Mostrando postagens com marcador Nicolas Maduro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nicolas Maduro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de março de 2014

O desprezo incessante dos EUA pelo povo da Venezuela

Medo do efeito dominó NUNCA vai acabar

11/3/2014, [*] Jason Hirthler, Counterpunch
Traduzido por João Aroldo

Marcha bolivariana de Caracas, quando da vitória eleitoral do PSUV em 2013 
Algumas coisas não mudam nunca. A petulante e não democrática oposição venezuelana está de volta, com o total apoio e endossamento de cheques pelo governo americano.

Recentes protestos inflamaram as ruas de Caracas, enquanto grupos de oposição, como os existentes na Ucrânia, pedem a saída do presidente atual. Suponho que seja desnecessário notar que Nicolás Maduro é o presidente democraticamente eleito da Venezuela, e que ele venceu por uma alta margem de vantagem em uma eleição mais limpa que a de Barack Obama em 2012.

Também não vale a pena perguntar, supõe-se, que se um país inteiro é tomado por protestos, como o New York Times insidiosamente sugere ao alegar que “Os protestos expressam o descontentamento geral com o governo do Presidente Nicolás Maduro, um socialista…”, então por que o partido de Maduro, o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), teve maioria nas eleições municipais em dezembro? Ou por que esses protestos “generalizados” estão em grande parte confinados às áreas da classe média e de estudantes de Caracas e não em áreas muito maiores da população de baixa renda? Ou se um governo tem o direito de prender líderes da oposição (neste caso, Leopoldo Lopez, o último ideólogo raivoso) por incitar a violência

Virtude Pública, Vício Privado

O Secretário de Estado John Kerry aumentou a histeria, dizendo estar “alarmado” por relatos de que Maduro “prendeu multidões de manifestantes antigoverno” e de que a repressão teria um “efeito inibidor” na liberdade de expressão. Um pouco rico vindo de um homem cujo próprio governo tem inibido a liberdade de expressão desde as revelações de Snowden. Kerry não menciona que os milhões de dólares dos contribuintes norte-americanos sendo enviados para a oposição venezuelana estão por trás da violência.

O grupo GAFE (Globo, Abril, FSP, Estado) e repete o que a imprensa internacional manda
O The Los Angeles Times descreveu a administração Maduro como um “governo autocrático”. O líder de oposição, Henrique Caprilles, demolido por Maduro na eleição esmagadora do ano passado, rejeitou o convite de Maduro para conversas e afirmou que um dos partidos mais populares da América Latina era um “governo morrendo”.  

Por sua parte, o MERCOSUL, a aliança dos países do cone sul da América do Sul, denunciou a violência como uma tentativa de "desestabilizar" o governo democrático. É claro que o comportamento do governo de Maduro, em resposta a estas provocações de rua, deve ser vigiado de perto, já que este é o primeiro teste real do novo presidente em um cenário internacional ao lidar com as intrigas de uma pequena, mas virulenta oposição neoliberal.

Há muito a sugerir que isso é, como na Ucrânia, outra tentativa externa de derrubar um governo democraticamente eleito através de um coquetel volátil de agitação e violência internas somadas à difamação do governo atual pela mídia global. Não seria surpresa.

Como uma criança frustrada e petulante, os EUA têm tentado repetidamente sabotar a Revolução Bolivariana lançada pelo ex-presidente Hugo Chávez no final dos anos 1990, como Mark Weisbrot do CEPR notou.

Os EUA apoiaram um golpe antidemocrático pelas elites financeiras em 2002 que de fato durou alguns dias e alegremente dissolveu o Congresso antes de Chávez ganhar o poder.

Os EUA apoiaram uma greve de petróleo para tentar desestabilizar a economia e, talvez, derrubar o governo. Encorajaram membros do congresso da oposição a pedirem recontagens (fracassadas) e boicotarem as eleições da Assembleia Nacional (em vão) e declarar incessantemente que a eleição presidencial do ano passado foi fraudada (falso).

É claro, apesar de ser considerado um processo eleitoral superior ao dos EUA, Kerry foi humilhado ao reconhecer a legitimidade da eleição muito depois do resto do mundo

Motociclistas abrem a Marcha Bolivariana de 24/2/2014
Os EUA enviaram anualmente milhões para as atividades da oposição desde o golpe fracassado de 2002. (ONGs são destinos convenientes para este dinheiro, já que as contribuições estrangeiras a partidos políticos são ilegais em ambos os países).

