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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Transgênicos: Ucrânia será a portadora do veneno que se espalhará pela Europa

17/4/2015, [*] Ulson Gunnar – Neo Eastern Outlook, NEO
Tradução - mberublue


A Rússia não permite transgênicos
Quando o Washington Post faz a opção de elaborar um condescendente e insultuoso editorial dirigido a nações inteiras defendendo as impropriedades ocidentais, qualquer um pode assumir sem medo de errar que a verdade estará exatamente na direção oposta àquela que oWashington Post quer impor.

No que diz respeito às companhias biotécnicas norte americanas e suas tentativas de infestar o planeta inteiro com organismos geneticamente modificados (Transgênicos ou OGMs), em particular as suas tentativas de corromper toda a Europa com seus venenos indesejados através de uma porta dos fundos (Ucrânia), isso serviu de motivo para a Rússia a alertar seus vizinhos europeus orientais. Até o golpe armado levado a efeito em 2013/2014, também chamado de “Euromaidan” a Ucrânia sempre rejeitou categoricamente os GMOs.

Agora, com um regime comprado e obediente instalado em Kiev, as decisões políticas, econômicas e militares que foram tomadas levaram a Ucrânia à situação de ser mais ou menos uma nação sem soberania. Acompanhando essa perda de soberania, veio uma completa apatia na vontade ucraniana da própria preservação, e por isso a permissão para que ocorresse a semeadura em seus campos com venenos contaminantes e inseguros, que passaram de categoricamente proibidos para a aceitação total.

Isso nos leva de volta para o Washington Post e a mais um de seus editoriais recentemente publicados. Título: “A Rússia afirma que os investimentos ocidentais nas fazendas ucranianas são um plano para dominar o mundo inteiro” (Russia says Western investiment in Ukraine’s farms is a plot to take over the world)Primeiro, o jornal tenta desclassificar as acusações russas de que a Monsanto está atualmente em movimento para a Ucrânia com planos de fazer do país uma enorme fazenda de grãos geneticamente modificados, afirmando que tais acusações são infundadas. Quer dizer, isso até que o próprioWashington Post admite que é exatamente o que a Monsanto está fazendo. A peça assevera:

Há muito tempo que a Ucrânia tenta mostrar-se para a Europa como o futuro celeiro de comida para o continente, afirmando que os investimentos ocidentais são a chave para que se faça a exploração adequada de suas terras negras, hoje impropriamente exploradas. Mas o governo russo insiste em fazer do conhecimento geral que essas conversas de desenvolvimento agrícola não passam de um plano para ajudar companhias como a Monsanto a dominar o mercado mundial.

Então, o jornal admite:

Há muito tempo está proibido na Ucrânia o cultivo de organismos geneticamente modificados, assim como a venda de terras agricultáveis.

Em seguida, admite:

Mas o acordo de associação recentemente assinado entre a Ucrânia e a União Europeia no último ano pode ter criado um novo espaço que potencialmente permita o cultivo de culturas geneticamente modificadas na Ucrânia.

Finalmente, o Post menciona a Monsanto:

A Monsanto – talvez a companhia mais associada com os produtos geneticamente modificados – já declarou seu interesse em investir na Ucrânia ano passado (de se notar que a companhia também opera na Rússia, mas não com organismos geneticamente modificados como o faz na Ucrânia).

Milho transgênico
Em que mais estaria investindo a Monsanto na Ucrânia, além de organismos geneticamente modificados, coisa que não podia fazer antes? A Ucrânia é a vítima perfeita para hospedar a Monsanto e outras companhias semelhantes com seus organismos infectados diretamente no coração da Europa.

Com própria Europa já relaxando alguns de seus regulamentos contra TRANSGÊNICOS (OGMs), provavelmente sem o consentimento da população, que fica a cada dia mais consciente dos perigos e procurando alternativas orgânicas, as companhias como a Monsanto esperam produzir grãos organicamente modificados que se espalharão pelo continente a partir dos campos totalmente desregulados da Ucrânia até que se tornem onipresentes na Europa, como já o são nos Estados Unidos.

