poucos sargentos que prestam estão caindo fora o mais depressa que podem, e recomendam que nós, os cabos, façamos o mesmo − escreveu o sargento Bergdahl num e-mail depois publicado pela revista Rolling Stone.

O Sargento Bergdahl alistou-se no exército quando faltavam soldados para mandar ao Afeganistão como parte de “avançada” [orig. surge] no número de brigadas de combate naquele país. Com absoluta falta de alistados, os EUA começaram a distribuir “credenciais” a recrutas acusados de crimes ou que tinham problemas com drogas e que antes haviam sido rejeitados pelo Exército. No caso do Sargento Bergdahl, campeão de tiro, bem educado e com uma visão romântica do que seria servir profissionalmente ao exército, a desilusão não demorou a implantar-se.

Sua companhia estava em desarranjo e com o moral baixo. Ele reclama que três bons sargentos foram obrigados a trocar de companhia e “não há maior merda do que ser mandado comandar essa equipe”. O comandante de seu batalhão era “velho, doido e arrogante” e os outros oficiais não eram melhores:

No exército dos EUA, você é perseguido se for honesto (...), mas se for um merda arrogante rico você pode fazer o que quiser e sempre acabará promovido.

O Sargento Bergdahl levou a sério a estratégia de contrainsurgência, que ele supunha que visasse a ganhar “corações e mentes” dos afegãos. Mas em vez disso, só viu que os soldados norte-americanos tratavam os afegãos com menosprezo agressivo:

Tenho vergonha de tudo que vejo aqui. Essas pessoas precisam de ajuda, mas o que recebem é o país mais arrogante do mundo a dizer a eles que eles não prestam, que são estúpidos, que não sabem viver.

Conta que viu uma criança afegã ser esmagada por um tanque blindado dos EUA, evento que seus pais estimam que tenha sido o que o levou a abandonar a base. O pai do Sargento Bergahl respondeu à última mensagem do filho com um e-mail no qual se lia, no campo “Assunto”: “Obedeça sua consciência”.

A seguir vídeo completo (tradução desnecessária) da libertação do Sargento Bergdahl:


As histórias da vida dos seis homens – cinco afegãos e um americano – que foram trocados nessa final de semana mostra o quão rapidamente o espírito dos exércitos no Afeganistão pode mudar, de plena confiança na vitória, para frustração e derrota. No verão de 2001, os Talibã acreditavam, com razão, que estavam próximos de tomar todo o Afeganistão, com seus inimigos cercados nas montanhas do nordeste.

Mas o 11/9/2001 mudou tudo isso e, em novembro, os EUA estavam em avançada e já haviam obtido sucesso fácil. Oito anos depois, as razões do sargento Bergdahl para abandonar a própria base sem autorização ilustram o quanto, até que ponto, o Afeganistão converteu-se, para os EUA, em guerra desmoralizante e impossível de vencer.

Os Talibã também viram azedar suas esperanças de vitória, e em período ainda mais curto. Mullah Mohammed Fazl, também conhecido como Mullah Fazel Mazloom, comandava 10 mil Talibã considerados responsáveis pelos massacres dos hazara e tadjiques no norte do Afeganistão. Rendeu-se à Aliança do Norte, da oposição, em 2001. Com ele, estava o governador da província de Balkh, Mullah Norullah Noori. Foram embarcados no navio de guerra USS Bataan e dali enviados para a prisão de Guantánamo.

Desde o início das primeiras conversas exploratórias entre os EUA e os Talibã, a primeira demanda dos Talibã sempre foi a libertação desses dois comandantes. Outro nome, na mesma lista, era Khirullah Said Wali Khairkhwa, fundador dos Talibã em 1994.

Naqueles dias, EUA super-autoconfiantes não viam razão alguma para ceder a qualquer demanda dos Talibã, nem davam qualquer importância a ex-comandantes Talibã. Os dois detentos remanescentes, também trocados afinal essa semana pelo sargento Bergdahl, são altos oficiais da segurança dos Talibã.

QUEM teria suposto, no final de 2001, que 13 anos depois, os EUA estariam trocando prisioneiros com os Talibã? Para os EUA, receber de volta o único prisioneiro norte-americano que ainda havia naquele país os afasta ainda mais do Afeganistão. Para os afegãos, receber de volta os seus cinco comandantes é sinal e reconhecimento da força e da legitimidade dos Talibã.


