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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Robert Fisk: Mão conhecida opera na sangrenta guerra civil do Iêmen

21/1/2015, [*] Robert FiskThe Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fumaça e chamas durante pesados combates entre a Guarda Presidencial e os rebeldes xiitas houthis em Sanaa, Iêmen
A questão é os sauditas. Não importa o quanto a nova guerra civil no Iêmen pareça complexa – nem o quanto os rebeldes houthis sejam hoje poderosos na capital Sanaa – quem apavora a monarquia sunita wahhabista da Arábia Saudita é a seita zaidi, xiita, representada pelos houthis, e não sem razão.

Por mais de cinco anos, há conflito armado entre forças sauditas e os houthis, que num dado momento capturaram uma cadeia de montanhas de baixa altitude em território saudita. Os sauditas culpam os suspeitos de sempre: Irã e o Hezbollah libanês. Os houthis culpam os suspeitos de sempre: os sunitas do Iêmen, seus apoiadores sauditas e – já adivinharam – os EUA.

Mas, como todas as crises no Oriente Médio, o conflito no Iêmen, que começou quase imediatamente e sem transição depois da guerra civil que trouxe o exército egípcio de Nasser para o conflito com a família real iemenita – apoiada pelos sauditas – é um pouco mais nuançado do que podem sugerir os despachos jornalísticos. Verdade é que o primeiro governante independente do Iêmen foi um xiita zaidita – não era sunita – que estendeu seu território sobre o norte do Iêmen entre as duas guerras mundiais.

Iêmen - áreas de conflito
(clique na imagem para aumentar)
O Imã Yahya liderava a seita zaidita, cujas crenças e culto têm quase tanto em comum com o Islã sunita quanto com o xiismo, mas lutou contra os sauditas quando tomaram Asir e Najran, do que Yahya chamava “o Iêmen histórico”.

Euegen Rogan, professor de Oxford, descreveu a crueldade do sucessor de Yahya, seu filho Ahmed, que prendeu e executou seus rivais e iniciou relações diplomáticas com a União Soviética e a China, mas logo se viu em luta contra a palavra de ordem de Nasser, que mandava derrubar os “regimes feudais” no Oriente Médio.

Ahmed gostava de condenar o socialismo árabe, em versos (roubar propriedade privada seria “crime contra a lei islâmica”). Quando o filho de Ahmed, Badr, foi derrubado num golpe militar, Nasser apoiou a nova república e os sauditas tentaram destruir Nasser, oferecendo apoio aos rebeldes xiitas zaiditas.

A triste história da divisão do Iêmen e eventual (e infeliz) unificação do governo ditatorial de Sanaa, 33 anos sob Abdullah Saleh – ele próprio xiita zaidita – e, depois, os inevitáveis clamores da minoria oprimida, implicavam que o despertar árabe – no Iêmen foi de fato uma “primavera” sangrenta – despertaria feridas ainda muito dolorosas.

Ali Abdullah Saleh, ex ditador do Iêmen
A saída de Saleh produziria uma nova Constituição que não satisfez os houthis. Os sauditas passaram a temer que os rebeldes xiitas do norte, que carregavam o nome de Hussein Badreddin al-Houthi, líder zaidita morto em 2004, fossem apoiados pelo Irã e, assim – por causa da própria substancial minoria xiita na Arábia Saudita – que constituíssem uma ameaça à estabilidade do próprio reino saudita.

Muito protestaram os sauditas contra o apoio que o Irã e o Hezbollah libanês dariam aos houthis – e muito o Irã e o Hezbollah negaram qualquer apoio – mas o crescimento da facção da Al-Qaeda no Iêmen (que cultiva, é claro, as mesmas crenças salafistas-wahabistas que a própria Arábia Saudita), trouxe o inevitável envolvimento militar dos EUA.

Os ataques por drones norte-americanos no Iêmen, praticamente apagados do mundo pela imprensa-empresa ocidental, eram dirigidos contra a al-Qaeda, supostamente em nome do governo iemenita que os sauditas apoiavam.