Em outros lugares do mundo a agricultura de massa tem tentado usar outras “portas dos fundos” para introduzir seus produtos em regiões onde eles são peremptoriamente rejeitados, incluindo a Ásia, onde o Arroz Dourado foi proposto como uma solução  para a luta contra a “deficiência de vitamina A” mesmo quando se sabe que basta plantar um pouco de cenouras para conseguir esse objetivo de forma muito mais fácil e barata e sem o risco de introduzir uma cepa de arroz que contaminaria irremediavelmente as espécies de arroz asiático, além de serem rejeitadas de pronto pelos consumidores. 

Arroz Dourado (transgênico)
Já em outras ocasiões, como por exemplo na implantação dos interesses ocidentais no Afeganistão, a “ajuda” foi usada como uma maneira de introduzir o agronegócio intensivo e os TRANSGÊNICOS (OGMS) na região.

Então, pela admissão do próprio Washington Post e pelo simples exame do que a Monsanto e companhias semelhantes já fizeram por todo o mundo, eles mesmos não podem deixar de admitir que a Federação Russa está certa ao expor as intenções óbvias da Monsanto na Ucrânia e no resto da Europa.

O jornal Washington Post, assim como muitos outros jornais através da Europa e dos Estados Unidos há muito tempo serve os interesses da elite endinheirada, entre os quais muitos estão no agronegócio intensivo e na biotecnologia agrícola. O Post e outros jornais confundem e ofuscam as intenções da Monsanto até que já seja tarde demais para anular a corrupção genética que suas espécies vegetais modificadas infligem aos campos da Ucrânia, até então protegidos por uma soberania que não mais existe.

Como muitas outras coisas na Ucrânia atualmente, o assim chamado “Euromaidan”, que supostamente deveria impulsionar o país na conquista de mais liberdade e auto determinação, claramente arrancou da Ucrânia as duas coisas. Sua liberdade e sua capacidade de determinar por si mesma o que mais lhe convêm. Partindo de um militarismo imposto a seu povo, para uma economia saqueada por interesses estrangeiros, até um governo direta e literalmente presidido por estrangeiros e finalmente chegando agora a seus campos que serão envenenados por TRANGÊNICOS, a ruína da Ucrânia está próxima de completar-se, e será vista como um testemunho perene do que quer dizer na realidade o ocidente quando fala em “democratização”.

Manifestação contra transgênicos na França

Ninguém comprará as espécies envenenadas pela modificação genética

Ainda nos comentários feitos pela Rússia sobre a iminente espoliação da indústria agrícola da Ucrânia pela Monsanto e outras congêneres, o Post relata:

Nikolai Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança russo disse em um encontro na terça feira com seus congêneres na Organização de Cooperação de Xangai, que o ocidente tem planos de cultivar “espécies geneticamente modificadas” na Ucrânia. Sugeriu que isso seria um erro crasso, porque, “para não dizer outra coisa, a Europa jamais aprovará tais produtos”.

Como colaborador e lobista do agronegócio intensivo, o Washington Post tenta subestimar este fato. Mas em outros locais, mesmo dentro da mídia ocidental, existem reportagens mostrando que mesmo os Estados Unidos, indubitavelmente uma potência agrícola, tem que importar milho orgânico porque os consumidores norte americanos se recusam a comer os produtos oriundos de organismos geneticamente modificados que são cultivados nos EUA.

Vários transgênicos cultivados no mundo
(Clique na imagem para aumentar)

Em sua reportagem “Como os consumidores exigem comida orgânica, os Estados Unidos são forçados a importar milho” (orig. U.S. forced to import corn as shoppers demand organic food) a Bloomberg (agência de notícias de finanças e mercado, com abrangência mundial – NT) assevera:

Uma demanda crescente por orgânicos e a recente dependência total dos agricultores norte americanos dos produtos geneticamente modificados, nomeadamente milho e soja, tornaram inevitável um aumento de importações de outras nações nas quais as espécies, em grande parte, ainda estão livres de bioengenharia. Importações como o milho da Romênia e a soja da Índia estão em expansão, de acordo com uma análise de dados do comércio dos Estados Unidos realizada quarta feira pela Organização de Comércio de Produtos Orgânicos e a Universidade Estatal da Pennsylvania.

