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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Turquia: Jornalismo comercial (também) INSUFICIENTE na cobertura dos eventos

21/6/2013, Dmitriy SEDOV, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Mais do que “informar” sobre a Turquia, este artigo deve ajudar a fazer-ver que NINGUÉM estará discutindo consequentemente a questão brasileira, enquanto militantes e partidos políticos não souberem fazer outra coisa além de “indignar-se” ante a vergonhosamente incompetente cobertura jornalística dos eventos em curso no Brasil.
Em nenhum país do mundo empresas comerciais de jornalismo têm a influência que têm no Brasil (país de partidos fracos, historicamente). Por isso, talvez, ninguém veja com clareza que as empresas comerciais de jornalismo no Brasil estão, de fato, COMPLETAMENTE embasbacadas.
Elas ainda não sabem se:
(a) os eventos em curso ajudam o governo Dilma (caso em que os eventos serão apresentados pela mídia como “baderna social” e as empresas comerciais de jornalismo ‘exigirão’ que a ordem seja imposta a qquer preço); ou
(b) se prejudicam o governo Dilma (caso em que os eventos serão apresentados como “movimento jovem” – movimento jornalístico de “imprensa livre” que equivale a mostrar canibais que comem vísceras de gente como “combatentes da liberdade”, o que, como se sabe, o jornalismo de empresas comerciais TAMBÉM já fez no mundo e, de tanto fazer, faz cada dia mais desavergonhadamente – e sem oposição discursiva consequente).
Nunca antes na história desse país, tanto dependeu tanto de o poder democrático DIZER-FAZER COISA COM COISA, politicamente, publicamente, nas fuças e nas canelas do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão).

Turquia: Praça Taksim - ao fundo o arvoredo do Parque Gezi
Os eventos na praça Taksim em Istambul estão sendo apresentado pela imprensa-empresa ocidental como consequência de uma decisão “ecologicamente incorreta” do governo turco, para construir num parque na cidade. Nada mais distante da realidade, e a versão jornalística levanta questões sobre os reais interesses do Ocidente na disseminação do conflito.

A verdade é que a praça em questão tem papel praticamente nenhum no conflito. O xis da questão é que, nessa operação, Recep Erdoğan planeja demolir o Centro Cultural Mustafá Kemal Atatürk, ali localizado, e remover o monumento do fundador da República Turca secular. Em lugar do Centro Cultural, Erdoğan decidiu construir uma mesquita, embora já haja uma mesquita na mesma praça, Taksim Mescid Camii.

Essa intenção, sim, uniu toda a parte secular da sociedade, nos protestos contra o primeiro-ministro. Ampla variedade de grupos comunitários, inclusive grupos antes inconciliáveis, uniram-se na oposição à política de Erdoğan de ativamente destruir o legado político de Atatürk.

Claro que a islamização consistente do país ao longo dos últimos 10 anos já causava um descontentamento latente em várias forças da sociedade, antes dos atuais conflitos. O potencial de protesto foi-se acumulando gradualmente.

E quando a sociedade soube da tentativa de demolir o Centro Atatürk – símbolo da ordem secular – sobreveio a explosão.

Entre os turcos, nenhum culto é mais profundo que o que cerca o fundador da república. Poucos políticos no mundo gozam de respeito tão incondicional quanto o fundador do moderno estado turco. Só um político que se veja como “igual” a Atatürk desafiaria publicamente seu prestígio.

Centro Cultural Mustafá Kemal Atatürk
Tudo sugere que Recep Erdoğan imagine-se, ele mesmo, como uma espécie de “anti-Atatürk”. Planeja feito histórico na mesma escala grandiosa, mas com o sinal trocado: quer fazer da Turquia, em vez de estado secular moderno, um estado islamista.

Por isso é indispensável remover os símbolos conectados a Mustafá Atatürk e por isso Erdoğan agarra-se tão ferozmente e tão obcecadamente à ideia de demolir o centro cultural e o monumento. Para ele, seria uma vitória ideológica, no plano simbólico, em momento crucial da história. Mas os que resistem também veem a luta pelo monumento como luta pelo rumo que a Turquia tomará.

Erdoğan já fez muitas coisas, para erradicar o legado de Atatürk.

Mustafá Kemal Atatürk
Atatürk, com o apoio do exército, despiu a Turquia de todos os atributos de “estado islamista” e converteu o coração do antigo Império feudal otomano em país secular europeizado. Para Atatürk, o exército existia para proteger a autoridade secular e impedir o avanço da islamização.