Mas em dezembro de 2009, porta-vozes dos houthis começaram a catalogar séries de ataques dos EUA contra os próprios houthis, inclusive 29 raids aéreos que mataram 120 pessoas em cidades do norte do Iêmen.

Rebeldes xiitas houthis cercam a capital do Iêmen, Sanaa
O avanço dos houthis sobre Sanaa dividiu a força do exército do governo – que passou a combater contra a al-Qaeda (em nome dos EUA) e contra os houthis (em nome dos sauditas). A al-Qaeda na Península Árabe moveu-se para o norte, para combater os houthis, com o que passou a receber apoio dos sunitas.

O Iêmen não é a Síria. Mas a visão deformada que os EUA têm do Oriente Médio já produziu no Iêmen cenário muitíssimo semelhante ao que produziu na Síria: além de tentarem destruir o regime xiita alawita de Assad e seus inimigos sunitas do ISIS/ISIL na Síria, os EUA parecem agora ansiosos para esmagar também os houthis xiitas zaiditas e os sunitas da al-Qaeda no Iêmen. Ordens dos sauditas. 


[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Robert Fisk − Estado Islâmico: Assad atrai Obama para sua rede

16/9/2014, [*] Robert FiskThe Independent, UK,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também: Entrevista do presidente Bashar Al-Assad à AFP: 26/1/2014,redecastophoto: “Na Síria não lutamos contra alguma ‘oposição’: lutamos contra terroristas

ISIS/ISIL desfila em Mosul, Iraque
Síria pediu que Washington engaje-se em colaboração militar e de inteligência para derrotar o inimigo de ambos, o ISIL. Também convidou congressistas e senadores dos EUA a visitarem Damasco para discutir ação conjunta contra os jihadistas que ameaçam os dois, os EUA e o regime do presidente Bashar al-Assad.

É convite que o presidente Barack Obama será obrigado a recusar – mas não sem passar por algum embaraço. Depois de decidir bombardear as forças do ISIL, autodenominadas Estado Islâmico, na Síria e no Iraque, o Sr. Obama teve de ouvir o aviso de Vladimir Putin, de que qualquer ação unilateral desse tipo na Síria seria “ato de agressão”.

Agora, o presidente dos EUA terá de explicar outra vez por que não pode cooperar, contra os inimigos “apocalípticos” dos EUA, com um regime sírio que ele também jurou derrubar – apesar de esse regime estar combatendo contra exatamente os mesmos inimigos.

A carta enviada aos Deputados da Câmara convida explicitamente os membros do Congresso e Senado dos EUA – que ano passado condenaram o governo sírio por ataques químicos nos subúrbios de Damasco – a colaborarem para “salvar vidas sírias e norte-americanas de um provável ataque de bombas terroristas” pelo ISIL, a Frente al-Nusra e outros grupos.

Míssil capurado pelo ISIS/ISIL no Iraque foi transportado para a Síria  (Raqqa)
A oferta síria, apresentada ontem em carta assinada por Mohamed Jihad al-Laham, presidente do parlamento sírio – dirigida, dentre outros, a John Boehner, presidente da Câmara de Representantes, e a Nancy Pelosi, Líder da Minoria na Câmara – diz também que a oposição síria “moderada”, que os EUA prometem ajudar e treinar, é idêntica aos grupos jihadistas que apoiam o ISIL (fórmula que os sírios preferem, das várias siglas que designam o mesmo grupo).

A oposição dita “moderada”, escreve o presidente da Câmara de Deputados sírios, “vendeu ao ISIL o inocente jornalista norte-americano que o ISIL degolou. Nada impede que esses grupos vendam armas norte-americanas ao ISIL (...) como se sabe que já fazem como prática habitual”. Armar “indivíduos islâmicos jihadistas não estatais” prossegue a carta, “é clara violação da Resolução nº. 2.170 do Conselho de Segurança da ONU (...), que ordena que qualquer cooperação para combater contra terroristas tem de ser construída entre estados membros”.