[*] Patrick Cockburn (nasceu 05 de março de 1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent.
Está entre os comentaristas mais experientes no Iraque; escreveu quatro livros sobre a história recente do país. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009. 
Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque. Escreve também para CounterPunch e London Review of Books.

domingo, 18 de maio de 2014

Afeganistão: “Os Talibã venceram a guerra cultural”

16/5/2014, [*] Tafhim Kiani, Asia Times Online −Speaking Freely
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Talibã preparando-se para a luta
Um dos fatores que explicam a resiliência dos Talibã é a capacidade que sempre manifestam para apresentar a própria narrativa de tal modo que ela rapidamente se conecta com ecos e ressonâncias populares, especialmente nas áreas pashtuns do Afeganistão.

Muito mais e muito mais eficazmente que seus inimigos, sempre senhores de recursos militares muito mais sofisticados, dentro do Afeganistão são os Talibã quem definem o atual conflito e lhe dão significados, incorporando à luta a compreensão que os próprios Talibã têm da cultura, da história e do povo do Afeganistão. Fazem o que fazem mediante a manipulação dos eventos, ampliando as próprias forças e os próprios sucessos, tanto quanto os fracassos do governo afegão e de seus apoiadores ocidentais.

Os Talibã sabem há muito tempo que, para vencerem essa guerra, não precisam derrotar o inimigo: basta que sobrevivam. Assim, podem continuar a montar operações que, embora nenhuma seja taticamente devastadora contra a força do inimigo, o conjunto das ações, em nível estratégico, configura sucesso redundante.

Talibã destrói comboios inteiros
dos EUA-OTAN
 
Mediante essas operações, os Talibã conseguem frustrar o inimigo, expondo (para começar, expondo aos próprios inimigos e respectivos comandantes e patrocinadores) a incapacidade de “o maior exército do mundo” impor qualquer controle efetivo sobre o Afeganistão, ao mesmo tempo em que exageram a capacidade dos próprios Talibã para atacarem onde queiram e como queiram.

Vítimas fatais entre civis são usados para atrair simpatias e apoios para o movimento.

Os Talibã sempre se dedicaram a definir essa guerra como guerra combatida entre nacionalistas afegãos que seguem a trilha dos antepassados, mais uma vez defendendo a própria terra contra mais um usurpador estrangeiro; e como guerra religiosa, de mujahideen contra exércitos de cruzados que infiéis que atacam o Afeganistão no contexto maior de guerra para tentar dominar terras muçulmanas em todo o planeta.

Para muitos observadores externos, a noção de que os Talibã dão forte ênfase às relações públicas e aos processos de enquadramento − desenquadramento − reenquadramento das narrativas pode parecer contraintuitiva, uma vez que o modo como os Talibã tratam as mulheres, os suicidas-bombas, a interpretação violenta da lei da Xaria e outros temas não atraem, de modo algum, qualquer simpatia automática.

Pois aí está mais uma área de diferenças profundas entre os Talibã e as forças de segurança da ONU (International Security Assistance Force, ISAF) e dos EUA.

Os Talibã pouco se preocupam com a opinião pública mundial, e absolutamente não se preocupam com a opinião do mundo não muçulmano. Mas eles sabem que, para vencer a guerra, têm de contar com o apoio da população local – dos pashtuns, em particular – e, portanto, toda a atividade de Relações Públicas e de propaganda está ativamente concentrada em atingir as populações pashtuns, público-alvo absolutamente preferencial dos Talibã.

Grupos étnicos do Afeganistão - legendado 
(clique na imagem para aumentar)
As forças de segurança da ONU (International Security Assistance Force, ISAF) e dos EUA, por sua vez, mostraram pouco interesse em conquistar apoio público no Afeganistão, em nível micro. As forças de segurança da ONU (International Security Assistance Force, ISAF) e dos EUA tomam algum cuidado para limitar o mais possível os danos colaterais, mas conhecem pouco os idiomas locais, as culturas e as tradições da região onde operam, e pouca atenção dão ao ressentimento que se construiu e solidificou em função dos ataques noturnos contra lares de famílias afegãs, ataques contra cerimônias de casamento e contra a presença ostensiva de luxuosas – de fato, extravagantemente luxuosas – bases militares onde, do ponto de vista cultural afegão, os soldados e familiares vivem em devassidão, presos ao estilo decadente de vida predominante no ocidente.