Erdoğan dedicou todos os dez anos de seu governo a afastar o exército dessa função de defender a coesão (secular) da sociedade, substituindo os oficiais seculares por imãs, nos corpos de comando. Nos anos recentes, houve uma “epidemia” crescente de demissões, escândalos e “denúncias” contra oficiais e generais do Exército Turco, acusados de tentar golpes, de atos de corrupção e muito mais.

Desde 2007, o próprio Erdoğan fala frequentemente da “inevitável islamização” da Turquia. Tem apoiado islamistas no exterior, especialmente em países vizinhos. Rebeldes chechenos, inguches e do Daguestão recebem até hoje apoio e suprimentos de Ankara. Nas Guerras da Chechenia, houve “amirs turcos” [orig. êem bilal). Dentre os rebeldes dizimados por forças federais havia tantos turcos quanto sauditas.

Na Turquia, Erdoğan comanda uma política de neo-otomanismo, uma mistura de nacional-socialismo e sunismo.

Recep Erdoğan
Erdoğan obteve apoio, simultaneamente, das classes mais pobres na Turquia e na Europa. Dentre os países europeus, Espanha e Alemanha são os mais empenhados apoiadores de Erdoğan; e a Alemanha mantém laços muito estreitos com a Turquia. Mas, mais importante que isso, Erdoğan é a menina dos olhos dos socialistas que estão no poder na Europa: para eles, é a encarnação do ideal que tanto acalentam, de um “Islã racional”.

Erdoğan começou a combater contra o Kemalismo, quando estava na crista de sua influência no país e no exterior. A Turquia desenvolvia-se economicamente a taxas invejáveis e fortalecia sua posição na região. A guerra na Síria foi ocasião pela qual Erdoğan muito esperava, para mostrar-se ainda mais firmemente. Ironia, porém, nesse quadro, é que Erdoğan tenha denunciado os métodos “não democráticos” de al-Assad, no trato com a oposição.

Hoje, os métodos para dispersar os manifestantes turcos, as prisões, a violência generalizada, também nas cidades turcas, mostram o tipo de “verdadeiro democrata” que é o próprio Erdoğan.

******

A cobertura que a mídia comercial ocidental está dando aos eventos na Turquia merece ser examinada à parte. Nada mais difícil de acreditar, do que a versão segundo a qual a mídia comercial ocidental manteria alguma isenção na informação que distribui sobre a Turquia. E já ninguém sabe o que fazer para não expor o real confronto: a “força islamista irresistível” de Erdoğan, contra o “objeto inafastável” da oposição kemalista.

A realidade já não cabe no conceito de “islamização civilizada” que, supostamente, faria de Recep Erdoğan o representante autorizado pelo ocidente na Região. Há apenas um mês, a Europa ainda garantia todo o seu apoio à islamização da Turquia – e a imprensa-empresa noticiava “de acordo”. E então, de repente, apareceu na rua, onde todos veem, um movimento popular anti-islamista, por trás do qual está, firme, o Exército, além de vastas fatias da sociedade (e, provavelmente, também grupos da elite turca).

A solidariedade nacional clara, com declarações de vontade por vias pacíficas, e a consolidação do movimento via Facebook e Twitter prosseguem – seguindo todos os cânones do neoliberalismo.

Mas, estranhamente, para a mídia comercial... contra os interesses do Ocidente! Uma “revolução colorida ao contrário” está em construção na Turquia. E nenhuma capital europeia pode prever o que sairá disso. Assim, a imprensa empresa não sabe o que “noticiar”...

Afinal, é possível que forças que pregam política externa comandada pelos preceitos internacionalistas de Atatürk, “o Pai dos Turcos”, podem, sim, chegar ao poder na Turquia. Essa política já existiu e foi hegemônica, ainda bem recentemente: pregava “nenhum problema com os vizinhos” – e falar de “vizinho”, na Turquia, é falar de Síria. Esse movimento pegaria os estrategistas da OTAN, completamente, “no contrapé”.

Por essa razão, a imprensa-empresa ocidental vacila sobre a posição a adotar no noticiário sobre a Turquia. Praticamente não se veem notícias, no ocidente, sobre a retórica anti-islamista dos que se manifestam nas ruas. E o noticário capenga: tampouco se divulga uma linha sobre a retórica pró- Atatürk, que também está nas ruas turcas.

Enquanto isso, o conflito se alastra, contra a intransigência fundamentalista de Erdoğan, o “querido” do Ocidente.

Passeata realizada domingo( (16/6/2013) em apoio a Erdogan
No domingo, 300 mil apoiadores de Recep Erdoğan, organizados pelo Estado, saíram às ruas. Tudo foi planejado como demonstração das forças que apoiam o primeiro-ministro. E é claro que essas forças existem. Contudo, para conseguir virar a situação a seu favor, Erdoğan teria de ter a autoridade de fato, simbólica, que Atatürk (ainda) tem.

