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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Guerra geofinanceira cria novos fatos geopolíticos em campo

O não sabido não sabido

24/2/2015, Comentário Semanal, [*] Conflicts Forum 26/12-2/1/2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“Morte da ordem mundial de Bretton Woods (...) e começo do fim do papel dos EUA como eixo central da economia global”
(Bloomberg)



Barack Obama em 29/12/2014
Numa entrevista à NPR dia 29/12/2014, o presidente Obama disse da Rússia que:

(...) a economia deles já está contraindo e o capital já estava fugindo de lá mesmo antes do colapso do petróleo. Parte do nosso pensamento nesse processo foi que a única coisa que ainda mantinha a economia deles à tona era o preço do petróleo, disse o presidente Obama (itálicos nossos).

E Obama continuou:

Entendemos que, se fôssemos firmes na aplicação das sanções, como fomos, com o tempo as sanções tornariam a economia russa suficientemente vulnerável, a ponto de que, se houvesse dificuldades com o preço do petróleo (...) eles teriam enorme dificuldade para lidar com isso (...). Numa questão como a Ucrânia, temos de ser firmes contra os russos [como temos sido] ultimamente, a grande vantagem que nós temos sobre a Rússia é que temos uma economia dinâmica, vital, e eles não têm. Eles dependem de petróleo; nós dependemos de petróleo, iPads e filmes, e muito mais, a lista é longa.

Assim o próprio presidente mostrou as fundações que mantêm unido o arco da política externa dos EUA: é a guerra geofinanceira de vida ou morte contra a Rússia, que está definindo geoestrategicamente a política, particularmente para a Europa e o Oriente Médio. Muito depende do resultado dessa política – e de se esse “nosso pensamento” faz algum sentido ou se foi absolutamente mal construído.

Se está correta a análise na qual repousa essa política (a diversidade e a solidez da economia ocidental versus a pressuposta maior vulnerabilidade da Rússia a uma queda nos preços da energia), a economia russa enfraquecerá ou implodirá, mas, muito mais importante, a Rússia como visão de uma ordem global diferente e como desafiante potencial terá sofrido golpe possivelmente fatal – e aliados da Rússia (como Irã e Síria) terão sido enfraquecidos.

Mas, por outro lado, se o governo dos EUA errou no cálculo das próprias fragilidades – e das fragilidades da União Europeia – ao impacto de uma guerra dos preços do petróleo numa exposição do sistema financeiro ocidental, da ordem de (como se suspeita hoje) US$ 40 trilhões (dos quais se avalia que US$ 4 trilhões seriam dívidas derivadas especificamente dos negócios de energia assumidas pela meia dúzia de maiores bancos com sede nos EUA) – e que se crê que sejam apostas feitas na direção absolutamente contrária do que hoje se vê nos atuais preços do cru – nesse caso as consequências adversas, e que podem ser realmente devastadoras, podem operar na direção oposta à que os EUA calcularam, e para grave prejuízo do Ocidente. Em resumo, estamos envoltos nas incógnitas de uma aposta descomunal, que afetará todos nós.

Não temos intenção de discutir aqui as vulnerabilidades financeiras respectivas. Só queremos registrar que as forças e as fragilidades econômicas não são, nem estão, nem de longe, assim tão claramente demarcadas como o presidente Obama sugeriu – absolutamente não. O que interessa anotar aqui é que todo o sistema geopolítico já está em transformação, enquanto se desdobra aquele grande conflito geofinanceiro.


A base do sistema de Bretton Woods (o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, sobre os quais só os EUA e os EUA sozinhos têm poder de veto) já foi eclipsada. O FMI, vale a pena lembrar, deve atuar como emprestador de último recurso a países com problemas financeiros. Foi concebido para ser a ferramenta para disciplinamento e castigo dos imprudentes – e dos recalcitrantes. E o Banco Mundial e o Banco de Desenvolvimento da Ásia [orig. Asian Development Bank (ADB)] efetivamente dão a Wall Street (via o governo dos EUA) alavanca de tremendo poder, com a qual definir o modelo de desenvolvimento (mercado liberal) que se vê implantado pelo mundo.

Essas três instituições, mais o status de reserva exigido e aceito para a moeda dos EUA em Bretton Woods, têm sido as ferramentas com as quais os EUA mantiveram seu controle sobre a ordem global. A ferramenta mais nova, assiduamente polida e repolida pelo Tesouro dos EUA, tem sido alegação de que qualquer e todas as transações denominadas em dólar norte-americano, não importa onde ocorra, está sob jurisdição dos EUA e, portanto, está sujeita à lei doméstica norte-americana e aos castigos ali previstos.

Na semana de meados de dezembro (dias 15 e 16/12/2014), viu-se o rublo cair mais de 10% em cada um desses dias, o que disparou parágrafos infindáveis em todo o “comentariato” ocidental, de que a Rússia estaria implodindo, e que a implosão rapidamente arrancaria Putin do poder, dois eventos saudados com insopitável alegria no ocidente. Até que se viu que o desenvolvimento real – altamente significativo, além de tectônico – era bem outro.

No passado, qualquer ataque à moeda, como aconteceu contra a libra esterlina em 1992, sempre acabou em visita humilhante ao FMI, de chapéu na mão (depois de todas as reservas em moedas estrangeiras já terem sido exauridas).

