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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O terceiro homem ‒ Nota de leitura sobre uma história da Jihad islâmica palestina


24/11/2014, [*] Fausto Giudice, Basta! Journal de Marche Zapatiste Multilangue
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu  



Resenha de: Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €.


No mundo polarizado no qual nos debatemos, o pensamento-único dominante é binário: “ou estão conosco ou estão contra nós”. E no caso da situação na qual se vê presa aquela pobre Palestina, esse pensamento binário é posto a rodar com a artilharia pesada, em sentido literal e em sentido figurado. Também se tornou habitual apresentar os atores palestinos sempre reduzidos à dupla de irmãos-inimigos Fatah-Hamás, os primeiros já tornados apresentáveis e cooptáveis no conjunto dos partidos “de Estado”, porque pressupostos laicos, democráticos e pacíficos; e os segundos deixados encerrados no próprio gueto de Gaza, regularmente atacados por tempestades de ferro, fogo e sangue, e quase hermeticamente lá trancados há oito anos, além de estarem incluídos nas listas – construídas pelas potências do “mundo livre” já lançadas em novas cruzadas – de organizações terroristas.


Ao mesmo tempo, até esse pensamento binário já está sendo posto em causa por Netanyahu e seus acólitos, que tentam convencer seus aliados USA-norte-americanos e europeus de que “tudo isso” – o conjunto dos partidos e movimentos palestinos – não passa de único e o mesmo bando de exterminadores de judeus.

Se se procura nos buscadores de informação por internet mais conhecidos, o que se encontra é o seguinte:


Palavra-chave
Ocorrência nos “buscadores” internet
Em caracteres latinos
Em árabe
Hamás
6.330.000 
16.000.000 
Fatah
42.600.000 
32.400.000 
OLP
23.300.000
1.120.000 
Jihad islâmica palestina
180.000 
1.600.000

Como se vê, nada de fotos: a organização da Jihad islâmica palestina é praticamente uma fantasma midiático. É preciso pois receber com entusiasmo o trabalho de pesquisa feito por três autores que pertencem, dois deles, à nova geração de “islamólogos/orientalistas” franceses; e o terceiro, à diáspora palestina. Esses autores reúnem as três condições mínimas exigidas para uma abordagem racional/científica de um movimento político árabe: conhecem a língua árabe; conhecem pessoalmente os protagonistas; e têm cultura geral suficientemente ampla para poderem realocar em contexto histórico, político, cultural, social, militar e religioso os atos e discursos dos atores estudados.

Para todos e todas que nunca se cansam de meter os movimentos de resistência “islamistas” no grande caldeirão dos “barbudos doidos (a zombar) de Deus”, bons para a geena, o livro de Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €), permitirá um mergulho num mundo e numa história desconhecidos de 99% dos ocidentais, inclusive os pró-Palestina, com doses equilibradas de empatia e de distanciamento crítico. É livro cuja leitura se tem de recomendar, sobretudo aos militantes franceses de esquerda, partidários incondicionais do Fatah, aos quais a simples existência do Hamas e do Hezbollah provoca engulhos, quando não lhes provoca urticárias e comichões: verão que as coisas não são tão simples, e que o Fatah é muito mais “islamista” do que lhes agrada ver.

Messali Hadj
Como foi o caso da Frente de Libertação Nacional da Argélia e, antes dela, da Estrela Africana/MTLD de Messali Hadj, que conseguiu a proeza de ser, simultaneamente, dirigente próximo da Internacional Comunista e de ver-se indicado Califa por um congresso de Islâmico no Cairo, nos anos 1930. Como foi também o caso de Bourguiba, Néo-Destour, apresentado em geral como exemplo máximo de laicismo, mas do qual já se esqueceu completamente que, naqueles mesmos anos 1930, ele distribuía panfletos pelas mesquitas cujos imãs pregavam que a participação numa ou noutra greve, numa ou outra manifestação de rua era dever de todos os muçulmanos.

De volta ao caso dos palestinos, impõe-se uma primeira constatação: todos, seja qual for a ideologia que declarem e ostentem, são palestinos, antes de serem “islamistas”, “esquerdistas”, “nacionalistas árabes” ou outros, e todos, inclusive os cristãos, vivem imersos em cultura ambiente muçulmana. Esse patriotismo “estreito”, comum, de fato, a todos os povos árabes, que foi interiorizado nas fronteiras nacionais herdadas pelos colonialismos e protetorados é, é claro, particularmente exacerbado entre aqueles cuja terra natal esteja ocupada há já quase um século por colonos judeus ou que se dizem judeus.

Corolário desse patriotismo é o anti-imperialismo, que passou por várias fases ao longo dos eventos do mundo e da região.

Ao analisarem muito corretamente o projeto sionista e sua implantação como emanação das potências coloniais – Grã-Bretanha e França – que passaram, na sequência, o bastão aos EUA, os palestinos voltam-se “naturalmente” na direção dos que, naquele mundo, pareciam combater aquelas potências: a URSS, a China, o Vietnã e Cuba.

Yasser Arafat
O entusiasmo pela URSS já esfriara um pouco, quando os soviéticos votaram, na ONU, a favor do plano de partilha da Palestina do dia 29/11/1947; as simpatias e afinidades ideológicas encaminham-se progressivamente na direção de Pequim, Hanói e Havana. Mas dois eventos mudariam tudo: a revolução iraniana de janeiro de 1979; e a “entrada do Exército Vermelho no Afeganistão, dia 25/12/1979, que viria a resolver à tiros de kalachnikov o conflito entre os comunistas afegãos no poder. Aquele mesmo ano de 1979 viu eclodir também uma guerra entre a China, já dirigida pelo “pragmático” herdeiro de Mao, Deng Xiao Ping, homem ao qual pouco importava a cor do gato, desde que apanhasse o camundongo, o Vietnã, ocupado na guerra para eliminar os Khmers vermelhos maoístas do Camboja. Teerã, então, se converteu, repentinamente, em nova Meca dos revolucionários palestinos – com Yasser Arafat incluído. [1]

O impacto da revolução iraniana é enorme no mundo árabe-muçulmano, principalmente nos grupos e movimentos político-militares palestinos e libaneses e, mais amplamente sobre a juventude, em particular sobre os estudantes.

