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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Egito: “Poodles” europeus ladram, mas não morderão Sisi

19/8/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Violência das forças armadas contra manifestantes no Egito
Será que a União Europeia morderá o tanto que está ladrando? Se se lê o jornal egípcio Al-Ahram, está ali bem claro que o chefão egípcio, general Abdel Fattah al-Sisi, já concluiu que a União Europeia não passará de atos pro forma em que manifestará preocupação com o golpe e a repressão; só isso e não irá além disso. Em resumo, a agência Itar-Tass entrevistou os sujeitos errados, dos quais ouviu que países europeus decretarão (decretariam!) um embargo de armas  contra o Egito.

William Hague
Se ainda sobreviver alguma dúvida, basta ver o que diz o Secretário britânico de Relações Exteriores, William Hague, que pede que “não se façam falsas escolhas” entre a junta militar no Cairo e a Fraternidade; e que todos observem que o golpe militar no Egito foi “muito popular” entre o povo. Além do mais, Hague exortou o ocidente a não perder de vista o “grande quadro” (querendo dizer que o conflito às margens do Nilo pode durar décadas). Em outras palavras, foi como se dissesse:

(...) apertem os cintos e curtam a diversão. Vocês estão assistindo à construção de um banho de sangue, com muçulmanos versus muçulmanos, quer dizer... Não há problema algum.

As palavras de Hague sugerem que a posição anglo-saxônica já está definida e cristalizada. Disse coisas que nenhum funcionário dos EUA ousaria dizer em público. Dito de outro modo: por mais que a chanceler alemã Angela Merkel  se mostre terrível e profundamente indignada ante os eventos dessa semana no Egito, ela será minoria; e quando os ministros de Relações Exteriores da União Europeia se reunirem no final dessa semana, Hague providenciará para que o governo de Obama não se exceda, quero dizer: tratará de armar as coisas de modo que o ocidente não precise abandonar “o lado certo da história”, mas, simultaneamente, continue a enviar armas aos generais no Cairo.

François Hollande e Saud al-Faisal
A França, de início, pareceu partilhar a angústia da Alemanha, mas depois que o ministro Faisal, de Relações Exteriores da Casa de Saud, voou às pressas para Paris no domingo (18/8/2013),   já ninguém duvida de que François Hollande recebeu súbita iluminação sobre os eventos no Egito. Já se veem sinais de que a Arábia Saudita está empurrando o Qatar, aos trancos, para longe dos corredores do poder em Paris. Não se sabe a quantidade de dinheiro que a operação está custando ao rei Abdullah, mas sabe-se que os franceses são gente de gostos caros, e os sauditas, sim, estão gastando muito, muito dinheiro.

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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Primavera que virou inverno glacial


Faraó Abdel Fattah al Sisi (charge de Dessis)

Publicado em 20/08/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

Há muita hipocrisia por parte do governo Barack Obama ao criticar o banho de sangue provocado pelo Exército egípcio contra adeptos da Irmandade Muçulmana. O Presidente estadunidense anunciou a suspensão de manobras conjuntas com militares egípcios, mas não cortou a ajuda anual de 1,3 bilhão de dólares, embora setores do establishment tenham sugerido a medida.

Cortar a ajuda anual significa também prejuízo para o complexo industrial militar estadunidense, uma vez que com o dinheiro recebido o Egito adquire no próprio Estados Unidos seu material bélico. E, diga-se de passagem, uma cifra nada desprezível. Por isso seria bastante incômodo para Obama cortar a ajuda.

Mas de qualquer forma, se a pressão for grande, Washington aciona a Arábia Saudita e o Qatar de forma que os militares egípcios e o complexo industrial militar não tenham prejuízo.
Para quem não sabe, desde 1987, o investimento financeiro e militar norte-americano ao aliado árabe totalizou $66 bilhões. Tem mais, todo ano mais de 500 oficiais egípcios participam de algum curso militar em alguma academia estadunidense.

O comandante da Defesa Nacional egípcia, general Abdel Fattah al-Sisi (foto) se formou na Academia de Guerra dos EUA, na Pensilvânia, o mesmo acontecendo com o comandante da Força Aérea, Reda Mahmoud. Eles que comandaram o golpe que derrubou o Presidente Mohamed Mursi.

