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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Buracos negros financeiros: nutrição e cuidados básicos


30/6/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Sergey Glazyev

Há algum tempo, tive o prazer de ouvir Sergey Glazyev – economista, político, membro da Academia de Ciências da Rússia e conselheiro do presidente Putin – dizer algo que confirmou muito bem o que sempre pensei. Glazyev disse que qualquer um que saiba matemática pode ver que os EUA estão à beira do colapso, porque a dívida interna norte-americana cresce exponencialmente. Não são palavras que político europeu ou norte-americano ande dizendo por aí em público, talvez nem sussurradamente na cama, porque nos EUA travesseiros têm ouvidos, e, se acontecer assim, o tal político receberá tratamento de Dominique Strauss-Kahn (cuja ilustre carreira terminou quando, numa visita aos EUA, foi falsamente acusado de estupro, e preso). Por essas e outras nenhum político europeu (e dos norte-americanos, então, nem se fala), pode jamais declarar o óbvio, por mais óbvio que seja.
A essa altura, os russos já sabem muito bem disso. Sim, manter diálogo e relações cordiais com europeus é importante. Mas que fique bem entendido que europeus não passam de fantoches dos EUA sem vontade nem poder para tomar decisões próprias. Melhor talvez falar com os norte-americanos diretamente? Infelizmente, também são fantoches. Funcionários do governo e políticos norte-americanos são todos fantoches controlados por lobbyistas de grandes empresas e oligarcas sinistros. Mas, aqui, o choque: esses também são fantoches, controlados pelos simples imperativos do lucro e da preservação da riqueza respectivamente. De fato, são todos fantoches de cabo a rabo, de cima a baixo. E no fundo, por baixo deles, há um gigantesco, eternamente em expansão, buraco negro financeiro.
Você gosta de seu buraco negro? Se não tem muita certeza de que gosta, deixe-me fazer-lhe algumas perguntas: Você gosta do fato de que seus cartões de crédito ainda funcionem, ou de poder ainda deixar dinheiro no banco e até pegar dinheiro num caixa de atendimento automático, ou de já estar recebendo ou algum dia, sim, receber uma aposentadoria? Você gosta de poder obter coisas úteis – comida, combustível, passagens de avião – em troca de meros pedaços de papel impressos com retratos de homens brancos falecidos? Você gosta de ter acesso à internet, de ter lâmpadas acesas, água na pia? Bem, se você gosta dessas coisas, nesse caso você também tem de gostar do buraco negro financeiro, porque é ele que torna possíveis todas essas coisas, apesar de você viver num país quebrado, falido, em bancarrota. Talvez seja daquelas relações de amor-ódio: você ama conseguir fingir que está tudo ótimo, mesmo você sabendo que não está, e quer curtir mais um pouco do bussiness-como-sempre, antes que tudo vá prô inferno, seja só mais alguns dias, seja um, dois anos. Mas você odeia saber que é altamente possível que o buraco o sugue para o fundo, momento a partir do qual você estará sugado, digo, definitivamente ferrado.
Experimento do Buraco Negro dá dramaticamente ERRADO

Nos EUA, até agora, o buraco negro tem sugado famílias individualmente consideradas (embora às vezes sugue cidades inteiras, feito Detroit, Michigan ou Bakersfield, Califórnia ou Camden, New Jersey). Com a ajuda da gangue das hipotecas fraudulentas, ele suga casas e as cospe de volta, oneradas por dívidas podres. Com a ajuda da indústria médica, ele suga gente doente e cospe os doentes de volta, falidos. Com a ajuda da gangue das universidades privadas, suga gente jovem cheia de esperanças, e cospe formados nas “especializações” mais ridiculamente inúteis e com as pernas e o espírito quebrados pela mais obscena dívida “estudantil” que se possa imaginar. Com a ajuda do complexo industrial-militar, suga praticamente qualquer coisa e cospe cadáveres, tragédias ambientais, terroristas e instabilidade global. E assim vai.
Mas o buraco negro financeiro pode também sugar países. Nesse momento, está ocupadíssimo tentando devorar a Grécia, mas está difícil, porque a Grécia é – adivinhem! – estado democrático. Esse fato surpreendeu os fantoches do buraco negro, que já começaram a clamar por “mudança de regime” na Grécia, para que a Grécia possa ser obrigada a render-se, antes de o buraco negro morrer de fome.
O processo pelo qual o buraco negro financeiro suga países inteiros é o seguinte. Se o buraco negro não encontra coisas suficientes para sugar logo de início, ele então põe os mercados financeiros em queda livre. Instrumentos financeiros de países que estejam longe do buraco negro – lá, na periferia – caem mais depressa. Em busca de “paraíso seguro”, o dinheiro flui para fora desses países e diretamente para dentro dos países “núcleo” firmemente agarrados em torno do buraco negro financeiro – EUA, Alemanha, Japão e uns poucos outros. O buraco negro devora esse dinheiro, mas logo novamente já fica com fome e quer mais. E, porque os países da periferia já estão agora financeiramente fracos demais para resistirem, podem ser facilmente convertidos em ração para buraco negro financeiro. A devoração começa quando o país é sobrecarregado com dívida externa que jamais poderá pagar, o que força o país-comida a “amortizar” só parcelas da dívida, que não pode deixar de pagar completamente, porque os empréstimos para pagar dívidas são como uma linha vital de abastecimento pela qual o país recebe... mais dívidas. E assim os bancos podem ser mantidos em funcionamento, os caixas de autoatendimento abastecidos, as lâmpadas acesas e tal e tal.
O povo vai direto para Buraco Negro