Um grupo de estudantes palestinos, originários quase todos de Gaza, bolsistas no Egito, constituem um primeiro núcleo do que virá a ser o Movimento da Jihad islâmica palestina, nascida oficialmente em outubro de 1987, pela primeira ação militar desse grupo contra um acantonamento israelense no quarteirão do Shujaayia em Gaza, prelúcio da 1ª. Intifada, que eclodirá dia 9/12/1987. O mesmo quarteirão no qual, em julho de 2014, os soldados israelenses conheceriam sua primeira grande derrota tática da Operação “Franja de Proteção”.

Anwar el-Sadat em 1981
Entre a “divina surpresa” de 1979, e 1987, dois eventos foram decisivos para recentralizar o combate dos palestinos sobre o território da pátria ocupada: o assassinato do presidente Sadat em 1981, que desencadeia uma caça aos islamistas, sem poupar os palestinos, apesar de nada terem tido a ver com o assassinato; e a ocupação do Líbano, por Israel, em 1982, que obrigou a evacuar combatentes e funcionários palestinos para a Tunísia, Argélia, Iraque ou Iêmen.

Os militantes da Jihad islâmica concentram sua atenção sobre Gaza e prosseguem no trabalho discreto de construir uma vanguarda revolucionária, tentando amalgamar a própria bagagem teórica heteróclita, reagrupando progressivamente militantes vindos da esquerda marxistizante e/ou nacionalista árabe, ao mesmo tempo que preservavam relações complexas ao mesmo tempo com os Irmãos muçulmanos , que haviam frequentado no Egito, e frações islâmicas do Fatah. Os Irmãos da Fraternidade Muçulmana de Gaza só se decidiriam a passar à luta política – e portanto militar – no momento da 1ª. Intifada, quando criaram oficialmente o Hamas, beneficiando-se da rede pacientemente tecida nas mesquitas e nos serviços de atendimento caritativo aos mais necessitados.

27 anos mais tarde, a Jihad islâmica é o terceiro movimento político-militar palestino por ordem de importância. Teve papel importante na resistência contra a mais recente ofensiva de Israel contra Gaza e continua como “um estranho soldado” na paisagem palestina, com exército “de sombras” estimado em 5.000 combatentes, dirigidos por comandantes que, todos eles, leram e discutiram de Antonio Gramsci e Ibn Khaldoun a Mao e Che Guevara, passando por Khomeini e Ali Shariati, o tradutor de Franz Fanon para o persa. Atualmente, com relações complexas de “fraternidade conflitual” com o Fatah e com o Hamas, esse movimento, que se pode qualificar como “islamo-nacionalista revolucionário” goza de grande prestígio entre os palestinos de todos os grupos, primeiro lugar porque por muito tempo cumpriu as funções de mediação e conciliação entre os dois grandes irmãos inimigos.

 Olivier Roy
Para saber mais, só falta ler essa obra da qual Olivier Roy diz, em prefácio, que:

(...) traz contribuição extremamente original: a análise das trajetórias militantes dos fundadores e dos quadros do movimento. Um maoísta ateu pode tornar-se islamista em nome da fusão com as massas; um islamista da Umma pode inscrever sua luta no quadro de um nacionalismo palestino, e acabar por rejeitar o internacionalismo islamista porque vê aí um pretexto para ignorar as lutas nacionais e, e voltar a refugiar-se em um universo panislamista. Os caminhos se cruzam, os militantes evoluem. Com certeza muitos jogaram ao lixo o bebê Marx com a água soviética do banho.

A influência profunda do marxismo em muitos dos fundadores do Movimento da Jihad Islâmica Palestina (MJIP) – e do Hezbollah – explica tanto a originalidade quanto a eficácia na ação, desse(s) movimento(s).

[Wissam Alhaj, Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, De la théologie à la libération – Histoire du Jihad islamique palestinien [Da teologia à libertação – História da Jihad islâmica palestina], out., 2014, Paris: La Découverte, 214 p. 18 €, p. 9].

Café-debate: Apresentação do livro, com Nicolas Dot-Pouillard e Eugénie Rébillard, que coordenaram a edição, está marcada para 2ª-feira, 24/11/2014, às 19h, pela Associação UniT (“Union pour la Tunisie”), no Myanis (132 boulevard de Ménilmontant, 75020 Paris).

Nota de rodapé

Aiatolá Khomeini
[1] Khomeyni é nosso Imã, nosso chefe, o dirigente de todos os mujahidins, seremos dois povos em um só, duas revoluções numa só e cada fedai, cada mujahid, cada revolucionário iraniano será o embaixador da Palestina no Irã. Nós libertamos o Irã, nós libertaremos a Palestina. Continuaremos nossos esforços até o momento em que tenhamos derrotado o imperialismo e o sionismo; o combate feito contra o Xá pelos iranianos é idêntico ao combate dos palestinos contra Israel”. (Yasser ARAFAT, jornal Libération, 20/2/1979, citado por Zahra BANISADR, “L’Iran et la question palestinienne” [O Irã e a questão palestina], em Revue d’études palestiniennes, n. 24, Éditions de Minuit, 1987, p. 5, retomado por Nicolas Dot-Pouillard, “De Pékin à Téhéran, en regardant vers Jérusalem : la singulière conversion à l’islamisme des “Maos du Fatah’” [De Pequim a Teerã, com olhos postos em Jerusalém, a singular conversão ao Islamismo, dos “Mãos” do Fatah] (Religioscope, 2008).

De 1972 a 1982, um encontro singular entre jovens militantes maoístas libaneses e quadros palestinos do Fatah levará pouco a pouco a uma experiência simultaneamente intelectual e militante – a Brigada de Estudantes do Fatah – que resultará, aos poucos em nada menos que a passagem definitiva, para o Islã político, na continuidade da Revolução Iraniana de 1979.

