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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Como os sionistas manipularam e substituíram especialistas no Departamento de Defesa dos EUA


Breve História das Relações EUA-Israel


4/11/2014, [*] Embaixador Andrew I. Killgore, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Alison Weir escreve, no início de seu livro Against Our Better Judgment: The hidden history of how the U.S. was used to create Israel, que, por mais que tantos sejam levados a crer que o apoio dos EUA a Israel seria comandado pelo establishment norte-americano e obraria a favor dos interesses nacionais dos EUA, não há qualquer fato histórico que comprove essa crença.

A realidade é que, durante décadas, praticamente todos os especialistas norte-americanos sempre se opuseram à criação daquele estado; mas foram derrotados e, na sequência, foram substituídos por sionistas nas várias instituições em que trabalhavam, o que prossegue até hoje.

Alison Weir
O sionismo político começou no final dos anos 1800s, como movimento internacional para criar um estado judeu em algum lugar do mundo. Em 1897, o movimento era dirigido pelo jornalista austríaco Theodor Herzl, que organizara o 1º Congresso Mundial Sionista em Basel, Suíça, naquele ano. O sionismo norte-americano começara nos anos 1880s. A Comissão de Delegados dos Israelitas Norte-americanos foi organizada em 1861. Na Guerra Civil norte-americana, o grupo já tinha força suficiente para impedir esforço que a União estava empreendendo, para declarar os EUA nação cristã.

Theodor Herzl
Em 1887, o presidente Grover Cleveland indicou um judeu para o posto de embaixador dos EUA à Turquia, criando o precedente de sempre nomear judeus para aquele posto, ao longo dos 30 anos seguintes. É sinal claro do crescente poder do movimento sionista. Mas em 1912, quando a Sociedade Literária Sionista pediu que o presidente William Taft se manifestasse a favor do sionismo, o Secretário de Estado, Philander Knox, conseguiu fazer abortar o movimento. Knox argumentou que o sionismo “só tinha a ver com interesses de outros países, não com interesses dos EUA”.

E depois de Knox, simplesmente todos os funcionários e representantes do governo dos EUA passaram a se opor a quaisquer esforços para envolver os EUA nos esforços da propaganda sionista, e sempre sob o mesmo argumento: eram esforços que operavam contra os interesses dos EUA. Os sionistas sabiam e até hoje sabem disso; então recorreram, a partir de então, sempre, ao máximo de clandestinidade possível para mascarar seus reais objetivos.

Em 1912, o conhecido advogado norte-americano Louis Brandeis assumiu a presidência da Central Sionista, que se mudara de Berlim, Alemanha, um pouco antes. Brandeis é mais conhecido como juiz da Suprema Corte, mas teve papel sinistro nos altos negócios sionistas. Recrutou jovens advogados, sobretudo de Harvard, para trabalhar a favor da causa sionista. Foi o líder de uma sociedade secreta chamada “Parushim” [1] para trabalhar a favor do sionismo, sob uma fachada de irmandade civil. Todos os membros faziam um juramento que, na prática, era como um juramento de sangue, de servir clandestinamente à causa do sionismo.

Donald Neff
Quando Brandeis foi nomeado para a Suprema Corte pelo presidente Woodrow Wilson, oficialmente renunciou a todos os seus clubes e irmandades. Mas foi só encenação. Weir cita o historiador/ jornalista Donald Neff:

Mediante seus lugares-tenentes, ele continuava como o poder por trás do trono. Um daqueles lugares-tenentes foi o altamente respeitado juiz da Suprema Corte Felix Frankfurter, cujas atividades sionistas passaram praticamente sem jamais serem jamais descobertas.

Weir, muito inteligentemente, analisa com brilho a Iª Guerra Mundial e a Declaração de Balfour (a Grã-Bretanha comprometendo-se a apoiar um “lar nacional” para judeus na Palestina). A Declaração foi crítica para o sucesso do sionismo, ocultando, simultaneamente, a promessa de que os sionistas trabalhariam para pressionar os EUA a entrarem na guerra ao lado da Grã-Bretanha. A autora de Against Our Better Judgment escreve que embora o papel dos sionistas para conseguir empurrar os EUA para a guerra tenha sido muito importante, como dizem os sionistas e os britânicos acreditaram, não se sabe exatamente o que os sionistas fizeram.

Chaim Weizmann
Numa das referências que se encontram no livro de Weir, Chaim Weizmann, que adiante seria o primeiro presidente de Israel, reclama, em sua Biografia, do mito criado por britânicos e sionistas, de que ele teria inventado a dinamite, em troca de cuja fórmula teria sido assinada a Declaração de Balfour. Diz ali que não inventou o explosivo. A origem do mito da invenção da dinamite foi tentativa óbvia para encobrir a real razão pela qual aquela Declaração foi assinada, e que claramente só tinha a ver com os EUA serem empurrados para a guerra ao lado dos britânicos, porque, sem essa ajuda, os britânicos perderiam a guerra.

