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sábado, 5 de outubro de 2013

A paz que o mundo anseia


Hassan Rouhani, presidente do Irã

Publicado em 01/10/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O Presidente do Irã, Hasan Rohani (foto) tem sido a principal figura da política internacional nesta última semana, seguido da Presidenta Dilma Rousseff com a proposta apresentada no plenário das Nações Unidas de fazer frente à espionagem dos Estados Unidos. O Presidente Barack Obama conversou por telefone com Rouhani, o que não acontecia com dirigentes dos dois países desde a revolução de 1979 que derrubou o Xá Pahlevi.

A conduta dos representantes de Israel na ONU, retirando-se quando do pronunciamento de Rohani, confirma que o governo de Benjamin Netanyahu é realmente adepto de ações bélicas na região, como quer também o complexo industrial militar estadunidense. Prefere optar por um bombardeio contra as usinas nucleares iranianas do que pelo menos tentar um acordo com o país que desenvolve programa nuclear que o governo garante ser para fins pacíficos. Netanyahu e o complexo industrial militar norte-americano andam de braços dados e não querem nem ouvir falar em acordo que reduza o estado de tensão na região.

O novo Presidente do Irã apresentou uma proposta concreta, o da desnuclearização no Oriente Médio. Muito positiva a sugestão, que Israel deveria ser obrigado também a seguir, já que tem estocadas armas nucleares, mas prefere o silêncio sobre a matéria.

Mordecai Vannunu
Nesse sentido, uma figura importante já revelou ao mundo, nos anos 80, que Israel possui bombas atômicas. Mordecai Vanunu pagou caro pela revelação, tendo ficado 18 anos preso e 11 em cárcere isolado. Isso depois de ter sido sequestrado em Londres pelo serviço secreto de Israel, o Mossad.

Mesmo tendo cumprido a pena, Vanunu segue monitorado pelo serviço secreto e impedido de deixar o país. Foi convidado para vir ao Brasil receber o prêmio internacional de direitos humanos, instituído pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa, mas o pedido às autoridades israelenses para que fosse permitida a viagem sequer foi respondido. Claro, o silêncio é concretamente uma negativa. Vanunu deve ser sempre lembrado, sobretudo no momento em que o tema armas nucleares está na ordem do dia no Oriente Médio e o mundo olha com otimismo uma possível luz no fim do túnel das trevas em que está mergulhada a região.

Quando se aborda o tema Irã, não se pode deixar de analisar o que acontece na Síria, que para muitos analistas é uma questão chave para se entender todo o contexto do Oriente Médio. Há uma luta fratricida estimulada pelos Estados Unidos e países do Golfo que não primam pelo respeito aos direitos humanos, muito pelo contrário. Lá estão também a Arábia Saudita e Qatar, duas monarquias autoritárias que armam e subvencionam os chamados rebeldes sírios, do qual fazem parte grupos vinculados ao grupo terrorista al Qaeda. De quebra, aproveitando o embalo, o governo turco procura ganhar terreno com a guerra civil síria e se cacifar para exercer forte protagonismo na área. E Israel está também presente.

Nesse quadro em que a ONU diz terem sido mortos mais de 100 mil sírios desde o início das hostilidades, um ataque de armas químicas, que os Estados Unidos responsabilizam o governo de Bachar al Assad e a Rússia a oposição bancada pelo Ocidente e monarquias, matou mais de 1.200 pessoas.

A questão das armas químicas merece também algumas observações que não estão sendo levadas em conta. Que empresas fabricam armas químicas? A empresa dos alimentos genéricos, do agente laranja, do napalm, que tantas vítimas provocou no Vietnã e com reflexos nefastos até hoje, para não falar da participação no projeto Manhattan que produziu a bomba atômica, a Monsanto é uma delas.

Outra pergunta que não quer calar: além da Síria, quais os países que têm estocadas armas químicas? Algum organismo internacional já inspecionou Israel e o próprio Estados Unidos?
Se existem armas químicas e países a estocam, significa também que empesas integrantes do complexo industrial militar lucram com isso. Mas esse ângulo da questão tem sido pouco abordado. Ainda está em tempo, portanto, de se colocar o boca no trombone.

