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quinta-feira, 14 de março de 2013

M5S e Beppe Grillo: Movimento de duas caras


11/3/2013, Loris Caruso, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Loris Caruso
Até os analistas estão divididos entre os que consideram o Movimento 5 Estrelas [orig. Movimento 5 stelle (M5S), de Beppe Grillo] uma “costela da esquerda” e os que veem ali uma organização populista, predominantemente de direita, e quase, pelo menos tendencialmente, fascista. As coisas estão realmente confusas.

Já se disse mais de uma vez que o conteúdo “ambientalista” do programa e a insistência na democracia direta e participativa aproximam o M5S, da esquerda “libertarista” e ambientalista dos anos 70 e 80.

Chama a atenção a força da mensagem participativa, lançada pelo M5S com radicalidade e eficácia que nenhum movimento político da esquerda conseguiu ter: o anulamento da diferença entre representados e representantes; a substituição da delegação pela participação; o fim dos políticos profissionais. Onde, então, estaria “a direita”, no M5S?

Beppe Grillo e o M5S
Em primeiro lugar, numa possível modificação desse mesmo ideal democrático. Se se põe como objetivo que uma única força social possa autenticamente enfrentar todas as outras (partidos, sindicatos, etc.), essa hiper-democracia pode converter-se em seu contrário. Força política que, como o M5S, avoque para si e só para si uma real natureza democrática, pode apresentar como se fosse hiper-democrática todas as suas escolhas, inclusive as que limitam o agir democrático. Se a democracia radical prevê o fim dos partidos, não é impossível imaginar que, ante uma oposição previsível dos partidos à autoextinção, a extinção seja determinada, num eventual governo do M5S, por intervenção não democrática.

Em segundo lugar, a pressuposição de “virtude” com que o M5S beneficia seus próprios representantes e ativistas é tão absoluta (por exemplo, pressupõem o anulamento de todas as ambições pessoais), quase impõe a “virtude”, o que exigirá rigidíssimo controle centralizado. Esse controle centralizado, de fato, já se vê no M5S, quando trabalha para impedir que surjam, seja qualquer protagonismo individual sejam organismos coletivos que façam algum contrapeso ao papel de Grillo e Casaleggio. Abaixo dos líderes e de tantos ativistas e eleitos, que devem, pelo menos tendencialmente, permanecer anônimos, não é o caso de todos se converterem em nada. Não, advertem Grillo e Casaleggio. “Sejamos um partido”. O resultado é que atualmente, na estrutura nacional, o M5S é organismo muito menos democrático que um partido. Se esse é o modelo de Estado que os dois líderes do M5S têm em mente, não é muito tranquilizador. De fato, é modelo que tem a forma do chamado “capitalismo cognitivo”.

Como já disse várias vezes, dentre outros, Carlo Formenti, a economia da Rede é caracterizada por vasta participação em baixo (os usuários, os consumidores, os midiativistas, etc.) e por participação-zero no topo – onde se vê o domínio oligopolista de pouquíssimas empresas gigantes (Google, Amazon, etc.). O M5S parece organizado de modo análogo. É possível que a analogia entre a forma do movimento e a economia da Rede explique, em parte, o sucesso do movimento.

Se o modelo é esse, pode-se pensar na relação que o M5S estabelece com os movimentos. Em recente comício eleitoral em Susa, Grillo mandou que recolhessem a bandeira No-Tav [movimento de ativistas que se opõe ao Trem de Alta Velocidade]: “não somos mais grupo de protesto, agora somos todos cidadãos”. A mensagem é: agora, eu os represento todos. No meu “tudo” há espaço também para vocês. Logo, não é mais necessário que vocês manifestem, com autonomia, seu específico ponto de vista. Essa, de fato, é a relação prevalente que Grillo instaura com os movimentos cuja luta dirige. Raramente essa relação é trabalho comum, um compartilhamento de objetivos ou finalidades. Mais frequentemente, o M5S trabalha de forma independente e “paralela” sobre os mesmos temas dos movimentos, tentando representá-los nas eleições e apresentar essas lutas como sua própria luta.

A ideia de ser uma Totalidade, a representação de um mundo de cidadãos sem qualquer diversidade por condição social e orientação política é o antípoda da história e da natureza da esquerda, que se baseia na construções de “parcialidades organizadas”. A crise dessa ideia de parcialidade, a emergência dessa “vontade de Totalidade” é, provavelmente, uma das causas da crise histórica da esquerda. Grillo foi progressivamente incorporando a direita no seu discurso político, abraçando os temas da direita – protestos contra impostos, promoção do pequeno empresário como referência social, a “liberdade de imprensa” apresentada como bem em si – como temas seus.

