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quinta-feira, 12 de março de 2015

Venezuela: Obama solta o Reagan que vive nele


Como inventar uma “Extraordinária Ameaça à Segurança Nacional”

11/3/2015, [*] Mark Weisbrot, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama em 9/3/2015
2ª-feira (9/3/2015), a Casa Branca deu mais um passo rumo ao teatro do absurdo, ao declarar “emergência nacional com respeito à inusual e extraordinária ameaça à segurança nacional e à política exterior dos EUA que se manifesta na situação na Venezuela” – como o presidente Obama escreveu em carta que enviou ao presidente do Congresso, John Boehner.

Falta ver se alguém, do valente corpo de jornalistas que cobre a Casa Branca, terá coragem de perguntar o quê, afinal, diabos, o chefe do executivo da nação mais poderosa do universo pensou que estivesse dizendo na tal carta. O quê?! Estará a Venezuela financiando iminente ataque de terroristas contra o território dos EUA? Planeja invadir território norte-americano? Está construindo bomba atômica?

A quem essa gente pensa que engana? Alguns alegaram que o linguajar tinha de ser esse, porque é o que a lei dos EUA exige, para impor a mais recente rodada de sanções contra a Venezuela. Mas não melhora coisa alguma alegar, como se fosse defesa, que a lei norte-americana é negócio em cujo processo de manipular e fraudar o presidente pode dizer mentiras à vontade, para contornar o que não queira confessar.

Foi precisamente o que fez o presidente Ronald Reagan em 1985, quando fez declaração semelhante para impor sanções – inclusive um embargo econômico – contra a Nicarágua.

Como Obama em 2015, Reagan também tentava derrubar governo eleito que não agradava a Washington. Conseguiu usar violência paramilitar e terrorista, além de um embargo, no esforço bem-sucedido para destruir a economia da Nicarágua e, afinal, derrubar o governo do país. (Em 2007, os sandinistas voltaram ao poder e são hoje o partido governante.) O mundo andou adiante. Washington, não.

A Venezuela hoje conta com o forte apoio dos países vizinhos contra o que praticamente todos os governos na América Latina veem como tentativa do governo Obama para desestabilizar o país.

“A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribe (CELAC) reitera seu forte repúdio à aplicação de medidas unilaterais coercitivas que violentam a lei internacional” – como se lia na declaração assinada por todos os países do hemisfério, exceto EUA e Canadá, dia 11/2/2015. Respondiam às sanções que os EUA haviam imposto à Venezuela, sancionadas por Obama em dezembro passado (2014).

Alguém leu alguma coisa sobre isso na imprensa-empresa em língua inglesa? Então, você provavelmente não leu tampouco sobre a imediata reação ao golpe da Casa Branca, ontem, do Presidente da União de Nações Sul-Americanas:

A UNASUL rejeita qualquer tentativa externa ou interna de interferência que busque qualquer violência contra o processo democrático na Venezuela.

Washington já esteve envolvida na tentativa de golpe militar, rapidamente derrotada em 2002, na Venezuela; deu “treinamento, construção de instituição e outros apoios a indivíduos e organizações que se sabia que estavam ativamente envolvidos no golpe” contra o presidente Hugo Chávez (golpe que durou apenas algumas horas) – segundo o Departamento de Estado dos EUA

Brasil - Golpe MILICANALHA  de 1964
Os EUA não mudaram sua política para a Venezuela depois daquilo e continuaram a financiar grupos de oposição naquele país. Assim sendo, nada mais normal do que todos que conheçam essa história recente e conheçam o conflito entre EUA e América Latina também no golpe militar de 2009 em Honduras, sabendo agora das atuais sanções contra a Venezuela, imediatamente concluam que, sim, Washington está novamente envolvida em golpismos para derrubar governo democraticamente eleito que está na mira dos EUA, para ‘mudança de regime’, já há mais de uma década.

O governo da Venezuela já exibiu provas perfeitamente aceitáveis de que há um golpe em marcha no país: a gravação de um ex-Vice-Ministro do Interior lendo o que obviamente é um comunicado a ser lançado depois que (se) os militares derrubarem o atual governo; confissões de oficiais militares acusados; e uma conversa telefônica gravada  entre chefes da oposição que admitem que há um golpe em preparação.

Independente de que se considerem suficientes essas provas (a imprensa-empresa norte-americana não noticiou praticamente coisa alguma), não surpreende que os governos regionais tenham-se dado por convencidos.  Praticamente há 15 anos, sem interrupção, veem-se esforços para derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela. Por que seria diferente agora, quando a economia está em recessão e houve tentativa para derrubar o governo venezuelano ainda no ano passado?