Queda do rublo (até 16/12/2014)
Agora, diferente daquilo, o rublo estabilizou-se em pouco menos de 60:US$1, depois de ter chegado perto dos 80. Um ministro de relações exteriores da China disse mais tarde, na mesma semana, que seu governo preocupou-se com o que viam acontecer com as moedas de Mercados Emergentes, e assustou-se ante o colapso do rublo. Confirmou que a China havia “ajudado nossa amiga Rússia”:“Se o lado russo precisa, temos de garantir todo o apoio que pudermos” – disse o ministro chinês. Antes, outros funcionários chineses já haviam proposto à Rússia implementar acordos de swap já negociados pelos dois estados, mas parece que a China, sempre mão-aberta, já intervira para estabilizar o rublo.

Em resumo: a China, não o FMI, operou como emprestador de último recurso. Fez as funções do FMI, mas ser os “cordões” que ligam o fantoche FMI a operadores norte-americanos.

Numa coluna em Bloomberg, lia-se, redigido em tom de tédio, como se a notícia fosse rotina:

Graças à China, Christine Lagarde do FMI, Jim Yong Kim do Banco Mundial e Takehiko Nakao do Banco de Desenvolvimento da Ásia podem ficar sem o importante emprego que têm hoje. O movimento de Pequim para resgatar  a Rússia, depois da recente ajuda chinesa também à Venezuela e à Argentina, assinala a morte do mundo do Bretton Woods do pós-guerra. Marca também o início do fim do papel dos EUA como eixo da economia global, e o fim da influência do Japão na Ásia. E o que é o novo Banco Asiático de Infraestrutura da China além de puro veneno para matar o Banco de Desenvolvimento da Ásia?

E o que é – pode-se acrescentar – o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS [orig.BRICS’ New Development Bank (NDB)], se não uma ponte para contornar as doutrinas neoliberais do Banco Mundial para os Mercados Emergentes?

Tenha ou não a “corrida” contra o rublo sido “inspirada” num daqueles almoços informais que o Tesouro oferece em New York para insiders de Wall Street (como acreditam alguns), ou mesmo que tenha sido “aposta” espontânea de instituições financeiras, o essencial não muda. Todos os que meteram a mão no rublo dia 15/12/2014 queimaram os dedos, e a China obteve ganhos consideráveis, porque tem “orçamento” gordo o suficiente para derrotar qualquer fundo especulativo ou qualquer “Soros” que só têm reles poucas centenas de bilhões de dólares para jogar. Não importa o que tenha sido tentado, a China pôs fim à jogatina. Com isso, a China mudou todos os fundamentos da situação real [Obama, sempre pernóstico, diria – se dissesse coisa com coisa – que a China mudou o “rationale in this process” :-D)))) (NTs)].

Relação Dívida/PIB da Rússia 2006 - 2014
Mas a Rússia, diferente do que reza o meme presidencial, já não é economia de um só produto: estudo recente mostra que a indústria da energia contribui com apenas 16% para o total das entradas nacionais, e em outros aspectos (razão dívida/PIB, déficit de 1% no orçamento, nível das reservas, etc.), a Rússia sai-se consideravelmente melhor que a maioria dos demais estados europeus, sobretudo desde que a China “apoia a fraqueza russa” (como “noticia” a imprensa-empresa norte-americana). Assim também, a política russa de deixar que o rublo espelhe a queda dos preços do petróleo, significa que as entradas de suas empresas de energia – em rublos – não caíram. Na verdade, até tiveram leve alta. Isso posto, é claro que a Rússia enfrenta sítio econômico continuado. A economia russa declinou 0,5% em novembro/2014 (mas crescera 0,6% entre jan.-out. 2014).

Mas o “rationale in this process” do presidente Obama – que sanções, mais colapso do preço do petróleo, poderiam tornar inadministrável a economia russa – enervou terrivelmente os europeus, que vivem em interdependência muito maior com a Rússia, que os EUA. O que realmente enfureceu a União Europeia foi o “ataque” ao rublo. Alguns bancos europeus ficariam massivamente expostos, no caso de a Rússia quebrar e dar calote em suas dívidas. Tal evento dispararia gravíssima crise financeira do euro que ainda está “cozinhando” sem explodir – com eleições na Grécia ainda por acontecer [houve eleições na Grécia dia 25/1/2015, quase um mês depois de redigido esse artigo, com vitória da coligação Syriza, de esquerda (NTs)]. Consequentemente, a Europa está mudando de posição em relação à Rússia.

Federica Mogherini
Federica Mogherini (chefe da Política Externa da União Europeia) , em entrevista a La Repubblica dia 29/12/2014 disse claramente que:  

(...) a Europa quer encontrar campo de entendimento comum com a Rússia, e pôr fim à abordagem confrontacional e à guerra na Ucrânia. “Até em Kiev todos só querem ver o fim do conflito”.

A abordagem de Mogherini foi ecoada pelo Presidente Fischer da Áustria, que disse em entrevista a Wirtschaftsblatt:

A economia russa tem considerável grau de robustez, mas as sanções, sim, trazem problemas também consideráveis (...). Crise séria na Rússia e colapso econômico só criariam mais problemas. As portas entre Europa e Rússia têm de permanecer abertas no campo econômico. A abordagem segundo a qual mais e mais sanções deveriam ser aplicadas contra a Rússia até que estivesse “suficientemente enfraquecida” para ser obrigada a aceitar os “objetivos políticos” da União Europeia sempre foi errada.

A necessidade de a Europa atender aos seus próprios interesses, em vez de só obedecer ao que os EUA a mande fazer, foi também reforçada, quando Federica Mogherini chamou a atenção para o fato de que:

(...) dados recentes mostram que o comércio entre Rússia e Europa está declinando, ao mesmo tempo em que o comércio entre Rússia e EUA sóaumenta.

