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domingo, 1 de março de 2015

“V de Varoufakis” ou “Os destinos da Grécia estão nas mãos de Angela Merkel?


20/2/2015, Shawn Tully entrevista [*] James K. Galbraith, Fortune
Traduzido do inglês para espanhol em 22/2/2015, Sin Permiso e Rebelión
Traduzido do espanhol para português pelo pessoal da Vila Vudu


Um dos mais afamados economistas vivos, estreitamente ligado ao Ministro grego de Finanças, Yanis Varoufakis, diz que o obstáculo fundamental que atravessava o caminho do acerto-compromisso foi a incrível divisão registrada dentro do próprio governo alemão, com uma parte a exigir total adesão da Grécia aos compromissos prévios, e outra parte, também muito poderosa, que defendia concessões e acordo.


James Kenneth Galbraith
“Tudo depende de Merkel” – diz-nos James Galbraith, que passou sete dias em meados de fevereiro ao lado de Varoufakis em Bruxelas e em Atenas.

Ouvimos o Ministro de Finanças de Merkel, com atitude negativa; e ouvimos o vice-chanceler, que queria o diálogo. Só não ouvimos a própria chanceler Merkel. Sabemos que não quer falar, só se for estritamente imprescindível. São os mais duros que podem ser, depois fazem uma concessão no último minuto, para não ter de fazer duas.

Galbraith resume numa pergunta o dilema de Merkel (e a melhor esperança de que cheguem a um acordo):

Que interesse terá Merkel em converter-se na governante que presidiu a desintegração da Eurozona?

Difícil imaginar dupla mais díspar que essa, Galbraith e Varoufakis. O primeiro é filho – educado em Harvard, Yale e Cambridge – do legendário economista John Kenneth Galbraith. Varoufakis é agitador incendiário, que veste jaquetas de couro e camisetas azul-brilhantes nas reuniões com as engravatadas elites europeias, e para relaxar pilota motocicletas de alta cilindragem.

Apesar das diferenças, e colegas na Universidade de Texas em Austin, não apenas travaram profunda amizade pessoal, mas, também, tornaram-se almas intelectualmente gêmeas, e produziram juntos , em 2013, em trio com o economista britânico Stuart Holland – um opúsculo sobre a solução da crise na eurozona, no qual advogam a substituição de boa parte da dívida soberana das nações com problemas, por bônus de baixo rendimento supergarantidos pelo Banco Central Europeu. [Há tradução ao espanhol, em SinPermiso: “Modesta Proposición”].

É claro que as ideias de Galbraith ajudaram a modelar a controvertida campanha de Varoufakis para “pôr fim” à austeridade [arrocho] na Grécia e proteger os empregos públicos e as pensões dos gregos.

Yanis Varoufakis
Trabalhando esses dias ombro a ombro com Varoufakis, Galbraith está tendo a chance de ver “por dentro” o manejamento caótico do Eurogrupo, que reuniu os ministros europeus de finanças, dia 16/2/2015, em Bruxelas:

Estive com as equipes técnicas entre os dias 11 e 17 de fevereiro (2015), incluída a reunião de Bruxelas. Estava na sala das máquinas, acompanhando a equipe de trabalho grega.

Na reunião do Eurogrupo, Pierre Moscovici, Comissário da União Europeia para assuntos econômicos e financeiros, apresentou a Varoufakis um rascunho de comunicado que permitia à Grécia solicitar uma extensão de seu acordo de empréstimo, garantindo-lhe tempo para discutir um novo plano de crescimento para a Grécia. Como Varoufakis disse à imprensa logo depois da reunião, estava pronto para assinar o comunicado de Moscovici, que elogiou como “documento esplêndido” e “verdadeiro ponto de abertura”.

Mas o diretor do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, estava preparando seu próprio documento.

Yanis disse:

Tenho um texto .

E Dijesselbloem disse:

Não. O texto é esse [outro!].

