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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Consenso a golpes de malho “jornalístico” − A ilusão do debate “midiático”

2/12/2014, [*] Jason HirthlerCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com manter e ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.


Debate RIDÍCULO: McCain e Carney estão do mesmo "lado"... São "falcões"!
Em artigo recente, a organização Fairness & Accuracy in Reporting, FAIR, revisou todos os achados de pesquisa de seus estudos anteriores sobre a qualidade do “debate” político levado ao ar pelas redes de difusão da imprensa-empresa dominante. Estudou o processo pelo qual foram levadas à opinião pública as intervenções militares, pelos EUA, contra Iraque e Síria. A ideia daqueles jornalistas talvez fosse mostrar o que os EUA aprendemos desde a guerra fraudulenta de que o Iraque foi vítima, em 2003. Pois... parece que aprendemos nada, coisa alguma.

FAIR trabalhou ao longo de pesadas e dolorosas muitas horas, absorvendo toda a desinformação e a informação desimportante pisada e repisada pelos soníferos shows dos domingos, como State of the Union [Estado da União], no canal CNN; Face the Nation [Cara a cara com a Nação], no CBS; Meet the Press [Mesa Redonda com a Imprensa], no NBC; eThis Week [Esta Semana], no ABC, além de alguns dos programas de comentário político mais populares, incluindo Situation Room [Sala de Situação], do canal CNN, perigosíssimo, porque pode induzir surtos de hiperatividade pela Síndrome do Déficit de Atenção [ing.ADHD]; o Special Report do canal Fox News; o venerável sedativo News Hour [Hora da Notícia] do canal PBS; e Hardball [Jogo Duro] do canal MSNBC. Todos conhecemos o elenco que jamais varia: o hiper falante George Stephanopoulos, a direta Candy Crowly, o eternamente sofredor Wolf Blitzer e o esbravejante Chris Matthews. Imagens dessas bocarras que ganem estão implantadas no hipocampo nacional.

No total, 205 porta-vozes repetidores da Casa Branca foram convidados para repetir ante os cidadãos telespectadores nos EUA as respectivas “ideias” espertamente construídas frase a frase para “elevação” da “informação” do público norte-americano. Desses, o espetacular número de 3 (três!) manifestaram-se contra a ação militar dos EUA na Síria e no Iraque. Reles 125 especialistas alinharam argumentos “de especialista” a favor de ação agressiva contra aqueles dois países.

Se se contam só os “especialistas” atuantes nos programas dominicais, 89 “especialistas” convidados foram bem remunerados para educar a obtusa população norte-americana de sofá-e-batata-frita de domingo. Um deles (1!) sugeriu que ninguém fosse à guerra. Ausentes, totalmente ou quase, por difícil que seja acreditar, de lá, estiveram todos os argumentos de lei contra aquelas intervenções ilegais. Alguém “enviesado” a favor do respeito à lei? Não, não, ninguém.

O consenso “midiático” sobre Síria e Iraque não é instância isolada de pensamento-de-grupo. Longe disso. Na verdade, corresponde a um padrão bem claro, cujo núcleo é deliberada desatenção e desapego à lei internacional e a qualquer esforço para fazer valer tratados transnacionais legais e vigentes e leis sobre ação militar. (Mas as leis que regulam o comércio transnacional essas, por razões óbvias, são consideradas importantíssimas e merecedoras de muita consideração e muito respeito, por motivos óbvios).


New York Times, cegamente, sem qualquer investigação ou pesquisa, sem crítica, repete o número que Israel divulgou, de mortos no recente ataque do estado judeu contra Gaza. A jornalista, Jodi Rudoren, considera fontes igualmente dignas e legítimas tanto Telavive (que fala, fala, mas prova, é nenhuma) e a ONU e o vasto trabalho de pesquisa e coleta de informações que fez, bem como organizações palestinas independentes, de direitos humanos, em Gaza. Ela adota uma “definição” israelense, sem qualquer fundamento, do que seja “combatente”, ignorando todo um vasto e rico consenso internacional que contradiz a “definição” israelense. Mistura, suspeitosamente, menores e adultos, e faz sumir o número de crianças mortas por Israel. E por aí vai. Tudo a serviço da posição pró-Israel da empresa-imprensa que publica o NYTimes.