Para conseguir pagar parcelas da tal dívida, o país é forçado a desmantelar a própria sociedade e a própria economia. E lhe são impostos: o mais total ARROCHO e a privatização de tudo que haja à vista (e cada empresa privatizada é empresa a ser pescada para dentro do saco das dívidas impagáveis, ou só “amortizáveis” com mais dívidas); e o país é forçado a entregar a própria soberania, a qual, rendida, passa a pertencer a organizações transnacionais, como FMI ou BCE, todas diretamente envolvidas na alimentação e na prestação de serviços de atenção à saúde do buraco negro financeiro.
E quem comanda tudo isso? – você poderia perguntar. Se tudo é buraco negro, se não há outra coisa além de buraco negro financeiro, os fantoches encarregados de mantê-lo saudável e bem alimentado e as desgraçadas vítimas do buraco negro financeiro, nesse caso... quem toma as decisões? Bem, fato é que o buraco negro financeiro é racional. Embora também seja muito, muito estúpido. E o meio que conhece para fazer acontecer o que deseja que aconteça é destruir o cérebro e o coração dos seus fantoches – o que os torna incapazes de compreender certas coisas. Mas estupidez é faca de dois gumes, e ao servir-se dela para chegar mais rapidamente ao objetivo, o buraco negro financeiro distorce também o seu próprio objetivo.
Por exemplo, há pouco tempo, o buraco negro financeiro encontrou objeto grande demais, que quis sugar, mas não conseguiu. O objeto chama-se Federação Russa. Controla território imenso, farto em todos os tipos de recursos naturais que o buraco negro financeiro muito gostaria de privatizar e converter em empréstimos colaterais e sugar para dentro do bucho. Problema é que o lugar está cheio de russos, gente difícil, com a qual os fantoches do buraco negro não conseguem lidar bem. Os russos insistem que os fantoches se mantenham à distância, para lá daquela linha vermelha real bem ali, e, se se mexerem, eles engatilham a pistola e fim de conversa fiada.


É situação que exige negociação, mas o buraco negro financeiro é exemplarmente estúpido, como já disse, e só conhece uma tática de negociação. Ele ordena e põe-se à espera que o outro lado se renda. Se não se rende, vêm as pressões: sanções, ataques contra a moeda, transações financeiras tornadas impossíveis, de tão complicadas, confisco de propriedade do país resistente e por aí vai – e outra vez, é só esperar pela rendição. Se nem isso tudo funcionar, então o país é bombardeado até ser convertido em montes de ruínas, pela OTAN. Ou, caso a OTAN não queira participar, o país é bombardeado exclusivamente pelos EUA, até ser convertido em montes de ruínas.
Em geral funciona, embora não tenha funcionado no caso da Federação Russa. Mas o buraco negro financeiro é muito, muito estúpido e fica lá, só repetindo, só repetindo, só repetindo. De tanto que só repete, só repete, só repete, a mente dos fantoches-agentes se atrapalha mesmo, de verdade, a ponto de eles já não entenderem nem a repetição, repetição, repetição deles mesmos.
Por exemplo, todo mundo sabe que pressionar a Rússia não funciona: segundo a 3ª Lei de Newton, toda a ação produz reação igual e oposta, e a Rússia é grande demais e não adianta empurrá-la, que ela não se move nem um passo – e é o empurrador que, de tanto que se esforça, acaba machucado. É feito tentar mudar a órbita da Terra, saltando de uma cadeira com os joelhos tensos (vídeo no fim do parágrafo), bom truque se você quiser atrair atenção médica. Os russos até agradeceram pelas sanções, porque afinal apareceu boa razão para investirem no desenvolvimento da própria economia doméstica e na autossuficiência. Mas os fantoches-agentes, cujos cérebros já foram sugados pelo buraco negro financeiro, nada vêem, nem compreendem e ficam lá, empurra e empurra, fazendo naufragar, no processo, as próprias economias.
Mas se as sanções não funcionam, é tempo de recorrer à opção militar. Para isso, é preciso inventar um casus belli – um motivo para ir à guerra. Foi quando o buraco negro financeiro enlouqueceu completamente: “A Rússia invadiu a Crimeia!” – sim, sim, talvez tenha invadido há algumas centenas de anos, mas já há séculos a Rússia está lá, recentemente já há até acordo internacional sobre o caso, mas... E que importa tudo isso?! (Ah! E não há o que comprove que a Crimeia foi algum dia dada à Ucrânia, porque Nikita Khrushchev alterou toda a papelada, antes de entregar o presente). Não interessa! Não interessa! A Rússia invadiu a Ucrânia e pronto! E sim, sim, sempre, é verdade todos os dias que se escrevam com “d”, mas foi muito safadinha e retirou as tropas antes que alguém pudesse fotografar, uma fotinho, que fosse, deles, por lá. OK, OK, mas isso também não interessa, porque a Rússia está prontinha para invadir a Estônia, a Letônia e a Lituânia e, pode ser, também a Polônia. Mas... vai invadir como? Você... Você acha que é fácil como tomar um ônibus para o festival de música de Jūrmala? Pode ser que seja, mas, o festival já acabou e até os fãs de música que invadiram o país vizinho já estão de volta, dormindo em casa. OK, OK, também não interessa. E os fantoches-agentes só fazem repetir “invasão russa!”, “invasão russa!” sem parar. É o dano cerebral típico de quem vive muito próximo do buraco negro financeiro. Como esse sujeito (foto abaixo), coitado, por exemplo. Bate que bate o maxilar inferior, sempre “agressão russa”, “agressão russa”, enquanto bolina uma imaginária vaca de estimação, tentando acalmar-se. Deus o ajude!

