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quarta-feira, 30 de julho de 2014

A semana inaugural da nova Guerra Fria

29/7/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama anuncia sanções à Rússia (29/7/2014)
Se historiadores futuros quiserem ver quando aconteceu de a era do pós-guerra fria converter-se em neo-Guerra Fria, bem farão se examinarem de perto a semana em curso. O governo Barack Obama está em astral triunfalista na sequência de alguns sucessos: afinal, conseguiu pôr ordem entre os principais aliados dos EUA na Europa – Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália – todos numa mesma estratégia concertada pra isolar a Rússia da Europa e impor sanções fortes contra a Rússia.

Obama poderia talvez ter feito discurso incendiário à moda da Cortina de Ferro essa semana – não pôde, por causa da Líbia, do Iraque, da Síria, do Afeganistão et allii, e por causa do horrendo massacre em Gaza que já conspurcou também a reputação dele; além do mais, não esqueçam, Obama é “Prêmio Nobe” e não pode ser visto por aí dando gritos de guerra.

Mesmo assim, a videoteleconferência de Obama com seus contrapartes europeus na 2ª-feira para mostrar o acordo “sobre medidas coordenadas de sanções contra a Rússia” sugere, além de qualquer dúvida, que está terminando o período pós-guerra-fria.

Nas próximas “12-48 horas” Bruxelas anunciará novas sanções contra Moscou baseadas no roteiro dos EUA envolvendo amplo pacote de medidas que visam a pôr de joelhos a economia russa. Washington, na sequência, anunciará suas próprias sanções contra a Rússia.

Essas chamadas Terceira Rodada de sanções estão previstas para atingir instituições financeiras russas, negócios de armas e de tecnologia de exploração de energia. Os bancos russos serão impedidos de operar com novos títulos russos ou substituí-los por outros equivalentes (ing. listing new bond or equity issues) em Bolsas Europeias, e serão banidos nas transferências de tecnologias sensíveis que possam ser usadas em perfuração em mar profundo, exploração no Ártico e extração de xisto betuminoso. O embargo deve incluir também a proibição de futuros negócios de armas com a Rússia.

Putin no Conselho de Segurança da Rússia (28/7/2014)
Moscou adivinhou o que viria e começou a organizar a defesa. 3ª-feira o presidente Vladimir Putin teve reunião do Conselho de Segurança da Rússia no Kremlin, o mais alto corpo para proposição de políticas externas e de segurança. Putin fez ali um importante discurso, para um grupo cuja agenda era, sem dúvida, discutir as opções estratégicas da Rússia no novo clima de Guerra Fria em todas as áreas de políticas nacionais – políticas domésticas, política exterior, política militar e, até, “guerra de informação”. 

Putin disse:

Nossas Forças Armadas continuam a ser a mais importante garantia de nossa soberania e da integridade territorial da Rússia. Reagiremos apropriadamente e proporcionalmente à abordagem pela infraestrutura militar da OTAN contra nossas fronteiras, e não deixaremos de perceber qualquer expansão dos sistemas de mísseis globais de defesa e aumentos nas reservas de armamento estratégico não nuclear de precisão (...). Estamos vendo claramente o que está acontecendo hoje: grupos de tropas da OTAN estão claramente sendo reforçados em estados da Europa Oriental, inclusive no Mar Negro e no Mar Báltico. E a escala e a intensidade do treinamento operacional e de combate estão aumentado. É imperativo implementar todas as medidas planejadas para reforçar a capacidade de defesa de nosso país, plenamente e conforme o cronograma. (Kremlin website [em tradução]).

Os eventos dessa semana simplesmente liquefizeram qualquer resíduo que ainda houvesse de possibilidade de acomodação entre Washington e Moscou. Assim também, o papel mediador da Europa – de França e Alemanha em particular – também se está esvaindo. A avaliação dos EUA é que eles estão numa situação de “ganha-ganha”, porque, como Dmiti Trenin, professor da Carnegie, observou essa semana,

Dmitri Trenin
Ainda que nenhum líder pró-ocidente venha a substituir Putin no Kremlin (...) a Rússia sucumbirá ante outro período de tumultos, tornando-se o maior problema para ela mesma e sem meios para criar problemas para Washington.

Trenin pintou um cenário em traços simplificados:

Já não se trata de lutar pela Ucrânia, mas de batalha pela Rússia. Se Vladimir Putin conseguir manter o povo russo ao seu lado, vencerá. Se não, vem por aí mais uma catástrofe geopolítica.

Claro que Trenin exagera. Para começar, a popularidade de Putin é mais que o dobro da de Obama. Os russos admiram Putin como patriota e líder firme; e os norte-americanos, cada dia mais, veem Obama como vacilante e incompetente, não importa a pose que faça.

