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segunda-feira, 17 de março de 2014

A Venezuela também está sendo derrubada pelo regime criminoso dos EUA


14/3/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por João Aroldo

A violência dos "coxinhas" na Venezuela é comandada por Washington (14/2/2014)
O golpe orquestrado pelos EUA na Ucrânia manteve a Venezuela fora das manchetes.

Um confronto com a Rússia com armas nucleares é mais perigoso do que com a Venezuela. Mas a violência que os EUA desencadearam na Venezuela, quase simultaneamente com a Ucrânia, é testemunho da criminalidade gritante em Washington.

A América do Sul sempre consistiu de uma pequena elite espanhola com todo o dinheiro e poder sobre grandes populações majoritárias de povos indígenas que não tinham representação política. Na Venezuela, Chávez rompeu esse padrão. Foi eleito um presidente indígena que representava o povo e trabalhou em seu favor, em vez de saquear o país. Chávez tornou-se um modelo, e presidentes indígenas foram eleitos no Equador e na Bolívia.

Chávez foi odiado por Washington e demonizado por presstitutos americanos.

Quando Chávez morreu de câncer, Washington comemorou.

Evo Morales, presidente da Bolívia, estava inclinado em favor de conceder asilo a Edward Snowden. Consequentemente, Washington ordenou a seus estados fantoches europeus negar a permissão de sobrevoo do avião do presidente Morales em seu retorno da Rússia à Bolívia. O avião de Morales, em violação a todos os protocolos diplomáticos, foi forçado a aterrissar e foi revistado. Morales, desde então, sofreu outras humilhações nas mãos dos criminosos dos EUA.

Rafael Correa, presidente do Equador, tornou-se um alvo dos EUA através da concessão de asilo político a Julian Assange. Sob as ordens de Washington, o estado britânico fantoche de Washington recusou-se a conceder a livre passagem para Assange, e Assange está vivendo na Embaixada do Equador em Londres, assim como o Cardeal Mindszenty passou sua vida na Embaixada dos EUA na Hungria comunista.

Com a morte de Chávez, Nicolás Maduro tornou-se presidente. Maduro não tem o carisma de Chávez, o que o torna alvo fácil para a pequena elite espanhola que detém a mídia.

Washington começou o ataque contra Maduro atacando a moeda venezuelana e reduzindo o seu valor nos mercados cambiais. Em seguida, os estudantes universitários, muitos dos quais são filhos das ricas elites espanholas, foram enviados para protestar.

Nicolás Maduro e o povo venezuelano
A moeda venezuelana em queda aumentou os preços, e a insatisfação se espalhou entre os pobres da base indígena de Maduro. Para acabar com os tumultos, os danos à propriedade e o distúrbio que Washington está usando para lançar um golpe, Maduro teve que usar a polícia.

O Secretário de Estado John Kerry chamou o esforço do governo para restabelecer a ordem pública e evitar um golpe de estado uma “campanha de terror contra seus próprios cidadãos”.  

Tendo orquestrado os protestos e conspirado um golpe de estado, Kerry culpou Maduro pela violência que Kerry desencadeou e exortou Maduro “a respeitar os direitos humanos.

Para os EUA, é sempre o mesmo roteiro. Cometer um crime e culpar a vítima.

Se os EUA conseguirem derrubar Maduro, o próximo alvo será Correa. Se Washington conseguir se livrar de Correa e reempossar um governo fantoche das ricas elites espanholas, Washington pode fazer o governo equatoriano revogar o asilo político que Correa concedeu a Julian Assange. A embaixada equatoriana em Londres será ordenada a mandar Assange para os braços da polícia britânica, que irá mandá-lo para a Suécia, que vai mandá-lo a Washington para ser torturado até que ele confesse o que Washington quiser.

Estudantes das elites venezuelanas armam barricadas nas ruas de Caracas em 12/3/2014
Os pobres idiotas úteis protestando nas ruas venezuelanas não têm mais ideia do dano que estão fazendo a si mesmos e aos outros do que suas contrapartes na Ucrânia.

Os venezuelanos já se esqueceram de como a vida era para eles sob o domínio das elites espanholas. Parece que os venezuelanos estão determinados a ajudar Washington a devolvê-los à sua servidão.

