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sábado, 4 de julho de 2015

Grécia: Só o “NÃO” salva o euro


1/7/2015, [*] James Galbraith, The American Prospect
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Com a Grécia a preparar-se para um referendum sobre as demandas dos credores, que querem mais arrocho, o futuro da Europa oscila na balança.

Campanha pelo voto "NÃO"

No domingo (5/7/2015) a Grécia fará um referendum de cujo resultado dependerá o futuro do país e de seu governo eleito, e com o destino do euro e da União Europeia também na balança. Pela escrita de hoje, a Grécia não pagou ao FMI parcela já vencida; as negociações foram interrompidas, e os grandes e bons estão dando por descartado o governo grego e pregando um voto “Sim”, que aceite os termos dos credores para o que seja “reforma”, para “salvar o euro”. Em todos esses juízos, eles estão – e não é a primeira vez – errados.
Para compreender essa luta amarga, ajuda se, antes, nos dermos conta de que os líderes europeus hoje são gente rasa, enclausurados, preocupados com a política local de cada um e mal preparados moralmente ou intelectualmente, para lidar com um problema continental. É verdade sobre Angela Merkel na Alemanha, sobre François Hollande na França, e é verdade também sobre Christine Lagarde no FMI. Especialmente no Norte da Europa, os líderes não sentiram a crise e nada sabem de economia, e nesses dois campos são o perfeito oposto dos gregos.
Para os norte-europeus, os profissionais nas “instituições” definem os termos, e só há um efeito pensável: aceitar. A negociação que houve foi sempre do mesmo tipo: mais e mais concessões do lado grego. Qualquer adiamento, qualquer objeção, só podia ser interpretado como má intenção. As intenções adversas são normais, é claro: os políticos esperam que haja. Mas aos seus pares ministros das Finanças jamais ocorreu a ideia de que o Ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, não é movido por nenhuma intenção inconfessável. Quando Varoufakis não parou nem cedeu, a resposta dos grandes e bons foram ofensas e assassinato de reputação.
Ao contrário do que pretendem comentários mal informados, o governo grego sempre soube, desde o início, que enfrentava furiosa hostilidade de Espanha, Portugal e Irlanda; desconfiança profunda da esquerda mainstream na França e na Itália; obstrução implacável da Alemanha e do FMI; e disposição para desestabilizá-lo, do Banco Central Europeu. Mas por muito tempo, esses pontos não foram visíveis internamente. Havia gente influente, muito próximos de Tsipras que não acreditavam nisso. Há outros que sentiam que, no final, a Grécia teria de se conformar com o que conseguisse arrancar. Então, Tsipras adotou uma política de ceder terreno. Deixou que os intermediários negociadores negociassem. E quando voltaram com concessão e mais concessão, ele acedeu e concordou.
Abaixo o EURO!

Em resumo, o governo grego descobriu que tinha de ceder às demandas dos credores por superávit primário grande e permanente. Foi um golpe duro; significava aceitar o arrocho que o governo havia sido eleito para rejeitar. Mas os gregos insistiram no direito de determinar a modalidade do arrocho, e essa modalidade seria principalmente aumentar impostos sobre os gregos mais ricos e sobre lucros das empresas. Pelo menos, a proposta protegia os aposentados mais pobres contra cortes ainda mais devastadores. E não cederam em direitos trabalhistas fundamentais.
Os credores rejeitaram também isso. Insistiram no arrocho e também em determinar a precisa forma desse arrocho. Foi quando deixaram claro que não tratariam a Grécia como haviam tratado qualquer outro país europeu. Os credores lançaram sobre a mesa uma proposta tipo “pegar ou largar”, que sabiam que Tsipras não poderia aceitar. De um modo ou de outro Tsipras estava sobre a linha de alvo. Decidiu correr seus riscos, num referendum.
A reação furiosa e destemperada dos líderes europeus não foi, provavelmente, inteiramente falsa. Talvez ainda não se tivessem dado conta de que enfrentavam coisa que não se vê na Europa já há alguns anos: um líder político.
Alexis Tsipras está no cenário internacional há apenas poucos meses. Não é refinado, mas é sedutor. Seria fácil para gente tão limitada em círculos estreitos como são os atuais líderes europeus não perceber que Tsipras, como Varoufakis, queria dizer e dizia, sem simulação, exatamente o que todos ouviam.
Diante da decisão de Tsipras de convocar um referendum, Merkel e seu vice-chanceler Sigmar Gabriel, Hollande da França e David Cameron da Grã-Bretanha – e, para vergonha dele, também Matteo Renzi da Itália – todos enviaram mensagens ao povo grego, dizendo que estariam decidindo sobre a permanência da Grécia na Eurozona. O Presidente da Comissão Europeia foi ainda mais longe, disse que seria votação para decidir a permanência como membro da União Europeia. Foi ameaça orquestrada: rendam-se ou vocês estão acabados.



