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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

OTAN: a ponte atlântica está caindo, está caindo…

11/2/2015, [*] F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Merkel e Hollande conversam via intérpretes
Em 1949, Washington criou uma coisa chamada OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, para fundir firmemente a Europa Ocidental na própria massa das políticas futuras de Washington, por mais destrutivas que se viessem e venham a comprovar-se contra os interesses genuínos de Alemanha, França, Itália e outras nações europeias. Em 1986, as 12 nações da então Comunidade Econômica Europeia modificaram o Tratado de Roma de 1957  e assinaram o AEU−Ato Europeu Único [orig. SEA−Single European Act]. Esse AEU ordenava que se criasse um único mercado da Comunidade Econômica Europeia ao final de 1992 e definia as regras para a Cooperação Política Europeia, antecessora da Política de Segurança Externa Comum da União Europeia [orig. European Union’s Common Foreign and Security Policy].

Então, dia 9/11/1989, um evento de dimensão histórica interveio para atrapalhar a estratégia da Comunidade Econômica Europeia para criar um mercado único. A URSS de Gorbachev entregou, rendida ao ocidente, a República Democrática Alemã [no Brasil conhecida como “Alemanha Oriental”]. A Guerra Fria estava acabada de facto. A Alemanha seria unificada. Aparentemente, o ocidente vencera a guerra. Muitos europeus festejavam. Muitos acreditaram que estariam acabadas para sempre aquelas décadas de viver sempre a um passo de uma guerra nuclear. A Europa emergente parecia orgulhosa, confiante no futuro.

A OTAN foi a entidade criada por Washington, nas palavras do primeiro Secretário-Geral, Lord Ismay, para “manter os russos fora, os norte-americanos dentro, e a Alemanha por baixo”.

Pilar de Defesa Europeia ou a OTAN dos EUA?

O Tratado de Maastricht, documento com falhas e brechas fatais, foi apresentado numa reunião da Comunidade Econômica Europeia, em dezembro de 1991. Um Helmut Kohl chocado foi informado por Mitterand da França e Tatcher da Grã-Bretanha de que tinha de concordar com a criação de uma única moeda para controlar o Bundesbank. Daí nasceria o Euro e um Banco Central Europeu supranacional e independente. Foi chantagem, a precondição para que eles aceitassem a unificação da Alemanha. Os alemães engoliram em seco e assinaram.

Assinatura do Tratado de Maastricht (7/2/1992)
O que foi pouco discutido naquele momento foi que o Tratado de Maastricht também incluía uma sessão que obrigava que se constituísse, pela primeira vez, uma Política de Segurança Externa Comum. As 12 nações assinaram o tratado e estavam em andamento intensas discussões para estabelecer um pilar de defesa europeia independente da OTAN. Com o colapso da União Soviética, desaparecera a raison d’être da OTAN. O Pacto de Varsóvia acabara. Washington garantira a Gorbachev que a OTAN jamais seria estendida na direção leste.

Bush destrói o Pilar de Defesa da União Europeia

George H. Bush é homem que deixou, de sua passagem pelo poder dos EUA, um legado que pinga sangue, desde seus primeiros anos em Washington – e o qual provavelmente incluiu a participação chave de um agente da CIA em Dallas Texas, dia 22/11/1963, no assassinato de JFK. Bush-pai foi diretor da CIA nos anos 1970s, o que incluiu empurrar Saddam Hussein para que ocupasse o Kuwait em 1990, para gerar um pretexto para a sangrenta “Operação Tempestade no Deserto” contra o Iraque.

Na presidência, Bush-pai também pôs em movimento eventos que resultariam na destruição da Iugoslávia, iniciada nos anos 1990 – em processo muito parecido ao que se vê hoje, com Washington destruindo a Ucrânia.

O objetivo central da guerra induzida pelos EUA que varreu os Bálcãs durante uma década era deixar perfeitamente claro para as nações da União Europeia que a OTAN, sob controle do Pentágono−EUA, permaneceria onde estava e, além disso, avançaria na direção leste. Bush-pai usou a guerra na Iugoslávia para destruir a nascente ameaça de qualquer capacidade de defesa independente dentro da União Europeia – o chamado Pilar de Defesa da União Europeia.

