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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Consenso a golpes de malho “jornalístico” − A ilusão do debate “midiático”

2/12/2014, [*] Jason HirthlerCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com manter e ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.


Debate RIDÍCULO: McCain e Carney estão do mesmo "lado"... São "falcões"!
Em artigo recente, a organização Fairness & Accuracy in Reporting, FAIR, revisou todos os achados de pesquisa de seus estudos anteriores sobre a qualidade do “debate” político levado ao ar pelas redes de difusão da imprensa-empresa dominante. Estudou o processo pelo qual foram levadas à opinião pública as intervenções militares, pelos EUA, contra Iraque e Síria. A ideia daqueles jornalistas talvez fosse mostrar o que os EUA aprendemos desde a guerra fraudulenta de que o Iraque foi vítima, em 2003. Pois... parece que aprendemos nada, coisa alguma.

FAIR trabalhou ao longo de pesadas e dolorosas muitas horas, absorvendo toda a desinformação e a informação desimportante pisada e repisada pelos soníferos shows dos domingos, como State of the Union [Estado da União], no canal CNN; Face the Nation [Cara a cara com a Nação], no CBS; Meet the Press [Mesa Redonda com a Imprensa], no NBC; eThis Week [Esta Semana], no ABC, além de alguns dos programas de comentário político mais populares, incluindo Situation Room [Sala de Situação], do canal CNN, perigosíssimo, porque pode induzir surtos de hiperatividade pela Síndrome do Déficit de Atenção [ing.ADHD]; o Special Report do canal Fox News; o venerável sedativo News Hour [Hora da Notícia] do canal PBS; e Hardball [Jogo Duro] do canal MSNBC. Todos conhecemos o elenco que jamais varia: o hiper falante George Stephanopoulos, a direta Candy Crowly, o eternamente sofredor Wolf Blitzer e o esbravejante Chris Matthews. Imagens dessas bocarras que ganem estão implantadas no hipocampo nacional.

No total, 205 porta-vozes repetidores da Casa Branca foram convidados para repetir ante os cidadãos telespectadores nos EUA as respectivas “ideias” espertamente construídas frase a frase para “elevação” da “informação” do público norte-americano. Desses, o espetacular número de 3 (três!) manifestaram-se contra a ação militar dos EUA na Síria e no Iraque. Reles 125 especialistas alinharam argumentos “de especialista” a favor de ação agressiva contra aqueles dois países.

Se se contam só os “especialistas” atuantes nos programas dominicais, 89 “especialistas” convidados foram bem remunerados para educar a obtusa população norte-americana de sofá-e-batata-frita de domingo. Um deles (1!) sugeriu que ninguém fosse à guerra. Ausentes, totalmente ou quase, por difícil que seja acreditar, de lá, estiveram todos os argumentos de lei contra aquelas intervenções ilegais. Alguém “enviesado” a favor do respeito à lei? Não, não, ninguém.

O consenso “midiático” sobre Síria e Iraque não é instância isolada de pensamento-de-grupo. Longe disso. Na verdade, corresponde a um padrão bem claro, cujo núcleo é deliberada desatenção e desapego à lei internacional e a qualquer esforço para fazer valer tratados transnacionais legais e vigentes e leis sobre ação militar. (Mas as leis que regulam o comércio transnacional essas, por razões óbvias, são consideradas importantíssimas e merecedoras de muita consideração e muito respeito, por motivos óbvios).


New York Times, cegamente, sem qualquer investigação ou pesquisa, sem crítica, repete o número que Israel divulgou, de mortos no recente ataque do estado judeu contra Gaza. A jornalista, Jodi Rudoren, considera fontes igualmente dignas e legítimas tanto Telavive (que fala, fala, mas prova, é nenhuma) e a ONU e o vasto trabalho de pesquisa e coleta de informações que fez, bem como organizações palestinas independentes, de direitos humanos, em Gaza. Ela adota uma “definição” israelense, sem qualquer fundamento, do que seja “combatente”, ignorando todo um vasto e rico consenso internacional que contradiz a “definição” israelense. Mistura, suspeitosamente, menores e adultos, e faz sumir o número de crianças mortas por Israel. E por aí vai. Tudo a serviço da posição pró-Israel da empresa-imprensa que publica o NYTimes.

Em 2010, Israel atacou uma flotilha de barcos que levavam ajuda humanitária a ser entregue a palestinos na Faixa de Gaza que Israel bloqueara. Anthony DiMaggio, escritor e analista político coordenou as pesquisas Lexis Nexus, que demonstram como a imprensa-empresa nos EUA em geral, e o NYTimes em especial, evitam cuidadosa e atentamente qualquer tema que faça lembrar a lei internacional, sempre que discutem ações de Israel. Numa análise de artigos do Times e do Washington Post sobre Israel entre 31 de maio e 2 de junho de 2014, apenas cinco textos faziam referência à lei internacional relacionada seja à flotilha humanitária, seja ao bloqueio ilegal.

DiMaggio disseca vários dos meios pelos quais Israel frauda a Carta das Nações Unidas. Diz que Israel já violou mais de 90 resoluções do Conselho de Segurança da ONU relacionadas à ocupação de terras palestinas. Nada disso – nada – aparece publicado na “grande mídia” dominante. Essa omissão é típica: é a regra. A imprensa-empresa norte-americana dedica-se atenta e cuidadosamente a privilegiar a narrativa israelense, não o ponto de vista dos árabes e praticamente ignora a existência de dúzias de resoluções da ONU que condenam as ações criminosas dos israelenses.

