Mostrando postagens com marcador Nuclear. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nuclear. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de abril de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 4 a 11/4/2014

18/4/2014, Conflicts Forum’s
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Negociações P5+1 em Genebra (ONU)
Na linha de que o resultado das negociações do grupo P5+1 com o Irã marcará inflexão chave para o Oriente Médio – de um modo ou de outro – esses “Comentários semanais” são dedicados a examinar as discussões sobre o “processo” P5+1 que estão sendo ventiladas na imprensa em farsi. Nada aqui visa a ser muito abrangente ou definitivo; nosso objetivo é apenas dar informação geral aos leitores sobre as questões que estão empurrando o pêndulo da opinião pública em geral e também da opinião bem informada para uma posição de cada vez mais ceticismo no Irã. Claro que, por mais que o presidente Rowhani ainda tenha “autorização” para prosseguir as negociações, e conte com a massa crítica de apoio no nível superior do governo, essa “autorização” não é nem ilimitada no tempo nem absolutamente sem restrições. De fato, se se passa os olhos pelo espectro da opinião no Irã, o humor no Parlamento e nas ruas vai-se tornando cético, no melhor dos casos; e azedo, no pior. 

E preservar o apoio popular será, certamente, crucial para a longevidade da habilidade do presidente Rouhani na preservação da “autorização” para as conversações. Também é claro que essa deriva na opinião em geral não é toda ela relacionada à natureza do processo em andamento nas conversações nucleares, mas foi adversamente afetada tanto pela visita de Lady Ashton como pela recente Resolução, do Parlamento da União Europeia sobre direitos humanos. Há uma sensação de que muitos iranianos esperavam que terem entrado em negociações resultaria, pelo menos, em alguma mitigação nas críticas contra o Irã: em resumo, que a iniciativa de Rouhani teria, como contrapartida, talvez, algum decoro e mais respeito ao direito dos iranianos de escolherem o próprio “modo de vida”. Nessa esfera, as expectativas foram gravemente frustradas – e alguns interpretam essa mal-vinda tendência como anúncio de que novas pressões virão.

Catherine Ashton
Chanceler da União Europeia
Na linha mais positiva, o Dr. Nader Sa’ed, que escreve em Javed, observa que as conversações têm dois eixos principais: o primeiro, diz ele, é (do ponto de vista do P5) fundamentalmente alterar o objetivo – e mesmo a qualidade – das atividades iranianas de enriquecimento, para o menor nível possível; e redefinir a atividade prevista para o reator de Arak. Mas o Dr. Sa’ed mostra que, aqui, há um a dificuldade grave: se se espera que o Irã defina com realismo as suas necessidades estratégicas de energia nuclear, tanto para hoje como – e mais importante – para amanhã, o que garante que as exigências estratégicas do Irã para as próximas décadas, se analisadas desse modo, não serão consideradas muito superiores àquele nível de enriquecimento abaixo do qual o P5 está decidido a manter o Irã? Em resumo: qual o nível de restrição ao enriquecimento em termos do qual pode ser possível alcançar algum acordo com o P5 – e que ainda atenda às legítimas necessidades de longo prazo do Irã? Há qualquer possibilidade real de que a linha da definição de enriquecimento “aceitável”pelo P5 fique pelo menos próxima do que o Irã avalia como suas necessidades de longo prazo? Essa questão é complicada, escreveu o Dr. Sa’ed, razão pela qual não se deve esperar acordo algum, para breve.

Hoseyn Shari’atmadani, que escreve em Keyhan  (veículo do qual é editor) trata do seguinte ponto: dado que a ciência nuclear é elo chave na cadeia da ciência e da tecnologia, da qual ninguém pode desistir facilmente, sem causar grave dano à ciência iraniana como um todo (porque todos os aspectos são intimamente interligados), ele observa que :

Hassan Rouhani
Presidente do Irã
(...) a necessidade anual de energia elétrica em nosso país está próxima de 8.000 megawatts. Para produzir essa quantidade de energia elétrica, consomem-se 220 milhões de barris de petróleo. I

Isso, diz ele, é o que o P5 exige do Irã: queimem combustível fóssil para atender suas necessidades de eletricidade. Mas, se o Irã seguisse esse “conselho”, não apenas geraria mais de mil toneladas de dióxido de carbono tóxico, lançaria quase 170 toneladas de partículas no ar, e dispersaria mais de 140 toneladas de enxofre e 55 toneladas de nitrato no meio ambiente; além de tudo isso, queimar petróleo para produzir eletricidade custaria anualmente quase US$ 6 bilhões a mais, do que custaria produzir eletricidade em usinas nucleares. Shari’atmadani conclui que as reservas iranianas de petróleo e gás estão sendo rapidamente exauridas, e que exigir que o Irã use combustível fóssil desse modo não responde à questão de o que o Irã fará, digamos, dentro de 20 anos. Portanto, e dada a experiência do Irã com sanções, não deve haver pressa alguma em pôr as futuras gerações à mercê dos mercados internacionais e de risco de novos boicotes.

Mais fundamentalmente, Mehdi Mohammedi questiona todo modo como o P5 aborda as negociações – e como os negociadores iranianos lidam com isso. Os ocidentais dizem, observa ele, que há um ponto no programa iraniano que, se o Irã trabalhar para alcançá-lo,

(...) tecnicamente, decida ou não fazê-lo, poderia rapidamente e em pouco tempo produzir os materiais necessários para produzir uma arma nuclear, em outras palavras, 25 kg de urânio enriquecido a 90%, sem que nem a AIEA ou os espiões do ocidente jamais soubessem. Esse ponto, o Ocidente chama de ponto não identificável de ruptura, de quebra nuclear.

Mohammad Javad Zarif
MRE do Irã
Esse conceito está por trás da insistência com que o P5+1 quer limitar ao mínimo o enriquecimento, escreve ele. Mas, em vez de aceitar complicadas restrições às centrífugas, e às reservas enriquecidas a 5% e 20%, para vedar a possibilidade da “ruptura”, ele entende que a equipe iraniana em Genebra jamais deveria ter aceitado a própria lógica da “ruptura”:

Não podemos aceitar jamais tais conceitos. Norte-americanos e israelenses fabricaram esse conceito para usá-lo como pretexto para desmantelar a infraestrutura do enriquecimento industrial no Irã – entende ele. Minha pergunta é: Por que os cavalheiros aceitaram tal coisa? Se o ocidente está preocupado com “ruptura” nuclear, a solução é aumentar a transparência. Por que nossos amigos aceitaram limitar o programa sob tal pretexto?