Jeroen Dijsselbloem
Galbraith e a equipe grega trataram então de combinar partes dos dois rascunhos, para produzir um documento aceitável para ambas as partes:

Dediquei-me então, com as outras pessoas, a combinar os dois rascunhos [o de Moscovici e o de Dijeselbloem] tentando chegar a um texto que pudesse ser assinado. Não demoramos nisso mais que meia hora.

Mas então, segundo o testemunho de Galbraith, o Ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble, deu a reunião por encerrada.

Disse “não” à elaboração de uma declaração conjunta como prelúdio de um acordo – no depoimento de Galbraith.

Para Galbraith, a falta de coordenação entre os europeus parecia absolutamente inacreditável:

Sou veterano conhecedor dos assessores especialistas que trabalham no Congresso dos EUA. E ver um corpo institucional oficial trabalhando com tamanho descaso, com tamanha incompetência, de forma imediatista, tão ad hoc, assistir ao vivo ao Eurogrupo, ver aquela forma atrabiliária de fazer as coisas, foi para mim uma verdadeira revelação.

Dia 18 de fevereiro (2015), Varoufakis apresentou solicitação formal para que fosse prorrogado o acordo de empréstimo como o Eurogrupo. Mais uma vez, as respostas divergentes deixaram Galbraith assombrado:

Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] disse seria um “ponto de partida”. O Vice-Chanceler alemão, Sigmar Gabriel, também disse que a carta sobre a prorrogação do empréstimo seria um “ponto de partida”. Mas Schäuble desmentiu o Vice-Chanceler. Disse que a posição de Gabriel, de defender a prorrogação, seria “posição sem substância”.

Fiquei boquiaberto, de olhos arregalados – disse Galbraith. – E o desmando acontecendo ali, à minha frente, dentro do governo alemão, o governo mais poderoso da Europa!


Jean-Claude Juncker
Para Galbraith, as divisões internas na Alemanha, e entre as próprias nações, deixaram bem evidente que os dirigentes europeus são maus negociadores:

Cometeram o erro de deixar claro diante de Yanis que eles estavam jogando com extrema violência, mas sem saber jogar, se se considera a coisa do pondo de vista da perícia política mais elementar.

Galbraith rechaça enfaticamente a ideia de que a posição grega fosse confusa:

Acho que os europeus querem fazer crer que seja confusa, mas a confusão só existe na cabeça deles mesmos, não na posição dos gregos.

Para Varoufakis e Galbraith, a politicagem mesquinha comprometeu até a sensatez econômica:

Os atores institucionais – o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu – foram construtivos. Mas os credores, os jogadores ativos, são os Ministros de Finanças; e esses estão divididos e são hostis.

No campo dos que se opunham radicalmente incluem-se Espanha, Portugal e Finlândia:

Os dirigentes políticos nesses países enfrentam processos eleitorais e oposição crescente. Estão apavorados com a possibilidade de que as respectivas oposições políticas tirem vantagem da posição grega.

Para esses, o importante é a sobrevivência política em seus cargos, muito mais que salvarem a Eurozona.

Pierre Moscovici
Para romper o impasse será preciso, muito provavelmente, a intervenção de Angela Merkel, único dirigente político suficientemente poderoso para esvaziar essas manobras da política mais rasteira.

Em toda essa terrível confusão, a admiração que Galbraith sente por seu amigo Varoufakis só faz aumentar. Quando muitos dizem que as roupas heterodoxas e declarações provocativas de Varoufakis – quando observou, por exemplo, que o acordo das reformas à moda europeia era semelhante à tortura de simulação de afogamento – atraem cada vez mais a hostilidade do establishment financeiro europeu, Galbraith diz, na direção oposta, que os Ministros das Finanças europeus deviam dar as boas vindas ao Ministro grego, como alguém que diz sempre a verdade, nada além da verdade:

A honradez intelectual, a clareza de pensamento, sua erudição, são absolutamente raras, nos círculos europeus. Acho que quando aquela gente o vê pela primeira vez, ou o ouve falar, sentem alguma espécie de choque.