O mesmo se constata no “jornalismo” sobre o Irã. Já há anos, Washington alerta o mundo, teatralmente, espalhafatosamente, que o Irã quer construir sua bomba atômica e ameaça com ela todo o Oriente Médio. Para começar, implica “esquecer” que seria suicídio. Todas as agências de inteligência norte-americanas, e muitas outras que acompanham os eventos na região, sabem que a política externa do Irã é política de contenção e que o programa nuclear iraniano tem finalidades pacíficas. Nada e ninguém consegue impedir que o “jornalismo” do canal MSM apresente Teerã como ninho e forno de onde não param de sair os mais ensandecidos terroristas.

Figure 1: New York Times and Washington Post Editorials on Iran’s Nuclear Program
March 16, 2010, through March 15, 2012
New York Times
(18 total)
Washington Post
(22 total)
Considered International Law Implications of US/Israeli Actions and Threats
0
0
Considered Effects of Sanctions on Iranian People
1
2a
Considered Iranian Civilians’ Views on Sanctions
0
0
Recognized Iran’s Right to Pursue Civilian Nuclear Program
1b
0
Mentioned Israel’s Nuclear Weapons
0
0
Supported US/UN Sanctions
17
17
Said or Implied That Iran Is Seeking Nuclear Weapons
17
17


Kevin Young investigou artigos “jornalísticos” sobre as negociações nucleares entre EUA e Irã, com resultados espantosos. Foram analisados cerca de 40 editoriais publicados peloNYTimes e pelo WPost. Precisamente zero editoriais, zero, nenhum, reconhecia as implicações contra a lei internacional, de os EUA viverem a repetir ameaças e a apoiar atos subversivos praticados por Israel – como assassinar cientistas iranianos, e fazer ciberataques, nos dois casos modalidades “inovadoras” da violação padrão de soberania de outros países. Impressionantemente, 34 das tais peças de “informação jornalística” “diziam ou deixavam implícito” que o Irã está trabalhando para construir sua bomba atômica. Esqueçam todos tudo o que disseram 16 agências norte-americanas de inteligência (que o Irã não mantém programa ativo de produção de armas nucleares). Esse “jornalismo” já fez a escolha crucial de operar no campo do boato, da intriga, do ouvir-dizer. Portanto, nada muda, mesmo que haja estudos sérios e/ou crítica ativa que façam-saber que o fato é outro. Mais de 80% dos artigos publicados eram favoráveis às sanções incapacitantes que os EUA insistem em manter contra o Irã – e cuja única justificativa é o fato inventado por esse “jornalismo”, de que o Irã estaria construindo a tal bomba.

Antes do trabalho de Young, Edward Hermann e David Peterson analisaram 276 artigos publicados sobre o programa nuclear iraniano entre 2003 e 2009. O número em si já é espantoso. Mais espantoso ainda se torna, se se o compara ao número de artigos publicados no mesmo período, sobre o programa nuclear israelense: míseros três. [1]

É interessante, se se considera a postura dos dois países em relação a tratados internacionais. Israel armazena livremente pilhas e pilhas de bombas atômicas e mantêm “política de ambiguidade deliberada” sobre as próprias capacidades atômicas, apesar dos frequentes esforços de países árabes para persuadir Israel e reconhecer a existência de seu arsenal atômico (estimado hoje em várias centenas de ogivas nucleares). Israel ainda não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, já firmado por 190 países em todo o mundo [inclusive pelo Irã]. Essa posição intransigente é empecilho sempre ativo contra todos que trabalham para implantar uma zona desnuclearizada naquela região.

Imagem do Google Earth do local (branco, no centro) das instalações nucleares de Fordow, Irã
Compare-se, então, o comportamento de Israel e do próprio Irã – que permitiu inspeções extensivas em suas instalações nucleares. Até o Times  observou recentemente que as principais instalações nucleares iranianas estavam “lotadas de inspetores”.Além de ser signatário do TNP, o Irã é também membro pleno da Associação Internacional de Energia Atômica (AIEA). E o Irã continua a trabalhar em busca de solução racional com o Ocidente, apesar da sanções que os EUA impuseram ao país. O EUA também pressionaram ilegalmente e indevidamente a AIEA para que adotasse outros protocolos, segundo os quais o Irã teria de satisfazer exigências ainda maiores, o que tornou a possibilidade de solução negociada cada dia mais (confortavelmente, do ponto de vista dos EUA) distante. (Aquelas demandas adicionais incluíam, pelo que se soube, que o Irã aceitasse ser vigiado por drones, que “fiscalizariam” desde a origem até o destino, todas as centrífugas que viessem a ser construídas no país, além de aceitar também que os EUA instalassem escutas no palácio do governo. Pois nada disso mereceu sequer uma linha de comentário “objetivo”, dos nossos “especialistas” ou dos nossos “jornalistas”).

A cobertura do Iraque não é diferente, sobretudo o que se viu e vê-se novamente, antes de cada nova guerra periódica ilegal de agressão, pelos EUA, contra aquele país. O ex-Relator Especial da ONU para a Palestina, Richard Falk, e o escritor Howard Friel realizaram, em 2004, pesquisa para avaliar a cobertura pré-guerra do Iraque, que o jornal New York Times ofereceu em 2003. Em mais de 70 artigos, o Times jamais mencionou as expressões “Carta da ONU” ou “lei internacional”. A pesquisa também demonstrou que “Não há qualquer espaço assegurado para divulgação da grande quantidade de argumentos em invocam a lei internacional ou que pregam a preservação da paz mundial, em oposição à guerra”. Mas são argumentos que só se ouvem longe dos corredores ocidentais do poder em Washington, Londres, Paris e Telavive – e que nossos “especialistas” “midiáticos” e jornalistas em geral ignoram completamente.