Em 2010, Israel atacou uma flotilha de barcos que levavam ajuda humanitária a ser entregue a palestinos na Faixa de Gaza que Israel bloqueara. Anthony DiMaggio, escritor e analista político coordenou as pesquisas Lexis Nexus, que demonstram como a imprensa-empresa nos EUA em geral, e o NYTimes em especial, evitam cuidadosa e atentamente qualquer tema que faça lembrar a lei internacional, sempre que discutem ações de Israel. Numa análise de artigos do Times e do Washington Post sobre Israel entre 31 de maio e 2 de junho de 2014, apenas cinco textos faziam referência à lei internacional relacionada seja à flotilha humanitária, seja ao bloqueio ilegal.

DiMaggio disseca vários dos meios pelos quais Israel frauda a Carta das Nações Unidas. Diz que Israel já violou mais de 90 resoluções do Conselho de Segurança da ONU relacionadas à ocupação de terras palestinas. Nada disso – nada – aparece publicado na “grande mídia” dominante. Essa omissão é típica: é a regra. A imprensa-empresa norte-americana dedica-se atenta e cuidadosamente a privilegiar a narrativa israelense, não o ponto de vista dos árabes e praticamente ignora a existência de dúzias de resoluções da ONU que condenam as ações criminosas dos israelenses.

O mesmo se constata no “jornalismo” sobre o Irã. Já há anos, Washington alerta o mundo, teatralmente, espalhafatosamente, que o Irã quer construir sua bomba atômica e ameaça com ela todo o Oriente Médio. Para começar, implica “esquecer” que seria suicídio. Todas as agências de inteligência norte-americanas, e muitas outras que acompanham os eventos na região, sabem que a política externa do Irã é política de contenção e que o programa nuclear iraniano tem finalidades pacíficas. Nada e ninguém consegue impedir que o “jornalismo” do canal MSM apresente Teerã como ninho e forno de onde não param de sair os mais ensandecidos terroristas.

Figure 1: New York Times and Washington Post Editorials on Iran’s Nuclear Program
March 16, 2010, through March 15, 2012
New York Times
(18 total)
Washington Post
(22 total)
Considered International Law Implications of US/Israeli Actions and Threats
0
0
Considered Effects of Sanctions on Iranian People
1
2a
Considered Iranian Civilians’ Views on Sanctions
0
0
Recognized Iran’s Right to Pursue Civilian Nuclear Program
1b
0
Mentioned Israel’s Nuclear Weapons
0
0
Supported US/UN Sanctions
17
17
Said or Implied That Iran Is Seeking Nuclear Weapons
17
17


Kevin Young investigou artigos “jornalísticos” sobre as negociações nucleares entre EUA e Irã, com resultados espantosos. Foram analisados cerca de 40 editoriais publicados peloNYTimes e pelo WPost. Precisamente zero editoriais, zero, nenhum, reconhecia as implicações contra a lei internacional, de os EUA viverem a repetir ameaças e a apoiar atos subversivos praticados por Israel – como assassinar cientistas iranianos, e fazer ciberataques, nos dois casos modalidades “inovadoras” da violação padrão de soberania de outros países. Impressionantemente, 34 das tais peças de “informação jornalística” “diziam ou deixavam implícito” que o Irã está trabalhando para construir sua bomba atômica. Esqueçam todos tudo o que disseram 16 agências norte-americanas de inteligência (que o Irã não mantém programa ativo de produção de armas nucleares). Esse “jornalismo” já fez a escolha crucial de operar no campo do boato, da intriga, do ouvir-dizer. Portanto, nada muda, mesmo que haja estudos sérios e/ou crítica ativa que façam-saber que o fato é outro. Mais de 80% dos artigos publicados eram favoráveis às sanções incapacitantes que os EUA insistem em manter contra o Irã – e cuja única justificativa é o fato inventado por esse “jornalismo”, de que o Irã estaria construindo a tal bomba.