São, portanto, vínculos estreitos que não podem ser desconhecidos quando se tenta entender os acontecimentos no Egito.

Imaginava-se que a chamada Primavera Árabe, que acabou virando inverno glacial, conduzisse o maior país árabe a novos tempos. Foi eleito o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Mursi, que teve o sinal verde de Washington, mas acabou derrubado por um golpe militar depois de intensas mobilizações populares que não aceitavam mais as imposições do governo.

Em vez de governar para todos, Mursi priorizou o seu grupo islâmico querendo impor inclusive uma legislação que contrariava os fundamentos do estado laico. Ou seja, não governou para todos, como deveria ser o seu papel, mas apenas para os seus seguidores.

Com a derrubada do Presidente eleito, seus partidários reagem diariamente e tiveram de enfrentar as forças de segurança, que também sofreram baixas.

Da mesma forma que acertou um acordo com a Fraternidade Muçulmana, o governo estadunidense seguiu mantendo proximidade com a cúpula militar, que em todos estes anos não dava um passo adiante sem consultar Washington.

Por estas e muitas outras, não se exclui a possibilidade de o movimento de derrubada de Mursi tenha tido o respaldo inicial do governo Barack Obama, que agora tenta demonstrar à opinião pública o descontentamento com os últimos acontecimentos sangrentos que já provocaram cerca de mil mortos.

O Egito retorna ao contexto anterior das mobilizações populares que antecederam o fim do ditador Hosni Mubarak. Agora, embora sem Mubarak, os mesmos segmentos que sustentavam o preferido dos EUA voltaram a ter o comando absoluto do país. Ou seja, o próprio Mubarak poderia até ser anistiado já que tudo voltou a ser o que era com algum teatro de ilusões.

A cúpula militar da qual faz parte o general Abdel Fattah al-Sisi prefere não correr riscos, porque se o anistiasse poderia despertar rancor de amplos setores da sociedade que imaginavam se ver livre tanto de Mubarak como da própria cúpúla militar. Mas como ele acabou de ser absolvido de uma das acusações relacionadas com corrupção, a partir de agora tudo é possível.

As perspectivas imediatas de uma saída para a crise a cada dia ficam mais distantes. Pelo menos a curto prazo não se vislumbra uma luz no fim do túnel. Os primeiros ocupantes da Praça Tahir que se voltaram contra Mursi saíram de cena, porque como libertários não aceitam compactuar com o banho de sangue.

Perda de controle no Rio - Já por estas bandas, como se previa, continuam as manifestações populares, não tão intensas em termos quantitativos, mas também expressivas. Assista a seguir:


Na área de segurança, as novas revelações sobre o desaparecimento do pedreiro Amarildo revelam total descontrole policial. Depois de a opinião pública ser informada, com exclusividade pela TV Globo, o que é também passível de interpretações das mais variadas, foi reconstituído o trajeto de uma viatura da PM que conduziu o pedreiro desparecido até a Unidade de Polícia Pacificador (UPP) da Rocinha.

A viatura deu voltas e voltas pela cidade e no retorno a Rocinha, segundo informação oficial da PM, os militares condutores do veículo se perderam. Seria cômica se não fosse trágica toda a história da viatura.

O Rio de Janeiro está desgovernado e as perspectivas de solução da crise também estão cada vez mais distantes. Se por aqui existisse uma legislação prevendo a possibilidade de uma consulta popular para decidir se determinado ocupante de cargo, seja executivo ou parlamentar, continuaria, nesta altura poderia haver uma saída. Os eleitores decidiriam se Sergio Cabral continuaria ou não.
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Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Violência facilitada no Rio de Janeiro

 

Publicado em 23/07/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

Mais uma vez o Rio de Janeiro foi palco de violência provocada pela PM e por infiltrados em manifestações populares que não têm nada a ver com os jovens manifestantes propriamente ditos. Desta vez o cenário foi o bairro do Leblon, nas imediações do prédio onde mora o Governador Sérgio Cabral.

