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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Muqtada al-Sadr: “No Iraque, o futuro próximo é terrível”

29/11/2013, Muqtada al-Sadr entrevistado por [*] Patrick Cockburn, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Muqtada al-Sadr, em uma rara entrevista concedida a Patrick Cockburn em Najaf, fala de seu medo do Iraque se tornar uma nação a cada dia mais dividida em linhas sectárias.

Manifestante xiita levanta quadro com foto de Muqtada al-Sadr  em Bagdá 
O futuro do Iraque como país uno e independente está ameaçado pela hostilidade sectária que separa xiitas e sunitas, disse Muqtada al-Sadr, o líder religioso xiita cujas milícias – Exército Mahdi – combateram contra os exércitos dos EUA e da Grã-Bretanha, e que ainda é figura poderosa na política iraquiana. Al-Sadr alerta para o perigo de que “o povo iraquiano seja desintegrado, o governo seja desintegrado, o que tornará mais fácil que potências estrangeiras controlem o país”.

Em entrevista ao jornal The Independent, na cidade santa de Najaf, cerca de 160 quilômetros a sudoeste de Bagdá – a primeira entrevista presencial que dá a jornal ocidental em mais de dez anos – al-Sadr mostrou-se pessimista quanto ao futuro próximo do Iraque: “O futuro próximo do Iraque é terrível”.

Disse que o que mais o preocupa é o sectarismo que já afeta os iraquianos no plano das ruas; para al-Sadr, “se o sectarismo se disseminar entre o povo, será difícil combatê-lo.” Acredita que a posição que assumiu, contra o sectarismo, já o fez perder apoios entre seus seguidores.

A posição moderada de al-Sadr é importantíssima nesse momento, quando aumentam os confrontos sectários no Iraque – cerca de 200 xiitas foram mortos, só na última semana.

Há 40 anos, Muqtada al-Sadr e líderes religiosos de sua família vêm demarcando as tendências políticas dentro da comunidade xiita no Iraque. A longa resistência contra o governo de Saddam Hussein e, depois dela, a resistência também contra a ocupação pelos EUA, tiveram impacto crucial.

Muqtada al-Sadr
Muqtada al-Sadr ainda é líder muito influente no Iraque, depois de uma carreira extraordinária, ao longo da qual escapou várias vezes de ser assassinado. E inúmeras vezes pareceu que o movimento político que ele comanda, o Movimento Sadrista [ou Saadrista], seria afinal esmagado.

Muqtada tinha 25 anos em 1999, quando seu pai, Mohammed Sadiq al-Sadr, reverenciado clérigo xiita, e dois filhos, irmãos de Muqtada, foram assassinados por esquadrões da morte a serviço de Saddam Hussein, em Najaf. Ele sobreviveu por pouco, e permaneceu em prisão domiciliar em Najaf até 2003, quando a invasão norte-americana pôs fim ao governo de Saddam. Muqtada e seus seguidores tornaram-se a força mais poderosa e influente em várias áreas xiitas do Iraque, primeiro como inimigos de Saddam, em seguida como força de resistência contra a ocupação norte-americana.

Em 2004, o Exército Mahdi, dos sadristas, manteve dois terríveis confrontos militares contra soldados dos EUA em Najaf e em Basra; sustentou longa guerra de guerrilhas contra o Exército Britânico, o qual acabou forçado a entregar o controle da cidade aos guerrilheiros de Muqtada.

Para a comunidade sunita, o Exército Mahdi sempre teve papel central na campanha de assassinatos sectários que atingiu o pico nos anos 2006-7. Muqtada al-Sadr diz que “não fomos nós; havia gente infiltrada no Exército Mahdi, e foram responsáveis pelos assassinatos.” – E acrescenta que, se houvesse guerrilheiros seus envolvidos no assassinato de sunitas, ele seria o primeiro a denunciá-los.

É verdade que, por longo tempo, nesse período, Muqtada al-Sadr não parecia ter pleno controle sobre as forças que agiam como se fosse em nome dele. Até que, afinal, conseguiu dobrá-las. Simultaneamente, o Exército Mahdi estava sendo arrancado de suas antigas fortalezas em Basra e em Sadr, pelo exército dos EUA e forças ressurgentes do governo iraquiano. Perguntado sobre o status presente do Exército Mahdi, Muqtada al-Sadr disse: “Ainda está lá, mas congelado, porque parece que a ocupação acabou. Se a ocupação voltar, as milícias do Exército Mahdi também voltarão”.