A autora de Against Our Better Judgment cobre também, com excelente cuidado, a Conferência de Paz em Paris, em 1919. A Conferência fervilhava de sionistas trabalhando a favor da criação do estado judeu. O mais importante norte-americano que se opôs a eles naquela ocasião foi o Dr. Howard Bliss, presidente do Colégio Protestante Sírio, que adiante se converteria na Universidade Norte-Americana de Beirute. O presidente Wilson enviara sua Comissão King-Crane, para estudar o que o pessoal do Oriente Médio desejava. Os dois enviados logo descobriram que os árabes estavam monoliticamente na oposição a qualquer ideia de “lar nacional” para os judeus. Já era evidente que os representantes judeus queriam total expulsão dos palestinos, com saque de terras palestinas, e que mobilizariam as forças armadas necessárias para fazer acontecer esse projeto e respectivos planos.

Sionistas, aliados dos nazistas, compunham
a Polícia Judaica no Gueto de Varsóvia
No livro, Alison Weir documenta fartamente a total falta de ética e moralidade, como se entendem esses conceitos, na ação dos sionistas. Por exemplo, inventaram histórias de terríveis ataques antissemitas na Polônia, para angariar simpatias. Quando o embaixador dos EUA na Polônia relatou que eram histórias falsas, Brandeis e Frankfurter declararam que o embaixador estaria boicotando a missão deles. Frankfurter ameaçou tentar impedir que o embaixador tomasse posse como senador eleito.

Os sionistas mantiveram campanha gigante de Relações Públicas e publicidade, tomando por alvo cada um e goros os setores da sociedade norte-americana, com especial atenção aos cristãos, que pouco conheciam da natureza e dos verdadeiros objetivos do sionismo. Assim os sionistas encenaram a tragédia do “suplício trágico de refugiados tentando fugir dos que os perseguiam, e sem ter casa para onde ir”.

Rabino Elmer Berger
Como diz em suas memórias do rabino antissionista Elmer Berger, houve

(...) campanha total de propaganda, que atingiu praticamente todos e cada um dos pontos de alavancagem política da vida nos EUA.

É importante enfatizar que essencialmente todo o funcionalismo e autoridades do governo dos EUA opunham-se aos sionistas. Evan Wilson, do Serviço Diplomático e cônsul geral dos EUA em Jerusalém opunha-se aos sionistas sob o argumento de que os EUA tinham de pensar, primeiro,  nos interesses do povo dos EUA.

Loy Henderson, diretor do Gabinete de Assuntos do Oriente Próximo e África, escreveu que apoiar a partição da Palestina “teria efeito fortemente adverso para os interesses dos EUA em todo o Oriente Próximo e Médio”. Quando Henderson insistiu em continuar a expor publicamente suas ideias, os sionistas o atacaram viciosamente, chamando-o de “antissemita”, exigindo que pedisse demissão e ameaçando a família de Henderson. O presidente Harry Truman transferiu Henderson para o posto de embaixador dos EUA no Nepal/Índia. É exemplo da realidade do que acontece a funcionários do serviço diplomático, até hoje, que critiquem Israel.

George F. Kennan
Outro que disse palavras de alerta a propósito do sionismo e o efeito danoso que tinha sobre os interesses nacionais dos EUA foi George F. Kennan, quando era diretor de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado. Em 1947, escreveu que o plano da partição da Palestina já causara enorme dano aos EUA. O subsecretário de Estado, depois secretário, Dean Acheson, disse que transformar a Palestina em estado judeu poria em risco não só os interesses dos EUA, mas todos os interesses ocidentais no Oriente Próximo.

Judgment é prodigiosamente documentado, com bibliografia de mais de 200 livros e documentos citados. Weir cita duas fontes, uma delas um judeu iraquiano, que escreveu que os sionistas chantageavam-aterrorizavam judeus iraquianos para que pusessem bombas em sinagogas em Bagdá, para conseguir que mais judeus decidissem fugir para Israel, cuja população não estava aumentando. Judeus até mataram judeus para forçar a imigração para Israel.

Em 1948, houve uma batalha entre o Secretário de Estado (general) George Marshall e Clark Clifford, conselheiro político do presidente Harry Truman, em torno do apoio de Truman ao sionismo/Israel. Marshall argumentava a favor dos interesses dos EUA, Clifford pensava na política eleitoral. Marshall deixou de discutir essas diferenças, com Clifford.

Em abril de 1948, pouco antes de o estado de Israel ser criado, terroristas judeus atacaram a vila palestina de Deir Yassin, onde massacraram 175 homens, mulheres e crianças. Os fatos espalharam-se rapidamente pela Palestina, e 750 mil palestinos abandonaram as próprias casas, tornando-se refugiados. Os sionistas haviam previsto esse efeito, que deixou lugar para mais judeus nas cidades vazias com casas e sítios abandonados.

Dorothy Thompson
A crueldade dos sionistas aparece bem clara no destino de Dorothy Thompson, “uma das mais famosas jornalistas do século 20”, segundo a Enciclopaedia Britannica. Mantinha colunas em jornais em todo o país e um programa de rádio com audiência de milhões. Fora casada com um dos mais famosos romancistas dos EUA (Babbitt), Sinclair Lewis.

Thompson, no início, apoiara o sionismo. Mas mudou de posição depois de ver refugiados palestinos. Passou então a ser atacada como antissemita, as colunas foram excluídas dos jornais, o programa de rádio foi cancelado e acabaram os convites para palestras pelo país. Como diz Weir hoje, “já está praticamente apagada da história”.

