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quarta-feira, 11 de março de 2015

Racha na Aliança Atlântica - Mentiras e provocações da OTAN

10/3/2015, [*] Mike Whitney, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A guerra foi provocada para destruir o mundo russo, arrastar a Europa para a guerra e cercar a Rússia com países hostis. Ao desencadear essa guerra planetária, os EUA tentam encontrar alguma saída para seus problemas internos.
Sergey Glazyev, Conselheiro do presidente Vladimir Putin



As elucubrações acima, do principal comandante da OTAN na Europa, general Philip Breedlove, meteram uma cunha entre a Alemanha e os EUA que pode levar ao colapso da Aliança Atlântica. Segundo a revista alemã Der Spiegel, Breedlove várias vezes sabotou as tentativas da chanceler Angela Merkel para encontrar uma solução diplomática para a guerra na Ucrânia, sempre distribuindo “perigosa propaganda” que está mal informando a opinião pública sobre “avanços de tropas na fronteira (e) o acúmulo de munição e colunas de tanques supostos russos”.

Mas, embora o artigo, raro pela contundência das críticas, destaque isoladamente Breedlove pelos exageros ridículos sobre inexistente invasão russa, o verdadeiro objetivo da matéria publicada pela Spiegel é alertar Washington de que os líderes da União Europeia não apoiarão nenhuma política de confrontação militar com Moscou.

Philip Breedlove na OTAN
Antes de explicar o que está acontecendo, é preciso ler um excerto do artigo. Segundo a Spiegel:

(…)  já há meses a chancelaria limita-se a balançar a cabeça com desagrado, cada vez que a OTAN, sob o comando de Breedlove, vem a público para anunciar, com espalhafato, movimentos de tropas ou tanques russos (...). O que mais incomoda Berlim é o tom dos “anúncios” de Breedlove. Notícias falsas, relatos visivelmente exagerados, alertou um alto funcionário alemão, em recente reunião sobre a Ucrânia, expõem a OTAN — e, por extensão, todo o ocidente – ao risco de perder a credibilidade.

Os exemplos abundam (...) No começo da crise, o general Breedlove anunciou que os russos teriam deslocado 40 mil soldados para a fronteira ucraniana e disse que a invasão poderia começar a qualquer momento. A situação, disse o homem, seria “incrivelmente preocupante”. Mas agentes da inteligência de países membros da OTAN já haviam descartado completamente qualquer possibilidade de invasão russa. Para eles, nem a composição nem o equipamento das tropas eram consistentes com qualquer invasão iminente.

Os especialistas logo desmentiram praticamente todos os itens do que Breedlove dissera. Não havia 40 mil soldados na fronteira; eram muito menos de 30 mil e talvez bem menos de 20 mil. Além do mais o equipamento militar não estava com certeza próximo da fronteira para qualquer invasão, e já haviam estado na mesma região antes do início do conflito. Além do mais, não havia nenhum sinal de movimentação para preparação logística de alguma invasão, como quartéis-generais de campanha.

Breedlove continuou a fazer, como antes já fizera, declarações inexatas, contraditórias e, até, declarações absolutamente erradas. (...)

Dia 12/11/2014, durante visita a Sofia, Bulgária, Breedlove relatou que “vimos colunas de equipamento russo – basicamente tanques russos, artilharia russa e sistemas russos de defesa, além de tropas russas de combate — entrando na Ucrânia”. “Seria”, disse ele, “a mesma informação que a OSCE está distribuindo”. Mas a OSCE só falara de comboios militares dentro da Ucrânia, no leste do país. Nenhum observador da OSCE jamais disse coisa alguma sobre tropas vindas da Rússia.

Breedlove não vê motivo algum para revisar suas intervenções. “Mantenho tudo que já disse nos pronunciamentos feitos durante a crise na Ucrânia” – escreveu ele à revista Spiegel, em resposta ao convite para que se manifestasse acompanhado de uma lista de suas controversas declarações.(Breedlove’s Bellicosity: Berlin Alarmed by Aggressive OTAN Stance on Uckraine [Belicosidade de Breedlove: Berlin está assustada com a posição agressiva da OTAN sobre a Ucrânia], Der Spiegel).