Nos últimos cinco anos, Muqtada al-Sadr reconstruiu seu movimento, como um dos principais atores na política do Iraque, com plataforma que é uma mistura de religião xiita, populismo e nacionalismo iraquiano. Depois de exibir força significativa nas eleições gerais de 2010, o partido passou a integrar o atual governo, com seis ministros no Gabinete. Mas Muqtada al-Sadr é extremamente crítico contra o desempenho do primeiro-ministro Nouri al-Maliki nos seus dois mandatos; acusa o governo de ser sectário, corrupto e incompetente.

Nouri al-Maliki
Falando de Maliki, cujas relações com Muqtada al-Sadr azedam cada dia mais, al-Sadr diz que “talvez não seja o único responsável pelo que está acontecendo no Iraque, mas é quem está no poder”. Perguntado se acha provável que Maliki permaneça como primeiro-ministro, disse: “Acho que se candidatará a um terceiro mandato, mas preferiria que não se candidate”.

Muqtada al-Sadr  disse que ele e outros líderes iraquianos já tentaram substituir Maliki no governo, mas ele permaneceu no cargo, por causa do apoio que recebe dos EUA e do Irã. “O mais surpreendente é que EUA e Irã decidam sobre o primeiro-ministro do Iraque” – diz ele. – “Maliki é forte porque é sustentado pelos EUA, Grã-Bretanha e Irã”.

Al-Sadr critica, sobretudo, o modo como o governo está lidando com a minoria sunita, que perdeu o poder em 2003; para ele, os sunitas estão sendo marginalizados, e suas demandas são ignoradas. Entende que o governo iraquiano deixou passar a oportunidade de fazer uma conciliação com os sunitas, cujas manifestações públicas começaram em dezembro passado para exigir mais direitos civis e o fim das perseguições.

“Minha opinião pessoal é que, agora, já é tarde demais para atender àquelas demandas [dos sunitas], depois que o governo – que os manifestantes veem como governo xiita – passou tanto tempo sem lhes dar atenção” – diz ele. Perguntado sobre como os xiitas comuns (a grande maioria dos mil mortos pelas bombas da al-Qaeda, já há um mês, são xiitas) reagiriam, Muqtada al-Sadr disse: “Eles têm de entender que não estão sendo atacados por sunitas. Estão sendo atacados por extremistas. Estão sendo atacados por potências de fora do Iraque”.

Para sl-Sadr, o problema no Iraque é que os iraquianos, como um todo, estão traumatizados por quase meio século ao longo do qual viveram “um ciclo constante de violência: Saddam, a ocupação norte-americana, a 1ª Guerra do Golfo, a 2ª Guerra do Golfo, depois a guerra da ocupação, depois a resistência – isso levou a uma mudança na psicologia dos iraquianos”.

Saddam Hussein
1937 - 2006
Explicou que os iraquianos cometeram o erro de tentar resolver um problema, criando outro pior, como ter contado com os EUA para derrubar Saddam Hussein, o que gerou o problema da ocupação norte-americana. Compara os iraquianos a “alguém que descobre um rato em casa e procura um gato para matar o rato; depois, quer livrar-se do gato, e procura um cachorro. Depois, para livrar-se do cachorro, compra um elefante, quer dizer, voltou a pôr o rato dentro de casa”.

Perguntado sobre o melhor modo de os iraquianos lidarem com o rato, al-Sadr disse: “Usar, não gato nem cachorro, mas unidade nacional; rejeitar o sectarismo, abrir a cabeça, rejeitar o extremismo”.

Um dos principais temas da abordagem de al-Sadr é promover o Iraque como estado-nação independente, capaz de tomar decisões que visem aos seus próprios interesses.  Dada a hostilidade crescente contra a ocupação por EUA e Grã-Bretanha, que os ocupantes sejam responsabilizados por muitos dos atuais tormentos do Iraque. Até que isso seja feito, nem ele nem ninguém de seu movimento se reunirão com funcionários norte-americanos ou britânicos. Mas al-Sadr também é hostil à intervenção pelo Irã, nos negócios iraquianos. Diz ele: “Recusamos todos os tipos de intervenção de forças externas, sejam contra ou a favor de interesses do Iraque. O destino dos iraquianos deve ser decidido exclusivamente pelos iraquianos”.  

Vê-se uma mudança na posição de um homem que foi demonizado pelos EUA e Grã-Bretanha como joguete nas mãos do Irã. A força do movimento sadrista sob comando de Muqtada al-Sadr e de seu pai – e a capacidade de enfrentar inimigos poderosos e de sobreviver a derrotas terríveis – deve muito ao fato de ele combinar um revivalismo xiita com ativismo social e nacionalismo iraquiano.