Agora que Israel já existe há mais de 60 anos, com tantas virtudes cantadas pela imprensa-empresa norte-americana, é muito fácil esquecer, ou jamais, em toda a vida, ouvir dizer, que o país é um entrave grave aos interesses nacionais norte-americanos, e as políticas israelenses têm efeito destrutivo e perigoso para o bem-estar dos EUA. Também por isso, é preciso elogiar entusiasticamente o trabalho de Alison Weir, que lança luz tão brilhantemente iluminadora sobre o relacionamento entre os EUA e Israel.

Espero que esse livro maravilhoso receba toda a atenção que merece.
___________________

Nota dos tradutores
[1] Sobre a palavra ver a página da Opus Dei, em: “24. Quem eram os fariseus, saduceus, essénios e zelotes?”
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[*] Embaixador Andrew I. Killgore é o editor do Washington Report on Middle East Affairs e diplomata aposentado que serviu como oficial de carreira do serviço estrangeiro dos EUA em Frankfurt, Londres, Beirute, Jerusalém, Aman, Bagdá, Dacca, Teerã, Manama, e Wellington e como oficial de embaixada em outras posições Escritório Regional do Oriente Médio e Sul da Ásia do Departamento de Estado em Washington antes de sua missão como Embaixador dos EUA em Doha. O Embaixador Killgore recebeu o “Foreign Service Cup”, em 1997, com a citação:

(Homenagem) por impressionantes contribuições para uma maior sensibilização e compreensão do Oriente Médio e as muitas dimensões da defesa dos interesses dos Estados Unidos da América na região.
(For impressive contributions to increased awareness and understanding of the Middle East and the many dimensions of United States’ interests in the area.)

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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Israel: antissemita e colonialista


14/5/2013, Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Joseph
Massad




Joseph Massad é professor de Política Árabe Moderna e História Intelectual na Columbia University, em New York. É autor de: The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians.




O holocausto judaico matou a maioria dos judeus que lutaram contra o anti-semitismo europeu, incluindo o sionismo, escreve Joseph Massad. Foto AFP.
Os judeus que se opunham ao sionismo compreenderam, desde o início, que o movimento incorporava o antissemitismo em seu diagnóstico do que os europeus chamavam de “a questão judaica”. O que mais horrorizava os judeus antissionistas, contudo, era que o sionismo também partilhava a “solução” para a Questão Judaica que os antissemitas sempre haviam pregado, a saber: que os judeus tinham de ser expulsos da Europa.

Foi a Reforma Protestante, que fez renascer a Bíblia Hebraica, que ligou os modernos judeus da Europa aos antigos hebreus da Palestina, ligação que os filólogos do século 18 solidificariam mediante a descoberta da família das línguas “semitas”, que incluiriam o hebraico e o árabe. Por um lado, os Protestantes Milenaristas insistiam em que os judeus contemporâneos seriam descendentes dos antigos hebreus e tinham de deixar a Europa e voltar à Palestina, para apressar a segunda vinda de Cristo; por outro lado, as descobertas filológicas levaram a rotular os judeus contemporâneos de “semitas”. O salto que as ciências biológicas de raça e hereditariedade dariam no século 19 e que levaria a definir os judeus europeus contemporâneos como descendentes raciais dos antigos hebreus, nem teve, afinal, de ser salto muito grande.

Baseando-se nas conexões criadas por Protestantes Milenaristas anti-judeus, abundavam, no século 19, europeus seculares que rapidamente perceberam o potencial político de “devolver” os judeus à Palestina. Menos interessados, que os Milenaristas, em apressar alguma segunda vinda de Cristo, esses políticos seculares, de Napoleão Bonaparte e do ministro britânico de Relações Exteriores, Lord Palmerston (1785-1865) a Ernest Laharanne, secretário particular de Napoleão III nos anos 1860s, tinham interesse em expulsar os judeus, da Europa para a Palestina, para instalá-los lá como agentes do imperialismo europeu na Ásia.

Wilhelm Marr
Esse projeto seria abraçado por muitos “antissemitas” – novo rótulo logo divulgado por racistas europeus antijudeus, depois que a palavra foi criada, em 1879, por um obscuro jornalista vienense, Wilhelm Marr, que divulgava uma plataforma-programa político intitulado “A vitória do judaísmo sobre o germanismo”.  Marr teve o cuidado de separar bem o antissemitismo e a história do ódio dos cristãos contra judeus, de base religiosa. E enfatizava, na linha da filologia semítica e das teorias raciais do século XIX, que a diferença entre judeus e arianos era estritamente racial.

Assimilar os judeus na cultura europeia

O antissemitismo científico insistia em que os judeus seriam diferentes dos cristãos europeus. Que, de fato, os judeus absolutamente não seriam europeus, e que a presença deles na Europa seria a causa do antissemitismo. A razão pela qual os judeus causariam tantos problemas aos cristãos europeus teria a ver com a sempre repetida “ausência de raízes”, que não tinham pátria e, portanto, nenhuma lealdade a pátria alguma. No período romântico dos nacionalismos europeus, os antissemitas diziam que os judeus não teriam lugar nas novas configurações nacionais, e minariam a pureza racial e nacional essencial na maioria dos nacionalismos europeus. Por isso, se os judeus permanecessem na Europa – argumentavam os antissemitas – só gerariam hostilidade entre os cristãos europeus. A única solução seria os judeus deixarem a Europa e terem pátria própria.