A morte de um Khalil Akkaoui, em Trípoli, simbolizará as esperanças e os fracassos dos membros de uma geração política hoje dispersa. Adeptos da “linha de massa” maoísta, partidos feitos da implantação popular nos quarteirões pobres de Beirute e nos campos de refugiados palestinos, o grupo que seria conhecido como “os Maos do Fatah” permite compreender melhor, retrospectivamente, os traços de continuidade, de ontem até hoje, entre o Islã político e o terceiro-mundismo marxista ou nacionalista: mística do povo em luta, eventualismo revolucionário messiânico, teologia da libertação em filigrana, centralidade da questão nacional e identitária compõem uma verdadeira “ideologia implícita” comum, em forma “de afinidades eletivas” [Nota acrescida pelos tradutores, para (algum) esclarecimento dos leitores da tradução ao português do Brasil].
____________________________

[*] Fausto Giudice (nascido em Roma-Itália em 1949) é jornalista, escritor, tradutor e editor italiano que escreve habitualmente em francês, italiano, espanhol, alemão, sueco e inglês. Vive hoje na Tunísia onde passou toda sua infância e adolescência. É membro fundador do Coletivo de Tradutores (2005) Tlaxcala, um grupo de tradutores de grande diversidade linguística e cyber-jornalismo. É, também, co-fundador da Alliance Zapatiste de Libération Sociale e em 2003 do Collectif Guantánamo.
Já em 2012 fundou em Túnis a editora Éditions workshop19 – uma oficina Tunisiana de Criação
Publicações:
  • Têtes de Turc en France, enquêtes sur l'apartheid à la française, com Michel Roux, Yann Moulier-Boutang et Denis Ruellan, prefácio de Günter Wallraff, Ed. La Découverte, 1989.
  • Arabicides, une chronique française (1970-1991), Ed. La Découverte, 1992.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O negócio de Israel “vidas em troca de terra” é roubo. Puro e simples

4/9/2014, [*] Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na tendinha do Pirumole:
“Então Israel não é um país... É uma enorme quadrilha!”

Quanto Israel roubou de terras da Palestina
(clique na imagem para aumentar)
Visão de mundo? Israel rouba terras, os palestinos são roubados. Não há outra coisa para ver.

E assim mais uma fatia da terra palestina escorregou pelo ralo. Mais uns mil acres de terra palestina roubada pelo governo de Israel – porque... “apropriação” é roubo, não é? – e o mundo já apareceu com as desculpas de sempre.

Os norte-americanos acharam o roubo “contraproducente” para a paz, o que é reação bastante amena, se se considera o que os EUA diriam/fariam se o México roubasse 1.000 acres de terra do Texas e resolvesse construir casas ali para imigrantes mexicanos ilegais nos EUA.

Mas, não. Foi na “Palestina” (país inexistente, daí as aspas). E Israel conseguiu safar-se, terras roubadas e tudo, embora o roubo alcance agora escala inusitada – foi a maior quantidade de roubo de terra em 30 anos, desde que foi assinado o Acordo de Oslo em 1993.

O aperto de mão Rabin-Arafat, as promessas e trocas de territórios e retiradas militares, e a determinação de deixar tudo de importante (Jerusalém, refugiados, o direito de retorno) para o fim, até que todos confiassem tanto uns nos outros que a coisa seria facílima... não surpreende que o mundo tenha feito descer sobre os dois sua generosidade financeira.

O aperto-de-mão entre Rabin e Arafat

Mas esse mais recente roubo de terra não apenas reduz a “Palestina”: também mantém o círculo de concreto armado em torno de Jerusalém, para manter os palestinos bem distantes, tanto da capital que se espera que eles partilhem com israelenses, como de Belém.

Foi instrutivo saber que o conselho Etzion israelense-judeu considerou o roubo como castigo pelo assassinato de três adolescentes israelenses em junho.

O objetivo dos assassinatos dos três jovens foi semear o medo entre nós, interromper nossa vida diária e pôr em dúvida nosso direito [sic] à terra – anunciou o conselho Etzion. Nossa resposta é reforçar a colônia.

Deve ser a primeira vez que alguém “adquiriu” terras na “Palestina” sem usar desculpas sobre segurança ou direitos de nascimento – ou por decisão-autorização direta de Deus. Dessa vez, o motivo para roubar terra palestina foi declaradamente vingança. Assim se cria interessante precedente.

Se a vida de um israelense inocente – cruelmente ceifada – vale cerca de 330 acres de terra, a vida de um palestino inocente – também cruelmente ceifada – vale a mesma porção de terra.

E se metade, que seja, dos 2.200 palestinos mortos em Gaza mês passado – e esse é número conservador – fossem inocentes, nesse caso os palestinos hoje teriam direito assegurado a 330 mil acres de terra israelense; na realidade, muito mais. Mas por mais “contraproducente” que essa conta seja, com certeza os EUA não aprovariam. Israel rouba terra, palestinos perdem terra; é assim que funciona. É assim desde 1948, e assim continuará.

Mahmoud Abbas/2011
por Latuff
Jamais existirá ‘'Palestina'’ alguma, e o mais recente roubo de terra palestina é apenas mais um ponto acrescentado no livro dos padecimentos que os palestinos têm de ler, enquanto seus sonhos de terem estado seu se vão diluindo. Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do “presidente” palestino Mahmoud Abbas, disse que o chefe dele e as forças moderadas na Palestina haviam sido “apunhalados pelas costas” pela decisão dos israelenses, o que é dizer pouco, praticamente nada. Abbas tem as costas completamente apunhaladas, de cima a baixo. E esperava o quê, da vida, quando escreveu um livro sobre as relações palestinos-israelenses no qual não escreveu nem uma única vez, uma, que fosse, a palavra “ocupação”?

O que significa que voltamos ao velho joguinho. Abbas não pode negociar com ninguém a menos que fale pelo Hamás, tanto quanto pela Autoridade Palestina. Como Israel sabe. Como os EUA sabem. Como a União Europeia sabe. Mas cada vez que Abbas tenta construir governo de unidade nacional, todos nós nos pomos a guinchar que o Hamás é organização “terrorista”.