Massoud Barzani
Por que tantos membros do governo do Iraque são tão ineficazes e corruptos? Para al-Sadr, “porque competem entre eles para pôr as mãos na maior fatia do bolo, em vez de competirem para mais bem servir ao povo”.

Perguntado sobre por que o Governo Regional do Curdistão foi mais bem-sucedido em termos de segurança e de desenvolvimento econômico que o resto do Iraque, al-Sadr entende que houve menos roubo e corrupção entre os curdos; e talvez “porque eles amam a própria etnicidade e a região onde vivem”. Se o governo tentasse marginalizá-los, talvez exigissem a própria independência: “Massoud Barzani [presidente do Governo Regional do Curdistão] disse-me que: “se Maliki nos pressionar demais, exigiremos a independência”.

Ao final da entrevista, Muqtada al-Sadr perguntou-me se não tinha medo de entrevistá-lo; e se a entrevista levasse o governo britânico a considerar-me terrorista? Perguntou se o governo britânico ainda supunha que tivesse “libertado” o povo iraquiano. E comentou que talvez devesse processar o governo, pelas mortes causadas pela ocupação britânica.



[*] Patrick Cockburn (nasceu 05 de março de 1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent.
Está entre os comentaristas mais experientes no Iraque; escreveu quatro livros sobre a história recente do país. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009.
Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque.

Escreve também para CounterPunch e London Review of Books.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Pepe Escobar: “Bem-vindos à Primavera Curda”


27/7/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A política externa turca, codificada pelo ministro de Relações Exteriores Ahmet Davutoglu foi conhecida pelo apelido “zero problemas com nossos vizinhos”. Quando a Turquia começou a clamar por mudança de regime na Síria, aquela política virou “um vasto problema com um de nossos vizinhos” (apesar de o próprio Davutoglu ter admitido publicamente que a mudança de regime falhara).

Agora, em mais uma reviravolta, a tal política já está virando “todo e qualquer problema, os mais variados, com dois de nossos vizinhos”. Entra em cena – inevitavelmente – o tabu mãe de todos os tabus de Ancara: a questão curda.

Ancara costumava caçar e bombardear rotineiramente os guerrilheiros curdos do PKK que passavam de Anatólia para o Curdistão iraquiano. Atualmente, talvez se esteja posicionando para fazer o mesmo no Curdistão sírio.

Recep Tayyip Erdogan
O primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdogan foi à televisão turca, de faca nos dentes: “Não permitiremos que um grupo terrorista estabeleça acampamentos no norte da Síria e ameace a Turquia.”

Referia-se ao Partido Democrático Curdo Sírio [orig. Syrian Kurdish Democratic Party (PYD)] – afiliado ao PKK; depois de negociação silenciosa com o regime de Assad em Damasco, o Partido Democrático Curdo Sírio controla áreas-chaves no nordeste da Síria.

Assim sendo, Ancara pode garantir logística a dezenas de milhares de “rebeldes” da OTAN da Síria – entre os quais se incluem magotes de “insurgentes” árabes sunitas linha-duríssima, antigamente chamados “terroristas”; mas, se os curdos sírios – que integram a oposição síria – demonstrarem alguma independência, eles imediatamente voltam a ser considerados “terroristas”.

Tudo sobredeterminado pelo pesadelo de curtíssimo prazo que assola Ancara: a possibilidade de criar-se um Curdistão sírio semiautônomo muito intimamente ligado ao Curdistão iraquiano.

No Curdistão sírio - milícia feminina armada pró-Assad

Siga o petróleo!

Relatório do Instituto Palme, sueco [1], mostra a que parece ser a melhor radiografia da hiper fragmentada oposição síria. Os “rebeldes” são controlados pelo Conselho Nacional Sírio [orig. Syrian National Council (SNC), de exilados que vivem fora da Síria e suas milícias de mil cabeças, feito a Hidra, as mais de 100 gangues que constituem o Exército Sírio Livre ‘Que de Livre Pouco Tem’ [orig. Not Exactly Free Syrian Army (FSA)].

Mas há também muitos outros partidos, inclusive socialistas, marxistas, nacionalistas seculares, islamistas, o Conselho Nacional Curdo [orig. Kurdish National Council (KNC)] – coalizão de 11 partidos muito próximo do governo curdo iraquiano; e o Partido Democrático Curdo Sírio.