Robert Work, Secretário Adjunto de Defesa dos EUA

De volta ao mundo real: os infelizes fantoches-agentes do buraco negro financeiro não conseguem entender que, se se trata de Rússia, não há opção militar: o poder nuclear funciona aí como excelente argumento de contenção estratégica, é território muito bem defendido e não tem qualquer intenção agressiva contra seja quem for.
Mas os fantoches com a mente perturbada, nada veem, nem isso nem coisa alguma, e lá estão, empilhando os mais variados tipos de lixo militar obsoleto nas fronteiras da Rússia, e até já ameaçaram levar para a Europa os seus mísseis nucleares Pershing de alcance médio e obsoletos. São obsoletos, porque os russos têm agora o sistema S-300, com o qual podem neutralizar todos os Pershings. A opção militar tampouco funcionará, mas não conte aos fantoches-agentes – eles não suportarão informação dessa natureza, sem sofrerem novos danos neurológicos extensos.
De volta à Grécia: a pequena Grécia com certeza não é a poderosa Rússia, mas mesmo assim se recusou a capitular ante as exigências do buraco negro financeiro. Recebeu ordens para destruir completamente a própria sociedade e a própria economia, como condição para manter a linha de dinheiro de sobrevida que lhe enviariam o FMI e o BCE.
Muito inconvenientemente para o buraco negro financeiro e seus fantoches, a Grécia não é algum obscuro país “de 3º mundo”, povoado de gente de pele escura com quem o buraco negro financeiro não quer que a filha dele case: é país europeu e berço da civilização e da democracia europeias. A Grécia conseguiu eleger governo que bem que tentou negociar em boa fé, mas os fantoches-agentes não negociam – eles ordenam, ameaçam e machucam até que chegar onde querem, ou até que a cabeça deles exploda.
Vai ser interessante assistir ao que vem por aí.
Se o buraco negro financeiro conseguir sugar a Grécia, que país virá depois dela? Itália, Espanha ou Portugal? E, com o processo a continuar, quando chegará o momento em que gente em quantidade suficiente decida que basta?

O jornalismo é também responsável pelo Buraco Negro

Porque quando gente em quantidade suficiente decidir que basta, o buraco negro financeiro se encolherá. Não é buraco negro verdadeiro, feito de matéria tão densa que o seu campo gravitacional segura tudo, até a luz. O buraco negro financeiro é buraco negro fake, constituído da ganância combinada de todos.
No âmago dele só há ganância. Ganância envolta em medo por todos os lados e ele se autossustenta alimentando-se de medo, cada vez de mais medo.
Se puder continuar a sugar pessoas, famílias, países inteiros, pode manter viva a ganância que tem no âmago. Mas se não puder, nesse caso a ganância também se converterá em medo, tudo se autoconsumirá e o buraco negro financeiro se terá autodevorado.
Espero que quando acontecer, todos os seus fantoches ruins-da-cabeça livrem-se dele, percebam o quanto estavam errados e quem sabem acham algo útil para fazer – criar ovelhas, plantar hortaliças, desenterrar caranguejos...