A Resolução n. 2.170, aprovada mês passado, diz que os estados membros “devem suspender o fluxo de combatentes estrangeiros, o financiamento e outros tipos de apoio a grupos extremistas islâmicos no Iraque e Síria” – identificados no documento da ONU como oISIL e a Frente al-Nusra ligada à al-Qaeda – e “impedir que milicianos viajem de seus países natais para unir-se àqueles grupos”.

Blindado capturado pelo ISIS/ISIL no Iraque desfila em Raqqa, Síria

A Síria, claro, insiste que não há qualquer oposição “moderada” hoje no país, declaração que leva a marca da verdade; e que todos os opositores do governo do presidente Assad sempre foram, desde o início, jihadistas sunitas de orientação wahhabista. A carta do Sr. Laham – que não poderia ter sido enviada sem aprovação do governo – acusa a Arábia Saudita, que financia os inimigos do presidente Assad, de manter escolas que “ensinam a ideologia do ódio,takfiri [quando um muçulmano acusa outro muçulmano de apostasia] e a jihad como deveres religiosos”.

Re-enfatizando as próprias críticas contra o regime saudita, a carta dos sírios diz que todos os “terroristas” são produto “dessa ideologia salafista, wahhabista e jihadista – do 11/9 às bombas de Boston e à degola de dois jornalistas norte-americanos, degola que é prática governamental legal comum na Arábia Saudita”. Obama não deve constituir qualquer coalizão ao arrepio da Resolução nº. 2.170 da ONU, “especialmente com estados que com os quais há conflito de interesse, devido à ideologia que praticam”.

A carta pode ter sido influenciada por Khaled Mahjoub, cidadão norte-americano e empresário sírio que também é amigo pessoal e confidente do presidente Bashar al-Assad, e repete observação frequentemente citada do Sr. Mahjoub, de que só a reeducação de famílias e comunidades “terroristas” mediante o “sufismo do amor” pode reabilitar seres humanos habituados ao uso da violência. O sufismo, com sua poesia mística e o desejo de encontrar o amor divino, é visto por muitos sírios como perfeito antídoto para o “jihadismo”; missionários sufistas disseminam o Islã pela África e Ásia Central e também pela Índia. A seguir o discurso de Obama (em inglês):


“Venha conversar cá na minha teia”, disse a aranha à mosca. Porque verdade é que a teia do governo sírio já se comprovou muitíssimo mais forte do que EUA e Europa supuseram – e a mosca-em-chefe já exibiu todas as características de fraqueza, medo e indecisão, como a aranha síria sabe muito bem ver. Há apenas pouco mais de um ano, os EUA tinham planos para esmagar o governo sírio com bombas e mísseis. Agora, só falam de esmagar o ISIL com bombas e mísseis. A Síria, com certeza, exigirá bom preço por qualquer ajuda de que Washington careça. 
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O negócio de Israel “vidas em troca de terra” é roubo. Puro e simples

4/9/2014, [*] Robert FiskThe Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na tendinha do Pirumole:
“Então Israel não é um país... É uma enorme quadrilha!”

Quanto Israel roubou de terras da Palestina
(clique na imagem para aumentar)
Visão de mundo? Israel rouba terras, os palestinos são roubados. Não há outra coisa para ver.

E assim mais uma fatia da terra palestina escorregou pelo ralo. Mais uns mil acres de terra palestina roubada pelo governo de Israel – porque... “apropriação” é roubo, não é? – e o mundo já apareceu com as desculpas de sempre.

Os norte-americanos acharam o roubo “contraproducente” para a paz, o que é reação bastante amena, se se considera o que os EUA diriam/fariam se o México roubasse 1.000 acres de terra do Texas e resolvesse construir casas ali para imigrantes mexicanos ilegais nos EUA.

Mas, não. Foi na “Palestina” (país inexistente, daí as aspas). E Israel conseguiu safar-se, terras roubadas e tudo, embora o roubo alcance agora escala inusitada – foi a maior quantidade de roubo de terra em 30 anos, desde que foi assinado o Acordo de Oslo em 1993.