Antes do trabalho de Young, Edward Hermann e David Peterson analisaram 276 artigos publicados sobre o programa nuclear iraniano entre 2003 e 2009. O número em si já é espantoso. Mais espantoso ainda se torna, se se o compara ao número de artigos publicados no mesmo período, sobre o programa nuclear israelense: míseros três. [1]

É interessante, se se considera a postura dos dois países em relação a tratados internacionais. Israel armazena livremente pilhas e pilhas de bombas atômicas e mantêm “política de ambiguidade deliberada” sobre as próprias capacidades atômicas, apesar dos frequentes esforços de países árabes para persuadir Israel e reconhecer a existência de seu arsenal atômico (estimado hoje em várias centenas de ogivas nucleares). Israel ainda não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, já firmado por 190 países em todo o mundo [inclusive pelo Irã]. Essa posição intransigente é empecilho sempre ativo contra todos que trabalham para implantar uma zona desnuclearizada naquela região.

Imagem do Google Earth do local (branco, no centro) das instalações nucleares de Fordow, Irã
Compare-se, então, o comportamento de Israel e do próprio Irã – que permitiu inspeções extensivas em suas instalações nucleares. Até o Times  observou recentemente que as principais instalações nucleares iranianas estavam “lotadas de inspetores”.Além de ser signatário do TNP, o Irã é também membro pleno da Associação Internacional de Energia Atômica (AIEA). E o Irã continua a trabalhar em busca de solução racional com o Ocidente, apesar da sanções que os EUA impuseram ao país. O EUA também pressionaram ilegalmente e indevidamente a AIEA para que adotasse outros protocolos, segundo os quais o Irã teria de satisfazer exigências ainda maiores, o que tornou a possibilidade de solução negociada cada dia mais (confortavelmente, do ponto de vista dos EUA) distante. (Aquelas demandas adicionais incluíam, pelo que se soube, que o Irã aceitasse ser vigiado por drones, que “fiscalizariam” desde a origem até o destino, todas as centrífugas que viessem a ser construídas no país, além de aceitar também que os EUA instalassem escutas no palácio do governo. Pois nada disso mereceu sequer uma linha de comentário “objetivo”, dos nossos “especialistas” ou dos nossos “jornalistas”).

A cobertura do Iraque não é diferente, sobretudo o que se viu e vê-se novamente, antes de cada nova guerra periódica ilegal de agressão, pelos EUA, contra aquele país. O ex-Relator Especial da ONU para a Palestina, Richard Falk, e o escritor Howard Friel realizaram, em 2004, pesquisa para avaliar a cobertura pré-guerra do Iraque, que o jornal New York Times ofereceu em 2003. Em mais de 70 artigos, o Times jamais mencionou as expressões “Carta da ONU” ou “lei internacional”. A pesquisa também demonstrou que “Não há qualquer espaço assegurado para divulgação da grande quantidade de argumentos em invocam a lei internacional ou que pregam a preservação da paz mundial, em oposição à guerra”. Mas são argumentos que só se ouvem longe dos corredores ocidentais do poder em Washington, Londres, Paris e Telavive – e que nossos “especialistas” “midiáticos” e jornalistas em geral ignoram completamente.

Isso não é debate, muito menos é debate democrático. A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.

Eric Prince - Chefe da gangue Blackwater (hoje Academi)

Assim sendo, no que tenha a ver com Irã, Iraque, Síria e outros casos assemelhados, a questão nunca é se se vai ou não à guerra: a questão é só o tipo de guerra a ser inventada. Falcões querem bombas. Pombos, sanções. A linha mais dura quer pôr os Marines lá. Os Democratas querem um exército de jihadis alugados. Todos querem os mercenários da empresa Academi. (Obama contratou a gangue antes conhecida como Blackwater, para trabalhar como se fosse a CIA, por, secos, US$250 milhões). E quando tivermos dado cabo do Estado Islâmico...