Como conselheiro do Presidente dos EUA e fundador da Comissão Trilateral, Zbigniew Brzezinski descreveu sem meias palavras o modo como Washington via a Alemanha: não passava de estado “vassalo” do poder imperial dos EUA; não era nação soberana.

Zbigniew Brzezinski
Em 1999, Hungria, Polônia e República Tcheca foram oficialmente convidadas em Washington a unir-se à OTAN, enquanto o desmembramento da Iugoslávia estava sendo coroado pelo Presidente Bill Clinton, que desavergonhadamente e ilegalmente bombardeava a Sérvia, na chamada “Guerra do Kosovo”, aquele ano, com a ainda mais desavergonhada participação do Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, filho do carniceiro da Hungria, Joschka Fischer.

Em 2004, Washington já estava chegando festivamente com a OTAN à Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia. Também estava secretamente preparando as, hoje, já infames “Guerras Coloridas”, de fato, golpes de estado na Georgia e na Ucrânia, que poriam no poder os candidatos que EUA escolheram a dedo: o corrupto Viktor Yushchenko em Kiev, na chamada “Revolução Cor-de-Laranja”; e Mikhail Saakashvili, na chamada “Revolução Cor-de-Rosa” na Geórgia. Os dois presidentes prometeram unir-se à OTAN, como parte da campanha eleitoral.

Quase ninguém se surpreendeu quando, em 2007, como Secretário da Defesa dos EUA, Don Rumsfeld anunciou que o Pentágono instalaria equipamentos para lançamento de mísseis balísticos na Polônia e na República Checa, voltados contra a Rússia. Moscou já dava sinais de grave incômodo com a presença da OTAN em seu perímetro estratégico – a tal aliança militar que, na prática, só fizera levar a única potência mundial até as portas de Moscou.

Uma intervenção germano-franco-ucraniana

Quando os Ministros de Relações Exteriores de Alemanha e França intervieram, num esforço de último minuto para construir algum acordo em Kiev, dia 21/2/2014, para evitar uma guerra civil, eles explicitada e claramente deixaram de fora uma das partes interessadas nas conversações: o governo dos EUA. E obtiveram um compromisso, que durou menos de 48 horas, até que atiradores apoiados pela CIA, em Kiev, mataram a sangue frio manifestantes desarmados na Praça Maidan, geraram pânico e desencadearam tumultos que obrigaram o presidente eleito (ponto que a versão em alemão da imprensa-empresa insistentemente omite do “noticiário”) Viktor Yanukovich, a fugir e esconder-se para não ser assassinado.

Victoria Nuland
Dia seguinte, o governo Obama, liderado por Victoria “Foda-se a UE” Nuland; pelo Embaixador dos EUA, Geoffrey Pyatt e com legiões de agentes da CIA dentro dos protestos da Praça Maidan, instalaram no poder o seu próprio fantoche, servindo-se, como tropas de assalto, dos neonazistas dos partidos Setor Direita e Svoboda. George Friedman, diretor de Stratfor, think-tank de consultoria estratégica que presta serviços ao Pentágono e à CIA, e também a agências israelenses, disse em entrevista a Russian Kommersant, em dezembro, que o golpe de estado montado pelos EUA na Ucrânia foi “o mais descarado golpe de estado de toda a história”.

Quando Washington cuspiu na cara não só da Alemanha e França e União Europeia, mas também na cara da Rússia e da própria Ucrânia, ao determinar quem governaria o novo regime do golpe em Kiev, a ser chefiado pelo inefável, alto-comendador da Cientologia, Arseniy Yatsenyuk, a Alemanha e França engoliram em seco. Mas se agacharam e obedeceram aos falcões que governam o governo Obama em Washington. A UE aprovou unanimemente sanções ordenadas pelos EUA, repetidamente, contra a Rússia, depois do referendo de março-2014, sobre a Crimeia. A indústria alemã protestou abertamente. Mas o governo de Merkel agachou-se à frente da OTAN e de Washington, e a economia alemã começou a afundar-se em recessão, assim como o resto da União Europeia.

