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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Transgênicos: Ucrânia será a portadora do veneno que se espalhará pela Europa

17/4/2015, [*] Ulson Gunnar – Neo Eastern Outlook, NEO
Tradução - mberublue


A Rússia não permite transgênicos
Quando o Washington Post faz a opção de elaborar um condescendente e insultuoso editorial dirigido a nações inteiras defendendo as impropriedades ocidentais, qualquer um pode assumir sem medo de errar que a verdade estará exatamente na direção oposta àquela que oWashington Post quer impor.

No que diz respeito às companhias biotécnicas norte americanas e suas tentativas de infestar o planeta inteiro com organismos geneticamente modificados (Transgênicos ou OGMs), em particular as suas tentativas de corromper toda a Europa com seus venenos indesejados através de uma porta dos fundos (Ucrânia), isso serviu de motivo para a Rússia a alertar seus vizinhos europeus orientais. Até o golpe armado levado a efeito em 2013/2014, também chamado de “Euromaidan” a Ucrânia sempre rejeitou categoricamente os GMOs.

Agora, com um regime comprado e obediente instalado em Kiev, as decisões políticas, econômicas e militares que foram tomadas levaram a Ucrânia à situação de ser mais ou menos uma nação sem soberania. Acompanhando essa perda de soberania, veio uma completa apatia na vontade ucraniana da própria preservação, e por isso a permissão para que ocorresse a semeadura em seus campos com venenos contaminantes e inseguros, que passaram de categoricamente proibidos para a aceitação total.

Isso nos leva de volta para o Washington Post e a mais um de seus editoriais recentemente publicados. Título: “A Rússia afirma que os investimentos ocidentais nas fazendas ucranianas são um plano para dominar o mundo inteiro” (Russia says Western investiment in Ukraine’s farms is a plot to take over the world)Primeiro, o jornal tenta desclassificar as acusações russas de que a Monsanto está atualmente em movimento para a Ucrânia com planos de fazer do país uma enorme fazenda de grãos geneticamente modificados, afirmando que tais acusações são infundadas. Quer dizer, isso até que o próprioWashington Post admite que é exatamente o que a Monsanto está fazendo. A peça assevera:

Há muito tempo que a Ucrânia tenta mostrar-se para a Europa como o futuro celeiro de comida para o continente, afirmando que os investimentos ocidentais são a chave para que se faça a exploração adequada de suas terras negras, hoje impropriamente exploradas. Mas o governo russo insiste em fazer do conhecimento geral que essas conversas de desenvolvimento agrícola não passam de um plano para ajudar companhias como a Monsanto a dominar o mercado mundial.

Então, o jornal admite:

Há muito tempo está proibido na Ucrânia o cultivo de organismos geneticamente modificados, assim como a venda de terras agricultáveis.

Em seguida, admite:

Mas o acordo de associação recentemente assinado entre a Ucrânia e a União Europeia no último ano pode ter criado um novo espaço que potencialmente permita o cultivo de culturas geneticamente modificadas na Ucrânia.

Finalmente, o Post menciona a Monsanto:

A Monsanto – talvez a companhia mais associada com os produtos geneticamente modificados – já declarou seu interesse em investir na Ucrânia ano passado (de se notar que a companhia também opera na Rússia, mas não com organismos geneticamente modificados como o faz na Ucrânia).

Milho transgênico
Em que mais estaria investindo a Monsanto na Ucrânia, além de organismos geneticamente modificados, coisa que não podia fazer antes? A Ucrânia é a vítima perfeita para hospedar a Monsanto e outras companhias semelhantes com seus organismos infectados diretamente no coração da Europa.

Com própria Europa já relaxando alguns de seus regulamentos contra TRANSGÊNICOS (OGMs), provavelmente sem o consentimento da população, que fica a cada dia mais consciente dos perigos e procurando alternativas orgânicas, as companhias como a Monsanto esperam produzir grãos organicamente modificados que se espalharão pelo continente a partir dos campos totalmente desregulados da Ucrânia até que se tornem onipresentes na Europa, como já o são nos Estados Unidos.