Shukria Barakzai
Em 2010, Shukria Barakzai, deputada pashtun e líder de campanhas a favor dos direitos das mulheres, disse que:

 Mudei minha posição sobre os Talibã há três anos, quando percebi que o Afeganistão está sozinho – disse ela recentemente. – Não é que a comunidade internacional não nos apoie. É que eles não nos entendem. Os Talibã são parte de nossa população. Eles têm ideias diferentes, mas nós, como democratas, temos de aceitar essas diferenças.

O conceito tradicional de governo no Afeganistão é diferente do conceito do ocidente.

No Afeganistão, o governo tradicionalmente sempre esteve com a facção ou o grupo capaz de tomar o poder pela força. A legitimidade não adveio jamais de representar desejos do povo, mas de ações, como construir e preservar a paz, garantir estabilidade e justiça na vida da sociedade. Assista a seguir(em inglês):


Religiosidade e tribalismo

Hoje, muitos, do lado de fora, talvez interpretem o lado obscuro da religiosidade Talibã como se fosse islamismo. Mas os Talibã foram, de fato, um modo de rejeitar ativamente o tribalismo afegão.

A sociedade afegã é um mix de estruturas tribais e valores religiosos. Se as estruturas tribais afegãs formam um eixo vertical dentro da comunidade afegã, a religião, então pode ser vista como disseminada horizontalmente por toda a sociedade. Os Talibã, embora tenham conseguido livrar-se da natureza tribal do Afeganistão, ainda assim mantêm uma forte identidade afegã. De fato, os Talibã não falam nem da identidade pashtun nem de alguma identidade global islâmica; na verdade, eles representam-se eles mesmos, como muçulmanos afegãos.

E o mesmo vai também se tornando claro dentro da estrutura organização dos Talibã. Embora muitos dos funcionários mais graduados e comandantes regionais sejam pashtuns, já começaram a indicar vice-governadores distritais e chefes militares distritais, o que lhes permite fazem nomeações mais equilibradas do ponto de vista das etnias (link só p/ assinantes).

A área verde do Af-Pak é onde habita a população pashtun
Uma oposição ao governo, de inspiração religiosa, não é fenômeno novo dentro do Afeganistão. Antes dos Talibã, Hikmatyaar, Ahmad Shah Masud, Rubbani, Younis Khalis, Sayyaf e Pir Jillani todos eles combatiam para impor governo de caráter religioso no Afeganistão.

Dos que resistiram à ocupação pelos soviéticos, o único secularista notável foi Dostum. Mesmo antes da invasão soviética, o Afeganistão já tinha história de oposição religiosa a governos seculares, várias vezes comandada por líderes tribais conservadores, ou pirs e mulás carismáticos.

Esses levantes nas áreas de fronteira entre o Afeganistão e a Índia Britânica eram chamados em geral de “movimentos dos mulás loucos”, pelo establishment colonial britânico e sempre foram comparados aos movimentos de mulás carismáticos anteriores (link só p/ assinantes).

Enquadramentos nacionalistas e religiosos

Os Talibã tentaram apelar ao senso de nacionalismo afegão, quando denunciavam a injustiça cometida contra a terra e a população locais, e agarraram-se às tradições religiosas afegãs, para indicar uma via de fuga para longe da tragédia que o país vivia.

Para os Talibã, a injustiça básica ressentida em primeiro lugar contra o Afeganistão e os afegãos foi a ocupação estrangeira e a implantação de governo imposto ao país para atender àqueles interesses estrangeiros.

Mulá Omar
De um ponto de vista religioso, os Talibã obtiveram grande vitória de relações públicas quando o Mulá Omar, em período particularmente difícil, em 1998, apareceu em público envolvo no manto no Profeta Maomé.

Para o cidadão afegão comum, o gesto deu ao Mulá Omar inquestionável autoridade religiosa; para os ativistas Talibã, deu-lhe legitimamente o título de Amir ul-Momineen, “Comandante dos Fiéis”, o que lhe assegurou status muito superior ao de qualquer líder nacional ou tribal.

