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domingo, 1 de março de 2015

“V de Varoufakis” ou “Os destinos da Grécia estão nas mãos de Angela Merkel?


20/2/2015, Shawn Tully entrevista [*] James K. Galbraith, Fortune
Traduzido do inglês para espanhol em 22/2/2015, Sin Permiso e Rebelión
Traduzido do espanhol para português pelo pessoal da Vila Vudu


Um dos mais afamados economistas vivos, estreitamente ligado ao Ministro grego de Finanças, Yanis Varoufakis, diz que o obstáculo fundamental que atravessava o caminho do acerto-compromisso foi a incrível divisão registrada dentro do próprio governo alemão, com uma parte a exigir total adesão da Grécia aos compromissos prévios, e outra parte, também muito poderosa, que defendia concessões e acordo.


James Kenneth Galbraith
“Tudo depende de Merkel” – diz-nos James Galbraith, que passou sete dias em meados de fevereiro ao lado de Varoufakis em Bruxelas e em Atenas.

Ouvimos o Ministro de Finanças de Merkel, com atitude negativa; e ouvimos o vice-chanceler, que queria o diálogo. Só não ouvimos a própria chanceler Merkel. Sabemos que não quer falar, só se for estritamente imprescindível. São os mais duros que podem ser, depois fazem uma concessão no último minuto, para não ter de fazer duas.

Galbraith resume numa pergunta o dilema de Merkel (e a melhor esperança de que cheguem a um acordo):

Que interesse terá Merkel em converter-se na governante que presidiu a desintegração da Eurozona?

Difícil imaginar dupla mais díspar que essa, Galbraith e Varoufakis. O primeiro é filho – educado em Harvard, Yale e Cambridge – do legendário economista John Kenneth Galbraith. Varoufakis é agitador incendiário, que veste jaquetas de couro e camisetas azul-brilhantes nas reuniões com as engravatadas elites europeias, e para relaxar pilota motocicletas de alta cilindragem.

Apesar das diferenças, e colegas na Universidade de Texas em Austin, não apenas travaram profunda amizade pessoal, mas, também, tornaram-se almas intelectualmente gêmeas, e produziram juntos , em 2013, em trio com o economista britânico Stuart Holland – um opúsculo sobre a solução da crise na eurozona, no qual advogam a substituição de boa parte da dívida soberana das nações com problemas, por bônus de baixo rendimento supergarantidos pelo Banco Central Europeu. [Há tradução ao espanhol, em SinPermiso: “Modesta Proposición”].

É claro que as ideias de Galbraith ajudaram a modelar a controvertida campanha de Varoufakis para “pôr fim” à austeridade [arrocho] na Grécia e proteger os empregos públicos e as pensões dos gregos.

Yanis Varoufakis
Trabalhando esses dias ombro a ombro com Varoufakis, Galbraith está tendo a chance de ver “por dentro” o manejamento caótico do Eurogrupo, que reuniu os ministros europeus de finanças, dia 16/2/2015, em Bruxelas:

Estive com as equipes técnicas entre os dias 11 e 17 de fevereiro (2015), incluída a reunião de Bruxelas. Estava na sala das máquinas, acompanhando a equipe de trabalho grega.

Na reunião do Eurogrupo, Pierre Moscovici, Comissário da União Europeia para assuntos econômicos e financeiros, apresentou a Varoufakis um rascunho de comunicado que permitia à Grécia solicitar uma extensão de seu acordo de empréstimo, garantindo-lhe tempo para discutir um novo plano de crescimento para a Grécia. Como Varoufakis disse à imprensa logo depois da reunião, estava pronto para assinar o comunicado de Moscovici, que elogiou como “documento esplêndido” e “verdadeiro ponto de abertura”.

Mas o diretor do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, estava preparando seu próprio documento.

Yanis disse:

Tenho um texto .

E Dijesselbloem disse:

Não. O texto é esse [outro!].

Jeroen Dijsselbloem
Galbraith e a equipe grega trataram então de combinar partes dos dois rascunhos, para produzir um documento aceitável para ambas as partes:

Dediquei-me então, com as outras pessoas, a combinar os dois rascunhos [o de Moscovici e o de Dijeselbloem] tentando chegar a um texto que pudesse ser assinado. Não demoramos nisso mais que meia hora.

Mas então, segundo o testemunho de Galbraith, o Ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble, deu a reunião por encerrada.