O Conselho Nacional Curdo e o Partido Democrático Curdo Sírio podem discordar em praticamente tudo, mas concordam quanto ao essencial: a guerra civil na Síria não pode invadir o Curdistão sírio. Afinal de contas, os curdos não são nem pró-Assad nem pró-oposição; eles só se interessam pelo que tenha a ver diretamente com os curdos. O acordo foi selado sob o patrocínio de outros curdos – os primos curdos iraquianos. E o acordo explica por que os curdos estão de fato no controle – pleno controle – de um enclave curdo no nordeste da Síria.

Acampamento de refugiados curdos iraquianos na Síria
No que tenha a ver com a paranoia turca, há uma longa e sinuosa estrada [*] que leva de uma área semiautônoma a um Curdistão independente onde se reúnam os curdos sírios e iraquianos – para nem mencionar, no longo prazo, também os curdos turcos. Caso é que metade de um possível futuro Curdistão independente seria de fato turco. O pesadelo em andamento em Ancara é que quanto mais os Curdistões iraquiano e sírio aproximam-se da Turquia, mais aumentam o barulho e a agitação entre os curdos turcos em Anatólia.

As prioridades divergem: o objetivo chave dos curdos iraquianos é tornarem-se independentes de Bagdá (há quantidades gigantes de petróleo em solo curdo iraquiano). Mas os curdos sírios não têm petróleo algum. Não ter petróleo implica, para o que conta, não ter função, papel a desempenhar nem importância regional alguma, no Oleogasodutostão.

Tudo isso tem a ver, principalmente, com dois oleogasodutos estratégicos, de Kirkuk a Ceyhan – negócio tratado diretamente entre Ancara e os curdos iraquianos e que, em tese, ignorou Bagdá.

Não, não foi bem assim. Como Bagdá deixou bem claro, esses oleogasodutos só poderão começar a operar depois de paga a fatia devida ao governo central, que paga 95% do orçamento do Curdistão iraquiano.

Quero ver seus documentos de IT (Identidade Terrorista)”

Massoud Barzani
O presidente do Curdistão iraquiano Massoud Barzani disse à al-Jazeera [2] que sim – estão treinando os curdos sírios que desertaram do Exército Sírio para defender o enclave de facto. Foi Barzani quem supervisionou o negócio chave selado em Irbil dia 11 de julho, que levou as forças de Assad a retirar-se do Curdistão sírio.

As cidades que a mídia está chamando de “cidades libertadas” [3] são agora “conjuntamente governadas” pelo Partido Democrático Curdo Sírio e o Conselho Nacional Curdo. Formaram o que é conhecido agora como um Corpo Supremo Curdo.

Ninguém conseguirá jamais subestimar a capacidade dos curdos para atirar no próprio pé (e para outros lados). Portanto, é fácil entender que esse frenesi transnacional curdo aterroriza completamente não poucas almas em Istambul e Ancara. Esse comentarista [4] do diário turco Hurriyet disse bem: “os árabes estão combatendo; os curdos estão vencendo.” A Primavera Curda está ao alcance da mão. E já chega às fronteiras da Turquia.

Ahmet Davutoglu
Davutoglu poderia ter previsto: quando uma ex-política externa de “problemas zero” passa a dar abrigo a uma oposição armada que combate governo vizinho, só poderia dar confusão.

Sobretudo quando você começa a sentir ganas de matar “terroristas” que vivem em território vizinho – mesmo que seus aliados ocidentais os vejam como “combatentes da liberdade”. E, ao mesmo tempo, você apoia ativamente jihadis salafistas – ex-terroristas, atuais insurgentes – que cruzam livremente, para lá e para cá, por suas fronteiras.

Um Erdogan cada dia menos consistente e mais errático, invocou um “direito natural” [5] de combater “terroristas”. Mas, antes, o terrorista tem de mostrar o IT (documento de Identidade Terrorista): se for terrorista sunita árabe, passa livremente; se for curdo, leva chumbo.
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Notas de rodapé
[1] Uppsala, Sweden, May 2012, Olof Palm International Center: Divided They Stand –An Overview of Syria’s Political Opposition Factions
[2] 23/7/2012, Al-Jazeera, Jane Arraf, em: Iraqi Kurds train their Syrian brethren
[4]. 27/7/2012, Hurriyet Daily News, Ertuğrul Özkök em:“The Arab Spring has transformed into the Kurdish Spring.
[5]. 27/7/2012, Hurriyet Daily News, Doğan News Agency em: PM declares Syria intervention a ‘natural right.
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Nota dos tradutores
[*] Orig. “Long and winding Road. É verso dos Beatles. Pode ser visto/ouvido a seguir:

terça-feira, 24 de julho de 2012

Síria: “Mudança de regime” e o “poder esperto” [1] de Hillary Clinton


22/7/2012, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A emergência de Israel, que sai da paisagem de fundo, só pode significar uma coisa: que a crise síria encaminha-se para a fase decisiva. Acenderam-se as luzes no palco de operações, e começou a operação de esculpir a Síria. O que vem por aí não será bonito de ver. O paciente não será anestesiado, e o cirurgião-chefe prefere liderar das coxias, enquanto seus capangas fazem o serviço sujo.