Se os EUA reconquistarem a Venezuela e o Equador, a Bolívia será a próxima. Em seguida, o Brasil. Washington está de olho no Brasil, porque o país é membro dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), e Washington tem a intenção de destruir esta organização antes que esses países possam estabelecer um bloco comercial que não utilize o dólar norte-americano.

Não faz muito tempo, um funcionário norte-americano disse que assim que nós (EUA) colocarmos a Rússia contra a parede, nós vamos lidar com os emergentes da América Latina.

O programa está dentro do cronograma.
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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

domingo, 14 de abril de 2013

Venezuela sinaliza um futuro pós-neoliberal: Morreu Thatcher. Chávez vive!


12-14/4/2013, George Ciccariello-Maher, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu





“Mãe: Oh, meu filho, que morte perversa, danosa.
Rebelde: Oh, mãe, que morte fecunda, copiosa.
Mãe: Morte feita de tanto ódio.
Rebelde: Morte só de amor feita.”




George Ciccariello-
Maher

Duas mortes, e significados diametralmente opostos, evidentes nas respostas imediatas que provocaram. Uma foi recebida em luto, por milhões de homens e mulheres que encheram as ruas de Caracas, à espera de um minuto para a última despedida do comandante morto. A outra foi recebida em festa, nas ruas de Brixton e Glasgow, e por uma avalanche de postados cômicos nas redes sociais, sobre a iminente privatização do inferno. Mas enquanto as multidões reuniam-se espontaneamente para celebrar o fim físico da Dama de Ferro do neoliberalismo, Margaret Thatcher, os eleitores na Venezuela encaminham-se para as urnas para pregar mais pregos no caixão dela e enterrar o legado dela, elegendo um sucessor revolucionário para Hugo Chávez.

 

“Filhos de 1989”

 

A 4ª Guerra Mundial começou na Venezuela e foi guerra contra Thatcher e a gangue dela. Em fevereiro de 1989, Ronald Reagan acabava de passar o bastão para George H.W. Bush, e Thatcher manobrava para impor um seu “imposto comunitário” (orig. Poll Tax [2]), que seria recebido com tumultos épicos em Trafalgar Square no ano seguinte. Enquanto isso, na Venezuela, chegava ao poder um novo governo, com projeto aparentemente diferente. O socialdemocrata de centro Carlos Andrés Pérez fora eleito com plataforma antineoliberal, prometendo resistir ao pagamento da dívida externa, falando contra o FMI: “é uma bomba que só mata os mais pobres”.

 

Mas, chegado ao poder, mudou tudo. Pérez virou repentinamente a casaca, e instituiu o Consenso de Washington, neoliberal, ao pé da letra: pôs-se a privatizar e desregular; os pobres imediatamente perceberam que as coisas, dali em diante, pelo menos para eles, só poderiam piorar. Mas enquanto nos EUA e na Grã-Bretanha as populações iam dolorosamente engolindo a pílula amarga do neoliberalismo, sob a ilusão de que não haveria alternativa possível, os venezuelanos inesperadamente, puseram a saquear e pôr fogo no que encontrassem à mão, e começaram a tornar surpreendentemente possível o tal impossível.

 

Foi o chamado “Caracazo,” rebelião popular, de massa, nas ruas, que destruiu, em dias, o mito do excepcionalismo venezuelano e sua ilusória estabilidade. O Caracazo destruiu o sistema existente da democracia corrupta de dois partidos e abriu espaço para Hugo Chávez, ele próprio uma cristalização de demandas políticas jamais atendidas e aspirações nunca realizadas. Como se lia em graffiti nos muros, em Caracas: Somos os filhos de 1989, em revolução

 

Hoje, Chávez já se foi. E a guerra contra o neoliberalismo continua. Se, vivo, Chávez só muito raramente foi respeitado pela imprensa-empresa internacional – de fato, era personagem sobre o qual o “jornalismo” podia escrever, televisionar e dizer literalmente o que bem entendesse – por que esperar que fosse diferente, com Chávez morto? E lá estava: enquanto prosseguiam nas ruas as festas post-mortem contra Thatcher e o luto popular emocionado, por Chávez, o Guardian pressuposto muito progressista, fazia caminho inverso.