Aliás... alguém alguma vez ouviu falar de tentativa de golpe para derrubar governo democrático, independente e progressista na América Latina, na qual Washington não estivesse metida? Pergunto, porque eu, nunca.

A grande imprensa-empresa norte-americana e internacional fez grande alarde em torno do começo da normalização de relações entre EUA e Cuba. Mas entre os governos latino-americanos, qualquer traço de credibilidade que aquele movimento do governo de Obama talvez tivesse, acaba de ser radicalmente desmentido pela violenta agressão contra a Venezuela.

Duvido que alguém encontre um presidente, presidenta, Ministro ou Ministra de Relações Exteriores na região, que acredite que as sanções impostas à Venezuela teriam algo a ver com direitos humanos ou democracia. Absolutamente não têm.

Considerem por exemplo o México, onde trabalhadores de direitos humanos e jornalistas são regularmente assassinados ; ou a Colômbia, estado líder há anos no número de sindicalistas assassinados. Nada sequer comparável a esses pesadelos de violação a direitos humanos jamais aconteceu na Venezuela em 16 anos de governos do presidente Chávez e do presidente Nicolás Maduro. E apesar disso México e Colômbia são os principais recebedores de ajuda dos EUA na região, incluindo financiamento para militares e policiais e para comprar armas.

Obama deportou 2.000.000 de latino-americanos
governo Obama está mais isolado hoje, na América Latina que, até, o governo de George W. Bush. Por causa da ravina profunda que separa a grande imprensa-empresa internacional e o pensamento de governos regionais, nada disso é óbvio para os que não sejam dedicados estudiosos das relações hemisféricas.

Veja-se, por exemplo, quem são os autores da legislação que impôs sanções contra a Venezuela, em dezembro: os Senadores Robert Menendez (que está prestes a ser indiciado criminalmente por corrupção ativa de funcionário público) e o Republicano da Flórida, Marco Rubio, ambos ardentes defensores do embargo contra Cuba. Pois e o governo Obama anunciou, com orgulho – e sem vergonha – que as novas sanções “vão além do que essa legislação exige”.

Washington mostra, frente à América Latina, a face do extremismo. Apesar de algumas mudanças em algumas áreas da política exterior (por exemplo, a abertura de Obama em relação ao Irã), a face do extremismo norte-americano não mudou em nada, desde os dias em que Reagan “alertava” o país de que os sandinistas nicaraguenses estavam a apenas dois dias de viagem, de carro, de Harlingen, Texas. Foi ridicularizado por Garry Trudeau em “Doonesbury” e por outros chargistas.

A Casa Branca de Obama, Regan redux, merece o mesmo tratamento.
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[*] Mark Weisbrot é um economista americano, colunista e co-diretor, com Dean Baker, do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas (Center for Economic and Policy Research - CEPR) em Washington. Como comentarista, ele contribui em publicações como The New York Times, The Guardian e a Folha de S. Paulo.
Como economista, Weisbrot criticou a privatização do sistema norte-americano de seguridade social e foi um grande crítico da globalização e do FMI. Os trabalhos de Weisbrot a respeito dos países latino-americanos (incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Venezuela) atraíram interesse nacional e internacional, e em 2008 ele foi mencionado pelo ex-Ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Dilma Rousseff pode ser reeleita no primeiro turno das eleições no Brasil


Brasileiros obtiveram muito do que esperavam da eleição de Rousseff

2/10/2014, [*] Mark WeisbrotThe Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A explicação para a re-eleição de Dilma Rousseff com certeza deve ser buscada na evidência de que a maioria da população brasileira examina os 12 anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Para os que tenham idade para lembrar ou interesse em comparar os números de hoje e os dos Brasil de antes, as mudanças para melhor são muito visíveis (para os dados, vide The Brazilian Economy in Transition: Macroeconomic Policy, Labor and Inequality”, Mark Weisbrot, Jake Johnston and Stephan Lefebvre, Center for Economic and Policy Research, outubro-2014 em .pdf). 

Dilma e os trabalhadores
Quando a candidata desafiante Marina Silva apareceu nas pesquisas, há algumas semanas, à frente da presidenta Dilma Rousseff do Brasil, houve grande excitação aqui em Washington, na imprensa-empresa do business e nos mercados financeiros brasileiros. O partido de Rousseff, Partido dos Trabalhadores (PT) está no governo há 12 anos e muita gente rica e poderosa – no Sul e no Norte – muito apreciaria uma mudança. Chegou a parecer que a sorte os ajudaria: a economia brasileira consideravelmente desacelerada nos anos recentes teria entrado oficialmente em recessão esse ano – detalhe que, em tese, apressaria o fim de muitos governantes. Antes disso, houve protestos de rua a propósito de um aumento do preço do transporte público e dos gastos do governo na Copa do Mundo; até o próprio futebol parecia conspirar, sobretudo quando a seleção do Brasil perdeu por humilhantes 7-1, destroçada pelos alemães.

