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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Robert Fisk: Mão conhecida opera na sangrenta guerra civil do Iêmen

21/1/2015, [*] Robert FiskThe Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fumaça e chamas durante pesados combates entre a Guarda Presidencial e os rebeldes xiitas houthis em Sanaa, Iêmen
A questão é os sauditas. Não importa o quanto a nova guerra civil no Iêmen pareça complexa – nem o quanto os rebeldes houthis sejam hoje poderosos na capital Sanaa – quem apavora a monarquia sunita wahhabista da Arábia Saudita é a seita zaidi, xiita, representada pelos houthis, e não sem razão.

Por mais de cinco anos, há conflito armado entre forças sauditas e os houthis, que num dado momento capturaram uma cadeia de montanhas de baixa altitude em território saudita. Os sauditas culpam os suspeitos de sempre: Irã e o Hezbollah libanês. Os houthis culpam os suspeitos de sempre: os sunitas do Iêmen, seus apoiadores sauditas e – já adivinharam – os EUA.

Mas, como todas as crises no Oriente Médio, o conflito no Iêmen, que começou quase imediatamente e sem transição depois da guerra civil que trouxe o exército egípcio de Nasser para o conflito com a família real iemenita – apoiada pelos sauditas – é um pouco mais nuançado do que podem sugerir os despachos jornalísticos. Verdade é que o primeiro governante independente do Iêmen foi um xiita zaidita – não era sunita – que estendeu seu território sobre o norte do Iêmen entre as duas guerras mundiais.

Iêmen - áreas de conflito
(clique na imagem para aumentar)
O Imã Yahya liderava a seita zaidita, cujas crenças e culto têm quase tanto em comum com o Islã sunita quanto com o xiismo, mas lutou contra os sauditas quando tomaram Asir e Najran, do que Yahya chamava “o Iêmen histórico”.

Euegen Rogan, professor de Oxford, descreveu a crueldade do sucessor de Yahya, seu filho Ahmed, que prendeu e executou seus rivais e iniciou relações diplomáticas com a União Soviética e a China, mas logo se viu em luta contra a palavra de ordem de Nasser, que mandava derrubar os “regimes feudais” no Oriente Médio.

Ahmed gostava de condenar o socialismo árabe, em versos (roubar propriedade privada seria “crime contra a lei islâmica”). Quando o filho de Ahmed, Badr, foi derrubado num golpe militar, Nasser apoiou a nova república e os sauditas tentaram destruir Nasser, oferecendo apoio aos rebeldes xiitas zaiditas.

A triste história da divisão do Iêmen e eventual (e infeliz) unificação do governo ditatorial de Sanaa, 33 anos sob Abdullah Saleh – ele próprio xiita zaidita – e, depois, os inevitáveis clamores da minoria oprimida, implicavam que o despertar árabe – no Iêmen foi de fato uma “primavera” sangrenta – despertaria feridas ainda muito dolorosas.

Ali Abdullah Saleh, ex ditador do Iêmen
A saída de Saleh produziria uma nova Constituição que não satisfez os houthis. Os sauditas passaram a temer que os rebeldes xiitas do norte, que carregavam o nome de Hussein Badreddin al-Houthi, líder zaidita morto em 2004, fossem apoiados pelo Irã e, assim – por causa da própria substancial minoria xiita na Arábia Saudita – que constituíssem uma ameaça à estabilidade do próprio reino saudita.

Muito protestaram os sauditas contra o apoio que o Irã e o Hezbollah libanês dariam aos houthis – e muito o Irã e o Hezbollah negaram qualquer apoio – mas o crescimento da facção da Al-Qaeda no Iêmen (que cultiva, é claro, as mesmas crenças salafistas-wahabistas que a própria Arábia Saudita), trouxe o inevitável envolvimento militar dos EUA.

Os ataques por drones norte-americanos no Iêmen, praticamente apagados do mundo pela imprensa-empresa ocidental, eram dirigidos contra a al-Qaeda, supostamente em nome do governo iemenita que os sauditas apoiavam.

Mas em dezembro de 2009, porta-vozes dos houthis começaram a catalogar séries de ataques dos EUA contra os próprios houthis, inclusive 29 raids aéreos que mataram 120 pessoas em cidades do norte do Iêmen.

Rebeldes xiitas houthis cercam a capital do Iêmen, Sanaa
O avanço dos houthis sobre Sanaa dividiu a força do exército do governo – que passou a combater contra a al-Qaeda (em nome dos EUA) e contra os houthis (em nome dos sauditas). A al-Qaeda na Península Árabe moveu-se para o norte, para combater os houthis, com o que passou a receber apoio dos sunitas.

O Iêmen não é a Síria. Mas a visão deformada que os EUA têm do Oriente Médio já produziu no Iêmen cenário muitíssimo semelhante ao que produziu na Síria: além de tentarem destruir o regime xiita alawita de Assad e seus inimigos sunitas do ISIS/ISIL na Síria, os EUA parecem agora ansiosos para esmagar também os houthis xiitas zaiditas e os sunitas da al-Qaeda no Iêmen. Ordens dos sauditas. 