Isso não é debate, muito menos é debate democrático. A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.

Eric Prince - Chefe da gangue Blackwater (hoje Academi)

Assim sendo, no que tenha a ver com Irã, Iraque, Síria e outros casos assemelhados, a questão nunca é se se vai ou não à guerra: a questão é só o tipo de guerra a ser inventada. Falcões querem bombas. Pombos, sanções. A linha mais dura quer pôr os Marines lá. Os Democratas querem um exército de jihadis alugados. Todos querem os mercenários da empresa Academi. (Obama contratou a gangue antes conhecida como Blackwater, para trabalhar como se fosse a CIA, por, secos, US$250 milhões). E quando tivermos dado cabo do Estado Islâmico...

  • A questão não será alguma estratégia de retirada. Não!
  • A questão, então, será se os coturnos norte-americanos [no solo, no ar ou no mar] devem tomar o rumo oeste, para Damasco; ou leste, para Teerã.
  • A questão não é se os EUA devem cortar a ajuda que dão a Israel – por causa dos assassinatos de palestinos em massa, em Gaza e na Cisjordânia – ou se devem manter a ajuda.
  • A questão é quanto de terra os condomínios podem continuar a roubar dos palestinos, no Vale do Jordão, sem gerar incontrolável desprezo contra Israel. (De aplicar a lei internacional, outra vez, nem se cogita).
No front doméstico,

  • a questão não é se haverá pagador único ou assistência médica privada à saúde; a questão é se os cidadãos devem ser obrigados à força & malho, a comprar planos privados, ou se devem ser só aconselhados a comprar os mesmos planos.
  • A questão não é se se mantêm ou não as conquistas do New Deal: a questão é como fazer para destripá-las em tempo recorde.
  • A questão não é se os cidadãos devem ou não poder fiscalizar a ação dos políticos: a questão é onde armazenar os dados e se se roubam metadados de two-hop ou de three-hop.
  • A questão não é se se prendem ou não torturadores conhecidos: a questão é como redigir os relatórios dos ‘eventos’, de modo que os torturadores escapem de qualquer acusação.
  • A questão não é se se regulam ou não os doidos de Wall Street. A questão é, como disse o viscoso advogado Bennett Holiday, da indústria do petróleo, em Syriana, criar “a ilusão do devido processo legal”.
Nada disso implica dizer que os meios de jornalismo de massa não conheçam pontos de vista diferentes dos deles. Eles conhecem, mas só os reconhecem como pontos de vista possíveis se podem ser usados para ‘comprovar’ conclusão já definida. Ao longo do ano que está terminando, os jornais e televisões do noticiário de massa quase cansou a audiência, de tanto que falaram e falaram a favor do respeito à lei internacional.

Ucrânia -Bombardeio de um "check-point" próximo de Lugansk por forças da junta-de-Kiev
Howard Friel rastreou os registros de respostas ao fiasco ucraniano nas páginas do NYTimes. E o que descobriu? Quando a Crimeia, em plebiscito, pediu a reintegração à Rússia, e a Rússia aceitou a reintegração da Crimeia, o  NYTimes investiu furiosamente contra a tal “invasão”, agarrado ao argumento de que seria violação da lei internacional. Oito diferentes editoriais em apenas poucos meses, em tom frenético, para “detonar” o presidente Vladimir Putin da Rússia por causa da tal violação “ilegal” de direitos dos crimeanos, e o “desprezo”, o “pouco caso”, a “flagrante transgressão”, o ataque frontal... à lei internacional. Conclamações sem fim para que se tomassem medidas contra tal desconsideração do consenso global, cínica, descabida. Os aliados ocidentais que tratassem de agir para “reafirmar a lei internacional” e aplicar pesadas penalidades à Rússia, por  “atropelar sem qualquer cuidado” preceito sagrado, hiper-super sagrado, tipo “a soberania ucraniana”.

Em outras palavras, Washington apoia golpes contra governos eleitos em Kiev, na Síria e em Tegucigalpa, envia drones para “atropelar sem qualquer cuidado” fronteiras iemenitas, paquistanesas, somalis e outras fronteiras fracamente protegidas; e manda milhares de soldados, conselheiros e jihadistas armados pelos EUA para proteger os buracos negros onde operam os torturadores da CIA no Iraque e no Afeganistão. Mas melhor não nos metermos nessas contas. Debitemos todos os mortos por conta das brumas da guerra.

Afinal, a única lei que os EUA respeitam é a lei do excepcionalismo autoproclamado, definida em termos claros por Richard Falk como “transparência e prestação de contas à força para os fracos e vulneráveis; e sombras, as mais protetoras e discretas, para os fortes e os poderosos”.
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[*] Jason Hirthler é escritor, estrategista, e articulista com 15 anos de experiência na indústria de comunicações sociais. escreve usualmente para CounterpunchWorld Can not Wait, e outras comunidades políticas. Vive e trabalha em Nova York.
Recebe e-mails em  jasonhirthler@gmail.com
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Nota dos tradutores
[1] O “jornalismo” de O Estado de S.Paulo, que é o pior DO MUNDO, aproveita e “noticia”, logo de vez, a opinião de Israel sobre a bomba atômica do Irã :-D))))) . Totalmente de morrer de rir. Quem duvidar, confira em: Projeto atômico iraniano está mais imprevisível, diz Israel

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pepe Escobar: “Será que Obama quer mesmo acertar-se com o Irã?”