Galbraith lembra, como exemplo da honradez intelectual de Varoufakis, uma observação do amigo, segundo a qual dentre todos com quem estava negociando, Schäuble, o seu mais duro antagonista, “é o único que dá sinais de ter alguma substância intelectual”.

Muito diferente do que em Bruxelas, Galbraith encontrou em Atenas um ambiente exultante:

Há de três a seis meses, Atenas era absolutamente deprimente. Agora tudo mudou, o sentimento de orgulho está restaurado e o humor mudou completamente.

Varoufakis parece ser quem melhor simboliza esse novo otimismo:

Fomos a pé, do Ministério até o Parlamento. Que experiência! Pessoas nos carros abriam o vidro para estender-lhe a mão e cumprimentá-lo, os motoristas de ônibus paravam para saudá-lo. Por onde anda as crianças o cercam.

Varoufakis deteve-se no caminho, para falar atentamente, apoiando-a pelo cotovelo, com uma senhora que procurava emprego como varredora:“Varoufakis é estrela tão popular quanto o próprio Alexis Tsipras”.

Varoufakis conseguirá manter a Grécia no euro, mas ao preço de ceder no programa de crescimento que levou ao poder esse governo de esquerda? Para Galbraith,

É impossível. Varoufakis está montado em sua super motocicleta e é bom piloto. Aceitou o cargo porque o que mais quer é pôr suas ideias em prática.

Angela Merkel
Os Ministros europeus de Finanças nunca conheceram nada igual a Varoufakis. E Merkel terá de decidir se a melhor opção para ela é realmente aceitar compromissos com alguém tão radical e transgressor. Mas em todos os casos, está em jogo o futuro do euro.



[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pepe Escobar: Europa caminha, trôpega, rumo à angústia e à guerra

1/2/2015, [*] Pepe Escobar, Russia Today - RT, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

foto: Alkis Konstantinidis
A Europa, que a União Europeia supostamente representa, está combatendo guerra dupla, que pode devastá-la a ponto de a tornar irreconhecível – contra a Grécia, dentro das suas fronteiras europeias, e contra a Rússia, na Ucrânia.

Uma exposição em Roma não poderia ser mais clara expressão – perfeito acaso de viagem – do zeitgeist: “A Era da Angústia – de Cômodo a Diocleciano” [orig. “The Age of Anxiety – from Commodus to Diocletian”. Ora, os imperadores romanos mal imaginariam que a coisa poderia ficar muito pior em tempos de União Europeia (UE).

O encontro impressionantemente tenso entre o presidente do EUROGROUP, Jeroen Dijsselbloem, e o novo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis demarcou o campo de batalha: a UE não aceitará uma Grécia “unilateral”; e a Grécia não aceitará uma extensão do “resgate” ou os diktats da troika (UE, Banco Central Europeu, FMI).

Desse material se fazem as lendas. Depois de ter dito que nada-de-conversa com a “troika” – em termos de terrorismo-econômico-nunca-mais – ao final da conferência de ambos com a imprensa em Atenas, Dijsselbloem murmurou algo no ouvido do ministro grego, que funcionários gregos interpretaram ao estilo Pulp Fiction como “Eu-medieval, você vai ver é no seu traseiro”. Vídeo a seguir:


Assim sendo, agora é Atenas contra os Masters of the Universe (setor UE). Observadores independentes seriam tentados a ver a coisa como um Perseu pós-moderno tentando derrotar a UE-Medusa – um monstro tão assustador que nenhum vivente suportaria vê-la sem ser convertido em pedra.

Angela Merkel
A Medusa é agora a Troika. Rainha Medusa Merkel e seus jagunços – feito o Ministro das Finanças, Wolfgang Schauble (“não seremos chantageados”), mais os funcionários-sem-cara de sempre servindo-se de metáforas sub-homéricas tipo “amarrado ao mastro da confrontação” – estão aumentando a pressão, sem redução da dívida. Depois do cara-a-cara Dijsselbloem-Varoufakis, cabe ao pesadelo burocrático que é a Comissão Europeia (CE) apresentar alternativa viável para uma redução da dívida grega.