A verdade é que nem o euro nem a Eurozona estão em questão, no referendum e o que o que estará em votação é o que responder aos credores. A ameaça de expulsar a Grécia é blefe óbvio. Não há meio legal para alguém ejetar a Grécia para fora da Eurozona ou da União Europeia. O referendum é , de fato, e obviamente, sobre o governo eleito na Grécia. Os líderes europeus sabem disso. E estão tentando assegurar que Tsipras caia.
O que Tsipras ganha com a vitória do voto “NÃO”? Além de sobrevida política, só uma coisa: esse é o meio que ele tem para provar, de uma vez por todas, que absolutamente não pode ceder as condições que estão sendo impostas. O ônus, pois, volta a recair sobre os credores. Se escolherem destruir um país europeu, terão cometido um crime, e todos verão.
Isso posto, não há garantia alguma de que Tsipras vença no domingo. Nas eleições de janeiro, seu partido obteve apenas 40% dos votos; agora, precisa alcançar a maioria. Há medo e confusão por todos os lados. Os gregos estão votando, de fato, para escolher entre dois desconhecidos, o que não pode oferecer garantia para ninguém, de lado algum.
Se os gregos votam “NÃO”, há óbvia incerteza sobre o futuro econômico. Talvez os bancos continuem fechados, os depósitos estarão perdidos e os credores levarão adiante suas ameaças. A incerteza é amplificada, inevitavelmente, pelo fato de que o governo não pode fazer campanha a favor de permanecer no euro e ao mesmo tempo explicar como enfrentará o trauma de ser forçado a sair. Se há providências preparadas, é segredo até agora muito bem guardado.
Por outro lado, se os gregos votam “SIM”, a incerteza é política. A coalizão SYRIZA pode rachar e seu governo, cair. Então, o que acontecerá? Não há governo alternativo com credibilidade na Grécia. Acima de tudo, é difícil acreditar que algum governo (no sentido de qualquer governo, seja qual for) formado para aceitar a rendição e aprofundar a depressão durará muito tempo.
Syriza e os EURORRATOS

Parece certo que depois de um “SIM”, uma rendição, e depressão ainda mais profunda, a Oposição oficial deixará de ser feita pela esquerda pró-Europa que está hoje no governo da Grécia. Essa oposição terá sido destruída pela Europa. A nova Oposição, e algum dia o governo, será ou um partido de esquerda ou um partido de direita que se oporá ao euro e à União Monetária. Pode ser a Aurora Dourada, o partido neonazista. A lição da Grécia ecoará sobre oposições em outros pontos do mundo, inclusive na extrema direita em ascensão na França.
A ironia do caso é que a verdadeira esperança – a única esperança – para a Europa está numa vitória do “NÃO” no domingo, seguida de novas negociações e melhor acordo. O “SIM” é vitória do medo, contra a dignidade e a independência. O medo é força poderosa – mas dignidade e independência podem voltar, prestigiadas, ao centro do palco.
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[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).




quarta-feira, 24 de junho de 2015

O que é “reforma”? O curioso caso da Grécia e da Europa

12/6/2015, [*] James K. Galbraith, The American Prospect
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Estou perdido, fui assassinado, cortaram-me a garganta, roubaram meu dinheiro! Quem fez isso? Quem me rouba? Onde se esconde? Que faço agora? Corro? Fico? Como, onde está o ladrão? Quem me roubou (Agarra o próprio braço). Ah, fui eu mesmo... O ladrão sou eu, que me roubo eu mesmo... Estou louco, já não sei o que digo... Já morri. Estou morto. Estou enterrado. E ninguém se interessa por me ressuscitar...