Basta olhar para 2013 apenas. Washington dificilmente aceitaria interferências deste tipo da China, digamos. Ou melhor, da própria Venezuela. Apesar disso, Kerry, em seu papel com Secretário de Estado, acabou por se revelar um mímico magistral capaz de registrar a indignação mofada em curto prazo, especialmente quanto às violações das liberdades civis. Curioso, já que a violação incessante das liberdades civis por seu próprio Partido Democrata não provocou nada neste porta-bandeira dos valores democráticos.

Dólares e Bolívares

Isso não quer dizer que a Venezuela não tem problemas dignos de protesto. A inflação tem sido crônica desde os tempos pré-Chávez. Agora a escassez de alimentos está testando a paciência da população. E, em certo sentido, essas faltas são autoinfligidas.

De acordo com Gregory Wilpert, da VenezuelAnalysis.org, os controles cambiais do governo têm sido minados por um mercado negro demasiado previsível. Enquanto o governo estabelece critérios rigorosos sobre a capacidade dos cidadãos para comprar dólares com bolívares, o mercado negro permite aos cidadãos comprar dólares sem qualquer critério de qualquer natureza. A taxa de câmbio do governo é igualmente controlada e, com o tempo, começou a distorcer o valor real do bolívar.

A taxa de câmbio do mercado negro, por outro lado, reflete o valor externo da moeda. A diferença entre estas taxas de câmbio tem crescido rapidamente, de modo que há agora grandes incentivos para que os cidadãos façam arbitragem de divisas.

Presidentes dos países da UNASUL/MERCOSUL na reunião de 2013 
Se atenderem a critérios federais, tais como a necessidade de dólares para viajar ou para importação de bens - os venezuelanos podem comprar dólares mais baratos usando a taxa de câmbio do governo.

Eles podem pagar com esses dólares para importar mercadorias e, em seguida, exportar os bens em troca dos dólares que acabaram de gastar com as importações. Daí é apenas um passo para o mercado negro, onde eles podem vender esses dólares por valores maiores do que eles pagaram com a cotação oficial do governo, conseguindo um bom lucro para si.

Se eles forem antissocialistas raivosos, eles podem desfrutar da emoção de gerar escassez de alimentos que pode ser atribuída ao governo.

Ah, a magia atemporal da importação/exportação.

Estas são queixas legítimas, assim como as estatísticas do crime, que lideram a tabela regional.

No entanto, a questão é, será que eles merecem a derrubada de um governo legítimo apoiado por uma ampla maioria da população, a mando de uma pequena, mas feroz facção oposicionista financiada abertamente por um poder imperial comprometido com sua derrubada? 

Fazê-lo seria arriscar o absurdo de satisfazer as exigências estridentes de uns poucos em detrimento de muitos. Isso também não estaria longe do recente episódio em Watertown, New York, onde a prefeitura proibiu os moradores de ter companheiros de quarto com base na queixa de um único cidadão. (Isto lembra ainda a oposição de Ambrose Bierce ao conceito de oração, já que para Bierce, os devotos pediam que “as leis do universo sejam anuladas em nome de um único requerente confessadamente indigno”)

O fato é que, apesar da inflação e escassez, a população continua apoiando a Revolução Bolivariana por causa de suas realizações − reduções enormes na pobreza, eliminação da pobreza extrema e do analfabetismo. O crescimento significativo do PIB per capita e outras métricas importantes.

Uma Doutrina em Declínio

Estamos vendo em imagens claras a crueldade com que facções neoliberais se ressentem da perda de poder e buscam restaurá-lo por qualquer meio necessário.

A democracia é a menor de suas preocupações. Mas esta tem sido a história de fundo da América Latina por séculos.

Grande parte da atividade dos EUA na América Latina parece um último esforço frenético e desesperado para preservar a Doutrina Monroe, segundo a qual declaramos essencialmente que a América Latina era o nosso próprio quintal, inacessível para os impérios europeus.

Quadro/Resumo das eleições municipais da Venezuela em 2013. Vitória estrondosa de Maduro(PSUV)  nas principais cidades. Clique na imagem para vizualizar.
O que era ostensivamente um chamado para respeitar o desenvolvimento independente no Hemisfério Sul, em vez disso, previsivelmente evoluiu para uma desculpa para intervenção com interesses próprios.