Desnecessário dizer que os judeus religiosos e seculares sempre se opuseram a essa horrenda linha de pensamento antissemita. Judeus ortodoxos e reformistas, judeus socialistas e judeus comunistas, judeus cosmopolitas e judeus Yiddishkeit culturais todos concordavam que aí estava uma perigosa ideologia de hostilização que visava a expulsar os judeus de seus respectivos países europeus.

O Iluminismo Judeu (Haskalah), que também emergiu no século XIX, buscou assimilar os judeus na cultura secular europeia, induzindo-os a abandonar sua cultura judaica. Foi esse Iluminismo Judeu que tentou quebrar a hegemonia dos rabinos judeus ortodoxos no “Ostjuden” do shtetl leste-europeu, propondo um rompimento com o que era visto como uma cultura judaica “medieval”, em favor da moderna cultura secular dos cristãos europeus. A reforma do judaísmo, para convertê-lo em variante assemelhada a um cristianismo-protestantismo judeu, emergiria do fundo do Iluminismo Judeu. Mas esse programa visava a integrar os judeus na modernidade europeia, não a expulsá-los para longe da geografia da Europa.

Quando surgiu o sionismo, 15 anos depois da publicação da plataforma-programa antissemita de Marr, ele incorporaria todas essas ideias anti-judeus, inclusive o antissemitismo científico.

Theodor Herzl
Para o sionismo, os judeus seriam “semitas”, descendentes dos antigos hebreus. No seu panfleto de fundação, O Estado Judeu [Der Judenstaat], Herzl explicava que seriam os judeus, não seus inimigos cristãos, os que “causavam” o antissemitismo; e que “onde [o antissemitismo] não existe, para lá os judeus o levam no curso de suas migrações”. Que “os infortunados judeus estão nesse momento levando as sementes do antissemitismo para a Inglaterra; já o introduziram nos EUA”; que os judeus seriam “uma nação” que devia deixar a Europa, para restaurar a própria “nacionalidade” na Palestina ou na Argentina; que os judeus deveriam copiar os cristãos europeus em termos culturais e abandonar suas línguas e tradições em favor das modernas línguas europeias, ou restaurar a própria antiga língua nacional. Herzl preferia que todos os judeus adotassem o alemão, como idioma; mas os sionistas do leste da Europa preferiram o hebraico. Os sionistas depois de Herzl decidiram e afirmaram que os judeus seriam racialmente diferentes dos arianos. Quanto ao iídiche,  a língua viva da maioria dos judeus europeus, todos os sionistas concordavam que tinha de ser esquecida para sempre.

A maioria dos judeus continuou a resistir contra o sionismo e via seus preceitos como antissemitismo e como continuação do esforço do Iluminismo Judeu para apagar a cultura judaica e assimilar os judeus na cultura laica europeia, com a diferença de que o sionismo queria os judeus longe da Europa, em ponto geograficamente distante, depois de expulsos da Europa.

O Bund – Sindicato Geral do Trabalho Judeu na Lituânia, Polônia, e na Rússia – que foi fundado em Vilna no início de outubro de 1897, poucas semanas depois do 1º Congresso Sionista,  em Basel, no final de agosto de 1897, viria a ser o mais empenhado inimigo do sionismo. O Bund uniu-se à coalizão já existente de judeus contra o sionismo, de rabinos ortodoxos e reformistas, que já unira forças alguns meses antes para impedir que Herzl realizasse o primeiro congresso sionista em Munique; por isso o congresso foi transferido para Basel. Os judeus antissionistas, e os antissionistas em geral, em toda a Europa e nos EUA, contavam com o apoio da maioria dos judeus, que, já bem entrados os anos 1940s, continuavam a ver o sionismo como movimento anti-judeus.

A coalizão antissemita de entusiastas sionistas

Percebendo que seu plano para o futuro dos judeus europeus seguia de perto os antissemitas, Herzl arquitetou uma precoce aliança estratégica com os antissemitas. Em O Estado Judeu, Herzl diz que “Os governos e todos os países acusados de antissemitismo muito se interessarão por nos ajudar a obter a soberania que desejamos”.

Vyacheslav von Plehve
Acrescentava que todos deviam contribuir, “não apenas os judeus pobres”, para um fundo de imigração para judeus europeus; que devem contribuir também “todos os que querem ver-se livres dos judeus”. No seu Diário, Herzl anotou,  sem arrependimentos, que “Os antissemitas serão nossos mais confiáveis amigos. Os países antissemitas serão nossos aliados”. Assim, em 1903, Herzl começou a reunir-se com os mais infames antissemitas, como o ministro do Interior da Rússia, Vyacheslav von Plehve, que supervisionou os pogroms contra judeus na Rússia. Herzl procurou ativamente essa aliança. Não foi absolutamente “por coincidência”, que o antissemita Lord Balfour, primeiro-ministro britânico em 1905, tenha feito aprovar em seu governo a “Lei dos Estrangeiros”, que impedia que judeus do leste europeu fugissem dos pogroms russos para a Inglaterra. Balfour declarou que a proibição salvaria a Inglaterra do “mal absoluto” que seria “uma onda de imigração predominantemente de judeus”. A infame declaração de Balfour, de 1917, para criar na Palestina “um lar nacional” para o “povo judeu” visava, dentre outros objetivos, a minar o apoio dos judeus à Revolução Russa e a cortar o fluxo de novas ondas de imigrantes judeus para a Grã-Bretanha.

