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domingo, 10 de maio de 2015

Novo livro de Jean-Luc Mélenchon e o Arenque de Bismark

7/5/2015, Editora Plon; Paris
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Comentários sobre o livro O Arenque de Bismark (O veneno alemão)

Primeiro, sobre o tal “Arenque de Bismarck”:


Arenque de Bismarck para François Hollande
17/4/2014, Brice Gruet, Géographies imaginaires/ Insolite (Comentário)

Na foto acima, François Hollande exibe sua barriquinha de arenques, visivelmente felicíssimo, ao lado de Angela Merkel (Foto Bundesregierung/ Bergmann).

Le Canard enchaîné dessa semana chamou atenção para uma incongruência cultural, em relação à qual se pode perguntar até que ponto foi desejada ou não... Conjecturas, essas, podem ir bem longe.

O que se sabe com certeza é que Angela Merkel recebeu em suas propriedades do Báltico, para uma visita “privada”, o presidente François Hollande. E a chanceler ofereceu uma barriquinha de arenques à Bismarck ao presidente da França. Hollande achou “maravilhoso” o presente.

Sem dúvida, o arenque bem preparado é ótimo, e o Báltico é farto desses peixes que são, em seguida, marinados em salmoura. O arenque foi produto importante durante todo o período medieval, notadamente nas Repúblicas Hanseáticas do norte da Europa. Durante a quaresma, e nos dias de jejum da cristandade, o consumo de arenque sempre foi considerável. Como o bacalhau nos países mais ao sul. Como se aprende de La Voix de la Russie, “a preparação tradicional alemã ‘arenques à Bismarck’ (em alemão Bismarckhering) parece ser a mais conhecida. O peixe é preparado em pequenos pedaços e marinado em sal, vinagre, cebola, grãos de mostarda e louro. Às vezes acrescenta-se cenoura cortada em cubinhos bem pequenos.

“Se o arenque fosse caro como caviar, o mundo inteiro preferiria o arenque” – dizia Bismarck, louco por arenque. Uma das versões reza que um vendedor de peixes de Stralsund, Johann Wihman, enviou em 1871 a Bismarck uma barriquinha de arenque especialmente preparado, e que o chanceler tanto apreciou, que autorizou que a preparação levasse seu nome, “arenque à Bismarck”. Segundo outras versões, um proprietário de restaurante de Flensburg foi quem enviou os arenques a Bismarck. Seja que tenha sido, a glória do arenque atravessou fronteiras nacionais. O autor de um livro de gastronomia publicado pela primeira vez em New York em 1913 escreveu: “provavelmente a glória de Bismarck estará já esquecida há mil anos, mas o arenque à Bismarck será servido até que esse peixe desapareça dos mares”.

Agora, em 2014, a Merkel oferece uma barriquinha de arenques à Bismarck a Hollande... Que sentido terá esse gesto que remete a episódios tão sombrios da história da França? Bismarck para os franceses está mais associado ao imperialismo e ao pangermanismo alemão, aos quais a Alsace Lorraine pagou alto preço. Ao mesmo tempo, todos os homens importantes (Bismarck é um desses) deixaram marcas na gastronomia de seu tempo. Se Hollande aceitou o presente foi, talvez, porque aquela época de guerras está suficientemente distante para que a carga negativa do personagem já esteja atenuada. Sobre a França, os alemães dizem Glücklich wie Gott im Frankreich, “Feliz como Deus na França”. Existe uma geopolítica culinária” (Geographica). (Da qual o sorrisinho zombeteiro da chanceler alemã naquela foto, parece fazer prova [NTs]).




Ontem, 5ª-feira, 7 de maio de 2015, a editora Plon lançou o novo livro de Jean-Luc Mélenchon, intitulado Le Hareng de Bismarck (Le Poison allemand) [O arenque de Bismarck (O veneno alemão)]. Eis o que o autor escreveu na quarta-da-capa:

Esse livro é um panfleto. Assumo para mim o direito de criticar a Alemanha. Por que não? Não viram como a Alemanha tratou a Grécia? Aperitivo para o que fará com a França? Nesse livro denuncio o grave perigo em que a Alemanha converteu-se para seus vizinhos e parceiros. Denuncio a arrogância dos banqueiros alemães e o dito “modelo” que a Alemanha quer impor à Europa para vantagem exclusiva da própria Alemanha. Mostro o quanto de atraso para nossa civilização implicará nos rendermos ao “modelo” alemão. É um alerta. Além-Reno nasceu um monstro: filho da finança completamente desregulada e de um país dedicado integralmente à finança, necrosado pelo envelhecimento acelerado da população. Essa aliança macabra está em campo, para remodelar a Europa à feição dela.