 

O obituário de Thatcher foi quase polido, não tivesse Rory Carroll, perfeito campeão “jornalístico” do absurdo, inventado um verniz de respeitabilidade para todos que gritassem um “já vai tarde” ao recém-falecido presidente Chávez. Carroll ainda sofre a vergonha de uma lição que Chávez lhe deu, pessoalmente. Por mais que volta e meia fale do assunto, nunca contou a história como realmente aconteceu. [3]

 

Esse bastião do liberalismo nos EUA, a revista The New Yorker não se saiu melhor. Um jornalista da empresa, Jon Lee Anderson, viu-se envolvido em um escândalo, quando, ao que se diz, estaria verificando fatos; mas a verdade é muito pior. A empresa The New Yorker chegou a corrigir dois dos principais erros de Anderson (Anderson publicou que a Venezuela seria campeã em número de assassinatos na América Latina; e, adiante, que Chávez teria chegado à presidência por golpe de Estado, não em eleições). Mas a empresa jamais corrigiu o principal vício de tudo que Anderson sempre escreveu: que os pobres, na Venezuela, seriam “vítimas de seu amor” por Chávez.

 

Afinal, no que tenha a ver com o comandante morto, tudo é permitido, no “jornalismo” atual.

 

Mas se Chávez sempre foi e continua a ser esquartejado pela imprensa-empresa, todos podemos nos consolar, porque a maioria dos venezuelanos simplesmente não toma conhecimento, nem acredita no que publicam os jornais e as televisões. Todas as pesquisas indicam que o candidato da direita, Henrique Capriles Radonski, será mais uma vez derrotado (hoje) pelo candidato indicado por Chávez, o ex-motorista de ônibus e líder sindicalista Nicolás Maduro. Os números das pesquisas refletem também as divisões internas, dentro da oposição a Chávez, que não se entendem, sequer, em termos de programa e estratégia.

 

As divisões dentro da oposição a Chávez

 

Na verdade, ante a derrota anunciada e praticamente certa, muito do que a oposição faz na Venezuela não passa de encenação para o público internacional. Por exemplo: recentemente, a coalizão de partidos que apoiam Capriles convocou recentemente uma conferência de imprensa para “denunciar” irregularidades no sistema eleitoral, que “um membro do PSUV [Partido Socialista Unido da Venezuela] teria a senha para inicializar e encerrar o sistema das urnas eletrônicas”. Mas, quando jornalistas o pressionaram para que desse detalhes da “denúncia”, Ramón Aveledo, secretário-executivo da coalizão de oposição reconheceu que a senha “não põe em risco o sistema eleitoral,  nada tem a ver com o software eleitoral, nem permite identificar os eleitores, nem a contagem de votos, nem a transmissão dos dados”.

 

O que se conclui do “evento”? Se o objetivo era desacreditar o sistema eleitoral, difícil imaginar fracasso mais patético. Mas a “denúncia” mostra que há divisões irreconciliáveis dentro da própria oposição. Não tem maioria, não vence eleições e, sem conseguir eleger-se pelos votos, a oposição na Venezuela vive tentando desacreditar as próprias eleições, em vez de buscar meios para eleger-se democraticamente.

 

Esse tipo de falta de perspectiva e possibilidades eleitorais levou à enlouquecida tentativa de golpe contra Chávez há exatos 11 anos, que não durou nem 47 horas, derrotada pelas mesmas massas que os golpistas, como sempre fizeram, subestimaram tão estupidamente. Com aquele golpe derrotado, a oposição só fez entregar ao governo Chávez a taça de plena legitimidade democrática. Muitos antichavistas se autocondenaram a passar anos tentando apagar o carimbo de “golpistas” que estamparam na própria testa. Até hoje, nada conseguiram. Depois que Chávez varreu a oposição da cena eleitoral, em 2006,  pela primeira vez, a maioria da oposição passou a aceitar os resultados eleitorais, rendidos à evidência de que a urna, não os golpistas, é a melhor garantia para a democracia na Venezuela.