O aperto de mão Rabin-Arafat, as promessas e trocas de territórios e retiradas militares, e a determinação de deixar tudo de importante (Jerusalém, refugiados, o direito de retorno) para o fim, até que todos confiassem tanto uns nos outros que a coisa seria facílima... não surpreende que o mundo tenha feito descer sobre os dois sua generosidade financeira.

O aperto-de-mão entre Rabin e Arafat

Mas esse mais recente roubo de terra não apenas reduz a “Palestina”: também mantém o círculo de concreto armado em torno de Jerusalém, para manter os palestinos bem distantes, tanto da capital que se espera que eles partilhem com israelenses, como de Belém.

Foi instrutivo saber que o conselho Etzion israelense-judeu considerou o roubo como castigo pelo assassinato de três adolescentes israelenses em junho.

O objetivo dos assassinatos dos três jovens foi semear o medo entre nós, interromper nossa vida diária e pôr em dúvida nosso direito [sic] à terra – anunciou o conselho Etzion. Nossa resposta é reforçar a colônia.

Deve ser a primeira vez que alguém “adquiriu” terras na “Palestina” sem usar desculpas sobre segurança ou direitos de nascimento – ou por decisão-autorização direta de Deus. Dessa vez, o motivo para roubar terra palestina foi declaradamente vingança. Assim se cria interessante precedente.

Se a vida de um israelense inocente – cruelmente ceifada – vale cerca de 330 acres de terra, a vida de um palestino inocente – também cruelmente ceifada – vale a mesma porção de terra.

E se metade, que seja, dos 2.200 palestinos mortos em Gaza mês passado – e esse é número conservador – fossem inocentes, nesse caso os palestinos hoje teriam direito assegurado a 330 mil acres de terra israelense; na realidade, muito mais. Mas por mais “contraproducente” que essa conta seja, com certeza os EUA não aprovariam. Israel rouba terra, palestinos perdem terra; é assim que funciona. É assim desde 1948, e assim continuará.

Mahmoud Abbas/2011
por Latuff
Jamais existirá ‘'Palestina'’ alguma, e o mais recente roubo de terra palestina é apenas mais um ponto acrescentado no livro dos padecimentos que os palestinos têm de ler, enquanto seus sonhos de terem estado seu se vão diluindo. Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do “presidente” palestino Mahmoud Abbas, disse que o chefe dele e as forças moderadas na Palestina haviam sido “apunhalados pelas costas” pela decisão dos israelenses, o que é dizer pouco, praticamente nada. Abbas tem as costas completamente apunhaladas, de cima a baixo. E esperava o quê, da vida, quando escreveu um livro sobre as relações palestinos-israelenses no qual não escreveu nem uma única vez, uma, que fosse, a palavra “ocupação”?

O que significa que voltamos ao velho joguinho. Abbas não pode negociar com ninguém a menos que fale pelo Hamás, tanto quanto pela Autoridade Palestina. Como Israel sabe. Como os EUA sabem. Como a União Europeia sabe. Mas cada vez que Abbas tenta construir governo de unidade nacional, todos nós nos pomos a guinchar que o Hamás é organização “terrorista”.

E Israel argumenta que não pode conversar com uma organização “terrorista” que exige a destruição de Israel – por mais que Israel costumasse conversar muito com Arafat e, naqueles dias, tenha ajudado o Hamás a construir mais mesquitas em Gaza e na Cisjordânia, para servirem como contrapeso ao Fatah e a todos os outros então “terroristas” lá de Beirute.

Mahmoud Abbas/2014
por Latuff
Claro, se Abbas fala só por ele mesmo, Israel então diz o que já disse: que se Abbas não fala por Gaza, Israel não tem com quem negociar. Mas... isso realmente ainda interessa? Todas as manchetes do mundo, sobre esse assunto, deveriam exibir uma tarja de luto: “Adeus, Palestina”.
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Revelações de Bowe Bergdahl: E-mails mostram extensão do fracasso dos EUA no Afeganistão

3/6/2014, [*]  Patrick CockburnThe Independent, UK e ICH
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Para os EUA, receber de volta o único prisioneiro norte-americano que ainda havia naquele país os afasta ainda mais do Afeganistão. Para os afegãos, receber de volta os seus cinco comandantes prisioneiros em Guantánamo é sinal de reconhecimento da força e da legitimidade dos Talibã.