O que importa agora é neutralizar o poder da indústria da morte, portanto, pressionar governos no sentido de alcançar uma paz duradoura em que, em vez de se gastar em armamentos, se combata a fome e se direcione os gastos para o bem estar da população mundial. E para alcançar esse objetivo é necessário que a comunidade internacional não assista impassível a ação militarista de governos como o de Israel e das monarquias dos países do Golfo, como a Arábia Saudita e Qatar, não ficando de fora também o dos Estados Unidos.
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 24 de setembro de 2013

De espionagem e arapongas


Publicado em 24/09/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

Glenn Greenwald
A recente espionagem feita pelos serviços de inteligência estadunidense no Brasil e na América Latina, reveladas graças, entre outros, a figuras como Edward Snowden, Julian Assange e Glenn Greenwald, não chegam a se constituir em fato novo propriamente dito. O que mudou apenas foi a tecnologia utilizada. Em décadas anteriores, arapongas da CIA e maus brasileiros que ajudavam no serviço faziam o jogo.

Muitos dos apoiadores de então, ou já estão ardendo no inferno ou, impunes, aproveitando a aposentadoria pelos serviços prestados como mercenários. Um ou outro segue até ocupando espaços midiáticos com a mesma linguagem de ódio da época da Guerra Fria, Tem alguns residindo próximo da área onde se localiza a sede da CIA, em Richmond, na Virgínia.

Na história contemporânea são vários os países que sofreram com a ação da CIA, entre os quais o Irã, em 1953, com a derrubada do nacionalista Mohammed Mossadegh, que ficou em prisão domiciliar para o resto da vida. O líder iraniano é lembrado em livros de história e com a revelação dos documentos da época confirmou-se a intervenção da CIA, do serviço secreto inglês e israelense no golpe de estado.

Edward Snowden
Uma figura importante daquela época, embora não tão conhecida como Mossadegh é a do então Ministro dos Negócios Estrangeiros daquele governo, o jornalista Hossein Fatimi, um dos idealizadores do projeto de nacionalização do petróleo iraniano. Ele foi fuzilado por ordem do preposto dos EUA, o Xá Rheza Parlevi, que ainda chegou a manter relações amistosas com alguns ditadores brasileiros, como Castelo Branco, Costa e Silva e Médici que hoje, já se sabe oficialmente com os arquivos revelados, tomaram o poder com a ajuda da CIA.

O Brasil não esteve de fora das artimanhas da CIA, presentes em 1954 com seus arapongas e mercenários que levaram Getúlio Vargas ao suicídio. Hoje se sabe também que depois da negativa de Vargas em mandar tropas brasileiras para lutar na Coreia em ajuda aos EUA, somado à criação da Petrobras, os quinta-colunas destas bandas intensificaram ações de desestabilização do governo eleito pelo povo.

Julian Assange
O golpe de abril de 1964, que provocou a ruptura constitucional e lançou o Brasil em uma longa noite escura, só foi possível acontecer com o respaldo logístico e financeiro da CIA. Quase 50 anos depois, as informações sobre esse período nefasto são maiores do que as de 1954. É possível até que os pesquisadores não se debruçaram tanto para certificar muitas ocorrências até hoje não totalmente esclarecidas.

Nem tudo, entretanto, ainda foi revelado. Recentemente, por exemplo, o jornalista Continentino Porto, autor do livro JK segundo a CIA e SNI, teve mais acesso a documentos da CIA que comprovam a participação de um agente secreto a serviço dos EUA acompanhando em um hospital militar o então Ministro da Guerra (na época tinha essa denominação), Jair Dantas Ribeiro, que se afastara do cargo dias antes do golpe de 64 por motivo de saúde. O araponga da CIA produzia relatórios diários, que provavelmente eram repassados para os golpistas militares e civis brasileiros.

Tais fatos, que fazem parte da memória deste país continente, devem ser sempre lembrados, porque se alguém imagina que a CIA e outros serviços de inteligência deixaram o Brasil sossegado, enganam-se redondamente. Quanto mais o país ganha importância no cenário internacional, o que aconteceu, sobretudo, nos últimos 10 anos, maior a ação dos serviços secretos estrangeiros por estas bandas.