Os nazistas não seriam exceção nessa cadeia de sionistas antissemitas

Os sionistas também construíram acordo com os nazistas, bem no início da história do sionismo. Em 1933, o infame Acordo de Transferência (Ha’avara) foi assinado entre os sionistas e o governo nazista, para facilitar a transferência de judeus alemães e suas propriedades para a Palestina; esse acordo quebrou o boicote internacional dos judeus, contra a Alemanha Nazista, iniciado por judeus norte-americanos.

E foi nesse espírito também que emissários nazistas foram enviados à Palestina, para relatar os sucessos da colonização judaica do país. Adolf Eichmann retornou de sua viagem à Palestina em 1937, cheio de histórias fantásticas sobre as realizações do  Ashkenazi Kibbutz, racialmente separatista, um dos que visitou no Monte Carmelo, como convidado dos sionistas.

Contra forte oposição da maioria dos judeus alemães, a Federação Sionista da Alemanha foi o único grupo judeu que apoiou as Leis de Nuremberg de 1935. Concordavam com os nazistas: judeus e arianos eram raças separadas e separáveis. Esse apoio nada teve de tático: foi apoio nascido de afinidades e semelhanças ideológicas. A Solução Final dos nazistas foi cerebrada, de início, para expulsar os judeus alemães para Madagascar. O objetivo partilhado de expulsar os judeus para fora da Europa, como raça inassimilável, gerou a afinidade, que sempre existiu, entre os nazistas e os sionistas.

Enquanto a maioria dos judeus continuava a resistir contra a base antissemita do sionismo e suas alianças antissemitas, o genocídio nazista não matava apenas 90% dos judeus europeus. No processo, matou também a maioria dos judeus inimigos do sionismo. Morreram, precisamente, porque se recusaram a obedecer à palavra de ordem dos sionistas, para que abandonassem suas casas e seus países de nascimento.

Depois da Guerra, nem o horror do holocausto de judeus impediu que países europeus continuassem a apoiar o programa antissemita do sionismo. Ao contrário: esses países partilhavam, com os nazistas, uma predileção pelo sionismo. Opuseram-se exclusivamente ao genocídio programado concebido pelos nazistas. Países europeus, tanto quanto os EUA, recusaram-se a receber centenas de milhares de judeus sobreviventes do holocausto. Esses países, até, votaram contra uma resolução da ONU, apresentada pelos Estados árabes, em 1947, que os conclamava a receber judeus sobreviventes. Esses mesmos países apoiariam, em seguida, em novembro de 1947, o Plano de Partição da ONU, para criar um estado judeu na Palestina, para onde pudessem ser descartados aqueles indesejados refugiados judeus. 

As políticas pró-sionistas dos nazistas

Os EUA e países europeus, inclusive a Alemanha, dariam prosseguimento às políticas pró-sionistas dos nazistas. Governos pós-guerra da Alemanha Ocidental que se apresentaram para abrir nova página no relacionamento com os judeus, não fizeram, de fato, coisa alguma nessa direção. Desde que o país foi criado, depois da 2ª Guerra Mundial, todos os governos da Alemanha Ocidental (e, depois, todos os governos alemães a partir da unificação, em 1990) mantiveram, sem qualquer alteração, as políticas nazistas pró-sionistas. Jamais houve qualquer tipo de afastamento, entre os recentes governos alemães e os nazistas pró-sionistas. A única coisa que já não se vê é o ódio declarado aos judeus, com fundamento genocida racial, que o nazismo consagrou. Mas persiste, inalterado, o desejo de ver os judeus em “país próprio”, em algum ponto da Ásia, bem longe da Europa. De fato, os alemães assim explicam a quantidade de dinheiro que enviavam a Israel, para, como diziam, ajudar a pagar os custos de realocar, lá, os refugiados judeus.

Depois da 2ª Guerra Mundial, emergiu um novo consenso nos EUA e na Europa, segundo o qual os judeus teriam de integrar-se postumamente à europeidade branca; o horror do holocausto de judeus já era, então, horror ante o assassinado de europeus brancos. Desde os anos 1960s, os filmes de Hollywood sobre o holocausto de judeus passaram a mostrar os judeus vítimas do nazismo como infalivelmente brancos, como cristãos de classe média, letrados, bem educados, em nada diferentes dos cristãos europeus e norte-americanos os quais deveriam, como aconteceu, identificar-se com eles. Se os filmes mostrassem os judeus religiosos pobres da Europa Ocidental (e muitos judeus do Leste da Europa mortos pelos nazistas eram pobres e muitos eram religiosos), os cristãos brancos dificilmente veriam qualquer traço comum entre aqueles judeus e eles próprios.