Bashar al-Assad
Até agora, Turquia, Arábia Saudita e Qatar fizeram tudo o que podiam para desestabilizar a Síria e remover de lá o regime chefiado pelo presidente Bashar al-Assad. E Bashar continua vivo. Daqui em diante, só a expertise dos israelenses, para completar o serviço.

Alguém terá de enfiar a faca, bem fundo, nas costas de Bashar. O rei da Jordânia não pode fazer o serviço: mal chega aos joelhos de Bashar. Os xeiques sauditas e quataris, flácidos e gorduchos, não são dados a agitação física. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prefere ser deixada de fora, depois que queimou os dedos na Líbia, em operação limítrofe com crime de guerra. Sobra a Turquia.

Em princípio, a Turquia tem poder muscular, mas intervenção na Síria é missão de altíssimo risco, e uma das heranças mais duradouras de Kemal Ataturk é que a Turquia evite expor-se a riscos. Além do quê, os militares turcos não estão lá em muito boa forma.

Recep Tayyip Erdogan
O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan tampouco tem conseguido arrastar a maioria dos turcos na direção de aceitarem fazer guerra contra a Síria. O próprio Erdogan navega águas perigosas, tentando aprovar emendas na Constituição turca que farão dele um verdadeiro sultão – como se o presidente François Hollande da França passasse, de repente, a acumular as funções do primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault e de Martine Aubry, presidente do Partido Socialista, além da presidência da França.

Obviamente, Erdogan não porá em risco a própria carreira política. Além do mais, há imponderáveis – uma potencial volta do chicote para dentro da própria Turquia, pela minoria alawita (que ressente o crescimento do salafismo no governo de Erdogan); e o perigo perene de cair numa armadilha armada por militantes curdos.

Al-Jazeera entrevistou um líder alawita na Turquia, semana passada, que manifestou preocupação crescente com o tom cada vez mais sectário da disputa interna na Síria, inspirada por sunitas salafistas. Temem um levante salafista dentro da Turquia. Para os alawitas turcos, Assad “tenta manter coesa uma Síria pluralista e tolerante”.

Planos de contingência

Mas tudo isso se vai tornando irrelevante. Na 6ª-feira, o New York Times noticiava, citando funcionários do governo em Washington, que o presidente Barack Obama dos EUA “está aumentando a ajuda aos rebeldes e redobrando esforços para construir uma coalizão de países com pensamento assemelhado ao dos EUA, para derrubar à força o governo [da Síria]”. [2]

Noticiava também que agentes da CIA que estão no sul da Turquia “já há várias semanas” serão mantidos na missão de criar cada vez mais violência contra o regime sírio. Enquanto isso, EUA e Turquia também estão trabalhando juntos para implantar um “governo provisório pós-Assad” na Síria.

Na mesma direção, líderes da Fraternidade Muçulmana proscrita na Síria organizaram um conclave de quatro dias em Istambul para criar “um partido islâmico”. “Estamos prontos para a era pós-Assad, temos planos para a economia, as cortes de justiça, a política” – anunciou o porta-voz da Fraternidade Muçulmana.

Diz o New York Times que Washington mantém-se em íntimo contato com Ankara e Telavive, para discutir “uma ampla gama de planos de contingência” sobre “como administrar um colapso do governo sírio”.

O plano operacional que está emergindo prevê que, enquanto Ankara avança nas operações clandestinas dentro da Síria (pagos pela Arábia Saudita e Qatar), Israel cruzará a fronteira, entrando na Síria pelo sul e atacará Bashar militarmente, para degradar sua capacidade de resistir à ameaça turca.

A Turquia também avançou na guerra psicológica, projetando – com televisões, jornais e jornalistas – a ideia de que o regime sírio começa a rachar. Jornalistas e comentaristas turcos já disseminam a palavra. Murat Yetkin, do Hurriyet, jornal diário pró-establishment, reproduziu palavras de um oficial turco que dizia que,

Nosso pessoal [a inteligência turca] em campo já observa que a maioria urbana, que até agora estava preferindo manter-se neutra, começa a apoiar os grupos da oposição. Acreditamos que o povo sírio começa a perceber que o governo está rachando.