A humilhação que representa o fato de um país historicamente auto suficiente ter que importar um grão tão básico como o milho porque a sua produção doméstica está totalmente envenenada é uma lição que qualquer ucraniano deveria anotar e observar atentamente para o bem não apenas de sua dignidade, mas de seu próprio senso de sobrevivência. Mesmo quando o “milagre” dos organismos geneticamente modificados se tornou pó no esperto mercado norte americano, as corporações estadunidenses estão subornando o infinitamente servil regime que tomou lugar na Ucrânia, para colocar o pescoço daquele país na mesma forca.

Porém em uma coisa o Washington Post está correto. A Rússia está louca se pensa que a Monsanto está para dominar o mundo inteiro. A corporação, apesar de incontáveis bilhões de dólares gastos em lobbies, propaganda, subornos [inclusive no AGRONEGÓCIO aqui no Brasil (Nrc)] e outras formas de persuasão de massa, está falhando miseravelmente em convencer as pessoas a ingerir seus venenos, mesmo naqueles países onde está firmemente estabelecida. No entanto, a Rússia tenta lançar alguma luz sobre o que a Monsanto está tentando fazer na Ucrânia, obviamente contra os próprios interesses do país. Trata-se apenas de mais um exemplo de como o golpe levado a efeito no assim chamado “Euromaidan” nada tinha a ver com liberdade, e tudo a ver com o sequestro de mais um país por Washington e Wall Street, e da pilhagem de seus recursos, em detrimento do próprio povo, tudo em nome da “democracia”.

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[*] Ulson Gunnar – Ulson Gunnar é jornalista e escritor baseado em New York, especialista em geopolítica. Escreve especialmente para NEO – New Eastern Outloock.
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domingo, 8 de março de 2015

Divórcio Europa/EUA, por causa da Ucrânia

7/3/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

OH... Desculpe-me, Angela!
O governo alemão afinal acordou, embora um pouco atrasado, e reconhece o fato evidente de que os neoconservadores norte-americanos estão dedicados a arrastar a Europa para uma guerra. Os alemães já estão culpando abertamente alguns círculos dentro do governo dos EUA e da OTAN de estarem sabotando o acordo de cessar-fogo, de Minsk. Especialmente ofensiva, na avaliação dos alemães, é a fala-delírio do general norte-americano Breedlove, comandante da OTAN:

Já há meses, Breedlove comenta sobre atividades russas no leste da Ucrânia, fala de tropas de avançam pela fronteira, fala de armazenarem munição e fala de colunas de tanques russos. Mês a mês e sempre, os números de Breedlove sempre foram significativamente mais altos que o correspondente a armas, munições, colunas e tanques que realmente pertencem a aliados dos EUA na Europa, na OTAN. Vê-se assim claramente que o general é manobrado diretamente pelos agentes linha-duríssima que há, ativos, no Congresso dos EUA e na OTAN.

O governo alemão está alarmado. Estarão os norte-americanos tentando fazer gorar os esforços de mediação liderados pela chanceler Angela Merkel? Fontes na Chancelaria referem-se aos comentários de Breedlove como “perigosa propaganda”. O Ministro alemão de Relações Exteriores Frank-Walter Steinmeier chegou a falar sobre o que Breedlove anda dizendo com o Secretário-Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, a tal ponto lhe pareceu grave a incontinência do general norte-americano.

Mas Breedlove não é o único ponto de atrito. Os europeus também começaram a considerar daninha a ação de outros norte-americanos, que trabalham contra a busca de solução diplomática para o conflito na Ucrânia. À frente desses, aparece Victoria Nuland, que coordena a área europeia dentro do Departamento de Estado dos EUA. Nuland e outros trabalham sem parar para fazer entregar armas de Washington à Ucrânia, ação apoiada não só por Republicanos, mas também por poderosos Democratas, no Congresso dos EUA.

Verdade é que o presidente Obama parece quase isolado. O presidente jogou o peso de seu apoio a favor dos esforços diplomáticos de Merkel, mas fez bem pouco contra os que se dedicam a aumentar as tensões contra a Rússia e insistem em fornecer armas à Ucrânia. Fontes em Washington dizem que as declarações de Breedlove são analisadas e liberadas ou não pela Casa Branca e Pentágono. O general está na função de “super falcão”, cujo papel é aumentar a pressão sobre parceiros considerados mais reservados, dentre os parceiros transatlânticos dos EUA.