Voltando aos “eixos gêmeos” do Dr. Sa’ed, depois de limitar o objetivo e a qualidade do enriquecimento ao mínimo nível possível, o segundo eixo do P5+1, o eixo das sanções,

(...) continuam vigentes, com o benefício da cooperação informal que os EUA arrancam dos aliados, e estão sendo sempre renovadas e reforçadas de várias formas, sob diferentes formatos. As sanções do Conselho de Segurança da ONU continuam mais ou menos vigentes e, até aqui, não há possibilidade de revisar o método para removê-las.

Além disso, a interpretação legal do 2º parágrafo do artigo 4º do Tratado de Não Proliferação [que exige que todos os signatários do TNP ofereçam assistência a países que aspirem a desenvolver programa nuclear pacífico] é que é de adesão voluntária e não obriga ninguém, a menos que nossa diplomacia consiga recriar esse parágrafo como “exigência” a ser obrigatoriamente cumprida pelo Ocidente.

Suzanne Maloney
Há de fato evidências de que esse segundo “eixo”, já muito reduzido no alívio que oferece ao Irã ($4,2 bilhões em oito itens, de mais de estimados $100 bilhões de fundos iranianos congelados no Ocidente), está bem perto do pouco que o P5+1 prometera inicialmente: Suzanne Maloney, especialista em Irã do Brookings Institute, disse a Al-Monitor que

(...) os iranianos sabiam que estavam obtendo “bem pouco” em termos de alívio nas sanções, com o acordo provisório.

Mas ela alerta que:

(...) as dificuldades que o Irã enfrenta para arrancar esses recursos “liberados” farão os iranianos aprender a esperar menos do alívio de sanções que dependam de autoridade concedente” da Casa Branca. O presidente Obama tem autoridade para levantar várias das sanções contra o Irã por seis meses de cada vez – a exata duração do acordo provisório. Mas as grandes empresas multinacionais precisam de horizonte de mais longo prazo para fazer negócios significativos, disse Maloney.

Erich Ferrari, advogado especializado em sanções, que trabalha em Washington disse a Al-Monitor que:

O que estamos ouvindo dos iranianos é que ninguém sabe o que é esse canal financeiro [para negociar com o Irã].

Ferrari disse também que

(...) não se surpreendeu por bancos em países que continuam a importar petróleo iraniano estarem dificultando o acesso do Irã aos $4,2 bilhões prometidos ao país em oito parcelas separadas, nos termos do acordo provisório.

Paul Pillar
Paul Pilar, ex-analista da CIA comenta com ironia que

(...) a maravilhosa máquina de sanções é tão poderosa que continua a exalar poder e tem efeitos mesmo depois de o interruptor ter sido desligado. O Tesouro tem de fazer mais do que simplesmente dizer “vai”, e mais do que fez até aqui, que só preservou os bancos em sua zona de conforto, para que o acordo provisório com o Irã seja implementado como se deve esperar que seja.

Mas, além disso, Rouhani e Zarif estão enfrentando críticas muito mais sérias, de figuras consideráveis da oposição. Fundamentalmente, Mehdi Mohammadi, um ex-editor da revista Keyhan e ex-assessor do negociador nuclear Jallili, diz, numa entrevista:

(...) o Acordo de Genebra é documento no qual a equipe de negociadores já aceitou que o Irã seja uma exceção dentre todos os demais signatários do Acordo de Não Proliferação (...) [os quais, todos] têm direitos e deveres legais [definidos pelo TNP]. Além disso, a estrutura do Acordo de Genebra mostra que o Irã é tratado como uma exceção; e certas restrições impostas ao Irã nesse documento só o confirmam.

E continua:

(...) a estrutura do documento define um primeiro passo que tem cronograma-prazo de seis meses. Do ponto de vista dos ocidentais, esse primeiro passo lá está para construir confiança, e o propõem essencial que, para que se iniciem reais negociações com o Irã, o Irã teria de realizar uma série de ações iniciais para – no mínimo – oferecer o nível necessário de confiabilidade que justifique que o ocidente continue a negociar com o Irã. Eles mesmos [os ocidentais] dizem que essas ações converterão as “conversações” com o Irã, em “negociações”. Então, definiram-se outros passos, sem cronograma-prazo.

Em outras palavras, os ocidentais podem exigir imediatamente a implementação dessas medidas, que não estão fixadas em cronograma-prazo. Um desses passos adicionais ordena que o Irã cumpra as resoluções do Conselho de Segurança da ONU; e outro é a solução de todas as “questões relevantes”, incluindo as dimensões provavelmente militares, pelas quais a AIEA pode exigir acesso a instalações militares e a cientistas iranianos. E então virá o passo final, que tem cronograma-prazo, mas cuja linha de tempo ainda não está especificada. Só se sabe que os dois lados já acordaram que o prazo será longo. Nesse passo final, partes do programa de enriquecimento do Irã serão desmanteladas, e todo o programa será muito gravemente restringido.
Mehdi Mohammadi

O que Mohammadi diz é que o Irã terá de aceitar graves restrições na implementação de direitos que são do Irã, e por muitos anos; e que se exigirá muita cooperação do Irã, além da exigida pelo TNP, apenas para que o Irã se torne membro signatário como todos os demais. Assim sendo, até o dia em que os ocidentais se deem por satisfeitos, o Irã permanecerá como uma exceção.

Em outras palavras, nós mesmos estamos aceitando que os ocidentais teriam o direito de nos tratar como caso especial e de nos pressionar. A questão aqui, diz Mohammadi, é que a equipe iraniana de negociadores deu ao Ocidente o direito de “declarar” que o Irã é ameaça e é exceção, e por quanto tempo isso interesse ao ocidente. Essa atitude tem consequências muito perigosas para a segurança nacional do Irã”– diz ele. O ponto de partida para os ocidentais em todas as questões com o Irã sempre foi fazer o Irã aceitar que é uma exceção e que, por esse motivo, não deve esperar beneficiar-se dos mesmos direitos que os demais têm, nem ter só os deveres que os demais têm. O Irã jamais aceitou tal coisa.

(...) Sempre dissemos que não admitiremos que eles convertam o Irã em caso especial e em exceção. Mas a atual equipe de negociadores aceitou isso, sem discutir.

Além disso, Mohammadi rejeita a ideia dos negociadores iranianos de que, de certo modo, os EUA concederam o direito de enriquecimento [do urânio] ao Irã:

O Acordo de Genebra nada diz, absolutamente, sobre reconhecer o direito iraniano de enriquecer [urânio]. Os próprios norte-americanos, eles mesmos – em outras palavras, o lado que tem de reconhecer esse direito – diz abertamente que esse direito não foi reconhecido para o Irã. A razão é clara, e os norte-americanos já disseram, que se tivessem reconhecido ao Irã o direito de enriquecer urânio, não teriam meios para impor restrições ao Irã. Para ter ferramentas para restringir o programa nuclear iraniano, eles tomaram atentamente o cuidado de não reconhecer tal coisa, no Acordo de Genebra.