  • A questão não será alguma estratégia de retirada. Não!
  • A questão, então, será se os coturnos norte-americanos [no solo, no ar ou no mar] devem tomar o rumo oeste, para Damasco; ou leste, para Teerã.
  • A questão não é se os EUA devem cortar a ajuda que dão a Israel – por causa dos assassinatos de palestinos em massa, em Gaza e na Cisjordânia – ou se devem manter a ajuda.
  • A questão é quanto de terra os condomínios podem continuar a roubar dos palestinos, no Vale do Jordão, sem gerar incontrolável desprezo contra Israel. (De aplicar a lei internacional, outra vez, nem se cogita).
No front doméstico,

  • a questão não é se haverá pagador único ou assistência médica privada à saúde; a questão é se os cidadãos devem ser obrigados à força & malho, a comprar planos privados, ou se devem ser só aconselhados a comprar os mesmos planos.
  • A questão não é se se mantêm ou não as conquistas do New Deal: a questão é como fazer para destripá-las em tempo recorde.
  • A questão não é se os cidadãos devem ou não poder fiscalizar a ação dos políticos: a questão é onde armazenar os dados e se se roubam metadados de two-hop ou de three-hop.
  • A questão não é se se prendem ou não torturadores conhecidos: a questão é como redigir os relatórios dos ‘eventos’, de modo que os torturadores escapem de qualquer acusação.
  • A questão não é se se regulam ou não os doidos de Wall Street. A questão é, como disse o viscoso advogado Bennett Holiday, da indústria do petróleo, em Syriana, criar “a ilusão do devido processo legal”.
Nada disso implica dizer que os meios de jornalismo de massa não conheçam pontos de vista diferentes dos deles. Eles conhecem, mas só os reconhecem como pontos de vista possíveis se podem ser usados para ‘comprovar’ conclusão já definida. Ao longo do ano que está terminando, os jornais e televisões do noticiário de massa quase cansou a audiência, de tanto que falaram e falaram a favor do respeito à lei internacional.

Ucrânia -Bombardeio de um "check-point" próximo de Lugansk por forças da junta-de-Kiev
Howard Friel rastreou os registros de respostas ao fiasco ucraniano nas páginas do NYTimes. E o que descobriu? Quando a Crimeia, em plebiscito, pediu a reintegração à Rússia, e a Rússia aceitou a reintegração da Crimeia, o  NYTimes investiu furiosamente contra a tal “invasão”, agarrado ao argumento de que seria violação da lei internacional. Oito diferentes editoriais em apenas poucos meses, em tom frenético, para “detonar” o presidente Vladimir Putin da Rússia por causa da tal violação “ilegal” de direitos dos crimeanos, e o “desprezo”, o “pouco caso”, a “flagrante transgressão”, o ataque frontal... à lei internacional. Conclamações sem fim para que se tomassem medidas contra tal desconsideração do consenso global, cínica, descabida. Os aliados ocidentais que tratassem de agir para “reafirmar a lei internacional” e aplicar pesadas penalidades à Rússia, por  “atropelar sem qualquer cuidado” preceito sagrado, hiper-super sagrado, tipo “a soberania ucraniana”.

Em outras palavras, Washington apoia golpes contra governos eleitos em Kiev, na Síria e em Tegucigalpa, envia drones para “atropelar sem qualquer cuidado” fronteiras iemenitas, paquistanesas, somalis e outras fronteiras fracamente protegidas; e manda milhares de soldados, conselheiros e jihadistas armados pelos EUA para proteger os buracos negros onde operam os torturadores da CIA no Iraque e no Afeganistão. Mas melhor não nos metermos nessas contas. Debitemos todos os mortos por conta das brumas da guerra.