Sargento Bowe Bergdahl
O exército dos EUA é a maior piada que há hoje para o mundo rir – escreveu o sargento Bergdahl num e-mail depois publicado pela revista Rolling Stone.

É dura condenação para qualquer exército em dificuldades. E foi escrita por um soldado norte-americano, Bowe Bergdahl, no último e-mail para o pai e a mãe, enviado pouco antes de ele abandonar sua base no leste do Afeganistão, dia 30/6/2009.

Em questão de horas Bergdahl foi capturado pelos Talibã, que o mantiveram prisioneiro por cinco anos, até ser trocado por cinco altos comandantes dos Talibã que estavam presos na prisão norte-americana na Baía de Guantánamo.

O exército dos EUA é a maior piada que há hoje para o mundo rirÉ exército de mentirosos, traidores, doidos e pervertidos. Os poucos sargentos que prestam estão caindo fora o mais depressa que podem, e recomendam que nós, os cabos, façamos o mesmo − escreveu o sargento Bergdahl num e-mail depois publicado pela revista Rolling Stone.

O Sargento Bergdahl alistou-se no exército quando faltavam soldados para mandar ao Afeganistão como parte de “avançada” [orig. surge] no número de brigadas de combate naquele país. Com absoluta falta de alistados, os EUA começaram a distribuir “credenciais” a recrutas acusados de crimes ou que tinham problemas com drogas e que antes haviam sido rejeitados pelo Exército. No caso do Sargento Bergdahl, campeão de tiro, bem educado e com uma visão romântica do que seria servir profissionalmente ao exército, a desilusão não demorou a implantar-se.

Sua companhia estava em desarranjo e com o moral baixo. Ele reclama que três bons sargentos foram obrigados a trocar de companhia e “não há maior merda do que ser mandado comandar essa equipe”. O comandante de seu batalhão era “velho, doido e arrogante” e os outros oficiais não eram melhores:

No exército dos EUA, você é perseguido se for honesto (...), mas se for um merda arrogante rico você pode fazer o que quiser e sempre acabará promovido.

O Sargento Bergdahl levou a sério a estratégia de contrainsurgência, que ele supunha que visasse a ganhar “corações e mentes” dos afegãos. Mas em vez disso, só viu que os soldados norte-americanos tratavam os afegãos com menosprezo agressivo:

Tenho vergonha de tudo que vejo aqui. Essas pessoas precisam de ajuda, mas o que recebem é o país mais arrogante do mundo a dizer a eles que eles não prestam, que são estúpidos, que não sabem viver.

Conta que viu uma criança afegã ser esmagada por um tanque blindado dos EUA, evento que seus pais estimam que tenha sido o que o levou a abandonar a base. O pai do Sargento Bergahl respondeu à última mensagem do filho com um e-mail no qual se lia, no campo “Assunto”: “Obedeça sua consciência”.

A seguir vídeo completo (tradução desnecessária) da libertação do Sargento Bergdahl:


As histórias da vida dos seis homens – cinco afegãos e um americano – que foram trocados nessa final de semana mostra o quão rapidamente o espírito dos exércitos no Afeganistão pode mudar, de plena confiança na vitória, para frustração e derrota. No verão de 2001, os Talibã acreditavam, com razão, que estavam próximos de tomar todo o Afeganistão, com seus inimigos cercados nas montanhas do nordeste.

Mas o 11/9/2001 mudou tudo isso e, em novembro, os EUA estavam em avançada e já haviam obtido sucesso fácil. Oito anos depois, as razões do sargento Bergdahl para abandonar a própria base sem autorização ilustram o quanto, até que ponto, o Afeganistão converteu-se, para os EUA, em guerra desmoralizante e impossível de vencer.