Parece, contudo, que Erdoğan se superestimou, porque, em resposta, os manifestantes voltaram às ruas e enfrentaram a Polícia. O primeiro-ministro pôs nas ruas de Istambul mais de mil agentes das Forças Especiais. Então, e, de fato, sem que ninguém esperasse, vários poderosos sindicatos de trabalhadores turcos – ameaçados de extinção, se se implantarem normas islamistas – uniram-se aos manifestantes.

A Reuters noticiou que um dos maiores sindicatos da Turquia, a “Confederação dos Funcionários Públicos” (tu. KESK), convocou greve geral para a 2ª-feira, 17/6. A liderança de outro sindicato turco, a “Confederação dos Sindicatos de Trabalhadores Revolucionários” (tu. DISK), convocou assembleia de emergência e decidiu unir-se na mesma ação.

Especialistas observam atentamente os sentimentos do Exército. Também ali podem acontecer surpresas.

Tudo sugere que o preço que Recep Erdoğan terá de pagar por sua tentativa de varrer Kemal Atatürk da história da Turquia vai-se tornando alto demais. Os próximos desenvolvimentos mostrarão se conseguirá pagar…


domingo, 9 de junho de 2013

Turquia: “A rua acende-se contra Erdogan”

9/6/2013, Juan Luis Sánchez (de Istambul), El Diario, Espanha
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Juan Luís Sánchez
·       As torcidas dos times de futebol da cidade – com longa história de lutas entre elas – unem-se na praça e fazem subir o tom do protesto
·       O Primeiro-Ministro mantém a Polícia longe da praça Taksim, age em outros pontos da cidade e convoca manifestações para apoiá-lo
·       A ocupação vive seu momento de afluência máxima, e os organizadores dão-se conta do cansaço. Resistência é questão, também, de tempo.

Praça Taksim em 8/6/2013
Primeiro, Erdogan tentou, pela força, desalojar a ocupação. Em seguida, aproveitou a viagem ao estrangeiro, para ver se sua ausência acalmava os ânimos, e os ocupantes abandonavam espontaneamente a Praça. Essa semana, não conseguiu evitar uma sequência de atos contraditórios: insultou os manifestantes, pediu perdão pela violência policial usando para isso um porta-voz, disse que manteria inalterados os planos de urbanizar o Parque Gezi e, em seguida, que ouviria as demandas populares. Tudo isso na mesma semana e com o mesmo resultado: nenhum.

Nem as provocações do Primeiro-Ministro turco Tayyip Erdogan geraram sequer um estalo de violência dentro da multidão que ocupa o Parque Gezi, nem suas desculpas esvaziaram a praça. A ocupação já tem vida própria, seus próprios ritmos. E não acabaria de um dia para o outro, nem se os que lá estão desejassem que acabasse.

Praça Taksim em 8/6/2013. Ao fundo o Parque Gezi.
Não há um metro de grama onde não haja um cobertor, um colchão, uma barraca. Filas de centenas de pessoas, recém-chegadas ao Parque Gezi, esperam sua vez para receber alguma coisa para pôr no chão e poder deitar e cobrir-se. Além das horas e horas de caminhadas de dezenas de milhares de pessoas que se vão reunindo por afinidades as mais variadas.

A ocupação do Parque Gezi viveu ontem, sábado, o momento definitivo da própria afirmação, um apogeu muito incômodo para o governo e também de muito desgaste para os que trabalham na vida interna do movimento.

Durante as noites de fim de semana, “Occupy Gezi” deixa de ser espaço comunitário de resistência e converte-se em acampamento de um Fórum Social.


Alguns jovens em Taksim começam a dar-se conta de que, se falam de resistência, falam, de fato, de tempo. E de que nem todos têm a mesma capacidade física para resistir: “Todos os dias vou trabalhar, passo por aqui e só durmo três horas. Não sei por quanto tempo mais aguentarei” – confessa Gökçe (nome fictício), um dos ativistas de Gezi, muito cansado, mas profundamente satisfeito com a experiência. “Chegou um momento em que, em vez de cuidar dos que chegam, mal conseguimos atender às suas necessidades básicas. Acabou-se a magia dos primeiros dias. Já não temos os olhos brilhantes que se via por todos os lados” – queixa-se outro, que trabalha na cozinha, que cresce e se reorganiza quase que de hora em hora. “Estou sem dormir, literalmente, há cinco dias. Meto-me no saco de dormir e tento fechar os olhos, mas não consigo dormir” – conta uma terceira voluntária.


