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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Fraturas na Europa

●− França pivoteia-se para Putin,
●− Chipre oferece a Moscou uma base militar,
●− Alemanha−EUA racham por causa da Ucrânia

8/2/2015, [*] Tyler Durden, Zero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Frank-Walter Steinmeier (E) e John Kerry
Depois do sumário, ontem, da imensa farsa em que se converteram as conversações “de paz” da Cúpula Minsk/Ucrânia, as várias partes envolvidas parecem estar-se separando, ainda mais rapidamente fraturadas hoje [domingo, 8/2/2015].

As manchetes sucedem-se rápidas e gordas, mas as mais acertadas parecem ser: Apesar de John Kerry persistir em surto de negação de qualquer separação entre Alemanha e EUA sobre os EUA fornecerem armas à Ucrânia, o Ministro alemão de Relações Exteriores Steinmeier denunciou a estratégia de Washington como “não apenas temerária, mas também contraproducente”.

Ainda mais significativo parece ser o continuado pivoteamento da França na direção dos russos...

Depois de François Hollande ter exigido maior autonomia para o leste da Ucrânia, também o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy veio a público em declarado apoio à Rússia (e especificamente contra os EUA): “somos parte de uma civilização comum com a Rússia” – e acrescentou que “os interesses dos norte-americanos com os russos não são os interesses de Europa e Rússia”. Até a OTAN parece ter desistido de qualquer esperança; as declarações de Stoltenberg mostram pouco otimismo; e a decisão de Chipre, de autorizar a Rússia a usar o solo cipriota para instalação de bases militares sugere que as coisas absolutamente não vão bem na “união” europeia.

Angela Merkel e François Hollande 
O Ministro alemão de Relações Exteriores repicou hoje, sobre a posição alemã de rejeitar entregas de armas à Ucrânia, em discurso no domingo...

● GABRIEL DIZ QUE ALEMANHA NUNCA APOIARÁ O FORNECIMENTO DE ARMAS À UCRÂNIA

● A EUROPA VÊ COMO MÁ IDEIA A ENTREGA DE ARMAS À UCRÂNIA: LAVROV

“Considero a ideia não apenas temerária, mas também contraproducente” – disse o ministro Steinmeier na Conferência de Segurança de Munique. Steinmeier também reagiu contra as críticas de senadores e outras autoridades norte-americanas, no domingo, à posição da Alemanha sobre fornecimento de armas. A Casa Branca continua a falar sobre entregar armas à Ucrânia, em apoio ao governo de Kiev, no leste do país.

“É possível que insistamos tanto porque conhecemos bem a região”, disse Steinmeier.

Mas para John Kerry... nada disso! Tudo vai esplendorosamente bem... E ele nega qualquer divergência entre Europa e EUA na política para a Rússia.

O Secretário de Estado John Kerry negou, nesse domingo, qualquer divisão entre EUA e Europa sobre como lidar com a Rússia, no momento em que a Alemanha anunciava outra reunião de alto nível organizada para controlar a crise na Ucrânia.

Kerry disse em conferência de segurança a Munique que “posso assegurar a todos que não há qualquer divisão, não há ruptura alguma” entre Washington e seus aliados europeus, em torno da crise na Ucrânia.


“Estamos unidos, estamos trabalhando em íntima união” – disse Kerry à conferência, depois de reuniões com seus contrapartes francês e alemão. “Todos concordamos com que esse desafio não terminará pelo uso de força militar. Estamos unidos em nossa diplomacia”.

Mas talvez mais significativo seja o visível continuado pivoteamento da França na direção da Rússia... Depois de François Hollande ter exigido maior autonomia para o leste da Ucrânia, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy saiu também em aparente apoio à Rússia (e especificamente contra os EUA).

“Somos parte de uma civilização comum com a Rússia,” disse Sarkozy, falando no sábado num congresso da União para um Partido do Movimento Popular (UMP), presidido pelo ex-presidente da França.

“Os interesses dos norte-americanos com os russos não são os interesses de Europa e Rússia”, disse Sarkozy, acrescentando que “não queremos o renascimento de uma Guerra Fria entre Europa e Rússia”.

“A Crimeia escolheu a Rússia e não há por que culpá-la por isso” – disse Sarkozy, destacando que “temos de encontrar os meios para criar uma força de manutenção da paz que proteja os falantes de russo dentro da Ucrânia”.

Nicolas Sakozy
E como se não bastasse, Chipre se une ao bloco da separação, oferecendo-se para assinar, dia 25/2/2015, um acordo de cooperação militar que dará à Rússia o direito de usar bases militares implantadas em solo cipriota...