Philip Breedlove
Os EUA, inclusive Obama, querem fortalecer o comando dos EUA sobre a OTAN e, assim, a capacidade para influenciar a Europa. E a Europa, que já perdeu negócios com a Rússia e agora está ameaçada de ver-se envolvida numa guerra, teria de pagar por isso...

O público alemão, apesar das toneladas de propaganda transatlântica, compreendeu muito bem o jogo; o governo alemão não tem como fugir dessa evidência. Se, para que a discussão retome alguma via racional e admissível, o governo alemão tiver de confrontar Washington, o confronto virá.

Os Ministros de Relações Exteriores de Alemanha, França e EUA estão atualmente reunidos em Paris. Dificilmente o Secretário de Estado Kerry gostará do que vai ouvir:

Em Berlim, políticos influentes sempre consideraram assumir posição comum em relação à Rússia, como pré-requisito necessário para o sucesso dos esforços de paz. Por enquanto, essa frente comum ainda se mantém, mas a disputa é fundamental e crucial – e tem a ver com se a diplomacia pode ser bem-sucedida sem a ameaça de ação militar. Além disso, os parceiros transatlânticos também têm hoje objetivos divergentes. 

A meta da iniciativa franco-alemã é estabilizar a situação na Ucrânia, mas o que mais preocupa os falcões linha-dura dentro do governo dos EUA é a Rússia. Querem fazer recuar a influência de Moscou na região e desestabilizar o poder de Putin. Para eles, o sonho perfeito realizado é conseguir ‘mudança de regime’ [derrubar o governo democraticamente eleito de Putin] em Moscou.

Nenhuma “mudança de regime” na Rússia interessa à Europa. O resultado será provavelmente governo muito pior e governante muito mais difícil de enfrentar que Putin, o super liberal.

Império do Caos
Os EUA, o império do caos, não querem nem saber do que acontece depois de um regime ser “mudado”. Na avaliação dos “estrategistas” e políticos norte-americanos, agitação, tumultos, desassossego no “resto do mundo” sempre ajudam a melhorar a posição (relativa) dos EUA. Se todas as capacidades produtivas europeias forem destruídas numa grande guerra... os EUA conseguirão afinal ressuscitar a indústria de exportação norte-americana!

Parece que agora, afinal, alguns líderes europeus começam a dar-se conta de que foram ludibriados por Washington e tentam voltar ao jogo em melhores condições. Uma esfera eurasiana realmente interessa à Europa.

Será que Obama aceitará essa posição europeia e fará calar os falcões norte-americanos pró-guerra? Ou escalará ele também, pondo em risco a aliança com a Europa? À primeira vista, pode-se ter alguma esperança boa. Os EUA já adiaram um projeto para dar treinamento militar à Guarda Nacional Ucraniana (neonazistas de Kiev):

Na 6ª-feira (6/3/2015), porta-voz das forças dos EUA na Europa confirmou o adiamento: “O governo dos EUA gostaria de ver alcançados os objetivos do acordo de Minsk. A missão de treinamento está adiada, mas o Exército Europa [exército dos EUA na Europa] está preparado para aquela missão se e quando nosso governo decidir avançar” – dizia a declaração oficial.

Alguns europeus, como quem escreveu a declaração acima, ainda veem Obama como guerreiro relutante, que tem de ser empurrado para a guerra pelos falcões linha-dura pró-guerra que há em seu governo e pelos Republicanos no Congresso.

A “avançada” [surge] no Afeganistão, a destruição da Líbia, a guerra contra a Síria e as dificuldades na Ucrânia, todos esses eventos, foram coordenados por um mesmo esquema de propaganda: Obama não quer guerra; Obama é empurrado para a guerra; e Obama, relutantemente, aceita a guerra. Essa visão é absolutamente falsa.