O avarento descobre a perda de seu dinheiro
George Cruickshank (1842)

Na viagem de volta de Berlim na 3ª-feira (9/6/2015), o Ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, disse-me que a palavra “reforma” começou a ser usada, com o sentido com que é usada hoje, no período médio da União Soviética, especialmente nos anos de Khrushchev, quando intelectuais modernizantes procuraram introduzir elementos de descentralização e processo de mercado num sistema esclerosado de planejamento. Naqueles anos, quando os americanos lutavam por direitos, e alguns jovens europeus ainda sonhavam com revolução, a palavra “reforma” não era muito usada no ocidente. Hoje, numa estranha virada de convergência, virou palavra de ordem para a classe governante.

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A palavra, “reforma”, tornou-se central no cabo-de-guerra entre a Grécia e seus credores. Pode ser possível algum dinheiro novo de alívio – mas só se os gregos concordarem com “reformas”. Mas que reformas, e para que finalidade? A imprensa-empresa comercial lança, usa e reusa a palavra, “reforma” no contexto grego, como se houvesse claro e amplo entendimento sobre o que a palavra significa.
As específicas reformas que os credores da Grécia exigem hoje são mistura peculiar. Visam a reduzir o Estado e, nesse sentido são “orientadas pelo mercado”. Ao mesmo tempo são o máximo concebível contra promover decentralização e diversidade. Ao contrário, trabalham para destruir instituições locais e impor um modelo único de política a toda a Europa, com a Grécia não no ponto de descarte, mas, de fato, na vanguarda. Nesse sentido, as propostas são totalitárias – e, por mais que o pai filosófico aí seja Friedrich von Hayek, o pai político, para dizê-lo logo, sem meias palavras, é Stálin.
A versão que se tem na Europa Moderna, para o stalinismo de mercado, até aqui, e no que tem afetado a Grécia, tem três principais pinças:
●– a primeira tem a ver com as aposentadorias;
●– a segunda, com os mercados de trabalho; e
●– a terceira, com as privatizações.
E há a questão que tudo envolve, dos impostos, “austeridade” [é ARROCHO!] e sustentabilidade da dívida, à qual podemos voltar mais tarde.
Com respeito às aposentadorias, os credores exigem que valor equivalente a 1% do PIB seja cortado este ano do pagamento de aposentadorias, num país no qual quase metade das aposentadorias estão abaixo da linha de pobreza. A específica exigência cortaria certa de 120 euros, de pensões de no máximo 350 euros por mês. O governo replica que, por mais que o sistema de aposentadorias tenha de ser reformado – a atual idade para aposentadoria é insustentável – aquela reforma só pode ser feita gradualmente e acompanhando um esquema efetivo de seguro-desemprego a ser criado.
Nos mercados de trabalho, os credores já impuseram a quase total eliminação da negociação coletiva, e a redução dos salários mínimos. O governo diz que o efeito dessas medidas é informalizar o mercado de trabalho, de modo que o trabalho não é registrado e não há aposentadorias a pagar, o que, por sua vez mina também o sistema de aposentadorias. A proposta grega é que se projete um novo sistema de negociação coletiva dos salários, que atenda ao que exige a Organização Internacional do Trabalho.

