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sábado, 13 de junho de 2015

Rússia liberta-se de sua velha Constituição humilhada


12/6/2015, Izvestija, traduzido do russo por Kristina Rus, in FortRuss
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Entreouvido na Toca do Xibiu na Vila Vudu:
Cróóóózes! Parece que a Constituição Russa [1] foi escrita pela Samantha Powers! [pano rápido]
 
Bandeira e capa da Constituição da Rússia
Um projeto de emenda ao preâmbulo da Constituição da Federação Russa foi apresentado ao Parlamento (Duma) russo.
Os deputados Evgeny Fedorov e Anton Romanov propõem ajustar “o rumo do país, em termos da relação da Rússia com o mundo”.  
Os dois deputados do partido “Rússia Unida” apresentaram ao Parlamento proposta de emenda à lei federal, obedecendo à tramitação que a lei obriga para emendas à Constituição.
A Constituição tem para nós valor máximo e o mais alto status, e no preâmbulo que há hoje carrega mensagem primária, simplória, uma formulação ideológica, que se impõe acima da Constituição. Não tem função diretiva, mas define a lógica geral de toda a Constituição, de toda a legislação em nosso país.
O ajuste que estamos propondo para o preâmbulo é um ajuste na rota geral de todo o nosso país – disse ao jornal Izvestia o deputado Fedorov. Nossa lei permite alterações no preâmbulo. Vamos modificá-lo e ajudar a mudar o rumo do país. Hoje, nada é mais necessário que essa mudança. Por exemplo, sobre o relacionamento da Rússia com o mundo.
O preâmbulo da Constituição Russa inclui formulação que não se vê em nenhuma outra constituição do planeta: diz que o povo russo é parte de comunidade maior.
Segundo o Deputado, não há esse tipo de provisão em nenhuma Constituição do mundo: algum tipo de declaração de que o povo que constrói uma determinada Constituição não é a maior unidade política a considerar naquela Constituição... Que haveria “comunidade maior”.
Deputado Evgeny Fedorov
O mesmo deputado Yevgeny Fedorov já propusera há algum tempo emendar a Constituição Russa para retirar as provisões constitucionais que declaram a prioridade da lei internacional sobre a lei nacional russa (?!); e proíbem qualquer tipo de ideologia de Estado.
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Nota dos tradutores
[1] A Constituição da Federação Russa hoje vigente é de 1993. Foi aprovada e adotada dia 25/12/1993, depois da crise constitucional que levou a um referendo. A Constituição Russa de 1993 substituiu a Constituição Russa de 1978, aprovada quando a Rússia ainda era parte da União Soviética e, portanto, sob o regime da Constituição Soviética de 1977. Ao que tudo indica alguma Samantha Powers de então redigiu essa Constituição que declara que a Rússia não é nação soberana, mas “parte de comunidade maior”. Santo Deus! A gente aqui morre e não viu tudo [comentado pelo pessoal da Vila Vudu].

domingo, 12 de abril de 2015

Os 45 anos finais do Império Anglo-Saxão

9/4/2015, [*] William Engdahl, Fort Russ, entrevista gravada por Sergey Pravosudov, Gazprom Magazine
Traduzido para o inglês por Kritina Rus e para português pelo pessoal da Vila Vudu



Em março desde ano, desencontrei-me, literalmente por uma semana, de William Engdahl, autor do notável “A Century of War” [Um século de guerra], livro e autor sobre os quais falei no meu antigo blog, antes mesmo de o livro ser lançado pela editora “Selado” em versão impressa.

Mesmo assim, embora não tenha podido encontrá-lo pessoalmente, consegui obter uma entrevista exclusiva com Engdahl para a revista Gazprom, gravada pelo editor-chefe Sergey Pravosudov.

Espero que o ponto de vista de um dos autores já clássicos do moderno jornalismo geopolítico ajude vocês a compreender os sempre repetidos “saltos” da geopolítica e da geoeconomia, e a extrair conclusões sobre essas repentinas mudanças na ordem mundial que se veem aí, diante de nossos olhos.

Para mim, a entrevista com William Engdahl é interessante, porque se trata de conhecido crítico da “Teoria do Pico do Petróleo”, que pessoalmente sempre me pareceu muito razoável e influente nos processos globais.

O mais interessante é que, apesar de partir de premissas quase diametralmente opostas, Engdahl chega a conclusões semelhantes, em alguns pontos idênticas, sobre o futuro dos processos globais.

Alex Ampilogov



Frederick William Engdahl

O economista e cientista político Frederick William Engdahl respondeu nossas perguntas.

Gazprom Magazine (GM) – Mr. Engdahl, em seu livro Um século de Guerra, o senhor oferece análise interessante dos eventos do século XX. Gostei especialmente do que o senhor escreveu sobre a crise de 1973, quando o petróleo subiu muito.

Frederick William Engdahl (FWE) – Em minha opinião, é óbvio que o aumento dos preços do petróleo não foi culpa exclusiva dos xeiques do petróleo, mas de EUA e Grã-Bretanha. Mais precisamente, dos bancos anglo-saxões, das empresas de petróleo e do complexo industrial militar. À altura de 1971, as reservas de ouro mal chegavam a um quarto das dívidas oficiais dos EUA. Isso, basicamente, significava que, se todos os proprietários de dólares exigissem o correspondente ouro, Washington não teria como pagar.

Quando anunciou (em 1971) aos proprietários estrangeiros de dólares que o papel que tinham nos cofres não mais seria trocado por ouro, o presidente Nixon “desligou os aparelhos” que mantinham viva a economia global. O comércio mundial, depois de 1971, converteu-se em mais uma arena de especulação com diferentes moedas.