Em terceiro lugar, a figura do criador do M5S é estranha à esquerda. A empresa Casaleggio & Associati é empresa de ponta do web-marketing. Na sua rede de relações estão a Confindustria, lobbies à italiana como Aspen, lobbies internacionais como a Câmara de Comércio Americana, grandes empresas multinacionais, sobretudo de informática e do espetáculo. Projeto nascido nesse ambiente poderia, fosse como fosse, favorecer os interesses populares? Ou se deve pensar que é boa oportunidade, sobretudo, para as elites econômicas? O fato de os resultados eleitorais do M5S ter provocado entusiasmado em ambientes como Goldman Sachs e Confindustria obriga a pensar melhor. E então?

A conclusão é que o Movimento 5 Estrelas é tanto de esquerda quanto de direita, ao mesmo tempo hiper democrático e autoritário. Compreende nele todas as formas sob as quais a política representativa foi desafiada de alto a baixo nos últimos anos: é, ao mesmo tempo, um movimento social, um partido-feudo, um partido de um homem só. Contém nele uma ideia de politização total da sociedade (“não vote: mexa-se”) e também a ideia de uma politização tecnocrática, na qual a “gestão”, a “administração”, substitui a política (a competência, em vez do pertencimento). É profético (a utopia acrítica da “rede”) e antiprofético, pelo menos contra esse específico tipo de profecia política que é a idelogia moderna.

Para a crise da democracia representativa, há duas saídas possíveis: o autoritarismo tecnocrático, mesmo que decorado com alguns elementos participativos; e a democracia participativa. O M5S contém nele as duas possibilidades. Seu sucesso deriva também dessa co-presença: a dificuldade de uma construção “assembleística” é contornada pelo centralismo verticalista.

O sucesso do M5S mostra que, usando terminologia de Gramsci, há na política contemporânea uma nova oscilação entre “guerra de trincheiras” (na qual as alternativas políticas são comprimidas nos instrumentos existentes) e “guerra de movimento” (na qual se disputam os próprios instrumentos sociais, as formas gerais da política e da economia).

Esse trânsito abre um campo inédito de possibilidades para a esquerda. Se e somente se souber jogar esse jogo, nesse nível. Se e somente se foi capaz de organizar, juntamente com o seu próprio modelo de democracia radical, um projeto seu de sociedade global. Em crise, não está só a representação: o capitalismo também está em crise. Sobre isso, Grillo (quase) nada diz. E esse é o nosso terreno de luta.

Agir nesse nível significa, me parece, construir um novo sujeito plural que atraia e arraste as lutas pelos bens comuns, os movimentos antiausteridade, as lutas do trabalho, o mundo do trabalho dependente e do trabalho “cognitivo”, construindo uma alternativa global de sociedade, um projeto de “democracia dos bens comuns”: a ideia inovadora de um “socialismo do século 21”. [Chávez vive![1]]



Nota dos tradutores
[1] O socialismo do século 21 é conceito que surgiu em 1996, em trabalho de Heinz Dieterich Steffan. O termo ganhou difusão mundial depois que apareceu em discurso que o presidente Hugo Chávez da Venezuela fez, dia 30/1/2005, no V Fórum Social Mundial. Antes, numa das emissões do programa “Aló Presidente”, em 2003, Hugo Chávez já havia apresentado a ideia de Giulio Santosuosso para o Socialismo do século 21: socialismo num paradigma liberal; o autor sugere que o mundo está em processo de realinhamento ideológico, consequência da mudança de paradigma em curso na economia; o velho modelo morreu, mas ainda não surgiram os novos critérios que permitirão o realinhamento conceitual.

terça-feira, 12 de março de 2013

Pepe Escobar: “A queda da Casa de Europa”


11/3/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online -  The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Enchanters came / Cold and old,
Making day gray / And the age of gold
Passed away, / For men fell
Under their spell, / Were doomed to gloom.
Joy fled, / There came instead,
Grief, unbelief, / Lies, sighs,
Lust, mistrust, / Guile, bile,
Hearts grew unkind, / Minds blind,
Glum and numb, / Without hope or scope.
There was hate between states,
A life of strife, / Gaols and wails,
Dont's, wont's, / Chants, shants,
No face with grace, / None glad, all sad.