21/2/2013, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Almaty, Cazaquistão, estará no olho do furacão na 3ª-feira próxima, quando o grupo P5+1 – os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China, mais a Alemanha – reúnem-se novamente com uma delegação iraniana para discutir o programa nuclear do Irã.

O noticiário informa que todas as 16 agências de inteligência dos EUA sabem que Teerã não está trabalhando na produção de arma atômica. Em negociação real, haveria sobre a mesa proposta crível dos EUA. Não há. Isso sugere que o que Washington realmente quer é manter – e super turbinar – seu duro pacote de sanções.

Revisemos o mecanismo dessa ‘'negociação'’. Há apenas algumas semanas, dia 6/2, uma nova leva de sanções impostas pelos EUA apertaram o parafuso do que se conhece até agora como negócio de “ouro por gás”.

Ankara vem pagando o gás que importa de Teerã em liras turcas; o Irã então usava o dinheiro – mantido no Halkbank turco – para comprar ouro. As sanções agora impostas limitam duramente o que o Irã passa a ser autorizado a comprar com  suas liras turcas: só comida, remédios e produtos industriais.

Em sequência imediata, a imprensa-empresa ocidental pôs-se a repetir que o Irã foi “congelado do lado de fora do sistema bancário global”. De fato, não há absolutamente qualquer garantia de que as recentes sanções funcionem.

O ouro permanece como parte do quadro. Um banco turco até pode ser ameaçado com o exílio, fora do sistema bancário que o ocidente controla. Mas os bancos russos – e chineses – encontrarão meio cuidadoso de escapar a essa restrição e preencher o vazio. Quanto ao Irã, o país tem décadas de experiência em viver sob sanções mortais – e adaptar-se à realidade.

Recep Endorgan
A Turquia continuará a ter de importar gás natural do Irã – 40% do que consome; o Irã é seu principal fornecedor. O outro grande fornecedor é a Rússia; nem com todo o comportamento errático do Primeiro-Ministro Erdogan da Turquia, Ancara algum dia cometerá o suicídio estratégico de pôr-se em situação em que passe a depender de qualquer outro fornecedor de energia.

Portanto, o único a perder, no atual cenário, será a Turquia. Por quê? Porque Washington decidiu que assim seja.

Considere-se, agora, o que Washington tem a oferecer a Teerã: suspenderemos as sanções contra o negócio gás-por-ouro, se vocês fecharem completamente a usina subterrânea Fordow de enriquecimento de urânio. Não por acaso, Fordow é e sempre será a instalação mais difícil de destruir dentre as instalações iranianas, no caso de alguém tentar pôr em ação a tal ameaça perene (“todas as opções estão sobre a mesa”) de EUA/Israel atacarem o Irã.

Ramin Mehmanparast
Também em sequência imediata, na 2ª-feira o Ministro de Relações Exteriores do Irã, através do porta-voz Ramin Mehmanparast, foi diretamente ao ponto: “Eles têm repetido ultimamente que “fechem Fordow, parem o enriquecimento [de urânio], e permitiremos que comprem ouro”... Querem tirar direitos de um país soberano, em troca de “autorizar” que o país compre ouro”.

Teerã também observou, corretamente, que Washington não oferece o fim das sanções da ONU; nem das sanções unilaterais impostas por EUA e União Europeia; nem o fim do que, em resumo, é guerra econômica contra o Irã – um dos temas chaves que discuti detalhadamente em entrevista ao jovem jornalista iraniano Kourosh Ziabari.

Em seguida, a iraquização

Tentar proibir que o Irã negocie “gás-por-ouro” é, para todas as finalidades práticas, tentativa para reviver a horrenda política do “petróleo-por-comida” posta em prática no Iraque até a invasão/ocupação pelos EUA, em 2003.

Mas, apesar de um bloqueio comercial ocidental de fato, a liderança em Teerã continuará sempre conectada aos mercados asiáticos – com o incentivo extra, do ponto de vista de vastas porções do mundo em desenvolvimento, de continuar a avançar cada vez mais profundamente e mais rapidamente na direção de abandonar o petrodólar.

Consideremos agora a liderança em Teerã. São os mesmos que combateram durante oito amargos anos na guerra Irã-Iraque nos anos 1980s. Politicamente, a guerra os constituiu. Tendem a favorecer a “opção japonesa”, ou “período de latência”, em termos nucleares – adquirir a tecnologia e o know-how para construir uma arma atômica rapidamente, como último recurso de contenção. De fato, 30 nações – além do Japão – seguem idêntica opção.

Aiatolá Khamenei
No sábado passado, em Tabriz, o Supremo Líder do Irã, aiatolá Khamenei, repetiu:

Não queremos construir armas atômicas. Não porque os EUA lastimariam que o fizéssemos. Simplesmente, porque decidimos não construir armas atômicas. Acreditamos que armas atômicas são crime contra a humanidade e não devem existir. Todas as armas atômicas que há pelo mundo devem ser destruídas. Essa é nossa posição. E nossa posição nada tem a ver com vocês [norte-americanos].

Disse também que “se o Irã decidisse possuir armas atômicas, nenhuma potência nos impediria de tê-las”. Com isso, Khamenei estava, de fato, elaborando sobre a “opção japonesa”: ainda que o Irã não tenha bombas atômicas e não esteja trabalhando para construir armas atômicas, o país mantém abertas todas as opções, para o caso de ser encurralado e depender de uma bomba atômica como arma de dissuasão.