“Declinar” significa que a Alemanha exportou 22% a menos, para a Rússia, no mês de outubro. Grupos empresariais, normalmente forte apoiadores da chanceler Merkel, já estão alertando contra usarem-se meios econômicos contra o governo do presidente Putin:

O ocidente não tem interesse algum em desestabilizar a economia russa ou a política russa – escreveu o presidente de uma entidade que reúne empresários que mantêm negócios com o leste da Europa.

Mas essa mudança no modo de a Europa tratar a Rússia tem uma segunda linha, a qual, essa também, foi deixada bem clara na entrevista de Mogherini: a Europa está cada dia mais preocupada com a deterioração da situação no Oriente Médio, mais particularmente ao longo das margens sul do Mediterrâneo, da Síria à Líbia. Mogherini disse que:

(...) Todos nós sabemos que a Rússia tem papel importante não só na Ucrânia, mas também na Síria, Irã, Oriente Médio, Líbia. 

Russia e União Europeia - interesses comuns
Não há dúvidas de que a comissária de Relações Exteriores estava sugerindo que a União Europeia bem poderia começar a reparar os danos causados contra a Rússia, adotando o lado russo nas questões do Oriente Médio – lado com o qual são claros os interesses comuns – eque essa seria uma rota indireta pela qual a União Europeia poderia ter esperança de abrir diálogo mais produtivo com a Rússia, sobre a Ucrânia.

Os ministros europeus de Relações Exteriores reunidos dia 11/12/2014, viram possibilidades em tentar uma tática mista, essencialmente não política, apresentada pelo Enviado Especial da ONU, Di Mistura, de uma iniciativa para cessar-fogo local, acompanhando o programa dos russos para organizar a oposição interna síria e levá-la ao diálogo com representantes do governo sírio. Para aumentar as chances de a Rússia aceitar a União Europeia como intermediária para costurar as duas iniciativas, os ministros de Relações Exteriores determinaram que fossem deixadas de lado expressões como “Assad tem de sair” e toda a narrativa da exigência de “processo transicional já”.

A questão é: será que isso realmente levará a mudanças na super tensionada relação entre a Europa e a Rússia? Há possibilidades, apesar de os líderes russos se mostrarem profundamente decepcionados com a condução da diplomacia da União Europeia. Moscou tem sido muito cuidadosa no processo de deixar abertas portas diplomáticas para as questões do Oriente Médio (até ajudou recentemente os EUA, ao não extrair nenhuma vantagem política do erro político que os norte-americanos cometeram ao vetar um projeto de resolução no Conselho de Segurança que requeria reconhecimento para o Estado Palestino) – e dois Ministros de Relações Exteriores, Lavrov e Bogdanov tiveram o cuidado de afastar Washington da linha de tiro, naquela tentativa de encontrar solução política para a Síria.

Washington, embora sempre cética quanto às possibilidades das duas iniciativas (de Moscou e de Di Mistura), ficaria sem dúvida felicíssima se aparecesse algum “processo-em-nome-do-processo” para dar ocupação à oposição síria e, de algum modo, congelar pelo menos um aspecto do conflito interno – permitindo assim que os EUA mantenham-se concentrados na guerra do ISIL, aliviados das pressões que a Arábia Saudita tem feito sobre o governo norte-americano, além das pressões turcas e de críticos domésticos, que exigem que Obama “derrube Assad” como parte da “guerra contra o ISIL”, porque – dizem aqueles críticos – o sectarismo de Assad e Maliki seria a “causa” do surgimento do ISIL.

Norte da África e Oriente Médio registram ataques do ISIS/ISIL/EI
Assim se vê que, quanto às chances de a União Europeia inserir-se num relacionamento colaborativo com Moscou, mediante a iniciativa política que está tentando tomar na Síria, as principais objeções virão, nem tanto de Washington, mas mais de Riad. Implica dizer que as ideias de Moscou e as ideias de Di Mistura podem nem alçar voo em Riad ou Ancara.

Já se sabe que Di Mistura disse a ministros de Relações Exteriores da União Europeia que tinha o apoio implícito da Arábia Saudita. Mas Riad só faz repetir que “Assad tem de sair” e a Turquia continua a facilitar a entrada de jihadistas em território sírio.

Um segundo problema para a União Europeia, se tenta casar o cessar-fogo localizado e a iniciativa de Moscou, é que Lavrov é inteligente e esperto o suficiente para saber que estados membros da União Europeia, Grã-Bretanha e França não pararão de insistir em cessar-fogo “monitorado” por forças internacionais do CS-ONU, ou noutros mecanismos de monitoramento, sejam quais forem, desde que ligados ao CS-ONU”. Leia-se aí, sempre, a des-soberanização do estado, sob outro nome: a criação de “áreas proibidas” sob controle internacional às quais a soberania síria ficaria submetida – e que sempre poderiam ser “ampliadas”, até que o estado sírio soberano se tornasse apenas residual. Lavrov sempre terá de objetar a soluções desse tipo, dado que sabe que a soberania é “linha vermelha” para Damasco.

Entretanto, não é só no Oriente Médio que se poder ver a importância desse compreensível esforço da Europa para forjar relações não confrontacionais com a liderança russa: mais importante, para explicar esse esforço, é a Ucrânia.

