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sábado, 7 de fevereiro de 2015

OTAN estacionou 30 mil soldados na fronteira russa

Ucrânia: Até onde chegou a expansão da OTAN rumo leste

6/2/2015, [*] Manlio DinucciIl Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jens Stoltenberg, Secretário Geral da OTAN
Para os ministros de Defesa da OTAN reunidos ontem em Bruxelas, foi “dia cheio”. Depois da reunião bilateral na qual o Ministro de Defesa dos EUA, Chuck Hagel passou instruções ao Secretário-Geral da OTAN, general Jens Stoltenberg, reuniu-se o Grupo de Planejamento Nuclear (a Itália participa desse grupo, o que configure violação do Tratado de Não Proliferação Nuclear). Não se sabe o que decidiram, porque não houve declarações à imprensa. Mas, uma vez que Washington já reiterou que “a OTAN permanecerá como aliança nuclear”, deve-se deduzir que resolveram acelerar a “modernização” das forças nucleares norte-americanas estacionadas na Europa (inclusive na Itália) e apressar o fortalecimento de forças francesas e britânicas.

Na sequência a Comissão OTAN-Geórgia reuniu-se e ofereceu sua avaliação da contribuição que a Geórgia deu a operações no Afeganistão e a “Força-Resposta da OTAN” (encorajamento para a admissão da Geórgia, agora já certa, como membro da OTAN).

Depois desse início tão construtivo, o Conselho da Aliança do Atlântico Norte reuniu-se, com 28 ministros de defesa presentes, para anunciar que a OTAN decidiu reforçar seus contingentes militares para poder executar “toda a gama de missões” e “dar conta dos desafios que chegam de todas as direções”. Referência especial mereceu a Ucrânia, onde “cresce a violência” porque “a Rússia continua a violar padrões internacionais, apoiando os separatistas” e porque “extremismo violento espalha-se pelo Norte da África e Oriente Médio”.

Para tal finalidade, a “Força-Resposta da OTAN” será reforçada, elevando-se o número de soldados, de 13 mil para 30 mil e fixando-se comando e unidades de controle em seis países da Europa Oriental. Ao mesmo tempo, será constituída uma “Força Ataque”, de 5 mil soldados, mobilizável em poucos dias.

A OTAN (e a Itália, dentro dela) está portanto em guerra em dois fronts, no leste e no sul. Como se chegou a esse ponto?

OTAN estacionou 30 mil soldados na fronteira russa
Depois que a Guerra Fria acabou, os EUA começaram a usar a OTAN para manter sua liderança na Europa Ocidental e ao mesmo tempo conquistar a Europa Oriental. Demoliram a Iugoslávia com uma guerra, em seguida estenderam a OTAN para o leste, tomando todos os países do ex-Pacto de Varsóvia, duas das ex-repúblicas iugoslavas e três repúblicas da extinta URSS. Quando passam a ser parte da OTAN, os países da Europa Oriental passam a depender mais de Washington que de Bruxelas [que da União Europeia].

Mas alguma coisa está atrapalhando o plano de conquista dos EUA: a Rússia adapta-se à crise e estreita crescentes relações econômicas com a União Europeia, passando a fornecer quase todo o gás natural; e abre novas oportunidades comerciais com a China. Isso ameaça interesses estratégicos dos EUA. Nesse preciso ponto eclode a crise na Ucrânia: depois de vários anos de preparação para assumir o controle de posições militares chaves em Kiev, e de treinar grupos neonazistas, a OTAN executa o putsch de Kiev. Assim, força Moscou a sair em defesa dos falantes de russo na Ucrânia e expõe a Rússia às sanções de EUA e União Europeia. E as contrassanções russas, que ferem especialmente a União Europeia, facilitam o plano da parceria transatlântica para comércio e investimentos, mediante a qual Washington busca aumentar a influência dos EUA sobre a União Europeia.