Parece que as potências, quaisquer delas, não captaram a mensagem em Washington, nem em Paris ou Londres. A arrogância ocidental, como mostram os registros, é sem limites. Assumindo que saberiam algo que só eles saberiam, “especialistas” e diplomatas ocidentais, os suspeitos de sempre, andam apostando que pacote ainda mais duro de sanções forçará o Irã a abaixar a crista.

Que bando de perfeitas inutilidades! Metam-se num avião. Desembarquem em Teerã. Conversem com os iranianos. Tentem aprender alguma coisa que se aproveite.

Fizessem isso, aprenderiam que, para os iranianos, grande potência tem de estar na vanguarda mais avançada da ciência – hoje, a tecnologia nuclear. Rápida revisão da mídia e da blogosfera iranianas mostra que todos, dos ultra conservadores aos reformistas, todos, concordam em que o Irã tem direito à tecnologia nuclear, como signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP).

O Irã precisa de energia nuclear para gerar eletricidade, porque importa muito óleo refinado. No momento, o Irã pode estar vendendo menos petróleo, por causa das sanções. Mas isso, por outro lado, faz subir o preço global do petróleo (e nesse caso, os perdedores são, mais uma vez, os europeus); e o petróleo iraniano fica preservado para o futuro – quando os preços estarão ainda muito mais altos.

Washington, por sua vez, tende a agir como cego que guia cegos. É como se nenhum “analista” se desse o trabalho de estudar os últimos 150 anos da história do Irã – mas não, claro, na versão de Argo, candidato ao Oscar, que nada ensina que preste; a questão tema é a luta anti-imperial.

Mohamed Mossadegh 
Os britânicos não se cansam de dar ultimatos ao Irã. À maneira persa, quem se submete trai a nação; quem se recusa a submeter-se é herói, mesmo que perca a guerra, como Mossadegh em 1953.

O drama nuclear em curso é replay/remix do drama da nacionalização do petróleo de 1951-1953, quando o Irã também padeceu muito para ganhar a autossuficiência e passar a controlar seus próprios recursos naturais. Washington/Londres, daquela vez, não se limitaram aos muitos ultimatos: também promoveram um golpe infame.

O Xá foi derrubado no início de 1979. Desnecessário dizer que, desde então, o ocidente vive a ameaçar o Irã, sem parar.

Fim da “opção japonesa”?

Otimistas profissionais talvez digam que se deveriam suspender todos os julgamentos – pelo menos por algum tempo – quanto às intenções do governo Obama 2.0 relacionadas ao Irã.

Mesmo assim, vale relembrar que durante os dois mandatos do Presidente Khatami, reformista, Washington jamais apresentou qualquer proposta séria ao Irã – a obsessão por mudança, do governo Obama, parecia ter sido absolutamente suspensa, para tudo que tivesse a ver com o fim das sanções; ou com permitir que a Europa investisse livremente no Irã (o que beneficiaria a Europa). Esses movimentos, jamais feitos, teriam operado maravilhas para ajudar o movimento reformista no Irã.

Ban Ki-moon
O que se vê hoje é o retorno a um dos pontos mais baixos dessa história, quando até o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon faz declarações gravemente daninhas: “Não devemos dar muito mais tempo aos iranianos e não podemos perder tempo (...) Já vimos o que aconteceu na Coréia do Norte”.

Agora, é como se a própria ONU – não algum George “Eixo do Mal” Bush – já clamasse por guerra contra o Irã, servindo-se, como pretexto, de inexistentes armas de destruição em massa.

Esse tipo de pronunciamento sabota as conversações em Almaty, já antes de acontecerem. Ou, então, Ban Ki-moon está complementando o salário que a ONU lhe paga, com servicinhos de tempo parcial prestados a Bibi Netanyahu: reduz o tempo da ação diplomática e ajuda Israel a convencer Washington a bombardear o Irã.

Bruxelas pode até repetir que o Irã perdeu espantosos $46 bilhões em petróleo não vendido desde as sanções turbinadas do ano passado – com o rial perdendo 40% do valor. A população iraniana pode ter sido quem mais perdeu. Mas a liderança em Teerã está mais firme que nunca. Hoje, mais claramente do que jamais antes, Teerã não encontra qualquer oposição sempre que culpa o ocidente pelos sofrimentos dos iranianos.

Trabalhar na direção de reais negociações entre EUA e Irã implicaria nenhuma mudança de regime; o Irã reconhecido como potência no sudoeste da Ásia; nada de mais sanções; nada de impedir que outros países invistam no Irã; e aceitar as garantias que o Irã tem dado, de que seu programa nuclear é exclusivamente civil.

Assim se pavimentaria o caminho para que o Irã se firmasse como maior e mais dinâmica economia no Oriente Médio e sudoeste da Ásia.

Vali Nasr
Nada sugere que estejamos andando nesse rumo. Em livro a ser lançado em breve, Vali Nasr, deão da Escola John Hopkins de Estudos Avançados e Internacionais – e, o que é crucialmente importante, ex conselheiro do governo Obama – admite que a famosa “trilha de duas mãos” [orig. dual track], de sanções combinadas com diplomacia, “não teve, sequer, duas mãos. Foi trilha de mão única, só de sanções, sem diplomacia alguma, só pressão e pressão (...). Aparente engajamento, usado para acobertar uma campanha de coerção, de sabotagem, pressão econômica e ciberguerra”.

Ecos que chegam de Teerã sugerem que, para o Supremo Líder, toda a conversa, fortemente promovida na mídia ocidental, sobre o governo Obama 2.0 estar interessado em conversações diretas com Teerã, é uma armadilha. Para Khamenei, Almaty só indicaria alguma intenção séria, se Washington levantasse todo o pacote de sanções; bem mais que autorizar gás-por-óleo, em troca do fechamento de Fordow.