Syriza tem dito que quer permanecer na eurozona, mas esqueçam a conversa de a Grécia pagar dívida com mais austeridade, a tal dívida sufocante. Significa que a bola deve permanecer no campo de Bruxelas – tanto quanto Dijsselbloem insiste em repetir que não. E a Troika virá com pressão quase insuportável, para convencer Atenas de que se trata de “honrar” sua dívida, ou a morte. Em termos práticos, fala-se aí de um processo ultracomplexo de reestruturação de dívida, ou de mais dinheiro da UE para Atenas ou, eventualmente, das duas coisas.

O gambito de Perseu não será decapitar a Medusa enquanto ela dorme (porque os Masters of the Universe nunca dormem): será declarar não pagamento de parte significativa da dívida. Se a diplomacia falhar, Bruxelas terá então de impor sanções (são muito bons nisso, vide Irã e Rússia), mas, de fato, será como chutar a Grécia para fora do euro – a “opção nuclear” que os eurocratas temem mais que a Peste Negra. Por hora, o Ministro da Economia da Alemanha, Sigmar Gabriel, definitivamente blefa, ao alertar o Primeiro-Ministro grego Tsipras de que a eurozona poderia sobreviver sem a Grécia (“Já não temos de nos preocupar, como tínhamos naquela época”).

Se, contudo, Bruxelas admite um calote de facto, ainda que parcial, o resultado será que Espanha, Portugal, Irlanda e levas e mais levas de outros sofredores na UE pôr-se-ão aos gritos de “Também queremos o mesmo acordo”.

A Medusa está-se enfurecendo, e o horror que sua troika de milhares de serpentes pode lançar pode ser titânico. O próximo encontro crucial acontecerá em Bruxelas, a reunião de chefes de estado da UE, dia 12/2/2015. Perseu Tsipras que trate de polir o escudo e a espada até a perfeição.

Vlad Putinator
Melhor chamarem Vlad

E há também o outro vetor crucial, nessa Era da Ansiedade remix: a Rússia.

Moscou poderia, sim, resgatar Atenas, possibilidade que já foi mencionada. Significa que o que o que a imprensa-empresa ocidental não se cansa de “repercutir” sobre a Grécia apoiar a extensão, essa semana, de sanções contra interesses russos, não passa de nonsense.

Aqui o contexto essencial. E diretamente de Varoufakis, há provas de que a Grécia não foi sequer consultada. Mais um prego no caixão do mito das práticas “democráticas” da União Europeia.

E que ninguém espere que os fantoches da União Europeia com pose de “líderes” – que só têm poder derivado, porque são vassalos do Império do Caos em amnésia crônica – cultivem alguma memória histórica. O que nos leva à Ucrânia.

A Ucrânia foi parte da Rússia por três séculos – muito mais tempo do que Texas e Califórnia são parte dos EUA. A Rússia ter aberto mão da Ucrânia depois do fim da URSS não gera qualquer precedente histórico que justifique o golpe de estado de Maidan, bilhões de dólares para pagar a subversão interna e o subsequente saque da Ucrânia por multinacionais norte-americanas, alemãs e pela City de Londres. Para nem falar que toda a saga é – e assim permanecerá como, sobretudo – item do projeto de expansão da OTAN.

Imagine Washington tendo de tolerar mísseis cruzadores nucleares russos em sua linha vermelha estratégica de defesa – as fronteiras com Canadá e México. O Império do Caos invadiria sem piscar. A Ucrânia era – e continua a ser – linha vermelha desse mesmo tipo, do ponto de vista da Rússia. E Washington e Bruxelas sempre souberam disso.

Moscou, lenta mas firmemente, começa a contra-atacar na guerra financeira/econômica lançada pelos Masters of the Universe. Moscou finalmente – e dolorosamente – compreendeu que os verdadeiros Masters of the Universe são os que controlam o crédito do banco central. A noção de que os bancos centrais seriam mecanismo independente é pura ficção: banco central responde à banqueirada privada.

