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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Venezuela, 2014: “EUA apoiaram os opositores violentos”

17/2/2014, [*] Eva Golinger (entrevista à  Juan Manuel Karg, Tiempo Argentino)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Eva Golinger
Filha de família venezuelana, Eva Golinger [*] nasceu em New York em 1973. Premiada várias vezes por suas pesquisas acadêmicas, estuda atualmente a ingerência dos EUA na Venezuela e em outros países da América Latina. É conhecida por seus livros, dentre outros El código Chávez y La agresión permanente, [1] no qual decifra a vinculação das agências norte-americanas USAID e NED com várias tentativas de desestabilizar a Venezuela. Tiempo Argentino (TA) entrevistou-a, com exclusividade, para ouvir sua opinião sobre os eventos recentes na Venezuela, as semelhanças com a tentativa de golpe de estado de 2002, diferenças na oposição, solidariedade continental com o governo de Maduro e a ligação entre esses fatos e o momento econômico pelo qual a Venezuela está passando.

TA – Depois da violência durante uma manifestação da oposição, o oficialismo rapidamente denunciou que Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao e que, em 2002, assinou o Decreto Carmona, estava por trás daquilo. O Decreto Carmona suprimiu as garantias constitucionais e “formalizou”  o golpe de Estado. Qual sua opinião sobre tudo isso? A senhora vê alguma relação entre o golpe de 2002 e o que houve 4ª-feira passada (12/2/2014)?

Leopoldo López
Eva Golinger – Há semelhança muito contundente entre o que se passa hoje na Venezuela e o golpe de Estado em abril de 2002 contra o presidente Hugo Chávez. Por exemplo, durante o golpe de 2002, os veículos da imprensa-empresa privada tiveram papel protagonista, distorcendo os fatos e “desnoticiando” o que se passava no país, tanto nacional como internacionalmente, para justificar qualquer tipo de ação contra o governo. Usaram franco-atiradores para matar chavistas e opositores nas ruas durante as manifestações, e tudo passou a ser manipulado para responsabilizar o governo pelo massacre.

O governo dos EUA condenou imediatamente o governo de Chávez, condenação que se baseou nas mentiras publicadas, e também imediatamente reconhecer o governo dos golpistas, que só permaneceu dois dias no poder, de 11 a 13 de abril. De fato, Washington havia apoiado o golpe desde o início, inclusive com dinheiro para os grupos envolvidos, e ajuda de equipamentos militares e de estrategistas políticos e de comunicações.

Agora, se vê algo parecido com os veículos da imprensa-empresa privada na Venezuela, e também os meios internacionais, que mentem sem parar sobre a violência, culpando o governo de Nicolás Maduro por tudo que acontece, quando, na realidade, são os manifestantes da oposição que estão provocando toda a violência. Nas manifestações de 12/2/2014 houve três mortos, opositores e chavistas. As autoridades venezuelanas já informaram que dois desses jovens – um chavista e um opositor – foram mortos por tiros que partiram da mesma arma. É claro que isso sugere a presença de um franco-atirador ou de um agente infiltrado para matar gente dos dois lados e, assim, provocar mais violência de um lado contra o outro.

Nicolás Maduro caminha com o povo venezuelano
Já se sabe também que os veículos internacionais estão divulgando imagens de protestos e atos de repressão em outros países (Grécia, Cingapura, Chile, Egito, Argentina – em 2001) e noticiando que seriam imagens da Venezuela, para divulgar uma falsa imagem do governo venezuelano como repressor.

Mas o governo dos EUA apoiou os opositores violentos desde o início – com dinheiro e apoio político. O Departamento de Estado já fez declarações “condenando” o governo de Maduro por uma suposta repressão contra os manifestantes e exortando que “respeite os seus direitos humanos”.

Nada poderia ser mais hipócrita, porque nos EUA o estado jamais permitiu manifestações tão violentas como as que a oposição está fazendo na Venezuela, bloqueando estradas, destruindo edifícios públicos, queimando lixo e pneus nas ruas, lançando coquetéis molotov.