Mas o verdadeiro perigo não está aí: está na evidência de que a comunidade internacional pode ter tido de pagar preço caro demais pelas tenebrosas transações em que Obama os está metendo, em cenário de uma nova Guerra Fria. Se o Irã, como já se viu, não foi destruído por sanções, o que leva Obama e seus colegas europeus a crer que país muitíssimo mais poderoso, como a Rússia, poderia ser destruído?

Será que a força somada de EUA e seus aliados europeus basta para “resetar” a ordem mundial e isolar a Rússia, a qual, por falar dela, também é voraz globalizadora (diferente, nisso, da União Soviética)?

Se a Europa não vai comprar petróleo russo e diversificará... o que acontecerá ao mercado de petróleo que serve também o resto do mundo? O que acontece à própria recuperação econômica da Europa, se o preço do petróleo subir à estratosfera?

É absolutamente óbvio que, se a Rússia vê a OTAN e seus sistemas de mísseis antibalísticos como desafio existencial, como admitirá, algum dia, a implantação de bases militares de EUA-OTAN no Afeganistão? E, mais uma vez: se a Rússia é país adversário, por que continuaria a cooperar com os EUA (e com o ocidente) no Irã, Síria ou Iraque?

BRICS - Os Presidentes (16/7/2014)
E onde tudo isso deixa os outros maiores países dos quintais não ocidentais do mundo – Índia, Brasil ou China? Será que o ocidente conta com que esses países pactuarão com o regime de Terceira Rodada de sanções contra a Rússia? E se não pactuarem?

Não, Sr. Trenin, o senhor errou. Não se trata absolutamente do regime russo. Trata-se, isso sim, da ordem mundial. O que está em jogo é o sistema de Bretton Woods e o desafio contra ele que Putin comanda – como se viu bem claramente na reunião dos BRICS em Fortaleza, Brasil.


O que estamos vendo é o contra-ataque de Obama numa guerra de guerrilhas – assustado, ele, ante o desafio que não para de crescer contra a supremacia do dólar norte-americano. O caso é que, sem liberdade total-total para imprimir notas de dólar, a economia dos EUA será fulminada.

O resto do mundo compreende perfeitamente do que trata essa neo-Guerra-Fria. Nem os europeus são perfeitos idiotas; eles também compreendem o que se passa – a forte resistência que manifestaram contra o desejo dos EUA de isolar a Rússia, e que tirou o sono de Obama durante várias semanas e meses, é prova disso.

Com certeza absoluta, não há ideologia, dessa vez. Não é guerra contra o socialismo ou contra o terrorismo, nem é guerra intrinsecamente pela Ucrânia ou pela Rússia. Em termos simples, a nova Guerra Fria é sobre a perpetuação da dominação pelos EUA em mundo global.

Sem o sistema de Bretton Woods, sem a OTAN, sem superioridade nuclear sobre a Rússia, os EUA já anteveem a possibilidade real de, com o tempo, se irem tornando potência muito reduzida. Sem a liderança trans-Atlântica, os EUA ficam reduzidos ao que foram antes da Iª Guerra Mundial, há cem anos: uma potência regional, com influência só no Hemisfério Ocidental.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

“Mobile User Objective System” (MUOS): Dominação transatlântica

8/2/2014, Antonio Mazzeo (blog), Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ler também: 
29/10/2013, Manlio Dinucci, Il Manifesto: “Na Itália a comunicação é estratégica

Comentário do Zeca Bala na Vila Vudu: O Mobile User Objective System (MUOS) [Sistema que dirigido a usuários de telefones celulares (usuários móveis)] é um conjunto de satélites geossincronizados que está sendo desenvolvido para o Departamento de Defesa dos EUA para oferecer conectividade de banda curta para comunicações, para pacotes de dados de até 384 kilobits por segundo (kbps). O uso do sistema por aliados está sendo analisado. O programa empregará cinco satélites, quatro estações em terra e uma rede de transporte terrestre, ao custo de US$7,3 bilhões.


Sistema MUOS (clique na imagem para aumentar)
Por sua importância estratégica e arquitetura de operação, o MUOS será utilizado pelos EUA em todos os conflitos, inclusive os que não atendam ao art. 11 da Constituição italiana, que estabelece como princípios fundamentais a busca da paz e a rejeição da guerra. O projeto avança, protegido pelo silêncio da indústria-comércio das “cumunicações” e dos veículos de jornalismo, sob o nariz de países que, como a Itália [e o Brasil, dentre outros] ignoram os objetivos do programa e as ameaças que vêm com ele. Isso significa “soberania controlada”.

Mandar ordens para atacar unidades militares onde estejam, na África , Ásia, Europa ou Oceania. Supervisionar as operações dos drones assassinos e mísseis Cruiser, dos primeiros submarinos e mísseis intercontinentais de ataque.