Na entrevista do dia 29/12/2014, o presidente Obama explicou claramente seu rationale to the process :-D))))))) com a Rússia: é semelhante ao rationale to the process :-D))))))) com o Irã. A premissa é que quanto mais apertem as sanções, quanto mais coerção e chantagem financeira para enfraquecer a Rússia, e com o tempo, afinal os EUA terão condições para encarar “o Urso”.

É a velha fórmula de Reagan: minem as finanças da URSS e, com o tempo, a União Soviética entrará em crise de superdistensão econômica (na corrida armamentista e na guerra no Afeganistão nos anos 1980s).


Fato é que, apesar da narrativa dominante, de que a queda do preço do petróleo seria evento exclusivamente técnico, todo o mundo não ocidental já sabe que sempre foi, igualmente, arma política. Hoje é na Ucrânia, não mais no Afeganistão, onde os EUA tentam forçar a Rússia, não mais a União Soviética, a entrar em crise de superdistenção. É provável – bem diferente do que interessa à União Europeia, que querem muito encontrar solução pacífica naquela região – que Washington deseje fazer da Ucrânia um ponto de pressão econômica (além de política) eterna contra a Rússia.

Zbigniew Brzezinski
Como disse Brzezinski:

(...) a Ucrânia é posto avançado do ocidente para impedir a recriação da União Soviética. (...)

O presidente Putin compreende bem tudo isso.

“Analistas” e “jornalistas” ocidentais, adestrados por alguns políticos nos EUA e na Europa, gritarão que Putin forçou a bancarrota da Ucrânia, para também forçar à submissão os líderes ucranianos. As tensões e a retórica subirão. Haverá vozes a exigir mais e mais sanções contra a Rússia. Alguns, em Kiev tentarão extrair vantagens da situação, provocando confrontos no Donbass aos quais a Rússia terá responder militarmente [nesse ponto a “antecipação” erra: a Rússia não respondeu militarmente e os milicianos neonazistas de Kiev já foram derrotados no Donbass (NTs)].

Vladimir Putin
(...)

O problema aqui não é que a escalada na guerra venha a implodir a Rússia financeiramente ou politicamente, o que não acontecerá [nesse ponto a antecipação acerta (NTs)]. O verdadeiro risco, aqui, é que a continuação dessa guerra financeira é jogo arriscadíssimo para Washington, porque o “ocidente” pode resultar super alavancado, além de naufragado num tsunami de papéis podres e dívidas incobráveis desde 2008. De fato, essa escalada pode reverter, de pernas para o ar, toda a tal “rationale” 8-D)))))) de Obama.

Tudo isso para dizer que os EUA podem estar hoje mais vulneráveis a choques econômicos (o que se vê é que os “Quantitative Easing”, “alívio monetário contra o estresse do endividamento”, a volatilidade monetária e o dólar mantido forte custam peso caríssimo sobre dívida de trilhões denominada em dólares) do que a Rússia – com suas dívidas diminutas e muito ortodoxas. Aí está o não sabido não sabido.

O único sabido sabido é que a Europa é a parte mais vulnerável desses não sabidos não sabidos.
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Nota dos tradutores:

ATUALIZAÇÃO, 25/2/2014, Ekathimerini, Atenas:

Alexis Tsipras
Essencialmente, Alexis Tsipras terá de enfrentar dois grupos diferentes:

(1) de um lado estão os românticos que contavam com rompimento com a Eurozona, na firme fé de que isso legitimaria a Grécia para seguir modelo de crescimento latino-americano, não europeu. Esses combaterão contra o governo de Tsipras, porque entendem que foram traídos. E há também:

(2) os cínicos, que se escondem por trás de uma sacrossanta luta anti-resgate, por medo de que acabem privados do tipo de privilégios e da proteção que lhes permitiu enriquecer descabidamente, sem em nada contribuir para aumentar a produção grega. Essa gente quer que o país permaneça na Eurozona enquanto eles continuam a operar em ambiente de estilo dracma – em outras palavras, sem passar por qualquer tipo de controle ou fiscalização – ou voltar, mesmo, ao dracmas, para que possam continua a viver como nababos numa república de bananas super baratinha.

Se Tsipras e Varoufakis estão realmente dispostos a fazer valer o que escreveram no mais recente e-mail para a Eurozona, a batalha será feroz. Há quantidade imensa de dinheiro em jogo, e as margens de lucro são enormes..
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência”.
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Putin: o Grande-Mestre e o “ferrolho de ouro”


12/12/2014, Dmitry Kalinichenko, Investcafe.ru (trad. ao ing. Kristina Rus)

ЗАПАДНЫЙ КАПКАН ГРОССМЕЙСТЕРА ПУТИНА

Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu


O que os países BRICS, liderados por Rússia e China, estão fazendo atualmente é alterar realmente o papel e o status do dólar norte-americano no Sistema Monetário Global. De meio de pagamento derradeiro-essencial, e de derradeiro-essencial ativo para acumulação, a moeda nacional dos EUA, por ação conjunta de Moscou e Pequim, está convertida em simples meio de pagamento intermediário. Sua serventia é “fazer a ponte”, até ser trocado pelo derradeiro-essencial ativo financeiro: o ouro. É assim que o dólar norte-americano perde seu papel de derradeiro-essencial meio de pagamento e derradeiro-essencial ativo para acumulação ‒ e cede o trono a outro ativo monetário reverenciado, sem pátria ou nação ou aliados ou inimigos: o ouro.