Ao mesmo tempo, a OTAN liderada pelos EUA estende sua estratégia para o Norte da África e Oriente Médio. A demolição da Líbia na guerra, a mesma operação lançada na Síria, o renascer da guerra no Iraque, o uso de formações islamistas “de duplo fio” (apoiadas para derrubar governos alvos da OTAN e, em seguida, usadas como pretexto para justificar outras intervenções armadas) são também parte da estratégia de EUA-OTAN.

[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopoliticólogo italiano. Últimas publicações:   Geocommunity Ed. Zanichelli 2013; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010;   Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. Derive Approdi 2005.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Santa Cruzada de Santo Obama

23/9/2014, [*] Manlio DinucciIl Manifesto, It. (em Global Research)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
“Que Deus abençoe nossos soldados. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América”. Com essas palavras (convidamos o papa Francisco a comentá-las), termina a solene “Declaração sobre o ISIS/ISIL”, com a qual o presidente Barack Obama, metido no fraque de “comandante-em-chefe”, dirigiu-se na 4ª-feira, 10/9/2014, não só aos seus concidadãos, mas ao mundo inteiro.

“Os EUA”, explica Obama, fazem jus às bênçãos, “porque assumem as tarefas mais difíceis, a começar pela “responsabilidade de exercer a liderança”. Num “mundo incerto” como o nosso atual mundo, “a liderança pelos EUA é a única constante”. De fato, só “os EUA” têm “a capacidade e a vontade de mobilizar o mundo contra os terroristas”. “Os EUA” foi quem “reuniu o mundo contra a agressão russa”. “Os EUA” é quem “pode conter e eliminar a epidemia de ebola”.

Em tom que faz pensar em pregador medieval do tempo da peste – e pondo “a agressão russa” no mesmo plano que a epidemia de ebola – o presidente dos EUA proclama a nova cruzada contra o “Estado Islâmico no Iraque e Levante [Síria] (ISIS/ISIL), advertindo que “será preciso tempo para erradicar um câncer como este”. Apesar de tudo que os EUA fizeram até agora para combater o terrorismo, Obama insiste, “continuamos a enfrentar uma ameaça terrorista” porque “não podemos apagar do mundo todos os rastros do Mal”.

Com essa advertência, que faz recordar as cruzadas do Republicano Ronald Reagan contra “o Império do Mal” (a URSS) e do também Republicano George W. Bush contra “o inimigo escondido em algum rincão escuro da Terra” (al-Qaeda), o Democrata Obama anunciou “a estratégia dos EUA para vencer o ISIS/ISIL”, estratégia constituída de quatro pontos:

● — Uma campanha sistemática de ataques aéreos contra o ISIS/ISIL”, na Síria e no Iraque.
● — Crescente apoio às forças que combatem o ISIS/ISIL em campo”: com a diferença, em relação às intervenções anteriores no Iraque e no Afeganistão, dessa vez os EUA não enviarão forças terrestres, só conselheiros e instrutores (mais 475 chegarão em breve ao Iraque). Também haverá financiamento e armas para os “locais”, graças ao Congresso dos EUA que aprovou uma lei ad hoc: para forças iraquianas e curdas e, na Síria, para grupos que combatem contra “o regime de Assad que aterroriza o próprio povo” e contra “extremistas como o ISIS/ISIL”.
● — Continuar aproveitando nossas consideráveis capacidades em matéria de antiterrorismo para impedir ataques do ISIS/ISIL”, o que se conseguirá trabalhando em contato estreito com os parceiros – Israel, por exemplo, que já se ofereceu para compartilhar a informação recolhida por seus próprios serviços de inteligência.
● — “Prestar assistência humanitária a civis inocentes expulsos de suas casas” pelo ISIS/ISIL.

John Kerry, Secretário de Estado dos EUA
Os EUA já montaram “ampla coalizão de associados” que aportam “bilhões de dólares em ajuda humanitária, armas e apoio às forças de segurança iraquiana e à oposição síria”. Nos próximos dias o Secretário de Estado, John Kerry, viajará ao Oriente Médio e Europa para “recrutar associados para essa luta”.

O que o governo Obama anunciou não é estratégia que o presidente teve de autorizar depois de ter subestimado a ameaça do Emirado Islâmico – segundo versão que os jornais da imprensa-empresa não se cansam nunca de repetir – mas estratégia que já está traçada há anos.