Por mais que se possa escorregar na superfície da narrativa da revista Spiegel, de um militarista ensandecido que estaria tentando arrastar a Europa para sempre mais perto da IIIª Guerra Mundial, o roteiro parece ser outro, ardilosamente construído. Como sabem todos que acompanham o fiasco do “ocidente” na Ucrânia ao longo do ano passado, nada há de extraordinário nas distorções e sandices de Breedlove. O Secretário de Estado, John Kerry, repetiu as mesmas sandices várias vezes, como vários outros, para vários veículos. As mentiras sobre alguma “agressão russa” são a regra, não a exceção em toda a imprensa-empresa mundial de repetição.

Breedlove, Merkel e Philip Murphy (Embaixador dos EUA na Alemanha) - foto de 2009
Assim sendo, por que a revista Spiegel teria resolvido, de repente, pôr-se a atacar Breedlove, o qual, afinal, nem é mais mentiroso que qualquer outro? O que está realmente acontecendo?

Bem claramente, Spiegel está operando para ajudar Merkel, vale dizer, para minar a credibilidade do comandante do exército de Washington na Europa, para desencorajar qualquer escalada da guerra na Ucrânia.  Sim. Mas Merkel não cuidou só de humilhar Breedlove para mostrar que a Alemanha não se manterá imóvel e sentada sobre as mãos enquanto Washington empurra a Europa para o fundo do abismo; ela também cuidou atentamente, ao mesmo tempo em que humilhava nomeadamente só o general, de poupar Kerry e Obama, que não ouviram crítica alguma.

É atitude significativa, porque a verdade é que todos, absolutamente todos, os supracitados e outros – virtualmente todo o establishment político e toda a imprensa-empresa de repetição e respectivos lobbies nela ativados – todos mentiram sempre sem parar, sobre praticamente todos os aspectos do conflito ucraniano. Merkel não quis desacreditar todos esses (mas a matéria da Spiegel sugere fortemente que ela poderá “bater mais”, se o “mau comportamento” [do general] persistir).

O artigo em Spiegel foi parte de um movimento de “saque e voleio” para forçar Washington a alterar a sua atitude confrontacional. O segundo “ataque-voleio” veio logo no domingo à tarde, quando o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou que a Europa precisa constituir exército próprio. Eis o que a agência Reuters noticiou:

Jean-Claude Juncker
A União Europeia precisa de seu próprio exército para enfrentar a Rússia e outras ameaças, e para restaurar a posição da política exterior do bloco em todo o mundo, disse o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker a um jornal alemão no domingo (...).

Com seu exército próprio, a Europa pode reagir com mais credibilidade a qualquer ameaça à paz em estado membro ou em estado vizinho.

Ninguém pensa em exército europeu a ser imediatamente mobilizado, Mas um exército europeu comum a todos os países enviaria clara mensagem à Rússia de que falamos sério sobre defender nossos valores europeus.(Juncker calls for EU army, says would deter Rússia, Reuters).

Viram o que está acontecendo? Com uma mão, Merkel–Spiegel dá uma martelada na credibilidade do principal comandante da OTAN; com a outra, o Presidente da Comissão Europeia–Reuters atropela os negociadores norte-americanos e anuncia seu plano para criar uma força europeia de combate independente, que tornará a OTAN redundante. São dois grandes desenvolvimentos que, sem dúvida, deixaram zonzos a trupe que cerca Obama. É ataque direto, frontal, ao papel da OTAN como grande garantidora da segurança regional da União Europeia.

Talvez a opinião pública europeia não seja suficientemente simplória e ingênua a ponto de engolir a ideia, perfeitamente absurda, de Junker, para quem um exército da União Europeia “enviaria clara mensagem” ao mundo; mas com absoluta certeza ninguém, no n. 1.600 da Pennsylvania Avenue acreditou nessa. Todo o movimento foi pensado para enviar a Washington o “recado” de que a Europa está farta das andanças da OTAN e quer mudanças. O recado para Breedlove e a turma dele é “tome jeito ou tome seu rumo”.