Ahmadinejad visita instalações de enriquecimento de urânio em Fordow
Obama poderia fazer... alguma coisa – ainda que, para isso, tivesse de passar por cima do cadáver coletivo de, virtualmente, todo o Congresso, gente para a qual o Irã seria pior que mal absoluto.

Preparando-se para uma grande barganha em futuro não muito distante, Obama poderia, por exemplo, liberar os fundos iranianos congelados desde a crise dos reféns em 1979 (não, não: o heróico Argo nada diz sobre isso); poderia liberar a venda de peças de reposição para a frota de Boeings iranianos; poderia mandar o Departamento do Tesouro e o Departamento de Estado isentarem de impostos empresas ocidentais que queiram comerciar com o Irã.

Mas, de fato, o que se vê é que as táticas do governo Obama 2.0 não passam de extensão da política exterior da era Bush-Cheney: ameaças, diversionismo, “linhas vermelhas” que sempre mudam de lugar, “todas as opções” sempre sobre a mesa; e sanções, sanções e mais sanções.

Almaty, Cazaquistão; local da próxima reunião entre Irã e P5+1
Não surpreende que Almaty esteja cercada de expectativas muito, muito baixas. E, seja como for, nada será decidido, de substancial, antes das eleições presidenciais no Irã, em junho. Mas se o P5+1 não se compenetrar – se não conseguirem começar a atuar como adultos – pode acontecer, mais cedo ou mais tarde, que Teerã sinta-se fortemente tentada a desistir da “opção japonesa”. Porque sim.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Diplomacia dos EUA versus Aventureirismo de Telavive. Quem vencerá?


O ponto de vista do Irã

11/9/2012, Mohammad Farhad Koleini, Iran Review - US Diplomacy vs. Tel Aviv’s Adventurism: Who Is the Final Winner?
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Mohammad Farhad Koleini foi embaixador do Irã na Armênia e é especialista em estudos estratégicos



Passados os recentes esforços do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, o qual, parece, empenhava-se em exibir ao mundo retrato de Israel como organização extremista e aventureirista, e depois que suas posições de hostilidade contra o Irã foram quase completamente ignoradas pela opinião pública dentro e fora de Israel, tudo indica que o governo de Netanyahu vê-se a braços com um sentimento mórbido de ineficácia e baixa credibilidade.

Já se veem sinais disso até em declarações de funcionários de Israel. Já reconheceram que ninguém está dando atenção ao que Israel pensa ou diz, e a indiferença às posições de Telavive já não se limita aos EUA. Apesar de todo o empenho negativo de Israel, o Irã organizou e realizou com pleno sucesso um dos maiores encontros internacionais já realizados naquele país. Por sua vez, a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton disse recentemente na capital da Indonésia, Jakarta, que o Irã tem pleno direito de usar energia nuclear para finalidades pacíficas, enfatizando que se devem empreender todos os esforços para impedir que o Irã construa armas nucleares.

Assim sendo, claramente demonstrou ao governo de Israel que de pouco adiantaram seus esforços contra o Irã, dado que a posição dos EUA sobre o programa nuclear iraniano não sofreu qualquer mudança essencial.

Relações Irã-EUA

Segundo algumas agências ocidentais de notícias, até alguns conselheiros próximos do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu já observam que divisões e disputas graves de opinião dentro do establishment político em Israel, em torno de ataque militar contra o Irã, podem levar até ao assassinato de altos membros do governo israelense por forças políticas de oposição interna. Um membro da alta direção do partido israelense Likud, que governa Israel, fez explícita referência a essa possibilidade, em recente entrevista ao jornal Maariv. Disse que, sob as circunstâncias atuais da política e da sociedade israelense (no que tenha a ver com o Irã) é possível que alguns grupos considerem medidas irracionais, como o assassinato de líderes israelenses. Comentou o caso de Yigal Amir, o israelense que assassinou o ex-primeiro ministro de Israel Yitzhak Rabin, dia 4/11/1995, por entender que, com seu crime, estaria salvando Israel.

Joe Biden
Pelo outro lado, o vice-presidente dos EUA Joseph Biden falou sobre o Irã, ao atacar o candidato Republicano à presidência, Mitt Romney, em discurso a trabalhadores brancos em York, Pennsylvania, ainda recentemente. Biden disse que o projeto de Romney, de fazer guerra contra a Síria ou o Irã, atrasaria ainda mais a recuperação dos EUA, em momento em que o país vai, aos poucos, superando uma das recessões econômicas mais graves que os EUA conheceram. Analistas especialistas interpretaram que o alvo do discurso e da manifestação de Biden contra novas guerras no Oriente Médio não foi só Mitt Romney, mas também a cúpula governante em Telavive.

Todas essas evidências demonstram que os pontos de vista e as posições de EUA e do regime de Telavive sobre “linhas vermelhas” no campo político absolutamente já não coincidem; que Telavive e EUA têm posições polarmente opostas sobre dois conceitos chaves: o “limiar nuclear” e a “capacidade nuclear”.

Os EUA entendem que a decisão iraniana de obter capacidade nuclear absolutamente não implica qualquer decisão de construir bombas atômicas. De fato, o ocidente já adota abordagem escrupulosa, acurada e profissional sobre o Irã “nuclear”, consequência da firmeza com que o Irã já declarou que não tem qualquer interesse em construir armas atômicas. De fato, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) também já registra a mesma convicção sobre o programa de energia nuclear do Irã, e confirmou, em seguidos relatórios, que não constatou qualquer desvio no programa nuclear iraniano na direção de dar uso militar às competências nucleares do país.