O que se viu, contudo, foi que Dilma superou cada um e todos esses golpes e aparece agora posicionada em primeiro lugar, com reais chances de vencer no primeiro turno e já dada por re-eleita, se houver segundo turno nas eleições. Por que e como aconteceu?

A explicação para a re-eleição de Dilma Rousseff com certeza deve ser buscada na evidência de que a maioria da população brasileira, sim, examina os 12 anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Para os que tenham idade para lembrar ou interesse em comparar os números de hoje e os dos Brasil de antes, as mudanças para melhor são muito visíveis (para os dados, vide The Brazilian Economy in Transition: Macroeconomic Policy, Labor and Inequality”, Mark Weisbrot, Jake Johnston and Stephan Lefebvre, Center for Economic and Policy Research, outubro-2014 (.pdf).

Brasil com Dilma superando a pobreza extrema
Apesar de o ritmo ter diminuído em anos recentes, e da recessão mundial de 2009, o PIB per capita do Brasil cresceu em média 2,5% por ano, de 2003-2014. Foi mais que três vezes a taxa de crescimento que se viu durante os dois governos do presidente Fernando Henrique Cardoso, que implementou as políticas do Consenso de Washington e ainda é o estadista “preferido” na capital dos EUA. (Antes de Cardoso, houve uma década e meia de fracassos econômicos ainda maiores, ocasião em que Washington teve ainda maior influência na política econômica e quando a renda per capita real diminuiu no Brasil).

A volta do crescimento, mais o uso pelo governo de Rousseff do aumento de renda, para ampliar o investimento social, fizeram cair a pobreza no Brasil em quase 55%; e a pobreza extrema, em 65%. Para os que viviam em pobreza extrema, o programa brasileiro de transferência de renda mundialmente reconhecido (“Bolsa Família”), garantiu 60% de sua renda (em 2003, foram 10%).

Aumento consistente no salário mínimo – aumentou 84% desde 2003, ajustado pela inflação – também ajudou muito.

O desemprego caiu ao número recorde de 4,9% (chegava a 12,3% quando Lula da Silva chegou à presidência, em 2003. A qualidade dos empregos gerados também aumentou: a porcentagem de trabalhadores presos no setor informal da economia caiu de 22% para 13%.

Variação da Taxa de desemprego no Brasil 
A distribuição de renda no Brasil ainda é uma das mais desiguais do mundo, mas também aí houve melhora significativa. De 2003-2012, os 40% da população imediatamente abaixo da média quase dobrou sua participação na riqueza do país, em comparação com os dez anos anteriores. Aconteceu às expensas dos 10% mais ricos.

Os pobres muito obviamente se beneficiaram dessa transformação na economia brasileira – e isso é o que se vê refletido nas pesquisas de intenção de voto. Mas não só os pobres beneficiaram-se com as condições melhoradas de bem-estar: com renda média familiar de apenas US$ 800, a vasta maioria dos brasileiros também se beneficiou com salários mais altos, desemprego em queda e aumento significativo nas aposentadorias, que também aconteceu na última década.

Para as elites, é claro, essas melhorias na vida do trabalhador comum não são boa notícia. Uma nova lei que exige que trabalhadores domésticos (o que há em grande número no Brasil, por causa da desigualdade ainda enorme) sejam oficialmente tratados como empregados formais, com horário máximo de trabalho e direito à assistência social, é o mais recente incômodo a atormentar os endinheirados no Brasil.

A mídia no Brasil tem candidato
A chamada “mídia” brasileira operando contra o governo e com candidato próprio tornou-se veículo de uma contranarrativa, segundo a qual o Brasil governado pelo PT estaria a caminho da ruína – contranarrativa que se viu também na mídia internacional. Para as empresas de imprensa no Brasil, a economia estaria declinante porque o governo não é suficiente “amigo do mercado” e do business. A inflação (que está hoje no topo da meta fixada de 6,5%) seria insuportavelmente alta, empurrada para cima por mercado de trabalho “muito regulado”; e o governo teria de “cortar gastos”. E sim, sim – o governo tem também de ser “mais amigo” dos EUA e da política dos EUA para a região (que é altamente impopular em toda a América Latina). Foi um dos temas de campanha para as eleições de 2010, que foi agora ressuscitado.