Em outros lugares do mundo a agricultura de massa tem tentado usar outras “portas dos fundos” para introduzir seus produtos em regiões onde eles são peremptoriamente rejeitados, incluindo a Ásia, onde o Arroz Dourado foi proposto como uma solução  para a luta contra a “deficiência de vitamina A” mesmo quando se sabe que basta plantar um pouco de cenouras para conseguir esse objetivo de forma muito mais fácil e barata e sem o risco de introduzir uma cepa de arroz que contaminaria irremediavelmente as espécies de arroz asiático, além de serem rejeitadas de pronto pelos consumidores. 

Arroz Dourado (transgênico)
Já em outras ocasiões, como por exemplo na implantação dos interesses ocidentais no Afeganistão, a “ajuda” foi usada como uma maneira de introduzir o agronegócio intensivo e os TRANSGÊNICOS (OGMS) na região.

Então, pela admissão do próprio Washington Post e pelo simples exame do que a Monsanto e companhias semelhantes já fizeram por todo o mundo, eles mesmos não podem deixar de admitir que a Federação Russa está certa ao expor as intenções óbvias da Monsanto na Ucrânia e no resto da Europa.

O jornal Washington Post, assim como muitos outros jornais através da Europa e dos Estados Unidos há muito tempo serve os interesses da elite endinheirada, entre os quais muitos estão no agronegócio intensivo e na biotecnologia agrícola. O Post e outros jornais confundem e ofuscam as intenções da Monsanto até que já seja tarde demais para anular a corrupção genética que suas espécies vegetais modificadas infligem aos campos da Ucrânia, até então protegidos por uma soberania que não mais existe.

Como muitas outras coisas na Ucrânia atualmente, o assim chamado “Euromaidan”, que supostamente deveria impulsionar o país na conquista de mais liberdade e auto determinação, claramente arrancou da Ucrânia as duas coisas. Sua liberdade e sua capacidade de determinar por si mesma o que mais lhe convêm. Partindo de um militarismo imposto a seu povo, para uma economia saqueada por interesses estrangeiros, até um governo direta e literalmente presidido por estrangeiros e finalmente chegando agora a seus campos que serão envenenados por TRANGÊNICOS, a ruína da Ucrânia está próxima de completar-se, e será vista como um testemunho perene do que quer dizer na realidade o ocidente quando fala em “democratização”.

Manifestação contra transgênicos na França

Ninguém comprará as espécies envenenadas pela modificação genética

Ainda nos comentários feitos pela Rússia sobre a iminente espoliação da indústria agrícola da Ucrânia pela Monsanto e outras congêneres, o Post relata:

Nikolai Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança russo disse em um encontro na terça feira com seus congêneres na Organização de Cooperação de Xangai, que o ocidente tem planos de cultivar “espécies geneticamente modificadas” na Ucrânia. Sugeriu que isso seria um erro crasso, porque, “para não dizer outra coisa, a Europa jamais aprovará tais produtos”.

Como colaborador e lobista do agronegócio intensivo, o Washington Post tenta subestimar este fato. Mas em outros locais, mesmo dentro da mídia ocidental, existem reportagens mostrando que mesmo os Estados Unidos, indubitavelmente uma potência agrícola, tem que importar milho orgânico porque os consumidores norte americanos se recusam a comer os produtos oriundos de organismos geneticamente modificados que são cultivados nos EUA.

Vários transgênicos cultivados no mundo
(Clique na imagem para aumentar)

Em sua reportagem “Como os consumidores exigem comida orgânica, os Estados Unidos são forçados a importar milho” (orig. U.S. forced to import corn as shoppers demand organic food) a Bloomberg (agência de notícias de finanças e mercado, com abrangência mundial – NT) assevera:

Uma demanda crescente por orgânicos e a recente dependência total dos agricultores norte americanos dos produtos geneticamente modificados, nomeadamente milho e soja, tornaram inevitável um aumento de importações de outras nações nas quais as espécies, em grande parte, ainda estão livres de bioengenharia. Importações como o milho da Romênia e a soja da Índia estão em expansão, de acordo com uma análise de dados do comércio dos Estados Unidos realizada quarta feira pela Organização de Comércio de Produtos Orgânicos e a Universidade Estatal da Pennsylvania.