Privatizaçôes

Para as privatizações, os credores exigiram a venda de aeroportos, portos navais, usinas de eletricidades, dentre outros itens do patrimônio público, e tudo isso deve ser vendido rapidamente. Aqui, a objeção dos gregos nem é entregar alguns itens do patrimônio público à administração privada ou estrangeira, mas, mais, ter de vender aqueles itens a preços mínimos, sem qualquer exigência, sem conservar para o Estado sequer número suficiente de ações que lhe dê o controle acionário. Assim, na privatização em curso do porto de Pireus, vendido à empresa chinesa Cosco, o governo insistiu em que houvesse um plano de investimento e direitos trabalhistas assegurados aos empregados. (Completando a total virada pós-moderna na linguagem, tem-se aqui um governo de esquerda num país capitalista, que impõe direitos de organização sindical dos empregados, a uma empresa comercial multinacional cujo controle acionário pertence a estado e governo comunistas).
Quanto aos impostos, os creditores exigiram forte aumento no Imposto sobre Valor Agregado [orig. value-added tax (VAT)] – que já estava em 23%. Dentre outros itens, a carga recairá sobre remédios (e, assim, sobre os mais velhos), e nas taxas especiais de que usufruem as ilhas gregas (cerca de 10% do continente, conforme a população), onde se concentra o turismo e onde, portanto, os preços já são mais altos. O governo argumenta que aumentar impostos que incidem sobre atividades turísticas e sobre o turismo fere a competitividade, e que o efeito final do aumento de impostos será reduzir a atividade e agravar o problema da dívida. O que é urgentemente necessário, em vez de aumentar impostos, é melhorar a arrecadação e pôr fim à evasão desse IVA, medidas que permitirão reduzir os impostos cobrados.
Falta, pois, às reformas que os credores exigem, bem... o que falta é, precisamente, “reforma”. Cortar aposentadorias e aumentar o IVA não é reformar. Essas ações nada acrescentam à atividade econômica nem à competitividade. Privatizar, por preços de liquidação de fim de estoque pode levar a monopólios privados predatórios, como qualquer pessoa que viva na América Latina ou no Texas sabe muito bem. Desregular o mercado de trabalho desse modo é, na essência, experimento não ético com seres humanos, imposição de dor como “terapia”, o que se confirma rapidamente por consulta aos anais do FMI, nem faz muito tempo, logo aí, em 2010. Ninguém pode pretender que cortes nos salários possam tornar a Grécia efetivamente competitiva, contra Alemanha ou Ásia, para atrair empregos da indústria. O que acontecerá é que todos os gregos com capacidades competitivas deixarão o país.
Reformar, em qualquer sentido verdadeiro, é processo que exige tempo, paciência, planejamento e dinheiro. Reformar aposentadorias e a seguridade social, modernizar os direitos trabalhistas, privatizar o que não interesse ao Estado e à sociedade manter, e promover arrecadação efetiva de impostos, isso, sim, é reformar.