Os Talibã também viram azedar suas esperanças de vitória, e em período ainda mais curto. Mullah Mohammed Fazl, também conhecido como Mullah Fazel Mazloom, comandava 10 mil Talibã considerados responsáveis pelos massacres dos hazara e tadjiques no norte do Afeganistão. Rendeu-se à Aliança do Norte, da oposição, em 2001. Com ele, estava o governador da província de Balkh, Mullah Norullah Noori. Foram embarcados no navio de guerra USS Bataan e dali enviados para a prisão de Guantánamo.

Desde o início das primeiras conversas exploratórias entre os EUA e os Talibã, a primeira demanda dos Talibã sempre foi a libertação desses dois comandantes. Outro nome, na mesma lista, era Khirullah Said Wali Khairkhwa, fundador dos Talibã em 1994.

Naqueles dias, EUA super-autoconfiantes não viam razão alguma para ceder a qualquer demanda dos Talibã, nem davam qualquer importância a ex-comandantes Talibã. Os dois detentos remanescentes, também trocados afinal essa semana pelo sargento Bergdahl, são altos oficiais da segurança dos Talibã.

QUEM teria suposto, no final de 2001, que 13 anos depois, os EUA estariam trocando prisioneiros com os Talibã? Para os EUA, receber de volta o único prisioneiro norte-americano que ainda havia naquele país os afasta ainda mais do Afeganistão. Para os afegãos, receber de volta os seus cinco comandantes é sinal e reconhecimento da força e da legitimidade dos Talibã.


[*] Patrick Cockburn (nasceu 05 de março de 1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent.
Está entre os comentaristas mais experientes no Iraque; escreveu quatro livros sobre a história recente do país. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009. 
Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque. Escreve também para CounterPunch e London Review of Books.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Muqtada al-Sadr: “No Iraque, o futuro próximo é terrível”

29/11/2013, Muqtada al-Sadr entrevistado por [*] Patrick Cockburn, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Muqtada al-Sadr, em uma rara entrevista concedida a Patrick Cockburn em Najaf, fala de seu medo do Iraque se tornar uma nação a cada dia mais dividida em linhas sectárias.

Manifestante xiita levanta quadro com foto de Muqtada al-Sadr  em Bagdá 
O futuro do Iraque como país uno e independente está ameaçado pela hostilidade sectária que separa xiitas e sunitas, disse Muqtada al-Sadr, o líder religioso xiita cujas milícias – Exército Mahdi – combateram contra os exércitos dos EUA e da Grã-Bretanha, e que ainda é figura poderosa na política iraquiana. Al-Sadr alerta para o perigo de que “o povo iraquiano seja desintegrado, o governo seja desintegrado, o que tornará mais fácil que potências estrangeiras controlem o país”.

Em entrevista ao jornal The Independent, na cidade santa de Najaf, cerca de 160 quilômetros a sudoeste de Bagdá – a primeira entrevista presencial que dá a jornal ocidental em mais de dez anos – al-Sadr mostrou-se pessimista quanto ao futuro próximo do Iraque: “O futuro próximo do Iraque é terrível”.

Disse que o que mais o preocupa é o sectarismo que já afeta os iraquianos no plano das ruas; para al-Sadr, “se o sectarismo se disseminar entre o povo, será difícil combatê-lo.” Acredita que a posição que assumiu, contra o sectarismo, já o fez perder apoios entre seus seguidores.

A posição moderada de al-Sadr é importantíssima nesse momento, quando aumentam os confrontos sectários no Iraque – cerca de 200 xiitas foram mortos, só na última semana.

Há 40 anos, Muqtada al-Sadr e líderes religiosos de sua família vêm demarcando as tendências políticas dentro da comunidade xiita no Iraque. A longa resistência contra o governo de Saddam Hussein e, depois dela, a resistência também contra a ocupação pelos EUA, tiveram impacto crucial.

Muqtada al-Sadr
Muqtada al-Sadr ainda é líder muito influente no Iraque, depois de uma carreira extraordinária, ao longo da qual escapou várias vezes de ser assassinado. E inúmeras vezes pareceu que o movimento político que ele comanda, o Movimento Sadrista [ou Saadrista], seria afinal esmagado.