A base aérea que os aviões russos usarão localiza-se a cerca de 40km de distância da base aérea militar britânica soberana em Akrotiri, no litoral sul de Chipre, e que dá suporte a operações da OTAN nas regiões do Oriente Próximo e Oriente Médio.

Parece que até a OTAN já sabe que não haverá “acordo de paz”...

●– STOLTENBERG: “IMPOSSÍVEL GARANTIR” QUE SAIRÁ DE MINSK ALGUM CESSAR-FOGO

Mas ainda há esperanças... como espera o vice-chanceler alemão...

●– GABRIEL DA ALEMANHA DIZ-SE “CAUTELOSAMENTE OTIMISTA” SOBRE A CÚPULA DE MINSK

e EXIGE...

●– PUTIN TEM DE ACEITAR A “MÃO ESTENDIDA” DA UNIÃO EUROPEIA, diz GABRIEL

mas em seguida afina...

●– A UNIÃO EUROPEIA BUSCA RENOVADA PARCERIA PÓS-CRISE COM A RÚSSIA: GABRIEL

Logo todos veremos no que dará tudo isso:

●– RÚSSIA ANUNCIA REUNIÕES DIAS 9-10 DE FEVEREIRO de 2015 SOBRE A UCRÂNIA, PARA PREPARAR A CÚPULA DE MINSK.



[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta). 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

OTAN estacionou 30 mil soldados na fronteira russa

Ucrânia: Até onde chegou a expansão da OTAN rumo leste

6/2/2015, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jens Stoltenberg, Secretário Geral da OTAN
Para os ministros de Defesa da OTAN reunidos ontem em Bruxelas, foi “dia cheio”. Depois da reunião bilateral na qual o Ministro de Defesa dos EUA, Chuck Hagel passou instruções ao Secretário-Geral da OTAN, general Jens Stoltenberg, reuniu-se o Grupo de Planejamento Nuclear (a Itália participa desse grupo, o que configure violação do Tratado de Não Proliferação Nuclear). Não se sabe o que decidiram, porque não houve declarações à imprensa. Mas, uma vez que Washington já reiterou que “a OTAN permanecerá como aliança nuclear”, deve-se deduzir que resolveram acelerar a “modernização” das forças nucleares norte-americanas estacionadas na Europa (inclusive na Itália) e apressar o fortalecimento de forças francesas e britânicas.

Na sequência a Comissão OTAN-Geórgia reuniu-se e ofereceu sua avaliação da contribuição que a Geórgia deu a operações no Afeganistão e a “Força-Resposta da OTAN” (encorajamento para a admissão da Geórgia, agora já certa, como membro da OTAN).

Depois desse início tão construtivo, o Conselho da Aliança do Atlântico Norte reuniu-se, com 28 ministros de defesa presentes, para anunciar que a OTAN decidiu reforçar seus contingentes militares para poder executar “toda a gama de missões” e “dar conta dos desafios que chegam de todas as direções”. Referência especial mereceu a Ucrânia, onde “cresce a violência” porque “a Rússia continua a violar padrões internacionais, apoiando os separatistas” e porque “extremismo violento espalha-se pelo Norte da África e Oriente Médio”.

Para tal finalidade, a “Força-Resposta da OTAN” será reforçada, elevando-se o número de soldados, de 13 mil para 30 mil e fixando-se comando e unidades de controle em seis países da Europa Oriental. Ao mesmo tempo, será constituída uma “Força Ataque”, de 5 mil soldados, mobilizável em poucos dias.

A OTAN (e a Itália, dentro dela) está portanto em guerra em dois fronts, no leste e no sul. Como se chegou a esse ponto?

OTAN estacionou 30 mil soldados na fronteira russa
Depois que a Guerra Fria acabou, os EUA começaram a usar a OTAN para manter sua liderança na Europa Ocidental e ao mesmo tempo conquistar a Europa Oriental. Demoliram a Iugoslávia com uma guerra, em seguida estenderam a OTAN para o leste, tomando todos os países do ex-Pacto de Varsóvia, duas das ex-repúblicas iugoslavas e três repúblicas da extinta URSS. Quando passam a ser parte da OTAN, os países da Europa Oriental passam a depender mais de Washington que de Bruxelas [que da União Europeia].