Afinal, a única lei que os EUA respeitam é a lei do excepcionalismo autoproclamado, definida em termos claros por Richard Falk como “transparência e prestação de contas à força para os fracos e vulneráveis; e sombras, as mais protetoras e discretas, para os fortes e os poderosos”.
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[*] Jason Hirthler é escritor, estrategista, e articulista com 15 anos de experiência na indústria de comunicações sociais. escreve usualmente para CounterpunchWorld Can not Wait, e outras comunidades políticas. Vive e trabalha em Nova York.
Recebe e-mails em  jasonhirthler@gmail.com
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Nota dos tradutores
[1] O “jornalismo” de O Estado de S.Paulo, que é o pior DO MUNDO, aproveita e “noticia”, logo de vez, a opinião de Israel sobre a bomba atômica do Irã :-D))))) . Totalmente de morrer de rir. Quem duvidar, confira em: Projeto atômico iraniano está mais imprevisível, diz Israel

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quanto mais nefanda a política externa dos EUA, mais ela depende essencialmente da cumplicidade da imprensa-empresa

6/8/2013, [*] Mark Weisbrot, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Quebrada dos Muquifos na Vila Vudu: O argumento desenvolvido no artigo abaixo serve também como luva, ao golpismo “midiático” em que está empenhado o facinoroso governador Alckmin, em São Paulo, Brasil.

Alckmin está usando a imprensa-empresa udenista/venal paulista para fazer-crer que não saberia de coisa alguma do mar de lama que cobre todo o governo do Estado de São Paulo, desde os anos de Mário Covas, no escândalo que as empresas Siemens e Alstom decidiram, afinal, expor ao Ministério Público e ao CADE.

Alckmin pôs-se a esbravejar, pelos jornais, que “exigirá” acesso aos documentos do processo. Não tem direito de exigir porcaria nenhuma de documentos – como o CADE respondeu-lhe na lata e muito bem, resposta agora já plenamente confirmada pela justiça.

Nem por isso Alckmin -- tucano tão facinoroso que conseguiu varrer de seu caminho até o tal de Cerra, o hiper arapongueiro mór, o homem dos dossiers inventados e da chantagem desbragada -- calou o bico.

Alckmin é bandido perigoso. Mas não seria tão perigoso e tão danoso ao Estado e ao Brasil, se não tivesse, a seu serviço, a hiper imundíssima empresa-imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro e porque não dizer do Brasil...

Os EUA têm hoje gasto militar mais alto, em valores corrigidos pela inflação, do que no pico da avançada da Guerra Fria de Reagan, durante a Guerra do Vietnã e a Guerra da Coreia. Parecem viver em estado de guerra permanente e – como acabamos de descobrir – de espionagem massiva pelo governo, com vigilância sobre os próprios norte-americanos. Isso, apesar de já não haver ameaça real grave contra a segurança física dos norte-americanos.

Desde o 11/9/2001, só 19 pessoas morreram em atos de terrorismo nos EUA; e nenhuma dessas mortes teve qualquer relação com terroristas estrangeiros. Os EUA tampouco enfrentam “inimigos do estado” que impliquem ameaça militar significativa contra o país – não há, no mundo, estado que possa ser classificado como “estado inimigo” dos EUA.

Keane Bhatt
Uma das causas dessa profunda desconexão é que praticamente toda a imprensa-empresa e as mídias de massa nos EUA vivem de oferecer imagem profunda e grosseiramente distorcida do que é hoje a política externa dos EUA.

A “notícia” é que a política externa dos EUA sempre é muito mais benévola e justificável do que a realidade do império que a maior parte do mundo conhece. Em estudo bem fundamentado, fartamente documentado e publicado pelo North American Congress on Latin America (NACLA), Keane Bhatt nos mostra, com riqueza de detalhes, como o simulacro “jornalístico” é construído.

Bhatt concentra-se num programa popular e interessante exibido pela rede National Public Radio (NPR), This American Life [Essa vida norte-americana], [Programa do dia 2/8/2013, em inglês (NTs)] com especial atenção a um dos episódios, que recebeu o Peabody Award  [Programa da rádio em 27/7/2013 (NTs)]. 

O Peabody Award, para realização de alta qualidade no jornalismo eletrônico, é prêmio de muito prestígio – o que torna ainda mais relevante o caso estudado.