Nesse sentido, os brasileiros devem ficar atentos para não caírem em armadilhas sofisticadas gestadas por grupos que historicamente sempre estiveram vinculados aos interesses de potências como Estados Unidos.

Antes do golpe que derrubou o Presidente constitucional João Goulart, a CIA encheu com muitos milhões de dólares as comportas de institutos como o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e o IPES (Instituto de Pesquisas Econômicas e Socais). O objetivo do IBAD era formar uma bancada que defendesse os interesses norte-americanos e consequentemente divulgar a catilinária anticomunista da época da Guerra Fria. O IPES, capitaneado pelo então coronel Golbery do Couto e Silva, procurava também fazer cabeças preparando-as para o apoio incondicional ao golpe de 64.

Aaron Swartz
Tais fatos não chegam a ser uma grande novidade, porque depois de tantos anos decorridos, o que muitos já sabiam, através de indícios ou pesquisas de campo, os arquivos públicos informativos a respeito deixam claros.

Nos dias de hoje, o grande mérito dos personagens mencionados no início desta reflexão é que eles revelaram (e devem continuar revelando mais fatos) antecipadamente muitas informações que se tornariam públicas, se é que se tornariam, daqui a 30, 40 ou 50 anos.

Por estas e muitas outras pode ser explicado o ódio do establishment estadunidense a figuras como Snowden, Assange, Manning e Swartz,. que na sexta-feira (20) foram homenageados com o Prêmio Internacional de Direitos Humanos instituído pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O 11 de setembro na América Latina


Salvador Allende

Publicado em 10/09/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O 11 de setembro da América Latina está completando 40 anos. Trata-se de uma data trágica que corresponde ao golpe comandado pelo general Augusto Pinochet que derrubou o Presidente constitucional Salvador Allende. Muito se denunciou sobre a participação dos Estados Unidos comprovada por inúmeros documentos oficiais demonstrando a culpa no cartório do então Secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger.

Nestes dias, documentos da chancelaria do Chile tornados públicos confirmam a participação também do Governo do então ditador de plantão Garrastazu Médici no golpe sangrento. A embaixada brasileira tornou-se inclusive num espaço de apoio aos golpistas. O chefe da representação diplomática, embaixador Câmara Canto, esteve de braços dados com militares que transformaram o Chile numa espécie de sucursal do inferno. Tanto assim que quando se confirmou a vitória dos golpistas, Câmara Canto comemorou com seus asseclas abrindo champagne.

Logo após o golpe, o Governo brasileiro colaborou financeiramente com a ditadura e assim sucessivamente. Mesmo antes do golpe, a ditadura civil militar vigente no Brasil respaldava os chilenos de extrema direita. Documentos tornados públicos no Chile comprovam a participação de brasileiros em apoio a grupos extremistas de direita como o Patria y Libertad.

Matéria do jornal O Estado de S. Paulo informa que em julho de 1973, o Brasil concedeu asilo político a Eduardo Roberto Keymer Aguirre, identificado como integrante do Patria y Libertad. A concessão ocorreu quatro dias depois que os extremistas assassinaram um ajudante de ordens de Allende, o capitão Arturo Araya Peeters.

René Dreifuss
Os vínculos da extrema direita chilena com extremistas brasileiros não se resumiram a este fato. Anos atrás, o cientista político René Dreifuss em seu livro “A Internacional capitalista” revelou que o jornalista Aristóteles Drummond, uma figura nefasta vinculada até hoje a antigos golpistas da pior espécie, fornecia armas para os extremistas do Patria y Libertad

Há tempos este espaço democrático divulgou a informação veiculada no importante trabalho de pesquisa de René Dreifuss sobre o extremista brasileiro acusado inclusive de responsável pela explosão de uma bomba numa exposição soviética no Rio de Janeiro.

Pois bem, na reportagem do Estadão sobre os documentos divulgados nestes dias no Chile aparece novamente o nome de Aristóteles Drumond como um dos brasileiros que teria transportado recursos para os chilenos que preparavam o golpe contra Salvador Allende.

Aristóteles Drummond
Questionado pelo jornal paulista, Aristóteles Drummond preferiu não assumir diretamente a ajuda fornecida, mas a sua resposta é um reconhecimento da ajuda. Analisem bem o que disse este senhor que todo ano aparece no Clube Militar para comemorar o golpe que levou o Brasil a ingressar numa noite escura de 21 anos.