Os envolvidos nas atuais manifestações e em abril de 2002 também são os mesmos. Gente como Leopoldo López, radical de extrema direita, que sempre esteve por trás de atos de violência contra o governo Chávez, agora contra o governo de Maduro. Em abril de 2002, López era prefeito de Chacao, em Caracas. Hoje, ele e outra dirigente da extrema direita, María Corina Machado – que também estava ativa no golpe de 2002 e assinou o decreto do ditador Pedro Carmona, que dissolveu todas as instituições do país – são os responsáveis pela “nova” violência. Passaram meses convocando seus seguidores para tomarem as ruas e derrotar o presidente Maduro. Disseram, até, publicamente, que a saída para o governo não é “eleitoral”.

A grande diferença entre 2002 e hoje são os personagens das ações: hoje são grupos de jovens e estudantes; e em 2002 eram os próprios políticos que antes haviam estado no poder. Sim, os jovens opositores vem, principalmente, da classe média e da classe alta. Não estão na rua para lutar por direitos populares. O que querem é tomar o poder do povo para “devolvê-lo” às grandes empresas e às elites ricas. E muitos deles fizeram parte de ONGs que recebem centenas de milhares de dólares das agências de Washington ao longo dos últimos sete anos, com o objetivo de treiná-los e formá-los nas táticas e estratégias de desestabilização, para derrotar o governo e pôr aqui um governo que favoreça os interesses dos EUA.

TA – Depois dos eventos da 4ª-feira (12/2/2014), vê-se que a oposição conservadora parece seguir duas linhas diferentes. Uma, pode-se dizer, “mais dialoguista”, com Capriles e Falcón, que denunciam o governo, mas têm medo de voltar às ruas; e outra, ainda mais de direita, encabeçada por López e Machado, que quer continuar com os protestos e a confrontação. A que se deve essa mudança na tática de alguns setores da oposição, depois da derrota de dezembro passado? Terão escolhido “outra via” para tentar derrotar Maduro?

Eva Golinger – Sempre houve divisões entre os setores da oposição. Eles não são partido unido, nem partilham a mesma ideologia, como é o caso dos chavistas e do chavismo. Há mais de 20 partidos diferentes na oposição, além das ONGs e outros grupos, cada um com agenda própria. A única ideia comum a todos é o desejo de derrubar o chavismo, agora o governo de Nicolás Maduro. Mas daí a apresentar qualquer alternativa de governo ou modo de governar, que reúna todos esses grupos, não, não há, e jamais houve, em 15 anos.

Henrique Capriles
Então vivem a operar táticas diferentes, novos “alinhamentos” para a “luta” política deles. Faz alguns meses, Capriles levou seus seguidores à mais extrema violência, quando foi derrotado nas eleições presidenciais, e Maduro foi eleito, em abril de 2013. Mas quando a ação dele resultou na morte de 11 pessoas e teve alto custo político para ele, Capriles baixou o tom. Outros, como Antonio Ledezma, atual prefeito metropolitano da Grande Caracas, que também já tentou convocar golpes, agora está interessado em não perder o poder que tem hoje, para talvez concorrer à presidência, daqui a alguns anos. Quer dizer: cada um tem sua própria agenda.

López e Machado estão mais desesperados: os dois querem ser presidentes “já”; mas a verdade é que têm poder político muito limitado.

TA – A Chancelaria da Venezuela recebeu inúmeras manifestações de solidariedade com a Revolução Bolivariana, ante os eventos desses dias. Argentina, Brasil, Equador, Bolívia, Nicarágua e Cuba manifestaram seu apoio ao governo de Maduro, contra as tentativas de “desestabilizá-lo”. A senhora acredita que o momento político da América Latina e Caribe, com maioria de governos pós-liberais, torna menos provável um golpe de estado na Venezuela?