Como tem acontecido rotineiramente nos recentes protestos, as televisões cobriram dando ênfase aos atos de violência protagonizados pelos mesmos infiltrados de sempre.

A Rede Globo, presente com seus helicópteros, conseguiu uma exclusiva terrestre de encapuzados quebrando bancos e saqueando lojas na maior desenvoltura. Para completar o cenário, barricadas de fogo eram feitas complementando o cenário de horror. Estranhamente, dando margem a especulações das mais diversas, a Polícia Militar, que de um modo geral só reprime jovens verdadeiramente manifestantes, nada fez para evitar a baderna. Se quisessem, até os P2, os agentes da inteligência da PM, sempre presentes nas manifestações em trajes civis, poderiam evitar o que aconteceu e teve uma repercussão muito grande.

Os meios de comunicação de mercado, no Rio de Janeiro leia-se Organizações Globo, fizeram a festa em matéria de manipulação da informação. No dia seguinte, o Comandante da PM, Coronel Enir Ribeiro da Costa Filho, sem a menor cerimônia informou que estava suspenso um suposto pacto formalizado com a OAB-RJ e Anistia Internacional para evitar a repetição da violência indiscriminada da corporação nas manifestações. O militar na prática avisava que a partir de agora a PM agiria a sua maneira, ou seja, com o uso de armas não letais etc. e tal.

Os fatos ocorridos e a postura das autoridades levantam suspeitas segundo as quais os atos criminosos no bairro do Leblon teriam sido permitidos exatamente para mostrar à opinião pública como é importante a repressão policial e também silenciar os críticos sobre a truculência da corporação, que obedece apenas a voz de comando.

Nesse sentido, são absolutamente hipócritas as afirmações das autoridades de que alguns soldados serão punidos por excessos. O comando, leia-se sempre Governador Sérgio Cabral, Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame e o comandante da PM, Coronel Enir Ribeiro da Costa Filho ficam isentos de qualquer responsabilidade.

Esse fato remete ao que analisou a pensadora (ela preferia ser assim denominada do que filosofa) Hannah Arendt quando cobriu o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, para um jornal dos EUA, no início dos anos 60. Segundo ela, burocratas do gênero do referido criminoso, pessoas comuns e aplicadas não pensam, apenas obedecem ordens de comando.

O mesmo raciocínio se aplica aos integrantes da PM carioca, ou seja, fizeram o que fizeram, ou deixaram de fazer, nas ruas do Rio de Janeiro simplesmente porque obedeciam a voz de comando.

Esta é uma realidade que não se deve fugir, por mais que as autoridades digam o contrário e até ordenem a criação de comissão para investigar os acontecimentos e se chegar aos infiltrados. Não seria necessária a tal comissão, se os agentes P2 que participam das manifestações a sua maneira, fizessem algo muito fácil: localizar os infiltrados.

E cá entre nós, toda vez que as autoridades querem passar por cima de contestações e questionamentos, nada melhor do que criar uma comissão, cujos resultados geralmente são nulos. E por que Sérgio Cabral, ainda mais Sérgio Cabral, faria diferente?

O Brasil, sem dúvida, atravessa um momento delicado, com fatos que merecem uma melhor análise, inclusive a origem dos próprios infiltrados, que na prática criam um clima de instabilidade. A oposição de direita notoriamente se assanha e vê a oportunidade de práticas mais ostensivas e duras.

Por estas e muitas outras, todo cuidado é pouco, porque em fatos históricos passados, esses mesmos setores foram responsáveis por retrocessos políticos que infelicitaram o país e nunca abandonaram a ideia de repetir, mesmo como farsa, o que fizeram em outras oportunidades.

Falta de comunicação – O sistema de comunicação do governo Dilma Rousseff é nulo. Por que a Secretaria de Comunicação não informa que estão sendo construídos 818 hospitais em todo o país? É importante esta informação sobretudo neste momento em que multidões estão nas ruas protestando, entre outras coisas contra a deterioração das condições de atendimento nos hospitais públicos.