Disse “não” à elaboração de uma declaração conjunta como prelúdio de um acordo – no depoimento de Galbraith.

Para Galbraith, a falta de coordenação entre os europeus parecia absolutamente inacreditável:

Sou veterano conhecedor dos assessores especialistas que trabalham no Congresso dos EUA. E ver um corpo institucional oficial trabalhando com tamanho descaso, com tamanha incompetência, de forma imediatista, tão ad hoc, assistir ao vivo ao Eurogrupo, ver aquela forma atrabiliária de fazer as coisas, foi para mim uma verdadeira revelação.

Dia 18 de fevereiro (2015), Varoufakis apresentou solicitação formal para que fosse prorrogado o acordo de empréstimo como o Eurogrupo. Mais uma vez, as respostas divergentes deixaram Galbraith assombrado:

Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] disse seria um “ponto de partida”. O Vice-Chanceler alemão, Sigmar Gabriel, também disse que a carta sobre a prorrogação do empréstimo seria um “ponto de partida”. Mas Schäuble desmentiu o Vice-Chanceler. Disse que a posição de Gabriel, de defender a prorrogação, seria “posição sem substância”.

Fiquei boquiaberto, de olhos arregalados – disse Galbraith. – E o desmando acontecendo ali, à minha frente, dentro do governo alemão, o governo mais poderoso da Europa!


Jean-Claude Juncker
Para Galbraith, as divisões internas na Alemanha, e entre as próprias nações, deixaram bem evidente que os dirigentes europeus são maus negociadores:

Cometeram o erro de deixar claro diante de Yanis que eles estavam jogando com extrema violência, mas sem saber jogar, se se considera a coisa do pondo de vista da perícia política mais elementar.

Galbraith rechaça enfaticamente a ideia de que a posição grega fosse confusa:

Acho que os europeus querem fazer crer que seja confusa, mas a confusão só existe na cabeça deles mesmos, não na posição dos gregos.

Para Varoufakis e Galbraith, a politicagem mesquinha comprometeu até a sensatez econômica:

Os atores institucionais – o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu – foram construtivos. Mas os credores, os jogadores ativos, são os Ministros de Finanças; e esses estão divididos e são hostis.

No campo dos que se opunham radicalmente incluem-se Espanha, Portugal e Finlândia:

Os dirigentes políticos nesses países enfrentam processos eleitorais e oposição crescente. Estão apavorados com a possibilidade de que as respectivas oposições políticas tirem vantagem da posição grega.

Para esses, o importante é a sobrevivência política em seus cargos, muito mais que salvarem a Eurozona.

Pierre Moscovici
Para romper o impasse será preciso, muito provavelmente, a intervenção de Angela Merkel, único dirigente político suficientemente poderoso para esvaziar essas manobras da política mais rasteira.

Em toda essa terrível confusão, a admiração que Galbraith sente por seu amigo Varoufakis só faz aumentar. Quando muitos dizem que as roupas heterodoxas e declarações provocativas de Varoufakis – quando observou, por exemplo, que o acordo das reformas à moda europeia era semelhante à tortura de simulação de afogamento – atraem cada vez mais a hostilidade do establishment financeiro europeu, Galbraith diz, na direção oposta, que os Ministros das Finanças europeus deviam dar as boas vindas ao Ministro grego, como alguém que diz sempre a verdade, nada além da verdade:

A honradez intelectual, a clareza de pensamento, sua erudição, são absolutamente raras, nos círculos europeus. Acho que quando aquela gente o vê pela primeira vez, ou o ouve falar, sentem alguma espécie de choque.

Galbraith lembra, como exemplo da honradez intelectual de Varoufakis, uma observação do amigo, segundo a qual dentre todos com quem estava negociando, Schäuble, o seu mais duro antagonista, “é o único que dá sinais de ter alguma substância intelectual”.

Muito diferente do que em Bruxelas, Galbraith encontrou em Atenas um ambiente exultante:

Há de três a seis meses, Atenas era absolutamente deprimente. Agora tudo mudou, o sentimento de orgulho está restaurado e o humor mudou completamente.

Varoufakis parece ser quem melhor simboliza esse novo otimismo:

Fomos a pé, do Ministério até o Parlamento. Que experiência! Pessoas nos carros abriam o vidro para estender-lhe a mão e cumprimentá-lo, os motoristas de ônibus paravam para saudá-lo. Por onde anda as crianças o cercam.