De fato, essas emocionantes versões também refletem a preocupação, no establishment turco, ante a evidência de que o regime sírio não dá qualquer sinal de capitulação, apesar dos incansáveis golpes que tem sofrido dos “rebeldes”.

Missão para Moscou

A melhor esperança de Erdogan é que a inteligência turca consiga orquestrar algum tipo de “golpe palaciano” em Damasco, nos próximos dias ou semanas. O que mais alegraria Ankara seria ver Bashar substituído por uma estrutura de transição que conserve elementos da atual estrutura Baathista do estado, o que facilitaria uma transferência ordeira de poder para novo governo – quer dizer, em termos ideais, uma transição em nada diferente do que houve no Egito depois da saída de Hosni Mubarak.

Mas Erdogan não tem certeza de que a Turquia consiga armar um golpe à moda Egito, em Damasco. A corrida de Erdogan a Moscou, 4ª-feira passada, foi tentativa de sondar Moscou para saber se seria possível montar uma estrutura de transição, nova e estável, em Damasco, mediante algum tipo de cooperação internacional. (Obama investiu o próprio peso na missão de Erdogan: na 5ª-feira, telefonou pessoalmente ao presidente Vladimir Putin da Rússia, para discutir a Síria).

Curiosamente, pouco antes de Erdogan sair para o encontro agendado com Putin no Kremlin, aconteceu em Damasco um massivo ataque terrorista, que matou o ministro da Defesa da Síria e seu chefe de Inteligência. Considerado aquele evento, Moscou ouviu polidamente o que Erdogan tivesse a dizer e assegurou-lhe que manteria separação clínica entre os laços estratégicos que unem Rússia e Turquia, de um lado; e, de outro, a questão síria. E a posição russa manteve-se inalterada – como se viu bem claramente, no veto no Conselho de Segurança da ONU, uma semana depois do encontro com Erdogan.

Vitaly Churkin
Não há dúvidas de que Moscou já percebeu que o jogo aproxima-se do fim, na Síria. Em entrevista à rede de televisão Rússia Today na 6ª-feira, o embaixador da Rússia à ONU, Vitaly Churkin, [3] falou em termos excepcionalmente fortes sobre o que está acontecendo:

Infelizmente, a estratégia de nossos colegas ocidentais parece estar sendo encaminhada exclusivamente para fazer aumentar as tensões na Síria e em torno da Síria. Não perdem uma oportunidade. Dessa vez, aproveitaram a circunstância de ser necessário prorrogar o mandato da missão de monitoramento que opera na Síria, e acrescentaram, no mesmo projeto de Resolução rascunhado por eles, inúmeras outras cláusulas inaceitáveis.

E continuou, trazendo à cena também o Iraque:

Não há quem não saiba que os maiores interventores humanitários do planeta – EUA e Grã-Bretanha – intervieram no Iraque, por exemplo, declamando os mais nobres pretextos (naquele caso, a existência de armas de destruição em massa que jamais existiram). O resultado, no Iraque, foram 150 mil mortes, só entre os civis; além de milhões de refugiados e legiões de seres humanos cujas vidas foram arruinadas e vagam pelo país. Por tudo isso, não se deixem enganar pela retórica do humanitarismo ocidental. Na política ocidental para a Síria, há muito mais geopolítica, que humanismo.

Antes de ir a Moscou, Erdogan foi a Pequim, que também já sente que os EUA estão batendo o martelo sobre a Síria. O Global Times comentou, em editorial, na 6ª-feira, que:

É provável que o governo de Assad seja derrubado (...) diminuem muito rapidamente as chances de solução política (...) as coisas na Síria podem mudar bem rapidamente. [4]

Tom Donilon
Tom Donilon, Conselheiro para Segurança Nacional dos EUA, está viajando para Pequim: vai tentar descobrir se há alguma chance de conseguir que os chineses moderem a posição sobre a Síria.

Rússia e China veem com bons olhos a era Erdogan, que ampliou os laços entre esses países e a Turquia. A Rússia obteve um contrato de $20-$25 bilhões de dólares para a construção de usinas nucleares na Turquia. A China atraiu a Turquia, como parceiro para os diálogos da Organização de Cooperação de Xangai. A Turquia realizou um segundo exercício de manobras militares com a China, recentemente; e sonha com ser a ponte que venha a unir a OTAN e Pequim.