Os reais autores da estratégia de Nixon estavam em influentes bancos comerciais, na City de Londres. Sir Siegmund Warburg, Edmond de Rothschild, Jocelyn Hambro e outros viram uma oportunidade gigante no movimento de Nixon separar-se do padrão ouro de Bretton Woods, no verão de 1971.

Depois de agosto de 1971, quando Henry Kissinger tornou-se conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, a política norte-americana dominante passou a ser controlar, não desenvolver economias, por todo o mundo. Durante os anos 1970s, passou a ser prioridade reduzir a população de países em desenvolvimento, e não, absolutamente, fazer qualquer transferência de tecnologias e estratégicas para o crescimento industrial local.

O Ministério das Finanças dos EUA firmou um acordo secreto com a Agência da Moeda [orig.Currency Agency] da Arábia Saudita, aprovado oficialmente em fevereiro de 1975. Por esse acordo, a massiva quantidade de dinheiro que os sauditas receberiam pela venda de petróleo teria de ser aplicada, toda ou quase toda, para pagar as dívidas do governo dos EUA. Um jovem banqueiro de banco de investimentos de Wall Street, David Mulford, foi mandado viver na Arábia Saudita, e tornou-se o principal “conselheiro de investimentos” no Banco Central da Arábia Saudita, encarregado de direcionar os petrodólares para os bancos “certos”, em Londres e New York, claro.

É preciso considerar com especial atenção o modo como a crise do petróleo afetou a Alemanha Ocidental. A economia alemã desenvolveu-se muito bem, os indicadores de crescimento industrial surpreenderam o mundo. Depois de 1971, quando os EUA pararam de devolver ouro em troca de dólar-papel, muitos países começaram a preferir receber pagamento em marcos alemães. Resultado disso, o marco ficou muito fortalecido contra o dólar; nos EUA esse fator passou a ser visto como ameaça.

Além disso, em 1969 o chanceler era o social-democrata Willy Brandt, que começava a seguir uma política de reaproximação com a URSS, na esfera econômica e na esfera política. Foi Brandt quem, em 1970, assinou o famoso acordo “gás-em-troca-de-gasodutos” [orig. Gas-Pipes]. E também, durante a guerra Israel-Árabes de 1973, Willy Brandt anunciou que a Alemanha Ocidental assumiria posição de neutralidade e proibiu os norte-americanos de usarem suas bases em território alemão para fornecer armas a Israel. Os EUA ignoraram a proibição. Resultado dela, contudo, a Alemanha, como outros países ocidentais sentiram o peso da “arma-petróleo”.

Claro que os EUA nunca perdoariam tal insubordinação, principalmente do país europeu que, desde a IIª Guerra Mundial, estava sob virtual ocupação por soldados norte-americanos. Em 1974 os efeitos da crise do petróleo levaram à falência vários bancos alemães; e ao enfraquecimento do marco alemão. O custo do petróleo importado pela Alemanha aumentou, em 1974, em cerca de inacreditáveis $17 bilhões de marcos alemães. Meio milhão de alemães ficaram desempregados. O choque desse repentino aumento de 400% no preço desse recurso básico de energia teve efeito devastador sobre a indústria, o transporte e a agricultura alemães.

Em 1974, Willy Brandt foi forçado a renunciar. Foi acusado de não ter sabido prever e enfrentar a crise do petróleo. E como se não bastasse, descobriu-se, “repentinamente”, que Günter Guilliom, conselheiro do Brandt, era agente da inteligência da Alemanha Oriental.

A vasta maioria das economias menos desenvolvidas do mundo, que não têm recursos significativos de petróleo, foram repentinamente forçadas a encarar um aumento inesperado e impossível para elas, de 400%, no custo das importações de energia, para nem falar no custo de produtos químicos e fertilizantes derivados do petróleo. A Índia, em 1973, tinha saldo positivo na balança comercial e vivia como saudável economia em desenvolvimento. Em1974, a Índia tinha, como reservas totais em moeda estrangeira, US$ 629 milhões, com as quais teria de pagar a conta anual de petróleo importado, de US$ 1,2 bilhões (mais que o dobro da moeda estrangeira disponível). Sudão, Paquistão, Filipinas, Tailândia e muitos outros países na África e na América Latina enfrentaram, em 1974, déficits sempre crescentes na balança de pagamentos. [1] No total, segundo o FMI, em 1974 os países em desenvolvimento tinham um déficit total na balança de pagamentos de US$ 35 bilhões, quantia gigantesca naqueles dias. Não surpreendentemente, esse déficit era quatro vezes maior que em 1973, i.e., era proporcional ao aumento nos preços do petróleo.

Ao mesmo tempo em que o choque do petróleo teve impacto devastador no crescimento industrial mundial, resultava em lucros gigantes para alguns círculos bem conhecidos: os maiores bancos em New York e Londres e para as “Sete Irmãs” – empresas de petróleo dos EUA e Grã-Bretanha. A maior parte dos lucros em dólar dos países da OPEP foi depositada em grandes bancos em Londres e New York, que operavam com dólares, como em todo o comércio internacional de petróleo.

Diferente da Alemanha, a Grã-Bretanha lucrou com a crise do petróleo. O aumento dos preços do petróleo tornou viável o desenvolvimento do campo de petróleo no Mar do Norte, e as empresas anglo-saxônicas conseguiram fazer bom dinheiro.

GM – Por que, em meados dos anos 1980s, os preços do petróleo caíram vertiginosamente?