[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Iêmen: A revolução ignorada


Mónica Garcia Prieto

30/11/2011, Periodismo Humano Mónica Garcia Prieto
Tradução de Gabriela Blanco p/ o Diário Liberdade, Galiza
Fotos: Muhammed Muheisen
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Periodismo Humano - [Mónica G. Prieto, Periodismo Humano, Tradução de Diário Liberdade] Beirute. O máximo que a comunidade internacional dedicou de atenção para a revolução social que mobiliza centenas de milhares no Iêmen desde janeiro foram dois minutos. Cento e vinte segundos desperdiçados pelo Conselho de Segurança no dia 21 de outubro para debater como reagir perante a repressão armada de uma população que se colocou massivamente nas ruas para acabar com 33 anos de ditadura. A ameaça de que o conflito armado entre o regime e as tropas desertoras degenere em outra guerra civil, e a crise humanitária – admitida pelas próprias Nações Unidas – que atinge o país e se agrava dia a dia.

Iemenitas em oração aos seus mortos
“Somente dois minutos. E sabe o que faziam as tropas do presidente Saleh nestes precisos dois minutos? Disparavam contra os manifestantes”, explica recostado em uma poltrona de um café central de Beirute, Farea al Muslimi, um dos mais destacados ativistas iemenitas e um dos mais ativos nos meios de comunicação com o objetivo de gerar certa consciência social no exterior.

Farea não se surpreendeu que o Conselho de Segurança despachasse o dossiê iemenita com mais prontidão do que se solicita a janta em um restaurante. No diário das sessões, a resolução 2014 sequer é identificada com o nome do país, simplesmente se refere a ela como “Resolução sobre Oriente Próximo”. Mais indignante ainda é seu conteúdo, mil mortos e 19.000 feridos depois do início das manifestações sociais: “Em Human Rights Watch nos sentimos decepcionados por um texto que é contraditório”, explica com certo assombro em sua voz Christophe Wilcke, pesquisador de HRW para o Iêmen, contatado por telefone. “Por um lado pede que todos os atores respondam pelos seus crimes, e nós opinamos que isso inclui a Ali Abdullah Saleh, por outro lado respalda a iniciativa do Conselho de Cooperação do Golfo [que media o conflito entre o regime e sua população sem nenhum êxito] que outorga imunidade a Saleh”.

Marcha dos milhões em Sana
Ou, o que significa a mesma coisa, o Conselho de Segurança presenteou Saleh com uma licença internacional para matar. Enquanto se votava a primeira resolução sobre a atual crise no Iêmen, os disparos soavam pela capital, Sana, para desespero dos cidadãos. Horas depois, o balanço em sangue aumentava, segundo a imprensa local, para 20 mortos no contexto da guerra interna que mantém Saleh com o general desertor Ali Mohsen, seu primo-irmão, seu antigo aliado e agora seu principal inimigo, que mostra a cara ao ditador no comando da I Divisão do Exército e, em teoria, ao lado dos manifestantes.

“Há uma semana que os disparos e os bombardeios são quase diários”, explica por telefone desde Sana Atiaf al Wazir, responsável pelo blog Women from Iemen e outro dos rostos públicos da revolução. “As tropas do regime atacam os desertores, fortes em Hasaba e Sofan [feudos do poderoso líder tribal Ahmed Ahbar, que também abandonou o ditador] e tememos um aumento de seu enfrentamento. Mas isso não tem nada a ver com o acampamento pacífico que levamos a cabo desde fevereiro”, continua mediante a linha telefônica. “Saleh conseguiu que os meios de comunicação coloquem o foco nos combates, mas eles são um detalhe muito pequeno se comparado com a revolução”, insiste Farea, 21 anos e estudante de Ciências Políticas.

Iemenitas choram e enterram seus mortos


Revolução? Que revolução? A ausência de informação sobre o Iêmen é gritante. Desde janeiro, suas marchas são multitudinárias. Rios de homens e mulheres revestem ruas inteiras proferindo gritos de mudança, liberdade e dignidade. Sua luta é a mesma que qualquer outra nação árabe submetida à ditadura, e seus mortos também caem abatidos por balas dos soldados que deveriam defendê-los: “No Iêmen, investem-se milhões de dólares em um Exército que nunca nos defendeu de uma agressão externa”, resume abatido Faria. O país árabe mais pobre, mais instável, o segundo lugar do mundo com mais armas por cabeça – 15 milhões, 61 por cada 100 habitantes – depois dos Estados Unidos e um dos mais instrumentalizados por potências estrangeiras, desde os EUA até a Arábia Saudita, passando pela Al Qaeda, carece de atenção internacional. E cada minuto de silêncio trai a um povo que desafiou o medo e a impunidade para empreender uma revolução pacífica que desemboque em uma democracia.

Em janeiro e fevereiro, as primeiras marchas de dezenas de milhares de pessoas se transformaram em um acampamento permanente junto a Universidade, a qual foi batizada de Praça da Mudança. Jovens e crianças, homens e mulheres, urbanos e membros de tribos que meses atrás nunca se relacionaram com o resto, instalaram-se sem uma única arma para exigir a saída de Saleh, que pretendia entregar em herança a Presidência ao seu filho, perpetuando assim um sistema militar, corrupto e ditatorial baseado no medo. Configurava-se assim um milagre: “No ano passado toda essa gente não teria se conhecido pessoalmente, salvo que estivessem empunhando armas. Pela primeira vez nas últimas décadas, nós iemenitas nos unimos. Saleh nos fez pensar durante anos que éramos serpentes, dizia que governar Iêmen era como dançar sobre cabeças de serpentes, mas esta revolução nos serviu para olharmos uns aos outros. E descobrimos que não somos maus nem temíveis, mas que somos pessoas e que podemos conviver juntos”.

Crianças perigosas...