Entreouvido quiosque do Frozô na Vila Vudu: “Não sei se é verdade, ou tudo mentira e só propaganda. Sei, com certeza, que o editorial da revista Época, do grupo Globo, ensinando privatização & ladroeira à moda da privataria tucana, é TOTALMENTE PROPAGANDA, vendida aos otários como se fosse jornalismo.

OK. É jornalismo de fascistização, mas, como diria qualquer fascista: “É jornalismo, uai!”

Daí concluo que “jornalismo democrático”, só se tiver boooooa propaganda/publicidade prôs dois, três, quatro, mil lados (mas, no mínimo, pra DOIS!). Na página de “Tendências & debates”, publicar-se-ia o besteirol lá de karké daqueles tucano-sem-votos iradinhos, na parte de cima (afinal, o jornal é deles, né?); e, na parte de baixo, esse artigo aí, do russo Dmitry Kalinichenko.O cara é advogado, dos que sabem muito de moeda & pregão & bolsa de valores, parecido com uns que as rádios paulistas entrevistam TOOOODAS as manhãs e depois repetem sem parar até à noite, pra eles dizerem como o dólar está forte e poderoso contra o real, o rublo...

Por que o “especialista” aí não pode ser entrevistado pela Jovem-Pan em Sampa?! Pourquoi pas?! Ou pela BandNews?! Só porque ele diz que o dólar tá é fodido, como fodidos estão os EUA e resto por lá por cima do Equador, do lado “ocidental”?!

Bóra traduzir e publicar. Todo mundo tem de ler. Depois a gente discute.

“Chegaremos à fartura!” (Stálin vive) [pano rápido]


Vladimir Putin e Xi Jinping
As acusações mais frequentes que o ocidente tem feito contra Putin têm a ver com ele ter prestado serviços à KGB. Portanto, é pessoa sanguinária e imoral. Tudo é culpa de Putin. Mas ninguém até hoje o declarou burro [como Kerry] ou doido [como o senador McCain].

Tudo que dizem contra o homem só faz enfatizar sua capacidade para pensar analiticamente e com objetividade, e para tomar decisões políticas e econômicas claras e equilibradas.

Seguidamente, a imprensa-empresa ocidental compara a capacidade do presidente Putin à habilidade dos Grandes-Mestres, capazes de jogar várias partidas simultâneas de xadrez em público. Desenvolvimentos recentes na economia dos EUA e do ocidente em geral permitem-nos concluir que nesse ponto, ao avaliar esses específicos traços da personalidade de Putin, a imprensa-empresa ocidental, finalmente, está absolutamente certa.

Por mais que Fox News e CNN, hoje, só façam repetir elogios aos sucessos econômicos do ocidente, a economia ocidental, levando à frente os EUA, está completamente presa na armadilha que Putin montou para ela, e ninguém no ocidente sabe como sair dessa arapuca. Quanto mais o ocidente esperneia tentando escapar, mais o ocidente se enreda na armadilha.

Qual é o destino realmente trágico no qual estão enredados o ocidente e os EUA? E por que a imprensa-empresa ocidental e os “especialistas” ocidentais midiáticos no campo da Economia mantêm o mais impenetrável silêncio sobre a coisa toda? Tentemos compreender no contexto da economia a essência dos eventos econômicos em curso, deixando de lado os fatores de moralismo, ética e geopolítica.

Depois de dar-se conta do fracasso de suas ações na Ucrânia, o ocidente, comandado pelos EUA, decidiu destruir a economia russa, fazendo desabar os preços do petróleo e também do gás, sabidamente itens principais de entradas no orçamento de exportações e fonte de recursos para recompor as reservas russas de ouro.

Deve-se observar que o principal fracasso do ocidente na Ucrânia não é nem militar nem político, mas, isso sim, não ter conseguido de Putin que ele aceitasse financiar o projeto ocidental da Ucrânia, à custa do orçamento da Federação Russa. E essa decisão de Putin tornou inviável o projeto ocidental no futuro próximo e inevitável.

De outra vez, sob o governo do presidente Reagan, esse tipo de movimento, de o ocidente baixar os preços do petróleo, teve “sucesso” e levou ao colapso da URSS. Mas a história não se repete sempre, e nunca do mesmo modo. Dessa vez, as coisas estão diferentes para o ocidente. A resposta de Putin ao ocidente parece mistura de xadrez com judô – quando você usa contra o inimigo a força que o inimigo usa contra você, com mínimo desgaste da força e dos recursos de quem se defenda. As reais políticas de Putin não são objeto de interesse da imprensa-empresa. Por isso, Putin pode manter-se sempre mais focado na eficiência, que em obter efeitos de impacto instantâneo e passageiro.

Poucos são os que compreendem o que Putin está fazendo nesse momento. E quase ninguém compreende o que ele fará na sequência.

Não importa o quanto pareça estranho, fato é que, hoje, a Rússia só está vendendo petróleo e gás a quem aceite pagar em ouro físico (Gráfico 1).



Putin não está espalhando a notícias aos quatro cantos do mundo. E, claro, ainda aceita dólares norte-americanos como meio de pagamento intermediário. Mas imediatamente converte todos os dólares que receba da venda de petróleo e gás, em ouro físico.

Para compreender, basta observar a dinâmica do crescimento das reservas russas em ouro, e comparar esse dado com o que a Federação Russa recebe da venda de petróleo e gás no mesmo período.

Além do mais, no 3º trimestre, as compras russas de ouro físico alcançaram o ponto máximo histórico, nível recorde. No 3º trimestre desse ano, a Rússia comprou a incrível quantidade de 55 toneladas de ouro. É mais que todo o ouro que há em todos os bancos centrais de todos os países (segundo dados oficiais) somados.