E Israel argumenta que não pode conversar com uma organização “terrorista” que exige a destruição de Israel – por mais que Israel costumasse conversar muito com Arafat e, naqueles dias, tenha ajudado o Hamás a construir mais mesquitas em Gaza e na Cisjordânia, para servirem como contrapeso ao Fatah e a todos os outros então “terroristas” lá de Beirute.

Mahmoud Abbas/2014
por Latuff
Claro, se Abbas fala só por ele mesmo, Israel então diz o que já disse: que se Abbas não fala por Gaza, Israel não tem com quem negociar. Mas... isso realmente ainda interessa? Todas as manchetes do mundo, sobre esse assunto, deveriam exibir uma tarja de luto: “Adeus, Palestina”.
____________________________


[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Israel: antissemita e colonialista


14/5/2013, Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Joseph
Massad




Joseph Massad é professor de Política Árabe Moderna e História Intelectual na Columbia University, em New York. É autor de: The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians.




O holocausto judaico matou a maioria dos judeus que lutaram contra o anti-semitismo europeu, incluindo o sionismo, escreve Joseph Massad. Foto AFP.
Os judeus que se opunham ao sionismo compreenderam, desde o início, que o movimento incorporava o antissemitismo em seu diagnóstico do que os europeus chamavam de “a questão judaica”. O que mais horrorizava os judeus antissionistas, contudo, era que o sionismo também partilhava a “solução” para a Questão Judaica que os antissemitas sempre haviam pregado, a saber: que os judeus tinham de ser expulsos da Europa.

Foi a Reforma Protestante, que fez renascer a Bíblia Hebraica, que ligou os modernos judeus da Europa aos antigos hebreus da Palestina, ligação que os filólogos do século 18 solidificariam mediante a descoberta da família das línguas “semitas”, que incluiriam o hebraico e o árabe. Por um lado, os Protestantes Milenaristas insistiam em que os judeus contemporâneos seriam descendentes dos antigos hebreus e tinham de deixar a Europa e voltar à Palestina, para apressar a segunda vinda de Cristo; por outro lado, as descobertas filológicas levaram a rotular os judeus contemporâneos de “semitas”. O salto que as ciências biológicas de raça e hereditariedade dariam no século 19 e que levaria a definir os judeus europeus contemporâneos como descendentes raciais dos antigos hebreus, nem teve, afinal, de ser salto muito grande.

Baseando-se nas conexões criadas por Protestantes Milenaristas anti-judeus, abundavam, no século 19, europeus seculares que rapidamente perceberam o potencial político de “devolver” os judeus à Palestina. Menos interessados, que os Milenaristas, em apressar alguma segunda vinda de Cristo, esses políticos seculares, de Napoleão Bonaparte e do ministro britânico de Relações Exteriores, Lord Palmerston (1785-1865) a Ernest Laharanne, secretário particular de Napoleão III nos anos 1860s, tinham interesse em expulsar os judeus, da Europa para a Palestina, para instalá-los lá como agentes do imperialismo europeu na Ásia.

Wilhelm Marr
Esse projeto seria abraçado por muitos “antissemitas” – novo rótulo logo divulgado por racistas europeus antijudeus, depois que a palavra foi criada, em 1879, por um obscuro jornalista vienense, Wilhelm Marr, que divulgava uma plataforma-programa político intitulado “A vitória do judaísmo sobre o germanismo”.  Marr teve o cuidado de separar bem o antissemitismo e a história do ódio dos cristãos contra judeus, de base religiosa. E enfatizava, na linha da filologia semítica e das teorias raciais do século XIX, que a diferença entre judeus e arianos era estritamente racial.

Assimilar os judeus na cultura europeia

O antissemitismo científico insistia em que os judeus seriam diferentes dos cristãos europeus. Que, de fato, os judeus absolutamente não seriam europeus, e que a presença deles na Europa seria a causa do antissemitismo. A razão pela qual os judeus causariam tantos problemas aos cristãos europeus teria a ver com a sempre repetida “ausência de raízes”, que não tinham pátria e, portanto, nenhuma lealdade a pátria alguma. No período romântico dos nacionalismos europeus, os antissemitas diziam que os judeus não teriam lugar nas novas configurações nacionais, e minariam a pureza racial e nacional essencial na maioria dos nacionalismos europeus. Por isso, se os judeus permanecessem na Europa – argumentavam os antissemitas – só gerariam hostilidade entre os cristãos europeus. A única solução seria os judeus deixarem a Europa e terem pátria própria.

Desnecessário dizer que os judeus religiosos e seculares sempre se opuseram a essa horrenda linha de pensamento antissemita. Judeus ortodoxos e reformistas, judeus socialistas e judeus comunistas, judeus cosmopolitas e judeus Yiddishkeit culturais todos concordavam que aí estava uma perigosa ideologia de hostilização que visava a expulsar os judeus de seus respectivos países europeus.

O Iluminismo Judeu (Haskalah), que também emergiu no século XIX, buscou assimilar os judeus na cultura secular europeia, induzindo-os a abandonar sua cultura judaica. Foi esse Iluminismo Judeu que tentou quebrar a hegemonia dos rabinos judeus ortodoxos no “Ostjuden” do shtetl leste-europeu, propondo um rompimento com o que era visto como uma cultura judaica “medieval”, em favor da moderna cultura secular dos cristãos europeus. A reforma do judaísmo, para convertê-lo em variante assemelhada a um cristianismo-protestantismo judeu, emergiria do fundo do Iluminismo Judeu. Mas esse programa visava a integrar os judeus na modernidade europeia, não a expulsá-los para longe da geografia da Europa.

Quando surgiu o sionismo, 15 anos depois da publicação da plataforma-programa antissemita de Marr, ele incorporaria todas essas ideias anti-judeus, inclusive o antissemitismo científico.