Portanto, o horror europeu cristão pós-holocausto e genocídio de judeus europeus não se baseou no horror ante o massacre de milhões de pessoas diferentes dos cristãos europeus, mas, isso sim, se baseou no horror ante o assassinato de pessoas em tudo idênticas aos cristãos europeus.

Só isso explica que nos EUA, país que nada teve a ver com o massacre de judeus europeus, haja mais de 40 memoriais do holocausto de judeus e um grande museu dos judeus assassinados da Europa... mas não haja um único memorial do holocausto de populações nativas da América do Norte, ou do holocausto de afro-norte-americanos, pelos quais os EUA são diretamente responsáveis.

Aimé Césaire compreendeu muito bem esse processo. Em seu famoso discurso sobre o colonialismo, disse que a visão retrospectiva dos cristãos europeus sobre o nazismo é que:

Aimé Césaire
... é barbárie, mas a barbárie suprema, a coroação da barbárie, que soma todas as barbáries e barbarismos diários; é o nazismo, sim, mas porque, antes de tudo, as vítimas foram europeus. Mas antes, de serem suas vítimas, os europeus haviam sido seus cúmplices; e então eles toleraram o nazismo, antes que se virasse contra eles mesmos, eles já o haviam absolvido antes, fecharam os olhos, o legitimaram, porque, até ali, só se aplicara contra povos não europeus. Eles cultivaram o nazismo, responsabilizaram-se pelo nazismo, antes de que o nazismo engolfasse todo o ocidente, as civilizações cristãs, também, no mesmo mar de sangue. O nazismo vaza, estala, ferve em cada fresta do ocidente.

É bem verdade que, para Césaire, as guerras e holocaustos nazistas sempre foram o colonialismo que se atacava, ele mesmo, por dentro. Mas depois que as vítimas do nazismo foram convertidas em europeus brancos sem religião e “reabilitadas”, a Europa e seu cúmplice norte-americano puderam, afinal, dar continuidade à mesma política dos nazistas, de horror praticado contra não brancos em todo o mundo: na Coreia, no Vietnã e na Indochina, na Argélia, na Indonésia, na América Central, na América do Sul, na África do sul e central, na Palestina, no Irã e no Iraque e no Afeganistão.

A reabilitação dos judeus europeus depois da 2ª Guerra Mundial foi parte crucialmente importante da propaganda da Guerra Fria. Com os cientistas sociais e ideólogos norte-americanos ocupados em desenvolver a teoria do “totalitarismo” – segundo a qual o Comunismo Soviético e o Nazismo seriam essencialmente o mesmo tipo de regime – os judeus europeus, vítimas de um regime totalitário, passaram a ser item central do show de atrocidades que, para a propaganda dos EUA e da Europa Ocidental, seriam “provas” das atrocidades que o regime soviético estaria cometendo nos períodos pré e pós guerra. Parte da mesma propaganda foi Israel saltar para o mesmo vagão de propaganda e pôr-se acusar os soviéticos de antissemitismo, porque estariam impedindo judeus soviéticos de se autoexpulsar da própria terra e partir para Israel.   

Compromisso com o suprematismo branco

Assim se preservou o compromisso de europeus e dos EUA com o suprematismo branco – exceto que passou a incluir os judeus entre os povos “brancos”- e numa civilização que passou a ser chamada “judeu-cristã”. As políticas europeias e norte-americanas depois da 2ª Guerra Mundial, que continuaram inspiradas no racismo e alimentadoras de racismo contra os povos nativos da América do Norte, contra africanos, asiáticos, árabes e muçulmanos continuaram a garantir apoio ao projeto antissemita de “converter” os judeus em brancos, num estado colonial, de ocupação, bem longe da Europa. E ali prosseguiram as políticas antissemitas que prevaleciam na Europa e nos EUA antes da 2ª Guerra.

De diferente, que grande parte do veneno racista antissemita, em Israel, seria dirigido contra árabes e muçulmanos (os mesmos que são cidadãos e imigrantes na Europa e nos EUA, e os que vivem na Ásia e na África). E assim pôde prosseguir, sem qualquer adversário, o apoio dos antissemitas ao sionismo racista.

Na Hungria, 100 mil judeus assustados com racismo

A aliança que uniu a Alemanha Ocidental, o sionismo e Israel, depois da 2ª Guerra Mundial, e que forneceu gigantesca ajuda econômica a Israel nos anos 1950s e ajuda econômica e militar no início dos anos 1960s – inclusive tanques, que Israel usou para matar palestinos e outros árabes – é continuação da aliança que o governo nazista firmara com os sionistas nos anos 1930s.

Ehud Barak
Nos anos 1960s, a Alemanha Ocidental deu até treinamento militar aos soldados israelenses, e desde os anos 1970s também fornece submarinos “nuclearizáveis” produzidos na Alemanha, com os quais Israel contava para matar ainda mais árabes e muçulmanos.