Ali Akbar Salehi - Chefe do
Programa Nuclear iraniano
Tampouco é verdade o que diz o Dr. Ali Akbar Salehi, Mohammedi, continua, para quem, porque o enriquecimento está hoje no primeiro passo, e algum enriquecimento limitado e restrito pode aparecer como resultado do passo final, isso implicaria que o P5+1 reconheceu ao Irã o direito de enriquecer: o Dr. Salehi está errado, diz Mohammedi, porque – nos passos adicionais [sem prazo] – a equipe iraniana aceitou respeitar as resoluções do Conselho de Segurança (que exigem que o Irã suspenda o enriquecimento).

Além do mais, no passo final, quando o Irã aceitou limitar a capacidade de porcentagem de enriquecimento, e suas locações e reservas, o objetivo é que grandes partes do atual programa iraniano de enriquecimento têm de ser desmanteladas. Esse ponto é muito importante. A retórica do desmantelamento foi precisamente fixada no Acordo de Genebra. Todos devem observar muito atentamente que as partes a desmantelar do programa de enriquecimento são deveres do Irã, segundo o Acordo de Genebra. A equipe de negociadores aceitou isso e assinou isso. De fato, essa é a razão pela qual os norte-americanos dizem que não permitirão que o acordo provisório se torne definitivo, e é também a razão pela qual dizem que negociações futuras serão negociações sobre desmantelamento e desmonte. Infelizmente, se se analisa o texto do acordo, eles estão certos. A equipe de negociadores aceitou o desmonte, e se alguma negociação algum dia acontecer, será sobre as dimensões e o tamanho desse desmonte. E jamais alguém discutirá o princípio [o direito de enriquecer].

O ponto que Mohammedi está destacando é que

(...) quando os negociadores iranianos dizem que o Acordo teria institucionalizado as atividades de enriquecimento do Irã, e que esse resultado marcaria importante conquista iraniana, todos temos de perguntar: “nesse caso, então, o que, precisamente, nós estamos entendendo por “enriquecimento”? Se “enriquecimento” significa para nós um pequeno programa simbólico que apenas protegeria nossa reputação e que não tem muito valor nem técnico nem industrial, nem gera poder estratégico” então, sim, o que a equipe de negociadores diz é verdade.

Mas se o objetivo do programa de enriquecimento é um programa industrial, cujo objetivo é, simultaneamente, criar competências industriais e produzir combustível para as usinas de energia, além de produzir combustível nuclear para exportar para mercados mundiais, para melhorar a posição do Irã no mercado de energia, o Acordo de Genebra concede precisamente tudo isso, e perde tudo isso.

E quais serão as consequências desse Acordo? Mehdi Mohammedi diz claramente que:

(...) entende que a indústria nuclear será gravemente atingida; em segundo lugar, que os ocidentais concluíram que a estratégia deles para provocar mudanças calculadas pode ser alcançada no Irã, mediante sanções continuadas.

Estou convencido, e os sinais são já evidentes, de que eles aplicarão o mesmo método também em outros casos. Já agora, em relação à região e aos direitos humanos, estão dizendo que o Irã tem de adotar medidas para construir confiança.  

E mais e mais pressões virão. Até o Dr Sa’ed, mais otimista, conclui que esperar qualquer acordo rápido “é irracional”; e ainda serão necessárias outras rodadas de diálogo. Acrescenta que desenvolvimentos internacionais recentes, particularmente a crise na Ucrânia, e as reações domésticas adversas às ações de Lady Ashton em Teerã, ambos esses fatores, também pesaram diretamente sobre a política externa do Irã, e tornarão ainda mais inconclusivas as conversas “nucleares”.

Hassan Rouhani cumprimenta Mohammad Javad Zarif, Presidente e MRE do Irã
Lembramos aos leitores que o objetivo dessa compilação não é analisar argumentos, nem oferecer pontos de vistas divergentes, mas, exclusivamente, oferecer um panorama geral das questões que estão sendo discutidas pela mídia iraniana; são questões que o presidente Rouhani e seu Ministro de Relações Exteriores têm de enfrentar – e questões de que têm alto potencial para desgastar o mandato para negociar, que ambos receberam dos eleitores. 

Às vésperas das eleições presidenciais, o campo dos “Principistas” dividiu-se. Os segmentos moderados dos Principistas, que já pagaram preço alto por ter apoiado Ahmadinejad e linhas-duras dentro do próprio partido, estão hoje mais cautelosos. Não apoiarão ataques dos linhas-duras contra a diplomacia nuclear – pelo menos, por enquanto. O presidente Rouhani ainda tem apoio parlamentar e da alta Liderança, mas, como se começa a ver pelas linhas acima, tudo isso pode mudar, se não surgirem resultados tangíveis – na esfera à qual não chega o peso de sanções ainda restritas.
______________________


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Conflicts Forum – Comentário semanal (27/9 – 4/10/2013)

29/9-4/10/2013 (publicado em 11/10/1013) [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Graham Fuller
Em artigo recente, Graham Fuller, ex-vice-presidente do Conselho de Inteligência Nacional dos EUA, especulava sobre se “é possível que o presidente Obama – sem articulação alguma e, talvez, até, sem que essa fosse sua intenção clara ou completa – tenha iniciado uma re-formatação radical da política externa dos EUA?”. Fuller referia-se à recente repentina reviravolta: um dia, as bombas logo começariam a chover sobre a Síria; e, de repente, somos informados de contatos cordiais entre os presidentes do Irã e dos EUA –, acrescentando que um corpo conectado de axiomas intocáveis da política externa dos EUA podem também estar sendo silenciosamente revertidos: o excepcionalismo norte-americano, o unilateralismo norte-americano e os EUA como arquitetos da “ordem global”.

De fato, Fuller incluiu outros dois axiomas em sua lista de axiomas que poderiam estar sendo revertidos: “os EUA como policiais do mundo, como comentadores morais [itálicos de Conflicts Forum] e como hegemon mundial”. Esses últimos são particularmente interessantes, porque provavelmente explicam mais do por quê estaria ocorrendo mudança de tal importância. Esses últimos axiomas podem ter sido os motores da mudança – em vez de aí estarem, simplesmente, como consequências da mudança. Pode estar aí sugerido também que a mudança talvez não seja tão “repentina” como se supôs. Fuller sugere isso. 

O que se tornou tão aparente em relação à Síria foi que o “sistema dos EUA” foi “contido” [no sentido de parou ali (NTs)], antes de qualquer intervenção na Síria, por mais limitada que fosse. A opinião pública e o Congresso dos EUA afastaram-se decididamente da posição de policiais e árbitros morais das sociedades do Oriente Médio, e do papel de potência hegemônica global. O público, depois de concluídas as pesquisas, dava “polegares para baixo” para toda a tal missão, a toda aquela narrativa da raison-d’être dos EUA, ao mesmo tempo em que a maioria dizia “não” à chuva de bombas contra Damasco.