Descoberta do massacre da vila de Dos Erres na Guatemala
Aquela edição do programa trata de um massacre, na Guatemala, em 1982. Apresenta impressionantes depoimentos de testemunhas oculares de um horrendo massacre de praticamente todos os moradores da vila de Dos Erres, mais de 200 pessoas. As meninas e as mulheres foram violentadas, antes de serem assassinadas; os homens foram assassinados a tiros ou esquartejados com serras; e muitos, inclusive crianças, foram jogados – vários ainda vivos – num poço abandonado, que acabaria sendo a sepultura comum deles todos.

O programa de rádio leva o ouvinte a acompanhar uma heróica investigação do crime – o primeiro desse tipo, naquela região, em que os assassinos foram processados e condenados. E, no final, ainda se ouve o depoimento emocionante de um sobrevivente que tinha três anos à época do massacre. Trinta anos depois, já vivendo em Massachusetts, esse sobrevivente afinal descobre as próprias raízes e o pai biológico, como um dos resultados daquela investigação. O pai perdeu a esposa e os outros oito filhos, mas sobreviveu, porque, por acaso, não estava na cidade no dia do massacre.  

Efraín Rios Montt
O roteiro não esconde que esse foi apenas um dentre muitos massacres do mesmo tipo:

Aconteceu em mais de 600 vilarejos, com dezenas de milhares de mortos. Uma Comissão da Verdade conseguiu descobrir que mais de 180 mil guatemaltecos foram mortos ou resultaram desaparecidos em massacres perpetrados pelo próprio governo da Guatemala.

Mas há um detalhe que, esse sim, o programa omite cuidadosamente: o papel dos EUA no que uma Comissão da Verdade da ONU, em 1999, definiu, em termos jurídicos, como “genocídio”.

A ONU condenou especificamente o papel de Washington, e o presidente Clinton teve de pedir desculpas públicas por aquele papel – a primeira vez, e, que eu saiba, a única vez, que algum presidente dos EUA teve de pedir desculpas por participação dos EUA em um genocídio.

A ONU comprovou que os EUA forneceram armas, treinamento, munição, cobertura diplomática e política e outros tipos de cobertura e de apoio aos criminosos assassinos em massa: tudo fartamente documentado; e o caso recebeu ainda mais atenção por causa do recente julgamento do militar e ex-ditador general Efraín Ríos Montt, que governou a Guatemala em 1982-83. 

Pedro Pimentel
(Como Bhatt observa em seu estudo, o programa diz que a embaixada dos EUA ouvira relatos de massacres durante aqueles anos, mas “não lhes deu atenção”. No mínimo, o programa falseia os fatos: há inúmeros telegramas que mostram que a embaixada estava recebendo farta e clara informação sobre o que estava acontecendo).

De fato, um dos soldados que participou do massacre de Dos Erres, Pedro Pimentel, condenado mais tarde a 6.060 anos de prisão, foi resgatado por avião e levado, um dia depois do massacre, para a Escola das Américas, a instalação militar norte-americana de treinamento, onde foram adestrados alguns dos principais e mais nefandos ditadores e criminosos violadores de direitos humanos da região.

É espantoso que um dos mais sanguinários genocidas do pós-IIa. Guerra Mundial tenha sido ajudado, apenas algumas horas depois de cometido o massacre, e levado para território dos EUA para ser protegido, sem que nenhum jornal, rede de televisão ou de rádio jamais noticiasse o fato.

Allan Nairn
O jornalista investigativo Allan Nairn entrevistou um soldado guatemalteco em 1982, que narrou como ele e seus camaradas massacraram aldeias inteiras, como em Dos Erres. Apesar disso, a grande imprensa-empresa norte-americana ignorou a entrevista, o que permitiu que Ronald Reagan promovesse Ríos Montt como “homem de grande integridade e comprometimento pessoais”. Por tudo isso, deve-se estranhar muito as omissões na narrativa do episódio premiado de “Essa vida norte-americana”.

É bem claro na fala de Ira Glass, apresentador do episódio, que ele conhecia bem o papel dos EUA no genocídio na Guatemala. Nos anos 1980s, parece que chegou a viajar à América Central, e era jornalista muito ativo na luta contra guerras financiadas pelos EUA e respectivos crimes de guerra naquela região. Em correspondência por e-mail com Bhatt, ele reconhece que “talvez não tenhamos agido corretamente” ao omitir qualquer informação sobre o papel dos EUA naquele genocídio.