No total, os bancos centrais de todos os países do mundo compraram 93 toneladas de ouro no 3º trimestre de 2014. Foi o 15º trimestre consecutivo de compras líquidas de ouro, pelos bancos centrais. Das 93 toneladas de ouro que os bancos centrais de todo o mundo compraram nesse período, a “fatia” russa é de 55 toneladas (Gráfico 2)


Não faz muito tempo, cientistas britânicos já haviam chegado a uma conclusão, que foi publicada no relatório U.S. Geological. A saber: a Europa não conseguirá sobreviver sem a energia que compra da Rússia. Traduzido para qualquer idioma do mundo, significa: “O mundo não conseguirá sobreviver, se o petróleo e o gás russos forem excluídos da massa global de oferta de energia”.

Implica, pois, que o mundo ocidental, construído sobre a hegemonia do petrodólar, está em situação catastrófica. Não sabe sobreviver sem o petróleo e o gás que recebe da Rússia, e agora a Rússia só se interessa por vender petróleo e gás ao ocidente em troca de ouro físico. O “truque”, na jogada de Putin, é que o mecanismo para a venda de energia ao ocidente em troca de ouro funciona sempre, mesmo quando, como agora, o ocidente pague pelo gás e petróleo russos com o seu dólar artificialmente desvalorizado.

Porque a Rússia, tendo fluxo regular de dólares da venda de petróleo e gás, em todos os casos, sempre, pode converter os dólares em ouro aos preços atuais, que o ocidente oferece a preços deprimidos. Quer dizer, com o preço do ouro, que foi artificial e meticulosamente rebaixado várias vezes pelo Fed e pelo Fundo de Estabilização do Câmbio, departamento especial do governo dos EUA (Exchange Stabilization Fund, ESF), contra o poder de compra artificialmente inflado do dólar mediante a manipulação dos mercados.

Fato relevante: Desde 2012, a manipulação dos preços do ouro para baixo, pelo Fundo de Estabilização do Câmbio, departamento especial do governo dos EUA – com o objetivo de estabilizar o dólar – foi convertida em lei nos EUA.

No mundo financeiro aceita-se como dado indiscutível que o ouro é um antidólar.

Em 1971, o presidente Nixon dos EUA fechou a “janela ouro”, pondo fim ao livre câmbio de dólares por ouro, garantido pelos EUA em 1944 em Bretton Woods.

Em 2014, o presidente Putin da Rússia reabriu a “janela ouro” – sem pedir licença a Washington.

Atualmente, o ocidente consome muito de seus esforços e recursos para manter deprimidos os preços do ouro e do petróleo. Por um lado, para distorcer a realidade econômica a favor do dólar norte-americano; por outro lado, para destruir a economia russa, que se recusa a fazer o papel de vassalo obediente do Ocidente.

Hoje, ativos como ouro e petróleo parecem proporcionalmente enfraquecidos e excessivamente desvalorizados contra o dólar norte-americano. É efeito do enorme esforço econômico que o ocidente está fazendo.

E agora Putin vende recursos energéticos russos em troca desses dólares artificialmente inflados por esforços do ocidente. Com os dólares inflados, ele imediatamente compra ouro, artificialmente desvalorizado em relação ao dólar dos EUA... por empenho do próprio ocidente!

Há mais um elemento interessante no jogo de Putin. É o urânio russo. 1/6 de todas as lâmpadas que há nos EUA dependem do suprimento russo de urânio. Que a Rússia vende aos EUA em troca de dólares, é claro.

Em troca do óleo, do gás e do urânio russos, o ocidente paga à Rússia em dólares, moeda cujo poder de compra está artificialmente inflado contra o petróleo e o ouro, por efeito de esforços do ocidente. Mas Putin usa os mesmos dólares para tirar ouro do ocidente, pelo preço em dólares norte-americanos que o próprio ocidente baixou tanto!

Assim, nessa dança e contradança brilhantes, Putin põe o ocidente, com os EUA à frente, na posição da cobra que furiosamente, agressivamente e aplicadamente vai devorando o próprio rabo.

A ideia dessa armadilha econômica para “segurar” o ocidente pode, muito provavelmente, ter saído da cabeça do próprio Putin. Mais provavelmente, foi ideia do Dr. Sergey Glazyev, Conselheiro da presidência russa para Questões Econômicas. Se não por isso, por que Glazyev, burocrata sem envolvimento no mundo comercial-empresarial, foi incluído, com vários empresários russos, na lista das sanções de Washington? E a ideia do economista foi brilhantemente aplicada por Putin, completamente apoiada por seu colega chinês – XI Jinping.

Particularmente interessante, nesse contexto, é a declaração feita em novembro, pela primeira vice-presidente do Banco Central da Rússia (BCR), Ksenia Yudaeva, que disse que BCR pode usar o ouro das reservas para pagar por importações, sendo necessário. Claro que, no que tenha a ver com as sanções, a declaração visa aos países BRICS, em primeiro lugar à China. Para a Rússia, a disposição dos russos de servir-se do ouro ocidental para pagar por importações, é altamente conveniente. Eis por quê:

– Recentemente, a China anunciou que deixaria de ampliar suas reservas em ativos denominados em dólares norte-americanos. Considerando o crescente déficit comercial entre EUA e China (a diferença hoje é cinco vezes, favorável à China), essa declaração, traduzida do idioma financeiro, significa: “A China parou de aceitar dólares em pagamento pelo que exporta”.