FWE – Durante o governo Reagan, a prosperidade econômica dos EUA alicerçada em investimentos nas mais avançadas tecnologias industriais, acabou. O aço foi declarado o “cinturão de ferrugem” da indústria, usinas fabricantes de aço foram abandonadas. Onde “havia dinheiro”, construíram-se shopping centers, novos cassinos e hotéis de luxo.

Para financiar essa orgia durante essa bolha de especulação, praticamente durante todo o mandato de Reagan o dinheiro veio de fora. Ninguém jamais pensa sobre o fato de que, ao longo desses cinco curtos anos, pela primeira vez desde 1914 os EUA passaram, da posição de maior credor do planeta, para a posição de estado devedor. O crédito era “barato” e crescia exponencialmente. Famílias alcançaram níveis recorde de endividamento, para comprar casas, carros, carros de luxo. O governo endividou-se para financiar a diminuição da arrecadação e o aumento nos gastos militares do governo Reagan. Em 1983, o déficit anual em orçamento alcançou o nível sem precedentes de US$ 200 bilhões. Com um déficit recorde, cresceu a dívida nacional, enquanto os corretores de ações de Wall Street e seus clientes recebiam dividendos recordes. Os juros a pagar sobre o total da dívida do governo dos EUA, em seis anos, subiram de US$ 52 bilhões em 1980, quando Reagan chegou à presidência, para mais de US$ 142 bilhões em 1986 (1/5 de tudo que o estado arrecadava). Mas, apesar desses sinais tão preocupantes, o dinheiro continuava a sair da Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda, Japão, todos ansiosos para pôr a mão nos lucros de especulação no mercado imobiliário e no mercado financeiro. Em 1980, a soma da dívida pública e privada dos EUA chegou a US$ 3,9 trilhões. Ao final da década, chegou a US$ 10 trilhões.

Para qualquer pessoa com senso de história ou boa memória, tudo isso é bem familiar. Já acontecera nos “loucos anos 1920s” até 1929, quando o crash do mercado fez a roleta parar de repente. Quando, em 1985, nuvens de tempestade começaram a acumular-se no horizonte da economia dos EUA, ameaçando as ambições presidenciais do então vice-presidente George H. W. Bush, o petróleo, mais uma vez, lá estava, para fazer o papel de “salvador da pátria”. Apenas que, dessa vez, de modo muito diferente do que se vira nos choques do petróleo anglo-norte-americanos dos anos 1970s.

Obviamente, Washington raciocinou assim: “Se podemos fazer subir o preço, porque não poderíamos fazê-lo despencar, se é o que mais interessa aos nossos objetivos?”

A Arábia Saudita foi persuadida a entrar em modo de “choque de petróleo reverso” e a afogar, com seu petróleo, o deprimido mercado mundial. Na primavera de 1986, o preço OPEP do petróleo caiu como pedra, até abaixo de US$ 10 por barril, a partir de um preço médio de quase US$ 26 por barril apenas uns poucos meses antes. Em março de 1986, quando queda ainda maior nos preços do petróleo ameaçava já desestabilizar os interesses vitais, não só dos concorrentes independentes pequenos, mas das maiores empresas britânicas e norte-americanas de petróleo, George Bush Pai fez uma viagem secreta a Riad onde, como o comprovam inúmeras testemunhas, e disse ao rei Fahd que fizesse parar a queda do preço do petróleo. O Ministro do Petróleo de Arábia Saudita, Zaki Yamani, serviu com o bode expiatório conveniente para políticas inventadas em Washington, e os preços do petróleo estabilizaram-se num nível relativamente baixo, de US$ 14-US$ 16 por barril.

O Texas e outros estados produtores nos EUA entraram em depressão, mas a especulação imobiliária em outros estados subiu à estratosfera, e o mercado de ações entrou novamente em ascensão subindo a alturas estonteantes.

A queda nos preços do petróleo em 1986 deu origem a uma bolha especulativa, comparável à situação em 1927-1929 nos EUA. As taxas de juros caíram ainda mais, com o dinheiro sempre voando rumo à Bolsa de Valores em busca de grandes lucros. Nasceu então, e logo virou moda em Wall Street, uma nova perversão financeira – a compra de dívidas.

Em 1979, quando em plena segunda crise do petróleo Paul Volcker começou seu choque monetário, o governo contou 24 milhões de norte-americanos vivendo abaixo da linha de pobreza, definida essa linha em 6 mil dólares anuais. Em 1988, o número já crescera mais de 30% , para 32 milhões de pessoas.

Como nunca antes na história dos EUA a política tributária dos Reagan-Bush concentrara a riqueza do país em mãos de uma pequena elite. A partir de 1980, conforme estudo feito pela Comissão de Orçamento da Câmara de Deputados do Congresso dos EUA, a renda real dos 20% mais ricos dos EUA crescera 32%.

Apelo direto de Washington ao governo japonês do Primeiro-Ministro Nakasone, dizia que presidente do Partido Democrata, fosse quem fosse, agrediria o comércio nipo-norte-americano. Funcionou. Nakasone pressionou o Banco do Japão e o Ministério da Finança, para “amaciá-los”, torná-los mais flexíveis. As taxas de juro japonesas desde outubro de 1987 continuaram caindo, o que fazia com que ações e títulos dos EUA, bem como a propriedade imobiliária, aparecessem como investimentos relativamente “baratos”. Bilhões de dólares viajaram de Tóquio para os EUA. Durante o ano de 1988, o dólar permaneceu forte e Bush deu jeito de vencer as eleições contra o candidato do Partido Democrata, Dukakis. Para assegurar o apoio do Japão, Bush deu aos mais altos funcionários japoneses garantias privadas de que sua presidência faria melhorar as relações Japão-EUA.