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Risco geofinanceiro depois das “guerras do Tesouro” e a direção dos fluxos de energia


16/4/2015, [*] Conflict’s Forum - Alastair Crooke, Valdai Discussion Club
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Risco ↔ Recompensa
Já é costume considerar os negócios de energia em termos de riscos políticos (governos falidos, agitação interna, etc.) e em termos de risco econômico convencional. E no passado considerava-se primordial avaliar o risco geopolítico. Entendia-se que a política determinava largamente as condições financeiras e de energia. Uma vinha depois da outra, e não mudava. Mas [esse modelo] será ainda apropriado hoje?
Talvez devamos começar a reavaliar – porque hoje, cada vez mais, é o risco geofinanceiro que está modelando o risco geopolítico.
Na circunstância especial do pós-guerra, a economia dos EUA efetivamente era a única economia desenvolvida que permanecia em pé (dominava 50% do comércio mundial); e os EUA podiam modelar as estruturas de Bretton Woods a favor da sua própria agenda – com o US$ na posição indiscutível de moeda global de reserva, e com influência dominante no FMI e no Banco Mundial. Assim os EUA conseguiram pegar para eles a governança econômica global.
Depois, passada a infeliz experiência dos EUA e suas intervenções militares decisivas por todo o mundo para manter seu controle sobre a ordem global, o Tesouro dos EUA passou a alavancar a posição privilegiada do dólar com o que se pode chamar de “guerras do Tesouro”. Usando com liberalidade, a favor de seus objetivos políticos a sua bomba (financeira) de nêutrons: a exclusão do comércio e do sistema financeiro baseados no dólar.
Hoje, temos guerra geofinanceira movida contra a Rússia (em menor extensão também contra a China) e o Irã, dentre outros. E a mesma ferramenta tem sido usada mais discretamente para deslocar chefes de governos europeus. Em resumo, as guerras do Tesouro tem usado guerra de informação, guerra psicológica, drones e “operações especiais” como ferramentas principais para manter o controle numa ordem global que se está desintegrando.
Guerra do Tesouro
A questão é que ao introduzir nova dimensão de risco, empurrando Rússia e China a desenvolver sistema de comércio e de trocas financeiras não baseado no dólar com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade desses dois estados à ação dos EUA na jurisdição do dólar, os EUA embarcaram numa competição que afetará todos – mas muito particularmente o Oriente Médio. Já se veem Irã, Turquia e Egito (três pilares do Oriente Médio) – por diferentes razões – já se transferindo para o bloco eurasiano do não dólar.
Inevitavelmente os fluxos de energia para o futuro serão afetados pelo resultado dessa “guerra” geofinanceira. Nada faz supor que o modelo de diferentes alianças geofinanceiras que emerge dessa ‘guerra’ venha a corresponder ao mapa político hoje existente (pós Guerra Fria).
O mais provável é que os dois lados venham a se “interpenetrar”. Por exemplo, no Oriente Médio, haverá vencedores e perdedores entre os produtores de energia: alguns estados da OPEP podem acabar num lado da guerra financeira, outros, no lado oposto.
O que faz aumentar os riscos (e a imprevisibilidade) dessa nova modalidade de guerra, é que acontece num momento em que as políticas de juros zero [ZIPR, zero interest rate policy] e de Alívio Quantitativo [QE, quantitative easing] criaram uma imensa dívida (US$ 9 trilhões) denominada em dólar e muito vulnerável a oscilação da taxa de câmbio – mas isso é, precisamente, o que temos hoje.
A “guerra” dos preços do petróleo contribuiu para as guerras da moeda: temos “guerra” de sanções operando ao lado da “guerra” das taxas de câmbio, ao lado das “guerras” da moeda e das “guerras” dos preços da energia – e tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que foi inflada uma das maiores bolhas de ativos na história, e que foi inflada pelo nosso tsunami, sem precedentes, de emissão de moeda.
"Quantitative Easing"+Alívio Quantitativo
Ninguém sabe o que resultará dessa mistura incendiária (a economia tradicional pouco pode ajudar) – mas o que é certo é que produtores e consumidores de energia, ambos, têm de examinar os riscos, de um ponto de vista radicalmente diferente.
Esse ponto de vista mistura a realidade da vulnerabilidade financeira sistêmica, com a dinâmica da guerra geofinanceira que alguns países estão fazendo, ao mesmo tempo em que outros países e regiões buscam escapar da hegemonia dos EUA, construindo contexto de não-dólar.
Não há dúvidas de que o mapa dos oleodutos futuros e a direção do fluxo do óleo que eles transportarão serão largamente determinados por essa guerra complexa. Haverá perdedores gigantes e vencedores idem.
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[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution fornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Guerra geofinanceira cria novos fatos geopolíticos em campo

O não sabido não sabido

24/2/2015, Comentário Semanal, [*] Conflicts Forum 26/12-2/1/2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“Morte da ordem mundial de Bretton Woods (...) e começo do fim do papel dos EUA como eixo central da economia global
(Bloomberg)



Barack Obama em 29/12/2014
Numa entrevista à NPR dia 29/12/2014, o presidente Obama disse da Rússia que:

(...) a economia deles já está contraindo e o capital já estava fugindo de lá mesmo antes do colapso do petróleo. Parte do nosso pensamento nesse processo foi que a única coisa que ainda mantinha a economia deles à tona era o preço do petróleo, disse o presidente Obama (itálicos nossos).