É fato que a Europa vai mal. O veneno alemão é o ópio dos ricos. Mudar nossa vida e fazer a Alemanha mudar é uma e a mesma coisa. Para Jean-Luc Mélanchon, da Frente de Esquerda (Front de Gauche), “É preciso fazê-lo, antes que seja tarde demais”. 

Atualização: Entrevista Jean Luc Mélenchon a Emmanuel Berretta do Le Point

Jean-Luc Mélenchon
Para a revista Le Point, o livro é mesmo um panfleto: “O líder da Frente de Esquerda ataca o modelo alemão, em livro que, simbolicamente, será lançado dia 7 de maio”. [1] Aqui, Mélenchon responde perguntas da revista Le Point, sobre seu livro.

Le Point: Em política é preciso ter sempre um inimigo. Nesse panfleto “O arenque de Bismark”, o senhor designa o seu novo inimigo: os alemães. Por que a mudança? Por que os alemães, não mais os EUA?

Jean-Luc Mélenchon: Calma lá! Devagar com o andor... Nada disso. Meu estado de espírito não é esse. Não me oponho a algum ‘genoma’ alemão que os empurraria a sempre querer dominar. Quanto a inimigos, tenho inúmeros! O que não me falta é inimigo. Meus inimigos são os mesmos de antes: a finança e o produtivismo. A questão é que a Alemanha tornou-se a ‘vanguarda’ da finança e do produtivismo! Para começar, não apenas a Europa não é mais o grande projeto social com o qual sonhávamos: a Europa já não é sequer garantia de paz. 


Isso, porque, no concerto das nações, uma delas, a Alemanha, toma a frente dos demais e impõe um modelo econômico, o ordoliberalismo.

O ordoliberalismo serve aos interesses da Alemanha, mas conduz inelutavelmente à catástrofe. Meu livro é um grito de alerta. A Europa vai afogar-se na violência dentro de cada país e também entre os países. O suplício da Grécia está aí, como prova.

Le Point: E o que é o ordoliberalismo?

Jean-Luc Mélenchon: Os alemães inventaram essa velha teoria. Segundo ela, a política é frivolidade, e a economia é sagrada. São consagradas portanto, como intocáveis, as regras econômicas; são consideradas como leis da natureza. Assim sendo, as leis econômicas são postas fora do alcance das decisões políticas. Na realidade, é uma espécie de embalagem para um egoísmo bem preciso de classe média. Mme Merkel governa um país que está em pane demográfica. A maioria dos eleitores dela são aposentados! A aposentadoria por capitalização, dos idosos alemães, exige a cada dia mais dividendos. Quer dizer: menos salários e menos investimentos. Reina a finança! A finança domina o capitalismo alemão, graças à desregulação total organizada pelo Partido Socialista alemão: é desregulação plena, total, o cúmulo.

Le Point: Daí a regra de ouro dos déficits?

Jean-Luc Mélenchon: De manter os níveis determinados para os déficits, sim, é isso. Mas além disso, o dinheiro é fetichizado, a inflação e a dívida são demonizadas. É uma visão dogmática muito enviesada. Os líderes alemães a assumem sem se darem conta do que estão fazendo. Por isso aquele odioso ministro alemão da Economia, M. Schäuble, declara que “a França gostaria muito de que alguém mandasse no Parlamento...” e, na sequência, lastima: “mas não será possível. É a democracia”.

Essa frase é como um manifesto do ordoliberalismo: a democracia é um problema para eles, porque a democracia permite que o político desminta e renegue o dogma econômico. A França, sua história, a cultura francesa são o contrário do ordoliberalismo: todas as nossas constituições republicanas “intrometem-se” na economia. Por que a França deveria renunciar ao nosso modelo?

Aos meus olhos, o modelo francês é superior ao modelo alemão, no que tenha a ver com organizar a vida humana em sociedade. O ordoliberalismo é antirrepublicano. Ele destrói os laços sociais e a vida cívica.