Mas alguma coisa está atrapalhando o plano de conquista dos EUA: a Rússia adapta-se à crise e estreita crescentes relações econômicas com a União Europeia, passando a fornecer quase todo o gás natural; e abre novas oportunidades comerciais com a China. Isso ameaça interesses estratégicos dos EUA. Nesse preciso ponto eclode a crise na Ucrânia: depois de vários anos de preparação para assumir o controle de posições militares chaves em Kiev, e de treinar grupos neonazistas, a OTAN executa o putsch de Kiev. Assim, força Moscou a sair em defesa dos falantes de russo na Ucrânia e expõe a Rússia às sanções de EUA e União Europeia. E as contrassanções russas, que ferem especialmente a União Europeia, facilitam o plano da parceria transatlântica para comércio e investimentos, mediante a qual Washington busca aumentar a influência dos EUA sobre a União Europeia.

Ao mesmo tempo, a OTAN liderada pelos EUA estende sua estratégia para o Norte da África e Oriente Médio. A demolição da Líbia na guerra, a mesma operação lançada na Síria, o renascer da guerra no Iraque, o uso de formações islamistas “de duplo fio” (apoiadas para derrubar governos alvos da OTAN e, em seguida, usadas como pretexto para justificar outras intervenções armadas) são também parte da estratégia de EUA-OTAN.

[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopoliticólogo italiano. Últimas publicações:   Geocommunity Ed. Zanichelli 2013; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010;   Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. Derive Approdi 2005.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pepe Escobar: Um califa numa selva de espelhos

15/10/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

I'm aiming at you, love/ Estou mirando você, amor,
Cause killing you is killing myself/ Porque matar você é matar-me eu mesmo
Orson Welles (dir.), The Lady from Shanghai, 1947

Abu Bakr al-Baghdadi, O Califa
Ele é invencível. Ele degola. Ele contrabandeia. Ele conquista. Ele é totalmente o bamba dos bambas. Nem Tomahawk nem Hellfire conseguem tocá-lo. Ele sempre obtém o que quer, em Kobani; na província Anbar; com a Casa de Saud (que ele quer substituir), para ver se faz Putin (que ele quer degolar) sofrer por causa dos preços baixos.

Se fosse versão remake do clássico noir de Orson Welles, A Dama de Xangai na sequência do espelho (vídeo no fim do parágrafo), o advogado (norte-americano?) e a femme fatale (xiita?) também acabariam mortos; mas O Califa do Estado Islâmico sobreviveria como um Welles maior que a vida, livre para vagar ao léu, saquear e “oferecer meu amor ao nascer do dia” – como num Bravo Mundo Califado fulgurante no “Siriaque” sobre as cinzas do Acordo Sykes-Picot.


Ele está ganhando todas na província de Anbar, no Iraque. Os bandidos d’O Califa estão agora já próximos de – e logo que lugar! – Abu Ghraib; ex-Central de Tortura de Dábliu, Dick e Rummy. Estão a meros 12 km do aeroporto internacional de Bagdá. Podem derrubar um jato de passageiros com um míssil terra-ar disparado do ombro (ou MANPAD). Com certeza, não algum voo da Emirates – afinal, são importantes patrocinadores.

Hit, na província de Anbar, é agora território d’O Califa. As forças policiais e o comando operacional da província já perderam quase completamente o controle sobre Ramadi. O Califa controla agora o eixo crucial formado por Hit, Ramadi, Fallujah; a Autoestrada 1 [Highway 1] entre Bagdá e a fronteira da Jordânia; e a Autoestrada 2, entre Bagdá e a fronteira síria.

Os bandidos d’O Califa já estão tomando nada menos que todo o famoso cinturão de Bagdá, antigamente chamado “triângulo da morte” naqueles dias linha-dura da ocupação pelos norte-americanos, nos idos de 2004. Mensagem para Donald Rumsfeld: lembra-se dos seus “remanescentes”? Voltaram. E estão no comando.

As duas cidades, Ramadi e Fallujah, foram reduzidas a um acúmulo de escolas, hospitais, mesquitas e pontes bombardeadas. As ruas residenciais estão já virtualmente abandonadas. Segundo a ONU, já há pelo menos 360.803 desalojados internos na província de Anbar, além de 115 mil outros em áreas sob o controle d’O Califa. Pelo menos 63% das 1,6 milhão de pessoas que vivem na província estão classificadas como “carentes” – acesso apavorantemente mínimo à água, comida e cuidados de saúde, e recebendo de pouca a absolutamente zero ajuda humanitária daquela ficção, a “comunidade internacional”. A embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, não está pondo os bofes pela boca de tanto gritar a favor da “responsabilidade de proteger” (R2P).

Como seria possível que a espetacular Dominação de Pleno Espectro do Pentágono não veja acontecer nada disso? É claro que veem. Mas não dão a mínima. O Pentágono vez ou outra usa helicópteros Apache AH-64 para atacar alguns dos bandidos d’O Califa em Ramadi e Hit. Mas Apaches podem ser facilmente atingidos com MANPADS. Estão estacionados no Internacional de Bagdá e sua única missão é proteger o aeroporto. Quem liga para “dano colateral” local e civil?