Muqtada tinha 25 anos em 1999, quando seu pai, Mohammed Sadiq al-Sadr, reverenciado clérigo xiita, e dois filhos, irmãos de Muqtada, foram assassinados por esquadrões da morte a serviço de Saddam Hussein, em Najaf. Ele sobreviveu por pouco, e permaneceu em prisão domiciliar em Najaf até 2003, quando a invasão norte-americana pôs fim ao governo de Saddam. Muqtada e seus seguidores tornaram-se a força mais poderosa e influente em várias áreas xiitas do Iraque, primeiro como inimigos de Saddam, em seguida como força de resistência contra a ocupação norte-americana.

Em 2004, o Exército Mahdi, dos sadristas, manteve dois terríveis confrontos militares contra soldados dos EUA em Najaf e em Basra; sustentou longa guerra de guerrilhas contra o Exército Britânico, o qual acabou forçado a entregar o controle da cidade aos guerrilheiros de Muqtada.

Para a comunidade sunita, o Exército Mahdi sempre teve papel central na campanha de assassinatos sectários que atingiu o pico nos anos 2006-7. Muqtada al-Sadr diz que “não fomos nós; havia gente infiltrada no Exército Mahdi, e foram responsáveis pelos assassinatos.” – E acrescenta que, se houvesse guerrilheiros seus envolvidos no assassinato de sunitas, ele seria o primeiro a denunciá-los.

É verdade que, por longo tempo, nesse período, Muqtada al-Sadr não parecia ter pleno controle sobre as forças que agiam como se fosse em nome dele. Até que, afinal, conseguiu dobrá-las. Simultaneamente, o Exército Mahdi estava sendo arrancado de suas antigas fortalezas em Basra e em Sadr, pelo exército dos EUA e forças ressurgentes do governo iraquiano. Perguntado sobre o status presente do Exército Mahdi, Muqtada al-Sadr disse: “Ainda está lá, mas congelado, porque parece que a ocupação acabou. Se a ocupação voltar, as milícias do Exército Mahdi também voltarão”.

Nos últimos cinco anos, Muqtada al-Sadr reconstruiu seu movimento, como um dos principais atores na política do Iraque, com plataforma que é uma mistura de religião xiita, populismo e nacionalismo iraquiano. Depois de exibir força significativa nas eleições gerais de 2010, o partido passou a integrar o atual governo, com seis ministros no Gabinete. Mas Muqtada al-Sadr é extremamente crítico contra o desempenho do primeiro-ministro Nouri al-Maliki nos seus dois mandatos; acusa o governo de ser sectário, corrupto e incompetente.

Nouri al-Maliki
Falando de Maliki, cujas relações com Muqtada al-Sadr azedam cada dia mais, al-Sadr diz que “talvez não seja o único responsável pelo que está acontecendo no Iraque, mas é quem está no poder”. Perguntado se acha provável que Maliki permaneça como primeiro-ministro, disse: “Acho que se candidatará a um terceiro mandato, mas preferiria que não se candidate”.

Muqtada al-Sadr  disse que ele e outros líderes iraquianos já tentaram substituir Maliki no governo, mas ele permaneceu no cargo, por causa do apoio que recebe dos EUA e do Irã. “O mais surpreendente é que EUA e Irã decidam sobre o primeiro-ministro do Iraque” – diz ele. – “Maliki é forte porque é sustentado pelos EUA, Grã-Bretanha e Irã”.

Al-Sadr critica, sobretudo, o modo como o governo está lidando com a minoria sunita, que perdeu o poder em 2003; para ele, os sunitas estão sendo marginalizados, e suas demandas são ignoradas. Entende que o governo iraquiano deixou passar a oportunidade de fazer uma conciliação com os sunitas, cujas manifestações públicas começaram em dezembro passado para exigir mais direitos civis e o fim das perseguições.