W H Auden, “The Golden Age”
[Thank You, Fog, NY: Faber and Faber, 1974]


Pepe Escobar
Não se tem, infelizmente, versão pós-moderna de Dante guiado por Virgílio para contar a um mundo perplexo o que está realmente acontecendo na Europa, passada a recente eleição geral na Itália.

Na superfície, os italianos votaram um retumbante “não” – contra a austeridade (imposta à moda alemã); contra mais impostos; contra cortes no orçamento, desenhados, em teoria, para salvar o euro.
Nas palavras do prefeito de Florença, de centro-esquerda, Matteo Renzi, “Nossos cidadãos falaram alto e claro, mas talvez ainda não tenhamos entendido completamente sua mensagem”. De fato, não é difícil entender. 

Há quatro principais personagens nessa peça moral/existencial digna da mais ensandecida tradição da commedia dell’arte.

O vencedor pírrico é Pier Luigi Bersani, líder da coalizão de centro-esquerda; mas não consegue formar governo. O perdedor indiscutível é o tecnocrata e ex-serviçal de Goldman Sachs, primeiro-ministro Mario Monti.

E há também os reais vencedores: “dois palhaços” – pelo menos de um ponto de vista alemão e da City de Londres, via The Economist. Os “palhaços” são o movimento comandado pelo comediante Beppe Grillo, “Movimento 5 Estrelas”, e o notório bilionário e ex-primeiro ministro Silvio “Bunga Bunga” Berlusconi.

Para tumultuar ainda mais as coisas, Berlusconi foi condenado a um ano de prisão, na 5ª-feira passada, numa corte de Milão, em processo que inclui escândalo de gravações clandestinas. Haverá apelação; e, como já aconteceu antes, noutra condenação, ele outra vez se safará. O mantra de Berlusconi não muda: “sou perseguido pelo judiciário italiano”.

Há mais, muito mais. Esses quatro personagens – Bersani, Monti, Grillo, Berlusconi – estão, de fato, no coração de imensa, imensíssima tragédia shakespeareana: o fracasso político da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), que, traduzido, implica que a política da União Europeia está sendo espatifada.

É o que acontece quando o projeto da União Europeia não tem, nem jamais teve, coisa alguma a ver com “união” política – e sempre só teve a ver com inventar o Euro como moeda comum europeia. Não surpreende que, nessas circunstâncias, o mais importante mecanismo da unificação da Europa seja o Banco Central Europeu. Mas abandonem qualquer esperança de ver políticos europeus falando a seus esfarrapados cidadãos sobre alguma real união europeia. Será que alguém ainda quer união? E sob que formato?

Eis o Absurdistão

Marco Cattaneo
Por que as coisas aconteceram na Itália do jeito que aconteceram? Não encontrei melhor explicação que a de Marco Cattaneo, em artigo em que ele tenta entender o “Absurdistão”.

Tudo começou com uma lei eleitoral que até na Itália foi definida como ulna porcata [grande porcaria], validando um sistema “des-proporcional” (cientistas políticos, anotem!) que só poderia levar a situação absolutamente ingovernável.

Na excelente leitura de Cattaneo, a coalizão “Um por Todos, Todos por Um” (de Bersani), obteve 31,6% dos votos. A coalizão “Cada um por Si” (de Berlusconi) obteve 30,7%. E os novíssimos “1 = 1, o Resto = Zero” (de Grillo) obtiveram surpreendentes 23,8%.

Mesmo assim, desafiando qualquer lógica, no final “Cada um por Si” ficou com 116 assentos; “Um por Todos, Todos por Um”, com 113 assentos; e os “1 = 1, o Resto = Zero” ficaram só com 54 assentos – menos que a metade.

Nas ruas, de Nápoles a Turim e de Roma a Palermo, há outra explicação. Nada menos que 45% dos italianos, de aposentados que vivem com 1.000 euros [US$1,300] até banqueiros que fazem 10 milhões/ano, não querem mudança nenhuma. Outros 45% – os desempregados e os subempregados – querem mudança radical. E 10% não ligam – e jamais ligaram. Misture e acrescente tudo isso à lasagna da ingovernabilidade.

E extraia de lá uma colherzinha de sabedoria de cappuccino-no-balcão. Em breve, as finanças do Absurdistão estarão em estado tão lastimável quanto as finanças do Helenistão – terra vizinha, dos descendentes de Platão e Aristóteles. Quando acontecer, então, o Absurdistão será usado como modelo para a Europa e para o mundo: onde 1% da população controla 99% da riqueza nacional. De Lorenzo de Medici a Berlusconi; caso claro de Ascensão e Queda.