A realidade da política econômica é praticamente o contrário do que se lê na imprensa brasileira: de fato, mesmo, desde o final de 2010 o governo tem dado o que parece a muitos ser excessiva atenção à Big Finance, aumentando taxas de juros e cortando gastos em momentos em que a economia pareceu fraca demais. Esperemos que esses erros não se repitam.

Se Dilma vencer, terá sido porque a maioria dos brasileiros obtiveram, sim, muito dos objetivos para os quais a elegeram. O mais provável é que queiram mais, e certamente querem. O mais improvável é que os brasileiros votem por um retrocesso.



[*] Mark Weisbrot é economista e co-diretor do Center for Economic and Policy Research em Washington DC.É coautor, com Dean Baker, de Social Security: the Phony Crisis. Criticou a privatização do sistema norte-americano de seguridade social (hoje um dos mais precários do mundo) e foi um grande crítico da globalização e do FMI. Os trabalhos de Weisbrot a respeito dos países latino-americanos (incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Venezuela) atraíram interesse nacional e internacional. É comentarista de política econômica internacional com artigos publicados, p.ex., no New York Times (USA) e no The Guardian (UK).

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quanto mais nefanda a política externa dos EUA, mais ela depende essencialmente da cumplicidade da imprensa-empresa

6/8/2013, [*] Mark Weisbrot, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Quebrada dos Muquifos na Vila Vudu: O argumento desenvolvido no artigo abaixo serve também como luva, ao golpismo “midiático” em que está empenhado o facinoroso governador Alckmin, em São Paulo, Brasil.

Alckmin está usando a imprensa-empresa udenista/venal paulista para fazer-crer que não saberia de coisa alguma do mar de lama que cobre todo o governo do Estado de São Paulo, desde os anos de Mário Covas, no escândalo que as empresas Siemens e Alstom decidiram, afinal, expor ao Ministério Público e ao CADE.

Alckmin pôs-se a esbravejar, pelos jornais, que “exigirá” acesso aos documentos do processo. Não tem direito de exigir porcaria nenhuma de documentos – como o CADE respondeu-lhe na lata e muito bem, resposta agora já plenamente confirmada pela justiça.

Nem por isso Alckmin -- tucano tão facinoroso que conseguiu varrer de seu caminho até o tal de Cerra, o hiper arapongueiro mór, o homem dos dossiers inventados e da chantagem desbragada -- calou o bico.

Alckmin é bandido perigoso. Mas não seria tão perigoso e tão danoso ao Estado e ao Brasil, se não tivesse, a seu serviço, a hiper imundíssima empresa-imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro e porque não dizer do Brasil...

Os EUA têm hoje gasto militar mais alto, em valores corrigidos pela inflação, do que no pico da avançada da Guerra Fria de Reagan, durante a Guerra do Vietnã e a Guerra da Coreia. Parecem viver em estado de guerra permanente e – como acabamos de descobrir – de espionagem massiva pelo governo, com vigilância sobre os próprios norte-americanos. Isso, apesar de já não haver ameaça real grave contra a segurança física dos norte-americanos.

Desde o 11/9/2001, só 19 pessoas morreram em atos de terrorismo nos EUA; e nenhuma dessas mortes teve qualquer relação com terroristas estrangeiros. Os EUA tampouco enfrentam “inimigos do estado” que impliquem ameaça militar significativa contra o país – não há, no mundo, estado que possa ser classificado como “estado inimigo” dos EUA.

Keane Bhatt
Uma das causas dessa profunda desconexão é que praticamente toda a imprensa-empresa e as mídias de massa nos EUA vivem de oferecer imagem profunda e grosseiramente distorcida do que é hoje a política externa dos EUA.

A “notícia” é que a política externa dos EUA sempre é muito mais benévola e justificável do que a realidade do império que a maior parte do mundo conhece. Em estudo bem fundamentado, fartamente documentado e publicado pelo North American Congress on Latin America (NACLA), Keane Bhatt nos mostra, com riqueza de detalhes, como o simulacro “jornalístico” é construído.

Bhatt concentra-se num programa popular e interessante exibido pela rede National Public Radio (NPR), This American Life [Essa vida norte-americana], [Programa do dia 2/8/2013, em inglês (NTs)] com especial atenção a um dos episódios, que recebeu o Peabody Award  [Programa da rádio em 27/7/2013 (NTs)]. 

O Peabody Award, para realização de alta qualidade no jornalismo eletrônico, é prêmio de muito prestígio – o que torna ainda mais relevante o caso estudado.