Como já se comprovou amplamente, os primeiros focos do futuro Emirado Islâmico formaram-se quando, para derrubar Gaddafi na Líbia – em 2011 – a OTAN – obedecendo ordens dos EUA – pôs-se a financiar e armar grupos jihadistas até pouco antes considerados terroristas. Depois de ter ajudado a derrubar Gaddafi, aqueles jihadistas mudaram-se para a Síria, para derrubar Assad. E é na Síria, em 2013, onde nasce o Emirado Islâmico, que imediatamente passou a ser ajudado, através de Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Turquia e Jordânia, que também fornecem armas e dinheiro, no quadro de um amplo programa coordenado pela CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA).

Em maio de 2013, um mês depois de ter fundado o Estado Islâmico no Iraque e Levante, Ibrahim al-Badri – o hoje Califa, que adotou o nome de guerra de Abu Bakr al-Baghdadi –  reúne-se na Síria com o senador John McCain, a quem Obama entregou a execução de várias operações secretas para o governo dos EUA. Depois daquela reunião, o Estado Islâmico, ainda então chamado apenas  ISIL, começou sua ofensiva no Iraque, no preciso instante em que o governo do primeiro-ministro al-Maliki distanciava-se de Washington, para aproximar-se de China e Rússia.

John McCain reunido com terroristas na Síria incluindo Abu Bakr al-Baghdadi (no círculo vermelho) em maio de 2013

John McCain (clandestino), na Síria(maio-2013). Em primeiro plano, à direita, vê-se Mouaz Moustafa, diretor da Força Tarefa de Emergência terrorista treinado pelos EUA e “expert” do Instituto Washington para a Política do Oriente Médio, um think-tank sionista. Na porta, ao centro, é Mohammad Nour, da al-Qaeda, sequestrador 11 peregrinos.
O verdadeiro objetivo da Santa Cruzada de Santo Obama é destruir a Síria e reocupar o Iraque. Por outro lado, ao implicar seus aliados europeus numa nova frente de guerra no Oriente Médio, e também na frente oriental contra a Rússia, os EUA reforçam a própria influência sobre a União Europeia, cuja unidade só interessa a Washington, se o continente se mantiver sob a liderança dos EUA. 
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopoliticólogo italiano. Últimas publicações:  Geocommunity Ed. Zanichelli 2013; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010;  Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. Derive Approdi 2005.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A Conexão Clinton − Pinchuk: uma oligarquia ucraniano−norte-americana


21/2/2014, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bill Clinton cumprimenta Viktor e Olena Pinchuk 
Na mesa em Kiev, onde estava sendo negociado o acordo formal entre o governo, a oposição, a União Europeia e a Rússia [acordo que, logo no dia seguinte foi rompido pelos doidos neofascistas em Kiev], oficialmente não havia representante da poderosa oligarquia internacional que – com laços mais íntimos com Washington e a OTAN, que com Bruxelas e a União Europeia – está empurrando a Ucrânia na direção do Ocidente.

Caso exemplar é Viktor Pinchuk, magnata do aço, 54 anos, classificado pela revista Forbes como um dos homens mais ricos do mundo.

Pinchuk começou a acumular sua fortuna em 2002, quando se casou com Elena, filha de Leonid Kuchma, o segundo presidente da Ucrânia (1994-2005). Em 2004 o ilustre sogro privatizou a siderúrgica Kryvorizhstal, maior produtora de aço da Ucrânia, vendendo-a ao grupo Interpipe, do qual o genro era coproprietário, por 800 milhões de dólares, cerca de 1/6 do real valor da empresa.

Em 2007, Pinchuk fundou o grupo EastOne Group Ltd., empresa de assessoria a investidores internacionais, que oferece a multinacionais todas as ferramentas para penetrar nas economias do Leste europeu. Simultaneamente, tornou-se proprietário de quatro canais de televisão e de um tabloide popular (Fatos e Comentários) com circulação de mais de um milhão de jornais. Sem jamais, contudo, negligenciar a caridade, criou também a Fundação Viktor Pinchuk, considerada a maior “organização filantrópica” privada ucraniana. 