Le Point: Pierre Moscovici diz que o senhor comete um contrassenso. Para ele, Schäuble não falava a sério, era brincadeira...

Jean-Luc Mélenchon: O servilismo de Pierre Moscovici dá vergonha.

Le Point: Desculpe, mas os alemães não nos impõem coisa nenhuma. Já há nove anos nós respeitamos a regra dos 3% de déficit. Quer dizer: os franceses damos alegremente as costas ao ordoliberalismo.

Jean-Luc Mélenchon: É incrível isso que você está dizendo. Quer dizer que tratados inaplicáveis deveriam ser considerados santificados? Tratados são assuntos humanos. É preciso discutir o conteúdo dos tratados em relação aos resultados deles. A Europa estamos nadando em felicidade? Não, não estamos. O desemprego e a miséria martirizam massas humanas consideráveis. Por todos os lados a extrema direita está em ascensão. E a Alemanha acumula os excedentes comerciais. E o que faz com eles? Ela põe os excedentes nos mercados financeiros, porque a Alemanha sufocou, em toda a Europa, a atividade econômica. Ao fazê-lo, a Alemanha alimenta ela mesma a bolha financeira que logo, logo, explodirá. Aí está: bom-dia, modelão.

Le Point: Passa pela sua cabeça realmente que François Hollande possa vender aos alemães o modelo francês?

Jean-Luc Mélenchon: Não. François Hollande mudou de lado. Ele governa para o ordoliberalismo. Os franceses não sabiam que, votando em Hollande estavam elegendo Merkel. Ele até já confessou: “A França quer ser o melhor aluno na sala de aula europeia”. Para mim, a França não é aluna de ninguém e muito pode ensinar a outros. E, em vários assuntos, melhor que seja a mestra.

Le Point: Quem lê o que o senhor escreveu, deduz que os alemães reivindicam uma reputação de seriedade a que não fazem jus.

Jean-Luc Mélenchon: Os franceses adoram modas, ondas sucessivas de “modelos”. Já tivemos a moda dos “dragões asiáticos”, depois dos “tigres europeus”, como Irlanda ou Espanha. Todos tigres de papel, isso sim, que naufragaram na explosão da bolha financeira em 2008. E agora aí está o “modelo alemão”, eficaz, disciplinado. Que ilusão!

A economia alemã está dilapidada. Infraestrutura e equipamentos públicos em ruínas, 12 milhões de pobres, cada vez menos crianças, jovens que se mudam do país, velhos que ficam para trás e expectativa de vida cada dia menor, quem quer ser alemão? Meu livro retoma o debate europeu.

O que se anunciava é que faríamos a Europa, sem desfazer a França. O que se vê hoje é que se desfaz a França, sem fazer a Europa dos seres humanos. A Alemanha nos domina, nos corrige, nos separa de nossas bases mediterrâneas. O que resta? Só um grande mercado que nega nosso modelo colbertista, que é nosso patrimônio. Na França, o empresário vive à frente do pelotão posto ali pelo Estado. Quando se tentam as fusões, é o estado que toma as rédeas do processo. E hoje temos 50% do mercado mundial. Não há uma única medida europeia bem sucedida que, na origem, não seja francesa. Nenhuma. A Alemanha nos faz afundar.

Le Point: O senhor dá a impressão que a França nada mais tem a fazer com a Alemanha...

Jean-Luc Mélenchon: Não, não digo isso, nem nesses termos. Seja como for, a Alemanha está aí. Mas não podemos aceitar que nos domine. Meu livro mostra os abusos de poder. E a mania de impor aos demais o que a Alemanha ache bom para ela. A saída razoável não é entrar em luta, mas pôr a Alemanha no lugar dela. E fazer ouvir, sem complexos, nossa mensagem francesa universalista.