Theodor Herzl
Para o sionismo, os judeus seriam “semitas”, descendentes dos antigos hebreus. No seu panfleto de fundação, O Estado Judeu [Der Judenstaat], Herzl explicava que seriam os judeus, não seus inimigos cristãos, os que “causavam” o antissemitismo; e que “onde [o antissemitismo] não existe, para lá os judeus o levam no curso de suas migrações”. Que “os infortunados judeus estão nesse momento levando as sementes do antissemitismo para a Inglaterra; já o introduziram nos EUA”; que os judeus seriam “uma nação” que devia deixar a Europa, para restaurar a própria “nacionalidade” na Palestina ou na Argentina; que os judeus deveriam copiar os cristãos europeus em termos culturais e abandonar suas línguas e tradições em favor das modernas línguas europeias, ou restaurar a própria antiga língua nacional. Herzl preferia que todos os judeus adotassem o alemão, como idioma; mas os sionistas do leste da Europa preferiram o hebraico. Os sionistas depois de Herzl decidiram e afirmaram que os judeus seriam racialmente diferentes dos arianos. Quanto ao iídiche,  a língua viva da maioria dos judeus europeus, todos os sionistas concordavam que tinha de ser esquecida para sempre.

A maioria dos judeus continuou a resistir contra o sionismo e via seus preceitos como antissemitismo e como continuação do esforço do Iluminismo Judeu para apagar a cultura judaica e assimilar os judeus na cultura laica europeia, com a diferença de que o sionismo queria os judeus longe da Europa, em ponto geograficamente distante, depois de expulsos da Europa.

O Bund – Sindicato Geral do Trabalho Judeu na Lituânia, Polônia, e na Rússia – que foi fundado em Vilna no início de outubro de 1897, poucas semanas depois do 1º Congresso Sionista,  em Basel, no final de agosto de 1897, viria a ser o mais empenhado inimigo do sionismo. O Bund uniu-se à coalizão já existente de judeus contra o sionismo, de rabinos ortodoxos e reformistas, que já unira forças alguns meses antes para impedir que Herzl realizasse o primeiro congresso sionista em Munique; por isso o congresso foi transferido para Basel. Os judeus antissionistas, e os antissionistas em geral, em toda a Europa e nos EUA, contavam com o apoio da maioria dos judeus, que, já bem entrados os anos 1940s, continuavam a ver o sionismo como movimento anti-judeus.

A coalizão antissemita de entusiastas sionistas

Percebendo que seu plano para o futuro dos judeus europeus seguia de perto os antissemitas, Herzl arquitetou uma precoce aliança estratégica com os antissemitas. Em O Estado Judeu, Herzl diz que “Os governos e todos os países acusados de antissemitismo muito se interessarão por nos ajudar a obter a soberania que desejamos”.

Vyacheslav von Plehve
Acrescentava que todos deviam contribuir, “não apenas os judeus pobres”, para um fundo de imigração para judeus europeus; que devem contribuir também “todos os que querem ver-se livres dos judeus”. No seu Diário, Herzl anotou,  sem arrependimentos, que “Os antissemitas serão nossos mais confiáveis amigos. Os países antissemitas serão nossos aliados”. Assim, em 1903, Herzl começou a reunir-se com os mais infames antissemitas, como o ministro do Interior da Rússia, Vyacheslav von Plehve, que supervisionou os pogroms contra judeus na Rússia. Herzl procurou ativamente essa aliança. Não foi absolutamente “por coincidência”, que o antissemita Lord Balfour, primeiro-ministro britânico em 1905, tenha feito aprovar em seu governo a “Lei dos Estrangeiros”, que impedia que judeus do leste europeu fugissem dos pogroms russos para a Inglaterra. Balfour declarou que a proibição salvaria a Inglaterra do “mal absoluto” que seria “uma onda de imigração predominantemente de judeus”. A infame declaração de Balfour, de 1917, para criar na Palestina “um lar nacional” para o “povo judeu” visava, dentre outros objetivos, a minar o apoio dos judeus à Revolução Russa e a cortar o fluxo de novas ondas de imigrantes judeus para a Grã-Bretanha.

Os nazistas não seriam exceção nessa cadeia de sionistas antissemitas

Os sionistas também construíram acordo com os nazistas, bem no início da história do sionismo. Em 1933, o infame Acordo de Transferência (Ha’avara) foi assinado entre os sionistas e o governo nazista, para facilitar a transferência de judeus alemães e suas propriedades para a Palestina; esse acordo quebrou o boicote internacional dos judeus, contra a Alemanha Nazista, iniciado por judeus norte-americanos.

E foi nesse espírito também que emissários nazistas foram enviados à Palestina, para relatar os sucessos da colonização judaica do país. Adolf Eichmann retornou de sua viagem à Palestina em 1937, cheio de histórias fantásticas sobre as realizações do  Ashkenazi Kibbutz, racialmente separatista, um dos que visitou no Monte Carmelo, como convidado dos sionistas.

Contra forte oposição da maioria dos judeus alemães, a Federação Sionista da Alemanha foi o único grupo judeu que apoiou as Leis de Nuremberg de 1935. Concordavam com os nazistas: judeus e arianos eram raças separadas e separáveis. Esse apoio nada teve de tático: foi apoio nascido de afinidades e semelhanças ideológicas. A Solução Final dos nazistas foi cerebrada, de início, para expulsar os judeus alemães para Madagascar. O objetivo partilhado de expulsar os judeus para fora da Europa, como raça inassimilável, gerou a afinidade, que sempre existiu, entre os nazistas e os sionistas.

Enquanto a maioria dos judeus continuava a resistir contra a base antissemita do sionismo e suas alianças antissemitas, o genocídio nazista não matava apenas 90% dos judeus europeus. No processo, matou também a maioria dos judeus inimigos do sionismo. Morreram, precisamente, porque se recusaram a obedecer à palavra de ordem dos sionistas, para que abandonassem suas casas e seus países de nascimento.