Mas agora, pela primeira vez em séculos, a América Latina reagiu por conta própria, escapando das garras da águia para formar organizações como o MERCOSUL e CELAC , PETROCARIBE e PETROSUL, UNASUL, Banco do Sul, bem como a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA).

Apesar da Colômbia, um posto avançado implacável da influência norte-americana, a região tem evitado um maior envolvimento dos EUA, e começou a ver seus acordos comerciais com muito mais desconfiança, particularmente na sequência do NAFTA, o garoto propaganda para tratados de comércio assimétricos e economicamente destrutivos.

Se os EUA vão eventualmente ter sucesso em uma manobra cínica para derrubar Maduro, ainda veremos. Se os acontecimentos recentes na Ucrânia são uma indicação, isso pode ter sido um teste para a Venezuela, como Peter Lee sugere.

Também não ajuda que, em praticamente todos os países que nos vêm à mente, uma elite de ideólogos neoliberais são os donos da grande mídia. As ferramentas de propaganda raramente foram mais fortemente utilizadas desde que Chávez iniciou sua revolução socialista. E, no entanto, desde então, praticamente todo o continente experimentou lideranças com tendências de esquerda: Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Nicanor Duarte, no Paraguai, Tabaré Vázquez no Uruguai, até certo ponto, Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, e Maduro na Venezuela.

Também não devemos esquecer do presidente hondurenho exilado, Manuel Zelaya. Estes personagens saíram coletivamente da beira da integração duvidosa com a América do Norte e buscam laços regionais mais fortes e autonomia continental.

Os EUA tem respondido com uma mistura previsível de ameaças, mentiras e sacos de dinheiro para os elementos ferozmente antidemocráticos.

Nicolás Maduro na Assembleia em 15/1/2014
Talvez o que mais temem seja o mau karma gerado com a Operação Condor, que em 11 setembro de 1973 derrubou e assassinou o líder socialista do Chile, Salvador Allende e substituiu-o com um covarde sádico, Augusto Pinochet. Pinochet - um militarista repressor – alegremente instituiu as medidas não testadas do guru de poltrona da Chicago School of Economics, Milton Friedman, com resultados previsíveis.

Agora, Maduro, carregando o manto de Chávez e seu manifesto Bolivariano, é, sem dúvida, a vanguarda espiritual da esquerda socialista na América do Sul.

Os esforços da Venezuela para continuar a criar a sua própria independência na próxima década certamente irão influenciar o estado de espírito e a coragem de outros esquerdistas na região.

As apostas são obviamente altas. Daí o esforço americano incansável para desestabilizar e desacreditar publicamente o PSUV. O destino da esquerda global está, em um sentido muito real, sendo testado no cadinho de Caracas.
____________________


[*] Jason Hirthler é escritor, estrategista com 15 anos veterano da indústria de comunicações e jornalismo. Escreve para Counterpunch, World Can't Wait, e de outras comunidades políticas. Vive e trabalha em New York.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dama de ferro não virou santa



Dama de ferro? Enferruge em paz

Publicado em 16/04/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

A morte de Margaret Thatcher de alguma forma provocou um fenômeno raro, não só na própria Grã -Bretanha como também em várias partes do mundo. Desta vez a morta não virou santa, muito pelo contrário. Foi hostilizada pelos que sofreram as agruras do modelo neoliberal implantado pela dama de ferro.

A torcida do Liverpool, pelo menos desde 1989 quando ocorreu um episódio repressivo sangrento com mais de 90 mortos, cantava com palavras comemorativas a morte da dama de ferro. Além disso, a política de Thatcher fez muito mal aos trabalhadores da região. Antes mesmo de se tornar primeira ministra, ao ocupar o Ministério da Educação, Margaret Thatcher cortou o leite das crianças nas escolas.

Quando Augusto Pinochet estava em prisão domiciliar em Londres aguardando pedido de extradição para a Espanha feito pelo juiz Baltazar Garzón, madame Thatcher visitava o ex-ditador e agradecia a ele por ter ajudado o Reino Unido durante a guerra das Malvinas. Thatcher chegou até a afirmar que Pinochet restabeleceu a democracia no Chile.

Como se não bastasse, antes mesmo do reconhecimento de Pinochet, Madame Thatcher dizia que Mandela era terrorista. E assim caminhava a dama de ferro.