Vladimir Putin e Angela Merkel ombro-a-ombro
Ironicamente, esses mesmos movimentos põem Merkel alinhada ombro-a-ombro com o modo como Putin vê as coisas, nos termos de seu famoso discurso de Munique, em 2007, quando disse:

Estou convencido de que alcançamos aquele momento decisivo quanto temos de pensar seriamente sobre a arquitetura da segurança global. E temos de seguir adiante, procurando um equilíbrio razoável entre os interesses de todos os participantes no diálogo internacional. (...) Os EUA já extravasaram para fora de suas fronteiras nacionais por todas as vias imagináveis. (...) E é claro que isso é extremamente perigoso (...). Resulta em que ninguém se sente jamais seguro. É preciso enfatizar – ninguém se sente jamais seguro.(Vladimir Putin, 10/2/2007, 43ª Conferência de Segurança de Munique).

Como os EUA poderiam apresentar-se como “defensores do sistema de segurança global”, quando as intervenções norte-americanas deixaram pelo caminho uma tão longa trilha de estados destruídos, da fronteira sul da Somália ao extremo norte da Ucrânia, rastro caótico de ruínas fumegantes e de indescritível sofrimento humano, comparável às depredações do 3º Reich?!

Nenhuma segurança poderá jamais ser assegurada à Europa por uma entidade semeadora de guerras, controlada pelos EUA, que só age com vistas a atender os interesses de Washington. Nesse momento, a OTAN obtém dos EUA 75% dos fundos que a mantêm, motivo pelo qual a aliança vive muito menos interessada em fazer alguma paz ou em promover alguma segurança, e muito mais se dedica a internacionalizar sua guerra imperial de agressão por todo o planeta. Antes da crise na Ucrânia, os líderes europeus não perceberam o perigo desse arranjo estúpido (embora as intervenções norte-americanas na Sérvia, na Líbia, no Afeganistão devessem ter bastado para lhes abrir os olhos).

Mas agora, quando os movimentos ensandecidos, temerários, da OTAN já criaram o risco real de vaporizar a Europa numa tempestade de fogo nuclear; líderes como Merkel e Hollande parecem estar começando a mudar a sua velha cantoria.

Que ninguém esqueça: o cenário ideal para os EUA seria guerra limitada que arrase grandes porções dos continentes europeu e asiático, devolvendo os EUA ao posto que tinham no final da IIª Guerra Mundial, quando ninguém cogitava de “rublo-izar” o mundo. Talvez seja excelente projeto para maníacos genocidas e guerreiros de poltrona, que comandam o mundo da segurança de seus bens abastecidos bunkers em Washington, DC. Mas para a Europa, essa não é, definitivamente, estratégia vencedora.

A Europa não quer guerra, e com certeza não quer ser usada como bucha de canhão para maior glória de uma Nova Ordem Mundial distópica.

Sergey Glazyev
Sergey Glazyev, Conselheiro de Putin, mostrou que Washington estava agindo já muito antes de Kiev lançar sua desgraçada campanha “antiterroristas” contra federalistas rebeldes no leste. Eis como Glazyev resume tudo isso:

A principal tarefa que os norte-americanos determinaram para seus fantoches operados à distância na junta de Kiev foi arrastar a Rússia para guerra total com a Ucrânia. Para essa finalidade, cometeram-se todos aqueles crimes horrendos – para forçar a Rússia a enviar tropas à Ucrânia para proteger a população civil (...).

A bancarrota do sistema financeiro nos EUA, incapaz de honrar o serviço da própria dívida externa; a falta de investimentos para financiar o salto para uma nova ordem tecnológica e para manter a competitividade da indústria norte-americana; e a já previsível possível derrota na competição geopolítica contra a China. Para resolver esses problemas, os EUA precisam de uma guerra de novo mundo. (Sergey Glazyev).

Bingo. O império em acentuado e persistente declínio, cuja fatia no PIB mundial só faz encolher ano a ano, precisava, já desde o início, de uma guerra. Não há outro meio pelo qual os EUA consigam reverter o rápido declínio econômico, preservando para si o posto de única superpotência. Felizmente, já há governantes na União Europeia que começam a erguer a cabeça do buraco na areia, o suficiente, pelo menos, para perceber o que se passa e alterar a própria atitude.

Vale registrar que ninguém no governo Merkel ou em lugar algum desmentiu publicamente a matéria da revista Spiegel. Por quê?