Medidas de segurança comercial

Também são reformas as medidas relacionadas à racionalização da administração pública, do sistema judiciário, à fiscalização do pagamento de impostos, à integridade dos dados estatísticos e outras coisas, em torno das quais praticamente todos concordam em princípio, e que os gregos estão interessadíssimos em fazer e já estariam fazendo, se os credores permitissem, mas não permitem porque lhes interessa não reformar coisa alguma, por razões comerciais.
O mesmo se pode dizer de um programa de investimentos, que enfatizasse os serviços avançados que a Grécia tem condições para prover incluindo atenção à saúde, cuidados de idosos, educação superior, pesquisa e artes. É preciso reconhecer que a Grécia não será bem-sucedida se tiver de ser convertida em país igual aos demais. A Grécia tem de ser diferente – é país de lojas pequenas, hotéis pequenos, alta cultura e mares amplos, de praias abertas. Uma reestruturação da dívida que devolva a Grécia aos mercados (e, sim, pode ser feito, e os gregos tem proposta para fazer precisamente isso) poder ser, por qualquer juízo racional, uma reforma.
E é assim que se vê que o claro objetivo do programa dos credores é, portanto, não reformar. É reduzir à metade os total de impostos arrecadados, em momento de desastre. Cortes nas aposentadorias, cortes nos salários, aumentos nos impostos e liquidação de patrimônio valioso são oferecidos, sob o “argumento” delirante de que a economia se recuperará apesar da sobrecarga de impostos mais altos, menor poder de compra e repatriação para o exterior, dos lucros advindos de privatizações.
Essa mágica já foi testada sem sucesso, por cinco anos, no caso da Grécia. Eis por quê, em ver de se recuperar como havia quem previsse depois do “resgate” de 2010, a Grécia já perdeu até agora mais de 25% da própria renda, e a sangria não tem fim à vista. Eis por quê a dívida saltou, de uma relação de 100% com o PIB, para 180%, se se consideram os valores de face.
Mas admitir esse fracasso no caso da Grécia seria pôr abaixo todo o projeto político europeu, e a autoridade dos que estão no comando.
Então as conversações gregas continuam no mesmo passo. De fato, não é empate, porque os gregos estão sob pressão extrema. Ou cedem ao que querem os credores, ou podem ver os bancos gregos fecharem e o país expulso da Eurozona, com consequências muito graves – pelo menos no curto prazo. Os credores sabem disso. Então continuam a empurrar os gregos contra a parede – sem jamais mudar a posição deles, ao mesmo tempo em que “denunciam” que os gregos não se esforçam o suficiente. E a cada polegada de terreno que os gregos cedem, os credores pressionam mais e mais.

Negociação desigual

Essa é a feia dinâmica da negociação desigual, em um lado forte e um lado fraco, nesse caso complicado pelo fato de que o lado credor não tem liderança unificada, e portanto ninguém do lado credor – a menos que Angela Merkel afinal assuma e apresente-se para o papel – pode conceder qualquer coisa significativa, que ajude a encaminhar acordo significativo. Assim as escolhas vão-se estreitando. Ou o governo grego cederá demais, perderá apoio e entrará em colapso, nesse caso, seja mais um país governado por bancos, seja mais um país a eleger algum Aurora Dourada nazista, a democracia estará morta na Europa. Ou, no final, os gregos serão forçados a tomar o próprio destino nas mãos – risco enorme e custo altíssimo – e esperar que lhes venha alguma ajuda, venha de onde vier.

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Nota
[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.
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[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).


domingo, 1 de março de 2015

“V de Varoufakis” ou “Os destinos da Grécia estão nas mãos de Angela Merkel?


20/2/2015, Shawn Tully entrevista [*] James K. Galbraith, Fortune
Traduzido do inglês para espanhol em 22/2/2015, Sin Permiso e Rebelión
Traduzido do espanhol para português pelo pessoal da Vila Vudu


Um dos mais afamados economistas vivos, estreitamente ligado ao Ministro grego de Finanças, Yanis Varoufakis, diz que o obstáculo fundamental que atravessava o caminho do acerto-compromisso foi a incrível divisão registrada dentro do próprio governo alemão, com uma parte a exigir total adesão da Grécia aos compromissos prévios, e outra parte, também muito poderosa, que defendia concessões e acordo.


James Kenneth Galbraith
“Tudo depende de Merkel” – diz-nos James Galbraith, que passou sete dias em meados de fevereiro ao lado de Varoufakis em Bruxelas e em Atenas.

Ouvimos o Ministro de Finanças de Merkel, com atitude negativa; e ouvimos o vice-chanceler, que queria o diálogo. Só não ouvimos a própria chanceler Merkel. Sabemos que não quer falar, só se for estritamente imprescindível. São os mais duros que podem ser, depois fazem uma concessão no último minuto, para não ter de fazer duas.

Galbraith resume numa pergunta o dilema de Merkel (e a melhor esperança de que cheguem a um acordo):

Que interesse terá Merkel em converter-se na governante que presidiu a desintegração da Eurozona?