Farea al Muslimi se emociona recordando uma cena na Praça da Mudança de Sana que presenciou há um mês, antes de abandonar Iêmen para retomar seus estudos em Beirute: “Apareceu um jovem de bermuda e com uma toca, o típico rapaz Facebook, e se sentou para conversar com um homem mais velho, membro de uma tribo, adornado com a roupa típica. E começaram a discutir sobre a conveniência de se usar véu. O rapaz lhe dizia que isso não figurava no Corão, o outro argumentava que era o islamicamente correto. É uma conversa impensável há algum tempo atrás. Esta revolução rompeu com a lacuna geracional e algo mais. Antes, somente nos olhávamos cara a cara para combatermos, agora o fazemos para construir algo pacificamente”. O certo é que para os iemenitas sobram-lhes motivos para promover uma revolução, como detalha o jovem universitário: “50% do país é pobre, uma quinta parte da população morre por falta de alimentos, sete milhões vão para a cama com fome, nos meus 21 anos de vida vivi sete guerras, nunca tivemos paz, nem igualdade, nem liberdade... Ou existimos ou não existimos. Ou saímos à rua ou aceitamos morrer em silêncio. Podemos morrer de fome ou morrer nas ruas pela nossa dignidade e a dos nossos”.

E optaram pela última opção. Saleh começou então um jogo de promessas não cumpridas que somente lhe serviam para ganhar tempo e obter silêncio internacional. Primeiro, prometia reformas, depois, que não entregaria o poder ao seu filho, mais tarde, não voltaria a optar pelo poder, finalmente, abandonaria seu cargo quando recebesse garantias que nunca lhe pareciam suficientes. E enquanto isso, ordenava a suas tropas atacar com fogo real e gás lacrimogêneo os manifestantes desarmados, que já ocupavam as principais praças e ruas de todo Iêmen, desde Taiz até Aden, de Sana a Mukalla. Uma insuportável enxurrada de mortes que quase alcançam já o milhar. Mesquitas convertidas em hospitais de campanha, bairros evacuados por seus habitantes por temor aos disparos. E o efeito contrário ao desejado. Como ocorreu com o resto das ditaduras, cada morte civil arrastava mais gente para as ruas. As dezenas se converteram em centenas e aos líderes iniciais somaram-se responsáveis religiosos como Sheikh Abdul-Majid Al-Zindani até milhares como o citado Ali Mohsen, desde muitas tribos do país até os independentes do sul ou os houthis, os rebeldes zaidis que combatem no norte contra a discriminação de sua comunidade. Para assombro de muitos jovens que pretendem mudar o sistema que todos eles representam: “Mas a revolução não é um jardim privado. Qualquer um que aceite seus princípios pode participar”, destaca Farea.

Marcha em Sana
Alguns se preocuparam quando viram passear entre suas fileiras o familiar rosto do general Ali Mohsen, conhecido por seus desmandes ao lado da família Saleh: “É certo que sua presença nos dividiu”, confessa Atiaf, uma das ativistas que participou na redação dos princípios da revolução. “Não saímos às ruas para substituir Saleh por Ali Mohsen. Queremos um Estado de Direito, um Governo que nos represente, um Estado civil baseado na democracia”, incide Farea. “Ali Mohsen não representa nenhuma mudança, foi um sanguinário e corrupto amigo de Saleh, o mesmo que [o líder tribal mais influente do país] Ahmar”, insiste Atiaf al Wazir. “Mas não podemos impedir que se somem à revolução”. Tampouco se pode impedir que tomem as armas para defender aos manifestantes dos disparos do regime, convertendo Sana em uma cidade militarizada e começando os combates que hoje em dia paralisam a cidade: “Há checkpoints por todos os lugares, alguns amigos contaram quantos há do centro ao aeroporto: somam 16. Alguns são dos desertores, outros de Saleh”, detalha Fatima Saleh, outra ativa tuiteira iemenita envolvida na revolução social.

Como demonstra a ambígua resolução 2014, as vidas humanas valem barato no Iêmen. Décadas de guerras e a mais recente aparição da Al Qaeda estigmatizaram o país mais pobre do mundo árabe, sem recursos energéticos que inquietem os dirigentes ocidentais: “Iêmen não tem importância para a comunidade internacional. Carece de petróleo e não tem Israel em suas fronteiras, assim não afeta os interesses regionais”, avalia Hakim al Masmari, direto do diário Iêmen Post, em conversa telefônica desde Sana. “Saleh é como qualquer outro ditador: sente-se forte porque não se sente questionado, mas em qualquer momento pode descobrir sua debilidade. Continuará com sua agenda porque pensa que ninguém pode lhe tirar do poder”. Tanto Al Masmari como Wilcke, assim como Ataif al Wazir e outros ativistas, respondem de forma automática o que poderia se fazer para parar o ditador. Sanções econômicas, proibição de viajar para ele e os seus – das forças a cargo de seu filho e seus sobrinhos depende seu poder militar –, congelamento de bens no estrangeiro, asfixia econômica... “A revolução iemenita foi abandonada diferentemente de outras revoluções principalmente pelos EUA e Arábia Saudita”, explica ao Periodismo Humano mediante correio eletrônico Noon Arabia, pseudônimo da autora do blog Notas de Noon e uma das tuiteiras mais ativas e influentes em relação com o Iêmen. “Saleh foi complacente com a política saudita no Iêmen, foi um servidor leal e também um aliado americano na chamada guerra contra o terror, permitindo-lhes atacar com drones [aviões não tripulados] o território iemenita quando o desejem, em troca de receber ajudas militares. Ambos os países desejam manter o status quo pese a sua retórica sobre a necessidade de que abandone o poder. E dado que os meios de comunicação principais são financiados por esses países, faz-se vista grossa sobre o que passa no Iêmen”.