Viktor e Olena Pinchuk
Foi mediante essa fundação que Pinchuk ligou-se aos Clintons, como apoiador da Iniciativa Clinton Global, criada em 2005 por Bill & Hillary, cuja missão é “reunir líderes mundiais para criar e implementar soluções para os mais difíceis desafios globais”. Por trás do slogan impressionante, jaz o objetivo real: criar forte rede de apoio internacional para Hillary Clinton, a ex-primeira dama que, depois de servir como senadora por New York de 2001 a 2009, e como Secretária de Estado de 2009 a 2013, tenta agora sua segunda avançada à presidência.

A frutuosa colaboração começou em 2007, quando Bill Clinton agradeceu a “Viktor e Olena Pinchuk por sua vigorosa atividade social e o apoio que deram ao nosso programa internacional”.

Esse apoio consubstanciou-se numa primeira contribuição de 5 milhões de dólares, seguida de outras, para a Iniciativa Clinton Global. E abriu as portas para Pinchuk em Washington: por 40 mil dólares mensais, contratou o lobbyista Daniel E. Schoen, que agendou para seu patrão vários contatos com figuras influentes, inclusive uma dúzia de encontros em um ano, entre 2011 e 2012, com altos funcionários do Departamento de Estado. Os contatos revelaram-se excelentes para os negócios, permitindo que Pinchuk aumentasse suas exportações para os EUA, embora metalúrgicos na Pennsylvania e Ohio o estejam acusando de ter derrubado os preços dos tubos de aço fabricados nos EUA.

Viktor Pinchuk e Hillary Clinton doando 5 milhões de dólares à Fundação Clinton
Para estreitar ainda mais seus laços com os EUA e o Ocidente, Pinchuk criou a Yalta European Strategy (YES), “a maior instituição social do leste europeu para diplomacia pública”, cujo objetivo oficial é “ajudar a Ucrânia a converter-se em país moderno, democrático e economicamente eficiente”. Graças à capacidade financeira de Pinchuk (gastou mais de $ 5 milhões de dólares na celebração do próprio 50º aniversário, numa estação francesa de ski), a YES pôde montar ampla rede de contatos internacionais, que vieram à luz na reunião anual da instituição, em Yalta.

Reuniu “mais de 200 políticos, diplomatas, estadistas, jornalistas, analistas e líderes empresariais de mais de 20 países”. Entre esses, os principais nomes eram Hillary & Bill Clinton, Condoleezza Rice, Tony Blair, José Manuel Barroso e Mario Monti (presentes à reunião em setembro último), além de outros personagens menos conhecidos, mas nem por isso menos influentes, como vários diretores do Fundo Monetário Internacional.

Nas palavras de Condoleezza Rice, na reunião da YES em 2012, “Transformações democráticas exigem tempo, exigem paciência, exigem apoios. Tanto de dentro, como de fora”. É excelente resumo da estratégia que o Ocidente adotou, na rubrica “apoio de fora”, para promover “mudanças de regime”.

É a estratégia amplamente consolidada da Iugoslávia à Líbia, da Síria à Ucrânia, que consiste em cravar uma cunha em fissuras que existam em qualquer estado, ampliar a fissura e chacoalhar o estado, desde as fundações, apoiando e fomentando manifestações antigoverno (como as que se veem em Kiev, pontuais e organizadas demais para que se possa crer que sejam espontâneas), tudo isso acompanhado de campanha gigantesca, pela imprensa-empresa-“midiática”, contra o governo “marcado para morrer”.

No que tenha a ver com a Ucrânia, o objetivo é ou pôr abaixo o estado, ou parti-lo em dois: uma parte que se una à OTAN e à União Europeia; a outra, mais ligada à Rússia. A estratégia da empresa Yalta European Strategy do oligarca ucraniano parceiro dos Clintons encaixa-se exatamente aí.
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações: Geocommunity Ed. Zanichelli 2013; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. Derive Approdi 2005.