Descoberta do massacre da vila de Dos Erres na Guatemala
Aquela edição do programa trata de um massacre, na Guatemala, em 1982. Apresenta impressionantes depoimentos de testemunhas oculares de um horrendo massacre de praticamente todos os moradores da vila de Dos Erres, mais de 200 pessoas. As meninas e as mulheres foram violentadas, antes de serem assassinadas; os homens foram assassinados a tiros ou esquartejados com serras; e muitos, inclusive crianças, foram jogados – vários ainda vivos – num poço abandonado, que acabaria sendo a sepultura comum deles todos.

O programa de rádio leva o ouvinte a acompanhar uma heróica investigação do crime – o primeiro desse tipo, naquela região, em que os assassinos foram processados e condenados. E, no final, ainda se ouve o depoimento emocionante de um sobrevivente que tinha três anos à época do massacre. Trinta anos depois, já vivendo em Massachusetts, esse sobrevivente afinal descobre as próprias raízes e o pai biológico, como um dos resultados daquela investigação. O pai perdeu a esposa e os outros oito filhos, mas sobreviveu, porque, por acaso, não estava na cidade no dia do massacre.  

Efraín Rios Montt
O roteiro não esconde que esse foi apenas um dentre muitos massacres do mesmo tipo:

Aconteceu em mais de 600 vilarejos, com dezenas de milhares de mortos. Uma Comissão da Verdade conseguiu descobrir que mais de 180 mil guatemaltecos foram mortos ou resultaram desaparecidos em massacres perpetrados pelo próprio governo da Guatemala.

Mas há um detalhe que, esse sim, o programa omite cuidadosamente: o papel dos EUA no que uma Comissão da Verdade da ONU, em 1999, definiu, em termos jurídicos, como “genocídio”.

A ONU condenou especificamente o papel de Washington, e o presidente Clinton teve de pedir desculpas públicas por aquele papel – a primeira vez, e, que eu saiba, a única vez, que algum presidente dos EUA teve de pedir desculpas por participação dos EUA em um genocídio.

A ONU comprovou que os EUA forneceram armas, treinamento, munição, cobertura diplomática e política e outros tipos de cobertura e de apoio aos criminosos assassinos em massa: tudo fartamente documentado; e o caso recebeu ainda mais atenção por causa do recente julgamento do militar e ex-ditador general Efraín Ríos Montt, que governou a Guatemala em 1982-83. 

Pedro Pimentel
(Como Bhatt observa em seu estudo, o programa diz que a embaixada dos EUA ouvira relatos de massacres durante aqueles anos, mas “não lhes deu atenção”. No mínimo, o programa falseia os fatos: há inúmeros telegramas que mostram que a embaixada estava recebendo farta e clara informação sobre o que estava acontecendo).

De fato, um dos soldados que participou do massacre de Dos Erres, Pedro Pimentel, condenado mais tarde a 6.060 anos de prisão, foi resgatado por avião e levado, um dia depois do massacre, para a Escola das Américas, a instalação militar norte-americana de treinamento, onde foram adestrados alguns dos principais e mais nefandos ditadores e criminosos violadores de direitos humanos da região.

É espantoso que um dos mais sanguinários genocidas do pós-IIa. Guerra Mundial tenha sido ajudado, apenas algumas horas depois de cometido o massacre, e levado para território dos EUA para ser protegido, sem que nenhum jornal, rede de televisão ou de rádio jamais noticiasse o fato.

Allan Nairn
O jornalista investigativo Allan Nairn entrevistou um soldado guatemalteco em 1982, que narrou como ele e seus camaradas massacraram aldeias inteiras, como em Dos Erres. Apesar disso, a grande imprensa-empresa norte-americana ignorou a entrevista, o que permitiu que Ronald Reagan promovesse Ríos Montt como “homem de grande integridade e comprometimento pessoais”. Por tudo isso, deve-se estranhar muito as omissões na narrativa do episódio premiado de “Essa vida norte-americana”.

É bem claro na fala de Ira Glass, apresentador do episódio, que ele conhecia bem o papel dos EUA no genocídio na Guatemala. Nos anos 1980s, parece que chegou a viajar à América Central, e era jornalista muito ativo na luta contra guerras financiadas pelos EUA e respectivos crimes de guerra naquela região. Em correspondência por e-mail com Bhatt, ele reconhece que “talvez não tenhamos agido corretamente” ao omitir qualquer informação sobre o papel dos EUA naquele genocídio.

Ira Glass
É pouco, como avaliação crítica, mas é avaliação muito significativa. Permite concluir que, do ponto de vista da grande imprensa-empresa norte-americana, para programa radiofônico transmitido em inglês para todo o território dos EUA, essa semiverdade, essa vasta omissão de fatos conhecidos, seria tudo o que os cidadãos norte-americanos precisariam saber sobre aquele genocídio.