Para os grandes meios de comunicação, Iêmen é Al Qaeda. Para os iemenitas, Al Qaeda é uma mera anedota em uma vida de sofrimentos. Mas desde que Saleh vendeu o espaço aéreo para Washington em troca de ajuda militar, essa anedota custa vidas e condena famílias inteiras. O assassinato de Abdul Rahman al Awlaqi foi um ponto de inflexão. No fim de setembro os EUA se parabenizava publicamente por assassinar o seu pai, Anwar al Awlaqi, cidadão americano-iemenita e um dos comandantes locais da Al Qaeda, mediante um bombardeio aéreo. Em 14 de outubro, a população se comovia após saber da morte de seu filho, Abdul Rahman, de 16 anos, um adolescente fã de livros de Harry Potter e da série Crepúsculo, em outro ataque aéreo. Sua família sustenta que foi bombardeado enquanto participava de um churrasco com seus amigos: “Era um rapaz que ia à escola e que não podia ser mais distante da luta de seu pai. Seu único delito foi estar junto a ele. Se falam tanto de promover a democracia, o mínimo que deveriam fazer seria prendê-los e levá-los a julgamento, ao invés de executá-los”, disse Atiaf com raiva.

Al Qaeda é um espantalho que emprega Saleh para conservar suas alianças. Sobretudo, desde que o grupo terrorista tentou assassinar um dos príncipes mais influentes da Arábia Saudita, o ultraconservador Nayef, ministro do Interior, e muito provavelmente o novo herdeiro do trono wahabi, após a recente morte do príncipe Sultan por um suicida forrado de explosivos em agosto de 2009. Iêmen desempenha um papel central nas ações da Al Qaeda desde sua fundação, mas ganhou peso nos últimos anos estendendo suas ambições até os Estados Unidos, onde organizou alguns atentados com escasso êxito. Sua força radica, pelo julgamento dos ativistas iemenitas, na estratégia clandestina do regime de Saleh.

“O regime engana o Ocidente dizendo-lhe que se mantendo no poder reduzirá a influência da Al Qaeda, mas meu acompanhamento das notícias de Iêmen me faz pensar que o regime distribuiu armas para alguns grupos divididos das forças de Segurança para intimidar o Ocidente. É uma mensagem que diz “olha o que pode acontecer se o regime cai”, aponta Fatima Saleh. É um temor difundido na sociedade iemenita: “Durante anos Saleh jogou com o extremismo”, menciona Atiaf. “Ele os usa, prende, liberta, deixa escapar, serve-se deles para conseguir seus objetivos políticos”. E enquanto isso, a população sofre com os bombardeios americanos com os quais Washington tira sarro da legalidade internacional que exige dos demais: “Em Abiyan os bombardeios deixaram 90 mil desabrigados”, lamenta Atiaf. “Foram instalados em escolas, mas isso deixou sem colégio a todas as crianças da região. Tudo isso cria um enorme ressentimento em relação aos Estados Unidos”. No total, as diferentes formas de violência resultaram em uns 300 mil desabrigados em todo o país, que vivem em condições subumanas.

Farea, fiel aos seus estudos universitários, explica a presença da Al Qaeda no Iêmen – onde tem sua base na Península Arabiga, o AQAP, uma das principais plataformas da organização de Bin Laden em todo o mundo – como resultado da política da ditadura: “O Governo não nos defende da Al Qaeda. Não existe um contrato social em meu país, por isso prosperam organizações fanáticas como essa. A desigual distribuição de recursos afeta inclusive as pessoas mais preparadas, ninguém tem esperanças porque a corrupção impede de conseguir um trabalho, salvo que se tenha dinheiro ou influências. Para muita gente, a Al Qaeda é a única opção. Te oferecem um salário e um paraíso, quem dá mais? Saleh alimenta a Al Qaeda com seu regime corrupto. E não vai ser tão estúpido ao ponto de acabar com eles porque perderia milhões tratando-se de cooperação militar”. Daí que o povo, segundo este jovem ativista, veja com os mesmos olhos a ditadura, a Al Qaeda e os Estados Unido: “Perdemos o respeito a eles. Eles não se preocupam pelas vidas humanas, prejudicam nossa economia, não nos representam. As pessoas estão fartas”.

Sem uma firme reação internacional, que possibilidades têm os jovens iemenitas que insistem em perpetuar seu protesto pacífico? “A diferença com a Tunísia e o Egito é que lá o Exército está fundado sobre uma base nacional; no Iêmen ele está sobre uma base familiar”, lamenta Al Muslimi. Refere-se à Guarda Republicana e às divisões comandadas por familiares de Saleh, as melhores e mais equipadas do país. “Deve-se parar os militares, mas é impossível enquanto lhes siga chegando dinheiro em questão de ajuda militar”, complementa Ataif em alusão às doações americanas em troca de que Saleh combata – oficialmente – a Al Qaeda. Agora é questão de paciência, argumentam os entrevistados, e de evitar a tentação de tomar as armas: “A revolução não é uma corrida. Os antecedentes colocaram o bastão muito alto, mas não temos pressa para que a revolução triunfe. Esperamos 33 anos e podemos seguir esperando; do contrário, levaremos nosso país ao inferno”, acrescenta Farea em uma sucinta alusão a uma revolução armada. “Sabemos que isto não terminará quando Saleh tenha saído do poder. Tratará de deixar seu filho e seus sobrinhos e teremos de seguir lutando pacificamente. Serão anos de luta, mas se aguardamos 33 anos de ditadura podemos fazê-lo”, acrescenta Atiaf.