Esse silêncio parece sugerir que todos sabem, há tempos, que a propaganda anti-Putin não passa de conversa à toa; que o tal “Putin-do-mal” que os EUA tentam construir não mandou tropas e soldados para o outro lado da fronteira da Ucrânia; que não foi Putin quem derrubou o avião da Malaysian Airlines; que Putin não matou nenhum “líder da oposição”, a tiros, no meio da rua, a poucos metros do Kremlin. Isso, sim, parece estar sendo dito, bem claramente, naquele silêncio dos europeus.

-- Olha o que o Obama me mandou!
É claro que sim. A razão pela qual nenhuma autoridade se manifestou a favor da OTAN é – como a revista Spiegel reconhece cinicamente – que “é necessária uma mistura de argumentação política e propaganda militar”.

“Propaganda necessária?”

Hah-hah! Afinal um reconhecimento que só muito raramente se vê na imprensa–empresa. Mas é pura verdade, não? Os euro-líderes deixaram-se enganar na onda de mentiras sempre usadas para manter as massas submissas e alinhadas. Em outras palavras, como sempre: forte dose de “gerenciamento de percepções” para o rebanho, mas a verdade, claro, para nossos reverenciados amos-senhores-patrões. Sempre foi assim. Até que, agora, de repente, aquelas mesmas elites amestradas resolveram partilhar a verdade com a massa ignara e servem-se da revista Spiegel?! Mas... por quê? Por que essa repentina vontade incontrolável de (o governo alemão) declarar e de (a revista Spiegel) publicar verdades?!

É porque aquelas elites europeias já não apoiam as políticas de Washington. Essa é a razão.

Ninguém mais na Europa quer que os EUA armem e treinem o exército ucraniano. Ninguém mais na Europa quer que os EUA mandem 600 paraquedistas para Kiev e aumentem o apoio logístico que os EUA dão a Kiev. Ninguém mais na Europa quer saber de escalada na guerra na Ucrânia, porque ninguém na Europa quer saber de guerra contra a Rússia. Mais simples, impossível.

Sr.Presidente... Que orelhas grandes você tem!
Pela primeira vez, líderes europeus, especialmente Angela Merkel, compreendem com clareza que os objetivos estratégicos dos EUA (o pivô para a Ásia) não se alinham com os objetivos da União Europeia. Na verdade, as ambições geopolíticas de Washington são grave ameaça à segurança europeia.

Lamentavelmente, não basta que Merkel apenas compreenda o que está acontecendo. Ela precisa atrair para o seu lado os colegas europeus e dar passos positivos, ativos, para fazer descarrilar agora o plano de Washington. Sem isso, os EUA continuarão a forjar mais e mais atentados, mais e mais assassinatos sob falsa bandeira, até que Putin seja obrigado a responder. Quando acontecer, muito provavelmente já será inevitável a guerra catastrófica, generalizada, pela qual os EUA anseiam.
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[*] Mike Whitney é escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, uma massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com

domingo, 1 de março de 2015

“V de Varoufakis” ou “Os destinos da Grécia estão nas mãos de Angela Merkel?


20/2/2015, Shawn Tully entrevista [*] James K. Galbraith, Fortune
Traduzido do inglês para espanhol em 22/2/2015, Sin Permiso e Rebelión
Traduzido do espanhol para português pelo pessoal da Vila Vudu


Um dos mais afamados economistas vivos, estreitamente ligado ao Ministro grego de Finanças, Yanis Varoufakis, diz que o obstáculo fundamental que atravessava o caminho do acerto-compromisso foi a incrível divisão registrada dentro do próprio governo alemão, com uma parte a exigir total adesão da Grécia aos compromissos prévios, e outra parte, também muito poderosa, que defendia concessões e acordo.


James Kenneth Galbraith
“Tudo depende de Merkel” – diz-nos James Galbraith, que passou sete dias em meados de fevereiro ao lado de Varoufakis em Bruxelas e em Atenas.

Ouvimos o Ministro de Finanças de Merkel, com atitude negativa; e ouvimos o vice-chanceler, que queria o diálogo. Só não ouvimos a própria chanceler Merkel. Sabemos que não quer falar, só se for estritamente imprescindível. São os mais duros que podem ser, depois fazem uma concessão no último minuto, para não ter de fazer duas.