Bunga Bunga me, baby

"Bunga-Bunga" Berlusconi

Processado e julgado até o osso (inclusive com uma condenação por fraude fiscal em outubro de 2012; mas safou-se); beneficiário de leis espúrias explicitamente escritas e aprovadas para protegê-lo e seu gigantesco império empresarial: eis a saga Bunga Bunga rabelaisiana. Até agora, derrotou todos. Silvio Berlusconi talvez seja o último comeback kid  [1]. Como conseguiu safar-se da cadeia, dessa vez?

É fácil, se você mistura voltagem bilionária de mídia (e controle pelas corporações) com promessas grotescas – como retalhar um muito detestado imposto sobre a propriedade. Como fazer, com a arrecadação que encolheria? Simples: Silvio prometeu novos impostos sobre o jogo, e negócio obscuro para recuperar alguns dos fundos que italianos mantêm em bancos suíços.

Faz alguma diferença que a Suíça já tenha dito bem claramente que seriam necessários muitos anos, até o esquema funcionar? Claro que não. Até a vasta oposição a Silvio teve de reconhecer que a ideia era “golpe de gênio”. Cerca de 25% dos italianos votaram no partido de Silvio. Quase 1/3 apoiou sua coalizão de direita. Na Lombardia – conhecida informalmente como o Texas da Itália – a coalizão reduziu o centro-esquerda a cacos. A Toscana, por sua vez, votou como tradicionalmente com a esquerda; e Roma, por essência, oscila.

Os eleitores de Silvio são, quase todos, pequenos e médios comerciantes; o norte da Itália comanda a economia. Odeiam impostos; vão de legiões de sonegadores aos asfixiados pela carga fiscal. Obviamente, dificilmente se preocupariam menos com o déficit orçamentário de Roma. E todos desejam que a chanceler alemã, Angela Merkel, apodreça no nono círculo do inferno de Dante.

Frau Merkel, por sua vez, acalenta a ideia de que cruzará tranquilamente as águas da Eurozona rumo ao seu terceiro mandato, nas eleições de setembro próximo. Praticamente impossível – graças aos eleitores de Silvio e Beppe Grillo. Pode-se dizer que a um abismo entre norte e sul na Europa. A cúpula da União Europeia, nesse mês de março, será – literalmente, um quebra-quebra.

Aqueles sexy palhaços-políticos

A União Europeia vive o apocalipse. O Le Monde insiste que a Europa não agoniza. Ah, está. Está em coma.

Jeroen Dijsselbloem
E nem assim Bruxelas (aquela Comissão Europeia infestada de burocratas) e Berlin (o governo alemão) sequer cogitam de algum Plano B: é austeridade ou que-se-explodam. Previsivelmente, o Ministro alemão das Finanças, Jeroen Dijsselbloem – novo cabeça da espetacularmente opaca, não transparente, comissão que comanda o Euro – disse que o que Monti fazia (e foi furiosamente rejeitado pelos italianos) é “crucialmente necessário para toda a Eurozona”.

Em 2012, a economia italiana encolheu 2,2%, mais de 100 mil pequenos negócios fecharam as portas (e, sim, todos votaram em Silvio) e o desemprego já passou de 10% (na realidade, já passou de 15%). A Itália talvez tenha a mais alta dívida nacional de toda a Eurozona, depois da Grécia. Mas aqui o Absurdistão manifesta-se outra vez, via a austeridade: o déficit fiscal da Itália é muito inferior ao da França e ao da Holanda.

Estourem o champagne: a França está em decadência vertical. Não se trata só de declínio da indústria, mas também da perene recessão, da turbulência social e de uma dívida pública que ultrapassa 90% do PIB. A França, a segunda maior economia da Eurozona, pediu mais um ano à Comissão Europeia para baixar seu déficit para menos de 3% do PIB. Jens Weidman, Presidente do Bundesbank, rugiu que “Esqueçam”.

Portugal também está pedindo água à troika. A economia portuguesa encolheu (cerca de 2%) pelo terceiro ano consecutivo, com desemprego acima de 17%.

A Espanha vive sob horrenda recessão, além de enfrentar crise monstro da dívida. O PIB caiu 0,7% em 2012 e, segundo o Citibank, cairá mais 2,2% em 2013. O desemprego alcança inacreditáveis 26%, com mais de 50% dos jovens, desempregados. Nem todos acertam a loteria, jogando no Barcelona ou no Real Madrid. A Irlanda tem o maior déficit da Eurozona, 8%, e acaba de reestruturar a dívida de seus bancos.