Varoufakis deteve-se no caminho, para falar atentamente, apoiando-a pelo cotovelo, com uma senhora que procurava emprego como varredora:“Varoufakis é estrela tão popular quanto o próprio Alexis Tsipras”.

Varoufakis conseguirá manter a Grécia no euro, mas ao preço de ceder no programa de crescimento que levou ao poder esse governo de esquerda? Para Galbraith,

É impossível. Varoufakis está montado em sua super motocicleta e é bom piloto. Aceitou o cargo porque o que mais quer é pôr suas ideias em prática.

Angela Merkel
Os Ministros europeus de Finanças nunca conheceram nada igual a Varoufakis. E Merkel terá de decidir se a melhor opção para ela é realmente aceitar compromissos com alguém tão radical e transgressor. Mas em todos os casos, está em jogo o futuro do euro.



[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).

sábado, 24 de março de 2012

Tropeço da Frente FMLN nas eleições, em El Salvador


Toda atenção aos que, no Brasil, acham que a “reforma política” seria sempre a salvação da lavoura...

(por sugestão da Rede Tlaxcala de Tradutores)

24/3/2012, S. Seguí, Rebelión
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Eleições em El Salvador
Domingo, 11/3, El Salvador teve eleições legislativas de meio de mandato, que se fazem a cada três anos, para renovação da Assembleia Nacional, única câmara legislativa do país (há eleições presidenciais a cada cinco anos; as próximas estão previstas para 2014). Simultaneamente, se elegeram prefeitos e conselhos municipais em todo o país.

Mauricio Funes
Para surpresa do partido no poder, a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional, Frente FMLN [Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional], cujo candidato, o independente Mauricio Funes, venceu as eleições presidenciais em 2009, o partido de direita, Aliança Republicana Nacionalista, ARENA [Alianza Republicana Nacionalista] conseguiu aumentar em três votos sua representação na Assembleia Nacional, e a Frente FMLN perdeu um voto, passando de 32 a 31 representantes. O terceiro partido que disputava votos, a Grande Aliança pela Unidade Nacional, GANA [Gran Alianza por la Unidad Nacional], com 11 deputados eleitos, passou a ser a 3ª força política no país.

Nos termos dos Acordos de Paz de 1992, que marcaram o fim de uma guerra civil de 12 anos que fez 70 mil mortos, segundo estimativas, a Frente FMLN abandonou a resistência armada, converteu-se em partido político e integrou-se ao processo eleitoral. 

Desde então, as sucessivas eleições em El Salvador sempre foram contaminadas pela compra de votos, por pressões dos EUA e por fraude generalizada, o que facilitou o avanço da ARENA, direitista.

Nas eleições presidenciais de 2009, por exemplo, houve denúncias comprovadas de que a ARENA introduziu no país caminhões de cidadãos guatemaltecos e hondurenhos portadores de documentos de identidade vencidos ou falsificados, para votar em San Salvador como cidadãos salvadorenhos.

Apesar dos esforços da ARENA, a Frente FMLN venceu aquelas eleições, com Mauricio Funes, jornalista independente muito popular entre os eleitores de centro-esquerda, que posteriormente manteve certa neutralidade política em várias questões.

Naquela ocasião, também o governo norte-americano dos Republicanos de George Bush fez vazar notícias ameaçadoras, sobre emigrados salvadorenhos nos EUA (mais de dois milhões, numa população de menos de sete milhões); os salvadorenhos foram ameaçados com repatriação massiva dos que viviam sem visto de residente e em situação precária nos EUA. As remessas de dinheiro dos emigrados salvadorenhos que vivem fora do país são hoje a base da economia em San Salvador.

O governo de Funes tem mantido boas relações com os EUA, apesar da longa história de intervenção dos norte-americanos em El Salvador. Durante a guerra civil de 1980-1992, Washington treinou e financiou o exército salvadorenho e esquadrões da morte. Nos momentos mais agudos dos confrontos, o montante diário da ajuda militar norte-americana ao governo do presidente José Napoleón Duarte alcançou um milhão de dólares por dia.

Programas sociais instituídos pela Frente FMLN

Nos dois anos de governo de Mauricio Funes, que pouco tem avançado no caminho do que exige sua base eleitoral, de que modifique substancialmente o modelo de economia neoliberal do país, implantaram-se importantes reformas sociais nas áreas da Saúde, Alfabetização e Educação.