Galbraith resume numa pergunta o dilema de Merkel (e a melhor esperança de que cheguem a um acordo):

Que interesse terá Merkel em converter-se na governante que presidiu a desintegração da Eurozona?

Difícil imaginar dupla mais díspar que essa, Galbraith e Varoufakis. O primeiro é filho – educado em Harvard, Yale e Cambridge – do legendário economista John Kenneth Galbraith. Varoufakis é agitador incendiário, que veste jaquetas de couro e camisetas azul-brilhantes nas reuniões com as engravatadas elites europeias, e para relaxar pilota motocicletas de alta cilindragem.

Apesar das diferenças, e colegas na Universidade de Texas em Austin, não apenas travaram profunda amizade pessoal, mas, também, tornaram-se almas intelectualmente gêmeas, e produziram juntos , em 2013, em trio com o economista britânico Stuart Holland – um opúsculo sobre a solução da crise na eurozona, no qual advogam a substituição de boa parte da dívida soberana das nações com problemas, por bônus de baixo rendimento supergarantidos pelo Banco Central Europeu. [Há tradução ao espanhol, em SinPermiso: “Modesta Proposición”].

É claro que as ideias de Galbraith ajudaram a modelar a controvertida campanha de Varoufakis para “pôr fim” à austeridade [arrocho] na Grécia e proteger os empregos públicos e as pensões dos gregos.

Yanis Varoufakis
Trabalhando esses dias ombro a ombro com Varoufakis, Galbraith está tendo a chance de ver “por dentro” o manejamento caótico do Eurogrupo, que reuniu os ministros europeus de finanças, dia 16/2/2015, em Bruxelas:

Estive com as equipes técnicas entre os dias 11 e 17 de fevereiro (2015), incluída a reunião de Bruxelas. Estava na sala das máquinas, acompanhando a equipe de trabalho grega.

Na reunião do Eurogrupo, Pierre Moscovici, Comissário da União Europeia para assuntos econômicos e financeiros, apresentou a Varoufakis um rascunho de comunicado que permitia à Grécia solicitar uma extensão de seu acordo de empréstimo, garantindo-lhe tempo para discutir um novo plano de crescimento para a Grécia. Como Varoufakis disse à imprensa logo depois da reunião, estava pronto para assinar o comunicado de Moscovici, que elogiou como “documento esplêndido” e “verdadeiro ponto de abertura”.

Mas o diretor do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, estava preparando seu próprio documento.

Yanis disse:

Tenho um texto .

E Dijesselbloem disse:

Não. O texto é esse [outro!].

Jeroen Dijsselbloem
Galbraith e a equipe grega trataram então de combinar partes dos dois rascunhos, para produzir um documento aceitável para ambas as partes:

Dediquei-me então, com as outras pessoas, a combinar os dois rascunhos [o de Moscovici e o de Dijeselbloem] tentando chegar a um texto que pudesse ser assinado. Não demoramos nisso mais que meia hora.

Mas então, segundo o testemunho de Galbraith, o Ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble, deu a reunião por encerrada.

Disse “não” à elaboração de uma declaração conjunta como prelúdio de um acordo – no depoimento de Galbraith.

Para Galbraith, a falta de coordenação entre os europeus parecia absolutamente inacreditável:

Sou veterano conhecedor dos assessores especialistas que trabalham no Congresso dos EUA. E ver um corpo institucional oficial trabalhando com tamanho descaso, com tamanha incompetência, de forma imediatista, tão ad hoc, assistir ao vivo ao Eurogrupo, ver aquela forma atrabiliária de fazer as coisas, foi para mim uma verdadeira revelação.

Dia 18 de fevereiro (2015), Varoufakis apresentou solicitação formal para que fosse prorrogado o acordo de empréstimo como o Eurogrupo. Mais uma vez, as respostas divergentes deixaram Galbraith assombrado:

Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] disse seria um “ponto de partida”. O Vice-Chanceler alemão, Sigmar Gabriel, também disse que a carta sobre a prorrogação do empréstimo seria um “ponto de partida”. Mas Schäuble desmentiu o Vice-Chanceler. Disse que a posição de Gabriel, de defender a prorrogação, seria “posição sem substância”.