Eva Golinger – Acredito que, certamente, a união, a força, a consciência da própria soberania que se vê hoje na América Latina, graças aos esforços e ao impulso que lhes deu o presidente Hugo Chávez, serve como principal anteparo e como proteção para os governos democráticos da região. As mostras de solidariedade e apoio, vindas de países da região, ao governo de Maduro comprovam essa força. E não é a primeira vez que a união e a solidariedade regional impedem um golpe de estado por aqui, contra governo progressista: já aconteceu na Bolívia em 2008 e no Equador em 2010. Agora, o apoio oferecido à Venezuela mostra que a região não aceitará outro golpe ou ruptura constitucional contra governo democrático, e isso é muito importante.

O MERCOSUL repudia a tentativa de golpe

Os Estados-membros do MERCOSUL emitiram comunicado conjunto sobre a situação na Venezuela, no qual

(...) repudiam todo tipo de violência e intolerância que visem a atentar contra a democracia e suas instituições, qualquer que seja a origem. Reiteram seu firme compromisso com a plena vigência das instituições democráticas e repudiam as ações criminosas dos grupos violentos que querem disseminar a intolerância e o ódio como instrumento de luta política. Expressam o mais firme repúdio às ameaças de ruptura da ordem democrática legitimamente constituída pelo voto popular e reiteram sua firme posição na defesa e preservação da institucionalidade democrática. Conclamam a continuar a aprofundar o diálogo sobre os problemas nacionais, no marco da institucionalidade democrática e do estado de direito, como foi promovido pelo presidente Nicolás Maduro com todos os setores da sociedade.



[*] Eva Golinger é advogada, especialista em leis internacionais sobre direitos humanos e imigração. Desde 2003, investiga, analisa e escreve sobre a intervenção dos EUA na Venezuela, recorrendo ao Freedom of Information Act (FOIA) para obter informações sobre os esforços do governo norte-americano para minar os movimentos políticos progressistas da América Latina. Desde 2005, Golinger vive em Caracas, Venezuela. Em 2009, venceu o Prêmio Internacional de Jornalismo no México. “A noiva da Venezuela” como era chamada pelo presidente Hugo Chávez, é autora de vários títulos de sucesso: Bush vs. Chávez: Washington’s War on Venezuela (2007, Monthly Review Press), The Empire’s Web: Encyclopedia of Interventionism and Subversion, La Mirada del Imperio sobre el 4F: Los Documentos Desclasificados de Washington sobre la rebelión militar del 4 de febrero de 1992 e La Agresión Permanente: USAID, NED y CIA.
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Nota dos tradutores
[1] GOLINGER, Eva. El Código Chávez – Descifrando la intervención de los Estados Unidos en Venezuela, La Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 2005. É seu primeiro livro; foi traduzido e publicado em oito idiomas: inglês, espanhol, francês,


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Falsificações que visam golpes de estado

Nicolás Maduro - Presidente da República Bolivariana da Venezuela

Publicado em 06/08/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O mundo gira. Enquanto o governador do Estado do Rio de Janeiro, provavelmente aconselhado por algum marqueteiro tenta posar de vítima, quando na verdade não passa de algoz dos jovens manifestantes, pelo mundo acontecem fatos relevantes absolutamente ignorados pela mídia de mercado, que segue desempenhando a função, não propriamente de quarto poder, mas de aparelho ideológico de concepções conservadoras, como diria o jornalista Ignácio Ramonet, do Le Monde Diplomatique.

Guillermo Cochez
MENTIROSO
Pois bem, na Venezuela, os opositores da revolução bolivariana assacaram uma deslavada mentira contra o presidente eleito Nicolás Maduro. Os golpistas, tendo por base declaração de um tresloucado ex-embaixador do Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA), de nome Guillermo Cochez, segundo a qual Maduro não é venezuelano pois nasceu na Colômbia, na cidade de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela, aproveitaram o embalo para mais uma vez tentar derrubar o Presidente que substituiu Hugo Chávez.

O candidato derrotado, Henrique Capriles tentando criar um fato político, sempre com discurso ao estilo de outros golpistas na América Latina, exigiu que Maduro apresentasse sua certidão de nascimento e assim sucessivamente. Outros seguidores de Capriles chegaram a colocar em questão a constitucionalidade do mandato de Maduro, já que a legislação não permite que estrangeiros ocupem a Presidência da República da Venezuela.