Quanto aos médicos estrangeiros, vale uma observação: em anos passados estiveram no Estado de Tocantins vários médicos cubanos, que conseguiram reduzir o índice de mortalidade na região. Os médicos provavelmente não tinham equipamentos mais sofisticados para o atendimento. Usavam os estetoscópios e assim sucessivamente.

Por que não perguntar aos brasileiros que residem no interior ou nas periferias das grandes cidades se querem médicos estrangeiros no atendimento? 

Em tempo - Dois comunicadores da TV Ninja, um espaço alternativo que transmite ao vivo as manifestações de protesto no Rio de Janeiro foram presos no dia da chegada do Papa Francisco. A PM de Sérgio Cabral levou para a delegacia do Catete os comunicadores que informavam pela web a cerca de 10 internautas.

Foi, sem dúvida, uma afronta à liberdade de imprensa. Onde andará a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) para condenar mais este ato de violência do Governo do Estado do Rio de Janeiro?
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.


Enviado por Direto da Redação

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Pepe Escobar: Será a vez de “Erdogan-tem-de-partir”?!

3/6/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia também:
- 1/6/2013, redecastorphoto, Muftah (editorial) em: Protestos na Turquia: “Um ciclo crescente de descontentamento”
Pepe Escobar
Primavera Turca? Não. Ou, pelo menos, ainda não. O Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip Erdogan será o novo Mubarak? Não. Ou, pelo menos, ainda não.

A história não se cansa de ensinar que basta uma faísca para incendiar uma fogueira política. A faísca mais recente em Istambul foi um pequeno grupo de jovens ambientalistas, que organizaram uma acampada pacífica, estilo Occupy, na Praça Taksim, para protestar contra a destruição planejada de um dos poucos espaços verdes remanescentes na cidade, o Parque Gezi.

A destruição do Parque Gezi segue um padrão globalmente testado de neoliberalismo: o parque será substituído por um simulacro – no caso turco, uma réplica das tendas da artilharia otomana – que abrigará – e o que seria?! – mais um shopping center. É crucial observar que o prefeito de Istambul, também do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, de Erdogan), é proprietário de uma cadeia de lojas de venda a varejo que reinará, com certeza, no novo shopping center. E o homem que controla o contrato de mais esse “redesenvolvimento” é ninguém menos que o genro de Erdogan.

Como se poderia adivinhar que aconteceria e aconteceu, a repressão policial violenta contra os manifestantes levou os principais quadros do principal partido de oposição a Erdogan, o Partido Republicano do Povo (CHP), a unirem-se aos manifestantes. E, sem demora, o tema “verde” da Praça Taksim foi transformado num “Abaixo o ditador!” à imagem da Praça Tahrir.

Praça Taksim, sábado 1/6/2013
No sábado, a Praça Taksim já estava tomada por dezenas de milhares de pessoas; uma multidão atravessou a pé a Ponte do Bósforo, da parte asiática de Istambul, batendo panelas e frigideiras à imagem do “panelaço” de 2002 na Argentina – numa aberta e declarada violação da lei que proíbe o trânsito de pedestres sobre a ponte. A Polícia, correspondentemente, aprofundou a repressão, com canhões de água, spray de pimenta e gás lacrimogêneo.

A atitude de uma super acovardada televisão turca foi, previsivelmente, horrível – o que surpreende talvez menos, se se sabe que 76 jornalistas estão presos na Turquia acusados de apoiar “o terror” e de outros “crimes” não especificados. Pode ser interpretada também como reflexo do mando absoluto de EUA e OTAN sobre um aliado precioso. Coisa do tipo “OK, quebrem alguns ossos, mas nada de mortos”.

Manifestantes se defendem, com frágeis barricadas, dos ataques da polícia munida de gás de pimenta, gás lacrimogêneo e canhões de água
A mídia impressa fez um pouco melhor. O jornal Hurriyet – que costumava usar suas faculdades críticas – recobrou um pouco da própria dignidade e publicou manchetes como Erdogan já não é intocável. Zaman – da rede do movimento islamista moderado Gulen – divulgou, em editoriais, sua extrema preocupação com o poder ilimitado de Erdogan e de seu partido AKP; condenou o comportamento “excessivo” de ambos e apoiou os protestos de rua.