 

Mas render-se à via eleitoral não resolve o problema de não ter votos, e enquanto tenta silenciar os absenteístas (a parte da oposição que prega a abstenção, para não votar em Capriles), os anti-Chavistas também trataram de caminhar alguns passos em direção ao centro, afastando-se da extrema direita, pelo menos em palavras, à procura de votos. Capriles e outros têm-se autoapresentado como socialdemocratas, sugerindo que não abolirão – apenas “aprimorarão” – os programas sociais, como as Missiones Bolivarianas. Não faz sentido e não convence ninguém, se se vê o que acontece no estado de Miranda, onde, quando governador, a primeira providência de Capriles foi assaltar as Missiones, a começar pelos centros de saúde e clínicas populares onde trabalham médicos cubanos, na Missión Barrio Adentro.

 

Capriles se autoboicota, também, quando apoiadores seus ocupam e vandalizam, como fizeram recentemente, um prédio de apartamentos em construção, parte do projeto de moradias para os mais pobres, do projeto Misión Vivenda [Missão Moradia]. Os que há tanto tempo atacam como “invasores”, os venezuelanos sem-teto que ocuparam um prédio abandonado, ou um pedaço de terra improdutiva, agora atacam um projeto chavista de dar casa aos pobres. E enquanto Capriles sempre evitou criticar diretamente Chávez, e pôs-se a atacar Maduro por não seguir o exemplo de Chávez, alguns de seus seguidores exibiam as velhas garras de sempre: pintaram graffitis de “viva o câncer”.

 

Quanto a Capriles, cujo sobrenome, só ele, já o expõe como porta-voz da elite mais decadente (e milionária), não há o que faça que consiga apagar o próprio passado. No segundo turno das eleições de outubro de 2012, circulou na Venezuela um documento vazado, no qual se lia um “Plano de Governo” de um hipotético governo Capriles. Embora tenha sido denunciado como falso por alguns, o tal plano correspondia exatamente ao que muitos sabiam de Capriles: com ele, voltaria à mesma selvageria neoliberal que levou ao Caracazo. Não é fácil apagar o próprio passado.

 

As tropas de choque de Thatcher

 

Mas o quanto da mensagem da oposição tem raízes na realidade? Talvez seja excesso de generosidade acreditar no que Capriles diga. Não há dúvidas de que até Capriles percebe a contradição: se critica o sistema eleitoral como injusto, desestimula os seus correligionários, que desistem de votar. Mas não faz outra coisa além de dizer que votem. Assim, ajuda a derrotar o próprio projeto eleitoral.

 

Embora haja uma espécie de vingança histórica no fato de que essa eleição se realize no dia do aniversário da volta triunfante de Chávez, não podemos deixar que o triunfalismo nos impeça de ver os abutres que voam sobre a democracia socialista da Venezuela. A imprensa-empresa internacional está mobilizada para desacreditar o sistema eleitoral venezuelano, e setores da oposição já começaram a manobrar, sugerindo que algo poderá acontecer.

 

Na 2ª-feira à noite, circularam notícias de que um acampamento de militantes da extrema direita, da JAVU (Juventude Ativa da Venezuela Unida), que estão em greve de fome, teriam sido atacados por grupos de “camisas vermelhas”, em motocicletas, rapidamente “identificados” como “Chavistas”. Para muitos, a “armação” é evidente, dado que os chavistas nada teriam a ganhar com esse tipo de ação, às vésperas das eleições. E a polícia de Chacao, controlada pela oposição, não interveio

 

Pelo que já se sabe, havia chavistas de Chacaoenvolvidos no tumulto, mas foram atacados por militantes da JAVU. O que explica, automaticamente, o motivo pelo qual a polícia local nada fez para interromper o ataque: por que intervir, se o seu próprio lado está atacando? Assista vídeo a seguir:

 

Esse tipo de ataque exibe todas as características típicas de ações da JAVU, organização que, ao mesmo tempo em que fala em nome da não violência estratégica, como a Albert Einstein Institution, tem longo passado de ações violentas (associada a um grupo de exilados, com base em Miami, o grupo Orvex). A JAVU sempre esteve associada a ataques violentos, de provocação, em toda a Venezuela, desde ataque a chavistas em Mérida, até uma tentativa de incendiar o Conselho Legislativo do estado de Miranda. Em Mérida, encontrou-se um smartphone no qual estava gravado o manual das ações da JAVU para os dias seguintes: não reconhecer os resultados eleitorais e tomar as ruas custe o que custar”.