Saleh, o ditador, ordenou que atirassem na multidão desarmada

Surpreende a quantidade de mulheres ativistas que trabalham na revolução iemenita. Nas manifestações, milhares de feministas vestidas com niqab gritam palavras de ordem separadas dos homens, segundo corresponde em uma sociedade muito tradicional, mas não duvidam ao tomar ações drásticas e provocadoras como queimar véus para chamar a atenção dos meios de comunicação. Atiaf, Fatima ou Noon Arabiya não são casos isolados, como demonstra o fato de que a principal ativista do país, Tawakol Karman, presidenta da ONG Mulheres Jornalistas Sem Correntes, tenha sido reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz junto a outras duas mulheres. Explicam-me desde Iêmen entre risadas: “Quinze milhões de mulheres iemenitas levamos a revolução há anos”. Ou séculos: “Lembre-se da rainha de Saba”, disse Farea com um sorriso aberto. Ela reinou antes que chegasse o Islamismo ao Iêmen; anos depois, outra mulher subiria ao trono do país islamizado, Arwa Bin Ahmad al Sulaihi: governaria 55 anos. Para elas e eles, o temor mais difundido é que Saleh aprenda a lição equivocada do exemplo líbio e opte por combater até a morte para conservar o poder: “Muitos estão esperando uma guerra, ou ao menos enfrentamentos muito duradouros entre a I Divisão e a Guarda Republicana em Sana e os milicianos pró-revolucionários e a Guarda Republicana em Taiz”, explica Fatima mediante e-mail enviado desde Sana. “Saleh tem muita má intenção, está tentando empurrar a guerra para as pessoas envolvidas na revolução pacífica usando qualquer meio ao seu alcance para provocá-las”, prossegue a ativista.

No entanto, Al Masmari descarta um conflito em grande escala: “Trata-se de uma guerra pessoal entre Ali Mohsen e Saleh e aí vai ficar. Os iemenitas não vão combater, as marchas seguirão sendo pacíficas”, estima o diretor do Iêmen Post. Atiaf al Wazir teme que as coisas mudem rápido: “Durante nove meses a revolução foi pacífica, mas as pessoas pacíficas estão sendo atacadas com armas. Se o enfrentamento militar se estende, é imprevisível o que pode acontecer porque ambas as partes têm grandes arsenais”. No entanto, descarta que os movimentos já armados, como os separatistas do sul ou os houthis, envolvam-se em uma guerra: “Não creio que se envolvam porque não tirariam benefícios, mas é certo que ambos os lados, tanto as tropas de Ali Mohsen como as de Saleh, têm muitíssimas armas após anos de guerra e anos de compras de recursos bélicos. A demonstração de força pode converter-se em um enfrentamento aberto”.

Parece claro que a juventude iemenita está farta de violência: “Crescemos rodeados de armas, já não queremos mais balas”, repudia Farea com um gesto casual. “Esta revolução é pacífica ou não é. Mas não sei o que vai ocorrer quando se acabe a paciência dos iemenitas. Se se decepcionam podem se converter em um vulcão. Eles têm potencial e ganharam a mudança após nove meses manifestando-se em paz. Imagine todo esse potencial com armas”. Farea mexe na barba antes de prosseguir: “Eu prefiro não pensar nisso: não sou valente o bastante para imaginar como seria Iêmen se se opta pela via armada”.

Após dez meses de revolução social e mil mortos, uma fraca resolução do Conselho de Segurança concede imunidade ao ditador Ali Abdullah Saleh, responsável da repressão militar contra civis. Praticamente a totalidade da sociedade iemenita se uniu contra o tirano em uma estranha irmandade, pouco comum no país árabe.

domingo, 3 de julho de 2011

Iêmen: Comitês populares ou “gente diferenciada”?

Shata Al-Harazi

30/6/2011, Shatha Al-Harazi, Yemen Time
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu:
Nada de sensacional -- é matéria jornalística, sem importância --, mas, pelo menos, há aí alguma “notícia”, que os jornais e blogs jornalísticos, no Brasil, não noticiam. Ajuda a ver, pelo menos, que o Iêmen não foi apagado do mapa, depois que os EUA e o Pentágono resolveram esquecê-lo, e a “grande  imprensa-empresa” obedeceu. 

SANAA, 29/6 — Depois que começou a guerra entre o governo de Saleh e as tribos aliadas à família Al-Almar, o medo espalhou-se pelos arredores do distrito de Hassaba, na capital do Iêmen. 

Moradores da região e bairros próximos decidiram proteger-se, as famílias e as propriedades, formando comitês populares. A ideia original era proteger os bairros contra a presença de “gangues” que poderiam tentar aproveitar-se da insegurança, enquanto o estado combatia contra as tribos. 

Mas espalharam-se boatos segundo os quais o Partido GPC [ing. General People's Congress (GPC), partido de Saleh] estaria conclamando o povo a formar comitês populares, dizendo que, naquelas circunstâncias, cada um passaria a ser responsável pela própria segurança. Houve quem dissesse que o partido de Saleh estaria pagando 2.000 YR [ing. Yemen Rials] por dia e dando uma arma aos que se unissem aos comitês populares. Outros boatos sugeriam que os partidos da oposição estariam estimulando também a formação de seus próprios comitês populares. 