GM – Qual o objetivo dos dois ataques dos EUA contra o Iraque?

FWE – Em 1990, o Iraque tinha enorme dívida externa e o governo dos EUA fizeram saber a Saddam Hussein que os EUA não se incomodariam se ele assaltasse o Kuwait. Mas, quando o Iraque invadiu o Kuwait, os EUA declararam guerra contra o Iraque. Importante a considerar, porque é traço característico: essa guerra foi financiada pelos aliados: Alemanha, Japão, Arábia Saudita e Kuwait, que pagaram US$ 54,5 bilhões aos norte-americanos. Como resultado, os EUA completaram a operação “Tempestade no Deserto” com lucro líquido de US$ 19 bilhões de dólares. Foi guerra necessária para que os EUA fortalecessem sua posição no Oriente Médio, e para ameaçar os aliados dos EUA na Europa e na Ásia. As causas da guerra de 2003 foram semelhantes.

GM – Por que os EUA permitiram declínio tão acentuado nos preços do petróleo no final do ano passado, se levou a uma drástica redução do investimento na produção do petróleo de xisto? Não poderiam, em vez disso, usar as conexões que têm com os terroristas, para organizar ataques aos campos de petróleo no Iraque, Nigéria, Angola, Argélia e outros países?

FWE – Sobre a questão do petróleo: a estratégia do Departamento de Estado dos EUA e daCIA é que a Arábia Saudita derrube os preços do petróleo, em primeiro lugar para pressionar Rússia, Irã e Venezuela. Não acho que tenham considerado qualquer efeito sobre o petróleo de xisto nos EUA, pelo menos inicialmente. Nunca subestime a estupidez das figuras chaves em Washington, tampouco a superestime. Acho que, nesse caso, o mais provável é que tenha avaliado que ExxonMobil, Chevron e British Petroleum conseguiriam sobreviver a seis meses de preços reduzidos. A indústria do petróleo de xisto, nos EUA são empresas médias e pequenas. O Big Oil nos EUA foi empurrado para o fundo do palco. Ano passado, a Shell definiu o investimento em petróleo de xisto como o maior erro da empresa, e saiu, antes de os preços caírem.

É possível que logo recomecem os ataques terroristas à infraestrutura e à capacidade de produção do petróleo. A estratégia de Washington é quebrar a Rússia. Essa é a missão da facção do complexo militar–industrial, Lockheed-Martin, Boeing, Raytheon, General Dynamics, etc. e bancos de Wall Street que querem destruir a Rússia por motivos geopolíticos.

Em termos geopolíticos, com a volta de Vladimir Putin à presidência, a Rússia passou a recusar-se a ajoelhar e rezar como vassalo do “ocidente”. A Rússia recusa-se a envolver-se em qualquer questão que afete a segurança do país, como mísseis de defesa e ataque nuclear preventivo aos EUA.

A cooperação econômica, política e militar entre a Rússia e os BRICS e entre a Rússia e a China representa ameaça à hegemonia da elite política dos EUA: uma Eurásia única economicamente e financeiramente, e militarmente independente (principalmente graças às capacidades militares da Rússia).

Há 20 anos, Washington eliminou todas as defesas de qualquer União Europeia independente que houvesse, com a assinatura do Tratado de Maastricht. Agora, a União Europeia está voltando a falar de constituir exército seu, independente da OTAN. Washington deu risada. Além do mais, a Rússia está cada vez mais atraente para a indústria alemã.

Segundo o diretor da empresa privada de inteligência norte-americana “Stratfor”, George Friedman, nos últimos cem anos a estratégia dos EUA foi impedir qualquer aproximação entre Rússia e Alemanha. Essa aproximação agora, em minha opinião, é a razão pela qual Washington convocou a Arábia Saudita para que encenasse o colapso nos preços do petróleo. Nada tem a ver com empresas de petróleo à beira da falência. Só tem a ver com as elites arruinadas do Império norte-americano: a Síria não trabalha para elas, o Egito não funciona a favor delas, a Turquia não funciona a favor delas, os países BRICS estão criando um novo banco de infraestrutura fora de qualquer controle pelo FMI e o Banco Mundial.

O que há é um bando de oligarcas norte-americanos tentando desesperadamente remendar os buracos no casco do “Titanic” deles. Mas nada poderá ajudá-los. O povo já ficou esperto demais.
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[1] Para ter ideia pálida do que foi o ano de 1974 no Brasil, ver: 16/3/1974 Folha de São Paulo em: “Toma posse o general Geisel: Esse é o ano da esperança”.
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência naPrinceton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Putin: o Grande-Mestre e o “ferrolho de ouro”


12/12/2014, Dmitry Kalinichenko, Investcafe.ru (trad. ao ing. Kristina Rus)

ЗАПАДНЫЙ КАПКАН ГРОССМЕЙСТЕРА ПУТИНА

Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu


O que os países BRICS, liderados por Rússia e China, estão fazendo atualmente é alterar realmente o papel e o status do dólar norte-americano no Sistema Monetário Global. De meio de pagamento derradeiro-essencial, e de derradeiro-essencial ativo para acumulação, a moeda nacional dos EUA, por ação conjunta de Moscou e Pequim, está convertida em simples meio de pagamento intermediário. Sua serventia é “fazer a ponte”, até ser trocado pelo derradeiro-essencial ativo financeiro: o ouro. É assim que o dólar norte-americano perde seu papel de derradeiro-essencial meio de pagamento e derradeiro-essencial ativo para acumulação ‒ e cede o trono a outro ativo monetário reverenciado, sem pátria ou nação ou aliados ou inimigos: o ouro.