O pacote acaba sempre sobre a mesa do presidente. E Nuland, como o general Breedlove [Dr. Strangelove (Dr. Fantástico), vídeo no fim do parágrafo] e outros falcões, todos sempre muito preocupados com o bom fluxo de seus preciosos fluidos vitais obedecem o comando direto de Obama. Obama pode fazê-los calar o bico, porque pode demiti-los com um telefonema de 30 segundos.


Cada vez que Nuland, o general ou qualquer daqueles falcões,  faz uma “das suas”, e Obama não os faz calar, é absolutamente claro que Obama deseja que digam exatamente o que estão dizendo. Quem dirige a viatura pela estrada neoconservadora é Obama em pessoa.

Os europeus que tratem logo de entender isso. E de afastar-se dessa estrada de destruição.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Barou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Pepe Escobar: Rússia e China zombam do velho “dividir para governar”

23/12/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online  The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Roma e Pequim
Roma e Pequim – O Império Romano fez. O Império Britânico copiou-lhe o estilo O Empire of Chaos [Império do Caos] sempre fez. Todos eles fazem. Divide et impera. Divide e governa – ou divide e conquista. É repugnante, brutal e eficaz. Mas não vivem para sempre, eternos como os diamantes, porque impérios vêm abaixo.

Quarto com janela para a rua, para o Panteão, pode ser celebração de Vênus – mas é também espiadela nos trabalhos de Marte. Estive em Roma, de fato, essencialmente, para um simpósio – Global WARning [Alerta de Guerra Global] – organizado por um grupo engajado, comprometido e talentoso, coordenado por um ex-membro do Parlamento Europeu, Giulietto Chiesa. Três dias depois, quando foi lançado o ataque ao rublo, Chiesa foi preso e expulso da Estônia como persona non grata, mais uma ilustração claríssima da histeria anti-Rússia que está tomando conta das nações do Báltico e do jugo orwelliano que a OTAN impõe aos elos europeus fracos. Absolutamente não se admite opinião divergente.

No simpósio, realizado num refeitório dos Dominicanos do século XV divinamente decorado com afrescos e que hoje está incorporado à biblioteca do Parlamento italiano, Sergey Glazyev, por telefone, de Moscou, ofereceu interpretação clara da Guerra Fria 2.0. Não há “governo” real em Kiev: quem governa é o embaixador dos EUA. Uma doutrina anti-Rússia foi lançada em Washington para fomentar a guerra na Europa – e políticos europeus operam como colaboracionistas. Washington quer guerra na Europa, porque está perdendo a competição para a China.

Glazyev falou da demência das sanções: a Rússia está tentando simultaneamente reorganizar a política do Fundo Monetário Internacional, combater a fuga de capitais e minimizar o efeito de os bancos terem fechado linhas de créditos para muitos empresários. Mas o resultado final das sanções, diz ele, é que a Europa perderá sempre mais, economicamente; a burocracia europeia perdeu o próprio foco econômico, a partir do instante em que os planejadores geopolíticos norte-americanos assumiram o comando.

Sergey Glaziev
Apenas três dias antes do ataque ao rublo, perguntei a Mikhail Leontyev (Secretário de Imprensa, Diretor do Departamento de Informação e Divulgação) da Rosneft sobre os crescentes rumores de que o governo russo preparava-se para aplicar controles sobre a moeda. Naquele momento, ninguém sabia que o ataque ao rublo seria tão rápido, concebido como xeque-mate para destruir a economia russa. Depois de sublimes espressos na Tazza d'Oro, em frente ao Panteão, Leontyev disse que controles monetários eram uma possibilidade. Mas não ainda.

Enfatizou, isso sim, que se tratava de guerra financeira total, sem trégua, ajudada por uma 5ª-coluna dentro do establishment russo. O único componente igual para os dois lados, nessa guerra assimétrica, eram as forças nucleares. Mas a Rússia de modo algum se renderia. Para Leontyev, a Europa não é sujeito histórico, mas objeto: “O projeto europeu é projeto norte-americano”. E “democracia” virou ficção.