A Grécia está no quinto ano consecutivo de recessão, com desemprego acima de 30%  – e, isso, depois de dois pacotes de austeridade. Atenas corre em círculos, tentando escapar dos credores, ao mesmo tempo em que tenta aliviar alguns dos cortes draconianos. Os gregos já não têm dúvidas: a situação é pior que a da Argentina em 2001. E lembrem: a Argentina deu calote nos bancos.

Até a Holanda enfrenta grave crise bancária. E, como se não bastasse, David Cameron pôs em torvelinho o futuro da Grã-Bretanha.

Assim sendo, é, mais uma vez, a vez de Silvio – e quem mais poderia ser? – de temperar o cozidão. Só o Cavaliere seria capaz de dizer que o famoso spread – a diferença entre o quanto Itália e Alemanha pagam para tomar empréstimos nos mercados de ações – foi “inventado” em 2011 por Berlin (o governo alemão) e Frankfurt (o Banco Central Europeu), para conseguir livrar-se Dele, de Silvio, e “eleger” o tecnocrata Monti.

A imprensa-empresa alemã, também previsivelmente, não quer saber de prisioneiros vivos. A Itália e os italianos são diariamente ridicularizados como “infantiloides”, “ingovernáveis”, “gravíssimo risco para a Eurozona”. (Por exemplo, ver Der Spiegel).

O tabloide Bild, ultrapopular, inventou até nova pizza: não “Quatro Estações” [Quattro Stagioni], mas “Quatro Estagnações” [Quattro Stagnazioni].

O veredicto é uma Itália “nas mãos de palhaços-políticos que podem destruir o euro ou forçar o país a sair”. Até o liberal-progressista Der Tagesspiegel em Berlim define a Itália como “um perigo para a Europa”.

Peer Steinbruck
Peer Steinbruck, ex-Ministro alemão das Finanças e candidato social-democrata contra Merkel em setembro próximo, resumiu: “Em certa medida, estou aterrorizado, agora que dois palhaços venceram as eleições”.

Assim sendo, seja qual for o governo que surja na Itália, a mensagem de Bruxelas, Berlin e Frankfurt é sempre a mesma: se não cortarem, cortarem, cortarem, ficarão por sua própria conta.

A Alemanha, essa, só tem um Plano A. Chama-se “Esqueçam o Club Med”. Significa integração mais íntima com a Europa Oriental (e ali, um pouco depois, na mesma estrada, a Turquia). Um acordo de livre comércio com os EUA. E mais negócios com a Rússia – a chave é a energia – e com os BRICS em geral. Digam o que digam os jornais, fato é que os think-tanks alemães já estão trabalhando com uma Eurozona de duas pistas.

O povo quer alívio monetário / The people want quantitative easing

O filme, de título muito adequado, Girlfriend in a Coma [Namorada em Coma], (ver trailer abaixo) dirigido por Annalisa Piras e escrito em co-autoria com Bill Emmett, ex-editor de The Economist, tentou dar conta, com algum sentido, dos vícios e virtudes da Itália.


E mesmo assim, não só via Prada ou Maserati, presunto de Parma ou vinhos Brunello, a Itália continua a ter lampejos de brilho: o melhor aplicativo do mundo – Atom, que permite personalizar as funções de um telefone celular, sem que você tenha de entender de alta programação de computadores – foi criado por quatro jovens de 20 e poucos anos, em Roma, como La Repubblica noticiou.

O filósofo Franco Berardi – que nos anos 1970s participou do movimento italiano dos autonomistas – avalia corretamente que o que a Europa vive hoje é consequência direta dos anos 1990s, quando o capital financeiro sequestrou o modelo europeu e o engessou sob o neoliberalismo.

Subsequentemente, pode-se argumentar, consistentemente, que os Mestres do Universo financeiro usaram o período pós-crise financeira de 2008 para superturbinar a desintegração da União Europeia via um tsunami de cortes nos salários, precarização dos empregos para os mais jovens, achatamento das aposentadorias e privatização hardcore de tudo. Não surpreende que cerca de 75% dos italianos tenham dito “não” a Monti e Merkel.

O resumo da ópera é que os europeus – dos países do Club Med a algumas economias do norte – tenham-se cansado de ter de pagar as dívidas acumuladas pelo sistema financeiro.