Independente de tudo isso, por aqui os defensores da política criminosa executada pela dama de ferro chegaram a comentar como seria bom para o Brasil ter uma dama de ferro para levar adiante as reformas necessárias para, segundo eles, modernizar o país. Esta foi a opinião exposta pelo analista econômico das Organizações Globo, Carlos Alberto Sardenberg.

Mas, no Congresso, o Senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, discursou lembrando passagens nefastas protagonizadas pela dama de ferro, deixando perplexos alguns senadores acostumados com a cultura da santificação de personagens que morrem, sobretudo os propagadores da ideologia da falecida dama de ferro.
__________________________________________________

Eleição venezuelana - Um mês após a morte do Presidente Hugo Chávez, a direita venezuelana e seus apoiadores pelo mundo afora comemoravam o acontecimento. Em alguns muros de Caracas, por exemplo, os apoiadores do candidato Henrique Capriles pichavam a seguinte frase: “viva o câncer”.

Nos primeiros dias que se seguiram a morte de Chávez, a mídia conservadora ainda procurou esconder o contentamento, mas aos poucos transferiu o ódio que nutria pelo Presidente ao seu herdeiro político, Nicolás Maduro.

E nos dez dias da campanha eleitoral venezuelana, a mesma mídia de mercado, apoiadora em gênero número e grau de madame Thatcher, encheu a bola de Capriles. Não tiveram a coragem de concluir que o candidato da direita pudesse ganhar de Maduro.

Mesmo com a eleição de Maduro, a direita de todos os quadrantes continuará tentando produzir fatos midiáticos com o objetivo de enfraquecer o presidente eleito e evitar a continuidade da Revolução bolivariana.

Maduro é o sucessor do comandante da Revolução Bolivariana, Hugo Chávez. E ninguém poderá dizer que não há democracia na Venezuela. Capriles com o apoio do governo estadunidense tenta contestar a eleição denunciando fraude, passando por cima das conclusões de observadores estrangeiros, entre os quais os integrantes da Fundação Carter.

Maduro ganhou por pouco mais de 200 mil votos de diferença, enquanto Capriles se elegeu governador de Miranda com 30 mil votos de diferença. Mas isso a mídia de mercado prefere não lembrar, porque enfraqueceria os argumentos do candidato apoiado pelo Departamento de Estado norte-americano.
___________________________________________________

No vizinho Paraguai, as atenções se voltam para o próximo domingo (21), quando cerca de três milhões e 500 mil eleitores estarão escolhendo o próximo Presidente da República, renovando a Câmara dos Deputados, integrada por 80 parlamentares, e 45 senadores.

Na disputa presidencial, o candidato do Partido Colorado, Horacio Cartes despontava em primeiro lugar nas pesquisas, seguido de perto pelo indicado pelo Partido Liberal Autêntico, o ex-ministro do governo Fernando Lugo, um tal de Efrain Alegre, apoiado pelo atual presidente de fato Federico Franco, que assumiu a presidência depois de um golpe parlamentar. Mas novas pesquisas indicavam alterações do quadro, o que torna difícil uma previsão.

Mario Ferreiro, candidato de esquerda, aparecia em terceiro lugar, enquanto outro candidato de esquerda, Aníbal Carrillo Iramaín, da Frente Guazú, o partido de Lugo, encontrava-se mais abaixo. O presidente deposto por golpe parlamentar, Fernando Lugo, é candidato ao Senado.

Horacio Cartes é acusado de ter vínculos com o narcotráfico e domina a venda de cigarros falsificados na fronteira do Paraguai com o Brasil. Cartes nega a primeira acusação.

Para se ter uma ideia do perfil de Cartes, ao ser indagado sobre o que faria se tivesse um filho gay e defendesse a união afetiva, o candidato respondeu sem pestanejar: “daria um tiro nas minhas próprias bolas”.

Em tempo: Depois de observar 91 eleições em várias partes do mundo, Jimmy Carter concluiu que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. O que terá a dizer Capriles e o Departamento de Estado norte-americano?
______________________________

Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de “América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE”.

Enviado por Direto da Redação

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A derrota de Washington contra Cuba e Venezuela


14/4/2013, Nikolas Kozloff, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nicolás Maduro, eleito presidente da Venezuela
Se as pesquisas estiverem corretas, Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chavez, provavelmente derrotará a oposição nas eleições deste domingo (14/4/2013), o que garantirá e firmará ainda mais os laços entre Cuba e Venezuela. É resultado que causará patético desapontamento em Washington, que há 40 anos só faz tentar impedir que essa aliança prospere.