Assim, os Talibã conseguem se autoapresentam como diferentes das muitas facções de mujahideen e, todos, com caráter religioso essencialmente afegão, o que tem ecos e ressonâncias muito mais profundas com um povo que tende a ser conservador, em termos de religião, e sempre desconfiado contra qualquer interferência externa.

Especialmente desde a criação da Quetta Shura, os Talibã criaram um rede de comunicação e propaganda sofisticada e extensa. Inclui um website atualizado várias vezes ao dia em cinco idiomas; revistas, vídeos, gravações de voz e DVDs com notícias de batalhas e de sessões de orações e noticiários noturnos de atualização, além de sessões de meditação religiosa, as Shabnama (“cartas noturnas”); cantos e poemas tradicionais nacionalistas e vasta rede de telefones celulares.

Hamid Karzai
Mediante esses recursos, os Talibã conseguem construir discursos interpretativos do que lhes parece que sejam injustiças cometidas pelo governo de Hamid Karzai e as forças de segurança da ONU (International Security Assistance Force, ISAF) e dos EUA que dão apoio a Karzai.

Relatos perturbadores do que se passa na prisão de Guantánamo, detenções arbitrárias, como na base aérea de Bagram, mortes de civis como resultado dos raids noturnos, de bombas e drones, desonra e humilhações infligidas à população por agentes militares estrangeiros, supostamente contra casas de insurgentes; atos de corrupção e a impotência do governo de Karzai, que não consegue impor-se às forças estrangeiras ativas dentro do país, tudo isso se dissemina igualmente entre os ativistas e entre os cidadãos comuns, em todo o país.

Poesia: arma de guerra no Afeganistão

O atual conflito afegão é conflito de contrainsurgência, mas, de fato é combatido como guerra de informação apoiada por ação militar: é batalha pelos corações e mentes. A ser isso verdade, então nessa batalha os Talibã têm vantagem clara sobre o inimigo muito mais sofisticado, porque são capazes de firmar-se, para os próprios discursos, em referências culturais afegãs, e de modo tal que nem as forças estrangeiras nem o governo de Karzai jamais foram capazes de fazer.

As poesias são cantadas por mulheres nos cemitérios afegãos
A população do Afeganistão é predominantemente analfabeta, sobretudo no sul do país, onde estão as fortalezas dos Talibã. Como tantas sociedades tradicionais ao longo dos séculos, os afegãos usaram a poesia como meio para transmitir informação de uma geração à seguinte e outras.

Os Talibã foram bem-sucedidos nessa operação de servir-se dos meios mais antigos de comunicação. Hoje, a poesia deles é muito presente e ativa nas rádios locais, na Internet, em reuniões políticas, passadas pelos celulares e copiadas em CDs, para ser tocada em rádios e sistemas comunitários de som.

A poesia dos Talibã recobre muitos temas e narrativas, com tópicos como “Somos os mujahideen defendendo o Islã contra o invasor cristão”; “somos os filhos do Afeganistão seguindo as pegadas dos nossos anciãos que combateram sempre contra o invasor estrangeiro em nossa terra”; “somos o orgulho e a honra afegãos versus a injustiça e a desumanidade das forças invasoras e de seu governo-fantoche, de Karzai”.

Com frequência, a poesia traz ou mensagem de esperança, ou de intimidação, e faz lembrar ao ouvinte que lhe cabe decidir de que lado está; e que, se estiver com o lado não muçulmano ou com o lado do governo corrupto, nesse caso sentirá o peso da mão da justiça, do mesmo modo como os russos e seus apoiadores locais conheceram também, no passado, a mão da justiça.

As canções são em geral cantadas ou declamadas, mas também circulam impressas, por escrito, pelas chamadas Shabnama, ou “cartas noturnas”. Onde os Talibã usam palavras como “nós” ou “mujahideen”, raramente se referem a ativistas ou líderes e comandantes dos Talibã, mas aos afegãos em geral; assim, vão distribuindo e implantando a mensagem segundo a qual lutar pelo Islã e pelo próprio país é obrigação de todos os afegãos, não só dos “insurgentes”.

Ogai Amail, 40, Gulalai Omerkhel, 55, escrevem poesias em folhas de caderno 
Além do mais, a linguagem usada nessas canções também é importante. Os Talibã não usam o falar secular da insurgência e da contrainsurgência, mas a língua da jihad e do martírio; e a poesia surge em todos os dialetos afegãos, para assegurar que encontre ecos emocionais de solidariedade em todas as diferentes etnias.