É ferramenta para consolidar a dominação pelos EUA no mundo e no espaço, e para acelerar a transição para uma gestão totalmente automatizada das guerras e conflitos do século 21. Já não há qualquer limite legal ou moral: a guerra está “autorizada” a ser global e permanente, convencional, química, biológica, nuclear. Até o holocausto final.

Para isso servirá o MUOS, o novo sistema de satélites de telecomunicações para uso dos militares dos EUA. Cinco satélites geoestacionários no espaço e quatro terminais terrestres. E um deles será construído na Sicília, no município de Niscemi , no coração da reserva natural protegida por leis italianas e europeias.

Agatino Cariola
É um sistema de armas de destruição em massa, de propriedade e de uso exclusivos de Washington, o qual, contudo, atrela a Itália, definitivamente, às políticas de guerra dos EUA. Mas o MUOS viola valores fundamentais da Constituição italiana.

Dada sua importância estratégica e em função de sua arquitetura, o MUOS será utilizado pelos EUA em todos os conflitos, inclusive nos que transgridam o art. 11 da Constituição italiana, que estabelece os princípios fundamentais da paz e da rejeição da guerra – disse o professor Agatino Cariola, Professor de Direito Constitucional da Universidade de Catania, em recente seminário sobre MUOS e bases dos EUA e da OTAN na Itália, organizado pelo Departamento de Ciências Políticas e Sociais da Universidade da Sicília.

Para o advogado Sebastian Papandrea, da Coordenação Siciliana dos Comitês “Não ao MUOS”, é ilícito o acordo entre as autoridades italianas e os EUA que permitiram a instalação de componentes do MUOS no território italiano, porque desrespeita o que é determinado pela Constituição Italiana.


O MUOS é questão de importância política crucial, e não há dúvidas de que não poderia ter sido decidido por meros acordos técnicos – disse o advogado.

Nos termos da Constituição, o governo deveria ter exigido que o acordo fosse analisado no Parlamento e, se aprovado, ainda teria de ser ratificado pelo Presidente da República. Em vez disso, o governo italiano adotou um procedimento simplificado, com um protocolo assinado apenas pelo representante do Ministério da Defesa, não ratificado pelo Chefe de Estado, nem aprovado por ambas as Casas.

Todas as decisões sobre o novo sistema de armas foram tomadas por instituições secundárias e/ou periféricas das forças armadas italianas.

Na Austrália, outro país que também teria de admitir a construção em seu território de um terminal do MUOS, o procedimento foi diferente. O programa obteve voto favorável do Parlamento em novembro de 2007; e o governo firmou um acordo bilateral com os Estados Unidos, para regular a instalação de sistemas de satélite dentro da Estação de Comunicações por Satélites da Defesa da Austrália em Kojarena.

Símbolos do Movimento No MUOS na Itália
Mas na Itália, no mesmo período, o projeto militar do governo dos EUA prosperou em segredo, sem qualquer atenção à oposição de deputados e senadores que procuram esclarecimentos para conhecer a verdade sobre o projeto MUOS.

Regras de Washington em Niscemi

Como foi salientado pelos sicilianos que defendem a Constituição e denunciaram a ilegalidade dos MUOS, a base de negociação é a mesma que aprovou a concessão da base de Niscemi para os Estados Unidos.

A estação de rádio-transmissão Naval da Marinha dos EUA em Niscemi foi construída há vinte anos, sem a necessária aprovação pelo Parlamento, contrariando frontalmente o que exigem os artigos 11 , 80 e 87 da Constituição. O artigo 80, em particular, que trata dos acordos internacionais, é derivado do artigo 5º do Estatuto Albertine, que determina que caberá ao governo liderado pelo rei ratificar tratados internacionais. Nossa Assembléia Constituinte alterou o antigo sistema, e estabeleceu a necessidade de ratificação em co-adesão pelo Parlamento– disse o professor Agatino Cariola.

Vista parcial das instalações em Niscemi, It.
Segundo o mesmo jurista siciliano, o art. 80 da Constituição produziu uma transformação completa de sentido sobre o assunto:

A política internacional não é mais reservada ao governo; está agora sujeita à aprovação do Parlamento e, portanto, ao corpo eleito.

O processo que culminou com os acordos secretos entre Itália e EUA em 1954, graças ao qual se tem explicado a existência hoje da estação de Rádio-transmissão Naval da Marinha dos EUA em Niscemi é inconstitucional. Isso porque, desde 1948, a Constituição já exige a participação do Parlamento nas escolhas de política externa – diz Cariola.