Entreouvido quiosque do Frozô na Vila Vudu: “Não sei se é verdade, ou tudo mentira e só propaganda. Sei, com certeza, que o editorial da revista Época, do grupo Globo, ensinando privatização & ladroeira à moda da privataria tucana, é TOTALMENTE PROPAGANDA, vendida aos otários como se fosse jornalismo.

OK. É jornalismo de fascistização, mas, como diria qualquer fascista: “É jornalismo, uai!”

Daí concluo que “jornalismo democrático”, só se tiver boooooa propaganda/publicidade prôs dois, três, quatro, mil lados (mas, no mínimo, pra DOIS!). Na página de “Tendências & debates”, publicar-se-ia o besteirol lá de karké daqueles tucano-sem-votos iradinhos, na parte de cima (afinal, o jornal é deles, né?); e, na parte de baixo, esse artigo aí, do russo Dmitry Kalinichenko.O cara é advogado, dos que sabem muito de moeda & pregão & bolsa de valores, parecido com uns que as rádios paulistas entrevistam TOOOODAS as manhãs e depois repetem sem parar até à noite, pra eles dizerem como o dólar está forte e poderoso contra o real, o rublo...

Por que o “especialista” aí não pode ser entrevistado pela Jovem-Pan em Sampa?! Pourquoi pas?! Ou pela BandNews?! Só porque ele diz que o dólar tá é fodido, como fodidos estão os EUA e resto por lá por cima do Equador, do lado “ocidental”?!

Bóra traduzir e publicar. Todo mundo tem de ler. Depois a gente discute.

“Chegaremos à fartura!” (Stálin vive) [pano rápido]


Vladimir Putin e Xi Jinping
As acusações mais frequentes que o ocidente tem feito contra Putin têm a ver com ele ter prestado serviços à KGB. Portanto, é pessoa sanguinária e imoral. Tudo é culpa de Putin. Mas ninguém até hoje o declarou burro [como Kerry] ou doido [como o senador McCain].

Tudo que dizem contra o homem só faz enfatizar sua capacidade para pensar analiticamente e com objetividade, e para tomar decisões políticas e econômicas claras e equilibradas.

Seguidamente, a imprensa-empresa ocidental compara a capacidade do presidente Putin à habilidade dos Grandes-Mestres, capazes de jogar várias partidas simultâneas de xadrez em público. Desenvolvimentos recentes na economia dos EUA e do ocidente em geral permitem-nos concluir que nesse ponto, ao avaliar esses específicos traços da personalidade de Putin, a imprensa-empresa ocidental, finalmente, está absolutamente certa.

Por mais que Fox News e CNN, hoje, só façam repetir elogios aos sucessos econômicos do ocidente, a economia ocidental, levando à frente os EUA, está completamente presa na armadilha que Putin montou para ela, e ninguém no ocidente sabe como sair dessa arapuca. Quanto mais o ocidente esperneia tentando escapar, mais o ocidente se enreda na armadilha.

Qual é o destino realmente trágico no qual estão enredados o ocidente e os EUA? E por que a imprensa-empresa ocidental e os “especialistas” ocidentais midiáticos no campo da Economia mantêm o mais impenetrável silêncio sobre a coisa toda? Tentemos compreender no contexto da economia a essência dos eventos econômicos em curso, deixando de lado os fatores de moralismo, ética e geopolítica.

Depois de dar-se conta do fracasso de suas ações na Ucrânia, o ocidente, comandado pelos EUA, decidiu destruir a economia russa, fazendo desabar os preços do petróleo e também do gás, sabidamente itens principais de entradas no orçamento de exportações e fonte de recursos para recompor as reservas russas de ouro.

Deve-se observar que o principal fracasso do ocidente na Ucrânia não é nem militar nem político, mas, isso sim, não ter conseguido de Putin que ele aceitasse financiar o projeto ocidental da Ucrânia, à custa do orçamento da Federação Russa. E essa decisão de Putin tornou inviável o projeto ocidental no futuro próximo e inevitável.

De outra vez, sob o governo do presidente Reagan, esse tipo de movimento, de o ocidente baixar os preços do petróleo, teve “sucesso” e levou ao colapso da URSS. Mas a história não se repete sempre, e nunca do mesmo modo. Dessa vez, as coisas estão diferentes para o ocidente. A resposta de Putin ao ocidente parece mistura de xadrez com judô – quando você usa contra o inimigo a força que o inimigo usa contra você, com mínimo desgaste da força e dos recursos de quem se defenda. As reais políticas de Putin não são objeto de interesse da imprensa-empresa. Por isso, Putin pode manter-se sempre mais focado na eficiência, que em obter efeitos de impacto instantâneo e passageiro.

Poucos são os que compreendem o que Putin está fazendo nesse momento. E quase ninguém compreende o que ele fará na sequência.

Não importa o quanto pareça estranho, fato é que, hoje, a Rússia só está vendendo petróleo e gás a quem aceite pagar em ouro físico (Gráfico 1).



Putin não está espalhando a notícias aos quatro cantos do mundo. E, claro, ainda aceita dólares norte-americanos como meio de pagamento intermediário. Mas imediatamente converte todos os dólares que receba da venda de petróleo e gás, em ouro físico.

Para compreender, basta observar a dinâmica do crescimento das reservas russas em ouro, e comparar esse dado com o que a Federação Russa recebe da venda de petróleo e gás no mesmo período.