Por vários caminhos, o que se vê hoje é que os EUA estão-se distanciando de Israel, no que tenha a ver com políticas para o Irã. Já se veem notáveis diferenças entre Washington e Telavive nas avaliações estratégicas sobre o pensamento, propósitos e desejos do governo do Irã. A abordagem pela qual estão optando os países ocidentais, especialmente os EUA, na direção de reconhecer a racionalidade estratégica das decisões políticas iranianas é já muito diferente da abordagem na qual insiste o governo de Netanyahu – que só parece preocupado, hoje, em manter vivo seu Gabinete.

A comunidade de inteligência de Israel já observou, em vários relatórios, que mudanças geopolíticas na Região implicam graves ameaças ao regime em Israel, e que deveriam ser preocupação prioritária de Telavive.

Hillary Clinton (E) e Mohammed Mursi (D)
A comunidade de inteligência israelense entende também que mudanças na política externa do Egito, depois das eleições naquele país, e da posse do presidente Mohamed Mursi, inclinado a construir novo equilíbrio no campo político regional e internacional, além de uma solução para a questão síria que já começa a configurar-se no horizonte, podem desencadear movimento de vingança contra Israel em toda a região. Resultado disso, essas mudanças na região têm sido repetidamente enumeradas como absolutas prioridades do regime sionista. Os mesmos especialistas israelenses em segurança regional entendem que, em caso de conflito que ameace a segurança de Israel, Telavive deve extrair todas as vantagens possíveis de seu arsenal nuclear secreto – o que capacitaria Israel a enfrentar qualquer possível ameaça de segurança.

De fato, esses especialistas ignoram que a realidade em campo pode ser dramaticamente diferente e levar a condições totalmente diferentes das que examinam hoje.

O que realmente se passa dentro da estrutura política israelense é que já emergiram profundas dissonâncias, fissuras entre a comunidade política, a opinião pública, a comunidade de inteligência e velhos profissionais da política partidária em Telavive, sobre a questão do programa nuclear iraniano. Assim sendo, não se vê ainda no horizonte nem alguma remota possibilidade de consenso, por simples que seja, sobre a ação a tomar em relação ao Irã. Por isso, inúmeras reuniões da comunidade de inteligência israelense tem sido simplesmente canceladas, pouco depois de marcadas. Claro que os funcionários israelenses informam aos veículos de mídia que os cancelamentos explicam-se porque teria havido vazamento de informação de inteligência depois de uma daquelas reuniões.

Benyamin Netanyahu (E) e Barack Obama (D)
A mesma absoluta falta de consenso em Israel sobre como encaminhar as tratativas com o Irã explica também porque o regime israelense tanto tem insistido em lançar ameaças também contra os EUA, ao mesmo tempo em que tenta inverter os fatos para implementar cenários mais favoráveis a Israel. Hoje, nos EUA, o candidato Barack Obama já enfrenta campanha contrária, patrocinada diretamente pelo governo de Netanyahu. O governo dos EUA, evidentemente, já viu e observa esses movimentos.

O alto custo de apoiar o regime sionista está convertido em problema real e imediato para os EUA. Até agora, o problema ainda não está sendo discutido abertamente, mas nas últimas semanas já se viram em circulação na grande mídia norte-americana, que começam a discutir os motivos pelos quais, nos EUA, nenhuma autoridade fala sobre as armas atômicas de Israel. Acredita-se que sejam os primeiros sinais que Washington vê-se obrigada a dar a Telavive, para que corrija o rumo de suas declarações e atitudes. Sabe-se que o embaixador dos EUA em Telavive Daniel B. Shapiro serviu-se de termos muito claros e duros, em reunião com funcionários do governo de Israel, para lembrá-los de que Israel tem de observar regras morais, manter a compostura e respeitar o decoro diplomático.

Além da questão das principais ameaças que pesam contra Israel, os estudos da inteligência israelense têm-se dedicado também a analisar as chances de sucesso num possível ataque israelense que vise a destruir o programa de energia nuclear iraniano. Sobre isso, os norte-americanos já têm análise feita. Para eles, Israel não tem capacidade para destruir completamente, em ataque militar, as instalações do programa nuclear do Irã.

Usina Nuclear subterrânea de Fordow - Irã  (Vista aérea - fevereiro de 2011)
Por exemplo, considerada a usina nuclear em Fordow, a capacidade militar do regime sionista é significativamente menor que a requerida para destruir a usina. Assim sendo, os norte-americanos entendem que qualquer ameaça que o regime sionista lance contra o Irã não passa de ameaça de propaganda; os EUA sabem que Israel nada conseguirá contra o Irã, com armas convencionais. Os norte-americanos, eles sim, já contam com armas de alta capacidade de destruição. Mas são armas norte-americanas, não israelenses, o que muda completamente a configuração do problema.

Resultado desse estado de coisas, estão em curso acalorados debates, não conjuntos, mas paralelos, dentro do governo sionista e dentro do governo dos EUA, sobre as possibilidades de sucesso de ataque militar contra o Irã. Nos dois casos, discutem-se os riscos e os custos desse aventureirismo generalizado.

O ataque levará a guerra em grande escala, que conflagrará toda a região? Danificar a capacidade nuclear do Irã é o único ou principal objetivo? E o Irã, se atacado, será levado a ascender a estágio completamente diferente de resposta estratégica? São questões graves e sensíveis, que certamente ocupam muitos agentes profissionais políticos e de inteligência, que sabem que, se atacado, o Irã retaliará com explicável fúria.