A base de Niscemi é infraestrutura para o uso exclusivo dos militares dos EUA, sobre a qual a Itália não exerce qualquer direito de soberania ou de controle por autoridades italianas. Isso, porque a concessão segue o Acordo Técnico entre o Ministério da Defesa italiano e o Departamento de Defesa dos EUA sobre instalações para as forças norte-americanas no Sigonella , assinado em Roma, dia 6/4/2006 pelo almirante N. G. Preston , comandante da Marinha os EUA para a região europeia, e pelo general do Exército Italiano, Mario Marioli. O acordo expressamente autoriza o:  

(...) uso exclusivo (a utilização de toda a infraestrutura instalada) pelas forças armadas de um único país (os EUA), para atividades relacionadas à missão e/ou a funções atribuídas a essa força pelo Estado que a enviou.

Vista parcial, mas mais aproximada das instalações de Niscemi,It 
Em outubro passado, a Coordenação Siciliana dos Comitês “Não ao MUOS” divulgou para conhecimento dos italianos, sindicatos e políticos, a necessidade absoluta, em termos legais, de o Parlamento italiano finalmente abordar a questão dos acordos que regem o uso da infraestrutura comandada por EUA e OTAN na Itália. E passou a exigir que o Parlamento italiano se manifeste sobre as licenças para instalação de unidades do sistema MUOS na reserva natural de Niscemi.

Durante encontro intitulado “MUOS: ponte de paz entre a Sicília e posto militar” realizado em Roma, dia 23/10/2013 pelo Intergrupo Parlamentar para a Paz e a cooperação de ARCI (Associazione Ricreativa e Culturale Italiana), LegambienteCOBAS (Confederazione dei Comitati di Base), Associação Anti-Máfia Rita Atria, “Rede de Desarmamento” e outras, os Comitês Não MUOS apresentaram o texto de uma possível proposta de moção parlamentar contra o novo sistema de comunicação por satélite.

Com a proposta apresentada por alguns advogados na Sicília, apelou-se ao Parlamento, para recuperar sua prerrogativa. O governo deve opinar para anular ou, não sendo isso possível já, para suspender os tratados internacionais que não se ajustem ao que a Constituição determina, no seu artigo 80, sobre a construção de instalações do sistema MUOS de transmissão. Em relação a estes acordos, quem tem de decidir é o Parlamento, de acordo com os princípios e valores da Constituição, disse o advogado Sebastian Papandrea
Giulio Marcon

O Intergrupo Parlamentar pela Paz reúne 68 senadores e deputados. Giulio Marcon, deputado independente, assumiu o compromisso de colocar na agenda de futuras reuniões do Intergrupo as questões referentes ao sistema MUOS e a outros programas militares que estão investindo pesadamente na Sicília, dentre as quais a Operação “Mare Nostrum” (que visa a transformar a instalação aeronaval anti-imigração de  Sigonella em base de drones assassinos das forças armadas dos EUA e da OTAN).






sábado, 6 de julho de 2013

Snowden, Evo Morales e adeus às ilusões

O presidente Evo Morales desembarcou na Áustria cercado pela polícia

Publicado em 04/07/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - Os últimos acontecimentos na política internacional trazem uma luz didática para todas as pessoas que acreditam na liberdade e democracia do capitalismo. O mundo do capital, mais conhecido em propaganda e livros didáticos como o sistema de “livre mercado”, recebeu nestes dias uma clareza de desmonte.

Para situar os fatos nos últimos 30 dias, primeiro Edward Snowden, um ex-técnico da CIA, revelou para todo o planeta que o governo dos Estados Unidos espiona a vida íntima, pessoal de cidadãos não só no território norte-americano.

Se ficasse somente entre os governados por Obama, a espionagem já seria um escândalo, uma prova hard e real do imaginado pelo escritor George Orwell, quando profetizou a existência do Big Brother. Mas o revelado pelo funcionário da CIA foi mais longe.

Diplomatas e governos da União Europeia são também espionados.

E mais: todos somos rastreados nos telefones celulares e nas informações da internet que passem pelo Google, Apple e o Facebook.

E-mails, fotos e outros arquivos dos usuários em todo o mundo são aprisionados. O que é uma realização dos evangelhos: nada escapa aos olhos de Deus.

Depois veio o que nos atinge mais direto na carne.

Presidente Evo Morales foi recebido com festa em Cochabamba
Evo Morales, soberano presidente da soberana Bolívia, depois de uma visita a Moscou, foi proibido de passar pelo espaço aéreo de Portugal, França, Espanha e Itália. Isso porque havia a suspeita de que o avião presidencial transportasse, também, Edward Snowden.

Notem até onde vai o adeus às ilusões de liberdade, democracia e respeito à soberania dos povos.

As nações europeias, elas próprias espionadas, obedeceram à ordem da segurança do governo de Obama. Por hipótese ou suspeita, um chefe de Estado foi impedido de sobrevoar espaço aéreo de país amigo, sem qualquer declaração de guerra.

O espaço era livre, pensava Evo Morales ao sair de Moscou. Mas ficou provado que o céu não é do condor. É dos Estados Unidos.