Beppe Grillo
O movimento de Grillo per se – apesar de seus 8,7 milhões de votos – não consegue, obviamente, governar a Itália. Algumas de suas (vagas) ideias têm enorme apelo entre as novas gerações, sobretudo no que tenham a ver com calote unilateral na dívida pública (vejam os exemplos de Argentina, Islândia e Rússia), a estatização dos bancos e uma renda “de cidadania” para todos, de 1.000 euros por mês. Daí em diante, haveria referendo e mais referendo, sobre acordos de livre comércio, participação na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, claro, permanecer ou não na Eurozona.

O que o movimento de Grillo já fez é mostrar o quanto a Europa é ingovernável sob o mantra de Monti-Merkel, da austeridade. Agora, a bola está no campo da elite financeira europeia. Muitos não se incomodariam de deixar que a Itália converta-se numa nova Grécia.

Assim, voltamos ao início. A única saída é uma reformulação política da União Europeia. No pé em que estão as coisas, a Europa assiste, impotente, a morte do estado de bem-estar, sacrificado no altar da Recessão. Assim a Europa vai rumando para a irrelevância global – apesar do Real Madrid e do Bayern de Munique.

Edgar Allan Poe
A Queda da Casa de Europa pode vir a ser história de horror, além de qualquer coisa imaginada por Poe [2] – com elementos (já visíveis) de fascismo, exploração neo-Dickensiana de trabalhadores e guerra social, civil, ampla. Nesse contexto, a lenta reconstrução de uma Europa com base social pode tornar-se sonho movido a ópio.

O que Dante faria dessa matéria bruta? Roberto Benigni, nascido na Toscana, está atualmente lendo e comentando em profundidade os cantos XI até XXII – do Inferno de Dante, ponto alto da Divina Comédia. Assisti, boquiaberto, pela televisão, RAI – a praça em frente à fabulosa igreja Santa Croce em Florença, absolutamente lotada – à perfeição cósmica das palavras do Maestro que dão sentido a tudo isso.

Se, pelo menos, seu espírito iluminasse esses vendilhões do Inferno, de Monti a Merkel, de Silvio aos banqueiros da Europa Central – e alinhassem o Homem outra vez às estrelas e mostrasse o caminho a essa Europa atormentada.



Notas dos tradutores

[1] Sobre a expressão comeback kid, que designa, na gíria dos EUA, no registro pejorativo:
(a) alunos que adiam a formatura na escola secundária, para continuar a comer de graça na escola;
(b) quem se muda da casa dos pais, mas continua a voltar diariamente para comer e lavar a roupa,

[2] Referência ao magistral conto de Edgar Allan Poe, A queda da casa de Usher. O conto pode ser lido em português.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Marxismo hoje: Beppe Grilo entrevista Hobsbawm, 94

15/6/2011, Beppe Grillo Blog, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
Indomáveis” – Resenha de Como mudar o mundo”  (Hobsbawm), por Terry Eagleton; em português – 23/2/2011. 


Esse blog entrevistou Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores europeus vivos, e marxista. A entrevista aconteceu no dia de seu 94º aniversário, quando esteve em Roma para o lançamento da tradução italiana de seu livro How to Change the World - Why rediscover the inheritance of Marxism. Hobsbawm analisa a possibilidade de uma deriva rumo à direita nos próximos anos na Europa, por razões conectadas à depressão econômica, à ânsia por segurança e à estagnação da União Europeia, arcada sob o peso da obrigação de ser cada vez maior e maior e pela falta de visão política comum. Além disso, os grupos militantes desenvolvem-se mais em regiões onde haja maior número de jovens – por exemplo no norte da África e nos países em desenvolvimento, não na Europa. 

E Hobsbawm – que se apressa em esclarecer que é historiador, não futurólogo – fala sobre o que o marxismo passou a ser em nossos dias e os efeitos da mudança.
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(1) Sobre o marxismo hoje

Eric Hobsbawm: Meu nome é Eric Hobsbawm. Sou historiador muito velho. Estou falando com vocês no dia do meu 94º aniversário. Durante toda a minha vida escrevi principalmente sobre a história de movimentos sociais, a história geral da Europa e o mundo dos séculos 19 e 20. Acho que todos os meus livros estão traduzidos para o italiano e são acessíveis; e alguns foram bastante bem recebidos. 

Blog: Nossa primeira pergunta é sobre seu livro. O marxismo é considerado um fenômeno pós-ideológico. O senhor pode nos explicar por quê? E quais serão as consequências dessa mudança? 

Eric Hobsbawm: Eu não escrevi a expressão “fenômeno pós-ideológico” sobre o marxismo, mas é verdade que, no momento, o marxismo deixou de ser o principal sistema de crenças associado aos grandes movimentos políticos de massa em toda a Europa. Apesar disso, acho que sobrevivem alguns pequenos movimentos marxistas. 