Depois da Guerra, nem o horror do holocausto de judeus impediu que países europeus continuassem a apoiar o programa antissemita do sionismo. Ao contrário: esses países partilhavam, com os nazistas, uma predileção pelo sionismo. Opuseram-se exclusivamente ao genocídio programado concebido pelos nazistas. Países europeus, tanto quanto os EUA, recusaram-se a receber centenas de milhares de judeus sobreviventes do holocausto. Esses países, até, votaram contra uma resolução da ONU, apresentada pelos Estados árabes, em 1947, que os conclamava a receber judeus sobreviventes. Esses mesmos países apoiariam, em seguida, em novembro de 1947, o Plano de Partição da ONU, para criar um estado judeu na Palestina, para onde pudessem ser descartados aqueles indesejados refugiados judeus. 

As políticas pró-sionistas dos nazistas

Os EUA e países europeus, inclusive a Alemanha, dariam prosseguimento às políticas pró-sionistas dos nazistas. Governos pós-guerra da Alemanha Ocidental que se apresentaram para abrir nova página no relacionamento com os judeus, não fizeram, de fato, coisa alguma nessa direção. Desde que o país foi criado, depois da 2ª Guerra Mundial, todos os governos da Alemanha Ocidental (e, depois, todos os governos alemães a partir da unificação, em 1990) mantiveram, sem qualquer alteração, as políticas nazistas pró-sionistas. Jamais houve qualquer tipo de afastamento, entre os recentes governos alemães e os nazistas pró-sionistas. A única coisa que já não se vê é o ódio declarado aos judeus, com fundamento genocida racial, que o nazismo consagrou. Mas persiste, inalterado, o desejo de ver os judeus em “país próprio”, em algum ponto da Ásia, bem longe da Europa. De fato, os alemães assim explicam a quantidade de dinheiro que enviavam a Israel, para, como diziam, ajudar a pagar os custos de realocar, lá, os refugiados judeus.

Depois da 2ª Guerra Mundial, emergiu um novo consenso nos EUA e na Europa, segundo o qual os judeus teriam de integrar-se postumamente à europeidade branca; o horror do holocausto de judeus já era, então, horror ante o assassinado de europeus brancos. Desde os anos 1960s, os filmes de Hollywood sobre o holocausto de judeus passaram a mostrar os judeus vítimas do nazismo como infalivelmente brancos, como cristãos de classe média, letrados, bem educados, em nada diferentes dos cristãos europeus e norte-americanos os quais deveriam, como aconteceu, identificar-se com eles. Se os filmes mostrassem os judeus religiosos pobres da Europa Ocidental (e muitos judeus do Leste da Europa mortos pelos nazistas eram pobres e muitos eram religiosos), os cristãos brancos dificilmente veriam qualquer traço comum entre aqueles judeus e eles próprios.

Portanto, o horror europeu cristão pós-holocausto e genocídio de judeus europeus não se baseou no horror ante o massacre de milhões de pessoas diferentes dos cristãos europeus, mas, isso sim, se baseou no horror ante o assassinato de pessoas em tudo idênticas aos cristãos europeus.

Só isso explica que nos EUA, país que nada teve a ver com o massacre de judeus europeus, haja mais de 40 memoriais do holocausto de judeus e um grande museu dos judeus assassinados da Europa... mas não haja um único memorial do holocausto de populações nativas da América do Norte, ou do holocausto de afro-norte-americanos, pelos quais os EUA são diretamente responsáveis.

Aimé Césaire compreendeu muito bem esse processo. Em seu famoso discurso sobre o colonialismo, disse que a visão retrospectiva dos cristãos europeus sobre o nazismo é que:

Aimé Césaire
... é barbárie, mas a barbárie suprema, a coroação da barbárie, que soma todas as barbáries e barbarismos diários; é o nazismo, sim, mas porque, antes de tudo, as vítimas foram europeus. Mas antes, de serem suas vítimas, os europeus haviam sido seus cúmplices; e então eles toleraram o nazismo, antes que se virasse contra eles mesmos, eles já o haviam absolvido antes, fecharam os olhos, o legitimaram, porque, até ali, só se aplicara contra povos não europeus. Eles cultivaram o nazismo, responsabilizaram-se pelo nazismo, antes de que o nazismo engolfasse todo o ocidente, as civilizações cristãs, também, no mesmo mar de sangue. O nazismo vaza, estala, ferve em cada fresta do ocidente.

É bem verdade que, para Césaire, as guerras e holocaustos nazistas sempre foram o colonialismo que se atacava, ele mesmo, por dentro. Mas depois que as vítimas do nazismo foram convertidas em europeus brancos sem religião e “reabilitadas”, a Europa e seu cúmplice norte-americano puderam, afinal, dar continuidade à mesma política dos nazistas, de horror praticado contra não brancos em todo o mundo: na Coreia, no Vietnã e na Indochina, na Argélia, na Indonésia, na América Central, na América do Sul, na África do sul e central, na Palestina, no Irã e no Iraque e no Afeganistão.

A reabilitação dos judeus europeus depois da 2ª Guerra Mundial foi parte crucialmente importante da propaganda da Guerra Fria. Com os cientistas sociais e ideólogos norte-americanos ocupados em desenvolver a teoria do “totalitarismo” – segundo a qual o Comunismo Soviético e o Nazismo seriam essencialmente o mesmo tipo de regime – os judeus europeus, vítimas de um regime totalitário, passaram a ser item central do show de atrocidades que, para a propaganda dos EUA e da Europa Ocidental, seriam “provas” das atrocidades que o regime soviético estaria cometendo nos períodos pré e pós guerra. Parte da mesma propaganda foi Israel saltar para o mesmo vagão de propaganda e pôr-se acusar os soviéticos de antissemitismo, porque estariam impedindo judeus soviéticos de se autoexpulsar da própria terra e partir para Israel.   