Em primeiro lugar, as Equipes Comunitárias de Saúde, ECO [Equipos Comunitarios de Salud], estrutura descentralizada de centros de saúde, que está oferecendo assistência gratuita nas comunidades pobres. Além de assistência especializada de médicos e enfermeiras, muitos dos quais têm de deslocar-se por longas distâncias, todos os dias, para chegar aos ECO, os novos “promotores de saúde rural” daqueles centros fazem visitas domiciliares, com enfoque na assistência preventiva à saúde, saúde reprodutiva e atenção pré-natal.

Além disso, a “Lei dos Medicamentos”, recentemente aprovada, destinada a baratear o preço de vários medicamentos básicos, tornando-os acessíveis a todos, contribuirá também para melhorar sensivelmente a saúde geral.

No Ensino, o programa “Pacote Escolar” [Paquete Escolar] e o “Programa de Alimentação e Saúde Escolar [Programa de Alimentación y Salud Escolar] são iniciativas que pela primeira vez asseguram assistência regular e permanente a estudantes da escola primária, com uniformes, sapatos e material escolar para os alunos mais pobres e alimentação nas escolas.

Esses programas sociais, somados às reformas na agricultura, com emissão de títulos de propriedade para os agricultores e acesso a sementes e fertilizantes distribuídos gratuitamente, testemunham o cumprimento de uma plataforma do grupo parlamentar da Frente FMLN, de que “se encaminha para um desenvolvimento equilibrado”.

Enquanto o governo da Frente FMLN tem-se concentrado nas reformas sociais, a direita aplicou todo seu empenho numa reforma político-eleitoral, fundamentalmente na introdução do sistema de listas fechadas e desbloqueadas (podem-se escolher candidatos de diferentes partidos[1]). Pelo número de votos nos partidos, calcula-se o coeficiente eleitoral e o número de assentos de cada partido; pelo número de votos (em um ou em vários nomes) dentro de cada lista, decide-se quem é eleito. A complexidade do procedimento prejudicou a base eleitoral da Frente FMLN, que enfrentou sérias dificuldades para expressar suas escolhas.

Nos municípios, fracasso relativo 

Mesmo assim, embora os resultados das eleições parlamentares possam ser considerados de “empate técnico”, e a queda no número de votos para a Frente FMLN possa explicar-se pela crise econômica generalizada, sentiu-se, nas eleições municipais, algo bem próximo de uma derrota da esquerda, que perdeu alguns municípios importantes, muitos na Grande San Salvador (Mejicanos, Apopa, San Martín, Soyapango), embora tenha vencido em outras prefeituras. de importante força simbólica (Nejapa, Suchitoto), mas por pequena diferença.

Próximo encontro, em 2014

Embora não se possa falar de fracasso eleitoral, a Frente FMLN recebeu um claro sinal de alerta nas eleições de domingo, que deixam perguntas importantes a serem respondidas pela militância em todo o país.

Será preciso analisar em profundidade as tendências dessa votação, as consequências da aplicação das reformas eleitorais, a abstenção, sobretudo em locais que tradicionalmente votam com a Frente FMLN e as denúncias de fraude ou tentativa de fraude, como intimidação de eleitores e compra de votos. Tudo isso, devidamente analisado, permitirá que se compreenda mais amplamente por que a Frente FMLN perdeu força no Poder Legislativo. E há ainda outros aspectos dos resultados eleitorais a serem analisados nas semanas vindouras.

Depois da eleição presidencial de 2009, a aliança ARENA dividiu-se, nascendo daí a aliança GANA, que se apresentou como alternativa moderada à Frente FMLN e à ARENA. A GANA conseguiu 11 dos 84 assentos à Assembleia Nacional (a ARENA, 33; e a Frente FMLN, 31) e parece que soube conquistar alguns dos “eleitores indecisos” com cujos votos a Frente FMLN contava. Assim, apesar da divisão, a ARENA e seus recursos aparentemente inesgotáveis a serviço da vitória eleitoral continuam a ser fator de muito peso no tabuleiro político salvadorenho. A Frente FMLN também se mantém como ator de muito peso; e, menos importante, a aliança GANA. Os demais partidos, continuam a ser muito acentuadamente minoritários.