Em anos mais recentes, Israel armou os submarinos mais modernos, que recebe da Alemanha, com mísseis que transportam ogivas nucleares – o que é do pleno conhecimento do atual governo alemão.  O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, disse, em entrevista à revista Der Spiegel, que os alemães devem “orgulhar-se” de ter garantido a existência do estado de Israel “durante muitos anos”. Berlim financiou 1/3 do preço dos submarinos, cerca de 135 milhões de euros (168 milhões de dólares) por submarino, com carência até 2015, para que Israel comece a pagar.

Konrad Adenauer
Isso faz da Alemanha cúmplice no ataque-assalto contra os palestinos; e a preocupação que essa cumplicidade geraria aos governos alemães, hoje, não é maior que a que gerava nos anos 1960s ao chanceler Konrad Adenauer, da Alemanha Ocidental, que disse que “a República Federal não tem, nem o direito, nem qualquer responsabilidade de tomar posição no caso dos refugiados palestinos”. Tudo isso se tem de somar aos bilhões, muitos, que a Alemanha pagou ao governo de Israel como compensação pelo holocausto de judeus, como se Israel e o sionismo fossem vítimas do nazismo. Não são. Na verdade, os nazistas assassinaram judeus antissionistas. O atual governo alemão não dá qualquer importância ao fato de que mesmo os judeus alemães que conseguiram fugir dos nazistas e acabaram na Palestina odiavam o sionismo e o projeto sionista; e que os mesmos judeus eram odiados pelos colonizadores sionistas na Palestina.

Como refugiados alemães nos anos 1930s e 1940s na Palestina recusaram-se a aprender língua hebraica e publicavam meia dúzia de jornais em alemão no país, foram furiosamente atacados pela imprensa em hebraico, inclusive pelo jornal Haaretz, que pregou o fechamento dos jornais dos alemães em 1939 e, outra vez, em 1941.

Colonos sionistas atacaram um café de proprietários alemães em Telavive, porque os proprietários recusavam-se a falar hebraico; e a prefeitura de Telavive ameaçou, em junho de 1944, alguns dos moradores judeus alemães, por organizar, na casa onde viviam, n. 21 da rua Allenby, “festas e bailes inteiramente em alemão, inclusive os programas, o que se opõe ao espírito de nossa cidade” e que tal procedimento “não será tolerado em Telavive”.

Judeus alemães, ou Yekkes, como eram conhecidos na [“comunidade original”] Yishuv, até organizaram uma celebração, no aniversário do Kaiser, em 1941 (para esses e outros detalhes sobre os judeus alemães refugiados na Palestina, ver The Seventh Million, livro de Tom Segev).

Acrescente-se a isso o apoio que a Alemanha deu às políticas israelenses na ONU contra os palestinos, e tem-se o quadro completo. Até o novo memorial do holocausto de judeus construído em Berlim, inaugurado em 2005, mantém o mesmo apartheid racial dos nazistas: esse “Memorial dos Judeus Europeus Assassinados” é dedicado só aos judeus vítimas dos nazistas que ainda devem ser mantidos separados, como Hitler ordenou, dos demais milhões de não judeus que também tombaram vítimas do nazismo. Não surpreende, tampouco, que uma subsidiária da empresa alemã Degussa, que colaborou com os nazistas e produziu o gás Zyklon B que foi usado para matar pessoas nas câmaras de gás, tenha sido contratada para construir o Memorial de 2005: apenas confirma que os que assassinaram judeus na Alemanha no final dos anos 1930s e nos anos 1940s lamentam hoje o que fizeram, porque hoje entendem que judeus são brancos europeus a serem homenageados, e jamais deveriam ter sido mortos, para começar, porque eram brancos.

A política alemã de apoiar Israel na matança de árabes é, sim, profundamente conectada ao antissemitismo, que prossegue e avança, conduzido pelo racismo alemão antimuçulmanos, hoje predominante, que ataca imigrantes muçulmanos.

A tradição euro-norte-americana anti-judeus

O holocausto de judeus matou a maioria dos judeus que combateram e lutaram contra o antissemitismo europeu, e contra um de seus ramos, o sionismo. Mortos aqueles judeus combatentes, os únicos “semitas” sobreviventes que continuam a combater contra o sionismo e seu antissemitismo são os palestinos.

Enquanto Israel ainda insiste que judeus europeus não seriam europeus, não teriam lugar na Europa e devem embarcar para a Palestina, os palestinos sempre disseram e insistiram que o lar e a terra dos judeus europeus são seus respectivos países natais, não a Palestina; e que o colonialismo sionista brota diretamente do antissemitismo dos sionistas colonialistas.

Enquanto o sionismo insiste em que os judeus seriam raça separada dos cristãos europeus, os palestinos insistem que os judeus europeus são europeus e nada têm a ver com a Palestina, o povo palestino ou a cultura palestina. Israel e seus aliados norte-americanos e europeus têm tentado ininterruptamente ao longo dos últimos 65 anos convencer os palestinos de que eles também devem tornar-se antissemitas e acreditar, como os nazistas, Israel e seus aliados antissemitas acreditam, que os judeus seriam raça diferente de todos os povos europeus, que sua “pátria” seria a Palestina e – o mais importante – que Israel falaria por todos os judeus.