O aposentado alemão não é o único do mundo; e é preciso levar em conta a sorte dos jovens franceses, dos jovens de todo o planeta. A Europa é a primeira potência econômica do mundo. Isso nos impõe responsabilidades. O ordoliberalismo alemão não permite que assumamos as nossas responsabilidades. Nenhuma delas.
___________________________________________________

Nota dos tradutores

[1] Dia 7 de maio de 1945 o exército alemão assinou a rendição militar. Dia seguinte, na noite de 8 para 9 de maio de 1945, à 0h16 na Rússia (23h16 no ocidente), na vila de Karlshorst, quartel-general do marechal Georgi Joukov, nos arredores de Berlim, onde é hoje o museu germano-russo Berlin-Karlshorst, foi assinada a rendição incondicional do 3º Reich às forças aliadas). O ato de capitulação entrou em vigor às 23h1, hora local (na Europa Central), dia 9 de maio, 1h1, hora de Moscou. Por essa razão, toda a Europa Oriental comemora o fim da guerra no dia 9/5 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Problema de Moscou: lidar só com IMBECIS e VASSALOS


10/2/2015, [*] Finian CUNNINGHAM, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na casa da Neneca, vizinha nossa aqui na sede da redecastorphoto: Dilma Rousseff do Brasil tem o mesmíssimo problema de Putin (Moscou). “Lidar só com IMBECIS e VASSALOS” a serviço do império, tanto da oposição (o que era de se esperar) como da imprensa−empresa do Brasil (o que também era de se esperar) como no PT e da base aliada — o que, embora não seja inesperado, chega às raias do RIDÍCULO... O que o Janot foi fazer nos EUA? E o Joaquim Barbosa, que também foi aos EUA durante o julgamento do chamado “mensalão”? Foram lá receber ORDENS de seus PATRÕES? Cadê as investigações do ASSASSINATO do Eduardo Campos? A CIA “embargou”?


Hollande, Putin e Merkel em Moscou 
A Rússia está num dilema. Como conseguir construir acordo de paz para o conflito na Ucrânia – e evitar guerra muito maior e mais terrível – se é obrigada a comunicar-se exclusivamente com IMBECIS e VASSALOS? Refiro-me aqui, claro, aos líderes norte-americanos e europeus respectivamente.

O problema de tentar conversar com IMBECIS é que eles simplesmente não compreendem coisa alguma do lado de fora da própria obtusa realidade em que vivem. Padecem de dissonância cognitiva e orgulham-se da própria ignorância. De fato, quanto mais disfuncionais no plano cognitivo, mais os IMBECIS são celebrados por serem fortes. Não há meio que permita ilustrar IMBECIS; o modo estúpido e tedioso de eles olharem o mundo é impenetrável para qualquer perspectiva diferente, ainda que mais correta. Na verdade, os IMBECIS têm aversão visceral a coisas mais corretas que eles; é ver coisa mais correta, e eles fincam pé ainda mais fundo na própria imbecilidade.

O problema de lidar com VASSALOS é que eles não têm poder para mudar de rumo – ainda que lhes reste alguma capacidade residual de pensar com independência e reconhecer que alguma outra perspectiva, diferente da deles, seja mais correta ou, pelo menos, que é razoável e merece consideração.

Eis o dilema que a Rússia enfrenta, nos contatos com Washington e aliados-VASSALOS europeus de Washington, sobre o conflito na Ucrânia.

O Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, falando em Munique no fim de semana passado, lamentou a nenhuma independência para decidir dos europeus, e chamou atenção para o sistemático vandalismo de Washington contra a ordem internacional legal. Lavrov foi criticado por se atrever a dizer a verdade e, ainda mais, por ser capaz de usar a lógica e muito conhecimento histórico, para apoiar seus argumentos.

Sergey Lavrov, MRE da Rússia
Onde Lavrov propõe diálogo racional, o imbecilismo dos líderes norte-americanos só repete frases feitas e acusações sem fundamento. São “educados” pela sua própria propaganda de autopromoção, e creem em cada sandice que a propaganda lhes ensina. E orgulham-se de si mesmos! God bless America – como nunca se cansa de repetir Barack Obama, conhecido clérigo fundamentalista e pregador da religião de Wall Street.

É absolutamente evidente que o Presidente dos EUA, apresentado sempre como um dos mais ilustrados e cultos políticos da história dos EUA, conhece os fatos no mundo real e sabe que, diferente da narrativa deformada que circula produzida para as massas, o conflito na Ucrânia não é “tudo culpa da Rússia”, como repetem incansavelmente todos os veículos da imprensa-empresa Murdoch-capitalista.