A humilhação que representa o fato de um país historicamente auto suficiente ter que importar um grão tão básico como o milho porque a sua produção doméstica está totalmente envenenada é uma lição que qualquer ucraniano deveria anotar e observar atentamente para o bem não apenas de sua dignidade, mas de seu próprio senso de sobrevivência. Mesmo quando o “milagre” dos organismos geneticamente modificados se tornou pó no esperto mercado norte americano, as corporações estadunidenses estão subornando o infinitamente servil regime que tomou lugar na Ucrânia, para colocar o pescoço daquele país na mesma forca.

Porém em uma coisa o Washington Post está correto. A Rússia está louca se pensa que a Monsanto está para dominar o mundo inteiro. A corporação, apesar de incontáveis bilhões de dólares gastos em lobbies, propaganda, subornos [inclusive no AGRONEGÓCIO aqui no Brasil (Nrc)] e outras formas de persuasão de massa, está falhando miseravelmente em convencer as pessoas a ingerir seus venenos, mesmo naqueles países onde está firmemente estabelecida. No entanto, a Rússia tenta lançar alguma luz sobre o que a Monsanto está tentando fazer na Ucrânia, obviamente contra os próprios interesses do país. Trata-se apenas de mais um exemplo de como o golpe levado a efeito no assim chamado “Euromaidan” nada tinha a ver com liberdade, e tudo a ver com o sequestro de mais um país por Washington e Wall Street, e da pilhagem de seus recursos, em detrimento do próprio povo, tudo em nome da “democracia”.

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[*] Ulson Gunnar – Ulson Gunnar é jornalista e escritor baseado em New York, especialista em geopolítica. Escreve especialmente para NEO – New Eastern Outloock.
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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pepe Escobar: E tudo sempre pode acabar em “democratura”


3/7/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No plano geopolítico, todos os progressistas – da América do Norte e do Sul, ao mundo árabe – bem fariam se começassem a pensar sobre como aconteceu que, a partir de junho de 2009, quando do golpe contra Manuel Zelaya em Honduras, a América Latina foi transformada em uma espécie de laboratório gigante, no qual se testam todos os tipos de mutações e variantes de golpes “democráticos” de estado.

Pepe Escobar
Comecemos com uma bomba. Há dez dias, aconteceu no Paraguai um golpe de estado novinho em folha, contra o presidente eleito Fernando Lugo. Passou praticamente sem registro na mídia-empresa global.

Surpresa? Não. Telegrama da embaixada dos EUA em Assunção, de março de 2009, revelado por WikiLeaks, [1] já trazia informes detalhados de como oligarcas paraguaios davam tratos à bola para montar um “golpe democrático” no Congresso, para depor Lugo.

Naquele momento, a embaixada dos EUA constatava que as condições políticas não eram ideais para o golpe. Destacado articulador golpista, naquele momento, era o ex-presidente Nicanor Duarte (2003 a 2008), severamente criticado pelos governos progressistas na América do Sul por ter aberto as portas do Paraguai a Forças Especiais dos EUA para que ministrassem “cursos educacionais” em solo paraguaio, além de “operações domésticas de manutenção da paz” e de “treinamento para contraterrorismo”.

Esse movimento das Forças Especiais dos EUA acontecia décadas depois de “um dos nossos [deles] filhos-da-puta”, afamado general-ditador Alfredo Stroessner (que permaneceu no poder de 1954 a 1989) ter permitido a criação de uma pista de pouso gigantesca, semiclandestina, próxima da Tríplice Fronteira Argentina-Brasil-Paraguai – que adiante seria usada na “guerra às drogas” e, depois, na “guerra ao terror”.

Assim sendo, ninguém se surpreenderá ao saber que os EUA foram o primeiro governo a reconhecer os golpistas da semana passada como novo governo paraguaio.

Esqueçam a conversa de dividir o bolo

Os egípcios progressistas estão-se dando conta agora de que novas democracias exigem anos, às vezes décadas, de íntima convivência com o pesadelo da ditadura. Aconteceu, por exemplo, no Brasil – hoje universalmente saudado como nova potência global. Durante os anos 1980s e 1990s, houve alguma modalidade de redemocratização de algumas instituições. Mas o Brasil, por anos a fio, continuou sem ser melhor democracia do que antes – economicamente, socialmente e culturalmente. O país teve de esperar longos 17 anos – até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegar à presidência, pela primeira vez, em 2002 – quando o Brasil afinal pôde começar a trilhar o caminho que levará o país a ser menos escandalosamente desigual do que nos sonhos das rapaces elites locais.