Mas a tramoia golpista durou pouco, porque o desmentido das próprias autoridades colombianas não demorou a aparecer. A denúncia foi rigorosamente investigada no setor do Registro Civil da cidade de Cúcuta, que chegou a conclusão, segundo informou Carlos Alberto Arias, diretor nacional do setor, que o documento apresentado pelo ex-embaixador panamenho na OEA era mesmo falso.

A história da América Latina registra falsificações do gênero que serviram de pretexto ou para golpes de Estado ou tentativas de desestabilizar governos democráticos. No Brasil, o Plano Cohen, de responsabilidade do então capitão integralista Olímpio Mourão Filho em 1937 mostrava um suposto plano comunista de assalto ao poder, servindo de pretexto para o golpe do Estado Novo. Este mesmo Mourão Filho, 27 anos depois comandava tropas de Minas Gerais que culminaram no golpe que derrubou o presidente constitucional João Goulart e mergulhou o país em uma longa noite escura de torturas e assassinatos de oposicionistas.

Mourão Filho
MILICANALHA
No anos 50, mais precisamente em 17 de agosto de 1953, o então famigerado deputado Carlos Lacerda inventava no seu jornal Tribuna da Imprensa uma falsa carta que recebeu a denominação de Brandy, em que um deputado argentino intermediava encontro secreto do então Ministro do Trabalho, João Goulart, como emissário do Presidente Getúlio Vargas. Ficou constatada a mentira, mas Lacerda continuou impune e posteriormente tornou-se um dos responsáveis pela tentativa de golpe de estado, em 1954, evitado porque Vargas saiu da vida para entrar para história ao se suicidar em agosto de 1954.

Fatos históricos como os mencionados são importantes de serem lembrados, inclusive para tentar entender o momento presente, como o da Venezuela com a mentira apresentada pelo ex-embaixador do Panamá na OEA, Guillermo Cochez, o mesmo boquirroto que em janeiro deste ano havia investido contra a Venezuela em um discurso raivoso na entidade onde servia.

Por estas e muitas outras, todo o cuidado é pouco em se tratando de setores conservadores e de direita. Até porque, sai ano entra ano, figuras como este Cochez, como Capriles e tantos outros pelo continente latino-americano não se cansam de tentar desestabilizar governos que não rezem pela cartilha de Washington.

Miguel Rodríguez
Torres
Na Venezuela, as tentativas golpistas não se resumem a falsa denúncia contra Maduro. O Ministro das Relações Interiores da Venezuela, Miguel Rodríguez Torres, informou que elementos da direita mantiveram contatos com setores ideológicos no exterior afinados com a doutrina golpista com o objetivo de assassinar o Presidente Maduro. E o Ministro deu nome aos bois, bem como os locais onde ocorreram reuniões conspiratórias que tiveram por objetivo assassinar o Presidente Nicolás Maduro.

Segundo Rodriguez Torres, duas reuniões ocorreram no mês de abril em Bogotá e Miami. Participaram, entre outros, o ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, o ex-presidente de fato de Honduras, Roberto Micheletti, um delegado enviado pelo terrorista Luis Posada Carriles (1), um oficial colombiano da ativa e um oficial da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). O plano discutido previa “iniciar contato com a direita venezuelana e promover ações desestabilizadoras”.

Naturalmente que essas informações não foram divulgadas até agora pela mídia de mercado e se o forem provavelmente serão manipuladas no sentido do leitor concluir que não passam de teorias conspiratórias da história. É o que acontece rotineiramente nos jornalões e telejornalões.

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Nota do Autor
(1) Luís Posada Carriles foi o terrorista responsável pela explosão de um avião da Cubana de Aviação nos céus da Venezuela matando dezenas de atletas que tinham participado de uma competição esportiva. Carriles foi condenado pela Justiça venezuelana, mas fugiu da prisão com a ajuda CIA. Hoje vive em liberdade nos EUA.
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dama de ferro não virou santa



Dama de ferro? Enferruge em paz

Publicado em 16/04/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

A morte de Margaret Thatcher de alguma forma provocou um fenômeno raro, não só na própria Grã -Bretanha como também em várias partes do mundo. Desta vez a morta não virou santa, muito pelo contrário. Foi hostilizada pelos que sofreram as agruras do modelo neoliberal implantado pela dama de ferro.