Chris Sabatini
"USA Sparring"
Mas para o diretor de Políticas do Conselho das Américas – uma organização empresarial que produz análises e estudos sobre a América Latina – Christopher Sabatini, a questão é bem mais simples.


Parceria é uma via de duas mãos. Para um país ser tratado com respeito, precisa respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro.

Entendem? Para Christopher Lee, digo, Sabatini, o presidente Evo Morales foi desrespeitado porque não teria respeitado a segurança dos Estados Unidos. Notem que a frase “respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro" não tem o mesmo significado para todos os países do mundo. Pois o analista quer dizer: a segurança nacional do outro é sempre a segurança dos Estados Unidos.

Ou seja, no caso da Bolívia, o presidente Evo Morales pôde sofrer riscos à própria vida, mas não estava no uso da segurança nacional. Com pouco combustível no avião, passou pelo sufoco de um bloqueio do espaço aéreo no céu e por constrangimentos que são insuportáveis até mesmo para passageiros comuns. Ele teve que pousar em Viena, onde ficou 14 horas, até que sua rota fosse enfim autorizada. E depois, reabasteceu o avião no Brasil, na bela cidade de Fortaleza.

A nota oficial da presidenta Dilma foi a mais dura dos países sul-americanos:  
... O noticiado pretexto dessa atitude inaceitável - a suposta presença de Edward Snowden no avião do Presidente - além de fantasiosa, é grave desrespeito ao Direito e às práticas internacionais e às normas civilizadas de convivência entre as nações. Acarretou, o que é mais grave, risco de vida para o dirigente boliviano e seus colaboradores.

Causa surpresa e espanto que a postura de certos governos europeus tenha sido adotada ao mesmo momento em que alguns desses mesmos governos denunciavam a espionagem de seus funcionários por parte dos Estados Unidos, chegando a afirmar que essas ações comprometiam um futuro acordo comercial entre este país e a União Europeia.

De passagem, vale destacar que o tempo da reação de nossa presidenta contra a agressão a Evo Morales, a demora do governo brasileiro em responder, não foi o que desejam os críticos mais sectários à esquerda, que são ótimos governantes em palavras e desejos. Mas para o colunista, importantes são a natureza da declaração e o peso que a economia mais poderosa da América Latina joga contra esse insulto a uma nação irmã.

E do meu canto concluo: importa mais a retirada da máscara de um mundo livre sob os Estados Unidos. Nestes últimos 30 dias, ficou demonstrado que o céu não é do condor.
_________________________

Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 12 de março de 2013

Pepe Escobar: “A queda da Casa de Europa”


11/3/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online -  The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Enchanters came / Cold and old,
Making day gray / And the age of gold
Passed away, / For men fell
Under their spell, / Were doomed to gloom.
Joy fled, / There came instead,
Grief, unbelief, / Lies, sighs,
Lust, mistrust, / Guile, bile,
Hearts grew unkind, / Minds blind,
Glum and numb, / Without hope or scope.
There was hate between states,
A life of strife, / Gaols and wails,
Dont's, wont's, / Chants, shants,
No face with grace, / None glad, all sad.

W H Auden, “The Golden Age”
[Thank You, Fog, NY: Faber and Faber, 1974]


Pepe Escobar
Não se tem, infelizmente, versão pós-moderna de Dante guiado por Virgílio para contar a um mundo perplexo o que está realmente acontecendo na Europa, passada a recente eleição geral na Itália.

Na superfície, os italianos votaram um retumbante “não” – contra a austeridade (imposta à moda alemã); contra mais impostos; contra cortes no orçamento, desenhados, em teoria, para salvar o euro.
Nas palavras do prefeito de Florença, de centro-esquerda, Matteo Renzi, “Nossos cidadãos falaram alto e claro, mas talvez ainda não tenhamos entendido completamente sua mensagem”. De fato, não é difícil entender. 

Há quatro principais personagens nessa peça moral/existencial digna da mais ensandecida tradição da commedia dell’arte.

O vencedor pírrico é Pier Luigi Bersani, líder da coalizão de centro-esquerda; mas não consegue formar governo. O perdedor indiscutível é o tecnocrata e ex-serviçal de Goldman Sachs, primeiro-ministro Mario Monti.

E há também os reais vencedores: “dois palhaços” – pelo menos de um ponto de vista alemão e da City de Londres, via The Economist. Os “palhaços” são o movimento comandado pelo comediante Beppe Grillo, “Movimento 5 Estrelas”, e o notório bilionário e ex-primeiro ministro Silvio “Bunga Bunga” Berlusconi.

Para tumultuar ainda mais as coisas, Berlusconi foi condenado a um ano de prisão, na 5ª-feira passada, numa corte de Milão, em processo que inclui escândalo de gravações clandestinas. Haverá apelação; e, como já aconteceu antes, noutra condenação, ele outra vez se safará. O mantra de Berlusconi não muda: “sou perseguido pelo judiciário italiano”.