Além do mais, no 3º trimestre, as compras russas de ouro físico alcançaram o ponto máximo histórico, nível recorde. No 3º trimestre desse ano, a Rússia comprou a incrível quantidade de 55 toneladas de ouro. É mais que todo o ouro que há em todos os bancos centrais de todos os países (segundo dados oficiais) somados.

No total, os bancos centrais de todos os países do mundo compraram 93 toneladas de ouro no 3º trimestre de 2014. Foi o 15º trimestre consecutivo de compras líquidas de ouro, pelos bancos centrais. Das 93 toneladas de ouro que os bancos centrais de todo o mundo compraram nesse período, a “fatia” russa é de 55 toneladas (Gráfico 2)


Não faz muito tempo, cientistas britânicos já haviam chegado a uma conclusão, que foi publicada no relatório U.S. Geological. A saber: a Europa não conseguirá sobreviver sem a energia que compra da Rússia. Traduzido para qualquer idioma do mundo, significa: “O mundo não conseguirá sobreviver, se o petróleo e o gás russos forem excluídos da massa global de oferta de energia”.

Implica, pois, que o mundo ocidental, construído sobre a hegemonia do petrodólar, está em situação catastrófica. Não sabe sobreviver sem o petróleo e o gás que recebe da Rússia, e agora a Rússia só se interessa por vender petróleo e gás ao ocidente em troca de ouro físico. O “truque”, na jogada de Putin, é que o mecanismo para a venda de energia ao ocidente em troca de ouro funciona sempre, mesmo quando, como agora, o ocidente pague pelo gás e petróleo russos com o seu dólar artificialmente desvalorizado.

Porque a Rússia, tendo fluxo regular de dólares da venda de petróleo e gás, em todos os casos, sempre, pode converter os dólares em ouro aos preços atuais, que o ocidente oferece a preços deprimidos. Quer dizer, com o preço do ouro, que foi artificial e meticulosamente rebaixado várias vezes pelo Fed e pelo Fundo de Estabilização do Câmbio, departamento especial do governo dos EUA (Exchange Stabilization Fund, ESF), contra o poder de compra artificialmente inflado do dólar mediante a manipulação dos mercados.

Fato relevante: Desde 2012, a manipulação dos preços do ouro para baixo, pelo Fundo de Estabilização do Câmbio, departamento especial do governo dos EUA – com o objetivo de estabilizar o dólar – foi convertida em lei nos EUA.

No mundo financeiro aceita-se como dado indiscutível que o ouro é um antidólar.

Em 1971, o presidente Nixon dos EUA fechou a “janela ouro”, pondo fim ao livre câmbio de dólares por ouro, garantido pelos EUA em 1944 em Bretton Woods.

Em 2014, o presidente Putin da Rússia reabriu a “janela ouro” – sem pedir licença a Washington.

Atualmente, o ocidente consome muito de seus esforços e recursos para manter deprimidos os preços do ouro e do petróleo. Por um lado, para distorcer a realidade econômica a favor do dólar norte-americano; por outro lado, para destruir a economia russa, que se recusa a fazer o papel de vassalo obediente do Ocidente.

Hoje, ativos como ouro e petróleo parecem proporcionalmente enfraquecidos e excessivamente desvalorizados contra o dólar norte-americano. É efeito do enorme esforço econômico que o ocidente está fazendo.

E agora Putin vende recursos energéticos russos em troca desses dólares artificialmente inflados por esforços do ocidente. Com os dólares inflados, ele imediatamente compra ouro, artificialmente desvalorizado em relação ao dólar dos EUA... por empenho do próprio ocidente!

Há mais um elemento interessante no jogo de Putin. É o urânio russo. 1/6 de todas as lâmpadas que há nos EUA dependem do suprimento russo de urânio. Que a Rússia vende aos EUA em troca de dólares, é claro.

Em troca do óleo, do gás e do urânio russos, o ocidente paga à Rússia em dólares, moeda cujo poder de compra está artificialmente inflado contra o petróleo e o ouro, por efeito de esforços do ocidente. Mas Putin usa os mesmos dólares para tirar ouro do ocidente, pelo preço em dólares norte-americanos que o próprio ocidente baixou tanto!

Assim, nessa dança e contradança brilhantes, Putin põe o ocidente, com os EUA à frente, na posição da cobra que furiosamente, agressivamente e aplicadamente vai devorando o próprio rabo.

A ideia dessa armadilha econômica para “segurar” o ocidente pode, muito provavelmente, ter saído da cabeça do próprio Putin. Mais provavelmente, foi ideia do Dr. Sergey Glazyev, Conselheiro da presidência russa para Questões Econômicas. Se não por isso, por que Glazyev, burocrata sem envolvimento no mundo comercial-empresarial, foi incluído, com vários empresários russos, na lista das sanções de Washington? E a ideia do economista foi brilhantemente aplicada por Putin, completamente apoiada por seu colega chinês – XI Jinping.

Particularmente interessante, nesse contexto, é a declaração feita em novembro, pela primeira vice-presidente do Banco Central da Rússia (BCR), Ksenia Yudaeva, que disse que BCR pode usar o ouro das reservas para pagar por importações, sendo necessário. Claro que, no que tenha a ver com as sanções, a declaração visa aos países BRICS, em primeiro lugar à China. Para a Rússia, a disposição dos russos de servir-se do ouro ocidental para pagar por importações, é altamente conveniente. Eis por quê:

– Recentemente, a China anunciou que deixaria de ampliar suas reservas em ativos denominados em dólares norte-americanos. Considerando o crescente déficit comercial entre EUA e China (a diferença hoje é cinco vezes, favorável à China), essa declaração, traduzida do idioma financeiro, significa: “A China parou de aceitar dólares em pagamento pelo que exporta”.