Contra o cansaço, nada melhor que um antídoto moral, um momento de euforia coletiva. Um desses momentos aconteceu ontem em Taksim.

Torcedores das três equipes de futebol da cidade (Galatasaray, Fenerbache e Besiktas) tomaram a Praça Taksim numa marcha conjunta que deixou para trás as brigas históricas que sempre os separaram, muitas vezes com episódios de extrema violência. Vê-los lado a lado numa mesma manifestação talvez não chame a atenção de estrangeiros que não conhecem o país. Mas emociona os turcos.

Torcedores de um recém criado “novo time”, “Unidos de Istambul” – como se vê em vários cartazes – cobriram de luz de fogos de artifício o fim de tarde do Parque. Foram acesos coordenadamente em vários pontos do Parque Gezi, e de cima de um dos edifícios vazios que se destaca na grande esplanada, em cuja fachada penduraram-se cartazes com fotos dos heróis políticos de diferentes grupos e faixas com palavras de ordem contra Erdogan.

Praça Taksim em 8/6/2013
“Isso aqui é muito, muito maior que Occupy Wall Street” – diz Olivia, jovem austríaca que viajou a várias cidades para participar e documentar levantes populares e esteve em Nova York. “É, provavelmente, a maior ocupação de espaço público que vi, em todo o mundo” – diz o repórter esloveno Bostjan Videmsek, que esteve no Cairo, em Atenas, em Madrid.

Não é só a praça. Todas as avenidas que levam à praça estão fechadas e tomadas por milhares de pessoas, em alguns casos por várias centenas de metros. Há barricadas, construídas com ônibus municipais, pedras arrancadas das calçadas, valetas de obras públicas ou de segurança, pilhas de móveis... Montanhas de objetos empilhados.

Praça Taksim em 8/6/2013
O risco de um acidente, uma desgraça repentina, de que irrompa alguma briga entre os muitos grupos que ali se aproximaram (partidos políticos, grupos sociais, culturais, torcedores de futebol) paira sobre toda a ocupação. “Você está vendo: há bandeiras curdas, dos nacionalistas, de diferentes torcidas organizadas, de Fenerbache, dos Galatasaray... Já estamos há dias, e volta e meia algum atrito acontece, embora sejam sempre brigas pontuais” – diz Gökçe. Uma grande briga ali é tudo de que Erdogan mais precisa.

Mesmo assim, a Polícia não voltou a aparecer. Não se veem policiais uniformizados na Praça Taksim, nem em volta. Depois que recolheu os policiais da polícia de choque, o governo de Erdogan optou pela total ausência de polícia no Parque Gezi – embora continuem os enfrentamentos violentos em outras cidades do país, principalmente em Ancara, onde a Polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água para reprimir os protestos. Vídeo a seguir:


Mas não há policiais em Taksim, que é onde Erdogan disputa a grande batalha midiática internacional – única batalha que obrigou os grandes veículos turcos a começar a reconhecer que algo acontece em Istambul.

Erdogan organizou para ele mesmo um banho de massas, na chegada a Istambul, vindo da Tunísia. Dezenas de milhares de pessoas o receberam com ovações no aeroporto, onde falou de prosperidade e democracia.

Dia seguinte, seis jornais turcos publicaram a mesma manchete Erdogan parece pensar que a jogada deu certo. Seu partido anunciou, para a semana que vem, grandes comícios em várias cidades e grandes manifestações em Ancara e Istambul.  

A queda de braço continua. Erdogan começa a pôr suas forças na rua.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Pepe Escobar: Será a vez de “Erdogan-tem-de-partir”?!

3/6/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia também:
- 1/6/2013, redecastorphoto, Muftah (editorial) em: Protestos na Turquia: “Um ciclo crescente de descontentamento”
Pepe Escobar
Primavera Turca? Não. Ou, pelo menos, ainda não. O Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip Erdogan será o novo Mubarak? Não. Ou, pelo menos, ainda não.

A história não se cansa de ensinar que basta uma faísca para incendiar uma fogueira política. A faísca mais recente em Istambul foi um pequeno grupo de jovens ambientalistas, que organizaram uma acampada pacífica, estilo Occupy, na Praça Taksim, para protestar contra a destruição planejada de um dos poucos espaços verdes remanescentes na cidade, o Parque Gezi.

A destruição do Parque Gezi segue um padrão globalmente testado de neoliberalismo: o parque será substituído por um simulacro – no caso turco, uma réplica das tendas da artilharia otomana – que abrigará – e o que seria?! – mais um shopping center. É crucial observar que o prefeito de Istambul, também do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, de Erdogan), é proprietário de uma cadeia de lojas de venda a varejo que reinará, com certeza, no novo shopping center. E o homem que controla o contrato de mais esse “redesenvolvimento” é ninguém menos que o genro de Erdogan.