Grupos jovens dos bairros reuniram-se e dividiram-se em pequenos grupos, e cada grupo ficou encarregado de proteger uma das entradas do bairro, à noite. Organizaram-se turnos, de modo a que todos participassem nos horários possíveis. 

Dia 3/6, uma explosão feriu o presidente Saleh e vários assessores, quando estavam reunidos para as orações, no momento em que os bombardeios contra o centro da cidade atingiam ponto de intensidade máxima até ali. A área do distrito de Hadda foi muito duramente atingida pelas bombas do exército aliado a Saleh. O combate entre a confederação de tribos Hashid e o exército ficou concentrado principalmente em Hadda e Hassaba. 

Hadda é considerado um dos bairros mais ricos de Sanaa, onde há grandes residências e restaurantes. Os residentes na região fugiram, naquele dia 3/6, mas em quase todas as casas ficou pelo menos um membro da família. Um homem que levou a mulher e os filhos para lugar seguro e voltou para proteger a casa, foi morto ao chegar. 

“Já falávamos de organizar comitês populares desde antes da 6ª-feira [3/6], porque todos aqui tememos as gangues. Três casas foram saqueadas” – diz Mohammad Abbas, morador de Hadda. Depois do 3/6, decidiram bloquear todas as entradas para o bairro, como medida para impedir que os combatentes das tribos usassem as casas como abrigo, no combate contra os soldados de Saleh. 

Os comitês populares, armados pelo estado, através de contato com os grupos locais organizados, ou não, estavam quase todos armados, com armas pessoais ou Kalashnikovs, alguns com facas e porretes. 

Durante mais de três meses, prosseguiu uma campanha de desarmamento, em todos os postos de controle à volta da cidade, com soldados que revistavam carros e caminhões, para localizar armas. Mas as forças de segurança não impediram que os comitês populares se armassem. 

“Aqui, todos estão armados. Recentemente, alguém atacou o posto de polícia do bairro. Foi quando a segurança passou a revistar os comitês populares por aqui” – disse Abbas. 

Abbas garante que, no bairro onde vive, os comitês populares não são políticos. Mas em outras partes da cidade, moradores dizem que participam de comitês populares políticos. 

“Onde eu moro, só os aliados do partido de Saleh participam dos comitês. A menos de 50m da minha casa há outro comitê só de membros do Partido Islah” – disse Ali Saeed, que mora na rua Taiz. 

Saeed contou que foi convidado a juntar-se ao comitê local, que lhe ofereceram pagamento de 2.000 YR e qat [1]. Disse que não aceitou, porque entende que o povo tem de se autoproteger e a segurança do estado já não pode ajudar ninguém. Que preferia viajar para o interior, para a aldeia onde vivem seus parentes, “onde todos se conhecem”. 

“Os comitês populares não são solução para coisa alguma e nos preocupam ainda mais, porque todas as noites se ouvem tiros próximos. Sabemos que os comitês são políticos. Há comitês de dois partidos diferentes, os mesmos que estão em guerra e, a qualquer momento, põem-se a atirar uns contra os outros” – disse Saeed. 

Na rua Haeel, os comitês apareceram, por pouco tempo, depois do atentado contra a vida do presidente. Nesse caso, em vez de sugerirem que cada um protegesse a própria casa, nos prédios de vários andares a polícia criou um ‘toque de recolher’: todos tinham de estar em casa num horário determinado e, fora desse horário, os portões permaneciam trancados. 

Às segundas-feiras, os postos de abastecimento de carros recebem combustível e a cidade assiste a engarrefamentos gigantes, todos querendo abastecer os carros. Ouvem-se brigas entre motoristas durante toda a noite, às vezes com tiros. Alguns comitês populares bloquearam as ruas que atravessam os bairros, para impedir que as filas avancem por ali e compliquem ainda mais a situação dos moradores. 

Muitos dos que se uniram aos comitês populares são vistos como bandidos, ou jovens que querem aproveitar-se do caos. Um morador, Yaseen Al-Makhlafi, que mora na rua Haeel, disse à nossa reportagem que alguns comitês cobram ‘pedágio’ (500 YR) dos que fazem filas nos postos de gasolina, o que também tem gerado brigas e tiroteios. 

“Por aqui, os comitês populares são formados de bandidos conhecidos” – disse Mahmood Saleh, que mora na região de Al-Sabeen. Mas Mahmood acha que as coisas podem ser diferentes, em outros bairros.



Nota dos tradutores
[1] Uma folha de arbusto (Catha edulis) que se masca e que tem efeitos estimulantes, de uso tradicional no Iêmen e em vários países da região e da África. Nos EUA é considerada droga ilegal. Sobre qat, ver: TED Caser Studies: QAT trade in Africa.


terça-feira, 5 de abril de 2011

US$1 bilhão para Obama, se conseguir enrolar o Iêmen

Pepe Escobar

6/4/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Pessoal da Vila Vudu

Ver também: “O perigoso jogo dos EUA no Iêmen”, Jeremy Scahill, The Nation, 3/4/2011, em português.

“Fora! Fora, Saleh! Covarde! Você é agente dos EUA!”
– cantado por manifestantes, em Sanaa, 24/3/2011.