“Minha opinião pessoal é que, agora, já é tarde demais para atender àquelas demandas [dos sunitas], depois que o governo – que os manifestantes veem como governo xiita – passou tanto tempo sem lhes dar atenção” – diz ele. Perguntado sobre como os xiitas comuns (a grande maioria dos mil mortos pelas bombas da al-Qaeda, já há um mês, são xiitas) reagiriam, Muqtada al-Sadr disse: “Eles têm de entender que não estão sendo atacados por sunitas. Estão sendo atacados por extremistas. Estão sendo atacados por potências de fora do Iraque”.

Para sl-Sadr, o problema no Iraque é que os iraquianos, como um todo, estão traumatizados por quase meio século ao longo do qual viveram “um ciclo constante de violência: Saddam, a ocupação norte-americana, a 1ª Guerra do Golfo, a 2ª Guerra do Golfo, depois a guerra da ocupação, depois a resistência – isso levou a uma mudança na psicologia dos iraquianos”.

Saddam Hussein
1937 - 2006
Explicou que os iraquianos cometeram o erro de tentar resolver um problema, criando outro pior, como ter contado com os EUA para derrubar Saddam Hussein, o que gerou o problema da ocupação norte-americana. Compara os iraquianos a “alguém que descobre um rato em casa e procura um gato para matar o rato; depois, quer livrar-se do gato, e procura um cachorro. Depois, para livrar-se do cachorro, compra um elefante, quer dizer, voltou a pôr o rato dentro de casa”.

Perguntado sobre o melhor modo de os iraquianos lidarem com o rato, al-Sadr disse: “Usar, não gato nem cachorro, mas unidade nacional; rejeitar o sectarismo, abrir a cabeça, rejeitar o extremismo”.

Um dos principais temas da abordagem de al-Sadr é promover o Iraque como estado-nação independente, capaz de tomar decisões que visem aos seus próprios interesses.  Dada a hostilidade crescente contra a ocupação por EUA e Grã-Bretanha, que os ocupantes sejam responsabilizados por muitos dos atuais tormentos do Iraque. Até que isso seja feito, nem ele nem ninguém de seu movimento se reunirão com funcionários norte-americanos ou britânicos. Mas al-Sadr também é hostil à intervenção pelo Irã, nos negócios iraquianos. Diz ele: “Recusamos todos os tipos de intervenção de forças externas, sejam contra ou a favor de interesses do Iraque. O destino dos iraquianos deve ser decidido exclusivamente pelos iraquianos”.  

Vê-se uma mudança na posição de um homem que foi demonizado pelos EUA e Grã-Bretanha como joguete nas mãos do Irã. A força do movimento sadrista sob comando de Muqtada al-Sadr e de seu pai – e a capacidade de enfrentar inimigos poderosos e de sobreviver a derrotas terríveis – deve muito ao fato de ele combinar um revivalismo xiita com ativismo social e nacionalismo iraquiano.

Massoud Barzani
Por que tantos membros do governo do Iraque são tão ineficazes e corruptos? Para al-Sadr, “porque competem entre eles para pôr as mãos na maior fatia do bolo, em vez de competirem para mais bem servir ao povo”.

Perguntado sobre por que o Governo Regional do Curdistão foi mais bem-sucedido em termos de segurança e de desenvolvimento econômico que o resto do Iraque, al-Sadr entende que houve menos roubo e corrupção entre os curdos; e talvez “porque eles amam a própria etnicidade e a região onde vivem”. Se o governo tentasse marginalizá-los, talvez exigissem a própria independência: “Massoud Barzani [presidente do Governo Regional do Curdistão] disse-me que: “se Maliki nos pressionar demais, exigiremos a independência”.

Ao final da entrevista, Muqtada al-Sadr perguntou-me se não tinha medo de entrevistá-lo; e se a entrevista levasse o governo britânico a considerar-me terrorista? Perguntou se o governo britânico ainda supunha que tivesse “libertado” o povo iraquiano. E comentou que talvez devesse processar o governo, pelas mortes causadas pela ocupação britânica.



[*] Patrick Cockburn (nasceu 05 de março de 1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent.
Está entre os comentaristas mais experientes no Iraque; escreveu quatro livros sobre a história recente do país. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009.
Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque.

Escreve também para CounterPunch e London Review of Books.