Obama mostra "verdadeira sabedoria"
O que Fuller sugere é que Obama não está mostrando fraqueza, mas “verdadeira sabedoria”, ao reconhecer que os EUA simplesmente não podem persistir na mesma linha, num momento em que o unipolarismo está em visível erosão ante repetidos e crescentes revides; e que o desarranjo moral dentro dos EUA está minando a confiança da opinião pública norte-americana e seu apetite para intrometer-se, com lições de moral, em cada um e em todos os conflitos pelo mundo.

A mudança é mais diretamente aparente em termos de política exterior (a abertura para o Irã), mas as implicações para a evolução da ordem internacional são também importantes – se não mais importantes.

Em termos da mudança da política dos EUA na direção do Irã, pode parecer que seja “subproduto” do acordo com os russos sobre as armas químicas sírias, e a nova direção política que se vê hoje no Irã. Mas essa mudança também pode ter raízes mais profundas no modo como os EUA percebem hoje diretamente os seus próprios interesses nacionais – mesmo que ainda não seja politicamente aceitável articular muito publicamente esses novos interesses.

Mike Morrell
Ex - nº 2 da CIA
O n. 2 da CIA recentemente aposentado deu uma entrevistana qual disse explicitamente que, embora não seja ameaça direta contra os EUA hoje (porque ainda é mais uma ameaça regional), parecia-lhe que a crescente ameaça jihadista na Síria tem de ser vista, desde já, como a principal ameaça potencial contra os EUA no longo prazo. Quis dizer que um objetivo comum – uma meta comum – abre-se para o Irã e os EUA: lutar contra a crescente ameaça que vem dos movimentos sunitas extremistas (takfiri) na Síria e na região. Veem-se sinais já há algum tempo em alguns setores do sistema nos EUA, de que já se reconhece claramente a ineficácia do ilusório Exército Sírio Livre, e de que o braço armado do Conselho Nacional Sírio e o Conselho Militar Sírio são impotentes para “derrubar” os movimentos jihadistas na Síria. A única força capaz de conseguir esse resultado (e que, de fato, já o está conseguindo) é o Exército Sírio (com ajuda, embora limitada e específica, do Hezbollah e do Irã).

Há também interesses partilhados entre EUA e Rússia (que vê a Síria como a “linha de frente” - que tem de ser seduzida – se os dois países desejam conter a expansão de uma nova fase do extremismo islâmico em crescimento). Nessa empreitada, o Irã pode ajudar. Em resumo, é possível que a hostilidade dos EUA à ascensão do extremismo sunita na Síria e em outros pontos seja hoje uma causa comum que aproxima Washington e Teerã – a qual estaria superando largamente qualquer interesse comum que os EUA tivessem algum dia partilhado com os estados do Golfo – particularmente se os EUA vão-se tornando menos dependentes do petróleo do Oriente Médio, e em vista do relacionamento equívoco e de certo modo dúbio que os estados do Golfo mantêm com aqueles movimentos extremistas. Os interesses dos EUA estão em metamorfose.

Em termos da ordem internacional, Fuller sugere que, enquanto o unilateralismo vai evanescendo, Obama estaria efetivamente inaugurando uma nova compreensão, segundo a qual doravante será preciso negociar com as preocupações e interesses legítimos de outros estados – deixando para trás a confortável certeza de que os interesses dos EUA seriam “um bem universal”.

Para compreender as amplas implicações dessa mudança que parece permanecer não noticiada, temos de compreender como a ordem internacional vinha evoluindo. É precisamente a evolução futura que torna o reconhecimento de Obama potencialmente tão significativo.

Depois da Guerra Europeia (2ª Guerra Mundial), uma ordem internacional – e seu concomitante arcabouço legal – foi criada mediante o consenso de estados soberanos independentes. É o que os especialistas em Direito Internacional chamam de abordagem “positivista” da ordem global, pela qual as regras das relações internacionais (lei internacional) são criadas mediante o consenso de estados soberanos independentes, e devem ser interpretadas em sentido estrito.

Direito Internacional "made in USA", Inglaterra & França
Mas esse entendimento vem discrepando do modelo que EUA e alguns países europeus (especialmente Grã-Bretanha e França) têm preferido, o qual dá ênfase maior a uma visão da ordem internacional mais política, ou mais orientada para resultados. Por essa visão, o que interessa na resposta a determinados desafios internacionais identificados é a formulação de metas ou “resultados” a buscar. Não a lei internacional per se, mas as novas metas ou missão, mesmo que atropelem a lei internacional. Essa abordagem atribui papel especial aos estados mais poderosos, que passam a poder interpretar como as tais “metas” devam ser buscadas – o que equivale a dizer: atribuindo o “direito” de decidir aos países que tenham os recursos e, especialmente, a disposição para agir de modo a fazer acontecer um “resultado” desejado.

Dessa abordagem “orientada para metas” emergiu, inter alia, o que já parece ser uma revisão unilateral do Tratado de Não Proliferação [de armas nucleares, ing. NPT], pela qual a afirmação da “meta” prioritária da não proliferação foi inflada, até alterar as próprias leis do NPT referentes aos direitos de cada país signatário ao enriquecimento de urânio para finalidades pacíficas. Assim se chegou hoje à afirmação de que, para realizar aquela meta, só os estados armadose outros com indústrias nucleares poderiam decidir quais estados não armados seriam autorizados possuir tecnologias de ciclo completo de combustível nuclear.

Áreas livres de armas nucleares e respectivos tratados internacionais
(clique na imagem para visualizar)
Do mesmo modo, a doutrina do “direito de proteger” foi apresentada de tal modo que “provava” que seria admissível atropelar a soberania nacional. Só para esclarecer e ao contrário do que tem sido sugerido, NÃO HÁ dois corpos de lei que competiriam entre eles: (a) o da lei internacional clássica e (b) essa nova formulação dita “humanitária” ou dos direitos humanos. A formulação (b) não passa de “opinionismo” muito controverso introduzido por alguns estados, advogados, políticos e “especialistas” de think-tanks. Nenhuma dessas mudanças foi jamais negociada com estados soberanos e, portanto, a formulação (b) só é promovida por quem busque uma brecha unilateral para quebrar o “contrato” original.

O que está acontecendo no contexto da Síria é uma luta concertada, sob a liderança de Rússia, China e alguns BRICS, para resgatar a ordem internacional, da orientação viciosa, unilateral, para “metas e resultados”; e para reconduzi-la de volta à ideia de uma estrutura para as relações internacionais enraizada no consentimento soberano e na primazia da lei internacional.