Enquanto isso, nos EUA e na União Europeia, Ancara não foi, de fato, condenada: só as “preocupações” ocas, superficiais, de sempre. A Turquia, afinal, é o mais recente cenário-país e cartão postal da CNN. Está totalmente presente “nas telinhas”, com mensagem alinhada ao ideário da rede, de ditadura simpática ao neoliberalismo (como as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo). Condenar violentamente e ameaçar com ataques e drones são reações reservadas, com exclusividade, ao Irã e à Síria.

Take it to the bridge[1]

Faz perfeito sentido que tudo tenha começado com o “redesenvolvimento” do Parque Gezi. Mas não passa de pequeno detalhe, num esquema gigante – a quantidade imensa de megaprojetos do Partido AKP por toda a Istambul, que excluem totalmente a opinião da sociedade civil.

A Turquia pode até ter-se tornado a 17ª economia do mundo, mas está crescendo apenas 3% em 2013 (que já é muito melhor que o que se vê na Europa). O partido AKP com certeza percebeu que o milagre econômico à turca tem pés de barro, baseado em produtos de baixo valor agregado, muito dependente de mercados – agricultura, pequena indústria ou turismo.

Multidão de manifestantes atravessa a ponte sobre o Bósforo no domingo, 2/6/2013
É onde entra uma terceira ponte sobre o Bósforo – parte de uma nova rodovia de 260km e US$2,6 bilhões, unindo a Trácia à Anatolia, contornando a metrópole de Istambul; e um dos entroncamentos chaves do Corredor de Transporte Europa-Cáucaso-Ásia [orig. Transport Corridor Europe-Caucasus-Asia, TRACECA], apoiado pela União Europeia.

Nas eleições de 2011, Erdogan abriu sua campanha com o anúncio de um “projeto louco”: um canal de 50 km, do Mar de Marmara ao Mar Negro, a ser concluído em 2023 – centenário da República Turca – ao custo de mais de $20 bilhões. O objetivo não é só descongestionar o Bósforo, mas com a construção de uma terceira ponte e de um terceiro porto, transferir o eixo de Istambul para o norte da cidade, ainda não desenvolvido. O projeto inclui duas novas cidades e um terceiro aeroporto.

O partido AKP apresentou essa política ambiciosa como “transformação urbana”. O pretexto é o risco de um grande terremoto – como o de 1999. Para o que se resume a uma vastíssima bonanza da mais pura especulação imobiliária, Erdogan e o AKP dependem de duas agências do governo, TOKI e KIPTAS – que têm fixados preços altos demais para os turcos médios. O alvo prioritário são as camadas mais altas da classe média – que votam AKP.

O partido AKP é absolutamente obcecado com controlar Istambul – que elege 85 dos 550 membros do Parlamento (Ancara, a capital, elege apenas 31). Erdogan e seus correligionários estão no governo da Grande Istambul desde 1994 (nessa época, como membros do Partido Refah). Erdogan começou a conquistar a Turquia a partir da capital otomana.

Os megaprojetos apadrinhados pelo partido AKP foram concebidos como a mais moderna plataforma a partir da qual projetar a Turquia emergente no rumo da pós-globalização, extraindo o máximo do clichê de “uma ponte entre civilizações”.

Afinal de contas, 50% das exportações turcas originam-se em Istambul.

Multidão. Praça Taksim na madrugada de sábado, 1/6 para domingo 2/6 de 2013
O marketing urbano-político desses megaprojetos condicionará a credibilidade global da Turquia entre os suspeitos de sempre, os “investidores internacionais”. Nada tem a ver com coesão social ou respeito à natureza ou ao meio ambiente. Pode-se dizer, sem exagero, que os homens e mulheres que se reúnem nos movimentos da Praça Taksim compreenderam total e perfeitamente as implicações dessa lógica autoritária de desenvolvimento, sedenta de lucros.

E então?! Quem se candidata a “Amigos da Turquia”?