Por outro lado, outra importante questão é o que pode acontecer depois de um ataque israelense contra instalações nucleares do Irã.

Os norte-americanos creem que se Israel atacar, conseguirá, no máximo, retardar o programa nuclear iraniano; exceto pelo retardamento, o ataque em nada alterará o programa iraniano. Assim sendo, creem que o regime israelense está queimando balas de festim, sem nenhum objetivo claro. Resultado disso, questão importante sobre os debates estratégicos é que estimativas, abordagens e decisões estratégicas são questões diferentes.

Hoje, estamos falando sobre estimativas estratégicas com o objetivo final de saber em que direção se movem as estimativas estratégicas do regime sionista, consideras as reuniões não noticiadas – e interrompidas – que não chegam a conclusão alguma, em Israel, nos últimos dias. No presente momento, a comunidade de inteligência dos EUA tem alta probabilidade de discordar do que Israel deseja; e Israel tenta usar suas cartas de inteligência e acrescenta informações de inteligência manipulada na tentativa de modificar as estimativas hoje correntes e conseguir que o ocidente modifique suas políticas para o Irã.

Parece que Telavive tenta também conseguir que outros países ocidentais alinhem-se com os objetivos dos sionistas, para ganhar peso na disputa com o governo dos EUA e forjar uma nova aliança. O mais provável é que essa posição tenha recebido luz vez do lobby sionista no Canadá, o que explicaria por que o governo canadense decidiu repentinamente fechar sua embaixada em Teerã, sem que nada de novo tenha acontecido entre os dois países que justifique a medida.

Sem conexão com essa questão, o governo francês também assumiu posição correta em relação ao Irã. O ministro de Relações Exteriores da França declarou oficialmente que um ataque, pelo regime sionista, contra o Irã, seria erro grave.

Quando se ouvem essas manifestações de Paris e Washington, ambas na mesma direção, vê-se que a OTAN não acompanha a conduta de Israel no Oriente Médio. Resultado disso tudo, ninguém deu atenção às posições sem orientação ou meta clara, ficcionais, de Israel no Oriente Médio.

Não só na opinião pública regional, também nos países da região e no plano internacional, e até na sociedade israelense e entre tradicionais apoiadores de Israel, o que se vê é uma larga fissura e profundas diferenças quanto à estratégia a adotar em relação ao Irã.

Simultaneamente, alguns especialistas levantaram outra questão: que capacidade teria Israel para comprometer-se em engajamento militar de longo prazo? Israel suportaria uma longa guerra, que seria consequência quase inevitável de um possível ataque ao Irã? Nisso, a maioria dos especialistas coincide.

Dizem que a primeira preocupação é a capacidade do Irã para reagir, se for atacado; a maioria dos especialistas reconhecem que é alta a probabilidade de o Irã ter capacidade militar para retaliar. Mas Israel não teria capacidade de sustentar ataque prolongado contra o Irã, dado que não tem um terceiro país que lhe ofereça bases em solo, mas o Irã, sim, pode contar com essas bases.

Não faz muito, oficiais sírios em Damasco alertaram Israel contra qualquer tentativa de atacar o Irã. Anunciaram que a Síria pode usar seu sistema de mísseis, e devolver os sionistas ao ponto em que estiveram anos atrás, destruindo parte considerável da infraestrutura do país. Foi o que disse também o líder do Hezbollah libanês, Seyed Hassan Nasrallah, para o caso de Israel atacar o Irã.

Além disso, os fatos em campo mostram que Israel não suportaria engajamento militar sequer de média duração.

Viu-se claramente, além de qualquer dúvida, nos 22 dias de guerra de Israel contra Gaza e nos 33 dias de guerra de Israel contra o Líbano, que o poder bélico israelense é limitado, em condições de combate real.

Seyed Hassan Nasrallah
Naquelas duas guerras, o mundo viu que Israel é incapaz de sustentar guerra de mais longa duração. Por isso, quando Seyed Hassan Nasrallah anunciou que, em qualquer ataque que Israel venha a tentar no futuro, o Hezbollah, se for novamente atacado, já não se limitará à guerra de defesa, e empreenderá ação ofensiva, estava, de fato, enviando mensagem clara e expondo estratégia diferente, para determinar o campo real de alternativas com as quais Israel deve operar.

Por tudo isso, é fácil concluir que qualquer aventureirismo do regime sionista, que implique atacar o Irã, gerará caos generalizado na região. E, dada a quantidade escandalosa de ameaças e declarações belicosas do regime sionista, Israel será a principal culpada pelo caos e pela guerra.

O ocidente já dá sinais de ter entendido corretamente a situação real. É mais que hora de o ocidente desistir de apenas aconselhar o regime sionista, e cuidar de regular a conduta do governo de Netanyahu mediante ações tangíveis, práticas. Entregue às próprias incompetências, é fortemente provável que o regime sionista arraste toda a região a uma situação cuja reestabilização, recomposição e controle será muito difícil.

Seja como for, a questão de ser capaz de envolver-se e sustentar guerra prolongada, agora ou em futuro mais distante, tem alta significação nos debates de inteligência e militares, porque ajuda a traçar coordenadas mais realistas e mais claramente demarcadas para toda a situação.

Assim consideradas as coisas, todos os países dever-se-ão empenhar em alertar os líderes sionistas contra as consequências de atacar o Irã.

Não por acaso, altos especialistas da inteligência do regime sionista já declararam muito abertamente que está fora de questão qualquer ataque israelense às instalações nucleares iranianas. Já disseram também que, se atacar o Irã, Israel lamentará por uma década as consequências do ataque.