Nem estou culpando Glass. É provável que, se tivesse destacado o papel dos EUA naquele genocídio e se tivesse questionado alguns dos oficiais e funcionários dos EUA responsáveis por aquela ação, jamais tivesse obtido autorização para distribuir o programa pela rádio pública. E com absoluta certeza o programa jamais teria recebido o Prêmio Peabody.

Por isso o programa e o prêmio são tão impressionante ilustração de como a censura e a autocensura operam na imprensa-empresa dos EUA. Demonstra, no plano micro, algo que testemunhei incontáveis vezes nos últimos 15 anos de conversas com jornalistas sobre esses temas. Os jornalistas têm ideia bem clara de quanto de verdade podem noticiar. Encontrei inúmeros bons jornalistas que tentaram ultrapassar esses limites e alguns até conseguiram – mas, regra geral, não duraram muito.

Scott Wilson
Scott Wilson, que foi editor de internacional do Washington Post e cobriu a Venezuela durante o golpe (que teve vida curta) contra governo democraticamente eleito na Venezuela em 2002, disse, numa entrevista, que “os EUA tiveram envolvimento” naquele golpe. Pois essa importante informação jornalística jamais apareceu publicada no Post, nem em qualquer outro veículo da grande imprensa-empresa nos EUA, apesar da abundância de documentos e de provas de que, sim, o governo dos EUA participara ativamente do golpe. Mais uma vez, pode-se dizer que esse detalhe era o mais fundamentalmente importante da história, para o público norte-americano – sobretudo porque desempenhou papel decisivo no envenenamento de todas as relações entre Washington e Caracas ao logo de toda a década e teve provavelmente impacto significativo nas relações dos EUA com todo o continente sul-americano. Mas, como na história do massacre de Dos Erres, o papel dos EUA naquele crime não é “mpublicável”.

O mesmo vale para o papel dos EUA no golpe que destruiu a democracia em Honduras em 2009. Os consideráveis esforços feitos pelo governo Obama para apoiar e legitimar o governo golpista não foram considerados “noticiáveis”... pelos jornalistas norte-americanos. (Bhatt também é roteirista de outro episódio da série “Essa vida americana”, no qual o golpe apoiado pelos EUA ficou fora da história da qual deveria ser, de fato, o evento determinante). E também nesse caso, a participação decisiva dos EUA em mais um Golpe de Estado não foi considerada noticiável na imprensa-empresa norte-americana.

Que cara teria a política externa dos EUA, sua política militar e a chamada “segurança nacional” dos EUA, se a imprensa-empresa realmente noticiasse os fatos determinantes reais, conhecidos e comprovados dessas políticas?

Com certeza, diminuiria muito o número de esquifes de soldados norte-americanos enterrados longe de casa e, também, dos que voltam para serem entregues às famílias. E tampouco os EUA estariam cortando os programas de comida para os pobres, ou de hospitais para velhos desamparados... Só para conseguir continuar a manter o mais inacreditavelmente ensanguentado orçamento militar que o mundo jamais conheceu.




[*] Mark Weisbrot é um economista americano, colunista e co-diretor, com Dean Baker, do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas (Center for Economic and Policy Research - CEPR) em Washington. Como comentarista, ele contribui em publicações como o New York Times, o The Guardian e a Folha de S. Paulo. Como economista, Weisbrot criticou a privatização do sistema norte-americano de seguridade social e foi um grande crítico da globalização e do FMI. Os trabalhos de Weisbrot a respeito dos países latino-americanos (incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Venezuela) atraíram interesse nacional e internacional.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

OMC- Organização Mundial de Comércio: “A disputa pela presidência”

Jogão! Brasil x neoliberais! Dia 7 de maio! 
NÃO PASSARÁ NA GLOBO!

5/5/2013, Mark Weisbrot, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mark Weisbrot
Em 2004, quando as negociações comandadas por Washington a favor de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) já estavam praticamente fracassadas, Adhemar Bahadian, brasileiro, co-presidente da comissão de negociações, descreveu com muito espírito o clima de frustração reinante. Comparou o acordo a “uma stripper de cabaré barato”: “à noite, na penumbra, é uma deusa” – disse ele à imprensa. – “Mas à luz do dia a moça é coisa completamente diferente. Talvez até seja um moço”.