A evidência de que, hoje, os maiores blocos de eleitores norte-americanos pró-Israel são os protestantes milenaristas e os imperialistas seculares, demonstra bem claramente a continuidade da mesma tradição euro-norte-americana de perseguição aos judeus, que se estende, no passado, até a Reforma Protestante e o imperialismo do século IXX.

Mas os palestinos jamais se deixaram convencer pelos sionistas e continuam a resistir firmemente contra o antissemitismo.

Os judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão: tornaram-se ferramentas do colonialismo dos colonos israelenses, intimamente associado à discriminação racista...

Israel e seus aliados antissemitas afirmam que Israel seria “o povo judeu”; que as políticas de Israel seriam “judaicas”; que as realizações de Israel seriam realizações “dos judeus” e que quem se atrever a criticar Israel estará criticando “os judeus” e, portanto, estará falando como antissemita.

Só o povo palestino organizou e combate luta incansável contra esse incitamento ao antissemitismo. Os palestinos continuam a afirmar que:

... o governo de Israel não fala por todos os judeus, que não representa todos os judeus e que os crimes coloniais que comete contra o povo palestino são crimes do governo de Israel, não são crimes “do povo judeu.

Por isso o governo de Israel tem de ser criticado, acusado, processado e condenado por crimes de guerra, que comete repetidamente contra o povo palestino.

Não é alguma nova posição palestina: é a mesma posição que os palestinos abraçaram desde a virada do século 20, e continuou ao longo da luta palestina antes da 2ª Guerra Mundial, contra o sionismo. Em discurso que fez na ONU, em 1974, Yasser Arafat destacou todos esses aspectos, com veemência:

Yasser Arafat
Assim como o colonialismo usou impiedosamente os desgraçados, os pobres, os explorados, como mera matéria inerte com a qual construir e levar adiante o colonialismo, assim os judeus europeus, também despossuídos, oprimidos, foram usados a favor do imperialismo mundial e da liderança sionista. Os judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão; tornaram-se ferramentas do colonialismo israelense, intimamente aliado à discriminação racial (...).

A teologia sionista foi usada contra nosso povo palestino: o objetivo não foi só o estabelecimento de um colonialismo de estilo ocidental, mas também o de separar os judeus de suas várias pátrias naturais e produzir, assim, que se tornassem estrangeiros nas suas próprias nações. O sionismo está unido ao antissemitismo nesses objetivos retrógrados e é, quando já tudo se disse e se fez, o verso da mesma moeda de base.

Porque, quando se propõe que os judeus de fé, independente de onde tenham nascido e vivido e habitem, devem abandonar a própria terra nacional, impedidos de viver como iguais com os próprios parceiros de destino e cidadãos não judeus, quando se ouvem essas propostas, o que se está ouvindo é o antissemitismo proposto aos próprios judeus. Quando se propõe que a única solução para o problema judeu seria que os judeus se alienassem das próprias comunidades originais ou nações, das quais foram parte histórica, quando se propõe que os judeus resolvam o problema judeu imigrando de onde nasceram para ocupar, à força, terras que pertencem a outros – quando isso acontece, o que se vê é que aí está exatamente a mesma posição pregada, com insistência, com urgência, contra os judeus, pelos antissemitas.

A reação de Israel, para quem todos os seus críticos seriam antissemitas, pressupõe que os críticos devam crer, necessariamente, que Israel representaria “o povo judeu”. Mas essa alegação, que Israel não se cansa de repetir, de que representaria e falaria por todos os judeus, é, ela mesma, o argumento mais antissemita de todos.

Hoje, Israel e as potências ocidentais obram para elevar o antissemitismo ao plano de princípio internacional, em todos do qual tentam estabelecer pleno consenso. Insistem em que, para que haja paz no Oriente Médio, os palestinos, os árabes e os muçulmanos devem tornar-se, todos, como todo o ocidente branco, também antissemitas; que devem esposar o sionismo e reconhecer todas as condições antissemitas que Israel impõe aos judeus de todo o mundo.

Exceto os regimes árabes ditatoriais e a Autoridade Palestina e sua corte, nesse 65º aniversário da conquista antissemita da Palestina pelos sionistas, que os palestinos chamam de Nakba, o povo palestino e alguns poucos judeus antissionistas ainda resistem e recusam-se a aceitar o incitamento internacional a favor do antissemitismo.

Lembrando a Nakba
Dizem que são, como últimos semitas resistentes, herdeiros das lutas pré-2ª Guerra Mundial, quando judeus e palestinos combateram lado a lado contra o antissemitismo e sua manifestação sionista colonial. Hoje, é essa a resistência, ainda viva, que impede o avanço, até a vitória no Oriente Médio e em todo o mundo, do antissemitismo europeu.




Notas dos tradutores
[1] Sobre isso, há documento impressionante, de 1947, publicado nos EUA: uma carta do rei Abdullah da Jordânia, que deve ser lida nos termos em que o autor expõe a questão, naquele momento histórico. Foi traduzido em 2010, seguindo indicação do Embaixador Arnaldo Carrilho do Brasil.  
[2] Sobre judeus, em todo o mundo, que foram empurrados à força, pelos sionistas, para povoar Israel, ver a “Carta aos norte-americanos”, de 1947, do Rei Abdullah da Jordânia. Ver nota [1] acima.
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