De caso com a Máfia (trailer a seguir)


Em Kobani, antes a terceira maior cidade no Curdistão Sírio, no extremo nordeste, O Califa também matou a pau. Outro êxodo de proporções bíblicas já chega a 300 mil refugiados – e continua a aumentar, com mais de 180 mil deles a caminho da Turquia.

O Califa conta com ajuda indireta de O Sultão (ou Califa alternativo), também conhecido como presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia. Teerã está – com toda a razão – furiosíssima, ao ver o “ocidente” – e a Turquia – traindo os curdos outra vez. Não é segredo que O Sultão Erdogan nada está fazendo, porque quer ferrar os guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o Partido da União Democrática Sírio-Curdo (PYD); eles que morram, em vez de repelir a dominação turca sobre aquelas áreas imensas, essencialmente curdas, da Anatolia. Assim, a única coisa que O Sultão Erdogan faz é apoiar o bombardeio sem alvo pelo Pentágono cum a tal coalizão dos covardes-sem-noção.

Qualquer um que acredite no que o Comando Central anda espalhando, que os jatos da Casa de Saud e dos Emirados Árabes Unidos conduzem “ataques com bombardeio” nos arredores de Kobani ganha passagem só de ida para Oz. Imaginem se aqueles palhaços seriam capazes de usar bombas guiadas de precisão ou detectores a laser treinados. Para começar, o Pentágono tem inteligência-zero, do local – porque há zero operadores capazes de apontar os alvos, com laser. Assim sendo, a “coalizão” mal e porcamente consegue acertar o tanque velho (dos 25 em torno de Kobani) ou um Humvee, dos 2.000 que enchem um vale já agora por duas semanas.

Mas a “coalizão” com certeza consegue – miraculosamente! – acertar a infraestrutura síria, como instalações de energia. Em junho, a desculpa oficial do Pentágono era “Não temosdrones no Iraque”. Agora já não há desculpas para os drones capazes de ler que “Esse produto é prejudicial à saúde” num maço de Marlboro não acertarem os homens d’O Califa em Kobani – ou na província de Anbar, se for o caso. Portanto, a coisa resume-se a uma mistura de incompetência e negligência. Muito mais fácil foi atingir festas de casamento de pashtuns nos Waziristões. Sobretudo porque, então, ninguém estava prestando atenção.

Recep Tayyp Erdogan (E) e Jens Stoltenberg
Os bandidos do próprio Erdogan, entrementes, instituíram um toque de recolher em todas as principais cidades e vilas no sudeste, na Anatolia, e já estão fuzilando até manifestantes curdos pacíficos. 15 milhões de curdos na Anatolia não podem estar errados: Erdogan quer que Kobani caia. Ankara permanece, para todas as finalidades práticas, principal eixo logístico para os bandidos d’O Califa. O Sultão está usando O Califa como exército “por procuração” para esmagar os curdos.

Evidência definitiva foi dada pelo líder do PYD curdo, Salih Muslim, que se encontrou com militares da inteligência turca e pediu ajuda. Condições: desistir que qualquer esperança de autodeterminação para os curdos sírios; entregar todas as cidades e regiões autogovernadas por vocês; e assistam aí enquanto nós instalamos uma “zona tampão”/zona aérea de exclusão turca, dentro de território sírio.

Que ninguém espere que o governo “Não façam merda estúpida”/”Não temos estratégia alguma” de Obama sentencie que “Erdogan tem de sair”. Além do mais, o patético clube da Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice e seu vice, Ben Rhodes, não têm nem ideia do que se passa.

Para a Zona Verde! (trailer a seguir)


Teerã, por sua vez, identificou claramente o jogo imundo de Erdogan. O Sultão sabe que bombardeiros-monstro B1-B sobrevoando Kobani são absolutamente inúteis – enquanto os bandidos d’O Califa usam explosões massivas de carros-bomba e continuam a avançar. Serão necessários “coturnos em solo”. Entra a Turquia, agente da OTAN. Mas com uma condição: mudança de regime em Damasco, ou, pelo menos, prelúdio disso, com a tal zona “tampão”/zona aérea de exclusão sobre a Síria.

O Grande Quadro permanece o mesmo. O Sultão Erdogan e a Casa de Saud querem mudança de regime em Damasco (Erdogan sonham com um fantoche sunita como vassalo de Ankara; os sauditas querem seu próprio agente wahhabista). Israel concorda esfuziante. E se a coisa vier com brinde – atacar o novo governo do Iraque, ainda apoiado pelo Irã, na Zona Verde fabricada pelos EUA – melhor ainda. Resumo de tudo isso: “Não faça merda estúpida” traduz-se como: Conselho de Cooperação do Golfo, Turquia e Israel estão usando Washington para fazer avançar sua agenda bastante explícita.