O ataque ao rublo veio e foi-se, como devastador furacão econômico. Fato é que não se tenta xeque-mate contra enxadrista treinado, a menos que nosso poder de fogo seja equivalente ao do feixe de raios de Júpiter. Moscou sobreviveu. Gazprom acedeu à solicitação do presidente Vladimir Putin e venderá suas reservas de dólares norte-americanos no mercado doméstico. O Ministro alemão de Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier falou à mídia contra a União Europeia “apertar novamente os parafusos” em mais sanções contraproducentes contra Moscou. E em sua conferência anual com a imprensa, Putin enfatizou como a Rússia atravessaria, sim, a tormenta. Pessoalmente, muito mais me intrigou o que Putin não disse.

Vladimir Putin na Crimeia em 18/3/2014
Com Marte assumindo o centro do palco, em frenética aceleração da história, retirei-me para meu quarto Pantheon tentando incorporar Sêneca: da eutimia – serenidade interior – para aquele estado de imperturbabilidade que os estoicos definiram como aponia. Mas não é fácil manter-se eutímico, com a Guerra Fria 2.0 comendo solta.

Mostra-me teu imperturbável míssil

A Rússia sempre poderá servir-se de uma opção econômica “nuclear”, declarando em moratória a dívida externa russa. Então, se bancos ocidentais confiscarem patrimônio russo, Moscou poderia confiscar todos os investimentos ocidentais na Rússia. Seja como for, o objetivo do Pentágono e da OTAN, de fazer guerra no teatro europeu, não se realizaria; a menos que Washington seja suficientemente imbecil para dar o primeiro tiro.

Mas permanece aí, como séria possibilidade, com o Império do Caos acusando a Rússia de violar o Tratado das Forças Nucleares de Médio Alcance [orig. Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty (INF)], apesar de o Império do Caos preparar-se para forçar a Europa, em2015, a aceitar a instalação de mísseis cruzadores nucleares dos EUA.

A Rússia pode passar a perna nos mercados financeiros ocidentais, cortando o fornecimento de petróleo e gás natural. Os mercados inevitavelmente desabariam – caos não controlado para o Império do Caos (ou “caos controlado”, nas palavras do próprio Putin). Imaginem o desabamento de mais de um quatrilhão de derivativos. Passar-se-iam anos até que o “ocidente” substituísse o petróleo e o gás natural russos, mas a economia da União Europeia seria devastada instantaneamente.

Só o ataque-relâmpago do ocidente contra o rublo – e os preços do petróleo – usando o esmagador poder das empresas de Wall Street já sacudiram os bancos europeus expostos à Rússia até o âmago: os CDS [1] subiram à estratosfera. Imaginem aqueles bancos desabados como o castelo Lehman Brothers de cartas, se a Rússia optar pelo calote – disparando uma reação em cadeia. Pensem numa Mutually Assured Destruction (MAD), Destruição Mútua Garantida – de fato, mesmo, sem guerra. Ainda assim, a Rússia é autossuficiente em todos os tipos de energia, minérios e agricultura; a Europa não é. O efeito mais letal da guerra de sanções pode ser esse.

Sanções

Essencialmente, o Império do Caos está blefando, jogando com a Europa como peões. O Império do Caos é muito ruim no xadrez, tão ruim quanto em história. A única coisa que sabe fazer é subir o tom da ameaça, para forçar a Rússia a recuar. A Rússia não recuará.

Amanhece a treva ao raiar do caos [2] 

Parafraseando Bob Dylan em When I Paint My Masterpiece, deixei Roma  e pousei em Pequim. Marco Polo de hoje viaja Air China; em dez anos, voarão na direção oposta, por trem-de-alta-velocidade, de Xangai a Berlim.

De um quarto na Roma imperial, para um quarto num pacato hutong – reminiscência lateral da China imperial. Em Roma, os bárbaros enxameiam por trás dos portões, pilhando suavemente as migalhas de tão rica herança, e aí se inclui, sim, a Máfia local. Em Pequim, os bárbaros são mantidos sob estrita vigilância; claro que há um elemento Panopticon aí, essencial para assegurar a paz social interna. A liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) – sempre, desde as reformas empreendidas pelo Pequeno Timoneiro, Deng Xiaoping que sacudiram a placas tectônicas – é perfeitamente cônscia de que seu Mandato Divino é diretamente condicionado pela harmonização perfeita entre nacionalismo e o que se pode chamar de “neoliberalismo com características chinesas”.