Recep Erdogan
Erdogan pode até ter admitido, contra vontade, que seus policiais exageraram. Mas o máximo que pode fazer é acusar os manifestantes, dizer que estão ligados “ao terror”, que têm “laços obscuros”. O único objetivo dos “saqueadores” seria roubar votos do AKP nas eleições parlamentares de 2015. Jactou-se de que podia pôr nas ruas um milhão de apoiadores seus, para cada 100 mil opositores. Bom... 5 mil opositores já começaram a apedrejar o prédio de seu escritório em Besiktas.

Os protestos já se alastraram para Izmir, Eskisehir, Mugla, Yalova, Antalya, Bolu, Adana e, até, para tradicionais bastiões do AKP, como Ancara, Kayseri e Konya. A multidão nas ruas conta-se às dezenas de milhares. Se se somam os carros que buzinam e as pessoas que batem panelas das janelas e sacadas dos prédios, em apoio aos manifestantes – como se ouve todas as noites em Ancara e Istambul (até nas pacatas áreas residenciais no lado asiático) – já se pode falar em centenas de milhares.

Não há dúvidas de que o movimento “Praça Taksim/Occupy Gezi/Abaixo o ditador” já se vai expandindo, cobrindo toda uma parte da Turquia secular que se opõe totalmente ao partido AKP e ao mix encarnado em Erdogan: conservadorismo religioso somado a um neoliberalismo linha duríssima, em governo altamente personalizado/ centralizado/ autocrático.

Os turcos seculares veem também claramente que Erdogan tenta extrair o máximo de proveito possível de um nebuloso “processo de paz” com o PKK, partido dos curdos, para obter votos suficientes para um referendo constitucional. Esse referendo apagará da Constituição o sistema parlamentar, para ali instalar um sistema presidencial – muito oportuno, dado que o mandato de Erdogan como Primeiro-Ministro expira em 2015; e ele aspira a continuar ao leme, como presidente.

Erdogan pode ter ainda maioria sólida em toda a Anatolia conservadora. Mas pode, também, estar brincando com fogo. É o homem que, há dois anos, gritava que “Mubarak tem de ouvir seu povo”. E o mesmo deveria fazer também Assad na Síria. Hoje, a maioria dos turcos rejeita completamente o “apoio logístico” que Ancara insiste em oferecer às gangues “rebeldes” na Síria.

A cereja do bolo da ironia, hoje, é Damasco, que já ordenou que Erdogan contenha a violência de sua polícia contra o povo; que ouça “o povo turco”; ou que renuncie.

E agora?! Erdogan implanta uma zona aérea de exclusão sobre Istambul? (Ou a OTAN implanta uma zona aérea de exclusão sobre Erdogan?) Os “rebeldes” turcos receberão apoio direto de Damasco, de Teerã e do Hezbollah? Damasco convoca uma reunião da “comunidade internacional” e cria os “Amigos da Turquia”? 



Nota dos tradutores
[1] Take it to the bridge (Lit.: Leve lá p’ra ponte). É expressão que parece assumir diferentes significados, conforme o contexto em que apareça. Pode significar “[leve para a ponte] para descartar”, “[leve para a ponte] para jogar no rio”. Todas as sugestões de tradução são bem-vindas. A frase aparece, por exemplo, em “Sex machine”, James Brown, 1971 que assiste-se a seguir:


terça-feira, 4 de junho de 2013

Turquia: 240 mil trabalhadores unem-se aos protestos, em mais de 67 cidades

“Agora já estamos num movimento de resistência”

4/6/2013, 18h, The Real News Network [vídeo]
 Traduzido da transcrição e das legendas pelo pessoal da Vila Vudu


SHAGHAYEGH TAJVIDI, Produtor de TRNN: Há dias, o ar que se respira em Istambul cheira a gás lacrimogêneo. A Polícia continua a usar armas químicas, por toda a parte.

Hoje, os levantes entraram em nova fase, quando a Confederação dos Funcionários Públicos da Turquia (KESK) – 11 sindicatos e cerca de 240 mil trabalhadores – declararam-se em greve geral por dois dias. 

A greve, que estava sendo planejada para futuro próximo, em resposta a novas leis de “flexibilização” da legislação trabalhista na Turquia, foi antecipada para hoje, em resposta à brutalidade e às práticas cada dia mais antidemocráticas da polícia do governo de Erdogan.