E Obama continuou:

Entendemos que, se fôssemos firmes na aplicação das sanções, como fomos, com o tempo as sanções tornariam a economia russa suficientemente vulnerável, a ponto de que, se houvesse dificuldades com o preço do petróleo (...) eles teriam enorme dificuldade para lidar com isso (...). Numa questão como a Ucrânia, temos de ser firmes contra os russos [como temos sido] ultimamente, a grande vantagem que nós temos sobre a Rússia é que temos uma economia dinâmica, vital, e eles não têm. Eles dependem de petróleo; nós dependemos de petróleo, iPads e filmes, e muito mais, a lista é longa.

Assim o próprio presidente mostrou as fundações que mantêm unido o arco da política externa dos EUA: é a guerra geofinanceira de vida ou morte contra a Rússia, que está definindo geoestrategicamente a política, particularmente para a Europa e o Oriente Médio. Muito depende do resultado dessa política – e de se esse “nosso pensamento” faz algum sentido ou se foi absolutamente mal construído.

Se está correta a análise na qual repousa essa política (a diversidade e a solidez da economia ocidental versus a pressuposta maior vulnerabilidade da Rússia a uma queda nos preços da energia), a economia russa enfraquecerá ou implodirá, mas, muito mais importante, a Rússia como visão de uma ordem global diferente e como desafiante potencial terá sofrido golpe possivelmente fatal – e aliados da Rússia (como Irã e Síria) terão sido enfraquecidos.

Mas, por outro lado, se o governo dos EUA errou no cálculo das próprias fragilidades – e das fragilidades da União Europeia – ao impacto de uma guerra dos preços do petróleo numa exposição do sistema financeiro ocidental, da ordem de (como se suspeita hoje) US$ 40 trilhões (dos quais se avalia que US$ 4 trilhões seriam dívidas derivadas especificamente dos negócios de energia assumidas pela meia dúzia de maiores bancos com sede nos EUA) – e que se crê que sejam apostas feitas na direção absolutamente contrária do que hoje se vê nos atuais preços do cru – nesse caso as consequências adversas, e que podem ser realmente devastadoras, podem operar na direção oposta à que os EUA calcularam, e para grave prejuízo do Ocidente. Em resumo, estamos envoltos nas incógnitas de uma aposta descomunal, que afetará todos nós.

Não temos intenção de discutir aqui as vulnerabilidades financeiras respectivas. Só queremos registrar que as forças e as fragilidades econômicas não são, nem estão, nem de longe, assim tão claramente demarcadas como o presidente Obama sugeriu – absolutamente não. O que interessa anotar aqui é que todo o sistema geopolítico já está em transformação, enquanto se desdobra aquele grande conflito geofinanceiro.


A base do sistema de Bretton Woods (o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, sobre os quais só os EUA e os EUA sozinhos têm poder de veto) já foi eclipsada. O FMI, vale a pena lembrar, deve atuar como emprestador de último recurso a países com problemas financeiros. Foi concebido para ser a ferramenta para disciplinamento e castigo dos imprudentes – e dos recalcitrantes. E o Banco Mundial e o Banco de Desenvolvimento da Ásia [orig. Asian Development Bank (ADB)] efetivamente dão a Wall Street (via o governo dos EUA) alavanca de tremendo poder, com a qual definir o modelo de desenvolvimento (mercado liberal) que se vê implantado pelo mundo.

Essas três instituições, mais o status de reserva exigido e aceito para a moeda dos EUA em Bretton Woods, têm sido as ferramentas com as quais os EUA mantiveram seu controle sobre a ordem global. A ferramenta mais nova, assiduamente polida e repolida pelo Tesouro dos EUA, tem sido alegação de que qualquer e todas as transações denominadas em dólar norte-americano, não importa onde ocorra, está sob jurisdição dos EUA e, portanto, está sujeita à lei doméstica norte-americana e aos castigos ali previstos.

Na semana de meados de dezembro (dias 15 e 16/12/2014), viu-se o rublo cair mais de 10% em cada um desses dias, o que disparou parágrafos infindáveis em todo o “comentariato” ocidental, de que a Rússia estaria implodindo, e que a implosão rapidamente arrancaria Putin do poder, dois eventos saudados com insopitável alegria no ocidente. Até que se viu que o desenvolvimento real – altamente significativo, além de tectônico – era bem outro.

No passado, qualquer ataque à moeda, como aconteceu contra a libra esterlina em 1992, sempre acabou em visita humilhante ao FMI, de chapéu na mão (depois de todas as reservas em moedas estrangeiras já terem sido exauridas).

Queda do rublo (até 16/12/2014)
Agora, diferente daquilo, o rublo estabilizou-se em pouco menos de 60:US$1, depois de ter chegado perto dos 80. Um ministro de relações exteriores da China disse mais tarde, na mesma semana, que seu governo preocupou-se com o que viam acontecer com as moedas de Mercados Emergentes, e assustou-se ante o colapso do rublo. Confirmou que a China havia “ajudado nossa amiga Rússia”:“Se o lado russo precisa, temos de garantir todo o apoio que pudermos” – disse o ministro chinês. Antes, outros funcionários chineses já haviam proposto à Rússia implementar acordos de swap já negociados pelos dois estados, mas parece que a China, sempre mão-aberta, já intervira para estabilizar o rublo.