Até aqui, nada de “R2P” (‘responsabilidade de proteger’). Nada de resolução da ONU. Nada de zona aérea de exclusão. Nada de aviões-robôs Predator armados. Nada de Tomahawks. Nada de torpedeiros C-130. Nada de imperialismo humanitário. 

Mas, até aqui, há manifestantes assassinados; um ditador recusa-se a renunciar; a al-Qaeda festeja – aliás, abertamente; a contraguerrilha rola; há muitos agentes da CIA ‘em campo’; e a guerra civil se aprofunda. Bem vindos ao estranho caso do Iêmen que “ainda não está preparado” para o imperialismo humanitário. 

Barack Obama
O mantra do presidente Obama dos EUA para a Líbia é “Muammar Gaddafi tem de sair”. Robert “El Supremo do Pentágono” Gates, interrogado sobre Ali Abdullah Saleh, o Gaddafi-do-Iêmen, respondeu que “Não me parece adequado falar sobre assuntos internos do Iêmen”. 

Os fatos mostram exatamente o oposto disso. O primeiro presidente afro-norte-americano – laureado com o Prêmio Nobel da Paz – carrega hoje também o vergonhoso título de ser o único presidente dos EUA que iniciou guerra em solo africano contra nação africana. Simultaneamente, lançou sua campanha de reeleição, que deverá consumir nada menos que nu e cru 1 bilhão de dólares. 

Simultaneamente também, Saleh continua a matar seu próprio povo e a ferir centenas – como aconteceu na cidade de Taizz ontem, 2ª-feira. Obama tinha de fazer alguma coisa. Então “silenciosamente mudou de posição”, nas exatas palavras do New York Times; o novo mantra é “Saleh tem de sair”. Retórica de contorcionismo sugere que Washington agora quer que Saleh saia, porque chegou à conclusão que seus dias de governo acabaram-se, apesar de há apenas dois meses, matança incluída, Saleh ainda gozar de total apoio dos EUA. 

O nosso safado esperto

O festivo congraçamento que houve entre o governo de Saleh e as forças especiais do contraterrorismo da era George W Bush – cresceu muito no governo Obama. Saleh é o fornecedor local contratado. O alvo é a Al-Qaeda na Península Arábica, AQPA (ing. Al-Qaeda in the Arabic Peninsula (AQAP)], frequentemente atacada por surtos de “ação militar cinética” (no jargão da Casa Branca). Os “danos colaterais” podem já ter chegado às primeiras algumas centenas. 

Avaliação de março de 2011 do grupo Glevum Stability descobriu que nada menos de 96% dos cidadãos do Iêmen entendem que “o ocidente está em guerra contra o Islã”; só 4% aprovam o capítulo que lhes coube da “guerra ao terror” dos EUA, na terra deles; e a maioria entende que a Al-Qaeda é arrastada para essa guerra “para se defender”. Apesar disso tudo, no que tenha a ver com Washington, o Iêmen só interessa como agente de contraterrorismo – e não interessa o que pensem os nativos. 

Há pelo menos 60 milhões de armas com poder letal no Iêmen. O levante dos jovens iemenitas foi modelo de militância pacifista. Saleh, modelo de ditador árabe, decidiu que os manifestantes seriam traficantes de drogas, lavadores de dinheiro e “uma pequena minoria”. 

Ali Abdullah Saleh
O norte e o sul do Iêmen foram unificados em 1994. Saleh delega o controle do país e vários xeques tribais cuja lealdade é precária, para dizer o mínimo. A Arábia Saudita semeia e colhe a cizânia entre eles, subornando todos à vista e financiando o wahhabismo linha-mais-dura. A Al-Qaeda na Península Arábica é pequeno detalhe numa paisagem política complexa. 

No norte, os xiitas zeydistas lutam por autonomia. A tática de Saleh é bombardear as cidades, obrigar centenas de milhares de civis a fugir de casa, e atacá-los pelas estradas. Não, não, ninguém cogita de detê-lo com zonas aéreas de exclusão. No sul, um movimento separatista pacífico que reivindicava mais igualdade foi selvagemente esmagado. Muitos dos sobreviventes abraçaram a via da luta armada, em grupos guerrilheiros. 

Saleh foi esperto, ao instrumentalizar a Al-Qaeda na Península Arábica contra seus inimigos domésticos, ao mesmo tempo em que também usou-a para extorquir armas, inteligência e centenas de milhões de dólares dos EUA. Até agora, vinha dando certo. Obama aumentou a “assistência militar” para o Iêmen, de $67 milhões em 2009, para $150 milhões em 2010. 

WikiLeaks publicou grande quantidade de provas dos negócios sujos entre Washington e Saleh – inclusive mentiras do general David Petraeus ao povo do Iêmen sobre quem andava matando civis iemenitas durante a “guerra ao terror”. Mas Saleh é tratado como “um dos nossos safados espertos” – diferente do hiperdemonizado terrorista/viciado/psicopata/bandido Gaddafi. Saleh é tão safado-esperto, que mata zeydis xiitas, iemenitas no sul, jornalistas e jovens em manifestações pacíficas, e sempre salva a sua galinha dos ovos de ouro: a Al-Qaeda na Península Arábica! 

Agora que Obama resolveu que Saleh tem de sair, ganha quem apostar que se inventará um cenário no qual a CIA usará a Al-Qaeda na Península Arábica contra Saleh. Objetivo: balcanizar o Iêmen. É onde entra em cena o legado de Said al-Shihri – saudita libertado de Guantánamo e mandado para o Iêmen pelo governo Bush, e assassinado dia 12 de fevereiro. Também serão úteis os serviços de Anwar Awlaki, nascido nos EUA e agente duplo da CIA do tipo ‘clássico’. 