A torcida do Liverpool, pelo menos desde 1989 quando ocorreu um episódio repressivo sangrento com mais de 90 mortos, cantava com palavras comemorativas a morte da dama de ferro. Além disso, a política de Thatcher fez muito mal aos trabalhadores da região. Antes mesmo de se tornar primeira ministra, ao ocupar o Ministério da Educação, Margaret Thatcher cortou o leite das crianças nas escolas.

Quando Augusto Pinochet estava em prisão domiciliar em Londres aguardando pedido de extradição para a Espanha feito pelo juiz Baltazar Garzón, madame Thatcher visitava o ex-ditador e agradecia a ele por ter ajudado o Reino Unido durante a guerra das Malvinas. Thatcher chegou até a afirmar que Pinochet restabeleceu a democracia no Chile.

Como se não bastasse, antes mesmo do reconhecimento de Pinochet, Madame Thatcher dizia que Mandela era terrorista. E assim caminhava a dama de ferro.

Independente de tudo isso, por aqui os defensores da política criminosa executada pela dama de ferro chegaram a comentar como seria bom para o Brasil ter uma dama de ferro para levar adiante as reformas necessárias para, segundo eles, modernizar o país. Esta foi a opinião exposta pelo analista econômico das Organizações Globo, Carlos Alberto Sardenberg.

Mas, no Congresso, o Senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, discursou lembrando passagens nefastas protagonizadas pela dama de ferro, deixando perplexos alguns senadores acostumados com a cultura da santificação de personagens que morrem, sobretudo os propagadores da ideologia da falecida dama de ferro.
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Eleição venezuelana - Um mês após a morte do Presidente Hugo Chávez, a direita venezuelana e seus apoiadores pelo mundo afora comemoravam o acontecimento. Em alguns muros de Caracas, por exemplo, os apoiadores do candidato Henrique Capriles pichavam a seguinte frase: “viva o câncer”.

Nos primeiros dias que se seguiram a morte de Chávez, a mídia conservadora ainda procurou esconder o contentamento, mas aos poucos transferiu o ódio que nutria pelo Presidente ao seu herdeiro político, Nicolás Maduro.

E nos dez dias da campanha eleitoral venezuelana, a mesma mídia de mercado, apoiadora em gênero número e grau de madame Thatcher, encheu a bola de Capriles. Não tiveram a coragem de concluir que o candidato da direita pudesse ganhar de Maduro.

Mesmo com a eleição de Maduro, a direita de todos os quadrantes continuará tentando produzir fatos midiáticos com o objetivo de enfraquecer o presidente eleito e evitar a continuidade da Revolução bolivariana.

Maduro é o sucessor do comandante da Revolução Bolivariana, Hugo Chávez. E ninguém poderá dizer que não há democracia na Venezuela. Capriles com o apoio do governo estadunidense tenta contestar a eleição denunciando fraude, passando por cima das conclusões de observadores estrangeiros, entre os quais os integrantes da Fundação Carter.

Maduro ganhou por pouco mais de 200 mil votos de diferença, enquanto Capriles se elegeu governador de Miranda com 30 mil votos de diferença. Mas isso a mídia de mercado prefere não lembrar, porque enfraqueceria os argumentos do candidato apoiado pelo Departamento de Estado norte-americano.
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No vizinho Paraguai, as atenções se voltam para o próximo domingo (21), quando cerca de três milhões e 500 mil eleitores estarão escolhendo o próximo Presidente da República, renovando a Câmara dos Deputados, integrada por 80 parlamentares, e 45 senadores.

Na disputa presidencial, o candidato do Partido Colorado, Horacio Cartes despontava em primeiro lugar nas pesquisas, seguido de perto pelo indicado pelo Partido Liberal Autêntico, o ex-ministro do governo Fernando Lugo, um tal de Efrain Alegre, apoiado pelo atual presidente de fato Federico Franco, que assumiu a presidência depois de um golpe parlamentar. Mas novas pesquisas indicavam alterações do quadro, o que torna difícil uma previsão.