A imprensa-empresa mundial escolhe não noticiar esse que é o mais importante “evento” de toda a história monetária recente. A questão não é que a China literalmente se recuse a vender seus produtos para receber em dólares norte-americanos. É claro que a China continuará a aceitar dólares norte-americanos como pagamento “intermediário” por seus bens. Mas, recebidos os dólares, a China imediatamente cuidará de livrar-se deles e de substituí-lo por algo com mais “substância” nas suas reservas ouro e moedas.

Se não se assume tudo isso, não há como compreender as recentes declarações das autoridades monetárias chinesas: “Estamos detendo o crescimento de nossas reservas ouro e monetárias denominadas em dólares norte-americanos”. Significa que a China não mais comprará bônus do Tesouro dos EUA em troca de dólares armazenados do comércio com outros países, como fazia.


A China substituirá todos os dólares que receberá pelos bens vendidos, não aos EUA, mas ao mundo todo, com algo que não é denominado em dólares norte-americanos. A pergunta seguinte é interessante: com o que a China substituirá todos os dólares de seus negócios? Com que moeda, com que tipo de ativo? Análises da atual política monetária chinesa mostram que muito provavelmente os dólares que venham do comércio, ou parte considerável deles, a China os substituirá em silêncio – de fato, já estão sendo substituídos – por Ouro.

Nesse aspecto, a parceria solitária de russos e chineses é extremamente bem-sucedida para Moscou e para Pequim. A Rússia compra bens da China pelos quais paga diretamente em ouro, aos preços atuais. E a China compra recursos energéticos russos pelos quais paga diretamente em ouro, aos preços atuais. Nesse festival de celebração da vida entre russos e chineses, há espaço para tudo: bens chineses, recursos energéticos russos e ouro – como meio de pagamento nas duas direções. O dólar norte-americano é a única moeda que não tem lugar nesse festival de celebração da vida e da paz.

De fato, não é surpresa. Afinal, o dólar norte-americano não é nem produto chinês, nem recurso energético russo. Não passa de instrumento financeiro intermediário de quitação – e intermediário desnecessário.

Todos os intermediários desnecessários sempre serão, como sempre foram, excluídos de qualquer interação entre parceiros comerciais independentes.

Deve-se observar à parte que o mercado global para ouro físico é extremamente restrito, se comparado ao mercado mundial para petróleo físico. E o mercado para ouro físico é microscópico, comparado à totalidade dos mercados mundiais para entregas físicas de petróleo, gás, urânio e bens manufaturados. Repete-se sempre a expressão “ouro físico”, porque, no pagamento em vendas de recursos de energia, a Rússia não recebe recursos energéticos “de papel”. A Rússia está extraindo ouro do oriente, sempre em sua forma física, não na forma “papel”. É o que a China obtém, ao receber do ocidente o ouro “físico” desvalorizado, como pagamento por entrega física de produtos reais ao ocidente.

As esperanças do ocidente, de que China e Rússia aceitariam, para pagamento por bens e recursos energéticos, as chamadas moedas-merda, “merda-coin” [orig. shitcoin] ou o chamado “papel-ouro” de vários tipos, não se realizaram. À Rússia e à China só interessa o ouro, e como metal físico, como meio final de pagamento.

PARA REFERÊNCIA: O turnover do mercado de papel ouro, só de ouro futuro, é estimado em US$ 360 bilhões/mês. Mas a entrega de ouro físico é de apenas US$ 280 milhões/mês. A proporção entre papel-ouro e ouro físico é de 1.000:1.

Ao servir-se do mecanismo de retirar ativamente do mercado, um ativo financeiro artificialmente desvalorizado pelo ocidente (ouro), em troca de outro ativo financeiro, mas artificialmente sobrevalorizado pelo ocidente (o dólar norte-americano), Putin iniciou a contagem regressiva que leva ao fim da hegemonia mundial do petrodólar. E Putin empurrou o ocidente para um impasse, porque não há nenhuma perspectiva econômica positiva.

O ocidente pode consumir quantos esforços e recursos deseje para engordar artificialmente o poder de compra do dólar, baixar os preços do petróleo e baixar artificialmente o poder de compra do dólar. O problema, para o ocidente, é que os estoques de ouro físico que hoje estão no ocidente não são ilimitados. Assim sendo, quanto mais o ocidente desvalorize o petróleo e o ouro em relação ao dólar norte-americano, mais depressa o ocidente perde, porque desvaloriza o ouro que guarda em suas reservas finitas.

Nessa jogada brilhante de combinação econômica que Putin ativou, o ouro físico que sai das reservas ocidentais está rapidamente fluindo para Rússia, China, Brasil, Cazaquistão e Índia, os países BRICS. Ao ritmo atual de redução de reservas de ouro físico, o ocidente simplesmente não tem tempo para fazer qualquer coisa contra a Rússia de Putin, antes do desabamento e colapso de todo o mundo do petrodólar ocidental. No xadrez contra o relógio, a situação em que Putin meteu o ocidente – com os EUA à frente – chama-se “falta de tempo”, em alemão Zeitnot.

O mundo ocidental jamais antes assistiu aos eventos e fenômenos econômicos aos quais assistem hoje. A URSS vendeu ouro rapidamente quando os preços do petróleo desceram. A Rússia rapidamente compra ouro quando os preços do petróleo descem. Implica que a Rússia impõe hoje ameaça real contra o modelo norte-americano de dominação mundial pelo petrodólar.