Como se poderia adivinhar que aconteceria e aconteceu, a repressão policial violenta contra os manifestantes levou os principais quadros do principal partido de oposição a Erdogan, o Partido Republicano do Povo (CHP), a unirem-se aos manifestantes. E, sem demora, o tema “verde” da Praça Taksim foi transformado num “Abaixo o ditador!” à imagem da Praça Tahrir.

Praça Taksim, sábado 1/6/2013
No sábado, a Praça Taksim já estava tomada por dezenas de milhares de pessoas; uma multidão atravessou a pé a Ponte do Bósforo, da parte asiática de Istambul, batendo panelas e frigideiras à imagem do “panelaço” de 2002 na Argentina – numa aberta e declarada violação da lei que proíbe o trânsito de pedestres sobre a ponte. A Polícia, correspondentemente, aprofundou a repressão, com canhões de água, spray de pimenta e gás lacrimogêneo.

A atitude de uma super acovardada televisão turca foi, previsivelmente, horrível – o que surpreende talvez menos, se se sabe que 76 jornalistas estão presos na Turquia acusados de apoiar “o terror” e de outros “crimes” não especificados. Pode ser interpretada também como reflexo do mando absoluto de EUA e OTAN sobre um aliado precioso. Coisa do tipo “OK, quebrem alguns ossos, mas nada de mortos”.

Manifestantes se defendem, com frágeis barricadas, dos ataques da polícia munida de gás de pimenta, gás lacrimogêneo e canhões de água
A mídia impressa fez um pouco melhor. O jornal Hurriyet – que costumava usar suas faculdades críticas – recobrou um pouco da própria dignidade e publicou manchetes como Erdogan já não é intocável. Zaman – da rede do movimento islamista moderado Gulen – divulgou, em editoriais, sua extrema preocupação com o poder ilimitado de Erdogan e de seu partido AKP; condenou o comportamento “excessivo” de ambos e apoiou os protestos de rua.

Enquanto isso, nos EUA e na União Europeia, Ancara não foi, de fato, condenada: só as “preocupações” ocas, superficiais, de sempre. A Turquia, afinal, é o mais recente cenário-país e cartão postal da CNN. Está totalmente presente “nas telinhas”, com mensagem alinhada ao ideário da rede, de ditadura simpática ao neoliberalismo (como as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo). Condenar violentamente e ameaçar com ataques e drones são reações reservadas, com exclusividade, ao Irã e à Síria.

Take it to the bridge[1]

Faz perfeito sentido que tudo tenha começado com o “redesenvolvimento” do Parque Gezi. Mas não passa de pequeno detalhe, num esquema gigante – a quantidade imensa de megaprojetos do Partido AKP por toda a Istambul, que excluem totalmente a opinião da sociedade civil.

A Turquia pode até ter-se tornado a 17ª economia do mundo, mas está crescendo apenas 3% em 2013 (que já é muito melhor que o que se vê na Europa). O partido AKP com certeza percebeu que o milagre econômico à turca tem pés de barro, baseado em produtos de baixo valor agregado, muito dependente de mercados – agricultura, pequena indústria ou turismo.

Multidão de manifestantes atravessa a ponte sobre o Bósforo no domingo, 2/6/2013
É onde entra uma terceira ponte sobre o Bósforo – parte de uma nova rodovia de 260km e US$2,6 bilhões, unindo a Trácia à Anatolia, contornando a metrópole de Istambul; e um dos entroncamentos chaves do Corredor de Transporte Europa-Cáucaso-Ásia [orig. Transport Corridor Europe-Caucasus-Asia, TRACECA], apoiado pela União Europeia.

Nas eleições de 2011, Erdogan abriu sua campanha com o anúncio de um “projeto louco”: um canal de 50 km, do Mar de Marmara ao Mar Negro, a ser concluído em 2023 – centenário da República Turca – ao custo de mais de $20 bilhões. O objetivo não é só descongestionar o Bósforo, mas com a construção de uma terceira ponte e de um terceiro porto, transferir o eixo de Istambul para o norte da cidade, ainda não desenvolvido. O projeto inclui duas novas cidades e um terceiro aeroporto.

O partido AKP apresentou essa política ambiciosa como “transformação urbana”. O pretexto é o risco de um grande terremoto – como o de 1999. Para o que se resume a uma vastíssima bonanza da mais pura especulação imobiliária, Erdogan e o AKP dependem de duas agências do governo, TOKI e KIPTAS – que têm fixados preços altos demais para os turcos médios. O alvo prioritário são as camadas mais altas da classe média – que votam AKP.