Paralelamente, no tabuleiro do xadrez militar, as coisas estão ficando pesadas. Moscou pode, afinal, vender sistemas S-300 antimísseis a Damasco e Teerã.

Valery Gerasimov
Mais importante, o comandante das Forças Armadas Russas, general Valery Gerasimov declarou on the Record que Moscou responderá imediatamente a qualquer movimento do sistema de mísseis de defesa dos EUA que viole o Tratado START III e o Tratado das Forças Nucleares de Alcance Médio. Os analistas do Pentágono sabem perfeitamente que os sistemas de armas russos são superiores ao sistema de mísseis de defesa dos EUA.

E, caso os fantoches de Washington a Bruxelas não tenham ouvido bem, esperem até conhecer o sistema antimíssil Star Wars S-500, que será operacional em 2017, talvez antes. O S-500 viaja a velocidade de 15.480 milhas/hora, com alcance de 2.174 milhas – e é capaz de derrubar qualquer míssil balístico intercontinental que Washington possa disparar contra a Rússia. Tradução: o espaço aéreo russo é fechado, à prova de mísseis balísticos intercontinentais dos EUA.

Mikhail Gorbachev  
Diferente do espalhafatoso Império do (“invada-bombadeie-drone-sancione”) Caos, a Rússia fala mais alto com ação, paciência e discrição – qualidades pode-se dizer asiáticas. Enquanto a Rússia está sendo existencialmente atacada por guerras do petróleo/do rublo/dos derivativos, os governantes russos vão-se preparando, silenciosamente, para o pior.

Gorbachev – que sabe algumas coisinhas de guerras frias – tem pelo menos um ponto que merece consideração: se Washington persistir na loucura atual, a coisa pode ficar terrivelmente feia, e a Europa será apanhada num fogo cruzado mortal.

Sonhar com outra União Europeia

O que nos traz de volta a Roma. Não machuca ninguém imaginar o que poderia ser uma União Europeia alternativa, uma UE “romana, centrada em Roma, Atenas e Istambul – não em Bruxelas-Frankfurt-Strasbourg. O centro da atual UE coincide com o centro do Império Franco dos séculos VIIIº e IXº; Carlos Magno revisitado − ou, segundo alguns padrões históricos − o primeiro imperador que tentou unificar a Europa. Outras correntes históricas privilegiam ramo ainda anterior do poder alemão puro, temperado pela cultura e sofisticação galesas.

Fico com Gibbon, como fiz essa semana, de volta àquela noite, em outubro de 1764, quando, sentado em meditação em frente ao Campidoglio (que ponto de vista fabuloso), depois de séria peregrinação por ruínas romanas, ele decidiu escrever Declínio e Queda, a dissolução de um mundo que, literalmente, foi erguido em pedra.

Campidoglio - Roma, meados do século XVIII
Como Bryan Ward-Perkins, de Oxford, observou brilhantemente, a Europa carrega, nos escalões profundos da própria psique, o medo de que, se Roma virou ruína, o mesmo possa acontecer às mais magníficas civilizações modernas.

E todos sabemos que essa União Europeia dessa gangue de eurocratas destrutivos não eleitos; que desprezam a Grécia, antagonizam a Rússia, chafurdam no pântano da vassalagem ao Império do Caos e ameaçam a maioria de seus próprios cidadãos como se não passassem de escória pagadora de impostos escorchantes – de modo algum pode ser descrita como “magnífica”.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto. 
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books. 

Império do Caos

Grécia - A câmera pegou: Dijsselbloem para Varoufakis: “Vocês mataram a Troika”

31/1/2015, [*] Tyler Durden, Zero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Com os mercados de ações “em torvelinho” na 6ª-feira (30/1/2015), Simon Hobbs da CNBC resumiu o que o status quo está pensando sobre a nova liderança grega, ao dizer, meio zangado e chocado, “Os gregos não estão nem tentando acalmar os mercados”, como se tivesse esquecido completamente (e quem pode culpá-lo se nessa nova normalidade, o mundo foi alimentado por aparelhos durante seis anos) que líderes políticos são eleitos para promover o bem do povo pelo povo, não pelos mercados.