Pois o mesmo Obama, falando com a chanceler alemã ao seu lado, na Casa Branca, essa semana, disse que considera enviar armas letais para  o governo de Kiev, “para ajudar a Ucrânia a reforçar suas defesas contra a agressão separatista”. Obama acusou a Rússia de incendiar sempre mais o conflito e de tentar violar a integridade territorial da Ucrânia “em ataque à mão armada”.

Aqui, agora, de volta ao mundo real. Russos étnicos estão sendo assassinados dentro de casa, em porões, em escolas, pelas ruas, pelo regime de Kiev que o ocidente apoia. O governo de Kiev que o ocidente apoia lançou guerra não provocada contra o leste da Ucrânia há já dez meses, que já resultou em mais de 5.500 mortos e mais de um milhão de deslocados. E Obama ainda fala de “agressão separatista”?! E quer mais armas letais para os agressores?!

E de Obama para baixo, na grade política, a coisa só piora. O Vice-Presidente Joe Biden disse na conferência de segurança de Munique, semana passada, que “os ucranianos têm o direito de se defenderem”, e assim sendo os EUA devem enviar apoio militar para expulsar “a agressão russa”.

Ora, Sr. Biden... O que o senhor teria a dizer sobre o direito de os russos ucranianos étnicos também se defenderem? Por que o senhor lhes nega o direito de defesa? Por acaso não são ucranianos? Ou, quem sabe, o fato de serem etnicamente russos os torna inferiores aos olhos dos EUA?!

Outro, a mais alta autoridade diplomática dos EUA, John Kerry, supostamente homem civilizado, cosmopolita, poliglota, lá está, a repetir também as mesmas imbecilidades, sem qualquer fundamento, só frases de propaganda, sempre acusando a Rússia. Para Kerry, a Rússia seria “a mais grave ameaça que pesa contra a Ucrânia”. Kerry também só fala de enviar armas letais à Ucrânia, para dar uma lição aos russos.

A lista dos repetidores dos mantras de propaganda anti-Rússia é longa: Ashton Carter, próximo Secretário da Defesa. Michel Flournoy, provável Secretário de Defesa, caso Hillary Clinton chegue à presidência em 2016. Bobby Jindal, aspirante à candidatura à presidência pelo Partido Republicano. Bob Corker, coordenador de política exterior do Partido Republicano. Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, general Martin Dempsey. Vários “especialistas” em política exterior dos EUA no Brookings Institute e no Atlantic Council. Todos os editorialistas dos grandes veículos da imprensa-empresa nos EUA, inclusive do New York Times e Washington Post.


TODOS esses só fazem repetir, sem se envergonhar e sem baixar os olhos, que o conflito da Ucrânia ‘'É'’ resultado de agressão russa; e que entregar armamento letal em mãos dos fascistas do governo em Kiev “É” magnífica ideia para promover a paz. Todos esses vivem a regurgitar um arremedo de história, segundo a qual o Presidente Vladimir Putin da Rússia “É” “ditador à moda dos ditadores de meados do século XX”, da mesma linha “expansionista” que Adolf Hitler ou Benito Mussolini.

NENHUMA DESSAS AUTORIDADES NORTE-AMERICANAS mostra qualquer remoto sinal de que compreende que o fascismo de meados do século XX foi estimulado, fomentado, por uma política clandestina das potências capitalistas ocidentais para atacar a União Soviética. E resultou, então, em 30 milhões de russos mortos. Essa política prossegue hoje, sob a modalidade de apoio, pelos EUA, ao regime neonazista de Kiev, como agente de desestabilização, a ser apontado como arma contra a Rússia.

O mais assustador, sobre os IMBECIS norte-americanos, é que não dão qualquer sinal de incômodo por serem manipulados, vítimas, há décadas, de lavagem cerebral. São clones orwellianos que creem que guerra é paz, escravidão é liberdade, verdade é qualquer mentira que lhes contem como se fosse verdade.

Os políticos e autoridades norte-americanas presentes à Conferência de Segurança de Munique fizeram pouco caso dos esforços de Merkel e Hollande para iniciar um diálogo político com Putin sobre a crise da Ucrânia. Para os norte-americanos presentes em Munique, a coisa não passaria de bullshit. (Aquela merda da Merkel em Moscou, nas palavras da sempre “brilhante” Victoria “Foda-se a EU” Nulands, principal diplomata de Obama na Europa [NTs]).