Ira Glass
É pouco, como avaliação crítica, mas é avaliação muito significativa. Permite concluir que, do ponto de vista da grande imprensa-empresa norte-americana, para programa radiofônico transmitido em inglês para todo o território dos EUA, essa semiverdade, essa vasta omissão de fatos conhecidos, seria tudo o que os cidadãos norte-americanos precisariam saber sobre aquele genocídio.

Nem estou culpando Glass. É provável que, se tivesse destacado o papel dos EUA naquele genocídio e se tivesse questionado alguns dos oficiais e funcionários dos EUA responsáveis por aquela ação, jamais tivesse obtido autorização para distribuir o programa pela rádio pública. E com absoluta certeza o programa jamais teria recebido o Prêmio Peabody.

Por isso o programa e o prêmio são tão impressionante ilustração de como a censura e a autocensura operam na imprensa-empresa dos EUA. Demonstra, no plano micro, algo que testemunhei incontáveis vezes nos últimos 15 anos de conversas com jornalistas sobre esses temas. Os jornalistas têm ideia bem clara de quanto de verdade podem noticiar. Encontrei inúmeros bons jornalistas que tentaram ultrapassar esses limites e alguns até conseguiram – mas, regra geral, não duraram muito.

Scott Wilson
Scott Wilson, que foi editor de internacional do Washington Post e cobriu a Venezuela durante o golpe (que teve vida curta) contra governo democraticamente eleito na Venezuela em 2002, disse, numa entrevista, que “os EUA tiveram envolvimento” naquele golpe. Pois essa importante informação jornalística jamais apareceu publicada no Post, nem em qualquer outro veículo da grande imprensa-empresa nos EUA, apesar da abundância de documentos e de provas de que, sim, o governo dos EUA participara ativamente do golpe. Mais uma vez, pode-se dizer que esse detalhe era o mais fundamentalmente importante da história, para o público norte-americano – sobretudo porque desempenhou papel decisivo no envenenamento de todas as relações entre Washington e Caracas ao logo de toda a década e teve provavelmente impacto significativo nas relações dos EUA com todo o continente sul-americano. Mas, como na história do massacre de Dos Erres, o papel dos EUA naquele crime não é “mpublicável”.

O mesmo vale para o papel dos EUA no golpe que destruiu a democracia em Honduras em 2009. Os consideráveis esforços feitos pelo governo Obama para apoiar e legitimar o governo golpista não foram considerados “noticiáveis”... pelos jornalistas norte-americanos. (Bhatt também é roteirista de outro episódio da série “Essa vida americana”, no qual o golpe apoiado pelos EUA ficou fora da história da qual deveria ser, de fato, o evento determinante). E também nesse caso, a participação decisiva dos EUA em mais um Golpe de Estado não foi considerada noticiável na imprensa-empresa norte-americana.

Que cara teria a política externa dos EUA, sua política militar e a chamada “segurança nacional” dos EUA, se a imprensa-empresa realmente noticiasse os fatos determinantes reais, conhecidos e comprovados dessas políticas?

Com certeza, diminuiria muito o número de esquifes de soldados norte-americanos enterrados longe de casa e, também, dos que voltam para serem entregues às famílias. E tampouco os EUA estariam cortando os programas de comida para os pobres, ou de hospitais para velhos desamparados... Só para conseguir continuar a manter o mais inacreditavelmente ensanguentado orçamento militar que o mundo jamais conheceu.




[*] Mark Weisbrot é um economista americano, colunista e co-diretor, com Dean Baker, do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas (Center for Economic and Policy Research - CEPR) em Washington. Como comentarista, ele contribui em publicações como o New York Times, o The Guardian e a Folha de S. Paulo. Como economista, Weisbrot criticou a privatização do sistema norte-americano de seguridade social e foi um grande crítico da globalização e do FMI. Os trabalhos de Weisbrot a respeito dos países latino-americanos (incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Venezuela) atraíram interesse nacional e internacional.