Prova da paranoia dos EUA contra Cuba, encontra-se facilmente nos chamados “Arquivos Kissinger”, telegramas importantes do Departamento de Estado tornados acessíveis à opinião pública, mais uma vez, pela organização WikiLeaks [orig. Kissinger files, 1,7 milhão de telegramas, acessíveis para pesquisa em  (NTs)]. A correspondência, com datas de 1973 a 1976, mostra a obsessão de Henry Kissinger, ideia fixa, com pôr Cuba sob cerco fechado, em quarentena, mantida à maior distância possível dos EUA.

No final de 1973, diplomatas norte-americanos já manifestavam preocupação com os movimentos da Venezuela para pôr fim ao isolamento diplomático de Cuba; estavam especialmente preocupados com a possibilidade de que Caracas “organizasse a maioria, na Organização dos Estados Americanos, OEA, para aprovar resolução permitindo o restabelecimento de relações com Cuba”. Ainda em 1973, Washington também estava muito perturbada com relatórios de que navios venezuelanos haviam partido rumo a Cuba, para receber grandes carregamentos de açúcar. Diplomatas dos EUA consideravam a ideia de cortar qualquer ajuda a Caracas, como retaliação.  

Nikolas Kozloff
Esses desenvolvimentos não assustavam só o Departamento de Estado; exilados da direita anticastro também se agitaram. Segundo a Embaixada dos EUA em Caracas, os exilados estavam “apavorados” ante a possibilidade de o COPEI, partido então no poder na Venezuela, viesse a restabelecer relações com Cuba.

Em movimento claramente golpista, os exilados planejaram publicar anúncios de página inteira em vários jornais, contra o governo do COPEI. Na esperança de castigar o COPEI nas urnas, grupos de exilados anticastristas apoiaram o partido Ação Democrática (AD), na eleição presidencial de 1973. Como a embaixada observava,  aquele apoio revelara-se decisivo, quando “empresários cubanos-venezuelanos altamente influentes, apoiados em dinheiro cubano-em-Miami” ajudaram o candidato da AD, Carlos Andrés Perez (referido várias vezes, nos telegramas, como “CAP”), a chegar à vitória eleitoral.

A ascensão de “CAP”

Carlos Andrés Pérez
Mas se Kissinger ou os exilados cubanos esperavam que Perez seria facilmente manobrável para aceder aos planos deles, acabariam tristemente desapontados. A história não tem sido generosa com Carlos Andrés Perez, sobretudo por causa de seu segundo e desastroso mandato, de 1989 a 1993, período durante o qual o veterano político seguiu à risca os diktats do Fundo Monetário Internacional (FMI), a ponto de levar a Venezuela à beira o colapso social.

Mas, em sua primeira encarnação, nos anos 1970s, Carlos Andrés Perez foi visto como nacionalista e não raras vezes incluído entre os grandes personagens políticos do circuito do Terceiro Mundo. Entre 1974 e 1979, durante o primeiro mandato presidencial, Andrés Perez nacionalizou empresas de petróleo norte-americanas e construiu programa com investimentos massivos em projetos sociais. 

Em carta dirigida a Kissinger em Washington, o embaixador dos EUA em Caracas protestava que a Venezuela “tem hoje força econômica e a liderança política de CAP para fazer valer sua vontade bem além das próprias fronteiras”. E o diplomata acrescentava:

A crise de energia e a vitória eleitoral do presidente Carlos Andrés Perez em dezembro de 1973 coincidiram e, juntos, os dois fatores alteraram a percepção que a Venezuela tem dela mesma e de seu papel mundial.

Henry Kissinger
Exatamente como Chávez cerca de 20 anos depois, CAP estava “emergindo rapidamente como figura de proa no hemisfério”. Servindo-se dos altos preços do petróleo, CAP havia convertido a Venezuela em grande distribuidora internacional de ajuda para o desenvolvimento. Pessoalmente, o embaixador dos EUA temia que Andrés Perez já estivesse “grande demais” para ser contido localmente, dado que o jovem político “está-se convertendo, rapidamente, em porta-voz da América Latina para todo o mundo em desenvolvimento, ocupando o lugar de nações desenvolvidas, especialmente dos EUA”.