Nota dos tradutores
[1] Sobre isso, pelo menos para entender melhor o processo, ver 22/3/2012, Carlos G. Romero, “Reforma electoral. ¿Quién puso la foto allí?”, La Prensa Gráfica, San Salvador.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Venezuela: Discurso radical e percurso conciliador


Venezuela: Discurso radical e percurso conciliador



17.Fev.11 :: Outros autores
Hugo Chávez
“Depois das eleições legislativas do passado dia 26 de Setembro terem conferido uma exígua maioria simples de votos aos candidatos do PSUV e aliados, a reação de Chávez foi a de «radicalizar» o discurso oficial com o objetivo de calar as vozes críticas que podiam surgir nas suas fileiras.” Será suficiente?


Desde há muito tempo, duas facções aparentemente inconciliáveis polarizam a vida política venezuelana: o oficialismo, que se apropriou das bandeiras do anti-imperialismo e da revolução socialista, e a oposição de direita, que embora recobrindo o seu discurso com a defesa das liberdades e da democracia não passa em última instância de representação política da oligarquia local e dos seus amos imperialistas. É sem dúvida difícil fazer-se uma ideia cabal da realidade venezuelana no meio da feroz e permanente campanha de propaganda lançada por ambas as partes.

Sem dúvida que o principal acontecimento dos últimos meses foi a emergência por chuvas desencadeada pelas inundações de fins de 2010, que deixou dezenas de vítimas mortais e 130.000 atingidos. A intervenção do governo bolivariano foi enérgica e eficaz e impediu que se repetissem na Venezuela as trágicas perdas que se deram na vizinha Colômbia. Contudo, a emergência por chuvas pôs a claro o drama por detrás do «déficit habitacional» venezuelano, que, longe de se reduzir durante a última década, aumentou até aos dois milhões de lares.

A concentração de infra-habituações [«ranchos» ou «cerros») torna-se especialmente preocupante na zona da grande Caracas, onde a aglomeração humana origina inúmeros problemas de viabilidade, insegurança, acumulação de lixo e ameaça de colapso dos sistemas de transporte público, pese embora os importantes investimentos realizados nos últimos anos. As medidas que de momento o governo bolivariano está a tomar para atacar o grave problema da habitação são de natureza parcial (expropriação de terrenos urbanos abandonados, projetos de construção de 150.000 habitações em 2011 com a ajuda de empresas de construção estrangeiras…) e não vão ao fundo do problema, a necessidade de descongestionar a região central através do desenvolvimento de projetos produtivos e habitacionais no resto do vasto e escassamente povoado país. Uma primeira e muito necessária medida neste sentido seria descentralizar toda uma série de instituições estatais atualmente sediadas em Caracas.

Depois das eleições legislativas do passado dia 26 de Setembro terem conferido uma exígua maioria simples de votos aos candidatos do PSUV e aliados, a reação de Chávez foi a de «radicalizar» o discurso oficial com o objetivo de calar as vozes críticas que podiam surgir nas suas fileiras. Uma de tais medidas radicais foi a eleição de Fernando Soto Rojas, ex-guerrilheiro e esquerdista de largo currículo, como presidente da nova Assembleia Nacional. Sem dúvida que Soto Rojas e a sua equipe saberão responder adequadamente à demagogia dos deputados da oposição na Assembleia Nacional, mas o que se espera deles é a elaboração de toda uma série de leis progressistas que permitam manter a Venezuela na vanguarda dos processos de transformação no continente.

Especialmente necessárias são a derrogação e substituição dos elementos de legislação reacionária que inexplicavelmente ainda subsistem na Venezuela, 12 anos depois de iniciado o processo bolivariano. Referimo-nos à renovação da lei orgânica do trabalho (LOT) herdada da IV República, à despenalização do aborto ou ao reconhecimento dos direitos civis do coletivo LGBT, entre outras.

Outro sinal de radicalização parece ser a aceleração das expropriações de empresas por parte do governo bolivariano durante os últimos meses de 2010 (sobretudo nos setores petroquímico e agro-alimentar). No entanto, estas novas expropriações seguiram o curso normal dos últimos anos, tanto pelo seu caráter parcial (expropriam-se empresas individuais e não setores econômicos, o que facilitaria muito ao Estado uma planificação à margem do mercado), como pelo pagamento de indenizações a preços de mercado. Em qualquer caso, o ponto central nas indústrias estatais venezuelanas é a aplicação de um verdadeiro controle operário sobre as mesmas, pois só deste modo as nacionalizações começarão a adquirir um verdadeiro caráter anticapitalista.