Compromisso com o suprematismo branco

Assim se preservou o compromisso de europeus e dos EUA com o suprematismo branco – exceto que passou a incluir os judeus entre os povos “brancos”- e numa civilização que passou a ser chamada “judeu-cristã”. As políticas europeias e norte-americanas depois da 2ª Guerra Mundial, que continuaram inspiradas no racismo e alimentadoras de racismo contra os povos nativos da América do Norte, contra africanos, asiáticos, árabes e muçulmanos continuaram a garantir apoio ao projeto antissemita de “converter” os judeus em brancos, num estado colonial, de ocupação, bem longe da Europa. E ali prosseguiram as políticas antissemitas que prevaleciam na Europa e nos EUA antes da 2ª Guerra.

De diferente, que grande parte do veneno racista antissemita, em Israel, seria dirigido contra árabes e muçulmanos (os mesmos que são cidadãos e imigrantes na Europa e nos EUA, e os que vivem na Ásia e na África). E assim pôde prosseguir, sem qualquer adversário, o apoio dos antissemitas ao sionismo racista.

Na Hungria, 100 mil judeus assustados com racismo

A aliança que uniu a Alemanha Ocidental, o sionismo e Israel, depois da 2ª Guerra Mundial, e que forneceu gigantesca ajuda econômica a Israel nos anos 1950s e ajuda econômica e militar no início dos anos 1960s – inclusive tanques, que Israel usou para matar palestinos e outros árabes – é continuação da aliança que o governo nazista firmara com os sionistas nos anos 1930s.

Ehud Barak
Nos anos 1960s, a Alemanha Ocidental deu até treinamento militar aos soldados israelenses, e desde os anos 1970s também fornece submarinos “nuclearizáveis” produzidos na Alemanha, com os quais Israel contava para matar ainda mais árabes e muçulmanos.

Em anos mais recentes, Israel armou os submarinos mais modernos, que recebe da Alemanha, com mísseis que transportam ogivas nucleares – o que é do pleno conhecimento do atual governo alemão.  O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, disse, em entrevista à revista Der Spiegel, que os alemães devem “orgulhar-se” de ter garantido a existência do estado de Israel “durante muitos anos”. Berlim financiou 1/3 do preço dos submarinos, cerca de 135 milhões de euros (168 milhões de dólares) por submarino, com carência até 2015, para que Israel comece a pagar.

Konrad Adenauer
Isso faz da Alemanha cúmplice no ataque-assalto contra os palestinos; e a preocupação que essa cumplicidade geraria aos governos alemães, hoje, não é maior que a que gerava nos anos 1960s ao chanceler Konrad Adenauer, da Alemanha Ocidental, que disse que “a República Federal não tem, nem o direito, nem qualquer responsabilidade de tomar posição no caso dos refugiados palestinos”. Tudo isso se tem de somar aos bilhões, muitos, que a Alemanha pagou ao governo de Israel como compensação pelo holocausto de judeus, como se Israel e o sionismo fossem vítimas do nazismo. Não são. Na verdade, os nazistas assassinaram judeus antissionistas. O atual governo alemão não dá qualquer importância ao fato de que mesmo os judeus alemães que conseguiram fugir dos nazistas e acabaram na Palestina odiavam o sionismo e o projeto sionista; e que os mesmos judeus eram odiados pelos colonizadores sionistas na Palestina.

Como refugiados alemães nos anos 1930s e 1940s na Palestina recusaram-se a aprender língua hebraica e publicavam meia dúzia de jornais em alemão no país, foram furiosamente atacados pela imprensa em hebraico, inclusive pelo jornal Haaretz, que pregou o fechamento dos jornais dos alemães em 1939 e, outra vez, em 1941.

Colonos sionistas atacaram um café de proprietários alemães em Telavive, porque os proprietários recusavam-se a falar hebraico; e a prefeitura de Telavive ameaçou, em junho de 1944, alguns dos moradores judeus alemães, por organizar, na casa onde viviam, n. 21 da rua Allenby, “festas e bailes inteiramente em alemão, inclusive os programas, o que se opõe ao espírito de nossa cidade” e que tal procedimento “não será tolerado em Telavive”.

Judeus alemães, ou Yekkes, como eram conhecidos na [“comunidade original”] Yishuv, até organizaram uma celebração, no aniversário do Kaiser, em 1941 (para esses e outros detalhes sobre os judeus alemães refugiados na Palestina, ver The Seventh Million, livro de Tom Segev).

Acrescente-se a isso o apoio que a Alemanha deu às políticas israelenses na ONU contra os palestinos, e tem-se o quadro completo. Até o novo memorial do holocausto de judeus construído em Berlim, inaugurado em 2005, mantém o mesmo apartheid racial dos nazistas: esse “Memorial dos Judeus Europeus Assassinados” é dedicado só aos judeus vítimas dos nazistas que ainda devem ser mantidos separados, como Hitler ordenou, dos demais milhões de não judeus que também tombaram vítimas do nazismo. Não surpreende, tampouco, que uma subsidiária da empresa alemã Degussa, que colaborou com os nazistas e produziu o gás Zyklon B que foi usado para matar pessoas nas câmaras de gás, tenha sido contratada para construir o Memorial de 2005: apenas confirma que os que assassinaram judeus na Alemanha no final dos anos 1930s e nos anos 1940s lamentam hoje o que fizeram, porque hoje entendem que judeus são brancos europeus a serem homenageados, e jamais deveriam ter sido mortos, para começar, porque eram brancos.

A política alemã de apoiar Israel na matança de árabes é, sim, profundamente conectada ao antissemitismo, que prossegue e avança, conduzido pelo racismo alemão antimuçulmanos, hoje predominante, que ataca imigrantes muçulmanos.

A tradição euro-norte-americana anti-judeus

O holocausto de judeus matou a maioria dos judeus que combateram e lutaram contra o antissemitismo europeu, e contra um de seus ramos, o sionismo. Mortos aqueles judeus combatentes, os únicos “semitas” sobreviventes que continuam a combater contra o sionismo e seu antissemitismo são os palestinos.

Enquanto Israel ainda insiste que judeus europeus não seriam europeus, não teriam lugar na Europa e devem embarcar para a Palestina, os palestinos sempre disseram e insistiram que o lar e a terra dos judeus europeus são seus respectivos países natais, não a Palestina; e que o colonialismo sionista brota diretamente do antissemitismo dos sionistas colonialistas.