O Sultão Erdogan, como capo mafioso, parece ter assimilado uma coisinhas do filme Os bons companheiros, de Martin Scorsese (trailer a seguir).


Está extraindo o maior naco de carne possível da completamente desentendida equipe do “Não façam merda estúpida”. O Sultão tem em vista pôr coturnos turcos em solo para gloriosamente invadirem a Síria em modo “intervenção humanitária” padrão OTAN. E tudo isso vendido como se a OTAN estivesse oferecendo “proteção” a estado-membro. O novo secretário da OTAN, ex-primeiro ministro da Noruega Jens Stoltenberg, acaba de visitar Ankara. A Arábia Saudita já “votou” a favor da zona “tampão”/aérea de exclusão. O mesmo vale para o general François Hollande, aquele lamentável arremedo de presidente da França.

Mais uma vez, Teerã aparece para o resgate. O ministro de Relações Exteriores anunciou  devidamente que o Irã está pronto para libertar Kobani do jugo dos bandidos d’O Califa (e pode fazê-lo), se o presidente Bashar Al-Assad solicitar. Agora, o tabuleiro de xadrez é assim: a OTAN ficou sem qualquer pretexto para montar uma invasão à Síria, com ou sem participação de Erdogan, capo mafioso.

Operação “Tire as Mãos do meu Toyota”

As SUVs Toyota d'O Califa desfilam no deserto
O Califa também ganha muito no departamento “faça-sangrar o Pentágono”. Um único “ataque” contra os bandidos d’O Califa – envolvendo F-15s, F-16s ou F-22s – custa até US$500 mil. O Pentágono acaba de informar que já gastou nada menos que US$ 1,1 bilhão contra O Califa desde junho.

E para quê? Virtualmente todos os bens que estão sendo destruídos pelas bombas norte-americanas são fabricados nos EUA, entregues ao exército do Iraque e depois capturados na ofensiva de O Califa. Eis aí, pois, o Império do Caos gastando uma fortuna do Tesouro dos EUA para detonar tanques, Humvees e outros itens pelos quais os contribuintes norte-americanos pagaram. Não surpreende que os mesmos contribuintes estejam furiosos. Eis a Operação Tire as Mãos do meu Toyota.

Além do mais, o Pentágono não tem nem ideia de como construir sua força “rebelde” por procuração, como Obama mandou, para combater contra O Califa (sem soldados ou marines norte-americanos, só fanáticos wahhabistas e sortimento variado de mercenários).

Para começar, não têm nem ideia de o que, diabos, seria um “rebelde moderado”. A malta deve ser “avaliada” e − se aprovada − deve então ser mandada para a Arábia Saudita (mas... para a Arábia Saudita?!) para ser treinada. Lá, o sujeito encarregado será – e o que mais poderia ser – um honcho das Operações Especiais, major-general Michael Nagata. Mesmo sob o mais otimista dos cenários, o Pentágono não conseguirá pôr esse seu exército de “rebeldes moderados” no solo, na Síria, antes do verão de 2015.


Podem-se apostar caixas e caixas de Chateau Margaux, que esse primor de armamento acabará capturado pelos bandidos d’O Califa. Aplica-se também aos “rebeldes” confiáveis em solo.

Mas a obra-prima de dadaísmo real é que, primeiro, esses rebeldes serão polidamente solicitados pelo Pentágono a esquecer qualquer plano de livrar-se de Assad, para lutar contra O Califa. Pelo menos por enquanto. Re-entra em cena Stoltenberg, novo comandante da OTAN:

Ano que vem, na reunião ministerial, tomaremos decisões sobre a chamada frente de ataque, mas, mesmo antes de estar estabelecida, a OTAN, afinal, tem um exército forte. Podemos deslocá-lo para onde quisermos.

Oh, grande homem! Por que não para o “Siriaque”?

Se tudo isso parece roteiro da série de sucesso Blacklist (trailer a seguir), é porque é.


Por que não escalar Red (James Spader) para lugar contra O Califa? E depois, quem sabe... e se Red é O Califa? Finge que se persegue, ele contra ele mesmo – e sempre ganha, maior elegância. De volta à Dama de Xangai, de Welles: “Matar você é matar-me eu mesmo”. O caso é que ninguém quereria ver morto O Califa, quando é tal, tamanho, imenso, indiscutível sucesso de bilheteria


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.
Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.