Há mais, muito mais. Esses quatro personagens – Bersani, Monti, Grillo, Berlusconi – estão, de fato, no coração de imensa, imensíssima tragédia shakespeareana: o fracasso político da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), que, traduzido, implica que a política da União Europeia está sendo espatifada.

É o que acontece quando o projeto da União Europeia não tem, nem jamais teve, coisa alguma a ver com “união” política – e sempre só teve a ver com inventar o Euro como moeda comum europeia. Não surpreende que, nessas circunstâncias, o mais importante mecanismo da unificação da Europa seja o Banco Central Europeu. Mas abandonem qualquer esperança de ver políticos europeus falando a seus esfarrapados cidadãos sobre alguma real união europeia. Será que alguém ainda quer união? E sob que formato?

Eis o Absurdistão

Marco Cattaneo
Por que as coisas aconteceram na Itália do jeito que aconteceram? Não encontrei melhor explicação que a de Marco Cattaneo, em artigo em que ele tenta entender o “Absurdistão”.

Tudo começou com uma lei eleitoral que até na Itália foi definida como ulna porcata [grande porcaria], validando um sistema “des-proporcional” (cientistas políticos, anotem!) que só poderia levar a situação absolutamente ingovernável.

Na excelente leitura de Cattaneo, a coalizão “Um por Todos, Todos por Um” (de Bersani), obteve 31,6% dos votos. A coalizão “Cada um por Si” (de Berlusconi) obteve 30,7%. E os novíssimos “1 = 1, o Resto = Zero” (de Grillo) obtiveram surpreendentes 23,8%.

Mesmo assim, desafiando qualquer lógica, no final “Cada um por Si” ficou com 116 assentos; “Um por Todos, Todos por Um”, com 113 assentos; e os “1 = 1, o Resto = Zero” ficaram só com 54 assentos – menos que a metade.

Nas ruas, de Nápoles a Turim e de Roma a Palermo, há outra explicação. Nada menos que 45% dos italianos, de aposentados que vivem com 1.000 euros [US$1,300] até banqueiros que fazem 10 milhões/ano, não querem mudança nenhuma. Outros 45% – os desempregados e os subempregados – querem mudança radical. E 10% não ligam – e jamais ligaram. Misture e acrescente tudo isso à lasagna da ingovernabilidade.

E extraia de lá uma colherzinha de sabedoria de cappuccino-no-balcão. Em breve, as finanças do Absurdistão estarão em estado tão lastimável quanto as finanças do Helenistão – terra vizinha, dos descendentes de Platão e Aristóteles. Quando acontecer, então, o Absurdistão será usado como modelo para a Europa e para o mundo: onde 1% da população controla 99% da riqueza nacional. De Lorenzo de Medici a Berlusconi; caso claro de Ascensão e Queda.

Bunga Bunga me, baby

"Bunga-Bunga" Berlusconi

Processado e julgado até o osso (inclusive com uma condenação por fraude fiscal em outubro de 2012; mas safou-se); beneficiário de leis espúrias explicitamente escritas e aprovadas para protegê-lo e seu gigantesco império empresarial: eis a saga Bunga Bunga rabelaisiana. Até agora, derrotou todos. Silvio Berlusconi talvez seja o último comeback kid  [1]. Como conseguiu safar-se da cadeia, dessa vez?

É fácil, se você mistura voltagem bilionária de mídia (e controle pelas corporações) com promessas grotescas – como retalhar um muito detestado imposto sobre a propriedade. Como fazer, com a arrecadação que encolheria? Simples: Silvio prometeu novos impostos sobre o jogo, e negócio obscuro para recuperar alguns dos fundos que italianos mantêm em bancos suíços.

Faz alguma diferença que a Suíça já tenha dito bem claramente que seriam necessários muitos anos, até o esquema funcionar? Claro que não. Até a vasta oposição a Silvio teve de reconhecer que a ideia era “golpe de gênio”. Cerca de 25% dos italianos votaram no partido de Silvio. Quase 1/3 apoiou sua coalizão de direita. Na Lombardia – conhecida informalmente como o Texas da Itália – a coalizão reduziu o centro-esquerda a cacos. A Toscana, por sua vez, votou como tradicionalmente com a esquerda; e Roma, por essência, oscila.

Os eleitores de Silvio são, quase todos, pequenos e médios comerciantes; o norte da Itália comanda a economia. Odeiam impostos; vão de legiões de sonegadores aos asfixiados pela carga fiscal. Obviamente, dificilmente se preocupariam menos com o déficit orçamentário de Roma. E todos desejam que a chanceler alemã, Angela Merkel, apodreça no nono círculo do inferno de Dante.