Notas da redecastorphoto:

Eis aqui, também,  alguns aspectos da Conexão do oligarca Pinchuk com a França levantados por Anna Malm:  

Pinchuk e Aurélie Filippetti
Quarta-feira, 27 de março de 2013. A Ministra da Cultura e da Comunicação da França, Madame Aurélie Filippetti, entregou as insígnias de Cavalheiro da Ordem de Artes e Letras à Victor Pinchuk, com a saudação de que se via nele “a imagem europeia do mecenato” assim como o “feliz casamento entre a indústria e a cultura. Assim como a imagem da monumental instalação de Olafur Eliasson, na qual o ferro se mostra em súbitos e constantes mudanças de estado, metamorfoseia-se também a nova fabricação do aço de Pinchuk. Ver em: Victor Pinchuk chevalier de l’ordre des Arts et des Lettres publicado em 1/4/2013, Ambassade de France em Ukaine – Kiev.

Pinchuk é um judeu ucraniano em terra de históricos POGROMS, este financista de 52 anos (em 2011), classificado como a 336ªfortuna do mundo pela revista Forbes/2011 (hoje estimada em 2,7 bilhões de Euros).

Viktor Pinchuk durante a entrevista
Meu professor de arte contemporânea é francês, Nicolas Bourriaud (crítico de arte que dirigiu “Le Palais de Tokyo” – “O Palácio de Tóquio” com Jérôme Sans de 2002 à 2006 e que atualmente é o diretor do “Beaus-Arts de Paris”- “Belas-Artes de Paris”, desde outubro de 2011). Eu o chamo mesmo de meu gurú! Eu o reencontrei em 2002 por intermédio do meu amigo Marcel Gross, diretor associado da Euro RSCG”.
Como existir socialmente em seu país sem se fazer nada de política?” É a Euro RSCG, na pessoa de Français Stéphane Fouks, que vai fornecer a Pinchuk uma resposta contendo três pontos centrais : 1. Criando um museu de arte contemporânea que valorize a arte ucraniana. 2. Criar um grupo de discussões (think tanks) para magnificar a Ukraina e sua entrada na Europa. 3. Criar uma fundação anti-sida abaixo da direção de sua esposa.

O oligarca se investe na filantropia
[...] Num certo período da vida apresenta-se o tempo de devolver o que se recebeu; guiado, então, por uma visão, disse Pinchuk. Entretanto a  Ucrânia não sai do seu rol de interesses: o frenesi artístico não é mais que uma etapa de conquista. Em cada outono europeu, em Yalta na Ucrânia, o seu grupo de discussões YES, Yalta European Strategy, trabalha para valorizar a Ucrânia com convidados como Tony Blair ou Dominique Strauss-Kahn. Em Davos, à margem da reunião formal, ele imprimiu sua marca em 27 /1/2013 organizando uma mesa redonda com a jovem Cheikha Mayassa, princesa do Qatar, a qual se interessa muito por arte, e escritor brasileiro, Paulo Coelho.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Na Itália, a comunicação é estratégica!

29/10/2013, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, It., L’arte della guerra
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mario Mauro e o "lobby" dos F-35
Quem suporia que o professor Mario Mauro, graduado em Letras e Filosofia pela Universidade Católica do Sagrado Coração em Milão e, além do mais, com experiência militar de sargento, ter-se-ia convertido em expert em estratégia? Nomeado Ministro da Defesa, ele imediatamente expediu sua “Diretiva para a comunicação estratégica”.

O presidente Napolitano – explica-se na introdução – declarou que é preciso reagir contra a desinformação e as polêmicas que conspurcam o aparelho militar, posto no espírito da Constituição e ao presidir a participação italiana nas missões de estabilização e de paz.

Informar sobre o que faz a Defesa para cumprir seu dever institucional, não é, portanto, apenas um dever, mas uma necessidade, para impedir a difusão de informações erradas. Como aquela – atenção! – que nós, do jornal Il Manifesto, distribuímos em 2011, na qual denunciamos a guerra da Líbia e as verdadeiras razões ocultadas naquela guerra, enquanto o presidente Napolitano garantia que “não entramos em guerra; estamos empenhados numa ação autorizada pelo Conselho de Segurança”.