Luís Inácio Lula da Silva
O mesmo processo histórico opera agora no Egito e no Paraguai. Os dois países enfrentaram décadas de ditadura. Quando uma ditadura entra nos estertores finais, nas vascas da morte, só partidos políticos unidos ao – ou tolerados pelo – antigo regime estão em posição interessante para aproveitarem-se da longa e sempre tortuosa transição até a democracia. Certos países então se convertem no que Emir Sader, cientista político brasileiro, apelidou de “democraturas”. [2]

Aplica-se bem ao Partido Liberal no Paraguai e à Fraternidade Muçulmana no Egito. Nas eleições presidenciais no Egito, concorreram um ex-ministro do governo de Hosni Mubarak e um quadro da Ikhwan (Fraternidade Muçulmana). Resta saber (a) se o orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito permitirá que essa nova democratura venha algum dia a ser democracia real e (b) em que medida a Ikhwan está realmente comprometida com a ideia de democracia.

O Paraguai estava em estágio mais avançado que o Egito. Mesmo de pois de quatro anos de uma eleição presidencial democrática, o Congresso continuava dominado por dois partidos amigos-de-ditaduras, o Partido Liberal e o Partido Colorado. A operação foi mamão com açúcar, e essa oligarquia bipartidária conseguiu derrubar o governo de Lugo.

Rápido, por favor, um impeachment mal-passado

Lugo foi derrubado por golpe disfarçado em impeachment, processado em apenas 24 horas. Crentes praticantes, em Washington, da mudança de regime, devem ter alcançado o êxtase: ah, se conseguíssemos fazer o mesmo na Síria...

Fernando Lugo, em 2008
O simulacro de legalidade aconteceu, como seria de esperar, no Parlamento mais corrupto das Américas – o que é ainda dizer pouco - Lugo foi considerado “culpado de incompetência” no trato de uma história imundíssima associada – inevitavelmente – a uma questão absolutamente chave em todo o mundo em desenvolvimento: a reforma agrária.

Dia 15/6, um grupo de policiais e commandos, encarregados de cumprir ordem de desocupação em Curuguaty, a 200 km de distância de Assunção, próximo da fronteira brasileira, foi emboscado por atiradores infiltrados entre os fazendeiros. A ordem de desocupação foi emitida por um juiz, para proteger interesses de um rico latifundiário, Blas Riquelme, não por acaso ex-presidente do Partido Colorado e ex-senador.

Curuguaty, Paraguai
Clique no mapa para aumentar
Mediante manobras legalistas, Riquelme obteve a posse de 2.000 hectares de terra que pertenciam ao estado paraguaio. Aquela terra estava ocupada por camponeses sem-terra, que, já há algum tempo, pediam que o governo de Lugo emitisse seus documentos de propriedade.

O Observatório da Escola das Américas [3] já documentara que vastas porções do território do Paraguai haviam sido roubados de fazendeiros e “doados” a militares e seus “sócios”, da classe dirigente, durante as décadas da ditadura de Stroessner.

O resultado, em Curuguaty foi 17 mortos – seis policiais e 11 fazendeiros – e mais de 50 feridos. Nada, nessa história, faz sentido; os comandantes da força de desocupação, uma unidade linha-duríssima, denominada “Grupo de Operações Especiais”, foram treinados em táticas de contraguerrilha na Colômbia – sob o governo de direita de Uribe – como parte do Plano Colômbia, concebido pelos EUA.

Quanto ao Plano Paraguai, é simplíssimo: criminalização absoluta de todas as organizações de camponeses, para forçá-los a trocar o interior do país por empregos no agronegócio transnacional.

Tudo isso para dizer que, na essência, foi uma arapuca. Os direitistas paraguaios – unidos como irmãos xifópagos a Washington, operando, dentre outros objetivos, para impedir a qualquer custo que a Venezuela seja admitida ao mercado comum do MERCOSUL – só esperavam uma oportunidade para derrubar um governo que, até ali, sequer atacara os interesses da direita paraguaia ou de Washington, mas abrira amplos espaços para a organização social e protestos populares.