Nesse sentido, houve grande mudança no papel político que o marxismo desempenha na política da Europa. Há algumas partes do mundo, por exemplo, a América Latina, em que as coisas não se passaram do mesmo modo. A consequência daquela mudança, na minha opinião, é que agora todos podemos concentrar-nos mais e melhor nas mudanças que o marxismo provocou, nas conquistas permanentes do marxismo. Essas conquistas permanentes, na minha opinião, são as seguintes: 

Primeiro, Marx introduziu algo que foi considerado novidade e ainda não se realizou completamente, a saber; a crença de que o sistema econômico que conhecemos não é permanente nem destinado a durar eternamente; que é apenas uma fase, uma etapa no desenvolvimento histórico que acontece de um determinado modo e deixará de existir e converter-se-á em outra coisa ao longo do tempo. 

Segundo, acho que Marx concentrou-se na análise do específico modus operandi, do modo como o sistema operou e desenvolveu-se. Concentrou-se, sobretudo, no estudo de como o sistema produziu crises enormes.

A principal vantagem da análise que o marxismo permite fazer é que considera o capitalismo como sistema que abriga contradições internas que periodicamente geram crises de diferentes tipos; e essas crises têm de ser superadas mediante uma transformação básica ou alguma modificação menor do sistema. Trata-se dessa descontinuidade, a assunção de que o capitalismo opera não como sistema que tende a se autoestabilizar, mas que é sempre instável e eventualmente, portanto, pode gerar grandes mudanças. Esse, me parece, é o principal elemento que ainda sobrevive do marxismo. 

Terceiro, e acho que aí está a preciosidade do que se poderia chamar de um fenômeno ideológico, o marxismo é baseado, para muitos marxistas, num senso profundo de injustiça social, de indignação contra a desigualdade social entre os pobres e os ricos e poderosos. 

Quarto, e último, acho que talvez se deva considerar um elemento – sobre o qual Marx talvez não concordasse comigo –, mas que esteve sempre presente no marxismo: um elemento de utopia. A crença de que, de um modo ou de outro, a sociedade chegará a uma sociedade melhor, mais humana, do que a sociedade na qual todos vivemos atualmente. Acho que respondi sua pergunta.  

(2) Uma deriva à direita, na Europa?

Blog: No norte da África e em alguns países europeus – Espanha, Grécia e Irlanda – alguns movimentos de jovens que nasceram na internet e usam redes, por exemplo Twitter e Facebook, estão-se aproximando da política. São movimentos que exigem mais envolvimento e mudanças radicais nas escolhas das sociedades. Mas, ao mesmo tempo, a Espanha tende à direita; a Dinamarca votou pelo fechamento das fronteiras co a Hungria; e na Finlândia, e até mesmo na França, com Marie Le Pen, estão surgindo partidos nacionalistas de ultradireita. Não lhe parece que haja alguma contradição?

Eric Hobsbawm: Não, não acho. Acho que são fenômenos diferentes. Acho que, na maioria dos países ocidentais hoje, os jovens são minoria politicamente ativa, largamente por efeito de como a educação é construída. Por exemplo: os estudantes sempre foram, ao longo dos séculos, elementos ativistas. Ao mesmo tempo, a juventude educada hoje é muito mais familiarizada com modernas tecnologias de informação, que transformaram a agitação política transnacional e a mobilização política transnacional.

Mas há uma diferença entre (a) esses movimentos de jovens educados nos países do ocidente, onde, em geral, toda a juventude é fenômeno de minoria, e (b) movimentos similares de jovens em países islâmicos e em outros lugares, nos quais a maioria da população tem entre 25 e 30 anos. Nesses países, portanto, muito mais do que na Europa, os movimentos de jovens são politicamente muito mais massivos e podem ter maior impacto político. O impacto adicional na radicalização dos movimentos de juventude acontece porque os jovens hoje, em período de crise econômica, são desproporcionalmente afetados pelo desemprego e portanto, estão desproporcionalmente insatisfeitos. Mas não se pode adivinhar que rumos tomarão esses movimentos. No todo, os movimentos dessa juventude educada não são, politicamente falando, movimentos da direita. Mas eles só, eles pelos seus próprios meios, não são capazes de definir o formato da política nacional e todo o futuro. Creio que, nos próximos dois meses, assistiremos aos desdobramentos desse processo.