Giorgio Napolitano
A opinião pública e os meios de comunicação em massa, destaca a “Diretiva”, devem ser postos em condições de compreender e respeitar a necessidade de que haja um instrumento militar capaz, flexível e ágil.

As novas ameaças à segurança impõem que o empenho da Defesa estenda-se até bem além dos limites nacionais, para antecipar e impedir os ataques. Resposta errada ou distorcida à comunidade internacional (leia-se: à OTAN sob comando dos EUA) compromete não só a imagem da Itália, mas também põe em risco os seus interesses estratégicos e econômicos. É preciso aumentar no público a consciência de que as operações militares contribuem para o crescimento do país e de que a Itália deve assumir papéis e funções de responsabilidade cada vez maior.

Um desses papéis-funções é, por exemplo, como Mauro confirmou em recente reunião dos ministros de Defesa dos países da OTAN, participar com contingente de mais 20 mil soldados do exército que permanecerão no Afeganistão depois de 2014, ação que custará 4 bilhões de dólares por ano, para fortalecer o governo afegão (um dos mais corruptos do mundo).

Nas operações militares, como ensina a “Diretiva”, a comunicação estratégica deve ser considerada a base das demais funções operativas. Em outras palavras, quando se empenham forças militares nas guerras, é preciso, simultaneamente, convencer os cidadãos sobre a necessidade de fazê-lo. Essa função específica de convencimento, também ensina a “Diretiva”, deve ser cumprida no contato com as comunidades que vivam em áreas próximas das instalações militares (convencendo, por exemplo, a população de Niscemi a aceitar as antenas-monstrengos do Mobile User Objective System, MUOS [1] dos EUA); e os demais cidadãos, a aceitarem os programas militares de investimento (quer dizer: convencendo todo mundo de que é excelente consumir 15 bilhões de euros para comprar caças F-35).

Sistema MUOS de comunicação
A comunicação estratégica é dirigida em geral aos meios de comunicação, ao mundo da escola, às universidades, às associações culturais. Deve ao mesmo tempo visar aos “atores culturais” (jornalistas, diretores de programas de televisão, blogueiros e outros, para que esses convençam a opinião pública a defender as forças armadas e suas operações) e aos “decisores políticos” (deputados e senadores, porque votam leis que reforçam o setor militar).

Não se trata só de informar os destinatários preferenciais da Defesa, esclarece a “Diretiva”, mas também outros que estejam envolvidos no bom êxito das decisões tomadas pela Defesa. Em outras palavras: a campanha que o Ministério da Defesa da Itália está pondo em marcha não é apenas uma colossal campanha de desinformação, concebida e posta em ação por pessoal escolhido e especialmente formado para a função de desinformar. Ela é também um verdadeiro e amplo plano para militarizar todas as mentes.



Nota dos tradutores
[1] O sistema MUOS (Mobile User Objective System) é sistema de última geração de comunicações militares por satélite, previsto para melhorar significativamente a comunicação em solo para as forças dos EUA que estejam em deslocamento, e para facilitar o emprego dos “usuários combatentes transportadores de unidades celulares de comunicação” (especialmente os drones) por todo o planeta. O sistema MUOS oferece simultaneamente capacidade para voz, vídeo e armazenamento de dados, e usa a tecnologia 3G de comunicação de telefonia celular. O MUOS oferece capacidade dez vezes maior de comunicação que os sistemas atuais. As naves MUOS são o primeiro modelo de um sistema de comunicação por satélite que substituirá o sistema Ultra High Frequency Follow-On (mais, em 27/8/2013, Sicily Against War: Resisting the Niscemi US Military Base [Sicília contra a guerra: resistência contra a base militar dos EUA em Niscemi]. Sobre o sistema MUOS, ver em: Mobile User Objective System-2 Satellite Launch.