Mario Ferreiro, candidato de esquerda, aparecia em terceiro lugar, enquanto outro candidato de esquerda, Aníbal Carrillo Iramaín, da Frente Guazú, o partido de Lugo, encontrava-se mais abaixo. O presidente deposto por golpe parlamentar, Fernando Lugo, é candidato ao Senado.

Horacio Cartes é acusado de ter vínculos com o narcotráfico e domina a venda de cigarros falsificados na fronteira do Paraguai com o Brasil. Cartes nega a primeira acusação.

Para se ter uma ideia do perfil de Cartes, ao ser indagado sobre o que faria se tivesse um filho gay e defendesse a união afetiva, o candidato respondeu sem pestanejar: “daria um tiro nas minhas próprias bolas”.

Em tempo: Depois de observar 91 eleições em várias partes do mundo, Jimmy Carter concluiu que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. O que terá a dizer Capriles e o Departamento de Estado norte-americano?
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Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de “América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE”.

Enviado por Direto da Redação

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Chávez é o povo, o povo o elege, o povo vence


9/10/2012, Farooque Chowdhury, Countercurrents.org
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Farooque Chowdhury
Frustrando as expectativas do status quo e para desmentir desejos travestidos de pesquisas eleitorais, o presidente Hugo Chávez da Venezuela foi eleito para seu quarto mandato presidencial. É a vitória dos mais pobres. Seu próximo mandato, de seis anos, se iniciará dia 10 de janeiro de 2013, como o povo mais pobre esperava e conseguiu: a revolução bolivariana, como diz Chávez, poderá prosseguir.

“A revolução triunfou” – disse Chávez aos cidadãos em festa, falando da “Sacada do Povo”, uma das sacadas do palácio presidencial de Miraflores, na capital da Venezuela, Caracas. “A Venezuela continuará sua marcha rumo ao socialismo democrático do século 21. Viva Venezuela! Viva a terra-mãe! A batalha foi perfeita e a vitória foi perfeita”.

Da Argentina, a presidente Cristina Fernandez de Kirchner tuitou: “Sua vitória é nossa vitória! E é a vitória da América Latina e Caribe!”.

Presidente Hugo Chávez Frias
Dos votos dos 81% dos eleitores que compareceram às urnas, Chávez obteve mais de 54%; o adversário, Henrique Capriles ficou nos 45%. Capriles, que encabeçou uma coalizão de cerca de 30 partidos da oposição a Chávez, e que representava os interesses dos mais ricos, admitiu a derrota. Capriles e os seus são amigos do império e inimigos de Cuba.

A informação contida nos quatro parágrafos acima dá, em resumo, uma perspectiva para examinar a vitória eleitoral na Venezuela, antiga república que luta agora para construir uma nova sociedade, baseada na igualdade, na justa distribuição da riqueza, na dignidade e na fraternidade, e que se opõe declaradamente ao império mais pesadamente armado que a humanidade jamais conheceu – os EUA. Há luta dentro do país e no front externo. A perspectiva não admite qualquer confusão sobre o tom da política e dos debates políticos na Venezuela.

Henrique Capriles
A grande esperança do “outro lado” era que Capriles, candidato do partido Primero Justicia [Justiça Primeiro], derrotasse Chávez agora, em momento em que o país sofre sob o peso de moeda sobrevalorizada, baixo crescimento industrial, infraestrutura sucateada, alta taxa de criminalidade, corrupção e baixa eficácia da administração.

O petróleo é responsável por mais de 90% das divisas que o país recebe, e ainda é preciso diversificar a economia. A inflação, na 5ª maior economia latino-americana, é, esse ano, de 20%. “Inflação e gastos do estado sempre crescentes – combinados a controles sobre a moeda e o capital – geraram déficit fiscal também crescente” – informava Consensus Economics, organização de pesquisas. “O governo depende cada dia mais de dinheiro do exterior para financiar-se”.