Lugo, ex-bispo, eleito em 2008 com grande apoio nas áreas rurais, talvez tenha percebido o que viria, mas nada fez para impedir o golpe. Comparado à capacidade para mobilizar gente nas ruas, não tinha apoio parlamentar algum: apenas dois senadores. Mais de 40% da população paraguaia vive na área rural, mas não se pode dizer que estejam mobilizados. E 30% dos paraguaios vivem abaixo da linha da pobreza.

Os “vencedores” no Paraguai teriam de ser os suspeitos de sempre: a oligarquia dos latifundiários – e a campanha orquestrada para demonizar os agricultores sem-terra; o agronegócio multinacional, como a empresa Monsanto e seus interesses; e a mídia associada à Monsanto (como se vê no diário ABC Color que, todos os dias, acusa de “corruptos” todos os ministros que não operem como fantoches da Monsanto).

As empresas gigantes do agronegócio, como Monsanto e Cargill virtualmente não pagam impostos no Paraguai, porque existe ação nesse sentido do Congresso paraguaio, controlado pela direita. O latifúndio tampouco paga impostos. Desnecessário dizer que o Paraguai é dos países mais desiguais do mundo: 85% da terra – cerca de 30 milhões de hectares – é controlada pelos 2%, a aristocracia rural, quase todos envolvidos em negócios de especulação com a terra.

Quer dizer: com mansões estilo Miami Vice, em Punta del Este, no Uruguai ou, e tanto faz, em Miami Beach; e o dinheiro, é claro, bem guardado nas ilhas Cayman, o Paraguai é governado, de facto, por esses 2% em que se misturam o agronegócio e o cassino financeiro.

E, nas palavras de Martin Almada, conhecido ativista paraguaio dos direitos humanos, que recebeu o Prêmio Nobel Alternativo – tudo isso se aplica também a latifundiários brasileiros. O mais rico plantador de soja do Paraguai é o “brasiguaio” [duas nacionalidades] Tranquilo Favero, que enriqueceu durante a ditadura de Stroessner.

Um golpe, por favor, on the rocks

A UNASUR, União das Nações Sul-americanas [ing. Union of South American Nations] tratou os eventos no Paraguai como o que são: golpe. Assim também o MERCOSUL. O contraste, em relação à posição de Washington não poderia ser mais visível. Frederico Franco, golpista chefe, é frequentador assíduo e queridinho da embaixada dos EUA em Assunção.


Argentina, Uruguai, Venezuela e Equador não reconhecerão o governo dos golpista. A Venezuela interrompeu as vendas de petróleo ao Paraguai. Dilma Rousseff, presidenta do Brasil, propôs a expulsão do Paraguai das duas organizações, da UNASUL e do MERCOSUL.

O Paraguai já está suspenso. Implica que o golpista Federico Franco foi impedido de participar de uma reunião chave do MERCOSUL, semana passada, em Mendoza, Argentina, quando o Paraguai receberia a presidência do MERCOSUL. A oligarquia paraguaia – cumprindo ordens de Washington – sempre bloqueou a admissão da Venezuela como parceira do MERCOSUL. Isso acabou. No final do mês, a Venezuela torna-se membro pleno do MERCOSUL.

Mas os governos progressistas da América do Sul que tomem muito cuidado. Se o Paraguai for expulso da UNASUL e do MERCOSUL, inevitavelmente pedirá socorro comercial a militar a Washington. Aí está algo que facilmente pode traduzir-se por “pesadelo”: bases militares dos EUA, no Paraguai.


Os oligarcas paraguaios, a imprensa-empresa por eles comandada e, por último, mas nem por isso menos importante, também a reacionária alta hierarquia da Igreja Católica no país estimam podem ampliar ainda mais seu poder parlamentar, se as eleições acontecerem em abril de 2013.

Lugo, de fato, enfrentava missão de Sísifo: governar democraticamente estado fraco, que praticamente nada arrecada em impostos (menos de 12% do PIB), sob violenta pressão dos poderosos lobbies transnacionais e elites locais corrompidas. Essa é, afinal, a realidade estrutural de grande parte da América Latina – e também, nas linhas gerais, pode-se dizer, do Egito.