 

Na 4ª-feira apareceram notícias ainda mais preocupantes. Primeiro, o próprio Capriles recusou-se publicamente a assinar documento no qual prometia respeitar os resultados das eleições, insistindo que se mudasse a redação, para categoria mais flexível: aceitaria assinar, se o documento falasse de respeitar “o desejo popular”. Dado que Capriles já assinara documento semelhante antes das eleições de 2012, é caso para pensar por que teria mudado, agora, a própria estratégia. A recusa preocupa, porque foi imediatamente associada ao texto divulgado de um telefonema, no qual um dos guarda-costas pessoais de Capriles diz que o candidato da oposição não reconhecerá a derrota – fato que, ironicamente, mostra que nem o guarda-costas de Capriles sonha com vitória eleitoral.

 

Não há dúvidas de que tudo sugere fortemente que um governo Maduro terá de enfrentar tentativa pós-eleitoral de golpe. Outro telefonema também vazado sugere que há esquadrões da morte, vindos de El Salvador, que planejam ataques durante a eleição, e que parecem ter laços diretos com o próprio Capriles. Foram presas 17 pessoas, acusadas de tentar sabotar redes elétricas, para provocar blecautes. Se se considera que até o governo Obama já disse que suspeita de que as eleições na Venezuela não sejam “limpas e transparentes”, todos esses são sinais preocupantes, para dizer o mínimo.

 

Uma aurora pós-neoliberal

 

Frantz Fanon disse certa vez, em frase que ficou famosa, que “Para o colonizado, a vida só pode brotar do cadáver apodrecido do colonizador”. Festejar a morte necessária do inimigo leva consigo, embora pela via negativa, um programa político positivo, e os britânicos que festejam nas ruas espontaneamente a morte de Thatcher festejavam, de fato, a morte do neoliberalismo.

 

Mas infelizmente para os que se reuniram em Brixton, o neoliberalismo e seu parceiro ideológico, a “austeridade”, estão hoje na ofensiva na Grã-Bretanha e em grande parte do núcleo do planeta global. A morte de Thatcher de modo algum indica a destruição, sequer o declínio, de seu legado ideológico. Nesse sentido, a celebração dos britânicos é tão catártica quanto prematura.

 

Só lá, do outro lado do globo, é que começam a ser dados os grandes passos para destruir o legado de Thatcher. Onde se constrói uma intransigência firme que é, de fato, uma alternativa ao neoliberalismo.

 

Como escrevi em “Nós criamos Chávez” [We Created Chávez], muito mais interessantes que Chávez, o homem, são as décadas de luta revolucionária que o precederam, cristalizada em torno de Chávez como símbolo de um mecanismo para empurrar adiante a luta contra o neoliberalismo. Vivo, Chávez sempre foi mais que a soma de seus atos, era como um barco no qual embarcaram os setores populares da Venezuela, depositando ali suas aspirações pós-neoliberais. Mas o formato do barco logo foi determinado pelo conteúdo, e Chávez converteu-se em vela socialista impulsionada por forças que já não controlava. Parafraseando o que C.L.R. James escreveu de Toussaint L’Ouverture, Chávez não fez a revolução: a revolução fez Chávez.

 

Do cadáver apodrecido de Thatcher, florescerá o mundo pós-liberal. A Revolução Bolivariana perdeu algo poderosamente importante, com a morte de Hugo Chávez, mas talvez seja melhor que tenha partido fisicamente, na grande onda do movimento histórico que incorporou, e ao qual continua a emprestar a força de sua imagem, para ajudar a luta a avançar. Com certeza, essa é morte que se deve preferir.

 


Notas dos tradutores

[1]  Aimé Césaire (1913-2008). “Talvez eu morra”, dedicado à mãe de Raj Kumar, indiano, dalit, morto e não socorrido pela polícia, em 2008, na Índia. Ver Lyric And Dramatic Poetry.

[2]  “O Poll Tax (imposto comunitário) foi imposto regressivo (a alíquota diminuía conforme aumentava a renda do cidadão), criado pelo governo de Margaret Thatcher em 1989 na Escócia, e em 1990 no restante do Reino Unido, para custear os governos locais (“councils”, semelhantes a prefeituras) por meio de uma taxa única a ser cobrada por habitante. Ele substituiria o sistema anterior, no qual o imposto era calculado de acordo com o valor dos imóveis, de forma semelhante ao IPTU brasileiro. A população britânica resistiu fortemente à implantação desse imposto, se recusando a fornecer os dados necessários ao governo, se recusando a pagar, e dificultando a punição dos inadimplentes. A impossibilidade de implantar este imposto, e a derrota do governo frente à população, foi a principal razão da queda de Margaret Thatcher como Primeira-Ministra”.