Lendo os Arquivos Kissinger, somos tomados por uma inacreditável sensação de déjà vu. Se se leem aqueles telegramas paranóicos, do discurso paranóico dos norte-americanos, tem-se a impressão de que aqueles diplomatas não falam de algum Andrés Perez, mas do carismático presidente Hugo Chávez. De fato, essa equivalência quase absoluta só faz demonstrar que Washington sempre fez feroz oposição a qualquer político nacionalista que emergisse na Venezuela, sobretudo se ameaçasse, fosse como fosse, as prioridades dos EUA no Caribe. O que mais temiam – os diplomatas norte-americanos e os exilados anti-Castro – era que Andrés Perez usasse seu recém descoberto peso diplomático, para aproximar-se de Fidel Castro.

Aumenta a pressão contra Cuba

Em maio de 1974, o embaixador dos EUA em Caracas chamou às falas o ministro de Relações Exteriores da Venezuela, exigindo explicações sobre matérias de jornal que noticiavam que a Venezuela desejava importar açúcar cubano. O embaixador dos EUA relata que disse ao ministro que “teria prazer em examinar novos meios e modos para conseguir açúcar para a Venezuela, importado de outros países, não de Cuba”. Desafiador, o presidente Andres Perez respondeu que “pretendemos prosseguir nessa linha de trocas comerciais, inclusive a troca de arroz venezuelano por açúcar cubano”. Claro que, no início de 1975, a embaixada dos EUA em Caracas já sabia que havia um navio carregado de arroz venezuelano num porto local, que logo partiria rumo a Cuba.

Muito mais grave que isso: a embaixada dos EUA em Caracas estava à beira do pânico, ante a possibilidade de que Andrés Perez começasse a embarcar petróleo para Cuba, caso fossem levantadas as sanções impostas OEA. Os soviéticos já davam sinais de querer reduzir a dependência cubana do petróleo transportado diretamente da URSS, e Perez, de fato, já dissera, em comentário privado, que Moscou o estava “pressionando” para que embarcasse petróleo para a ilha comunista. No final de 1976, Andres Perez deu um passo adiante, depois de viagem à URSS, ocasião em que fechou um negócio de exportação de petróleo para Cuba.
Venezuela reatou relações diplomáticas com Cuba em 1976. Carlos Andrés Pérez (E), Fidel Castro (C) e Felipe González - PM da Espanha na época (D)

No front diplomático, Andrés Perez assustou muito os EUA, quando reatou relações com Cuba. Em Caracas, os cubanos inauguraram sua nova embaixada, e sabia-se que o pessoal diplomática incluía cinco conhecidos especialistas em inteligência. A agência cubana de notícias, Prensa Latina, expandia simultaneamente suas atividades na Venezuela. Em Washington, Kissinger dava sinais cada vez mais claros de alarme, preocupado com a possibilidade de a Venezuela e outras nações solidárias a ela agirem para remover as sanções da OEA contra o regime cubano. O secretário de Estado imediatamente instruiu a equipe para que adiasse qualquer votação nesse sentido, na OEA. Andrés Perez não se deixou intimidar. Em novembro de 1974, organizou uma conferência da OEA em Quito. E, quando não obteve o número necessário de votos, dirigiu sua indignação diretamente à embaixada dos EUA: disse que Washington chantageara vários países, para que se abstivessem ou votassem contra a iniciativa da OEA. 

Andrés Perez reage ao ataque de Posada

Talvez ingenuamente, Andrés Perez disse a diplomatas dos EUA que tinha interesse em converter-se numa espécie de “ponte” entre Washington e governos latino-americanos pouco amistosos. Privadamente, funcionários norte-americanos relataram que a Venezuela, “grande fornecedora de petróleo para os EUA” era “importante demais para que se crie qualquer relacionamento adversário entre os dois países”. “Se escolhermos combater abertamente a maior unidade latino-americana” – escreveu o embaixador dos EUA – “os EUA expõem-se ao risco de arranhar seus mais altos interesses na Venezuela, agravando suas relações no hemisfério”.

Fossem quais fossem os sentimentos no Departamento de Estado, a CIA tinha outros projetos em mente. Ainda furiosos com a traição de Andrés Perez, cubanos anti-Castro organizaram um golpe contra a ilha. Uma das figuras centrais foi o cubano de nascimento, Luis Posada Carriles, há muito tempo colaborador da CIA. Nos anos 1970s, Posada mudou-se para a Venezuela, para supervisionar as operações de espionagem dos EUA. É considerado responsável pelo pior ataque terrorista no hemisfério até então, um ataque contra o avião que fazia o voo 455 da empresa Cubana, que partiu de Caracas em rota para Cuba em outubro de 1976. Pouco depois de partir de uma breve escala em Barbados, o avião explodiu em pleno ar, matando os 73 passageiros a bordo.