Enquanto o sionismo insiste em que os judeus seriam raça separada dos cristãos europeus, os palestinos insistem que os judeus europeus são europeus e nada têm a ver com a Palestina, o povo palestino ou a cultura palestina. Israel e seus aliados norte-americanos e europeus têm tentado ininterruptamente ao longo dos últimos 65 anos convencer os palestinos de que eles também devem tornar-se antissemitas e acreditar, como os nazistas, Israel e seus aliados antissemitas acreditam, que os judeus seriam raça diferente de todos os povos europeus, que sua “pátria” seria a Palestina e – o mais importante – que Israel falaria por todos os judeus.

A evidência de que, hoje, os maiores blocos de eleitores norte-americanos pró-Israel são os protestantes milenaristas e os imperialistas seculares, demonstra bem claramente a continuidade da mesma tradição euro-norte-americana de perseguição aos judeus, que se estende, no passado, até a Reforma Protestante e o imperialismo do século IXX.

Mas os palestinos jamais se deixaram convencer pelos sionistas e continuam a resistir firmemente contra o antissemitismo.

Os judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão: tornaram-se ferramentas do colonialismo dos colonos israelenses, intimamente associado à discriminação racista...

Israel e seus aliados antissemitas afirmam que Israel seria “o povo judeu”; que as políticas de Israel seriam “judaicas”; que as realizações de Israel seriam realizações “dos judeus” e que quem se atrever a criticar Israel estará criticando “os judeus” e, portanto, estará falando como antissemita.

Só o povo palestino organizou e combate luta incansável contra esse incitamento ao antissemitismo. Os palestinos continuam a afirmar que:

... o governo de Israel não fala por todos os judeus, que não representa todos os judeus e que os crimes coloniais que comete contra o povo palestino são crimes do governo de Israel, não são crimes “do povo judeu.

Por isso o governo de Israel tem de ser criticado, acusado, processado e condenado por crimes de guerra, que comete repetidamente contra o povo palestino.

Não é alguma nova posição palestina: é a mesma posição que os palestinos abraçaram desde a virada do século 20, e continuou ao longo da luta palestina antes da 2ª Guerra Mundial, contra o sionismo. Em discurso que fez na ONU, em 1974, Yasser Arafat destacou todos esses aspectos, com veemência:

Yasser Arafat
Assim como o colonialismo usou impiedosamente os desgraçados, os pobres, os explorados, como mera matéria inerte com a qual construir e levar adiante o colonialismo, assim os judeus europeus, também despossuídos, oprimidos, foram usados a favor do imperialismo mundial e da liderança sionista. Os judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão; tornaram-se ferramentas do colonialismo israelense, intimamente aliado à discriminação racial (...).

A teologia sionista foi usada contra nosso povo palestino: o objetivo não foi só o estabelecimento de um colonialismo de estilo ocidental, mas também o de separar os judeus de suas várias pátrias naturais e produzir, assim, que se tornassem estrangeiros nas suas próprias nações. O sionismo está unido ao antissemitismo nesses objetivos retrógrados e é, quando já tudo se disse e se fez, o verso da mesma moeda de base.

Porque, quando se propõe que os judeus de fé, independente de onde tenham nascido e vivido e habitem, devem abandonar a própria terra nacional, impedidos de viver como iguais com os próprios parceiros de destino e cidadãos não judeus, quando se ouvem essas propostas, o que se está ouvindo é o antissemitismo proposto aos próprios judeus. Quando se propõe que a única solução para o problema judeu seria que os judeus se alienassem das próprias comunidades originais ou nações, das quais foram parte histórica, quando se propõe que os judeus resolvam o problema judeu imigrando de onde nasceram para ocupar, à força, terras que pertencem a outros – quando isso acontece, o que se vê é que aí está exatamente a mesma posição pregada, com insistência, com urgência, contra os judeus, pelos antissemitas.

A reação de Israel, para quem todos os seus críticos seriam antissemitas, pressupõe que os críticos devam crer, necessariamente, que Israel representaria “o povo judeu”. Mas essa alegação, que Israel não se cansa de repetir, de que representaria e falaria por todos os judeus, é, ela mesma, o argumento mais antissemita de todos.

Hoje, Israel e as potências ocidentais obram para elevar o antissemitismo ao plano de princípio internacional, em todos do qual tentam estabelecer pleno consenso. Insistem em que, para que haja paz no Oriente Médio, os palestinos, os árabes e os muçulmanos devem tornar-se, todos, como todo o ocidente branco, também antissemitas; que devem esposar o sionismo e reconhecer todas as condições antissemitas que Israel impõe aos judeus de todo o mundo.

Exceto os regimes árabes ditatoriais e a Autoridade Palestina e sua corte, nesse 65º aniversário da conquista antissemita da Palestina pelos sionistas, que os palestinos chamam de Nakba, o povo palestino e alguns poucos judeus antissionistas ainda resistem e recusam-se a aceitar o incitamento internacional a favor do antissemitismo.

Lembrando a Nakba
Dizem que são, como últimos semitas resistentes, herdeiros das lutas pré-2ª Guerra Mundial, quando judeus e palestinos combateram lado a lado contra o antissemitismo e sua manifestação sionista colonial. Hoje, é essa a resistência, ainda viva, que impede o avanço, até a vitória no Oriente Médio e em todo o mundo, do antissemitismo europeu.




Notas dos tradutores
[1] Sobre isso, há documento impressionante, de 1947, publicado nos EUA: uma carta do rei Abdullah da Jordânia, que deve ser lida nos termos em que o autor expõe a questão, naquele momento histórico. Foi traduzido em 2010, seguindo indicação do Embaixador Arnaldo Carrilho do Brasil.  
[2] Sobre judeus, em todo o mundo, que foram empurrados à força, pelos sionistas, para povoar Israel, ver a “Carta aos norte-americanos”, de 1947, do Rei Abdullah da Jordânia. Ver nota [1] acima.
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