A CIA já está instrumentalizando a Al-Qaeda no Maghreb Islãmico (AQMI) [ing. al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)] na Líbia. Com ou sem Gaddafi no poder, e como parte de uma Líbia balkanizada, a AQMI já é fator de desestabilização no grande quadro. O modus operandi é o mesmo: a CIA/Pentágono usa o espectro da Al-Qaeda para justificar uma infinita guerra ao terror, tanto no norte da África como na Península Arábica. 

Por sua parte, a Casa de Saud tem lutado com unhas e dentes para que Saleh permaneça no poder: Saleh é tão perfeito lacaio da Casa de Saud quanto os al-Khalifas do Bahrain. Mas, sem o apoio do governo Obama, o máximo que a Casa de Saud pode esperar são as velhas “estabilidade” e “transição suave do poder”, de sempre – com algum general amigo da Arábia Saudita posto no poder no Iêmen. A Arábia Saudita deseja “golpe militar suave”. Mas não acharia absolutamente ruim que lá ficasse, como novo líder, o comandante linha dura major-general Ali Mohsin Saleh Ahmar. 

Após ondas de defecções políticas, ministeriais, embaixadoriais e militares, das duas uma: ou Saleh sai, ou é a guerra civil (fiel ao script, Saleh diz que se ficar, evita-se a guerra civil). O novo governo em Sana'a implantou estado de emergência. Saleh talvez dure ainda um pouco mais – porque ainda conta com a Guarda Republicana, as Forças Especiais e segurança interna comandada por seu filho e sobrinhos

A coalizão de partidos de oposição (ing. Joint Meeting Parties, JMP) posa agora como representante das massas nas ruas, apesar de sempre ter sido linha de apoio de Saleh. Verdade é que as elites do poder no Iêmen cooptaram a revolução pacífica. A única coisa absolutamente proibida é qualquer via que leve a qualquer tipo de democracia, exatamente o que o povo do Iêmen deseja, aspiração pela qual luta – e morre – nas ruas. 

Os protestos no Iêmen começaram dia 11/2 com menos de 200 estudantes da universidade de Sana'a e jovens ativistas e só duas mulheres. Foi quando os xiitas zeydis do norte decidiram engajar-se; e os divisionistas do sul suspenderam a briga local e passaram a exigir suqut al nidham (“a queda do regime”), e a palavra de ordem ecoou em todo o mundo árabe. 

Como o cientista político iemenita Abdulghani al Iryani disse a Nir Rosen, “Nós antes nunca havíamos visto mobilizações de rua (...). Antes da Tunísia, a oposição só reunia 200 pessoas. Depois da Tunísia, apareceram milhares de pessoas. Depois do Egito, foi uma avalanche. Há uma nova avaliação do poder coletivo. O que o establishment político formal não conseguiu fazer, reunir multidões nas ruas, os protestos dos jovens fizeram com grande sucesso” (18/3/2011, Jadaliyya). E pedem reformas constitucionais e nova legislação eleitoral. 

E quanto à al-Qaeda?

Al Qaeda
A indústria norte-americana da “guerra ao terror” – incluída a imprensa-empresa – considera a Al-Qaeda tão letal quanto um complô de Guerras das Estrela, que estaria em processo de organização nesse derradeiro delírio do orientalismo que são “os perigosos desertos e montanhas do Iêmen”. 

Mas a Al-Qaeda na Península Ibérica é piada. Seu maior sucesso é um fracassado homem da bomba na cueca e um pacote-bomba que, sim, deu chabu. Até Saleh sabe que a Al-Qaeda na Península Ibérica é piada – movimento absolutamente marginal, não só no Iêmen mas em todo o Oriente Médio. A real razão pela qual os EUA está no Iêmen é que o país tem localização supremamente estratégica – entre a Arábia Saudita, o Mar Vermelho e Golfo de Aden, na encruzilhada entre o Oriente Médio e o Chifre da África. 

A viciosa contrarrevolução árabe de 2011 prossegue por suas trilhas misteriosas. A Turquia e os países BRIC estão perplexos, vendo que os EUA começa agora a armar os “rebeldes” líbios, infestados de militantes da Al-Qaeda no Maghreb... Parece que já fizeram chover nos cofres dos “rebeldes” cerca de $32 bilhões dos fundos líbios congelados, além de porcentagem nos futuros negócios de petróleo. 

Bin Laden
E por falar no Club Med(iterrâneo) de Obama: nos governos Bush, a Al-Qaeda foi usada como perfeito pretexto para bombardeios seletivos e guerras preventivas. Agora, no governo Obama, a Al-Qaeda (seja AQ na Península Arábica, seja AQ no Maghreb) está sendo usada para balkanizar alguns países, facilitando a quebra da unidade territorial ao longo de linhas já existentes, tribais, sectárias ou neodemarcadas por diferentes grupos de interesses criminosos. 

O fantasma de Osama bin Laden continua a pairar como gato Cheshire que-ri. A franquia “al-Qaeda” está em pleno progresso, como jamais antes. Talvez, em breve, volte a reaparecer no jogo exatamente como foi quando nasceu: exército de guerrilheiros armados pela CIA. Não há melhor negócio que o negócio da guerra perpétua.