No momento, está acontecendo algo absolutamente raro. França e Alemanha estão outra vez desafiando abertamente a Washington de Obama. Na noite de 4/2/2015, Merkel e o Presidente francês Hollande rapidamente decidiram voar até Moscou para reunir-se com o Presidente Putin. O objetivo, como disse o porta-voz de Putin era que:

(...) líderes dos três estados discutirão o que especificamente os países podem fazer para contribuir para acelerar o fim da guerra no sudeste da Ucrânia, que escalou nos últimos dias e resultou em muitas mortes. 

A parte mais interessante da viagem às pressas é que chefes vassalos de estados vassalos, Angela Merkel e François Hollande, não pediram permissão a Washington, a acreditar-se no que informam fontes francesas. Ao anunciar a viagem espontânea a Moscou, Hollande disse à imprensa que:

(...) com Angela Merkel, decidimos tomar uma nova iniciativa.

Poroshenko e Kerry em Kiev - 5/2/2015
Ainda mais interessante, a “nova iniciativa” deles acontecia bem quando o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, estava em Kiev, reunido com o Presidente Poroschenko, discutindo possíveis entregas de armamento dos EUA a Kiev – o tipo de “diplomacia” que Washington tem preferido a todos os demais, nos últimos tempos. As conversas em Moscou entre Putin, Merkel e Hollande, como se sabe, aconteceram na sequência de conversações “secretas” entre Paris, Berlin e Moscou.

No início de dezembro, Hollande fez uma visita surpresa a Moscou para falar com Putin sobre a Ucrânia. Naquele momento, o presidente francês declarou:

Creio que temos de evitar mais e mais “muros” a nos separar. Nesse momento, temos de ser capazes de superar os obstáculos e encontrar soluções.

Washington absolutamente não gostou. Há fortes suspeitas em alguns círculos de que o ataque de falsa bandeira (orig. false flag attack), dia 7/1/2015, contra o semanário francês Charlie Hebdo tenha sido a resposta do bloco-da-guerra Washington-Telavive, contra a diplomacia de Hollande.

O recente movimento diplomático franco-alemão coincide com a estadia de John Kerry, em Kiev, para discutir armamento norte-americano a ser entregue na Ucrânia.

Vincent Jauvert
O jornalista Vincent Jauvert, do Nouvel Observateur, diz que:

(...) a repentina decisão de Hollande e Merkel, de falar com Putin em Moscou, aparece como tentativa para sair à frente dos norte-americanos, que tentam impor a solução deles aos demais países ocidentais: transferir mais armas para os neonazistas na Ucrânia.


Lembra que:  

(...) os dois líderes foram a Kiev imediatamente depois de Kerry, como se “não confiassem no governo dos EUA”, para “apresentarem a solução diplomática de Alemanha e França, antes que o vice-presidente dos EUA Joe Biden apresentasse o plano dos EUA de enviar armamento letal a Kiev, na Conferência de Segurança de Munique no sábado”.

As próximas semanas serão claramente decisivas para a paz mundial. Para parodiar uma velha canção que eu cantava na minha infância, a Ponte Atlântica está caindo, está caindo, está caindo... Cantar com a melodia de London Bridge is falling down; vídeo a seguir:



É tempo de construir-se ponte nova, estável, no lugar da velha, mas não é solução que virá da mensagem de Joe Biden à Conferência de Segurança de Munique.


[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questões energéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bancos apossam-se da Europa


*Adriano Benayon  - 13.12.2011

1. A oligarquia financeira está empurrando, goela abaixo da União Européia (UE), um “acordo” que estabelece regras rígidas para que a Europa seja governada (ou desgovernada), de forma absoluta, por bancos, liderados pelo Goldman Sachs, de Nova York.

2. Embora as modificações desse acordo aos Tratados da UE dependam de aprovação legal em cada país membro - processo que poderia durar anos - os manipuladores financeiros assumiram o poder na marra e irão em frente, a menos que o impeça a resistência dos povos, ainda sem organização.