Eu não levei, mas teria levado. Tenho o sentimento de que os brasileiros amigos do Chile tenham (enviado dinheiro). Sou de classe média, mas, se corresse uma lista aqui para dar US$ 500 (a grupos anti-Allende), eu daria do meu bolso. Acho que o general Pinochet foi decisivo para evitar a criação de uma sucursal de Cuba no Pacífico. Pinochet salvou o Chile, assim como os militares salvaram o Brasil. 

Aristóteles Drummond, que chegou a ocupar um cargo de confiança no governo Negrão de Lima na área de habitação, não foi perguntado pelo Estadão sobre a denúncia de René Dreifuss do fornecimento de armas ao gupo Patria y Libertad, mas se em algum momento for perguntado sobre o tema, provavelmente não confirmará integralmente a ação, mas o teor da reposta será nos moldes da que deu ao Estadão.

Tais fatos são importantes de serem conhecidos pela opinião pública e ajudarão também à Comissão da Verdade a concluir seu relatório sobre os trágicos acontecimentos ocorridos no Brasil depois do golpe de estado que derrubou o Presidente constitucional João Goulart.

O caso de Aristóteles Drumond é bastante emblemático e não será nenhuma surpresa se outros documentos a serem tornados públicos apontarem a participação de outros brasileiros que seguiram impunes ao longo do tempo. É também uma demonstração concreta segundo a qual o golpe no Brasil não foi apenas de conotação militar, mas civil também

Por estas e muitas outras não bastam apenas autocríticas de estilo marqueteiro, como fez recentemente O Globo, sobre o golpe de 64. No caso das Organizações Globo, que ao longo dos anos se transformaram numa espécie de diário oficial dos detentores de fato do poder, teria que acontecer um reconhecimento que além do “erro editorial” do apoio ao golpe, o grupo midiático então comandado por Roberto Marinho, como diria Leonel Brizola, engordou na estufa da ditadura.
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE
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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Primavera que virou inverno glacial


Faraó Abdel Fattah al Sisi (charge de Dessis)

Publicado em 20/08/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

Há muita hipocrisia por parte do governo Barack Obama ao criticar o banho de sangue provocado pelo Exército egípcio contra adeptos da Irmandade Muçulmana. O Presidente estadunidense anunciou a suspensão de manobras conjuntas com militares egípcios, mas não cortou a ajuda anual de 1,3 bilhão de dólares, embora setores do establishment tenham sugerido a medida.

Cortar a ajuda anual significa também prejuízo para o complexo industrial militar estadunidense, uma vez que com o dinheiro recebido o Egito adquire no próprio Estados Unidos seu material bélico. E, diga-se de passagem, uma cifra nada desprezível. Por isso seria bastante incômodo para Obama cortar a ajuda.

Mas de qualquer forma, se a pressão for grande, Washington aciona a Arábia Saudita e o Qatar de forma que os militares egípcios e o complexo industrial militar não tenham prejuízo.
Para quem não sabe, desde 1987, o investimento financeiro e militar norte-americano ao aliado árabe totalizou $66 bilhões. Tem mais, todo ano mais de 500 oficiais egípcios participam de algum curso militar em alguma academia estadunidense.

O comandante da Defesa Nacional egípcia, general Abdel Fattah al-Sisi (foto) se formou na Academia de Guerra dos EUA, na Pensilvânia, o mesmo acontecendo com o comandante da Força Aérea, Reda Mahmoud. Eles que comandaram o golpe que derrubou o Presidente Mohamed Mursi.

São, portanto, vínculos estreitos que não podem ser desconhecidos quando se tenta entender os acontecimentos no Egito.

Imaginava-se que a chamada Primavera Árabe, que acabou virando inverno glacial, conduzisse o maior país árabe a novos tempos. Foi eleito o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Mursi, que teve o sinal verde de Washington, mas acabou derrubado por um golpe militar depois de intensas mobilizações populares que não aceitavam mais as imposições do governo.

Em vez de governar para todos, Mursi priorizou o seu grupo islâmico querendo impor inclusive uma legislação que contrariava os fundamentos do estado laico. Ou seja, não governou para todos, como deveria ser o seu papel, mas apenas para os seus seguidores.