No entanto, a realidade é que o governo bolivariano empreendeu um percurso conciliador, tratando de evitar as medidas impopulares que poderiam provocar um conflito com um ou outro setor social. Não se pode compreender de outro modo a retirada por parte de Chávez da anunciada subida do IVA (motivada talvez pelos efeitos do “gasolinazo” de Evo Morales na Bolívia), ou o veto de Chávez à nova lei das universidades (na medida em que ia democratizar o acesso e o governo universitários, iria sem dúvida encontrar forte resistência na sua aplicação por parte das elites acadêmicas vinculadas à burguesia). Igualmente nesta linha se deve entender a oferta de Chávez de encurtar o tempo da lei habilitante, devolvendo-a ao Parlamento para o 1º de Maio (oferta que parece não ir concretizar-se, sendo provável que a lei habilitante que concede poderes legislativos especiais ao presidente da República se prolongue pelos 18 meses inicialmente previstos; episódio este que, no entanto, exemplifica o caráter sumamente discricionário com que Chávez exerce o poder).

Certamente Chávez não considerou adequado vetar muitas outras leis que a última Assembleia Nacional aprovou com alguma urgência durante os últimos meses de 2010 antes de a chegada dos deputados opositores acabar com o virtual monopólio legislativo com o qual o oficialismo tinha contado durante cinco anos. Tal inclui diversas leis para fortalecer o controle governamental sobre os conteúdos da Internet ou o financiamento de organizações políticas e sociais ou uma lei anti-transfugas idealizada especificamente para perseguir a dissidência no grupo parlamentar do PSUV.

A Venezuela fechou o ano de 2010 com uma situação econômica nada risonha, combinando uma queda do PIB com uma elevadíssima taxa de inflação (27,1%). A vasta rede de subsídios e serviços sociais levantada pelo governo bolivariano (um feito de grande envergadura para um país da periferia capitalista) é cada vez mais difícil de manter, uma vez que o modelo de desenvolvimento aplicado nesta última década (baseado na extração de hidrocarbonetos, na diversificação das relações comerciais no quadro do mercado capitalista mundial e num projeto desenvolvimentista ligado à constituição de empresas mistas com potências estrangeiras) não incrementa o tecido produtivo do país, tremendamente dependente das importações.

Como resultado de tudo isso, o Estado venezuelano apresenta certos problemas de liquidez, o que explica a drástica desvalorização do bolívar no início de 2010, consolidada no início de 2011 com a subida do tipo de câmbio para alimentos e medicamentos a 4,3 bolívares por dólar. Se a isto juntarmos o projeto de um orçamento organicamente deficitário (baseado num preço do barril de petróleo de apenas 40 dólares), que exige a aprovação constante de «créditos adicionais» para o pagamento de todo o tipo de despesas ordinárias (como os salários dos funcionários públicos), dão-se casos bastante generalizados de paralisia do funcionamento das instituições venezuelanas, tanto em nível nacional, como nos estados e municípios.

É um lugar comum da propaganda oficial comparar as estatísticas atuais com as da IV República para justificar os êxitos do governo e é óbvio que o forte desenvolvimento econômico e social desta última década contrasta vivamente com a catástrofe neoliberal dos anos 90. Contudo, um projeto político que pretende (re)construir a unidade latino-americana enquanto se emancipa do jugo imperialista e avança para «o socialismo do século XXI» não deveria olhar-se ao espelho dos números do corrupto, servil e ineficiente Estado da quarta república, mas antes no das crescentes necessidades sociais do povo trabalhador venezuelano, que graças ao próprio processo bolivariano são hoje muito maiores do que no ano de 1998.

De frente para o futuro, o conjunto da vida política venezuelana parece encarar-se nas eleições presidenciais de 2012. Nesta perspectiva, vai reconstituir-se ao longo deste ano o Pólo Patriótico. Esta poderia ser uma excelente oportunidade para reativar as lutas sociais e ampliar a influência do bloco bolivariano a novos sectores sociais, ou pelo contrário converter-se numa desculpa organizativa para continuar a dispersar as bases revolucionárias e aumentar o domínio da burocracia em novas esferas. O objetivo declarado parece ser a salvaguarda e renovação da liderança de Chávez, mas este não pode converter-se num fim em si mesmo, sob pena de esvaziar de conteúdo o processo bolivariano.

Tradução: Jorge Vasconcelos 
Extraído de ODiario