Oficialmente, Posada já não estaria a serviço da CIA no momento desse atentado; teria deixado a agência em julho. Jamais se encontrou qualquer prova de que a CIA é diretamente responsável pelo atentado, mas inúmeras circunstâncias sugerem fortemente que Posada teria avisado antecipadamente a agência, de que haveria uma explosão naquele voo. Mas, em Caracas, o governo de Andrés Perez começava a suspeitar de que os EUA tivessem participação ativa em tudo aquilo. Desqualificando como “propaganda” os protestos dos cubanos, contra as ações de desestabilização coordenadas pelos EUA, os diplomatas norte-americanos asseguraram aos venezuelanos, embora sem os convencer, que “não havia qualquer conspiração pra desestabilizar coisa alguma”.

Apesar das muitas denúncias de corrupção que circulavam contra seu governo, Andrés Perez ainda tinha credibilidade suficiente para concorrer a um segundo mandato como presidente, em 1988. Com plataforma nacionalista contra a Ação Democrática, Andrés Perez foi reeleito. Imediatamente, contudo, mudou de rumo e direção e passou a adotar políticas pró-EUA, impulsionadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 1992, Andrés Perez enfrentou tentativa de golpe militar, comandado por Hugo Chávez e outros. Chávez foi preso. Poucos anos depois, foi eleito presidente e democraticamente reeleito em 1998. Com Chávez, afinal, o sistema bipartidário corrompido de Ação Democrática e COPEI foi desmontado.

Hugo Chávez
Ironicamente, embora Chávez tenha construído toda sua carreira política criticando os excessos de Andrés Perez, o ex-militar construiu política externa muito semelhante à do primeiro governo de Perez, a favor de abrir relações com Cuba e muito desafio retórico contra os EUA. Nisso, com certeza, Washington só conseguiu piorar as coisas para ela mesma, sempre que trabalhou para derrubar Chávez. Só conseguiu empurrar a Venezuela para laços cada vez mais firmes e profundos, com Cuba. Essa, sem dúvida, é a principal impressão que fica, da leitura da vastíssima correspondência diplomática distribuída pela organização WikiLeaks, no evento conhecido como “Cablegate”.

De Andrés Perez a Chávez

Dando andamento à abertura que Andrés Perez iniciara nos anos 1970s, Chávez inaugurou linhas comerciais regulares, além de voos militares, entre Cuba e a Venezuela. Noutro movimento, mais profundo, ampliou a influência cubana também nos portos da Venezuela. Ainda mais importante, Chávez tornou-se tão ligado aos irmãos Castro que usava diretamente a informação que lhe chegava da inteligência cubana, em alguns casos vetando, inclusive, relatórios dos próprios serviços de inteligência da Venezuela. Com as relações diplomáticas melhorando entre Venezuela e Cuba, os contatos do governo com a Embaixada dos EUA em Caracas entraram em queda livre.

Os telegramas distribuídos pela organização WikiLeaks expõem também com muita clareza um esquema que levou a Venezuela a trocar petróleo venezuelano por assistência médica prestada por profissionais cubanos. Eco, provavelmente, de aberturas iniciadas também por Andrés Perez, Venezuela e Cuba também trabalham associadas hoje num canal de televisão, que distribui noticiário para todo o hemisfério, Telesur. E, como se ainda faltasse alguma coisa, os EUA desconfiam que Cuba ofereceu know how altamente especializado de comunicação, além de tecnologias, para expandir a base nacional de registro de eleitores.

Espantosa ironia é que, até hoje, o caso Posada ainda seja apresentado como “produtivo” pela inteligência dos EUA, dado que só serviu, se serviu para alguma coisa, para aproximar ainda mais Cuba e Venezuela. Na verdade, os dois países já tentaram obter a extradição de Posada, que atualmente reside abertamente em Miami. Na recente campanha presidencial, Maduro, candidato indicado por Chávez, denunciou que Posada estaria ligado a um grupo de mercenários que trabalhavam para assassiná-lo. 