Ontem(3o/1/2015) se viu o mais claro exemplo até agora do medo que a Europa padece de que os gregos possam escolher caminho próprio, opondo-se a atender às demandas de líderes não soberanos da União Europeia, quando as câmeras registraram o momento histórico mais incômodo jamais filmado: o momento em que o chefe do Eurogroup, Jeroen Dijsselbloem (aquele, conhecido, mestre-dos-mestres de dizer sandices) levantou-se ao final da conferência Grécia-União Europeia com a imprensa, muito esquisitamente apertou a mão do novo Ministro de Finanças da Grécia, e sussurrou: “Você acaba de matar a Troika”, a que Varoufakis respondeu... “uau!”.

Como Keep Talking Greece noticiou,

A conferência de imprensa estava quase concluída, quando o ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis soltou uma bomba:

(…) e com isso, se vocês querem saber – com essa comissão construída às pressas, segundo o Parlamento Europeu, instável, sem solidez, não temos nenhuma intenção de cooperar. Obrigado”. Varoufakis referia-se à famosa Troika, credores oficiais do país, formada de União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu.

Tendo concluído sua fala com aquele “Obrigado”, Varoufakis passou a palavra ao chefe do Eurogroup, Jeroen Dijsselbloem, que pediu para ouvir a tradução antes de falar. Na sequência, tirou os fones de ouvido, levantou-se e fez como se fosse sair. Um aperto de mãos parecendo forçado atrasa a partida do holandês.

Dijsselbloem rapidamente sussurra algo no ouvido de Varoufakis, que também responde rapidamente, e o chefe do Eurogroup deixa a sala da conferência de imprensa o mais rapidamente que consegue.

Video: o mais esquisito momento grego-Eurogroup


Durante toda a tarde, a imprensa-empresa grega e internacional dedicou-se a tentar descobrir “O que diabos esses dois disseram um no ouvido do outro?!”

O canal Private Mega TV noticiou, pouco depois das 21h da 6ª-feira (30/1/2015)

O chefe do Eurogroup sussurrou no ouvido do ministro de Finanças da Grécia: “Você acaba de matar a Troika”, ao que Varoufakis respondeu com um singelo “uau!”


Dijsselbloem: sussurro... sussurro
Varoufakis: sussurro...
Dijsselbloom retira a mão.
Lá fica Varoufakis, com uma palma de mão aberta, e a mão esquerda metida no bolso – à maneira descontraída dos gregos. 
Os dois homens falam por alguns instantes, com os lábios invisíveis para as câmeras.
Dijsselbloem dá as costas e sai sem olhar mais para o interlocutor.


Não sei por quê Dijsselbloem achou ruim. Tenho certeza de que Varoufakis disse-lhe as mesmas coisas quando conversaram durante duas horas, cara a cara.
A menos que antes só tivessem conversado sobre [queijos] Gouda e Feta, e o Ministro grego de Finanças tenha surpreendido o Presidente do Eurogroup, ao vivo, na conferência de imprensa, com o informe de que o governo grego não negociará com a Troika.

Além do mais, por que se ofendeu tanto? Ele é chefe do Eurogroup, não representa a Troika… 

Muito provavelmente, estava à espera de comportamento de “senhor-sim-senhor” como no passado, com o HOHOHO-Jean-Claude Juncker, quando presidia o Eurogroup.

Juncker espanca Evangelos Venizelos, Ministro de Finanças da Grécia (na época)

Juncker estrangula Luís de Guindos, Ministro de Finanças da Espanha
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Mais tarde, naquela mesma noite, Yanis Varoufakis concedeu excelente entrevista, de discussão em maior profundidade, ao programa BBC's Newsnight (vídeo a seguir) para explicar por que a Grécia não aceitará novas dívidas com a União Europeia...






[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).