O partido AKP é absolutamente obcecado com controlar Istambul – que elege 85 dos 550 membros do Parlamento (Ancara, a capital, elege apenas 31). Erdogan e seus correligionários estão no governo da Grande Istambul desde 1994 (nessa época, como membros do Partido Refah). Erdogan começou a conquistar a Turquia a partir da capital otomana.

Os megaprojetos apadrinhados pelo partido AKP foram concebidos como a mais moderna plataforma a partir da qual projetar a Turquia emergente no rumo da pós-globalização, extraindo o máximo do clichê de “uma ponte entre civilizações”.

Afinal de contas, 50% das exportações turcas originam-se em Istambul.

Multidão. Praça Taksim na madrugada de sábado, 1/6 para domingo 2/6 de 2013
O marketing urbano-político desses megaprojetos condicionará a credibilidade global da Turquia entre os suspeitos de sempre, os “investidores internacionais”. Nada tem a ver com coesão social ou respeito à natureza ou ao meio ambiente. Pode-se dizer, sem exagero, que os homens e mulheres que se reúnem nos movimentos da Praça Taksim compreenderam total e perfeitamente as implicações dessa lógica autoritária de desenvolvimento, sedenta de lucros.

E então?! Quem se candidata a “Amigos da Turquia”?

Recep Erdogan
Erdogan pode até ter admitido, contra vontade, que seus policiais exageraram. Mas o máximo que pode fazer é acusar os manifestantes, dizer que estão ligados “ao terror”, que têm “laços obscuros”. O único objetivo dos “saqueadores” seria roubar votos do AKP nas eleições parlamentares de 2015. Jactou-se de que podia pôr nas ruas um milhão de apoiadores seus, para cada 100 mil opositores. Bom... 5 mil opositores já começaram a apedrejar o prédio de seu escritório em Besiktas.

Os protestos já se alastraram para Izmir, Eskisehir, Mugla, Yalova, Antalya, Bolu, Adana e, até, para tradicionais bastiões do AKP, como Ancara, Kayseri e Konya. A multidão nas ruas conta-se às dezenas de milhares. Se se somam os carros que buzinam e as pessoas que batem panelas das janelas e sacadas dos prédios, em apoio aos manifestantes – como se ouve todas as noites em Ancara e Istambul (até nas pacatas áreas residenciais no lado asiático) – já se pode falar em centenas de milhares.

Não há dúvidas de que o movimento “Praça Taksim/Occupy Gezi/Abaixo o ditador” já se vai expandindo, cobrindo toda uma parte da Turquia secular que se opõe totalmente ao partido AKP e ao mix encarnado em Erdogan: conservadorismo religioso somado a um neoliberalismo linha duríssima, em governo altamente personalizado/ centralizado/ autocrático.

Os turcos seculares veem também claramente que Erdogan tenta extrair o máximo de proveito possível de um nebuloso “processo de paz” com o PKK, partido dos curdos, para obter votos suficientes para um referendo constitucional. Esse referendo apagará da Constituição o sistema parlamentar, para ali instalar um sistema presidencial – muito oportuno, dado que o mandato de Erdogan como Primeiro-Ministro expira em 2015; e ele aspira a continuar ao leme, como presidente.

Erdogan pode ter ainda maioria sólida em toda a Anatolia conservadora. Mas pode, também, estar brincando com fogo. É o homem que, há dois anos, gritava que “Mubarak tem de ouvir seu povo”. E o mesmo deveria fazer também Assad na Síria. Hoje, a maioria dos turcos rejeita completamente o “apoio logístico” que Ancara insiste em oferecer às gangues “rebeldes” na Síria.

A cereja do bolo da ironia, hoje, é Damasco, que já ordenou que Erdogan contenha a violência de sua polícia contra o povo; que ouça “o povo turco”; ou que renuncie.

E agora?! Erdogan implanta uma zona aérea de exclusão sobre Istambul? (Ou a OTAN implanta uma zona aérea de exclusão sobre Erdogan?) Os “rebeldes” turcos receberão apoio direto de Damasco, de Teerã e do Hezbollah? Damasco convoca uma reunião da “comunidade internacional” e cria os “Amigos da Turquia”? 