Putin−Merkel−Hollande propõem dar continuidade às conversações de Moscou no final de semana passada, com novo encontro em Minsk, capital da Bielorrússia, ainda essa semana. Absolutamente nada garante que Putin, Merkel e Hollande consigam que o regime de Kiev aceite sentar para conversar com a resistência armada anti-Kiev do leste da Ucrânia. Os norte-americanos, IMBECIS, tresloucados, buffoons, ensandecidos, estão fazendo de tudo para boicotar esse diálogo, antes mesmo de que tenha qualquer chance de avançar.

Diferente do que se vê entre os norte-americanos mais enlouquecidos, há novo consenso entre os europeus, de que pôr ainda mais armas na Ucrânia não é solução, que, de fato, é movimento a ser evitado, e que a resistência armada anti-Kiev tem direito de reivindicar autonomia política e merece ser ouvida com respeito.

Os europeus, pelo menos publicamente, podem continuar a adotar a narrativa jornalística, repetida incansavelmente pela imprensa-empresa liberal em todo o ocidente, segundo a qual a Rússia estaria clandestinamente desestabilizando a Ucrânia com soldados e ajuda militar à resistência anti-Kiev. Moscou já negou categoricamente essas acusações. Mas os europeus têm suficiente requinte intelectual para, pelo menos, perceber que viver a apontar dedos histéricos contra Putin é contraproducente, e que evidentemente há mais de um lado a considerar nessa história – como em todas as histórias.

A Europa e os europeus...
Diga-se a favor dela, que Angela Merkel mantém-se firme na oposição à ideia dos EUA de aumentar o envolvimento militar do ‘'ocidente'’ na Ucrânia. Em Washington, essa semana, Merkel descartou categoricamente qualquer possibilidade de vir a apoiar o envio de mais armas para a Ucrânia. A oposição de Merkel às propostas dos EUA foi ridicularizada por senadores Republicanos (“Merkel afinou na frente de Putin” [orig. “appeasement” of Putin]) e analogias asininas com Chamberlain e Hitler na Conferência de Munique de 1938.

Já basta, para se ver que é impossível lidar com os IMBECIS norte-americanos. É gente que habita outro planeta mental, só deles. É mundo formado de propaganda a-histórica incansavelmente repetida e da atitude mais atrasista que se pode conceber, que torna impossível, ou praticamente impossível, qualquer diálogo, qualquer contra-argumentação, qualquer tentativa para elucidação socrática. A arrogância e o “autismo”, a autorreferência pervertida dessa gente é uma arte – e são obstáculos eficazes contra qualquer genuína comunicação e entendimento. [“Vocês piraram, seus viadinhos comunistas putinescos?” – como nos perguntam pelo Twitter “intelectuais” do PSDB-DEM (NTs)].

E como seria possível conversar com gente assim? Não é possível. Ninguém consegue.

Mas há ainda o problema adicional de que os europeus não são livres para realmente agir conforme suas incipientes ideias de independência. É claro que Merkel e Hollande, e vários outros líderes europeus sabem que os planos dos EUA de inundar a Ucrânia com armamentos ainda mais letais é ideia macabra, que pode bem rapidamente levar à IIIª Guerra Mundial. É claro que muitos europeus entendem e percebem que as sanções comandadas pelos EUA contra a Rússia não são apenas contraproducentes: que de fato são irracionais, que são política hostil que agride trabalhadores, o agronegócio e a economia da Europa, no mínimo tanto quanto agride a economia da Rússia.

O fato realmente problemático é que os estados europeus são VASSALOS dos EUA. Que não são estados livres para agir conforme outra orientação que não seja a ditada por Washington, por estúpida, violenta, perversa, mortal que seja a política de Washington. A Alemanha é considerada a usina da Europa e a 4ª maior economia do mundo. Pois mesmo assim, como o analista político alemão Christof Lehmann nos lembra, a Alemanha jamais teve genuína independência política – desde o final da IIª Guerra Mundial. Não tem Constituição que modele um estado moderno e continua ocupada por forças militares dos aliados “vitoriosos” dos EUA e britânicos:

A Alemanha na verdade não passa de colônia, de facto, dos EUA. A qualquer momento, sob as leis do pós-guerra, tropas dos EUA podem derrubar o governo (“mudar o regime”) da Alemanha – o que define tecnicamente e legalmente um estado ocupado, um estado vassalo, diz Lehmann.