No plano geopolítico, todos os progressistas – da América do Norte e do Sul, ao mundo árabe – bem fariam se começassem a pensar como aconteceu que, a partir de junho de 2009, quando do golpe contra Manuel Zelaya em Honduras, a América Latina foi transformada em uma espécie de laboratório gigante, no qual se testam todos os tipos de mutações e variantes de golpes “democráticos” de estado.

Rafael Correa
O Paraguai é uma dessas mutações. Outra, foi o fracassado golpe contra Rafael Correa do Equador, em setembro de 2010. Todos esses golpes foram tentados contra governos progressistas que favorecem avanços sociais.

Não por acaso, Correa, que por pouco não foi derrubado, disse que, um golpe bem-sucedido no Paraguai “abriria perigoso precedente” para toda a região.

Em termos de justiça poética, nada supera a história do próprio Correa – alvo de tentativa de golpe de estado – e que, hoje, analisa a possibilidade de dar asilo político a Julian Assange... cuja página WikiLeaks revelou, dentre outras revelações, como a elite paraguaia obrava na preparação de golpe para tirar Lugo do governo.

No Egito, aconteceu um golpe militar antes, mesmo, de ter havido eleições e haver presidente eleito. Os egípcios progressistas, que lideraram de fato a Primavera Árabe, que fiquem bem espertos, em alerta máximo: o Paraguai aí está, mostrando ao mundo o quanto a estrada até a democracia pode ser difícil e traiçoeira; e que tudo sempre pode acabar em “democratura”.
 




Notas de rodapé
[1] 09ASUNCION189, criado: 28/3/2009, 20h24; vazado: 30/8/2010, 1h44 SECRETO; Embaixada de Assunção, Paraguai,  (em ing.)
[2] 24/6/2012, Boletim Carta Maior, Blog do Emir, “Democraturas”, 
[3] Orig. School of the Americas Watch. A School of the Americas, a partir de 2001 renomeada como Western Hemisphere Institute for Security Cooperation (WHINSEC)Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança, é instituição mantida pelos EUA que ministra cursos sobre assuntos militares a oficiais de outros países. Atualmente situada em Fort Benning, Columbus, Georgia, EUA, a escola esteve, 1946 a 1984 situada no Panamá, onde se graduaram mais de 60.000 militares e policiais de cerca de 23 países de América Latina. 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Carnaval subordinado ao mercado




Publicado em 19/02/2012  por *Mário Augusto Jakobskind


É carnaval. Muita gente vai perguntar: e daí? Daí que a maioria cai na folia e muitas vezes não se dá conta que a festa está deixando de ser popular para se institucionalizar na base do deus mercado. As escolas de samba entraram nessa lógica e hoje os desfiles viraram espetáculo industrializado com regras castradoras. E para assistir no sambódromo o custo é alto. 

O tema é polêmico por natureza. Outro exemplo é dos blocos de rua. Agora, o senso comum anda entoando a cantiga segundo a qual o carnaval de rua ressurgiu com o monobloco etc e tal. Não é verdade, antes da apropriação industrial dos blocos como começa a acontecer, o carnaval de rua sempre se fez presente. Neste 2012 tem até bloco que nem apresenta samba ou marcha, optando pelos Beatles e se dizendo responsável pelo “ressurgimento” do carnaval de rua.   

As exigências que a prefeitura cria para permitir o desfile dos blocos são tantas que muitos desistiram de seguir as normas. A burocratização do carnaval faz parte do esquema industrial que visa a tornar a festa apenas  uma fonte de lucros para poucos, como determina a lógica do capital.

Mas, enfim, como o tema é muito sério e complexo, tem muito folião que considera tal discussão chata. Prefere então embarcar na festa, sem perceber que com o andar da carruagem em pouco tempo o carnaval vai se afunilar e será para poucos pagando muito, como exige o mercado. 

Tem mais. Nestes dias de Carnaval, muita coisa que acontece por aqui e pelo mundo afora fica em segundo plano. A mídia de mercado aproveita o embalo e não divulga questões relevantes. É o caso da repercussão que poderia ter um fato ocorrido na França e que envolve uma empresa conhecida nesta plagas abençoadas por Deus e bonita por natureza.