O Banco de Desenvolvimento da China, informa a agência de notícias Bloomberg, emprestou à Venezuela, nos últimos cinco anos, $42,5 bilhões.

Arturo Franco, do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Harvard University, cita a Venezuela como “o pior desempenho do PIB per capita”.

E inúmeras outras estatísticas podem ser facilmente encontradas e repetidas, à guisa de prova do péssimo desempenho do estado que Chávez governa e para cujo governo, contudo, já foi eleito quatro vezes.

Durante a campanha eleitoral, Capriles, herdeiro de família milionária, opôs-se a todos os processos de nacionalização/estatização de empresas. Seu argumento é que a nacionalização desestimula os investidores. Dentre seus outros argumentos contra Chávez listam-se acusações de fazer governo autocrático, de dificultar a vida do setor privado, de estimular o governo a envolver-se na economia, o que traria prejuízos ao setor privado, de ser responsável pelo aumento da criminalidade e pelos “apagões” no fornecimento de energia elétrica. E também falou de “escândalos” que são denunciados sazonalmente.

A linha da crítica e o principal argumento da oposição a Chávez são claros: a oposição fala a língua do neoliberalismo, para cujos pregadores qualquer ação de interesse social é “assistencialista”, é “enganar os pobres com esmolas”, enquanto a ganância, a crueldade do capital que vive de caçar e acumular lucros, é apresentada como progressista, moderna, evoluída. Para os venezuelanos mais pobres, Capriles é agente da oligarquia e dos EUA.

Chávez e Capriles
Mas, se se examina com olhos mais atentos o desempenho do governo Chávez, é possível ver, bem clara, a divisão entre diferentes interesses de classe: a pobreza diminuiu, os indicadores de saúde pública melhoraram, criaram-se milhares de empregos no setor estatal em expansão. Está em andamento um programa nacional de moradia que já deu casa nova a milhares de famílias. Bilhões de dólares foram direcionados para as misiones – programas sociais participativos para os mais pobres: saúde, educação, lojas de alimentos subsidiados, transporte, cooperativas. Hoje, com a desigualdade diminuindo gradualmente, todos os cidadãos têm acesso a fatia mais igualitária do bolo. A Venezuela tem hoje a distribuição de renda menos desigual na região.

Chávez se apresenta como inimigo da riqueza para poucos, pelos pobres, diz sempre somos la mayoría [somos a maioria], nacionalizou indústrias estratégicas e expropriou milhões de hectares de terras deixadas sem produzir, das quais os ricos serviam-se com o único objetivo de lucrar com a especulação. A Constituição, redigida durante seu governo e referendada pela população, combate a exclusão social e estimula a participação popular, a transparência e o controle público dos gastos do governo.

Chávez apresenta-se como socialista e fez campanha sob o slogan “Chávez es el pueblo” [Chávez é o povo]; está cada dia mais perto do povo e mais afastado das elites. Seus adversários o chamavam de “macaco”. Os venezuelanos ricos estão furiosos e fazem oposição obcecada.

Antes de Chávez, dois partidos políticos alternavam-se pacificamente no poder. A pobreza e a corrupção avançavam, profundas e incontroladas. Reinava uma plutocracia estável. Na contra mão do sistema de corrupção oficial e da riqueza do petróleo dirigida exclusivamente para enriquecer  cada vez mais a elite governante, Chávez prometeu políticas sociais e atenção aos mais pobres. Hoje, faz planos para construir mais 3 milhões de casas até 2018 para os venezuelanos de mais baixa renda.

Capriles não se atreveu a antagonizar os mais pobres. Teve de dizer, durante a campanha, que não “desnacionalizaria” ou que não “reprivatizaria” o que o governo Chávez nacionalizou. Elogiou, mesmo, vários dos programas sociais iniciados pelo governo Chávez. Teve de prometer que, se eleito, manteria os programas de construção de clínicas e escolas públicas para os mais pobres.