Com a derrubada do Presidente eleito, seus partidários reagem diariamente e tiveram de enfrentar as forças de segurança, que também sofreram baixas.

Da mesma forma que acertou um acordo com a Fraternidade Muçulmana, o governo estadunidense seguiu mantendo proximidade com a cúpula militar, que em todos estes anos não dava um passo adiante sem consultar Washington.

Por estas e muitas outras, não se exclui a possibilidade de o movimento de derrubada de Mursi tenha tido o respaldo inicial do governo Barack Obama, que agora tenta demonstrar à opinião pública o descontentamento com os últimos acontecimentos sangrentos que já provocaram cerca de mil mortos.

O Egito retorna ao contexto anterior das mobilizações populares que antecederam o fim do ditador Hosni Mubarak. Agora, embora sem Mubarak, os mesmos segmentos que sustentavam o preferido dos EUA voltaram a ter o comando absoluto do país. Ou seja, o próprio Mubarak poderia até ser anistiado já que tudo voltou a ser o que era com algum teatro de ilusões.

A cúpula militar da qual faz parte o general Abdel Fattah al-Sisi prefere não correr riscos, porque se o anistiasse poderia despertar rancor de amplos setores da sociedade que imaginavam se ver livre tanto de Mubarak como da própria cúpúla militar. Mas como ele acabou de ser absolvido de uma das acusações relacionadas com corrupção, a partir de agora tudo é possível.

As perspectivas imediatas de uma saída para a crise a cada dia ficam mais distantes. Pelo menos a curto prazo não se vislumbra uma luz no fim do túnel. Os primeiros ocupantes da Praça Tahir que se voltaram contra Mursi saíram de cena, porque como libertários não aceitam compactuar com o banho de sangue.

Perda de controle no Rio - Já por estas bandas, como se previa, continuam as manifestações populares, não tão intensas em termos quantitativos, mas também expressivas. Assista a seguir:


Na área de segurança, as novas revelações sobre o desaparecimento do pedreiro Amarildo revelam total descontrole policial. Depois de a opinião pública ser informada, com exclusividade pela TV Globo, o que é também passível de interpretações das mais variadas, foi reconstituído o trajeto de uma viatura da PM que conduziu o pedreiro desparecido até a Unidade de Polícia Pacificador (UPP) da Rocinha.

A viatura deu voltas e voltas pela cidade e no retorno a Rocinha, segundo informação oficial da PM, os militares condutores do veículo se perderam. Seria cômica se não fosse trágica toda a história da viatura.

O Rio de Janeiro está desgovernado e as perspectivas de solução da crise também estão cada vez mais distantes. Se por aqui existisse uma legislação prevendo a possibilidade de uma consulta popular para decidir se determinado ocupante de cargo, seja executivo ou parlamentar, continuaria, nesta altura poderia haver uma saída. Os eleitores decidiriam se Sergio Cabral continuaria ou não.
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Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Falsificações que visam golpes de estado

Nicolás Maduro - Presidente da República Bolivariana da Venezuela

Publicado em 06/08/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O mundo gira. Enquanto o governador do Estado do Rio de Janeiro, provavelmente aconselhado por algum marqueteiro tenta posar de vítima, quando na verdade não passa de algoz dos jovens manifestantes, pelo mundo acontecem fatos relevantes absolutamente ignorados pela mídia de mercado, que segue desempenhando a função, não propriamente de quarto poder, mas de aparelho ideológico de concepções conservadoras, como diria o jornalista Ignácio Ramonet, do Le Monde Diplomatique.

Guillermo Cochez
MENTIROSO
Pois bem, na Venezuela, os opositores da revolução bolivariana assacaram uma deslavada mentira contra o presidente eleito Nicolás Maduro. Os golpistas, tendo por base declaração de um tresloucado ex-embaixador do Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA), de nome Guillermo Cochez, segundo a qual Maduro não é venezuelano pois nasceu na Colômbia, na cidade de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela, aproveitaram o embalo para mais uma vez tentar derrubar o Presidente que substituiu Hugo Chávez.