Os jovens iniciaram grandes revoluções, mas não serão eles que necessariamente decidirão a direção geral pela qual andarão aquelas revoluções. Cada direção, é claro, depende do país e da região. Obviamente as revoluções serão muito diferentes nos países islâmicos, do que são na Europa ou, claro, nos EUA.

E é verdade que na Europa e provavelmente nos EUA pode haver uma deriva para a direita, na política. Mas isso, me parece, será assunto da terceira pergunta.

(3) A crise econômica

Blog: Sim senhor. A próxima pergunta é sobre a crise econômica em que vivemos desde 2008. As crises de 29, 33, levaram o fascismo ao poder. O se senhor prevê algum risco de a crise atual ter os efeitos que tiveram as crises de 28, 29, 33?

Eric Hobsbawm: Bem, não há dúvidas de que a crise, a crise econômica que se arrasta desde 2008, tem muito a ver com a deriva à direita na Europa. Acho que, hoje, só quatro economias na Europa, na União Europeia, estão sob governos de centro ou de esquerda. Algumas daquelas devem perder. A Espanha provavelmente também se moverá em direção à direita. Nesse sentido, parece verdade. Não acho que haja aí qualquer risco de ascensão do fascismo, como nos anos 1930s. O perigo do fascismo nos anos 1930s foi, em grande medida, resultado de cada país ter-se ido convertendo ao fascismo, um por vez, e num país politicamente decisivo, a Alemanha sob Hitler. Não há sinal de que nada disso esteja acontecendo hoje. Nenhum dos países importantes , me parece dá qualquer sinal nessa direção. Nem nos EUA, onde há um forte movimento direitista, pode-se concluir que aquele movimento ganhe poder nas urnas. Nem, tampouco, no caso dos partidos e movimentos de ultradireita nos países europeus.

Embora sejam movimentos fortes em alguns casos, continuam a ser minoritários, sem qualquer sinal de que se tornem majoritários. Mas, sim, creio que, no futuro próximo, praticamente todos ou quase todos os países europeus serão governados por governos de direita, de um tipo ou de outro tipo. Lembre que um dos efeitos de longo prazo da crise econômica dos anos 1930s foi que praticamente toda a Europa passou a ser governada por partidos Democratas e de esquerda, como jamais antes acontecera. Mas levou algum tempo. Quero dizer: há um risco, mas não é o mesmo risco que havia nos anos 1930s. O risco principal é, sobretudo, que nada se fez em face dos problemas básicos que o capitalismo dos últimos 40 anos criou e que o renascimento de estudos marxistas destacou.

Blog: O que o senhor pensa sobre a União Europeia e sobre o que já foi conseguido? A União Europeia conseguirá consolidar-se, ou voltará a ser simples reunião de estados?

Eric Hobsbawm: Acho que a esperança de que a União Europeia venha a ser algo mais que uma aliança de estados e área de livre comércio, essa, não tem grande futuro. Não irá muito além do que já foi até aqui, mas não acho que seja destruída.

Acho que o que já se fez, um grau de livre comércio, um grau muito mais importante de jurisprudência comum e lei comum permanecerão. A principal fraqueza, me parece, da União Europeia, razão do fracasso, foi o conflito entre a economia e a base social da União Europeia, conflito que levou a tentar eliminar a guerra entre França e Alemanha e unificar economicamente as partes mais ricas e desenvolvidas da Europa. Esse objetivo foi alcançado.

Mas em seguida misturou-se a um objetivo político, associado ainda à Guerra Fria e ao desenvolvimento desde o final da Guerra Fria, a saber, o objetivo de estender as fronteiras da Europa para todo o continente e além do continente. Esse processo dividiu a Europa em partes, que não são facilmente coordenáveis.

Economicamente, as grandes crises são ambas muito parecidas, nas aquisições para a União Europeia desde os anos 1970s – Grécia, Portugal, Irlanda, por exemplo. Mesmo politicamente, as diferenças entre os antigos estados comunistas e os antigos estados não comunistas da Europa enfraqueceram a capacidade de a Europa continuar a desenvolver-se. Não sei se a Europa continuará a conseguir manter-se como está. 

Não creio, contudo, que a União Europeia deixe de existir e deve vir a existir uma Europa mais coordenada que a que conhecemos, digamos, desde a II Guerra Mundial. 

De qualquer modo, devo dizer que você me faz perguntas sobre o futuro. Sou historiador e, infelizmente, os historiadores sabem tanto sobre o futuro quanto qualquer outra pessoa. Por isso, minhas previsões nada têm de especial e valem praticamente nada, como quaisquer previsões.