O homem que não vendeu sua alma [5]

Mesmo assim ambas, Rússia e China, considerarão, na análise, que, com uma “nova guerra fria” em construção, Washington espera que a Turquia volte ao ninho antigo e desempenhe o papel de aliada numa vasta faixa de terra que se estende do Mar Negro ao Cáucaso e ao Cáspio e até a Ásia Central. Em última análise, os EUA jogam com inúmeros trunfos, cortesia da era da Guerra Fria, para manipular as políticas turcas. É o que se vê bem claro na centralidade que Washington atribui ao líder curdo iraquiano Massoud Barzani, na estratégia geral dos EUA.

Massoud Barzani e Barack Obama na Casa Branca
Obama recebeu Barzani recentemente, na Casa Branca. Barzani passou a ser o “pino de conexão” das políticas de EUA-Turquia para a Síria. Está acontecendo poucos meses depois de a ExxonMobil assinar, em outubro, contratos para desenvolver os fabulosos campos de petróleo localizados no Curdistão, região controlada por Barzani, sem dar atenção aos protestos de Bagdá, de que tal negócio, firmado com uma autoridade provincial, atropelando o governo central, viola a soberania do Iraque.

Semana passada, a Chevron, gigante do petróleo dos EUA, anunciou que também adquirira 80% do controle de outra companhia que opera na região, cobrindo área somada de 1.124 quilômetros quadrados sob o controle de Barzani.

A entrada das empresas ExxonMobile e Chevron muda o jogo na política regional para a Síria. O ponto é que a melhor via para transportar até o mercado mundial o que for extraído dos depósitos gigantes de gás e petróleo no Curdistão é o porto sírio de Latakia, no Mediterrâneo oriental. Não há qualquer dúvida de que aí está uma nova dimensão a considerar no plano de jogo de EUA-Turquia sobre a Síria.

Massoud Barzani
A empresa turca de engenharia e construção Siyah Kalem apresentou projeto para o transporte do gás natural extraído do Curdistão. Evidentemente, em algum lugar do subsolo, os interesses do business corporativo da Anatolia (que tem laços com o partido islâmico que governa a Turquia) e a orientação da política externa turca passaram a convergir. Os interesses de EUA e Turquia sobrepõem-se na geopolítica das reservas de energia do norte do Iraque.

Barzani não é só parceiro comercial de Washington e Ankara; é também agente chave que pode ajudar a encaminhar o problema que a Turquia enfrenta com os curdos. Com o apoio de Washington, Barzani lançou um projeto para reposicionar as várias facções curdas – turcos, iraquianos e sírios – numa nova trilha política.

Mês passado, Barzani organizou reunião das facções curdas em Arbil. Em termos claros: Barzani tentou subornar os líderes de várias facções curdas com fundos que lhe chegaram de Ankara. Diz que conseguiu reconciliar os diferentes grupos curdos sírios. (A insurgência curda na Turquia é comandada por sírios de etnia curda.) Diz também que conseguiu convencer os curdos sírios a romper os laços que os ligam a Bashar e a alinhar-se ao lado da oposição síria.

Esses ecos de Arbil têm peso vital no que Erdogan venha a fazer sobre a Síria. Como lembrou recentemente um importante analista do Washington Institute for Near East Policy, Soner Cagaptay, o xis da questão é que “grande parte da minoria curda, agitada e bem organizada na Síria, não confia na Turquia”. [7]

O salafismo em asas israelenses

Fato é que, em última análise, só Israel pode resolver o dilema de Erdogan. O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak declarou no fim de semana que “a Síria tem mísseis antiaéreos e mísseis terra-terra avançados e elementos de armas químicas. Ordenei que o Exército de Israel prepare-se para uma situação na qual teremos de considerar a possibilidade de um ataque”. [8]

Ehud Barak
Barak acrescentou que “no momento em que [Bashar] começar a cair, nós [Israel] iniciaremos monitoramento de inteligência e nos associaremos a outras agências”. Falou depois de uma visita secreta de Donilon a Israel, na semana anterior. Nos calcanhares da visita de Donilon, chegou a Telavive a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton, depois de um encontro histórico no Cairo com o presidente recém eleito Mohammed Mursi da Fraternidade Muçulmana, que garantiu a Washington que não pensa criar qualquer problema para Israel, em futuro pensável.

As declarações de Barak rompem o fino véu de indiferença que Telavive manteve até aqui sobre os desenvolvimentos sírios. O que emerge, em retrospecto, é que Washington manteve Israel em resguardo até o momento de demolir fisicamente a maquinaria de guerra de Bashar – empreitada que Erdogan não quer assumir ou não tem capacidade para assumir.