Angela Merkel, ESPIONADA por seu "aliado" 
A espionagem feita pela Agência de Segurança Nacional dos EUA contra a chanceler Merkel e revelada ao mundo em 2013 por Edward Snowden, é caso perfeitamente claro. Mais eloquente ainda, é que Merkel não respondeu a essa gravíssima agressão à “soberania” alemã com a força política que os norte-americanos agressores mereciam. Ela caninamente teve de aceitar a intrusão, que é legal, sob as condições da hegemonia pós-guerra dos EUA sobre a Alemanha.

Lehmann chama também a atenção para como outros movimentos passados da Alemanha, para criar uma política externa independente, e um movimento em especial, que envolve reaproximação com a Rússia, foram atacados e vetados serialmente pelos EUA e seus aliados britânicos.

Durante os governos dos chanceleres Willy Brandt e Gerhard Schroeder, todos os esforços feitos para adotar relação mais amistosa com a Rússia foram sempre sabotados, passo a passo, por Washington e Londres, diz Lehmann.

Eis por quê Merkel merece muito respeito e crédito por ter mantido posição firme contra o militarismo norte-americano na Ucrânia. Sua dissidência é altamente significativa de que, sim, há uma fissura considerável nas relações EUA−União Europeia. A chanceler Merkel está muito claramente atropelando uma “linha vermelha” fixada por Washington, a saber: que estados europeus, especialmente a Alemanha, não podem, não devem, não se admite, que questionem a hegemonia dos EUA e sua política, já antiga, de hostilidade contra a Rússia.

Merkel e Hollande podem, afinal, estar captando a mensagem que lhes enviam milhões de cidadãos da União Europeia, que se opõe firme e fundamente contra as provocações belicistas dos EUA contra a Rússia, à custa dos cidadãos europeus.

Sinto muito, Barack, mas Vladimir tem músculos maiores e não apenas orelhas grandes e protuberantes
Infelizmente, dada a tradição de VASSALAGEM dos europeus e a IMBECILIDADE impenetrável dos norte-americanos, continua remota a chance de que se encontre alguma abertura para que se construam relações de paz. As lideranças europeias continuam encabrestadas, montadas sob a rédea de Washington.

Mas, afinal, parece que as massas europeias desgostosas, iradas, indignadas, começam a forçar na direção do rompimento desses laços IMBECIS.


[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Fraturas na Europa

●− França pivoteia-se para Putin,
●− Chipre oferece a Moscou uma base militar,
●− Alemanha−EUA racham por causa da Ucrânia

8/2/2015, [*] Tyler Durden, Zero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Frank-Walter Steinmeier (E) e John Kerry
Depois do sumário, ontem, da imensa farsa em que se converteram as conversações “de paz” da Cúpula Minsk/Ucrânia, as várias partes envolvidas parecem estar-se separando, ainda mais rapidamente fraturadas hoje [domingo, 8/2/2015].

As manchetes sucedem-se rápidas e gordas, mas as mais acertadas parecem ser: Apesar de John Kerry persistir em surto de negação de qualquer separação entre Alemanha e EUA sobre os EUA fornecerem armas à Ucrânia, o Ministro alemão de Relações Exteriores Steinmeier denunciou a estratégia de Washington como “não apenas temerária, mas também contraproducente”.

Ainda mais significativo parece ser o continuado pivoteamento da França na direção dos russos...

Depois de François Hollande ter exigido maior autonomia para o leste da Ucrânia, também o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy veio a público em declarado apoio à Rússia (e especificamente contra os EUA): “somos parte de uma civilização comum com a Rússia” – e acrescentou que “os interesses dos norte-americanos com os russos não são os interesses de Europa e Rússia”. Até a OTAN parece ter desistido de qualquer esperança; as declarações de Stoltenberg mostram pouco otimismo; e a decisão de Chipre, de autorizar a Rússia a usar o solo cipriota para instalação de bases militares sugere que as coisas absolutamente não vão bem na “união” europeia.