Nota dos tradutores
[1] Take it to the bridge (Lit.: Leve lá p’ra ponte). É expressão que parece assumir diferentes significados, conforme o contexto em que apareça. Pode significar “[leve para a ponte] para descartar”, “[leve para a ponte] para jogar no rio”. Todas as sugestões de tradução são bem-vindas. A frase aparece, por exemplo, em “Sex machine”, James Brown, 1971 que assiste-se a seguir:


terça-feira, 4 de junho de 2013

Turquia: 240 mil trabalhadores unem-se aos protestos, em mais de 67 cidades

“Agora já estamos num movimento de resistência”

4/6/2013, 18h, The Real News Network [vídeo]
 Traduzido da transcrição e das legendas pelo pessoal da Vila Vudu


SHAGHAYEGH TAJVIDI, Produtor de TRNN: Há dias, o ar que se respira em Istambul cheira a gás lacrimogêneo. A Polícia continua a usar armas químicas, por toda a parte.

Hoje, os levantes entraram em nova fase, quando a Confederação dos Funcionários Públicos da Turquia (KESK) – 11 sindicatos e cerca de 240 mil trabalhadores – declararam-se em greve geral por dois dias. 

A greve, que estava sendo planejada para futuro próximo, em resposta a novas leis de “flexibilização” da legislação trabalhista na Turquia, foi antecipada para hoje, em resposta à brutalidade e às práticas cada dia mais antidemocráticas da polícia do governo de Erdogan.

A agitação começou em Istambul, dia 27 de maio, quando tratores começaram a arrancar árvores na Praça Taksim, no Parque Gezi, local histórico no coração da cidade. Os planos do governo, de construir ali um shopping center, despertaram a indignação popular, e muitos imediatamente e durante a noite, instalaram-se ali, com barracas e para plantar mudas de árvores, em resposta à demolição de um dos últimos espaços verdes remanescentes em Istambul. Começou assim, o que, nos últimos dias, já foi descrito como cenário de guerra.

Mas o protesto também se ampliou: é hoje movimento de resistência, bem maior e mais radical que modesto ato para proteger parques e árvores.

ADVOGADA, ISTAMBUL (legendas traduzidas): O que posso dizer é que enfrentamos um déspota, governo desrespeitoso, que absolutamente não se interessa nem ouve o povo e nossas ideias. Religião e democracia, para eles, são instrumentos. Com o que está acontecendo aqui, se vê, definitivamente, que não há democracia alguma nesse governo. A imprensa nada diz. Quem fala, é posto na cadeia. Todos nossos generais estão na cadeia.

YASEMEN, MANIFESTANTE: Como é possível?! Mas você viu como tudo começou? As pessoas estavam sentadas, lendo livros! Estavam conversando, na Praça Taksim. E de repente, pelas 5h da manhã, foram atacados pela Polícia, sem aviso – nem avisaram, ninguém disse “saiam, ou usaremos gás lacrimogêneo contra vocês”. Nada, primeiro lançaram as bombas de gás, depois os canhões de água sob pressão. Eles agiram como se... tudo aqui fosse gravíssimo.

ADVOGADO: Como advogado, posso dizer que não há legitimidade nesse comportamento da Polícia. Atacaram o povo, sem que a Polícia fosse sequer provocada. Usaram porretes e força excessiva, e bateram com tal fúria, que podiam ferir braços, pernas, até matar. É ação muito perigosa.

TAJVIDI: Os atuais protestos lançaram luz diferente sobre o governo do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan. A repressão violenta contra os cidadãos, nessas manifestações, não foi notícia nos canais comerciais de televisão. Mostraram, no mesmo horário, o concurso de Miss Turquia e programas de culinária.

Para informar-se sobre as manifestações, as pessoas tiveram de usar seus próprios meios – conectaram-se pelas mídias sociais e procuraram informação em veículos fora da Turquia, tudo para escapar da muralha de censura interna e dos repetidos “apagões” nas redes 3G na área de Taksim.

O canal The Real News Network conseguiu conectar-se por algum tempo com um ativista que estava em Taksim, embora a conexão estivesse muito instável e quase inaudível.

TANYEL, NOS PROTESTOS EM TAKSIM (legendas traduzidas): Quero destacar que o governo Erdogan e sua Polícia atacaram indiscriminadamente o povo, que estava em posição muito vulnerável. A Polícia lançou muitas granadas de gás lacrimogêneo, sem qualquer distinção, contra crianças e outras pessoas vulneráveis. Nesse momento, há centenas de feridos nos hospitais.

A mídia turca tentou cobrir os protestos. Mas não se viu nenhuma notícia nos canais turcos de televisão, desde a noite passada. Só exibiram programas sem importância.