Muitos países, hoje, já passaram pelo mesmo processo de desencanto e desilusão com a Organização Mundial de Comércio (OMC), criada em 1995 como alternativa “multilateral” aos acordos bilaterais e regionais. Desde o início todas as regras foram construídas para favorecer os países ricos. Mas, além das regras, os países ricos, liderados pelos EUA, jamais aceitaram a ideia de que uma instituição multilateral devesse ser pensada para beneficiar todos, inclusive os países em desenvolvimento. Estavam viciados demais, acostumados demais às práticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, sempre controlados por Washington e seus aliados, os países ricos, por mais de 60 anos. A OMC, diferente do FMI e do BM, foi construída para operar por consenso. Mas, com o tempo, verificou-se que alguns membros eram mais iguais que outros.

Blanco versus Azevedo

Roberto Azevedo
Os países ricos insistem em deixar isso bem claro, mais uma vez, com EUA e União Europeia trabalhando para pôr seu candidato na cadeira de diretor-geral, nas eleições de 3ª-feira próxima, 7 de maio. Pascal Lamy, da França, ex-Comissário de Comércio Europeu, que representa o ponto de vista dos países ricos, estará deixando o cargo, depois de dois mandatos de quatro anos. Agora, é a vez de os países em desenvolvimento assumirem aquela presidência – e a rodada final (de um processo eleitoral que, de transparente, nada tem), acontecerá entre Herminio Blanco do México versus Roberto Azevedo[1] do Brasil.

Embora pareça disputa entre dois latino-americanos, é visível, para praticamente todo o planeta, que Blanco é candidato dos EUA e de seus aliados.

Primeiro, que o governo do qual Blanco participa é, como diz o ditado, “distante de Deus e próximo dos EUA”. Não se trata só de geografia e de integração econômica, mas de todo um conjunto partilhado de políticas neoliberais que ligam intimamente Blanco e seus vizinhos do norte. Blanco é um dos arquitetos do NAFTA, tratado que arruinou centenas de milhares de agricultores no México (ironicamente, porque foram obrigados a competir contra colheitas subsidiadas) e manteve o México numa trilha de “desenvolvimento” à moda neoliberal, que, hoje, só pode ser descrita como experimento fracassado.

Hermínio Blanco
Dado que grande parte da imprensa-empresa comercial anda festejando muito o fato de que o México está momentaneamente crescendo mais depressa que o Brasil, comparemos o desempenho dos dois países desde que o Partido dos Trabalhadores (PT) assumiu a Presidência do Brasil, em 2003. O PIB do Brasil cresceu 28,6%; o do México, só 12% – o segundo pior desempenho (depois da Guatemala) em toda a América Latina. Vai-se ver, o PT brasileiro conhece algum segredo do desenvolvimento, que os NAFTA-Chicago-boys ignoram até hoje! (Blanco é pós-graduado em Economia pela Universidade de Chicago, de péssima fama, conhecida por formar a extrema direita da profissão e achincalhada em toda a América Latina, por causa dos “Chicago Boys”, os rapazes de Milton Friedman, conselheiros do ditador Augusto Pinochet no Chile).

As regras da OMC, escritas pelos países ricos, foram escritas para fazer ampliar o comércio por vias que não levava em conta o desenvolvimento!

A diferença entre México e Brasil é maior que o simbolismo dos dois candidatos e vai além da evidência de que o Brasil é muitíssimo mais independente dos EUA, que o México; vai além, também, da realidade de que cada um dos candidatos será inevitavelmente influenciado pelas políticas e alianças de seus respectivos governos.

Uma das razões pelas quais a OMC fracassou na tentativa de promover a própria agenda há mais de 11 anos é que aquela agenda inclui um programa concebido para outros tempos, e que jamais conseguiria decolar se fosse submetida hoje aos estados membros.

Comentário entreouvido na Vila Vudu: Com pequenas diferenças de terminologia, pode-se dizer que esse, precisamente, é o problema da tucanaria uspeana paulista, hoje. E também é o problema da ala Opus-Deisista-Alckminista da mesma tucanaria paulista, todos eles já sem projeto, sem discurso e sem votos. Porque aquele papim fraco do neoliberalismo dos tucanos “é programa concebido para outros tempos”. BINGO!

Entre 1980-2000 houve acentuada queda no crescimento econômico na maioria dos países do mundo, que veio acompanhado de um declínio nos indicadores sociais como expectativa de vida e mortalidade pós-natal e infantil. Tudo isso coincidiu com o que se conhece como mudanças políticas “neoliberais” – que incluíram não só políticas monetárias e fiscais de maior arrocho; privatizações em série e desregulação, mas, também o abandono, pelos Estados e governos neoliberais, de estratégias de desenvolvimento ajudado pelo Estado que, antes, haviam sido muito bem-sucedidas em muitos países. As regras da OMC, escritas só pelos países ricos à altura do final desse período, visavam a expandir o comércio, mas sem considerar o desenvolvimento. O comércio pode, sem dúvida, dar considerável contribuição ao crescimento, como aconteceu na China nas últimas três décadas. Mas o comércio (e os investimentos externos) chineses foram muito cuidadosamente administrados como parte de uma estratégia geral de desenvolvimento.