Em resumo: a China, não o FMI, operou como emprestador de último recurso. Fez as funções do FMI, mas ser os “cordões” que ligam o fantoche FMI a operadores norte-americanos.

Numa coluna em Bloomberg, lia-se, redigido em tom de tédio, como se a notícia fosse rotina:

Graças à China, Christine Lagarde do FMI, Jim Yong Kim do Banco Mundial e Takehiko Nakao do Banco de Desenvolvimento da Ásia podem ficar sem o importante emprego que têm hoje. O movimento de Pequim para resgatar  a Rússia, depois da recente ajuda chinesa também à Venezuela e à Argentina, assinala a morte do mundo do Bretton Woods do pós-guerra. Marca também o início do fim do papel dos EUA como eixo da economia global, e o fim da influência do Japão na Ásia. E o que é o novo Banco Asiático de Infraestrutura da China além de puro veneno para matar o Banco de Desenvolvimento da Ásia?

E o que é – pode-se acrescentar – o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS [orig.BRICS’ New Development Bank (NDB)], se não uma ponte para contornar as doutrinas neoliberais do Banco Mundial para os Mercados Emergentes?

Tenha ou não a “corrida” contra o rublo sido “inspirada” num daqueles almoços informais que o Tesouro oferece em New York para insiders de Wall Street (como acreditam alguns), ou mesmo que tenha sido “aposta” espontânea de instituições financeiras, o essencial não muda. Todos os que meteram a mão no rublo dia 15/12/2014 queimaram os dedos, e a China obteve ganhos consideráveis, porque tem “orçamento” gordo o suficiente para derrotar qualquer fundo especulativo ou qualquer “Soros” que só têm reles poucas centenas de bilhões de dólares para jogar. Não importa o que tenha sido tentado, a China pôs fim à jogatina. Com isso, a China mudou todos os fundamentos da situação real [Obama, sempre pernóstico, diria – se dissesse coisa com coisa – que a China mudou o “rationale in this process” :-D)))) (NTs)].

Relação Dívida/PIB da Rússia 2006 - 2014
Mas a Rússia, diferente do que reza o meme presidencial, já não é economia de um só produto: estudo recente mostra que a indústria da energia contribui com apenas 16% para o total das entradas nacionais, e em outros aspectos (razão dívida/PIB, déficit de 1% no orçamento, nível das reservas, etc.), a Rússia sai-se consideravelmente melhor que a maioria dos demais estados europeus, sobretudo desde que a China “apoia a fraqueza russa” (como “noticia” a imprensa-empresa norte-americana). Assim também, a política russa de deixar que o rublo espelhe a queda dos preços do petróleo, significa que as entradas de suas empresas de energia – em rublos – não caíram. Na verdade, até tiveram leve alta. Isso posto, é claro que a Rússia enfrenta sítio econômico continuado. A economia russa declinou 0,5% em novembro/2014 (mas crescera 0,6% entre jan.-out. 2014).

Mas o “rationale in this process” do presidente Obama – que sanções, mais colapso do preço do petróleo, poderiam tornar inadministrável a economia russa – enervou terrivelmente os europeus, que vivem em interdependência muito maior com a Rússia, que os EUA. O que realmente enfureceu a União Europeia foi o “ataque” ao rublo. Alguns bancos europeus ficariam massivamente expostos, no caso de a Rússia quebrar e dar calote em suas dívidas. Tal evento dispararia gravíssima crise financeira do euro que ainda está “cozinhando” sem explodir – com eleições na Grécia ainda por acontecer [houve eleições na Grécia dia 25/1/2015quase um mês depois de redigido esse artigo, com vitória da coligação Syriza, de esquerda (NTs)]. Consequentemente, a Europa está mudando de posição em relação à Rússia.

Federica Mogherini
Federica Mogherini (chefe da Política Externa da União Europeia) , em entrevista a La Repubblica dia 29/12/2014 disse claramente que:  

(...) a Europa quer encontrar campo de entendimento comum com a Rússia, e pôr fim à abordagem confrontacional e à guerra na Ucrânia. “Até em Kiev todos só querem ver o fim do conflito”.

A abordagem de Mogherini foi ecoada pelo Presidente Fischer da Áustria, que disse em entrevista a Wirtschaftsblatt:

A economia russa tem considerável grau de robustez, mas as sanções, sim, trazem problemas também consideráveis (...). Crise séria na Rússia e colapso econômico só criariam mais problemas. As portas entre Europa e Rússia têm de permanecer abertas no campo econômico. A abordagem segundo a qual mais e mais sanções deveriam ser aplicadas contra a Rússia até que estivesse “suficientemente enfraquecida” para ser obrigada a aceitar os “objetivos políticos” da União Europeia sempre foi errada.