[3]  Assiste-se ao episódio, que foi ao ar no programa “Alô, Presidente” (n. 291, 26/8/2007, em 23’10), a seguir:


É em tudo semelhante a outro, em que Chávez espinafra um “jornalista” da Rede Globo, em 2010, e que se vê a seguir:




domingo, 17 de março de 2013

Chávez e o redesenho do mundo


“Durante os 14 anos de governo Chávez, os EUA perderam a maior parte da influência que sempre tiveram na América Latina, especialmente na América do Sul”

A imprensa-empresa da América Latina, dos EUA e mesmo da Europa “informavam” e “informam”, quase exclusivamente, notícias negativas sobre a Venezuela. A maioria da população do hemisfério ocidental não foi, nem é informada, nem mesmo dos fatos básicos que ocorreram e ocorrem ou mesmo o que Chávez estava fazendo.


17/3/2013, Mark Weisbrot, Al-Jazeera - Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Mark Weisbrot é co-diretor do Center for Economic and Policy Research, em Washington, DC. E anima o blog Just Foreign Policy



A impressionante reação mundial à morte do presidente Hugo Chávez da Venezuela, sobretudo no hemisfério ocidental, pôs em forte destaque o mundo “multipolar” pelo qual Chávez lutou. 55 países fizeram-se representar por chefes de Estado em seu funeral, dia 8/3/2013 (todos os países latino-americanos). 14 países latino-americanos decretaram luto oficial – entre os quais o governo direitista do Chile.

Na contramão da comoção planetária, e da homenagem solene prestada por respeitados chefes de Estado latino-americanos, a Casa Branca limitou-se a uma declaração grosseira e fria e – para horror de muitos latino-americanos – sequer ofereceu condolências.

O que se vê é que presidente mais demonizado – apesar de democraticamente eleito e reeleito – da história do mundo tinha muitos amigos e admiradores – e não só “estados inimigos” como Irã ou Síria, imediatamente e incansavelmente mencionados no “jornalismo” e nos “noticiários” nos EUA.

A “mídia” nos explica agora que a simpatia se dirigiria ao petróleo venezuelano. Mas nenhum rei da Arábia Saudita jamais foi amado e homenageado como Chávez, vivo ou morto.

Os leitores do New York Times provavelmente surpreenderam-se ao ler, em coluna publicada semana passada, assinada por Lula da Silva, o popular ex-presidente do Brasil, que ambos sempre foram muito próximos e partilhavam a mesma visão de América Latina. É verdade, e há muito tempo: em 2006, quando Lula da Silva foi reeleito, sua primeira viagem ao exterior foi à Venezuela, para ajudar na campanha de reeleição de Chávez.

Encaremos os fatos: o que Chávez disse sobre o papel de Washington no mundo foi exatamente o que todos os presidentes de esquerda – hoje, ampla maioria na América do Sul – pensavam. E Chávez nunca se limitou a apenas falar: como Lula da Silva registra, Chávez desempenhou papel crucial na formação da UNASUR (União das Nações Sulamericanas), da CELAC (Comunidade de Nações da América Latina e Caribe), e em outros esforços e realizações para a integração regional.

“Talvez suas ideias venham a inspirar os jovens do futuro, como a vida de Simon Bolívar, o grande libertador da América Latina, inspirou o próprio Chávez” – escreveu Lula da Silva.

Chávez transformou a América Latina

Chávez foi o primeiro do que viria a ser uma linhagem de presidentes de esquerda democraticamente eleitos que transformaram a América Latina, e especialmente a América do Sul, ao longo dos últimos 15 anos, dentre os quais Néstor e Cristina Kirchner na Argentina, Lula da Silva e depois Dilma Rousseff no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Daniel Ortega na Nicarágua, Fernando Lugo no Paraguai, José “Pepe” Mujica no Uruguai e Mauricio Funes em El Salvador.