População de Niscemi -Sicilia, It. é contra a instalação do MUOS
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações: Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

quinta-feira, 14 de março de 2013

M5S e Beppe Grillo: Movimento de duas caras


11/3/2013, Loris Caruso, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Loris Caruso
Até os analistas estão divididos entre os que consideram o Movimento 5 Estrelas [orig. Movimento 5 stelle (M5S), de Beppe Grillo] uma “costela da esquerda” e os que veem ali uma organização populista, predominantemente de direita, e quase, pelo menos tendencialmente, fascista. As coisas estão realmente confusas.

Já se disse mais de uma vez que o conteúdo “ambientalista” do programa e a insistência na democracia direta e participativa aproximam o M5S, da esquerda “libertarista” e ambientalista dos anos 70 e 80.

Chama a atenção a força da mensagem participativa, lançada pelo M5S com radicalidade e eficácia que nenhum movimento político da esquerda conseguiu ter: o anulamento da diferença entre representados e representantes; a substituição da delegação pela participação; o fim dos políticos profissionais. Onde, então, estaria “a direita”, no M5S?

Beppe Grillo e o M5S
Em primeiro lugar, numa possível modificação desse mesmo ideal democrático. Se se põe como objetivo que uma única força social possa autenticamente enfrentar todas as outras (partidos, sindicatos, etc.), essa hiper-democracia pode converter-se em seu contrário. Força política que, como o M5S, avoque para si e só para si uma real natureza democrática, pode apresentar como se fosse hiper-democrática todas as suas escolhas, inclusive as que limitam o agir democrático. Se a democracia radical prevê o fim dos partidos, não é impossível imaginar que, ante uma oposição previsível dos partidos à autoextinção, a extinção seja determinada, num eventual governo do M5S, por intervenção não democrática.

Em segundo lugar, a pressuposição de “virtude” com que o M5S beneficia seus próprios representantes e ativistas é tão absoluta (por exemplo, pressupõem o anulamento de todas as ambições pessoais), quase impõe a “virtude”, o que exigirá rigidíssimo controle centralizado. Esse controle centralizado, de fato, já se vê no M5S, quando trabalha para impedir que surjam, seja qualquer protagonismo individual sejam organismos coletivos que façam algum contrapeso ao papel de Grillo e Casaleggio. Abaixo dos líderes e de tantos ativistas e eleitos, que devem, pelo menos tendencialmente, permanecer anônimos, não é o caso de todos se converterem em nada. Não, advertem Grillo e Casaleggio. “Sejamos um partido”. O resultado é que atualmente, na estrutura nacional, o M5S é organismo muito menos democrático que um partido. Se esse é o modelo de Estado que os dois líderes do M5S têm em mente, não é muito tranquilizador. De fato, é modelo que tem a forma do chamado “capitalismo cognitivo”.

Como já disse várias vezes, dentre outros, Carlo Formenti, a economia da Rede é caracterizada por vasta participação em baixo (os usuários, os consumidores, os midiativistas, etc.) e por participação-zero no topo – onde se vê o domínio oligopolista de pouquíssimas empresas gigantes (Google, Amazon, etc.). O M5S parece organizado de modo análogo. É possível que a analogia entre a forma do movimento e a economia da Rede explique, em parte, o sucesso do movimento.

Se o modelo é esse, pode-se pensar na relação que o M5S estabelece com os movimentos. Em recente comício eleitoral em Susa, Grillo mandou que recolhessem a bandeira No-Tav [movimento de ativistas que se opõe ao Trem de Alta Velocidade]: “não somos mais grupo de protesto, agora somos todos cidadãos”. A mensagem é: agora, eu os represento todos. No meu “tudo” há espaço também para vocês. Logo, não é mais necessário que vocês manifestem, com autonomia, seu específico ponto de vista. Essa, de fato, é a relação prevalente que Grillo instaura com os movimentos cuja luta dirige. Raramente essa relação é trabalho comum, um compartilhamento de objetivos ou finalidades. Mais frequentemente, o M5S trabalha de forma independente e “paralela” sobre os mesmos temas dos movimentos, tentando representá-los nas eleições e apresentar essas lutas como sua própria luta.