Sergey Lavrov
Esse é o projeto e a ambição aos quais o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov tem-se referido repetidas vezes, sempre que diz que o resultado na Síria é evento chave para redefinir o futuro da ordem internacional – e o modo como, doravante, serão resolvidos os conflitos internacionais. De fato, Lavrov parece ter sido bem-sucedido, pelo menos em parte. Os russos querem pôr fim à prática de alguns países ocidentais, de resolverem seus conflitos à revelia da ONU e da lei internacional, movidos só por “coalizões de vontades” criadas ad hoc.

Parece, sim, que o presidente Obama, silenciosamente, empurra os EUA na direção de reconhecerem a realidade de uma nova era global – a inevitabilidade de ter de pagar mais caro para, no futuro, trabalhar sob o consenso de estados soberanos, em vez de agir sozinhos, como a única potência unipolar.

Essa “volta” tentativa ao consenso dos estados soberanos impõe um ponto de interrogação radical na tal “responsabilidade de proteger” (dado que a detonação da soberania de um estado, para atender à meta da “responsabilidade de proteger”, jamais foi definida; nem, de fato, jamais foi aprovada ou reconhecida coletivamente por estados soberanos).

Mas a atual aparente disposição de Washington para aceitar o direito do Irã ao enriquecimento de urânio para finalidades pacíficas (a ser monitorado e supervisionado), pode ser visto como movimento consistente com essa nova orientação dos EUA. E toca diretamente no ponto crucial dos princípios originais subjacentes ao Tratado de Não Proliferação.

Deve-se esperar que a ideia receba amplo apoio global e tenha melhores chances de sucesso.

Obviamente, conectada a essa ideia, é impossível não ver que a própria base para a “meta” de não proliferação supra-Tratado continua a ser perseguida, ainda hoje, nos dois eventos gêmeos: na destruição dos estoques químicos sírios; e na desistência, pelo Irã, da possibilidade de vir a ter armas nucleares. E tem de ser vista como “meta” ainda mais duvidosa e suspeita, que, de fato, cancela todos os direitos assegurados pelo Tratado de Não Proliferação, porque deixa Israel sozinha, como a única potência nuclear no Oriente Médio (o país jamais reconheceu a existência de seu arsenal nuclear).

Os impactos da reorientação – se se confirmar – serão vários. Israel será obrigada a reconsiderar vários itens; os estados do Golfo terão de reconfigurar suas relações com o Irã – e, de fato, também com a Síria - e a Europa terá de também  reconfigurar suas relações com o Golfo.

Porque, se o “sistema” norte-americano foi derrotado na Síria, e se os EUA tiveram de pôr fim repentino à doutrina Carter (com o fim, de fato, do guarda-chuva dos EUA sempre a proteger os estados do Golfo), por que, doravante, os estados do Golfo continuariam obrigados a comprar aquelas armas caríssimas, que lá ficam, enferrujando no deserto? Por que se interessariam em continuar a pagar por um guarda-chuva já fechado e posto de lado?




[*] Conflicts Forum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Pepe Escobar: “Presidente Obama, derrube esse muro!”

“O futuro iraniano de Washington no Novo Grande Jogo Estratégico no Oleogasodutostão”


6/12/2012, Pepe Escobar, Tom Dispatch Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
No debate-teatro-do-absurdo da campanha eleitoral presidencial nos EUA-2012 sobre “política externa”, o Irã foi tema citado nada menos que 47 vezes [1]. Apesar do medo, das maldições, palavrões e ameaças [2], além das mentiras, no circo bilionário da temporada eleitoral, os norte-americanos, mesmo assim, nada ouviram de substancial sobre o Irã, por mais que as tais (inexistentes) “armas de destruição em massa” fossem sempre citadas e recitadas como principal questão da segurança nacional dos EUA. (Como se não faltasse mais nada, o mundo, embasbacado, ainda ouviu o candidato Romney dizer que a Síria – não o Golfo Persa – seria a “saída [do Irã?!] para o mar”. [3]

Agora, com a campanha eleitoral Sturm und Drang [4] já ultrapassada, mas com as ameaças ainda sempre repetidas, a pergunta é: “Obama conseguirá cruzar a fossa abissal que separa a atual política externa dos EUA (não queremos guerra, mas haverá guerra se vocês construírem aquela bomba) e a ótica persa (não queremos a bomba – o Líder Supremo já disse – e queremos acordo, mas só se vocês nos assegurarem o respeito, ou pelo menos boa parte do respeito, que nós merecemos)? Não esqueçam que, em outubro, pouco antes de ser reeleito, o presidente Obama acenara [5] com uma micro nesga de abertura rumo à reconciliação, ao falar sobre a “pressão” que aplicava contra o país e sobre “nossa política de (...) potencialmente virmos a ter conversações bilaterais com os iranianos para pôr fim ao programa nuclear deles”. [6]

É claro que Teerã não “porá fim” ao seu programa nuclear legal. Quanto àquele “potencialmente”, é como um lembrete desenhado ali, para lembrar o quão furiosamente o establishment em Washington rejeita até a possibilidade de negociações bilaterais com o Irã.

Presidente Obama, derrube esse muro!

Começemos com o óbvio, muito importante: quando entrou no Salão Oval, em janeiro de 2009, o presidente Obama herdava um aparentemente inexpugnável “Muro de Desconfiança” de três décadas, nas relações Irã-EUA. Diga-se a favor dele que, em março, Obama falou diretamente [7] a todos os iranianos, numa mensagem pelo Nowruz, o Ano Novo iraniano, na qual sugeriu um “comprometimento firme, baseado no respeito mútuo”. Chegou a citar o poeta persa, do século 13, Sa’adi: “Os filhos de Adão são braços do mesmo corpo, que Deus criou de uma única essência”.

Mas ainda assim, desde o início, Obama foi paralisado por uma série de preconceitos que reinam em Washington, tão velhos quanto o muro de desconfianças; e por um conceito que unia os dois partidos e que privilegiava estratégia agressiva em relação ao Irã, que emergiu nos anos de George W. Bush, quando o Congresso aprovou verba de $400 milhões [8] para pagar várias “operações encobertas” planejadas para desestabilizar o país e que incluíam ação nas fronteiras, de equipes das Operações Especiais. Tudo isso, já decorrente dos perigos da “bomba iraniana”.