Antes de Chávez, presidentes de esquerda que fossem democraticamente eleitos tendiam a ter o mesmo fim que teve Salvador Allende do Chile – derrubado por golpe organizado pela CIA, em 1973. Parte significativa da esquerda latino-americana, inclusive o próprio Chávez, continuavam céticos sobre a eficácia da via eleitoral para mudar a sociedade, ainda 20 anos depois, dado que as elites locais, apoiadas por Washington, sempre tinham um “veto” ilegal, ao qual recorriam quando dele precisavam.

Chávez soube ter papel vital na “segunda independência” da América do Sul, porque foi diferente de outros chefes de Estado, em vários importantes sentidos. Percebi isso logo na primeira vez que o encontrei, em abril de 2003. Dava a impressão de falar a todos do mesmo modo – fosse quem lhe trazia o almoço no palácio presidencial, fossem visitantes que ele admirava. Chávez falava muito, mas também era ouvinte atento e concentrado.

Lembro de um jantar, há poucos anos, com mais de 100 representantes de grupos da sociedade civil de todo o continente – ativistas que trabalhavam para o cancelamento das dívidas de países pobres, para a reforma agrária, muitas e muitas variadas lutas. Chávez ouviu longa e atentamente, anotando sem parar, por mais de uma hora, com os convidados à frente dele, apresentando o que cada grupo fazia. Ao final, com as anotações diante dos olhos, falou, com resposta para cada um dos grupos: “OK. Agora, aqui está o que me parece que podemos fazer para ajudar vocês.” Não sei de qualquer outro presidente capaz de trabalhar assim.

Não era simulacro ou demagogia. Em Chávez, nada era simulacro ou demagogia. Sempre dizia o que pensava – o que nem sempre é adequado, num chefe de Estado. Mas a maioria dos venezuelanos amava aquela franqueza, porque dava a Chávez uma densidade, uma realidade que poucos políticos têm: era, portanto, alguém em quem se podia confiar.

A atitude não mudava em relação a outros governos. Embora tenha tido grandes brigas públicas com alguns governos, praticamente nunca criticou outro chefe de Estado, a menos que tivesse sido atacado antes. Manteve boas relações até com o governo direitista de Alvaro Uribe da Colômbia, durante vários anos; até que Uribe virou-se contra ele, o que Chávez interpretou (provavelmente com razão) como Uribe agindo sob ordens dos EUA. Quando Manuel Santos, que fora Ministro da Defesa de Uribe, tornou-se presidente da Colômbia, em agosto de 2010 e decidiu restabelecer boas relações com Chávez, encontrou a porta aberta. As relações foram imediatamente recompostas. Chávez era amigável com qualquer um que não o agredisse.

Mas havia mais que traços de personalidade e a busca de alianças – das quais Chávez precisava, se quisesse sobreviver, depois que o governo Bush declarou publicamente, em 2002, que tinha intenções de derrubá-lo (embora essa informação tenha passado praticamente sem qualquer notícia na imprensa-empresa dos EUA, há provas documentais consistentes do  envolvimento de  Washington no golpe militar de 2002 contra Chávez. Chávez tinha visão solidária do mundo. Ele e seu governo construíram inúmeras políticas que não se orientavam pelo princípio de que “nações não têm amigos: nações têm interesses”.

Sempre viu as injustiças e desequilíbrios da ordem econômica e política mundial do mesmo modo como via as injustiças sociais dentro da Venezuela – como males sociais e algo que se podia combater com sucesso. Por que os EUA e meia dúzia de aliados ricos controlariam o FMI e o Banco Mundial? Ou por que escreveriam, só eles, as regras de comércio da OMC, ou da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas, que Chávez ajudou a derrotar)? A Venezuela não tinha qualquer interesse nacional específico nessas lutas, porque é dos grandes exportadores mundiais de petróleo.

Mas Chávez entendeu que eram lutas importantes para todos, e seu pensamento coincidiu com o que estava acontecendo no mundo: todo o planeta se encaminhava rapidamente para se tornar economicamente mais multipolar. A China, por exemplo, a qual, segundo as mais confiáveis estimativas de seu poder paritário de compra [orig.purchasing power parity), já é a maior economia do mundo, praticamente não tem voz nem voto nem no FMI nem no Banco Mundial. Outros países em desenvolvimento têm ainda menos. As ideias de Chávez, portanto, ressoaram cada vez mais profundamente, em grande parte do mundo, especialmente na América Latina.