A empresa estadunidense Monsanto foi julgada por um Tribunal da cidade de Lyon, na França, e considerada legalmente  “responsável” pela intoxicação de um agricultor. Foi uma decisão judicial em primeira instância e a empresa deverá apelar, o que retardará a decisão final. Mesmo assim, a primeira decisão pode ser considerada uma vitória, pois remete a questão para o debate e questionamento da Monsanto.

É importante os brasileiros serem informados a respeito do acontecido na França, porque de um modo geral a Monsanto por aqui tudo pode e conta com total apoio dos meios de comunicação de mercado, que ignoram os protestos e denúncias contra a empresa acusada de provocar sérios danos ao meio ambiente e à saúde das pessoas ou manipulam o noticiário criminalizando os movimentos de protesto.

Outro tema que continua a ocupar grandes espaços de discussão e matérias  mesmo na mídia de mercado é o que se passa em Cuba. Recentemente, por exemplo, a TV Bandeirantes apresentou uma série de matérias completamente manipuladas e equivocadas.

O repórter ouviu apenas um dos lados, ou seja, exatamente o que faz oposição ao regime e sempre com o estímulo dos setores extremistas radicados em Miami que nunca se conformaram com a perda de privilégios.

Foram mostradas imagens com o objetivo de o telespectador concluir ser Cuba um inferno na Terra e que seu povo vive no pior dos mundos. O repórter apurou mal certos fatos, um deles ao afirmar que o CUC, a moeda do turismo, pode ser convertido em dólar pelos cubanos e assim sucessivamente. Esqueceu de dizer o principal, ou seja, que o turista troca a sua moeda, dólar ou euro, pelo CUC para então usar para os gastos em território cubano. Se reconverter, cubano ou turista, para dólar ou euro vai perder, claro. Mas o repórter ignorou essa obviedade. 

Os CUCs deixados pelos turistas, que em 2011 vieram num total de dois milhões e 700 mil,  permitem ao Estado cubano aplicações nas áreas de saúde, educação, moradia etc. Ou seja, as divisas do turismo são destinadas exatamente para a utilização em favor do povo. Aí o senso comum prefere dizer apenas que apesar de permitido são pouco os cubanos que têm acesso aos locais frequentados pelos turistas. 

Saúde e educação de boa qualidade e de graça é salário indireto. Se  contabilizado, utilizando como termo de comparação muitos países latino-americanos, europeus e mesmo os Estados Unidos, chega-se a cifras altas e até astronômicas. E tem mais um detalhe: saúde cara não raramente pouco acessível a muitos assalariados sem condições de pagar planos de saúde de empresas particulares. E em não poucos países com a saúde pública em péssimas condições.

Mas como as reportagens objetivam apenas reforçar o sentimento contra Cuba, mostrar a realidade sem manipulações não interessa à mídia de mercado, muito menos ao esquema Barack Obama, que corre atrás dos votos de Miami, onde os cubano-americanos têm peso eleitoral.  


*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

sábado, 8 de janeiro de 2011

EUA apontam contra a União Europeia por causa dos OGM



08.Jan.11 :: Outros autores
Através de mais um telegrama divulgado por WikiLeaks ficamos sabendo que a embaixada dos EUA em Paris recomenda “uma guerra comercial «em estilo militar» contra países da Europa que se oponham aos organismos geneticamente modificados (OGM=transgênicos). Os comentaristas de turno ao serviço do subserviente capital monopolista português, esses, os que costumam tecer loas à “maior democracia mundial”, os EUA, silenciam, fingem ignorar que o imperialismo, mesmo na sua fase senil e agonizante, continua implacável na sua ação para o domínio planetário.



Telegramas recentemente divulgados por WikiLeaks revelam que a Embaixada dos Estados Unidos em Paris aconselhou Washington a iniciar uma guerra comercial “em estilo militar” contra qualquer país que se oponha às culturas de transgénicos (OGM).

Em resposta a iniciativas empreendidas em finais de 2007 pela França com o objetivo de banir uma variedade de transgênicos da Monsanto Company o embaixador Craig Stapleton, amigo e parceiro de negócios do ex-presidente dos EUA, George Bush, solicitou a Washington a penalização da UE, e em particular dos países que se opõem ao cultivo de transgênicos.