A imprensa-empresa mundial escolhe não noticiar esse que é o mais importante “evento” de toda a história monetária recente. A questão não é que a China literalmente se recuse a vender seus produtos para receber em dólares norte-americanos. É claro que a China continuará a aceitar dólares norte-americanos como pagamento “intermediário” por seus bens. Mas, recebidos os dólares, a China imediatamente cuidará de livrar-se deles e de substituí-lo por algo com mais “substância” nas suas reservas ouro e moedas.

Se não se assume tudo isso, não há como compreender as recentes declarações das autoridades monetárias chinesas: “Estamos detendo o crescimento de nossas reservas ouro e monetárias denominadas em dólares norte-americanos”. Significa que a China não mais comprará bônus do Tesouro dos EUA em troca de dólares armazenados do comércio com outros países, como fazia.


A China substituirá todos os dólares que receberá pelos bens vendidos, não aos EUA, mas ao mundo todo, com algo que não é denominado em dólares norte-americanos. A pergunta seguinte é interessante: com o que a China substituirá todos os dólares de seus negócios? Com que moeda, com que tipo de ativo? Análises da atual política monetária chinesa mostram que muito provavelmente os dólares que venham do comércio, ou parte considerável deles, a China os substituirá em silêncio – de fato, já estão sendo substituídos – por Ouro.

Nesse aspecto, a parceria solitária de russos e chineses é extremamente bem-sucedida para Moscou e para Pequim. A Rússia compra bens da China pelos quais paga diretamente em ouro, aos preços atuais. E a China compra recursos energéticos russos pelos quais paga diretamente em ouro, aos preços atuais. Nesse festival de celebração da vida entre russos e chineses, há espaço para tudo: bens chineses, recursos energéticos russos e ouro – como meio de pagamento nas duas direções. O dólar norte-americano é a única moeda que não tem lugar nesse festival de celebração da vida e da paz.

De fato, não é surpresa. Afinal, o dólar norte-americano não é nem produto chinês, nem recurso energético russo. Não passa de instrumento financeiro intermediário de quitação – e intermediário desnecessário.

Todos os intermediários desnecessários sempre serão, como sempre foram, excluídos de qualquer interação entre parceiros comerciais independentes.

Deve-se observar à parte que o mercado global para ouro físico é extremamente restrito, se comparado ao mercado mundial para petróleo físico. E o mercado para ouro físico é microscópico, comparado à totalidade dos mercados mundiais para entregas físicas de petróleo, gás, urânio e bens manufaturados. Repete-se sempre a expressão “ouro físico”, porque, no pagamento em vendas de recursos de energia, a Rússia não recebe recursos energéticos “de papel”. A Rússia está extraindo ouro do oriente, sempre em sua forma física, não na forma “papel”. É o que a China obtém, ao receber do ocidente o ouro “físico” desvalorizado, como pagamento por entrega física de produtos reais ao ocidente.

As esperanças do ocidente, de que China e Rússia aceitariam, para pagamento por bens e recursos energéticos, as chamadas moedas-merda, “merda-coin” [orig. shitcoin] ou o chamado “papel-ouro” de vários tipos, não se realizaram. À Rússia e à China só interessa o ouro, e como metal físico, como meio final de pagamento.

PARA REFERÊNCIA: O turnover do mercado de papel ouro, só de ouro futuro, é estimado em US$ 360 bilhões/mês. Mas a entrega de ouro físico é de apenas US$ 280 milhões/mês. A proporção entre papel-ouro e ouro físico é de 1.000:1.

Ao servir-se do mecanismo de retirar ativamente do mercado, um ativo financeiro artificialmente desvalorizado pelo ocidente (ouro), em troca de outro ativo financeiro, mas artificialmente sobrevalorizado pelo ocidente (o dólar norte-americano), Putin iniciou a contagem regressiva que leva ao fim da hegemonia mundial do petrodólar. E Putin empurrou o ocidente para um impasse, porque não há nenhuma perspectiva econômica positiva.

O ocidente pode consumir quantos esforços e recursos deseje para engordar artificialmente o poder de compra do dólar, baixar os preços do petróleo e baixar artificialmente o poder de compra do dólar. O problema, para o ocidente, é que os estoques de ouro físico que hoje estão no ocidente não são ilimitados. Assim sendo, quanto mais o ocidente desvalorize o petróleo e o ouro em relação ao dólar norte-americano, mais depressa o ocidente perde, porque desvaloriza o ouro que guarda em suas reservas finitas.

Nessa jogada brilhante de combinação econômica que Putin ativou, o ouro físico que sai das reservas ocidentais está rapidamente fluindo para Rússia, China, Brasil, Cazaquistão e Índia, os países BRICS. Ao ritmo atual de redução de reservas de ouro físico, o ocidente simplesmente não tem tempo para fazer qualquer coisa contra a Rússia de Putin, antes do desabamento e colapso de todo o mundo do petrodólar ocidental. No xadrez contra o relógio, a situação em que Putin meteu o ocidente – com os EUA à frente – chama-se “falta de tempo”, em alemão Zeitnot.

O mundo ocidental jamais antes assistiu aos eventos e fenômenos econômicos aos quais assistem hoje. A URSS vendeu ouro rapidamente quando os preços do petróleo desceram. A Rússia rapidamente compra ouro quando os preços do petróleo descem. Implica que a Rússia impõe hoje ameaça real contra o modelo norte-americano de dominação mundial pelo petrodólar.