Os neoliberais e suas políticas econômicas falhadas

A década passada, apesar da Grande Recessão e da recessão aparentemente sem fim na Europa – nos dois casos causada por políticas econômicas falhadas adotadas nos países ricos, assistiu a um inesperado (para alguns) crescimento nos países em desenvolvimento. Ironicamente, boa parte desse novo crescimento foi gerado pela super demanda chinesa, economia gigante que rejeitou todas as “reformas” da era neoliberal e que – avalie-se pelo parâmetro que for – torna-se agora a maior economia do mundo.

O mundo é hoje um lugar diferente, por mais que EUA e seus aliados de alta renda repitam que nada mudou. Basta ver que, depois de a desregulação financeira ter gerado a pior recessão que o mundo conheceu desde a Grande Depressão, eles ainda querem “mais liberdade” para as operações financeiras. Querem que os países emergentes reduzam as tarifas sobre bens manufaturados, enquanto, lá, eles mesmo, consomem centenas de bilhões de dólares anualmente em subsídios para a agricultura deles; e combatem qualquer esforço que os países emergentes façam para proteger a própria agricultura e os pequenos agricultores.

É mais do que evidente que os EUA e seus aliados promovem, lá, a mais dispendiosa forma de protecionismo que há no mundo: o protecionismo do Estado à indústria farmacêutica local. É o exato oposto de qualquer noção de “livre comércio” de que tanto falam, com aqueles monopólios, protegidos e ampliados acordos TRIPs (“Trade-Related” Aspects of Intellectual Property Rights) da OMC, fazendo aumentar os preços dos remédios às centenas, às vezes aos milhares por cento – assegurando praticamente tarifa zero, contra todos os países em desenvolvimento, nos computadores e eletrônicos em geral. Para nem falar dos efeitos sobre a saúde humana da sobretaxa imposta a remédios essenciais e a qualquer pesquisa que vise a melhorar as condições de saúde da humanidade.

Nesse campo, também, o Brasil liderou importantes esforços para quebrar o monopólio de patentes a favor da saúde pública. E o NAFTA de Blanco só fez ampliar a proteção de que goza a indústria farmacêutica norte-americana.

Diferente de Blanco, que fez carreira negociando acordos comerciais neoliberais, sempre movidos por interesses privados, especialíssimos, Azevedo é diplomata com longa experiência na OMC, visto como tecnicamente muito competente, que goza de boa reputação entre os especialistas da OMC.

É escolha, de fato, bem fácil para todos que desejem ver a OMC caminhar na direção de uma agenda de legítimo interesse público. E aí estão incluídos não só os países emergentes: residentes nos EUA perdem anualmente $290 bilhões de dólares, que o governo dos EUA aplica para proteger e preservar o monopólio para sua indústria farmacêutica, exatamente o que a OMC foi criada para impedir que acontecesse! Mas infelizmente os cidadãos norte-americanos não temos representante na OMC. Ali só falam as grandes corporações.



Nota dos tradutores
[1]  Encontra-se algum noticiário (mínimo) nos "grandes jornais e revistas" sobre a IMPORTANTÍSSIMA eleição na OMC e o candidato do governo brasileiro (Lula-Dilma), em matéria do Valor de 11/3/2013 no clipping do Itamaraty: Disputa pela direção da OMC aumenta e brasileiro se consolida entre favoritos.
Há matéria ginasiana, da editora Abril, Revista Exame de 2/5/2013, em: Candidatos à OMC são sabatinados por europeus; e no Valor de 26/4/2013 em: Roberto Azevedo se diz otimista sobre vitória na disputa pela OMC.
Nada encontramos em O Globo, FSP e Estadão, que são hoje uma espécie de “Grande Hotel”, antiga revista de fotonovelas, dirigida ao hiper-imbecilizamento da já imbecilizada “elite” (só rindo) paulista, no caso dos dois últimos, e carioca, no caso do primeiro.
O PT, infelizmente, parece nada ter a dizer nesse assunto tão crucialmente importante. Vai-se ver, os petistas ainda não conseguiram localizar a “ética” na OMC. Nessas horas, Chávez e Lula fazem, sim, muuuita falta nas lutas.