Difícil imaginar dupla mais díspar que essa, Galbraith e Varoufakis. O primeiro é filho – educado em Harvard, Yale e Cambridge – do legendário economista John Kenneth Galbraith. Varoufakis é agitador incendiário, que veste jaquetas de couro e camisetas azul-brilhantes nas reuniões com as engravatadas elites europeias, e para relaxar pilota motocicletas de alta cilindragem.

Apesar das diferenças, e colegas na Universidade de Texas em Austin, não apenas travaram profunda amizade pessoal, mas, também, tornaram-se almas intelectualmente gêmeas, e produziram juntos , em 2013, em trio com o economista britânico Stuart Holland – um opúsculo sobre a solução da crise na eurozona, no qual advogam a substituição de boa parte da dívida soberana das nações com problemas, por bônus de baixo rendimento supergarantidos pelo Banco Central Europeu. [Há tradução ao espanhol, em SinPermiso: “Modesta Proposición”].

É claro que as ideias de Galbraith ajudaram a modelar a controvertida campanha de Varoufakis para “pôr fim” à austeridade [arrocho] na Grécia e proteger os empregos públicos e as pensões dos gregos.

Yanis Varoufakis
Trabalhando esses dias ombro a ombro com Varoufakis, Galbraith está tendo a chance de ver “por dentro” o manejamento caótico do Eurogrupo, que reuniu os ministros europeus de finanças, dia 16/2/2015, em Bruxelas:

Estive com as equipes técnicas entre os dias 11 e 17 de fevereiro (2015), incluída a reunião de Bruxelas. Estava na sala das máquinas, acompanhando a equipe de trabalho grega.

Na reunião do Eurogrupo, Pierre Moscovici, Comissário da União Europeia para assuntos econômicos e financeiros, apresentou a Varoufakis um rascunho de comunicado que permitia à Grécia solicitar uma extensão de seu acordo de empréstimo, garantindo-lhe tempo para discutir um novo plano de crescimento para a Grécia. Como Varoufakis disse à imprensa logo depois da reunião, estava pronto para assinar o comunicado de Moscovici, que elogiou como “documento esplêndido” e “verdadeiro ponto de abertura”.

Mas o diretor do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, estava preparando seu próprio documento.

Yanis disse:

Tenho um texto .

E Dijesselbloem disse:

Não. O texto é esse [outro!].

Jeroen Dijsselbloem
Galbraith e a equipe grega trataram então de combinar partes dos dois rascunhos, para produzir um documento aceitável para ambas as partes:

Dediquei-me então, com as outras pessoas, a combinar os dois rascunhos [o de Moscovici e o de Dijeselbloem] tentando chegar a um texto que pudesse ser assinado. Não demoramos nisso mais que meia hora.

Mas então, segundo o testemunho de Galbraith, o Ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble, deu a reunião por encerrada.

Disse “não” à elaboração de uma declaração conjunta como prelúdio de um acordo – no depoimento de Galbraith.

Para Galbraith, a falta de coordenação entre os europeus parecia absolutamente inacreditável:

Sou veterano conhecedor dos assessores especialistas que trabalham no Congresso dos EUA. E ver um corpo institucional oficial trabalhando com tamanho descaso, com tamanha incompetência, de forma imediatista, tão ad hoc, assistir ao vivo ao Eurogrupo, ver aquela forma atrabiliária de fazer as coisas, foi para mim uma verdadeira revelação.

Dia 18 de fevereiro (2015), Varoufakis apresentou solicitação formal para que fosse prorrogado o acordo de empréstimo como o Eurogrupo. Mais uma vez, as respostas divergentes deixaram Galbraith assombrado:

Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] disse seria um “ponto de partida”. O Vice-Chanceler alemão, Sigmar Gabriel, também disse que a carta sobre a prorrogação do empréstimo seria um “ponto de partida”. Mas Schäuble desmentiu o Vice-Chanceler. Disse que a posição de Gabriel, de defender a prorrogação, seria “posição sem substância”.

Fiquei boquiaberto, de olhos arregalados – disse Galbraith. – E o desmando acontecendo ali, à minha frente, dentro do governo alemão, o governo mais poderoso da Europa!