O princípio chave do modelo do petrodólar mundial é permitir que os países ocidentais liderados pelos EUA vivessem à custa do sangue, do trabalho e dos recursos de outros países e povos, a partir do papel que tem a moeda norte-americana, dominante no sistema monetário global (SMG). O papel do dólar norte-americano no SMG é que é (ou foi) o meio derradeiro de pagamento. Significa que a moeda nacional dos EUA, na estrutura do SMG, é (ou foi) o derradeiro ativo para acumulação, que não faria jamais sentido cambiar por qualquer outro ativo.

BRICS
O que os países BRICS, liderados por Rússia e China, estão fazendo atualmente é alterar realmente o papel e o status do dólar norte-americano no Sistema Monetário Global. De meio de pagamento derradeiro-essencial, e de derradeiro-essencial ativo para acumulação, a moeda nacional dos EUA, por ação conjunta de Moscou e Pequim, está convertida em nada além de meio de pagamento intermediário. Sua serventia é “fazer a ponte”, até ser trocado pelo derradeiro-essencial ativo financeiro: o ouro. É assim que o dólar norte-americano perde seu papel de derradeiro-essencial meio de pagamento e derradeiro-essencial ativo para acumulação – e cede o trono a outro ativo monetário reverenciado, sem pátria ou nação ou aliados ou inimigos: o ouro.

Tradicionalmente, o ocidente sempre usou dois métodos para eliminar qualquer ameaça contra a hegemonia do modelo do petrodólar no mundo e todos os descabidos privilégios para o ocidente. Um desses métodos: as revoluções “coloridas”. O segundo método, comumente aplicado pelo ocidente quando falha o primeiro: agressão militar e bombardeio.

Mas no caso da Rússia esses dois métodos são ou impossíveis ou inaceitáveis no ocidente.

Porque, em primeiro lugar, a população da Rússia, diferente de muitos outros povos, não deseja trocar a própria independência e o futuro dos próprios filhos, pelos sanduichões apodrecidos que o ocidente chama de comida. Vê-se bem claro, pelos índices de aprovação de Putin, que as grandes agências ocidentais não se cansam de ‘pesquisar’ e, depois, têm de publicar.

A descoberta de que Alexei Navalny mantém relações estreitíssimas com o Senador McCain e com Washington derrubou toda a credibilidade que tivesse. A notícia do relacionamento entre eles foi assunto de noticiário.

Na sequência, 98% da população russa passou a ver Navalny [vive de denunciar “corrupções”, até agora sem qualquer prova contra Putin, e chegou a ser uma espécie de Aécim russo – embora mais rico, muito mais bonito e muuuuuuuito mais macho que o minerin (NTs)], apenas como sabujo, fantoche e vassalo de Washington e traidor dos interesses nacionais dos russos. E os “especialistas” ocidentais que ainda não enlouqueceram totalmente sabem perfeitamente que “revolução colorida” nunca funcionará no caso da Rússia.

Quanto ao segundo modo tradicional ocidental, da agressão militar direta, evidentemente Rússia não é Iugoslávia, nem Iraque nem Líbia. Em qualquer operação militar não nuclear contra a Rússia, em território russo, o ocidente, com os EUA à frente, estão condenados ao mais fragoroso desastre. E os generais do Pentágono, que são os comandantes de fato das forças da OTAN, já sabem disso.

Ataque nuclear à Rússia também é sem esperanças, inclusive o chamado “ataque nuclear preventivo para desarme”. A OTAN é simplesmente incapaz, em termos técnicos, de lançar qualquer ataque que desarmasse completamente todo o potencial nuclear da Rússia em suas diferentes manifestações. Um ataque massivo nuclear de retaliação contra inimigo ou pool de inimigos atacantes é absolutamente incontornável, se a Rússia for atacada. E a capacidade nuclear total dos russos é suficiente para que os sobreviventes invejem a sorte dos mortos.

Assim se esclarece suficientemente que atacar com armamento nuclear um país como a Rússia não é solução a ser considerada, para resolver o “problema” do colapso do mundo do petrodólar. No melhor dos casos, seria um último acorde no funeral do petrodólar. No pior dos casos, um inverno atômico, o fim da vida no planeta Terra, que ficará entregue a bactérias alteradas pela radiação.

O establishment econômico ocidental sabe e compreende a essência da situação, gravíssima e sem saída, em que o ocidente acabou preso, na armadilha com ferrolho de ouro que Putin urdiu. Afinal de contas, desde os acordos de Bretton Woods todos conhecemos a regra fundamental: “Quem tem mais ouro fixa a regra fundamental.” Mas ninguém, no ocidente, fala sobre a coisa. Não porque o ocidente não saiba onde está metido. Mas porque ninguém no ocidente sabe como o ocidente se safará, se safar-se.

Se se explicar ao público ocidental todos os detalhes do desastre econômico que se aproxima, o povo perguntará aos apoiadores do mundo do petrodólar a mais terrível das perguntas, que se pode formular mais ou menos assim:

– E por quanto tempo o ocidente consegue continuar a comprar petróleo e gás da Rússia e pagar com ouro físico?

E o que acontecerá ao petrodólar norte-americano depois que acabar o ouro físico no ocidente para pagar pelo petróleo, pelo gás e pelo urânio russos, além de outros produtos russos?

Ninguém no ocidente hoje sabe responder essas duas perguntas aparentemente simplíssimas. O nome técnico é xeque-mate, senhoras e senhores. 

Fim de jogo. 

A brincadeira acabou