3. Com a experiência da pequena Islândia, em duas consultas ao povo, a última em abril de 2011, os predadores perceberam que qualquer outra, em qualquer país, implica a derrota de suas proposições. Bastou o ex-primeiro-ministro da Grécia falar em referendo para ser demitido.

4. Mesmo antes de 09.12.2011 - quando foi encenada “reunião de cúpula”, e Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) anunciaram o tal “acordo” - o Goldman Sachs (GS) já havia posto três de seus prepostos em posições-chave: Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu; Mario Monti, primeiro-ministro da Itália; Lucas Papademos, primeiro-ministro da Grécia, envolvido em operações do Goldman Sachs com a dívida grega resultantes em sua elevação.

5. Os países da Zona Euro (os 17 membros da UE cuja moeda é o euro) serão obrigados a aceitar o “acordo”. Sarkozy e Merkel dizem que os dirigentes dos outros 15 países foram consultados, mera formalidade. Nove outros Estados participam da União Europeia, mas não adotam o euro: Reino Unido e Dinamarca (isentos), e mais sete que poderiam ainda aderir à Zona.

6. Aqueles porta-vozes apresentaram o pacote envolto neste rótulo: “salvar o euro”; “reforçar e harmonizar” a integração fiscal e orçamentária da Europa. Na realidade, trata-se de destruir a Europa econômica e politicamente, sem garantir a sobrevida do euro, além de aprofundar a depressão, com o arrasamento das políticas de bem-estar social, instituindo uma espécie de “lei de responsabilidade fiscal”, como a que manieta o Brasil.

7. O “acordo” impõe duras sanções aos países que não o cumpram, ademais de ser fiscalizados pelo Tribunal Europeu de Justiça. Os Chefes de Estado e de governo passam a reunir-se mensalmente durante a crise. Com isso, reduz-se o poder dos burocratas da Comissão Europeia, mas essa mudança nada altera, dado que estes também executam fielmente os desejos oligarquia anglo-americana.

8. Sarkozy é cópia piorada de Mussolini, pois este pôs os bancos sob controle do Estado – e não o contrário, como se faz agora com a Europa, EUA etc. Submisso às diretivas da oligarquia financeira, o presidente da França declara que os benefícios sociais não são sustentáveis, na hora em que eles são mais necessários que nunca, dado o desemprego grassante.

9. O pacote quer obrigar, punindo os que não o cumpram, que os países da Zona Euro reduzam seus déficits orçamentários para 0,5% do PIB, ou seja, seis vezes menos que o limite de 3%, prescrito no Tratado de Maastricht.

10. Isso significa que Grécia, Itália, Espanha, Portugal e outros terão de cortar ainda mais despesas, depois de já as terem cortado, fazendo, assim, a depressão aprofundar-se. A depressão já causou queda nas receitas fiscais. Combinada a queda das receitas fiscais com o crescimento do serviço da dívida pública, decorrente da alta das taxas de juros, temos, juntos, dois fatores de elevação do déficit orçamentário.

11. Que fazer? Cortar toda despesa que não as da dívida, desmantelando as políticas sociais e deixando de investir na infra-estrutura econômica e na social. Isso trará, entre outros danos irreparáveis, o aumento da disparidade entre membros mais e menos desenvolvidos, inviabilizando a permanência destes na Zona Euro, o que implica sua desintegração.

12. A periferia europeia está, pois, ingressando no Terceiro Mundo, caminho aberto também ao restante da Europa, já que acaba de lhe ser prescrita a receita usual do FMI, a qual ajudou a manter o Brasil e outros no subdesenvolvimento.

13. A dupla franco-alemã infla seus egos brincando de diretório europeu, mas Merkel, obedecendo aos bancos alemães, rejeitou a possibilidade de o Banco Central Europeu (BCE) emitir títulos para substituir os dos países devedores. Os bancos querem continuar emprestando aos governos, para faturar os juros.

14. Essa rejeição deve levar ao fim do euro, se este já não está perto do fim mesmo sem ela. Traz consequências danosas para a própria Alemanha e para a França, pois obriga os devedores mais problemáticos a continuar pagando taxas de juros demasiado elevadas nos seus títulos.