Em outra veia diferente, tipo “os coxins do oriente são macios” [3] para seduzir Marco Antônio, as sedas chinesas esplendorosas da Pequim chique oferecem uma faísca de potência emergente muito segura dela mesma. Afinal, a Europa nada é além de catálogo de esclerose múltipla, e o Japão já está sob a sexta recessão em 20 anos.

Para culminar, em 2014 o presidente Xi Jinping empreendeu atividade diplomática/ geoestratégica frenética – conectada, no fundo, ao projeto de longo prazo para, devagar mas sem falhas, apagar a supremacia dos EUA na Ásia e rearranjar o tabuleiro global de xadrez. O que Xi disse em Xangai em maio resume o projeto: “É tempo de os asiáticos administrarem os negócios da Ásia.” Na reunião da Associação dos Países Exportadores de Petróleo (APEC) em novembro, pegou mais leve, e promoveu um “sonho Ásia-Pacífico”.

Mas a regra é o frenesi. À parte dos dois negócios-monstro, de US$ 725 bilhões de gás – gasodutos “Poder da Sibéria” e “Altai” – e uma recente ofensiva relacionada à Nova Rota da Seda (China set to make tracks for Europe) no Leste Europeu, virtualmente ninguém no ocidente parece lembrar que em setembro o Primeiro-Ministro chinês assinou nada menos que 38 acordos comerciais com os russos, incluído um swap e um negócio de benefícios fiscais, que implicam total harmonização e interjogo econômico.

Presidente da China, Xi Jinping
por Maurício Porto
Já há quem diga que a deriva geopolítica na direção da integração Rússia-China é a mais importante manobra estratégica dos últimos 100 anos. O grande plano máster de Xi nada tem de ambíguo ou difícil de compreender: quer uma aliança Rússia-China-Alemanha comercial/de negócios. O empresariado/indústria alemães querem muito ver acontecer; mas os políticos alemães não dão sinais de ter captado a mensagem. Xi – e Putin – estão construindo uma nova realidade econômica no campo eurasiano, plena de ramificações políticas, econômicas e estratégicas crucialmente importantes.

Claro, é estrada extremamente pedregosa. Nada vazou, até agora, para a imprensa-empresa ocidental, mas cabeças pensantes independentes no meio acadêmico europeu (ah, sim, existem, como uma espécie de sociedade secreta) estão mais assustadas, a cada dia, ante o nenhum modelo alternativo, alternativa-zero para o capitalismo-de-cassino e o neoliberalismo entrópico mais hardcore promovidos pelos Masters of the Universe.

Ainda que a integração eurasiana venha a prevalecer no longo prazo, e Wall Street passe a ser uma espécie de bolsa de ações locais, os chineses e o mundo multipolar emergente ainda assim parecem estar-se autocondenando ao modelo neoliberal existente.

Nova Rota da Seda (terra e mar) China-Alemanha
Fato é que, assim como Lao Tze, já octogenário, aplicou uma bofetada (intelectual) na cara do jovem Confúcio, o “ocidente” muito teria a aprender com algumas bofetadas de alerta.

Divide et impera? Não. Não está funcionando. Está condenado a falhar miseravelmente.

No pé em que estão as coisas, o que sabemos é que 2015 será ano de arrepiar os cabelos em muitos aspectos. Porque da Europa à Ásia, das ruínas do império romano ao re-emergente Império do Meio, permanecemos todos ainda sob o signo do perigoso, assustador, de irracionalismo rampante, Império do Caos.
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Notas dos tradutores

[1] CDS (Credit Default Swap) é um acordo de troca financeira pelo qual o vendedor do CDS compromete-se a compensar o comprador (credor do empréstimo referência), no evento de calote do devedor ou outro evento do crédito.

[2] Orig. “Darkness dawns at the break of chaos”. Down of darkness é um videogame, RPG. Difícil traduzir, sem essa referência.

[3] Orig. soft beds of the East” – é expressão de Shakespeare em Antônio e Cleópatra. Leitura interessante...Prôs que se interessem.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.