Jean-Claude Juncker
Para Galbraith, as divisões internas na Alemanha, e entre as próprias nações, deixaram bem evidente que os dirigentes europeus são maus negociadores:

Cometeram o erro de deixar claro diante de Yanis que eles estavam jogando com extrema violência, mas sem saber jogar, se se considera a coisa do pondo de vista da perícia política mais elementar.

Galbraith rechaça enfaticamente a ideia de que a posição grega fosse confusa:

Acho que os europeus querem fazer crer que seja confusa, mas a confusão só existe na cabeça deles mesmos, não na posição dos gregos.

Para Varoufakis e Galbraith, a politicagem mesquinha comprometeu até a sensatez econômica:

Os atores institucionais – o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu – foram construtivos. Mas os credores, os jogadores ativos, são os Ministros de Finanças; e esses estão divididos e são hostis.

No campo dos que se opunham radicalmente incluem-se Espanha, Portugal e Finlândia:

Os dirigentes políticos nesses países enfrentam processos eleitorais e oposição crescente. Estão apavorados com a possibilidade de que as respectivas oposições políticas tirem vantagem da posição grega.

Para esses, o importante é a sobrevivência política em seus cargos, muito mais que salvarem a Eurozona.

Pierre Moscovici
Para romper o impasse será preciso, muito provavelmente, a intervenção de Angela Merkel, único dirigente político suficientemente poderoso para esvaziar essas manobras da política mais rasteira.

Em toda essa terrível confusão, a admiração que Galbraith sente por seu amigo Varoufakis só faz aumentar. Quando muitos dizem que as roupas heterodoxas e declarações provocativas de Varoufakis – quando observou, por exemplo, que o acordo das reformas à moda europeia era semelhante à tortura de simulação de afogamento – atraem cada vez mais a hostilidade do establishment financeiro europeu, Galbraith diz, na direção oposta, que os Ministros das Finanças europeus deviam dar as boas vindas ao Ministro grego, como alguém que diz sempre a verdade, nada além da verdade:

A honradez intelectual, a clareza de pensamento, sua erudição, são absolutamente raras, nos círculos europeus. Acho que quando aquela gente o vê pela primeira vez, ou o ouve falar, sentem alguma espécie de choque.

Galbraith lembra, como exemplo da honradez intelectual de Varoufakis, uma observação do amigo, segundo a qual dentre todos com quem estava negociando, Schäuble, o seu mais duro antagonista, “é o único que dá sinais de ter alguma substância intelectual”.

Muito diferente do que em Bruxelas, Galbraith encontrou em Atenas um ambiente exultante:

Há de três a seis meses, Atenas era absolutamente deprimente. Agora tudo mudou, o sentimento de orgulho está restaurado e o humor mudou completamente.

Varoufakis parece ser quem melhor simboliza esse novo otimismo:

Fomos a pé, do Ministério até o Parlamento. Que experiência! Pessoas nos carros abriam o vidro para estender-lhe a mão e cumprimentá-lo, os motoristas de ônibus paravam para saudá-lo. Por onde anda as crianças o cercam.

Varoufakis deteve-se no caminho, para falar atentamente, apoiando-a pelo cotovelo, com uma senhora que procurava emprego como varredora:“Varoufakis é estrela tão popular quanto o próprio Alexis Tsipras”.

Varoufakis conseguirá manter a Grécia no euro, mas ao preço de ceder no programa de crescimento que levou ao poder esse governo de esquerda? Para Galbraith,

É impossível. Varoufakis está montado em sua super motocicleta e é bom piloto. Aceitou o cargo porque o que mais quer é pôr suas ideias em prática.

Angela Merkel
Os Ministros europeus de Finanças nunca conheceram nada igual a Varoufakis. E Merkel terá de decidir se a melhor opção para ela é realmente aceitar compromissos com alguém tão radical e transgressor. Mas em todos os casos, está em jogo o futuro do euro.



[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).