15. Isso promove crise ainda maior de suas dívidas, com o que credores - bancos alemães, franceses e norte-americanos - chegarão mais rápido ao colapso. Mostra-se, portanto, quimérica outra pretensão do “acordo”: a de enquadrar os países no limite de 60% do PIB para suas dívidas.

16. Não é para a União Europeia que os países europeus estão perdendo a soberania. É em favor da oligarquia financeira que renunciam formalmente, através de atos irresponsáveis de seus chefes de governo.

17. A perda de soberania não se restringe às regras draconianas citadas, por si sós conducentes à ruína financeira e econômica. Inclui também que os países devedores liquidem – a preço de salvados do incêndio – inalienáveis patrimônios do Estado, como já foi determinado à Grécia e a outros. É a privatização, objeto das mais colossais corrupções vistas na história do Brasil.

18. Os analistas ligados ao sistema de poder atribuem a crise dos países europeus mais pobres a terem, estes, gasto acima de suas possibilidades e, mesmo economistas mais sérios, oferecem explicações para a débâcle europeia que omitem sua causa principal.

19. Essa causa é a depressão econômica mundial, resultante do colapso financeiro armado pela finança oligárquica centrada em Nova York e Londres. Ele eclodiu em 2007, iniciando a depressão que se desenha como a mais profunda e longa da História, se não for interrompida pela terceira guerra mundial, planejada pelo complexo financeiro-militar dos EUA.

20. Martin Feldstein, professor de Harvard, aponta diferenças institucionais e nas políticas monetária e fiscal entre os EUA e a UE. Ele e muitos, como Delfim Netto, atribuem grande importância à taxa de câmbio. Argumentam que os europeus em crise não têm como desvalorizar a moeda para se tornarem mais competitivos, uma vez que adotaram o euro.
21. Robert Solow, prêmio Nobel, salienta que a UE transfere recursos de pequena monta aos membros menos avançados, pois o orçamento unificado da UE equivale a só 1% de seu PIB. Já nos EUA o governo federal fez vultosas transferências de recursos aos Estados e para regiões críticas.
22. Ainda assim, Itália, Espanha, Grécia, Portugal suportaram a situação até surgir a depressão mundial. Tendo exportações de menor conteúdo tecnológico que Alemanha, Holanda, França, e dependendo do turismo, foram duramente atingidos até pela queda da produção e do emprego nos países ditos ricos, inclusive extra-continentais, como EUA e Japão.

23. A depressão, por sua vez, adveio das bandalheiras financeiras geradas a partir de Wall Street e bases off-shore, sem regulamentação, atuantes no esquema da City de Londres, desembocando no colapso financeiro que eclodiu em 2007 e se direciona para novo estágio, mais destrutivo.

24. Os europeus envolveram-se na onda dos derivativos, quando bancos suíços e alemães adquiriram alguns bancos de investimento de Wall Street. Mesmo assim, os bancos dos EUA estão tão ou mais encalacrados que os europeus nos títulos podres resultantes da abusiva criação dos derivativos.

25. Ademais, Grécia, Espanha, Itália e outros foram enrolados pela engenharia financeira de Wall Street, Goldman Sachs à frente, que lesou investidores, camuflando os riscos, além de proporcionar créditos àqueles países, ao mesmo tempo em que fazia hedge, jogando contra seus devedores, com o resultado de elevar os juros das dívidas.

26. O assaltante está tendo por prêmio ficar com a casa do assaltado. Mas, antes da ocupação dos governos pelos bancos, agora ostensiva, as pretensas democracias ocidentais já não tinham autonomia, mesmo com parlamentos eleitos escolhendo o primeiro-ministro.

27. Como os principais partidos políticos são controlados pela oligarquia financeira – na Europa, nos EUA etc. - e se diferenciam apenas por ideologias pró-forma, acomodáveis a qualquer prática, pode-se dizer que a escolha eleitoral se limita à marca do azeite com o qual os eleitores serão fritados.