A agitação começou em Istambul, dia 27 de maio, quando tratores começaram a arrancar árvores na Praça Taksim, no Parque Gezi, local histórico no coração da cidade. Os planos do governo, de construir ali um shopping center, despertaram a indignação popular, e muitos imediatamente e durante a noite, instalaram-se ali, com barracas e para plantar mudas de árvores, em resposta à demolição de um dos últimos espaços verdes remanescentes em Istambul. Começou assim, o que, nos últimos dias, já foi descrito como cenário de guerra.

Mas o protesto também se ampliou: é hoje movimento de resistência, bem maior e mais radical que modesto ato para proteger parques e árvores.

ADVOGADA, ISTAMBUL (legendas traduzidas): O que posso dizer é que enfrentamos um déspota, governo desrespeitoso, que absolutamente não se interessa nem ouve o povo e nossas ideias. Religião e democracia, para eles, são instrumentos. Com o que está acontecendo aqui, se vê, definitivamente, que não há democracia alguma nesse governo. A imprensa nada diz. Quem fala, é posto na cadeia. Todos nossos generais estão na cadeia.

YASEMEN, MANIFESTANTE: Como é possível?! Mas você viu como tudo começou? As pessoas estavam sentadas, lendo livros! Estavam conversando, na Praça Taksim. E de repente, pelas 5h da manhã, foram atacados pela Polícia, sem aviso – nem avisaram, ninguém disse “saiam, ou usaremos gás lacrimogêneo contra vocês”. Nada, primeiro lançaram as bombas de gás, depois os canhões de água sob pressão. Eles agiram como se... tudo aqui fosse gravíssimo.

ADVOGADO: Como advogado, posso dizer que não há legitimidade nesse comportamento da Polícia. Atacaram o povo, sem que a Polícia fosse sequer provocada. Usaram porretes e força excessiva, e bateram com tal fúria, que podiam ferir braços, pernas, até matar. É ação muito perigosa.

TAJVIDI: Os atuais protestos lançaram luz diferente sobre o governo do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan. A repressão violenta contra os cidadãos, nessas manifestações, não foi notícia nos canais comerciais de televisão. Mostraram, no mesmo horário, o concurso de Miss Turquia e programas de culinária.

Para informar-se sobre as manifestações, as pessoas tiveram de usar seus próprios meios – conectaram-se pelas mídias sociais e procuraram informação em veículos fora da Turquia, tudo para escapar da muralha de censura interna e dos repetidos “apagões” nas redes 3G na área de Taksim.

O canal The Real News Network conseguiu conectar-se por algum tempo com um ativista que estava em Taksim, embora a conexão estivesse muito instável e quase inaudível.

TANYEL, NOS PROTESTOS EM TAKSIM (legendas traduzidas): Quero destacar que o governo Erdogan e sua Polícia atacaram indiscriminadamente o povo, que estava em posição muito vulnerável. A Polícia lançou muitas granadas de gás lacrimogêneo, sem qualquer distinção, contra crianças e outras pessoas vulneráveis. Nesse momento, há centenas de feridos nos hospitais.

A mídia turca tentou cobrir os protestos. Mas não se viu nenhuma notícia nos canais turcos de televisão, desde a noite passada. Só exibiram programas sem importância.

Mas as mídias sociais ajudaram, Twitter e Facebook, e as pessoas conseguiram informar-se e vieram para cá. A manifestação só aconteceu por causa das pessoas, nas mídias sociais. Todos trataram de mostrar o que estava acontecendo para toda a Turquia. Trata-se de muito mais do que de proteger o Parque Gezi. Trata-se de uma batalha entre o governo da Turquia e os jovens turcos. O pessoal quer que Tayyip e seu governo renunciem imediatamente. Agora, estamos já num movimento de resistência.