Frau Merkel, por sua vez, acalenta a ideia de que cruzará tranquilamente as águas da Eurozona rumo ao seu terceiro mandato, nas eleições de setembro próximo. Praticamente impossível – graças aos eleitores de Silvio e Beppe Grillo. Pode-se dizer que a um abismo entre norte e sul na Europa. A cúpula da União Europeia, nesse mês de março, será – literalmente, um quebra-quebra.

Aqueles sexy palhaços-políticos

A União Europeia vive o apocalipse. O Le Monde insiste que a Europa não agoniza. Ah, está. Está em coma.

Jeroen Dijsselbloem
E nem assim Bruxelas (aquela Comissão Europeia infestada de burocratas) e Berlin (o governo alemão) sequer cogitam de algum Plano B: é austeridade ou que-se-explodam. Previsivelmente, o Ministro alemão das Finanças, Jeroen Dijsselbloem – novo cabeça da espetacularmente opaca, não transparente, comissão que comanda o Euro – disse que o que Monti fazia (e foi furiosamente rejeitado pelos italianos) é “crucialmente necessário para toda a Eurozona”.

Em 2012, a economia italiana encolheu 2,2%, mais de 100 mil pequenos negócios fecharam as portas (e, sim, todos votaram em Silvio) e o desemprego já passou de 10% (na realidade, já passou de 15%). A Itália talvez tenha a mais alta dívida nacional de toda a Eurozona, depois da Grécia. Mas aqui o Absurdistão manifesta-se outra vez, via a austeridade: o déficit fiscal da Itália é muito inferior ao da França e ao da Holanda.

Estourem o champagne: a França está em decadência vertical. Não se trata só de declínio da indústria, mas também da perene recessão, da turbulência social e de uma dívida pública que ultrapassa 90% do PIB. A França, a segunda maior economia da Eurozona, pediu mais um ano à Comissão Europeia para baixar seu déficit para menos de 3% do PIB. Jens Weidman, Presidente do Bundesbank, rugiu que “Esqueçam”.

Portugal também está pedindo água à troika. A economia portuguesa encolheu (cerca de 2%) pelo terceiro ano consecutivo, com desemprego acima de 17%.

A Espanha vive sob horrenda recessão, além de enfrentar crise monstro da dívida. O PIB caiu 0,7% em 2012 e, segundo o Citibank, cairá mais 2,2% em 2013. O desemprego alcança inacreditáveis 26%, com mais de 50% dos jovens, desempregados. Nem todos acertam a loteria, jogando no Barcelona ou no Real Madrid. A Irlanda tem o maior déficit da Eurozona, 8%, e acaba de reestruturar a dívida de seus bancos.

A Grécia está no quinto ano consecutivo de recessão, com desemprego acima de 30%  – e, isso, depois de dois pacotes de austeridade. Atenas corre em círculos, tentando escapar dos credores, ao mesmo tempo em que tenta aliviar alguns dos cortes draconianos. Os gregos já não têm dúvidas: a situação é pior que a da Argentina em 2001. E lembrem: a Argentina deu calote nos bancos.

Até a Holanda enfrenta grave crise bancária. E, como se não bastasse, David Cameron pôs em torvelinho o futuro da Grã-Bretanha.

Assim sendo, é, mais uma vez, a vez de Silvio – e quem mais poderia ser? – de temperar o cozidão. Só o Cavaliere seria capaz de dizer que o famoso spread – a diferença entre o quanto Itália e Alemanha pagam para tomar empréstimos nos mercados de ações – foi “inventado” em 2011 por Berlin (o governo alemão) e Frankfurt (o Banco Central Europeu), para conseguir livrar-se Dele, de Silvio, e “eleger” o tecnocrata Monti.

A imprensa-empresa alemã, também previsivelmente, não quer saber de prisioneiros vivos. A Itália e os italianos são diariamente ridicularizados como “infantiloides”, “ingovernáveis”, “gravíssimo risco para a Eurozona”. (Por exemplo, ver Der Spiegel).

O tabloide Bild, ultrapopular, inventou até nova pizza: não “Quatro Estações” [Quattro Stagioni], mas “Quatro Estagnações” [Quattro Stagnazioni].

O veredicto é uma Itália “nas mãos de palhaços-políticos que podem destruir o euro ou forçar o país a sair”. Até o liberal-progressista Der Tagesspiegel em Berlim define a Itália como “um perigo para a Europa”.

Peer Steinbruck
Peer Steinbruck, ex-Ministro alemão das Finanças e candidato social-democrata contra Merkel em setembro próximo, resumiu: “Em certa medida, estou aterrorizado, agora que dois palhaços venceram as eleições”.

Assim sendo, seja qual for o governo que surja na Itália, a mensagem de Bruxelas, Berlin e Frankfurt é sempre a mesma: se não cortarem, cortarem, cortarem, ficarão por sua própria conta.