O princípio chave do modelo do petrodólar mundial é permitir que os países ocidentais liderados pelos EUA vivessem à custa do sangue, do trabalho e dos recursos de outros países e povos, a partir do papel que tem a moeda norte-americana, dominante no sistema monetário global (SMG). O papel do dólar norte-americano no SMG é que é (ou foi) o meio derradeiro de pagamento. Significa que a moeda nacional dos EUA, na estrutura do SMG, é (ou foi) o derradeiro ativo para acumulação, que não faria jamais sentido cambiar por qualquer outro ativo.

BRICS
O que os países BRICS, liderados por Rússia e China, estão fazendo atualmente é alterar realmente o papel e o status do dólar norte-americano no Sistema Monetário Global. De meio de pagamento derradeiro-essencial, e de derradeiro-essencial ativo para acumulação, a moeda nacional dos EUA, por ação conjunta de Moscou e Pequim, está convertida em nada além de meio de pagamento intermediário. Sua serventia é “fazer a ponte”, até ser trocado pelo derradeiro-essencial ativo financeiro: o ouro. É assim que o dólar norte-americano perde seu papel de derradeiro-essencial meio de pagamento e derradeiro-essencial ativo para acumulação – e cede o trono a outro ativo monetário reverenciado, sem pátria ou nação ou aliados ou inimigos: o ouro.

Tradicionalmente, o ocidente sempre usou dois métodos para eliminar qualquer ameaça contra a hegemonia do modelo do petrodólar no mundo e todos os descabidos privilégios para o ocidente. Um desses métodos: as revoluções “coloridas”. O segundo método, comumente aplicado pelo ocidente quando falha o primeiro: agressão militar e bombardeio.

Mas no caso da Rússia esses dois métodos são ou impossíveis ou inaceitáveis no ocidente.

Porque, em primeiro lugar, a população da Rússia, diferente de muitos outros povos, não deseja trocar a própria independência e o futuro dos próprios filhos, pelos sanduichões apodrecidos que o ocidente chama de comida. Vê-se bem claro, pelos índices de aprovação de Putin, que as grandes agências ocidentais não se cansam de ‘pesquisar’ e, depois, têm de publicar.

A descoberta de que Alexei Navalny mantém relações estreitíssimas com o Senador McCain e com Washington derrubou toda a credibilidade que tivesse. A notícia do relacionamento entre eles foi assunto de noticiário.

Na sequência, 98% da população russa passou a ver Navalny [vive de denunciar “corrupções”, até agora sem qualquer prova contra Putin, e chegou a ser uma espécie de Aécim russo – embora mais rico, muito mais bonito e muuuuuuuito mais macho que o minerin (NTs)], apenas como sabujo, fantoche e vassalo de Washington e traidor dos interesses nacionais dos russos. E os “especialistas” ocidentais que ainda não enlouqueceram totalmente sabem perfeitamente que “revolução colorida” nunca funcionará no caso da Rússia.

Quanto ao segundo modo tradicional ocidental, da agressão militar direta, evidentemente Rússia não é Iugoslávia, nem Iraque nem Líbia. Em qualquer operação militar não nuclear contra a Rússia, em território russo, o ocidente, com os EUA à frente, estão condenados ao mais fragoroso desastre. E os generais do Pentágono, que são os comandantes de fato das forças da OTAN, já sabem disso.

Ataque nuclear à Rússia também é sem esperanças, inclusive o chamado “ataque nuclear preventivo para desarme”. A OTAN é simplesmente incapaz, em termos técnicos, de lançar qualquer ataque que desarmasse completamente todo o potencial nuclear da Rússia em suas diferentes manifestações. Um ataque massivo nuclear de retaliação contra inimigo ou pool de inimigos atacantes é absolutamente incontornável, se a Rússia for atacada. E a capacidade nuclear total dos russos é suficiente para que os sobreviventes invejem a sorte dos mortos.

Assim se esclarece suficientemente que atacar com armamento nuclear um país como a Rússia não é solução a ser considerada, para resolver o “problema” do colapso do mundo do petrodólar. No melhor dos casos, seria um último acorde no funeral do petrodólar. No pior dos casos, um inverno atômico, o fim da vida no planeta Terra, que ficará entregue a bactérias alteradas pela radiação.

O establishment econômico ocidental sabe e compreende a essência da situação, gravíssima e sem saída, em que o ocidente acabou preso, na armadilha com ferrolho de ouro que Putin urdiu. Afinal de contas, desde os acordos de Bretton Woods todos conhecemos a regra fundamental: “Quem tem mais ouro fixa a regra fundamental.” Mas ninguém, no ocidente, fala sobre a coisa. Não porque o ocidente não saiba onde está metido. Mas porque ninguém no ocidente sabe como o ocidente se safará, se safar-se.

Se se explicar ao público ocidental todos os detalhes do desastre econômico que se aproxima, o povo perguntará aos apoiadores do mundo do petrodólar a mais terrível das perguntas, que se pode formular mais ou menos assim:

– E por quanto tempo o ocidente consegue continuar a comprar petróleo e gás da Rússia e pagar com ouro físico?

E o que acontecerá ao petrodólar norte-americano depois que acabar o ouro físico no ocidente para pagar pelo petróleo, pelo gás e pelo urânio russos, além de outros produtos russos?

Ninguém no ocidente hoje sabe responder essas duas perguntas aparentemente simplíssimas. O nome técnico é xeque-mate, senhoras e senhores. 

Fim de jogo. 

A brincadeira acabou