Uma dessas canções que circulam pelo país, extraída de uma carta de um prisioneiro da prisão de Guantánamo escrita para sua mãe, aparece documentada num relatório do International Crisis Group:

Estou preso na prisão em Cuba
Não durmo nem à noite nem de dia, minha mãe
É um pedaço de terra no meio do oceano
a ilha de Cuba
Há prisioneiros aqui
Tudo é cercado de grades
Há celas, gaiolas
Muito, muito fortes
Apertadas, do tamanho de um homem
Existem para o horror
Existem para a tragédia
Existem para castigar o país pobre.

Centro de Tortura de Guantánamo dos EUA em território cubano ocupado.

Nunca aceitarei vida em que tenha de me curvar (...)
Nunca apoiarei, por dinheiro algum, o que é ilegítimo (...)
Nunca baixarei a cabeça na direção de Washington, como se fosse minha Qiblah [direção na qual os muçulmanos dirigem suas orações], nem curvarei minha cabeça ante Bush (...)
Não beijarei a mão de Laura Bush, nem curvarei a cabeça ante [Condoleezza] Rice (...)
Minha fé e meu orgulho pashtun ensinam o que fazer (...) Ainda que me esquartejem em mil pedaços, nem assim pedirei misericórdia aos bandidos (...)  

Algumas canções distribuem mensagem de esperança e liberdade:

Essa será a nova revolução, quando todos os maus sofrerão
Cada criminoso será julgado e colherá a vergonha que merece
Essa enchente lavará a sujeira e a jogará longe, em todas as direções
Os oprimidos encontrarão a felicidade,
por toda parte haverá liberdade
Os homens romperão as cadeias e todos os prisioneiros serão libertos
Só assim o país ganhará a independência
nos campos, todos sorrirão.

Essas ideias, por metafóricas e exageradas que pareçam, têm fundamento histórico profundo nos sofrimentos que os afegãos conhecem bem. Os Talibã entendem que essa mensagem ressoa com sentimentos e emoções locais profundos, o que as faz circular ativamente de boca em boca e gera simpatia e solidariedade. Sentimentos de insatisfação e ira contra governo corrupto, desconfiança contra exércitos estrangeiros, ódio contra os drones e os ataques noturnos que aterrorizam populações civis – obra dos exércitos dos EUA, que não param nunca – e o ressentimento contra as prisões de Guantánamo e Bagram são sentimentos amplamente disseminados no Afeganistão, e não necessariamente por causa dos Talibã. Mas, servindo-se da poesia e de outros meios de comunicação de massa, os Talibã usam a favor deles, aquelas emoções generalizadas.

Nas escolas são ensinadas poesias com mensagens de esperança e liberdade.
Não implica dizer que a propaganda e esses processos de comunicação orientada expliquem, só eles, a resistência dos Talibã.

Mas um bem-sucedido processo de “reutilização” de conteúdos religiosos e culturais, bem combinado com táticas de propaganda adequadamente enquadradas e aplicadas, que têm ressonância profunda entre ativistas e simpatizantes potenciais, está-se comprovando muito efetivo; se não para conquistar novos e maiores apoios, para o movimento, pelo menos, com certeza, para “roubar” apoios e simpatizantes do governo e de seus apoiadores externos norte-americanos e europeus. Além do mais, dado que a propaganda dos Talibã opera sempre nos idiomas locais – sobre os quais a ignorância da comunidade internacional é absoluta, ou quase – o que se tem é que a maior parte dessa propaganda ou passa sem ser vista, ou é subavaliada fora do Afeganistão.

Relatório do International Crisis Group (ICG) cita um oficial militar norte-americano, que diz:

Infelizmente, tendemos a ver as operações de informação como complementares às operações cinéticas. Mas, para os Talibã, é o oposto: os objetivos da informação é que dirigem as operações cinéticas (...). Virtualmente todas as operações cinéticas são especificamente planejadas e executadas para influenciar atitudes e percepções.




[*] Tafhim Kiani completou o curso de mestrado em política global no Oriente Médio no Birkbeck College, Universidade de Londres, 2012. Desde 2002, trabalha nos Arquivos Nacionais do Reino Unido.