Angela Merkel e François Hollande 
O Ministro alemão de Relações Exteriores repicou hoje, sobre a posição alemã de rejeitar entregas de armas à Ucrânia, em discurso no domingo...

● GABRIEL DIZ QUE ALEMANHA NUNCA APOIARÁ O FORNECIMENTO DE ARMAS À UCRÂNIA

● A EUROPA VÊ COMO MÁ IDEIA A ENTREGA DE ARMAS À UCRÂNIA: LAVROV

“Considero a ideia não apenas temerária, mas também contraproducente” – disse o ministro Steinmeier na Conferência de Segurança de Munique. Steinmeier também reagiu contra as críticas de senadores e outras autoridades norte-americanas, no domingo, à posição da Alemanha sobre fornecimento de armas. A Casa Branca continua a falar sobre entregar armas à Ucrânia, em apoio ao governo de Kiev, no leste do país.

“É possível que insistamos tanto porque conhecemos bem a região”, disse Steinmeier.

Mas para John Kerry... nada disso! Tudo vai esplendorosamente bem... E ele nega qualquer divergência entre Europa e EUA na política para a Rússia.

O Secretário de Estado John Kerry negou, nesse domingo, qualquer divisão entre EUA e Europa sobre como lidar com a Rússia, no momento em que a Alemanha anunciava outra reunião de alto nível organizada para controlar a crise na Ucrânia.

Kerry disse em conferência de segurança a Munique que “posso assegurar a todos que não há qualquer divisão, não há ruptura alguma” entre Washington e seus aliados europeus, em torno da crise na Ucrânia.


“Estamos unidos, estamos trabalhando em íntima união” – disse Kerry à conferência, depois de reuniões com seus contrapartes francês e alemão. “Todos concordamos com que esse desafio não terminará pelo uso de força militar. Estamos unidos em nossa diplomacia”.

Mas talvez mais significativo seja o visível continuado pivoteamento da França na direção da Rússia... Depois de François Hollande ter exigido maior autonomia para o leste da Ucrânia, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy saiu também em aparente apoio à Rússia (e especificamente contra os EUA).

“Somos parte de uma civilização comum com a Rússia,” disse Sarkozy, falando no sábado num congresso da União para um Partido do Movimento Popular (UMP), presidido pelo ex-presidente da França.

“Os interesses dos norte-americanos com os russos não são os interesses de Europa e Rússia”, disse Sarkozy, acrescentando que “não queremos o renascimento de uma Guerra Fria entre Europa e Rússia”.

“A Crimeia escolheu a Rússia e não há por que culpá-la por isso” – disse Sarkozy, destacando que “temos de encontrar os meios para criar uma força de manutenção da paz que proteja os falantes de russo dentro da Ucrânia”.

Nicolas Sakozy
E como se não bastasse, Chipre se une ao bloco da separação, oferecendo-se para assinar, dia 25/2/2015, um acordo de cooperação militar que dará à Rússia o direito de usar bases militares implantadas em solo cipriota...

A base aérea que os aviões russos usarão localiza-se a cerca de 40km de distância da base aérea militar britânica soberana em Akrotiri, no litoral sul de Chipre, e que dá suporte a operações da OTAN nas regiões do Oriente Próximo e Oriente Médio.

Parece que até a OTAN já sabe que não haverá “acordo de paz”...

●– STOLTENBERG: “IMPOSSÍVEL GARANTIR” QUE SAIRÁ DE MINSK ALGUM CESSAR-FOGO

Mas ainda há esperanças... como espera o vice-chanceler alemão...

●– GABRIEL DA ALEMANHA DIZ-SE “CAUTELOSAMENTE OTIMISTA” SOBRE A CÚPULA DE MINSK

e EXIGE...

●– PUTIN TEM DE ACEITAR A “MÃO ESTENDIDA” DA UNIÃO EUROPEIA, diz GABRIEL

mas em seguida afina...

●– A UNIÃO EUROPEIA BUSCA RENOVADA PARCERIA PÓS-CRISE COM A RÚSSIA: GABRIEL

Logo todos veremos no que dará tudo isso:

●– RÚSSIA ANUNCIA REUNIÕES DIAS 9-10 DE FEVEREIRO de 2015 SOBRE A UCRÂNIA, PARA PREPARAR A CÚPULA DE MINSK.



[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).