Relatório de setembro de 2008 [9] do Centro Político Bipartidário [orig. Bipartisan Policy Center], think tank com sede em Washington, bem típico, já assumia como fato consumado que o Irã já teria capacidade para construir armas atômicas. Foi redigido por Michael Rubin para o American Enterprise Institute, neoconservador, o mesmo AEI que jamais se envergonhou de ter promovido a desastrosa invasão e ocupação do Iraque em 2003. Os membros daquele centro, vários dos quais viriam a ser assessores de Obama “aprovaram por unanimidade” o relatório, entre eles Dennis Ross, o ex-senador Charles Robb, o então futuro vice-secretário de Defesa Ashton Carter, Anthony Lake, a então futura embaixadora dos EUA na ONU Susan Rice e Richard Clarke. O documento National Intelligence Estimate de 2007, em que se reúnem anualmente as avaliações e os estudos prospectivos de todas as agências de inteligência dos EUA – e que garantia que o Irã encerrara em 2003 qualquer programa que tivesse para construir bombas atômicas – foi absolutamente desautorizado e ignorado. [10]

Copiando a abordagem “todas as opções estão sobre a mesa (inclusive a ciberguerra [11])”, o relatório de Rubin propunha – e o que mais seria?! – ataque militar no Golfo Persa, que teria como alvo “não só a infraestrutura nuclear do Irã, mas também a infraestrutura militar convencional, para impedir qualquer resposta iraniana”. De fato, esse ataque foi pensado para começar antes de George W. Bush deixar a presidência; nos anos Obama, apenas foi aumentado [12] na relação de alvos e objetivos. [13]

O ponto crucial é o seguinte: enquanto dezenas de milhões de eleitores nos EUA elegiam Barack Obama em 2008, em parte porque prometia pôr fim à guerra do Iraque, uma poderosa minoria ativa entre as elites de Washington já começava a rascunhar uma primeira versão agressiva de uma futura estratégia dos EUA na região que se estende do Norte da África à Ásia Central, região que o Pentágono, então, ainda chamava de “arco de instabilidade”. A viga mestra dessa estratégia era um programa para criar as condições para um ataque militar contra o Irã.

R.e.s.p.e.i.t.o???

Com o governo Obama 2.0 já às vésperas de tomar posse, a hora para resolver o imensamente complexo drama nuclear iraniano é já. Mas, como Gary Sick, da Columbia University – que foi assessor chave da Casa Branca sobre o Irã durante a Revolução Iraniana e a crise dos reféns em Teerã em 1979-1981 – sugeriu [14], nada jamais dará certo, enquanto Washington não começar a pensar além do programa de sanções cada dia mais duras [15] e que, agora, já está convertido em programa pétreo, imutável, considerado “politicamente intocável”.

Sick propôs via sólida e consequente – o que, na prática, significa: sem qualquer esperança de vir a ser adotada em Washington. Envolveria discussões bilaterais secretas, a serem conduzidas por negociadores que os dois lados aceitassem como confiáveis, baseadas em agenda acertada pelos dois lados. Essas discussões dariam lugar, em seguida, a negociações plenas e amadurecidas, no contexto do grupo P5+1 que já existe (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha, mais a Alemanha).

Se se considera a frenética onda pós-2009 de sanções, ameaças, ciberataques [16], ataques militares [17] e a colossal mútua incompreensão, ninguém, em sã consciência, poderia esperar que brotasse algum padrão de “respeito mútuo”, da abordagem “de duas mãos” de Washington.

Afinal, em agosto passado, o embaixador Hossein Mousavian, professor da Escola Woodrow Wilson de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade Princeton e porta-voz da equipe de negociadores iranianos de 2003 a 2005, explicou tudo, numa única frase [18]: “A história do programa nuclear iraniano sugere que o Ocidente, inadvertidamente, está empurrando o Irã na direção de construir bombas atômicas”. Chas Freeman, ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita, concorda; sugeriu [19], em palestra recente, que o Irã, hoje, “parece estar reproduzindo os passos do programa clandestino de desenvolvimento de armas de Israel, há 50 anos, quando Israel desenvolvia capacidades para construir, transportar e detonar armas atômicas, enquanto, simultaneamente, negava que tivesse qualquer intenção de fazer o que já estava fazendo”.

O que torna esses desenvolvimentos mais absurdos a cada dia, é que há solução para toda essa loucura. Como eu mesmo já escrevi [20], para atender às preocupações ocidentais sobre o estoque iraniano de urânio enriquecido a 20%,

... solução mutuamente aceitável no longo prazo deveria implicar o conceito de “estoque zero”. Por essa abordagem, uma comissão conjunta constituída do grupo P5+1 e de representantes do Irã calcularia e quantificaria as necessidades domésticas, no Irã, de urânio enriquecido a 20%; o que ultrapassasse essas quantidades teria de ser vendido no mercado internacional ou imediatamente reconvertido para nível mais baixo de enriquecimento, a ser fixado em 3,5%. Assim, ficaria assegurado que o Irã não manteria estoque excedente de urânio enriquecido a 20%, o que atenderia às preocupações internacionais, porque asseguraria que o Irã não poderia vir a construir bombas atômicas. Seria saída honrosa para os dois lados, porque reconheceria o direito dos iranianos a enriquecer seu urânio e esvaziaria as preocupações em torno de um Irã “atômico”.

É hora de pé-na-estrada, na(s) Nova(s) Rota(s) da Seda

A atual estratégia dos EUA não é exatamente sucesso estrondoso. O economista Djavad Salehi-Esfahani explicou [21] como os teocratas de Teerã continuam a conseguir gerir os piores efeitos das sanções e uma moeda nacional em queda livre, usando a imensa riqueza do petróleo e do gás natural iranianos, para subsidiar importações essenciais. O que nos leva à questão basilar do momento: Obama 2.0 afinal admitirá que Washington não precise de mudança de regime em Teerã, para melhorar seu relacionamento com aquele país?

Só se admitir isso (para ele mesmo, se não admitir publicamente), serão possíveis negociações reais que podem realmente vir a derrubar o Muro da Desconfiança. É absolutamente necessário que haja détente genuína, que os EUA aceitem que é direito do Irã manter programa nuclear para finalidades pacíficas. Só assim será possível garantir que o resultado não será um projeto clandestino de produção de armas; só assim acabará qualquer possibilidade de uma guerra devastadora no Golfo Pérsico e no coração petroleiro do Oriente Médio Expandido.

Em termos teóricos, a coisa pode incluir um pouco mais: um momento “Nixon na China” para Obama, uma jornada dramática, ou um gesto, pelo presidente dos EUA, para, de uma vez por todas, pôr fim ao impasse. Mas, se prosseguir a intensa barreira de fogo de desinformação comandada pelos falcões anti-Irã em Washington, que ataca coordenadamente com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de Israel; se persistir a ofensiva gigante de “Relações Públicas” [22] que insiste na sempre mesma retórica incendiária, nas “linhas vermelhas”, nos prazos fatais e em sabotar sempre, preventivamente, qualquer movimento do grupo P5+1 na direção de negociações com o Irã, a possibilidade de um momento daqueles, de um gesto daqueles, continuará a não passar de sonho ou delírio. Mas, de fato, nem um momento tão pouco provável, do tipo “Obama em Teerã”, tem alta chance de pôr um ponto final ao drama. Seria, mais, um pequeno gesto de cordialidade, no grande quadro.
Para entender por quê, é preciso considerar o quanto a posição geopolítica do Irã é absolutamente crucial. Afinal, em termos de energia e em outros termos, o Irã é a mais radical encruzilhada da Eurásia; por isso, é o pivô do mundo.