O cenário está assim, preparado: os mais pobres aprenderam a ter e a desejar vida melhor, ao mesmo tempo em que aprenderam a desprezar o comportamento predatório, de desperdício, dos mais ricos. Num país claramente dividido entre muito ricos e muito pobres, cada grupo com seu projeto político, a palavra de Chávez contra os ricos é bem conhecida: “oligarcas predadores”, “elites apodrecidas”, “porcos vorazes”, “vampiros”, que saquearam a riqueza do petróleo, “servos corruptos do capital internacional”, que vivem “enjaulados nas suas mansões, em orgias, bebendo uísque”.

À oposição restou um discurso contraditório: por um lado criticam os programas sociais do chavismo; por outro criticam Chávez por não ter feito mais.

Com sua petrodiplomacia, o programa PetroCaribe, sempre bem próximo de Cuba, organizando e animando a Aliança Bolivariana das Américas (ALBA), ajudando países vizinhos com empréstimos, Chávez assume um papel de liderança num projeto de solidariedade internacional e regional, de cooperação e de fraternidade entre os países. Nada que o qualifique para qualquer posição de destaque na parte do mundo que pratica a “Doutrina do Choque” ou o “Capitalismo de Catástrofe”.

Não é tarefa simples fazer girar em nova direção a máquina viciosa dos velhos estados oligárquicos e pô-la em nova trilha socioeconômica e política. Todas as peças da velha máquina são velhas. A transformação tem de ser gradual. Há inúmeras limitações muito reais. E há também as limitações ativas dentro das forças sociais que sonham com mudanças. Chávez está operando dentro dessas limitações.

Seria utopia esperar uma Venezuela sem corrupção, da noite para o dia. Uma comparação ajuda a ver: nos EUA também somem bilhões de dólares, dinheiro que desaparece sem deixar rastro, em dois fronts de guerra. Nada faz crer que a corrupção na Venezuela tenha alcançado patamar comparável.

Em muitos países do mundo a corrupção foi o estado normal das coisas por décadas – na Tunísia de Ben Ali ou no Egito de Mubarak e em tantos outros países que nem é preciso listar.

Há a corrupção dos especuladores, das agências de risco, dos institutos de pesquisa, dos bancos. A corrupção na “grande finança”, que o mundo começa a conhecer hoje, na chamada “Grande Crise Financeira”, é certamente maior que a corrupção que haja na Venezuela e contra a qual o governo Chávez trabalha incansavelmente.

Nada faz crer que a “eficiência” dos bancos ou dos especuladores imobiliários que hoje mal começamos a conseguir identificar (e em todos os pontos onde há o que já se sabe que há sabe-se também que há muito mais), e, isso, no coração do sistema financeiro planetário, seja menos corrupção que a corrupção contra a qual o governo de Chávez luta. E nem todos os grandes estados, mais próximos do coração do sistema financeiro planetários lutam contra a corrupção como a Venezuela de Chávez luta.

Comparem-se, por exemplo, os cortes de energia, “os apagões” na Venezuela, e o número de escolas públicas que estão sendo fechadas nos EUA, com os professores desempregados ou subassalariados em tantos lugares do mundo rico, nas sociedades de capitalismo avançado, e o número de novas escolas públicas que estão sendo construídas na Venezuela, para dar educação aos venezuelanos mais pobres que nunca, antes, tiveram escola.

Ou comparem-se o número de famílias sem casa, que perderam a propriedade da casa para bancos credores das hipotecas podres nos EUA, e o número de novas casas que estão sendo construídas na Venezuela.

A comparação é eloquente, mas não o bastante para desviar a elite venezuelana da luta que, para ela, é ideia fixa: desqualificar sempre, sempre, qualquer esforço que os mais pobres tentem para buscar vida mais digna, mais decente. 

Não há mentira alguma em dizer que “Chávez es el pueblo”, Chávez é o povo. Na Venezuela parece ser, sim, o povo que se cansou de mentiras, desigualdade, injustiça, desperdício, ostentação, corrupção que só incomoda os ricos se mexer no bolso dos ricos, mas que nunca incomodou nenhum rico, enquanto só feriu os mais pobres. Chávez inspira esses mais pobres. E os mais pobres o reelegeram.