O candidato derrotado, Henrique Capriles tentando criar um fato político, sempre com discurso ao estilo de outros golpistas na América Latina, exigiu que Maduro apresentasse sua certidão de nascimento e assim sucessivamente. Outros seguidores de Capriles chegaram a colocar em questão a constitucionalidade do mandato de Maduro, já que a legislação não permite que estrangeiros ocupem a Presidência da República da Venezuela.

Mas a tramoia golpista durou pouco, porque o desmentido das próprias autoridades colombianas não demorou a aparecer. A denúncia foi rigorosamente investigada no setor do Registro Civil da cidade de Cúcuta, que chegou a conclusão, segundo informou Carlos Alberto Arias, diretor nacional do setor, que o documento apresentado pelo ex-embaixador panamenho na OEA era mesmo falso.

A história da América Latina registra falsificações do gênero que serviram de pretexto ou para golpes de Estado ou tentativas de desestabilizar governos democráticos. No Brasil, o Plano Cohen, de responsabilidade do então capitão integralista Olímpio Mourão Filho em 1937 mostrava um suposto plano comunista de assalto ao poder, servindo de pretexto para o golpe do Estado Novo. Este mesmo Mourão Filho, 27 anos depois comandava tropas de Minas Gerais que culminaram no golpe que derrubou o presidente constitucional João Goulart e mergulhou o país em uma longa noite escura de torturas e assassinatos de oposicionistas.

Mourão Filho
MILICANALHA
No anos 50, mais precisamente em 17 de agosto de 1953, o então famigerado deputado Carlos Lacerda inventava no seu jornal Tribuna da Imprensa uma falsa carta que recebeu a denominação de Brandy, em que um deputado argentino intermediava encontro secreto do então Ministro do Trabalho, João Goulart, como emissário do Presidente Getúlio Vargas. Ficou constatada a mentira, mas Lacerda continuou impune e posteriormente tornou-se um dos responsáveis pela tentativa de golpe de estado, em 1954, evitado porque Vargas saiu da vida para entrar para história ao se suicidar em agosto de 1954.

Fatos históricos como os mencionados são importantes de serem lembrados, inclusive para tentar entender o momento presente, como o da Venezuela com a mentira apresentada pelo ex-embaixador do Panamá na OEA, Guillermo Cochez, o mesmo boquirroto que em janeiro deste ano havia investido contra a Venezuela em um discurso raivoso na entidade onde servia.

Por estas e muitas outras, todo o cuidado é pouco em se tratando de setores conservadores e de direita. Até porque, sai ano entra ano, figuras como este Cochez, como Capriles e tantos outros pelo continente latino-americano não se cansam de tentar desestabilizar governos que não rezem pela cartilha de Washington.

Miguel Rodríguez
Torres
Na Venezuela, as tentativas golpistas não se resumem a falsa denúncia contra Maduro. O Ministro das Relações Interiores da Venezuela, Miguel Rodríguez Torres, informou que elementos da direita mantiveram contatos com setores ideológicos no exterior afinados com a doutrina golpista com o objetivo de assassinar o Presidente Maduro. E o Ministro deu nome aos bois, bem como os locais onde ocorreram reuniões conspiratórias que tiveram por objetivo assassinar o Presidente Nicolás Maduro.

Segundo Rodriguez Torres, duas reuniões ocorreram no mês de abril em Bogotá e Miami. Participaram, entre outros, o ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, o ex-presidente de fato de Honduras, Roberto Micheletti, um delegado enviado pelo terrorista Luis Posada Carriles (1), um oficial colombiano da ativa e um oficial da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). O plano discutido previa “iniciar contato com a direita venezuelana e promover ações desestabilizadoras”.

Naturalmente que essas informações não foram divulgadas até agora pela mídia de mercado e se o forem provavelmente serão manipuladas no sentido do leitor concluir que não passam de teorias conspiratórias da história. É o que acontece rotineiramente nos jornalões e telejornalões.

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Nota do Autor
(1) Luís Posada Carriles foi o terrorista responsável pela explosão de um avião da Cubana de Aviação nos céus da Venezuela matando dezenas de atletas que tinham participado de uma competição esportiva. Carriles foi condenado pela Justiça venezuelana, mas fugiu da prisão com a ajuda CIA. Hoje vive em liberdade nos EUA.
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

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