A necessidade de a Europa atender aos seus próprios interesses, em vez de só obedecer ao que os EUA a mande fazer, foi também reforçada, quando Federica Mogherini chamou a atenção para o fato de que:

(...) dados recentes mostram que o comércio entre Rússia e Europa está declinando, ao mesmo tempo em que o comércio entre Rússia e EUA sóaumenta.

“Declinar” significa que a Alemanha exportou 22% a menos, para a Rússia, no mês de outubro. Grupos empresariais, normalmente forte apoiadores da chanceler Merkel, já estão alertando contra usarem-se meios econômicos contra o governo do presidente Putin:

O ocidente não tem interesse algum em desestabilizar a economia russa ou a política russa – escreveu o presidente de uma entidade que reúne empresários que mantêm negócios com o leste da Europa.

Mas essa mudança no modo de a Europa tratar a Rússia tem uma segunda linha, a qual, essa também, foi deixada bem clara na entrevista de Mogherini: a Europa está cada dia mais preocupada com a deterioração da situação no Oriente Médio, mais particularmente ao longo das margens sul do Mediterrâneo, da Síria à Líbia. Mogherini disse que:

(...) Todos nós sabemos que a Rússia tem papel importante não só na Ucrânia, mas também na Síria, Irã, Oriente Médio, Líbia. 

Russia e União Europeia - interesses comuns
Não há dúvidas de que a comissária de Relações Exteriores estava sugerindo que a União Europeia bem poderia começar a reparar os danos causados contra a Rússia, adotando o lado russo nas questões do Oriente Médio – lado com o qual são claros os interesses comuns – eque essa seria uma rota indireta pela qual a União Europeia poderia ter esperança de abrir diálogo mais produtivo com a Rússia, sobre a Ucrânia.

Os ministros europeus de Relações Exteriores reunidos dia 11/12/2014, viram possibilidades em tentar uma tática mista, essencialmente não política, apresentada pelo Enviado Especial da ONU, Di Mistura, de uma iniciativa para cessar-fogo local, acompanhando o programa dos russos para organizar a oposição interna síria e levá-la ao diálogo com representantes do governo sírio. Para aumentar as chances de a Rússia aceitar a União Europeia como intermediária para costurar as duas iniciativas, os ministros de Relações Exteriores determinaram que fossem deixadas de lado expressões como “Assad tem de sair” e toda a narrativa da exigência de “processo transicional já”.

A questão é: será que isso realmente levará a mudanças na super tensionada relação entre a Europa e a Rússia? Há possibilidades, apesar de os líderes russos se mostrarem profundamente decepcionados com a condução da diplomacia da União Europeia. Moscou tem sido muito cuidadosa no processo de deixar abertas portas diplomáticas para as questões do Oriente Médio (até ajudou recentemente os EUA, ao não extrair nenhuma vantagem política do erro político que os norte-americanos cometeram ao vetar um projeto de resolução no Conselho de Segurança que requeria reconhecimento para o Estado Palestino) – e dois Ministros de Relações Exteriores, Lavrov e Bogdanov tiveram o cuidado de afastar Washington da linha de tiro, naquela tentativa de encontrar solução política para a Síria.

Washington, embora sempre cética quanto às possibilidades das duas iniciativas (de Moscou e de Di Mistura), ficaria sem dúvida felicíssima se aparecesse algum “processo-em-nome-do-processo” para dar ocupação à oposição síria e, de algum modo, congelar pelo menos um aspecto do conflito interno – permitindo assim que os EUA mantenham-se concentrados na guerra do ISIL, aliviados das pressões que a Arábia Saudita tem feito sobre o governo norte-americano, além das pressões turcas e de críticos domésticos, que exigem que Obama “derrube Assad” como parte da “guerra contra o ISIL”, porque – dizem aqueles críticos – o sectarismo de Assad e Maliki seria a “causa” do surgimento do ISIL.

Norte da África e Oriente Médio registram ataques do ISIS/ISIL/EI
Assim se vê que, quanto às chances de a União Europeia inserir-se num relacionamento colaborativo com Moscou, mediante a iniciativa política que está tentando tomar na Síria, as principais objeções virão, nem tanto de Washington, mas mais de Riad. Implica dizer que as ideias de Moscou e as ideias de Di Mistura podem nem alçar voo em Riad ou Ancara.

Já se sabe que Di Mistura disse a ministros de Relações Exteriores da União Europeia que tinha o apoio implícito da Arábia Saudita. Mas Riad só faz repetir que “Assad tem de sair” e a Turquia continua a facilitar a entrada de jihadistas em território sírio.

Um segundo problema para a União Europeia, se tenta casar o cessar-fogo localizado e a iniciativa de Moscou, é que Lavrov é inteligente e esperto o suficiente para saber que estados membros da União Europeia, Grã-Bretanha e França não pararão de insistir em cessar-fogo “monitorado” por forças internacionais do CS-ONU, ou noutros mecanismos de monitoramento, sejam quais forem, desde que ligados ao CS-ONU”. Leia-se aí, sempre, a des-soberanização do estado, sob outro nome: a criação de “áreas proibidas” sob controle internacional às quais a soberania síria ficaria submetida – e que sempre poderiam ser “ampliadas”, até que o estado sírio soberano se tornasse apenas residual. Lavrov sempre terá de objetar a soluções desse tipo, dado que sabe que a soberania é linha vermelha para Damasco.