O mais provável é que Erdogan já estivesse de sobreaviso, para aparecer ao lado de Barak, mas, político arguto, manteve as aparências de quem muito sofria com a crise síria – ao mesmo tempo em que, clandestinamente, a alimentava.

Em versão simples, Washington passou a perna em Moscou e Pequim. Sempre afirmou que a ideia de os EUA intervirem diretamente na Síria, ou ao estilo da intervenção indireta, por operação da OTAN, como na Líbia, jamais passara pela cabeça de Obama. Como agora se vê, Obama não mentia.

O que se desdobra hoje é visão espantosamente interessante: o salafismo voa nas asas da Força Aérea israelense e vai aterrar em Damasco. Erdogan voltará, com renovado vigor, a sacudir a árvore de Bashar em Damasco. E, a qualquer momento, em futuro próximo, de repente, Barak por-se-á a decepar os galhos da árvore, varrendo-os como raio.

Erdogan e Barak deixarão tão nua a árvore de Bashar, tão desamparada, que ela perceberá a futilidade do esforço para manter-se ereta sobre a própria raiz. E nada de “intervenção militar”, nada de operações da OTAN, ninguém terá analogia alguma a fazer com o que foi feito na Líbia. Nem Erdogan ordenará que seu exército marche sobre a Síria.

Hillary Clinton
A secretária de Estado Clinton diria que isso é o “poder esperto”. Em ensaio grandiloquente intitulado “A arte do Smart Power”, de sua lavra, semana passada, analisando o curioso desenlace do conto da Primavera Árabe, Clinton escreveu que os EUA, hoje, “lideram por novas vias”. [6]

Clinton esclarece que os EUA estão expandindo “sua caixa de ferramentas de política externa para integrar todos os ativos e parceiros, e fundamentalmente mudamos o modo como nós [os EUA] fazemos negócios. (...) A trilha que interliga todos os nossos esforços é um compromisso com adaptar a liderança global dos EUA às necessidades de um mundo em mudança”.

Ao final do dia, Erdogan fará da pedra, sopa, que engolirá untada em banha de porco. A verdade nua e crua é que Israel fará, por ele, o serviço sujo na Síria.

Nada resta a Erdogan, além de aceitar o fato de que não passa de uma das ferramentas na “caixa de ferramentas” de Washington – nada mais, nada menos. Nunca foi seu destino liderar o Oriente Médio muçulmano. O ocidente apenas lhe deu corda, para que se enforcasse na própria conhecida vaidade.

Liderar o Oriente Médio muçulmano é prerrogativa exclusiva de Washington.



Notas de rodapé

[1] Orig. smart power. Sobre a expressão, ver Eric Etheridge, New York Times, 14/1/2009, How ‘Soft Power’ Got ‘Smart’” [como o ‘Poder Suave’ virou ‘Esperto’], onde se lê: “No discurso que fez ao aceitar a indicação para o cargo de secretária de Estado do governo Obama, Hillary Clinton usou quatro vezes a expressão smart Power [geralmente traduzido no Brasil por “poder inteligente”, mas, mais literalmente, poder ‘esperto’]; na declaração, que antecedeu o discurso de aceitação do cargo, usou nove vezes a mesma expressão”.


[3] 20/7/2012, redecastorphoto em: Não se deixem enganar pela retórica do humanitarismo ocidental, Vitaly Churkin, embaixador da Rússia à ONU, à rede Russia Today  (entrevista transcrita e traduzida ao português).

[4] 20/7/2012, Global Times, Pequim,

[5] Orig. A man for all seasons. É expressão do séc. 16 inglês, tradicionalmente aplicada a Thomas More. Dá título também a uma biografia cinematográfica, que recebeu no Brasil o título de “O homem que não vendeu sua alma” [que se aproveita nessa tradução]

[6] 18/6/2012, “The art of smart power”, Hillary Clinton, New Statesman. Aí se lê, na conclusão do artigo: “Não há precedente real na história para o papel que os EUA desempenhamos hoje ou para a responsabilidade que assumimos sobre os ombros. Isso é o que torna tão excepcional a liderança dos EUA. Por isso confio que continuaremos a servir e a defender uma ordem global pacífica e próspera ainda por muitos anos no futuro”.

[7] 20/7/2012, CNNWorld, Soner Cagaptay, em:Should Turkey be afraid of the Syrian Kurds?

[8] 20/7/2012, Jerusalem Post, Israel, Herb KEINON, Reuters, em: “Barak: Israel may seize advanced weapons in Syria.


MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.