Estrategicamente, o Irã está em posição que lhe permite controlar as linhas de suprimento de parte muito grande das reservas globais de petróleo e gás; é uma espécie de engrenagem privilegiada para a distribuição da energia para o Sul da Ásia, Europa e Leste da Ásia, num momento em que dois países – China e Índia – estão emergindo como grandes potências do século 21.

No centro da política de Washington para a região, está a absoluta necessidade de controlar tudo isso; não alguma “ameaça iraniana”, que empalidece, se se comparam os gastos de Defesa dos dois países. Afinal de contas, os EUA estão gastando quase $1 trilhão [23], por ano, em “defesa”; o Irã gasta, no máximo, $12 bilhões [24] – menos que os Emirados Árabes Unidos; apenas 20% do total de gastos, na Defesa, das seis monarquias do Golfo Persa reunidas no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

Além do mais, a “ameaça” nuclear iraniana desapareceria automaticamente, se Obama 2.0, algum dia, desse um passo, que fosse, para converter o Oriente Médio em zona livre de armas atômicas. O Irã e o Conselho de Cooperação do Golfo já apoiaram a ideia no passado. Mas Israel – potência nuclear de facto (embora jamais declarada), com arsenal de mais de 300 ogivas atômicas [25] – não concordou.

O grande quadro é ainda maior e ultrapassa os jogos estratégicos entre EUA e Israel sobre algum possível futuro arsenal atômico no Irã. A posição do Irã, como encruzilhada-chave para todo o sudoeste da Ásia determinará grande parte do futuro do Novo Grande Jogo na Eurásia. Determinará, sobretudo, qual versão de uma moderna Rota da Seda prevalecerá no grande tabuleiro de xadrez energético que chamo de Oleogasodutostão [orig. Pipelineistan] [26].

Há anos repito que todos esses desenvolvimentos interligados têm de ser analisados juntos, inclusive o anunciado movimento militar de “pivô” [27] (também chamado “reequilibramento” [28]) dos EUA. Aquela estratégia, anunciada no início de 2012 pelo presidente Obama, tinha o objetivo inicial de desviar a atenção de Washington, das duas desastrosas guerras no Oriente Médio Expandido, para focá-la na região do Pacífico Asiático, com especial atenção à questão de “conter” a China. Sim, mas...

Mais uma vez, o Irã está exatamente no coração dessa nova política, se se considera que grande parte do petróleo e do gás iranianos tomam o rumo da China, navegando por águas patrulhadas pela Marinha dos EUA.

Em outras palavras, o que menos importa é que o Irã seja potência regional dilapidada, governada por teocratas senis, com força militar modesta. Claro que o relacionamento entre Obama 2.0 e o Irã sempre envolverá a questão nuclear, mas também envolverá necessariamente (alguém reconheça publicamente, ou não) o fluxo de energia pelo Oleogasodutostão; e as futuras relações de Washington com a China e o resto da Ásia. E envolverá também os movimentos concertados de Pequim, para promover o yuan, em relação ao dólar e, ao mesmo tempo, para acelerar [29] a morte do petrodólar. E por fim, por trás de todas as mentiras acima listadas, há a questão de quem dominará [30] a versão “século 21” e “energética” da velha Rota da Seda eurasiana.

Na reunião, em Teerã, em 2012, do Movimento dos Não Alinhados [orig. Non-Aligned Movement (NAM)], Índia, Irã e Afeganistão trabalharam a favor da criação do que se pode chamar de uma nova Rota da Seda do sul – de fato, uma rede de rodovias, ferrovias e grandes portos que conectaria o Irã e sua imensa riqueza energética ainda mais intimamente à Ásia Central e ao Sul da Ásia. Para Delhi (como para Pequim), estar mais próximo do Afeganistão e, sobretudo, do Irã, é fator considerado crucialmente decisivo em sua estratégia eurasiana. E pouco importa o quanto Washington “desaprove”.

A Índia está apostando no porto de Chabahar no Irã; a China, no porto de Gwadar, no Paquistão (e, é claro, num gasoduto dali até o Irã) como elos de reembarque que unam a Ásia Central e o Golfo. Esses dois portos serão peões-chaves no Novo Grande Jogo do Oleogasodutostão [31] – que está, muito rapidamente, escapando do controle de Washington. Nos dois casos, apesar do ímpeto para isolar o Irã, há bem pouco que o governo Obama possa fazer para impedir que aconteçam essas e outras instâncias de integração local mais cerrada na Eurásia.

A grande estratégia de Washington para uma “Ásia Central Expandida” que os EUA controlariam já teve centro no Afeganistão e na Índia. A desastrada Guerra Afegã, contudo, cavou um buraco no centro de gravidade dos planos dos EUA; também foi e é desastre crescente a obsessão dos EUA com criar rotas de energia que ignorem o Irã (e a Rússia) –, obsessão vista no resto da Eurásia, já, de fato, como movimento irracional. A única versão de alguma Rota da Seda que o governo Obama foi capaz de conceber é rota de guerra ou relacionada à guerra: a Rede de Distribuição Norte [orig. Northern Distribution Network] [32], uma maratona logística de estradas que cruzam e recruzam a Ásia Central, para levar suprimentos militares até o Afeganistão, sem poder jamais confiar muito num Paquistão cada dia menos confiável. [33]

Desnecessário dizer que, no longo prazo, Moscou fará qualquer coisa para impedir a presença da OTAN na Ásia Central. Como Moscou, também Pequim, que vê a Ásia Central como área de retaguarda estratégica no que tenha a ver com seu suprimento de energia e como espaço, também, para onde expandir sua economia. Moscou e Pequim coordenarão suas políticas, para deixar Washington sem chão, através da Organização de Cooperação de Xangai. É a via pela qual Pequim também planeja canalizar sua solução para a guerra sem-fim no Afeganistão, de modo a melhorar a segurança de seus investimentos de longo prazo [34] (minérios e energia). Em resumo: ambas, a Rússia e a China, querem que o Afeganistão pós-2014 seja estabilizado pela ONU.