«O grupo de trabalho de Paris recomenda que calibremos uma lista de alvos retaliação que provoque algum dano no conjunto da União Europeia uma vez que se trata de uma responsabilidade coletiva, mas também que tenha maior incidência, em parte, nos principais culpados.
Esta lista deve ser mais moderada do que agressiva, e deve ser sustentável por um tempo alargado, dado que não é de esperar uma vitória rápida. Passar à retaliação deixará claro que a orientação atual envolve custos reais para os interesses da União Europeia e pode ajudar a fortalecer as vozes europeias pró-biotecnologia», disse Stapleton, que nos anos 90 foi co-proprietário com Bush da equipa de basebol Texas Rangers de St. Louis.

Através de outros telegramas agora divulgados fica-se sabendo que diplomatas dos EUA em todo o mundo agiram, por imperativo estratégico e comercial do seu governo, no sentido de forçar a aceitação de culturas transgênicas. E como muitos bispos católicos em países em desenvolvimento se têm oposto veementemente às controversas culturas, os EUA pressionaram também conselheiros papais.

Telegramas da embaixada dos EUA no Vaticano mostram a convicção dos EUA de o papa é amplamente favorável a estas culturas - em resultado da pressão sustentada que tem sido exercida sobre os conselheiros da Santa Sé mais altamente colocados - mas lamentam que o papa não tenha ainda tornado público o seu apoio. O conselheiro especial em biotecnologia do Departamento de Estado dos EUA, assim como assessores governamentais na mesma área atuando a partir do Quênia, pressionaram individualidades do Vaticano no sentido de persuadirem o papa a declarar o seu apoio.

«[…], encontro com o [monsenhor nos EUA] fr. Michael Osborn do “Conselho Pontifical Cor Unum”, proporcionando oportunidade para influenciar o Vaticano acerca das questões da biotecnologia e ocasião para a análise do estado actual da questão em geral no Vaticano», diz um telegrama de 2008.

«Existem oportunidades para pressionar a questão com o Vaticano e, por sua vez, influenciar um largo segmento da população na Europa e no mundo em desenvolvimento», diz outro telegrama.

Mas verificou-se um revés quando a embaixada dos EUA ficou sabendo que o seu aliado mais próximo na questão dos transgênicos, o cardeal Renato Martino, chefe do poderoso Conselho Pontifical para a Justiça e Paz e o homem que mais representa o papa nas Nações Unidas tinha retirado o seu apoio aos EUA.

«Um representante de Martino disse-nos que o cardeal tinha cooperado em questões de biotecnologia com a nossa embaixada no Vaticano no decurso dos últimos dois anos, em parte para compensar a sua desaprovação pública sobre a guerra no Iraque e as suas consequências - e para manter uma relação sem atritos com o governo dos EUA. De acordo com a nossa fonte Martino já não sente a necessidade de manter esta conduta», diz o telegrama.

Além disto, os telegramas mostram os diplomatas dos EUA trabalhando diretamente para as empresas que comercializam OGM, como a empresa Monsanto.

«Em resposta a recentes pedidos urgentes do secretário de estado Josep Puxeu [do ministério espanhol dos assuntos rurais] e da Monsanto, a mensagem solicita um renovado apoio do governo dos EUA à posição científica espanhola sobre agricultura biotecnológica através de uma intervenção de alto nível do governo dos EUA».

Também fica-se sabendo que a Espanha e os EUA trabalharam em conjunto para persuadir a União Europeia a não endurecer a legislação relativa aos transgênicos. Num telegrama a embaixada dos EUA em Madrid escreve:

«Se a Espanha cair, o resto da Europa cairá a seguir».

Os telegramas indicam que o governo espanhol não só pediu aos EUA que mantivesse a pressão sobre Bruxelas, mas que os EUA tinham conhecimento antecipado do sentido de voto da Espanha, mesmo antes da comissão espanhola para as questões da biotecnologia o ter tornado público.

Este texto foi publicado no jornal inglês Guardian de 3 de Janeiro de 2011.
Tradução de João Manuel Pinheiro para O Diário