28. O “acordo” agora imposto à Europa surge como culminação de uma guerra financeira que completa o trabalho realizado nas duas primeiras Guerras Mundiais. Estas destruíram a Alemanha e a França como grandes potências. O império anglo-americano só não conseguira retirar esse “status” da Rússia, mas o logrou, ao final da Guerra Fria (1989), conquanto a Rússia busque agora recuperá-lo.

29. Para que a Europa não afunde, terá de tomar rumo radicalmente diferente daquele em que foi colocada e no qual segue em aceleração impulsionada pelo  “acordo” a ser celebrado, a pretexto de salvar a moeda única.

30. O General De Gaulle, nos anos 60, insurgiu-se contra o privilégio dos EUA, de cobrir seus enormes déficits externos, simplesmente emitindo dólares, e exigiu a conversão para o ouro das reservas da França. Profeticamente advertiu que a entrada da Inglaterra na UE seria uma operação “cavalo de Troia”.

31. Hoje o dólar continua sendo sustentado pela condição de divisa internacional, instituída em 1944 (acordos de Bretton Woods), e mais ainda pelo poder militar. Os EUA forçam, por exemplo, que seja liquidado em dólares o petróleo comerciado entre terceiros países.

32. Percebe-se o móvel de desviar para a Europa o foco da crise econômica e financeira, que deveria estar nos EUA e do Reino Unido. Ele foi posto na Eurolândia, através de jogadas dos bancos de Wall Street com suas subsidiárias baseadas no grande paraíso fiscal que é a City de Londres.

33. Os mercados financeiros parecem teatro do absurdo. Se não, como explicar que os títulos de longo prazo norte-americanos paguem juros de menos de 2% aa., enquanto os da Itália, de dois anos de prazo, subiram para 8% aa.? E como explicar que a cotação do risco de crédito da Alemanha e da França esteja sendo rebaixada, enquanto isso não se dá com os títulos norte-americanos?

34. Deveria ser o contrário, pois:

1) as emissões de dólares em moeda  e em títulos públicos são muito maiores que as de euros;
2) a dívida pública dos EUA atinge 120% do PIB (muito mais que os países da Zona Euro), e seria muitíssimo maior sem as enormes compras de títulos do Tesouro dos EUA pelo FED e as emissões desbragadas do FED;
3) o déficit orçamentário dos EUA supera 10% do PIB, enquanto a média europeia é 4%.
4) O déficit nas transações com o exterior dos EUA, em 2010, correspondeu a 3,9% do PIB, enquanto a Alemanha teve superávit de 5,7% do PIB, e os déficits da França e da Itália foram 2% e 3% do PIB.

35. Não bastasse, os grandes bancos americanos têm vultosas carteiras de títulos podres (sobre tudo derivativos), mesmo depois de grande parte deles ter sido comprada pelo FED e por agências do governo dos EUA, em operações caracterizadas por grau incrível de corrupção.

36. Como aponta o Prof. Michael Hudson, um quarto dos imóveis nos EUA vale menos que suas hipotecas. Cidades e Estados estão em insolvência, grandes companhias falindo, fundos de pensão com pagamentos atrasados.

37. A economia britânica também cambaleia, mas os títulos governamentais pagam juros de só 2% aa., enquanto os membros da Zona Euro enfrentam juros acima de 7% aa, porque não têm a opção “pública” de criar dinheiro.

38. O artigo 123 do Tratado de Lisboa proíbe o BCE fazer o que os bancos centrais devem fazer: criar dinheiro para financiar déficits do orçamento público e rolar as dívidas do governo. Tampouco o pode o banco central alemão, por força da Constituição da Alemanha (país ocupado).

39. Conclui Hudson: “se o euro quebrar será porque os governos da UE pagam juros aos banqueiros, em vez de se financiar através de seus próprios bancos centrais”. Dois poderes caracterizam o Estado-Nação: criar dinheiro e governar a política fiscal. O primeiro já não existia para os europeus, e o segundo está sendo cassado com o presente “acordo”.

*Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de “Globalização versus Desenvolvimento”
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