A ideia de ser uma Totalidade, a representação de um mundo de cidadãos sem qualquer diversidade por condição social e orientação política é o antípoda da história e da natureza da esquerda, que se baseia na construções de “parcialidades organizadas”. A crise dessa ideia de parcialidade, a emergência dessa “vontade de Totalidade” é, provavelmente, uma das causas da crise histórica da esquerda. Grillo foi progressivamente incorporando a direita no seu discurso político, abraçando os temas da direita – protestos contra impostos, promoção do pequeno empresário como referência social, a “liberdade de imprensa” apresentada como bem em si – como temas seus.

Em terceiro lugar, a figura do criador do M5S é estranha à esquerda. A empresa Casaleggio & Associati é empresa de ponta do web-marketing. Na sua rede de relações estão a Confindustria, lobbies à italiana como Aspen, lobbies internacionais como a Câmara de Comércio Americana, grandes empresas multinacionais, sobretudo de informática e do espetáculo. Projeto nascido nesse ambiente poderia, fosse como fosse, favorecer os interesses populares? Ou se deve pensar que é boa oportunidade, sobretudo, para as elites econômicas? O fato de os resultados eleitorais do M5S ter provocado entusiasmado em ambientes como Goldman Sachs e Confindustria obriga a pensar melhor. E então?

A conclusão é que o Movimento 5 Estrelas é tanto de esquerda quanto de direita, ao mesmo tempo hiper democrático e autoritário. Compreende nele todas as formas sob as quais a política representativa foi desafiada de alto a baixo nos últimos anos: é, ao mesmo tempo, um movimento social, um partido-feudo, um partido de um homem só. Contém nele uma ideia de politização total da sociedade (“não vote: mexa-se”) e também a ideia de uma politização tecnocrática, na qual a “gestão”, a “administração”, substitui a política (a competência, em vez do pertencimento). É profético (a utopia acrítica da “rede”) e antiprofético, pelo menos contra esse específico tipo de profecia política que é a idelogia moderna.

Para a crise da democracia representativa, há duas saídas possíveis: o autoritarismo tecnocrático, mesmo que decorado com alguns elementos participativos; e a democracia participativa. O M5S contém nele as duas possibilidades. Seu sucesso deriva também dessa co-presença: a dificuldade de uma construção “assembleística” é contornada pelo centralismo verticalista.

O sucesso do M5S mostra que, usando terminologia de Gramsci, há na política contemporânea uma nova oscilação entre “guerra de trincheiras” (na qual as alternativas políticas são comprimidas nos instrumentos existentes) e “guerra de movimento” (na qual se disputam os próprios instrumentos sociais, as formas gerais da política e da economia).

Esse trânsito abre um campo inédito de possibilidades para a esquerda. Se e somente se souber jogar esse jogo, nesse nível. Se e somente se foi capaz de organizar, juntamente com o seu próprio modelo de democracia radical, um projeto seu de sociedade global. Em crise, não está só a representação: o capitalismo também está em crise. Sobre isso, Grillo (quase) nada diz. E esse é o nosso terreno de luta.

Agir nesse nível significa, me parece, construir um novo sujeito plural que atraia e arraste as lutas pelos bens comuns, os movimentos antiausteridade, as lutas do trabalho, o mundo do trabalho dependente e do trabalho “cognitivo”, construindo uma alternativa global de sociedade, um projeto de “democracia dos bens comuns”: a ideia inovadora de um “socialismo do século 21”. [Chávez vive![1]]



Nota dos tradutores
[1] O socialismo do século 21 é conceito que surgiu em 1996, em trabalho de Heinz Dieterich Steffan. O termo ganhou difusão mundial depois que apareceu em discurso que o presidente Hugo Chávez da Venezuela fez, dia 30/1/2005, no V Fórum Social Mundial. Antes, numa das emissões do programa “Aló Presidente”, em 2003, Hugo Chávez já havia apresentado a ideia de Giulio Santosuosso para o Socialismo do século 21: socialismo num paradigma liberal; o autor sugere que o mundo está em processo de realinhamento ideológico, consequência da mudança de paradigma em curso na economia; o velho modelo morreu, mas ainda não surgiram os novos critérios que permitirão o realinhamento conceitual.