A imprensa-empresa: “informação” sempre negativa sobre a Venezuela

Por outro lado, a história de Chávez também mostra o enorme poder da imprensa-empresa, a chamada “mídia”, no serviço de modelar a opinião pública. Muitos governos conhecem bastante bem as realizações do governo Chávez, mas, porque a imprensa-empresa norte-americana e, por via de repetição, a imprensa-empresa latino-americana só veiculavam, quase exclusivamente, “informação” negativa sobre a Venezuela, durante 14 anos – sempre “informação” exageradamente negativa e não raras vezes, “informação” falsa – a maior parte da população no hemisfério ocidental jamais conheceu sequer os fatos básicos sobre a Venezuela ou sobre o governo de Chávez.

Poucos sabem que, depois que Chávez alcançou o controle sobre a indústria do petróleo, a economia da Venezuela passou a crescer muito bem; a pobreza foi reduzida à metade e a pobreza extrema, em mais de 70%. Poucos sabem que a maior parte desses ganhos veio do crescimento do emprego no setor privado, não de “esmolas do governo”. Poucos sabem que milhões de venezuelanos ganharam acesso a serviços públicos de saúde pela primeira vez; e que melhoraram todos os indicadores de educação (o número de matriculados no ensino superior duplicou); e que o número de aposentados saltou, de 500 mil, para mais de dois milhões.

De fato, a imprensa-empresa ocidental praticamente pintou a Venezuela como total fracasso econômico e político. E bem poucos sabem que nada há que assemelhe a Venezuela a algum tipo de “estado autoritário”. De fato, a imprensa-empresa venezuelana ainda faz, até hoje, campanha contra o governo. [1] 

É um tipo de “jornalismo” que ensina a não saber o que Chávez fez pelo hemisfério – não só os bilhões de dólares que distribuiu como ajuda, pelo programa Petrocaribe e outros, mas também – como Lula da Silva explicou – o papel que desempenhou na promoção da unidade continental e da segunda independência da América Latina.

Essa independência é muito mais que questão de orgulho nacional ou regional; é mais, até, que uma das mais radicais mudanças geopolíticas, até aqui, do século 21. É mudança que teve consequências imensas para os latino-americanos, onde a pobreza já caiu, de 42% no início da década, para 27%, em 2009. Difícil imaginar esse tipo de avanço econômico e social, no tempo em que a região vivia sob tutela do FMI/Washington; de fato, na região, como um todo, entre 1980 e 2000, o crescimento do PIB per capita foi praticamente zero

A maioria das pessoas em todo o hemisfério ocidental receberam uma visão à moda “Tea Party”, da Venezuela, com a imprensa-empresa liberal e de direita, praticamente idêntica, sem noticiar praticamente nenhum fato, só mentiras, sobre a Venezuela e seu governo. (...). 

Por tudo isso, trava-se hoje uma nova batalha pela definição do legado de Chávez – e muitos já lutam para preservar os “ganhos” que conseguiram na campanha para demonizar Chávez. Para esses, a onda de simpatia e de respeito por Chávez e por seu governo que se vê crescer em todo o mundo é problema real. 

Fato é que, durante os 14 anos de governo Chávez, os EUA perderam a maior parte da influência que sempre tiveram na América Latina, especialmente na América do Sul. Pode-se pois dizer com razoável certeza, que, na batalha contra Washington, Chávez venceu. E, com ele, a região e o planeta venceram. Por isso, será para sempre honrado, respeitado e lembrado – como foi, dia 8/3/2013, por praticamente todo o mundo. 



Nota dos tradutores

[1] Quanto à imprensa-empresa brasileira, parece ser caso especial, no planeta. Em 2002, quando Chávez passou dois dias deposto, por golpe imediatamente derrotado pelo povo nas ruas, William Waack, um dos principais âncoras do principal “noticiário” nacional, da Rede Globo, disse:

O estilo mandão de Chávez prova que a era do populismo não funciona. Quem trata a democracia como ele tratou, desrespeitando instituições e preferindo mandar com a bota em vez de dialogar, não deve ficar espantado ao ser varrido do poder.

(o vídeo foi tirado do ar, mas a história aparece bem contada no Facebook)