TAJVIDI: Apesar de ter chegado ao poder com promessas de prosperidade econômica e democratização, há dez anos, e apesar de sempre ter contado com apoio popular, o partido Justiça e Desenvolvimento de Erdogan, o AKP, também enfrenta crescente descontentamento, e não por poucas razões. Para começar, o governo de Erdogan mantém a mídia sob um dos mais duros regimes de censura em todo o mundo. Em 2012, a Comissão de Proteção de Jornalistas divulgou que a Turquia aparecia em primeiro lugar na lista de países que tem o maior número de jornalistas presos, à frente da China e do Irã.

Desde 2009, o Partido AKP iniciou investigações contra a União da Comunidade Curda, investigações mediante as quais, o governo tomou por alvo intelectuais, jornalistas e estudantes. O governo alegou que seriam medidas para prevenir ações terroristas, e que atingiriam todos os partidos que tivessem qualquer ligação com a ala urbana do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Fontes independentes em Istambul estimam que essas investigações tenham levado mais de 3 mil pessoas à prisão.

Pouco antes do levante do Parque Gezi, o partido governante, AKP, foi duramente criticado por medidas para proibir a venda de bebidas alcoólicas em estabelecimentos abertos ao público. Embora essas leis ainda não sejam vigentes, ficou bem claro que seria a mais nova ameaça do governo religioso de Erdogan, contra a Turquia secular. O conservadorismo religioso de Erdogan, aliado ao autoritarismo crescente e à intolerância à crítica ou a opiniões diferentes da sua, culminam, agora, em demonstrações de massa, gigantes, por todo o país.

BARIS KARAAGAC, professor, Universidade TRENT: O neoliberalismo crescente, a comercialização das relações sociais na Turquia, é outra razão pela qual, agora, a população está tomando as ruas. É processo que já se vê em andamento há dez anos, desde que o governo AKP chegou ao poder. Esse processo está avançando à custa de prédios históricos, por exemplo. Todos esses fatores operaram como catalisadores. Agora, muitas pessoas decidiram reagir contra o governo de Erdogan, do AKP.

TAJVIDI: E são muitas as pessoas que estão tomando as ruas, já em 67 cidades, em todo o país. Um dos aspectos mais interessantes é a diversidade das pessoas e grupos que se vão unindo aos levantes populares de resistência. O que se vê é que as políticas de Erdogan tiveram efeito polarizador, numa sociedade turca já dividida.

Esta rede The Real News falou com ativistas em Istambul, que comentaram os traços diversos e complexos das multidões nas ruas e suas demandas.

ALP, ATIVISTA (legendas traduzidas): Os primeiros a aparecer nas manifestações foram artistas, gente de vários partidos, de associações, instituições e dos sindicatos. Mas ontem à noite, depois das 19h, o movimento já era público. Só está sendo possível, porque todos distribuem e recebem informação pelas mídias sociais. Acho que a maioria aqui não é gente de partido político, sindicato ou associação. O que se vê aqui são estudantes, professores, médicos, advogados.

YASEMEN: Ontem vi gente que sempre apoiou o AKP, que realmente votou no AKP. E estavam protestando na rua, ali, ao meu lado. Muita gente com véu. Isso é muito importante. Há muitos religiosos que também nos apoiam.

TAJVIDI: Ainda é muito cedo, é claro, para saber a que levará essa resistência, o que conseguirá, se a luta gerará benefícios já em 2014, ano em que haverá a primeira eleição presidencial, com voto direto, na Turquia. Com a ambição de Erdogan, que desejava reconstruir todo o sistema eleitoral, ameaçado agora pelos eventos dos últimos dias, observadores perguntam se Erdogan fará concessões e se o movimento popular nas ruas conseguirá alterar a correlação de forças entre Erdogan e sua tradicional base eleitoral.

KARAAGAC: O que já se vê bem claramente é que o governo percebeu que, doravante, não poderá continuar a agir protegido pela impunidade total, sem dar qualquer atenção à oposição popular. Até agora, sempre agiu assim. Mas o povo, ou parte muito ativa do povo, já disse “Basta!”.


TAJVIDI: Para a rede The Real News Network, Shaghayegh Tajvidi.
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Ver também:
1/6/2013, redecastorphoto, Muftah (editorial) em: Protestos na Turquia: “Um ciclo crescente de descontentamento"