Se se examinam os 40 anos passados, durante os quais Washington não fez outra coisa além de tentar impedir que prosperasse uma aliança que começou muito frágil, entre Cuba e Venezuela, a sensação que se tem é de amplo, profundo, vastíssimo desperdício de trabalho diplomático e político, para nem falar das muitas ações do Departamento de Estado que só podem ser definidas como moralmente pervertidas.

De Kissinger a WikiLeaks, o que se vê é que a campanha contraproducente que os EUA movem contra Cuba e a Venezuela só conseguiu inflar cada vez mais a opinião pública contra os EUA. Tornou a Venezuela muito mais firmemente nacionalista, já quando Chávez apareceu no cenário, nos anos 1990s.

Agora, com a muito provável eleição de Maduro nas eleições presidenciais, o que acontecerá é que os laços entre Cuba e Venezuela se aprofundarão cada vez mais. E mais uma vez se comprovará o absoluto, total fracasso, no mínimo a completa falência, da política externa dos EUA, já documentada, desde Kissinger.



quinta-feira, 7 de março de 2013

Mark Weisbrot: “Uma América Latina mais independente dos EUA e o legado de Chávez”


6/3/2013, Mark Weisbrot, Commondreams
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Mark Weisbrot
Bertrand Russell escreveu, sobre o revolucionário norte-americano Thomas Paine, que “tinha defeitos, como qualquer homem; mas foi por suas virtudes que foi odiado e caluniado com sucesso”.

Não poderia ser mais verdadeiro, dito de Hugo Chávez Frias, que foi provavelmente mais demonizado que qualquer outro presidente eleito na história do mundo. Mas continuou a ser reeleito por amplas maiorias, e foi chorado hoje, não só pelos venezuelanos, mas por muitos latino-americanos capazes de avaliar o que fez pela região.

Chávez sobreviveu a um golpe de Estado patrocinado por Washington e a greves das petroleiras que por pouco não destruíram a economia da Venezuela, mas obteve afinal o controle sobre a indústria do petróleo, seu governo reduziu a pobreza à metade e a extrema pobreza a menos de 30% do que era ao chegar à presidência. Milhões de pessoas ganharam acesso à assistência gratuita à saúde pela primeira vez na vida, e o acesso à educação aumentou muito, com o número de matriculados nas universidades duplicado e cursos absolutamente gratuitos para muitos. O número de aposentados triplicou. Chávez cumpriu promessa de campanha, de partilhar com a maioria dos venezuelanos a riqueza do petróleo do país. E tudo isso é apenas uma parte de seu legado.

Venezuelanos lamentam a morte de Hugo Chávez em frente ao Hospital Militar, em Caracas, onde ele morreu na terça-feira (5/3/2013).
Chávez deixa também, como legado seu, a segunda independência da América Latina, sobretudo da América do Sul, que é hoje mais independente dos EUA que a Europa.

Sim, nada disso teria acontecido sem os amigos próximos e aliados de Chávez: Lula no Brasil, os Kirchners na Argentina, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e outros. Mas Chávez foi o primeiro presidente que a esquerda elegeu nos últimos 20 anos, e teve papel muito importante; assistam ao que dirão dele todos esses presidentes, e todos perceberão que essas falas serão mais significativas e muito mais importantes que a maioria dos obituários, antiobituários e comentários de “especialistas”. Todos esses governos do campo da esquerda obtiveram avanços notáveis na redução da pobreza, no aumento do emprego e na melhoria das condições gerais de vida, especialmente para as vastas maiorias mais pobres – e seus partidos também foram repetidas vezes eleitos e reeleitos.

Presidentes latino-americanos continuamente eleitos e reeleitos
Para esses outros presidentes democráticos, Chávez é visto como parte dessa revolta continental que se fez pelas urnas e que transformou a América do Sul e aumentou a participação política e as oportunidades para maiorias e minorias sempre, antes, excluídas.

É altamente provável que esse processo prossiga na Venezuela depois da morte de Chávez. Seu partido tem mais de 7 milhões de filiados e já mostrou competência para vencer eleições, mesmo sem contar com Chávez em campanha nas eleições locais de dezembro passado, quando os chavistas venceram em cinco governadoratos e em 20 de 23 estados.

As relações com os EUA dificilmente melhorarão. O Departamento de Estado e o próprio presidente Obama distribuíram várias declarações hostis durante os meses da doença de Chávez, o que indica que, faça o que fizer o próximo governo (sob a provável presidência de Nicolas Maduro), Washington continuará sem trabalhar para melhorar essas relações.