A Alemanha, essa, só tem um Plano A. Chama-se “Esqueçam o Club Med”. Significa integração mais íntima com a Europa Oriental (e ali, um pouco depois, na mesma estrada, a Turquia). Um acordo de livre comércio com os EUA. E mais negócios com a Rússia – a chave é a energia – e com os BRICS em geral. Digam o que digam os jornais, fato é que os think-tanks alemães já estão trabalhando com uma Eurozona de duas pistas.

O povo quer alívio monetário / The people want quantitative easing

O filme, de título muito adequado, Girlfriend in a Coma [Namorada em Coma], (ver trailer abaixo) dirigido por Annalisa Piras e escrito em co-autoria com Bill Emmett, ex-editor de The Economist, tentou dar conta, com algum sentido, dos vícios e virtudes da Itália.


E mesmo assim, não só via Prada ou Maserati, presunto de Parma ou vinhos Brunello, a Itália continua a ter lampejos de brilho: o melhor aplicativo do mundo – Atom, que permite personalizar as funções de um telefone celular, sem que você tenha de entender de alta programação de computadores – foi criado por quatro jovens de 20 e poucos anos, em Roma, como La Repubblica noticiou.

O filósofo Franco Berardi – que nos anos 1970s participou do movimento italiano dos autonomistas – avalia corretamente que o que a Europa vive hoje é consequência direta dos anos 1990s, quando o capital financeiro sequestrou o modelo europeu e o engessou sob o neoliberalismo.

Subsequentemente, pode-se argumentar, consistentemente, que os Mestres do Universo financeiro usaram o período pós-crise financeira de 2008 para superturbinar a desintegração da União Europeia via um tsunami de cortes nos salários, precarização dos empregos para os mais jovens, achatamento das aposentadorias e privatização hardcore de tudo. Não surpreende que cerca de 75% dos italianos tenham dito “não” a Monti e Merkel.

O resumo da ópera é que os europeus – dos países do Club Med a algumas economias do norte – tenham-se cansado de ter de pagar as dívidas acumuladas pelo sistema financeiro.

Beppe Grillo
O movimento de Grillo per se – apesar de seus 8,7 milhões de votos – não consegue, obviamente, governar a Itália. Algumas de suas (vagas) ideias têm enorme apelo entre as novas gerações, sobretudo no que tenham a ver com calote unilateral na dívida pública (vejam os exemplos de Argentina, Islândia e Rússia), a estatização dos bancos e uma renda “de cidadania” para todos, de 1.000 euros por mês. Daí em diante, haveria referendo e mais referendo, sobre acordos de livre comércio, participação na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, claro, permanecer ou não na Eurozona.

O que o movimento de Grillo já fez é mostrar o quanto a Europa é ingovernável sob o mantra de Monti-Merkel, da austeridade. Agora, a bola está no campo da elite financeira europeia. Muitos não se incomodariam de deixar que a Itália converta-se numa nova Grécia.

Assim, voltamos ao início. A única saída é uma reformulação política da União Europeia. No pé em que estão as coisas, a Europa assiste, impotente, a morte do estado de bem-estar, sacrificado no altar da Recessão. Assim a Europa vai rumando para a irrelevância global – apesar do Real Madrid e do Bayern de Munique.

Edgar Allan Poe
A Queda da Casa de Europa pode vir a ser história de horror, além de qualquer coisa imaginada por Poe [2] – com elementos (já visíveis) de fascismo, exploração neo-Dickensiana de trabalhadores e guerra social, civil, ampla. Nesse contexto, a lenta reconstrução de uma Europa com base social pode tornar-se sonho movido a ópio.

O que Dante faria dessa matéria bruta? Roberto Benigni, nascido na Toscana, está atualmente lendo e comentando em profundidade os cantos XI até XXII – do Inferno de Dante, ponto alto da Divina Comédia. Assisti, boquiaberto, pela televisão, RAI – a praça em frente à fabulosa igreja Santa Croce em Florença, absolutamente lotada – à perfeição cósmica das palavras do Maestro que dão sentido a tudo isso.

Se, pelo menos, seu espírito iluminasse esses vendilhões do Inferno, de Monti a Merkel, de Silvio aos banqueiros da Europa Central – e alinhassem o Homem outra vez às estrelas e mostrasse o caminho a essa Europa atormentada.



Notas dos tradutores

[1] Sobre a expressão comeback kid, que designa, na gíria dos EUA, no registro pejorativo:
(a) alunos que adiam a formatura na escola secundária, para continuar a comer de graça na escola;
(b) quem se muda da casa dos pais, mas continua a voltar diariamente para comer e lavar a roupa,

[2] Referência ao magistral conto de Edgar Allan Poe, A queda da casa de Usher. O conto pode ser lido em português.