Entretanto, não é só no Oriente Médio que se poder ver a importância desse compreensível esforço da Europa para forjar relações não confrontacionais com a liderança russa: mais importante, para explicar esse esforço, é a Ucrânia.

Na entrevista do dia 29/12/2014, o presidente Obama explicou claramente seu rationale to the process :-D))))))) com a Rússia: é semelhante ao rationale to the process :-D))))))) com o Irã. A premissa é que quanto mais apertem as sanções, quanto mais coerção e chantagem financeira para enfraquecer a Rússia, e com o tempo, afinal os EUA terão condições para encarar “o Urso”.

É a velha fórmula de Reagan: minem as finanças da URSS e, com o tempo, a União Soviética entrará em crise de superdistensão econômica (na corrida armamentista e na guerra no Afeganistão nos anos 1980s).


Fato é que, apesar da narrativa dominante, de que a queda do preço do petróleo seria evento exclusivamente técnico, todo o mundo não ocidental já sabe que sempre foi, igualmente, arma política. Hoje é na Ucrânia, não mais no Afeganistão, onde os EUA tentam forçar a Rússia, não mais a União Soviética, a entrar em crise de superdistenção. É provável – bem diferente do que interessa à União Europeia, que querem muito encontrar solução pacífica naquela região – que Washington deseje fazer da Ucrânia um ponto de pressão econômica (além de política) eterna contra a Rússia.

Zbigniew Brzezinski
Como disse Brzezinski:

(...) a Ucrânia é posto avançado do ocidente para impedir a recriação da União Soviética. (...)

O presidente Putin compreende bem tudo isso.

“Analistas” e “jornalistas” ocidentais, adestrados por alguns políticos nos EUA e na Europa, gritarão que Putin forçou a bancarrota da Ucrânia, para também forçar à submissão os líderes ucranianos. As tensões e a retórica subirão. Haverá vozes a exigir mais e mais sanções contra a Rússia. Alguns, em Kiev tentarão extrair vantagens da situação, provocando confrontos no Donbass aos quais a Rússia terá responder militarmente [nesse ponto a “antecipação” erra: a Rússia não respondeu militarmente e os milicianos neonazistas de Kiev já foram derrotados no Donbass (NTs)].

Vladimir Putin
(...)

O problema aqui não é que a escalada na guerra venha a implodir a Rússia financeiramente ou politicamente, o que não acontecerá [nesse ponto a antecipação acerta (NTs)]. O verdadeiro risco, aqui, é que a continuação dessa guerra financeira é jogo arriscadíssimo para Washington, porque o “ocidente” pode resultar super alavancado, além de naufragado num tsunami de papéis podres e dívidas incobráveis desde 2008. De fato, essa escalada pode reverter, de pernas para o ar, toda a tal “rationale” 8-D)))))) de Obama.

Tudo isso para dizer que os EUA podem estar hoje mais vulneráveis a choques econômicos (o que se vê é que os “Quantitative Easing”, “alívio monetário contra o estresse do endividamento”, a volatilidade monetária e o dólar mantido forte custam peso caríssimo sobre dívida de trilhões denominada em dólares) do que a Rússia – com suas dívidas diminutas e muito ortodoxas. Aí está o não sabido não sabido.

O único sabido sabido é que a Europa é a parte mais vulnerável desses não sabidos não sabidos.
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Nota dos tradutores:

ATUALIZAÇÃO, 25/2/2014, Ekathimerini, Atenas:

Alexis Tsipras
Essencialmente, Alexis Tsipras terá de enfrentar dois grupos diferentes:

(1) de um lado estão os românticos que contavam com rompimento com a Eurozona, na firme fé de que isso legitimaria a Grécia para seguir modelo de crescimento latino-americano, não europeu. Esses combaterão contra o governo de Tsipras, porque entendem que foram traídos. E há também:

(2) os cínicos, que se escondem por trás de uma sacrossanta luta anti-resgate, por medo de que acabem privados do tipo de privilégios e da proteção que lhes permitiu enriquecer descabidamente, sem em nada contribuir para aumentar a produção grega. Essa gente quer que o país permaneça na Eurozona enquanto eles continuam a operar em ambiente de estilo dracma – em outras palavras, sem passar por qualquer tipo de controle ou fiscalização – ou voltar, mesmo, ao dracmas, para que possam continua a viver como nababos numa república de bananas super baratinha.

Se Tsipras e Varoufakis estão realmente dispostos a fazer valer o que escreveram no mais recente e-mail para a Eurozona, a batalha será feroz. Há quantidade imensa de dinheiro em jogo, e as margens de lucro são enormes..
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência”.
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.