Fiquei boquiaberto, de olhos arregalados – disse Galbraith. – E o desmando acontecendo ali, à minha frente, dentro do governo alemão, o governo mais poderoso da Europa!


Jean-Claude Juncker
Para Galbraith, as divisões internas na Alemanha, e entre as próprias nações, deixaram bem evidente que os dirigentes europeus são maus negociadores:

Cometeram o erro de deixar claro diante de Yanis que eles estavam jogando com extrema violência, mas sem saber jogar, se se considera a coisa do pondo de vista da perícia política mais elementar.

Galbraith rechaça enfaticamente a ideia de que a posição grega fosse confusa:

Acho que os europeus querem fazer crer que seja confusa, mas a confusão só existe na cabeça deles mesmos, não na posição dos gregos.

Para Varoufakis e Galbraith, a politicagem mesquinha comprometeu até a sensatez econômica:

Os atores institucionais – o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu – foram construtivos. Mas os credores, os jogadores ativos, são os Ministros de Finanças; e esses estão divididos e são hostis.

No campo dos que se opunham radicalmente incluem-se Espanha, Portugal e Finlândia:

Os dirigentes políticos nesses países enfrentam processos eleitorais e oposição crescente. Estão apavorados com a possibilidade de que as respectivas oposições políticas tirem vantagem da posição grega.

Para esses, o importante é a sobrevivência política em seus cargos, muito mais que salvarem a Eurozona.

Pierre Moscovici
Para romper o impasse será preciso, muito provavelmente, a intervenção de Angela Merkel, único dirigente político suficientemente poderoso para esvaziar essas manobras da política mais rasteira.

Em toda essa terrível confusão, a admiração que Galbraith sente por seu amigo Varoufakis só faz aumentar. Quando muitos dizem que as roupas heterodoxas e declarações provocativas de Varoufakis – quando observou, por exemplo, que o acordo das reformas à moda europeia era semelhante à tortura de simulação de afogamento – atraem cada vez mais a hostilidade do establishment financeiro europeu, Galbraith diz, na direção oposta, que os Ministros das Finanças europeus deviam dar as boas vindas ao Ministro grego, como alguém que diz sempre a verdade, nada além da verdade:

A honradez intelectual, a clareza de pensamento, sua erudição, são absolutamente raras, nos círculos europeus. Acho que quando aquela gente o vê pela primeira vez, ou o ouve falar, sentem alguma espécie de choque.

Galbraith lembra, como exemplo da honradez intelectual de Varoufakis, uma observação do amigo, segundo a qual dentre todos com quem estava negociando, Schäuble, o seu mais duro antagonista, “é o único que dá sinais de ter alguma substância intelectual”.

Muito diferente do que em Bruxelas, Galbraith encontrou em Atenas um ambiente exultante:

Há de três a seis meses, Atenas era absolutamente deprimente. Agora tudo mudou, o sentimento de orgulho está restaurado e o humor mudou completamente.

Varoufakis parece ser quem melhor simboliza esse novo otimismo:

Fomos a pé, do Ministério até o Parlamento. Que experiência! Pessoas nos carros abriam o vidro para estender-lhe a mão e cumprimentá-lo, os motoristas de ônibus paravam para saudá-lo. Por onde anda as crianças o cercam.

Varoufakis deteve-se no caminho, para falar atentamente, apoiando-a pelo cotovelo, com uma senhora que procurava emprego como varredora:“Varoufakis é estrela tão popular quanto o próprio Alexis Tsipras”.

Varoufakis conseguirá manter a Grécia no euro, mas ao preço de ceder no programa de crescimento que levou ao poder esse governo de esquerda? Para Galbraith,

É impossível. Varoufakis está montado em sua super motocicleta e é bom piloto. Aceitou o cargo porque o que mais quer é pôr suas ideias em prática.

Angela Merkel
Os Ministros europeus de Finanças nunca conheceram nada igual a Varoufakis. E Merkel terá de decidir se a melhor opção para ela é realmente aceitar compromissos com alguém tão radical e transgressor. Mas em todos os casos, está em jogo o futuro do euro.



[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).