A ancestral Rota da Seda foi a primeira via de globalização que a humanidade conheceu, centrada no comércio. Hoje, sobretudo a China trabalha para promover sua própria ambiciosa versão de uma nova Rota da Seda focada no trânsito de energia – petróleo e gás natural – de Myanmar ao Irã e à Rússia. No final, conectará nada menos que 17 países, por mais de 8.000 km de rodovias de alta velocidade (sem contar outros 8.000 km já construídos em território da China). Para Washington, tudo isso só merece uma interpretação: um crescente eixo Teerã-Pequim, que só visa a conseguir que o objetivo estratégico dos EUA, de isolar o Irã e forçar ali uma mudança de regime, seja, para sempre, absolutamente inalcançável.

Obama em Teerã?

Assim sendo, o que sobra do impulso inicial de Obama para construir, com o Irã “um comprometimento baseado no mútuo respeito”? Não sobra muito, ao que parece.

A culpa – mais uma vez – é do Pentágono [35], para o qual o Irã continua a ser sempre “ameaça” número 1, e inimigo necessário. Culpe-se também a elite dos dois partidos em Washington, apoiada por legiões de “especialistas” midiáticos e think tanks, que não desistirão da inimizade contra o Irã e temem as bombas iranianas. E deve-se culpar também Israel, ainda determinada a empurrar os EUA para um ataque contra as instalações nucleares do Irã, que é o sonho dos israelenses. Enquanto isso, aumenta a níveis assustadores a implantação militar dos EUA no Golfo Pérsico, já descomunal [36].

Alguém, parece, terá de dar a notícia a Washington: vivemos em mundo cada dia mais multipolar, no qual as potências eurasianas, Rússia e China, e a potência regional, Irã, simplesmente jamais aceitarão [37] os cenários que Washington insiste em desenhar. No que tenha a ver com a(s) Nova(s) Rota(s) da Seda ligando o Sul da Ásia, a Ásia Central, o Sudoeste Asiático e a China, sejam quais forem os sonhos de Washington, essas novas rotas serão modeladas e construídas pelas potências da Eurásia. Não serão construídas pelos EUA.
Quanto a um momento “Nixon na China” de Obama 2.0, transplantado para Teerã? Já aconteceram coisas estranhas nesse planeta. Mas, nas atuais circunstâncias, que ninguém conte muito com grandes acontecimentos.


Notas de rodapé

[1] 22/10/2012, Foreign Policy, Uri Friedman em: Which country was mentioned most at the foreign-policy debate?
[3] 23/10/2012, Washington Post, Al Kamen em: Romney won’t give on Iran-Syria “route to the sea
[4] Sturm und Drang (literalmente “tempestade e ímpeto”) foi um movimento literário romântico alemão, que ocorreu no período entre 1760 a 1780, como reação ao racionalismo que o Iluminismo do século 18 postulara, bem como ao classicismo francês que, como forma estética, tinha grande influência na cultura alemã, naquele momento. A mesma expressão dá nome também a uma banda de rock heavy metal finlandesa, formada em 2004, que se ouve, por exemplo, a seguir: [NTs]


[5] 23/10/2012, The Hill, Julian Pecquet, em: White House open to one-on-one talks with Iranians over nuclear program
[6] 22/10/2012, NYTimes, Peter Baker e Helene Cooper em: Sparring Over Foreign Policy, Obama Goes on the Offense
[7] 19/3/2009, White House, em: VIDEOTAPED REMARKS BY THE PRESIDENT IN CELEBRATION OF NOWRUZ” 
[8] 7/7/2008, The New Yorker, SEYMOUR M. HERSH em: PREPARING THE BATTLEFIELD
[9] 9/2008, National Security Iniciative, Michael Makovsky – Project Director em: U.S. policy toward iranian nuclear development
[10] 3/12/2007, NYTimes, Mark Mazzetti em: U.S. Says Iran Ended Atomic Arms Work
[12] 3/7/2012, NYTimes, Thom Shanker, Eric Schmitt e David E. Sanger em: U.S. Adds Forces in Persian Gulf, a Signal to Iran
[13] 19/7/2012, Foreign Policy, John Reed em: All Hands on Deck
[14] 16/11/2012, CNN, Gary Sick em: Mideast peace starts with talking to Iran
[15] 31/7/2012, Politico, Jennifer Epstein em: White House insists Iran sanctions are working
[16] Idem nota [11]
[17] 16/9/2012, Israel Today, Ryan Jones em: Massive naval buildup in Persian Gulf as Israel moves closer to war
[18] 8/7/2012, Arms Control, Houssein Mousavian em: The Iranian Nuclear Dispute: Origins and Current Options"
[19] 29/11/2012, ME Policy Council, Embaixador Chas W. Freeman, Jr (aposentado) em: Middle East America and Emerging World Order(speech)

[20] 21/8/2012, redecastorphoto, Pepe Escobar em: O que o Irã pensa do ocidente e sua febre de guerra
[21] 4/10/2012, Lobelog, Djavad Salehi-Isfahani em: Understanding The Rial’s Freefall
[22] Idem nota [2]
[23] 22/5/2012, TomDispatch, Chris Hellman e Mattea Kramer em: Tomgram: Hellman and Kramer, How Much Does Washington Spend on “Defense”?
[24] The U.S. Institute of Peace - THE Iran Primer, Anthony H. Cordesman em: “The Conventional Military
[25] 10/4/10, Israel Net News, em: Analysts: Israel viewed as world's 6th nuclear Power
[26] Dentre vários outros artigos, por exemplo, 2/8/2012, redecastorphoto, Pepe Escobar em: A guerra do oleogasodutostão na Síria
[27] 6/12/2011, Tom Dispatch, Michael Klare em: Tomgram: Michael Klare, A New Cold War in Asia?
[28] 3/3/2012, The Diplomat, Richard Weitz em: Pivot Out, Rebalance In
[29] 27/11/2012, Gold Swtzerland, Lars Schall em: The Petrodollar is Either Dead or Dying
[30] 18/1/2012, redecastorphoto, em: Pepe Escobar: O mito do Irã isolado
[31] 12/10/2012, TomDispatch, Pepe Escobar em: Tomgram: Pepe Escobar, Pipelineistan's New Silk Road .
Ver também 23/12/2011, redecastorphoto, Pepe Escobar em: Jogo de xadrez na Eurásia [NTs].
[32] 7/12/2012, CSIS, Northern Distribution Network (NDN) em: Russia and Eurasia Program - Transnational Threats Project
[33] 12/6/2102, NY Times, Rod Nordland em: U.S.-Pakistan Freeze Chokes Fallback Route in Afghanistan
[34] 8/9/2012, NY Times, Graham Bowley em: Potential for a Mining Boom Splits Factions in Afghanistan
[35] 28/11/2012, Military News, Richard Sisk em: Pentagon Still Sees Iran as Threat No. 1
[36] 20/7/2012, Foreign Policy, em: This Week at War: If You Build Up, Who Will Come?
[37] 16/9/2012, Al-Jazeera, Pepe Escobar, em: All aboard the New Silk Road(s)