Mas as mídias sociais ajudaram, Twitter e Facebook, e as pessoas conseguiram informar-se e vieram para cá. A manifestação só aconteceu por causa das pessoas, nas mídias sociais. Todos trataram de mostrar o que estava acontecendo para toda a Turquia. Trata-se de muito mais do que de proteger o Parque Gezi. Trata-se de uma batalha entre o governo da Turquia e os jovens turcos. O pessoal quer que Tayyip e seu governo renunciem imediatamente. Agora, estamos já num movimento de resistência.

TAJVIDI: Apesar de ter chegado ao poder com promessas de prosperidade econômica e democratização, há dez anos, e apesar de sempre ter contado com apoio popular, o partido Justiça e Desenvolvimento de Erdogan, o AKP, também enfrenta crescente descontentamento, e não por poucas razões. Para começar, o governo de Erdogan mantém a mídia sob um dos mais duros regimes de censura em todo o mundo. Em 2012, a Comissão de Proteção de Jornalistas divulgou que a Turquia aparecia em primeiro lugar na lista de países que tem o maior número de jornalistas presos, à frente da China e do Irã.

Desde 2009, o Partido AKP iniciou investigações contra a União da Comunidade Curda, investigações mediante as quais, o governo tomou por alvo intelectuais, jornalistas e estudantes. O governo alegou que seriam medidas para prevenir ações terroristas, e que atingiriam todos os partidos que tivessem qualquer ligação com a ala urbana do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Fontes independentes em Istambul estimam que essas investigações tenham levado mais de 3 mil pessoas à prisão.

Pouco antes do levante do Parque Gezi, o partido governante, AKP, foi duramente criticado por medidas para proibir a venda de bebidas alcoólicas em estabelecimentos abertos ao público. Embora essas leis ainda não sejam vigentes, ficou bem claro que seria a mais nova ameaça do governo religioso de Erdogan, contra a Turquia secular. O conservadorismo religioso de Erdogan, aliado ao autoritarismo crescente e à intolerância à crítica ou a opiniões diferentes da sua, culminam, agora, em demonstrações de massa, gigantes, por todo o país.

BARIS KARAAGAC, professor, Universidade TRENT: O neoliberalismo crescente, a comercialização das relações sociais na Turquia, é outra razão pela qual, agora, a população está tomando as ruas. É processo que já se vê em andamento há dez anos, desde que o governo AKP chegou ao poder. Esse processo está avançando à custa de prédios históricos, por exemplo. Todos esses fatores operaram como catalisadores. Agora, muitas pessoas decidiram reagir contra o governo de Erdogan, do AKP.

TAJVIDI: E são muitas as pessoas que estão tomando as ruas, já em 67 cidades, em todo o país. Um dos aspectos mais interessantes é a diversidade das pessoas e grupos que se vão unindo aos levantes populares de resistência. O que se vê é que as políticas de Erdogan tiveram efeito polarizador, numa sociedade turca já dividida.

Esta rede The Real News falou com ativistas em Istambul, que comentaram os traços diversos e complexos das multidões nas ruas e suas demandas.

ALP, ATIVISTA (legendas traduzidas): Os primeiros a aparecer nas manifestações foram artistas, gente de vários partidos, de associações, instituições e dos sindicatos. Mas ontem à noite, depois das 19h, o movimento já era público. Só está sendo possível, porque todos distribuem e recebem informação pelas mídias sociais. Acho que a maioria aqui não é gente de partido político, sindicato ou associação. O que se vê aqui são estudantes, professores, médicos, advogados.

YASEMEN: Ontem vi gente que sempre apoiou o AKP, que realmente votou no AKP. E estavam protestando na rua, ali, ao meu lado. Muita gente com véu. Isso é muito importante. Há muitos religiosos que também nos apoiam.

TAJVIDI: Ainda é muito cedo, é claro, para saber a que levará essa resistência, o que conseguirá, se a luta gerará benefícios já em 2014, ano em que haverá a primeira eleição presidencial, com voto direto, na Turquia. Com a ambição de Erdogan, que desejava reconstruir todo o sistema eleitoral, ameaçado agora pelos eventos dos últimos dias, observadores perguntam se Erdogan fará concessões e se o movimento popular nas ruas conseguirá alterar a correlação de forças entre Erdogan e sua tradicional base eleitoral.

KARAAGAC: O que já se vê bem claramente é que o governo percebeu que, doravante, não poderá continuar a agir protegido pela impunidade total, sem dar qualquer atenção à oposição popular. Até agora, sempre agiu assim. Mas o povo, ou parte muito ativa do povo, já disse “Basta!”.


TAJVIDI: Para a rede The Real News Network, Shaghayegh Tajvidi.
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Ver também:
1/6/2013, redecastorphoto, Muftah (editorial) em: Protestos na Turquia: “Um ciclo crescente de descontentamento"