sexta-feira, 30 de julho de 2010

A União (dos monopólios) Europeia e o diretório alemão

A União (dos monopólios) Europeia e o Diretório alemão

Rafael Poch*

30.Jul.10 :: Outros autores

Rafael Poch

“Segundo Der Spiegel a Chanceler Angela Merkel e o seu ministro Schäuble encomendaram já um projeto de medidas para o caso de o pacote de ajuda ao euro se mostrar insuficiente para tirar de apuros os bancos europeus e as economias nacionais. Tratar-se-ia do seguinte: a troco da reestruturação da dívida, tirar aos governos de países como Grécia, Portugal, Espanha e outros, o pouco que lhes resta de soberania, criando um diretório com amplos poderes, com base em Berlim, que governe amplos aspectos das suas economias e políticas orçamentais. Este cenário, assinala o documento, “requereria restrições da soberania” e colocaria a política orçamental sob controlo de, “um indivíduo, ou grupo de indivíduos, familiarizados com as características regionais da nação devedora”, nomeados pela Alemanha entre um comité de peritos. (…) A torpeza do governo alemão na sua nova ânsia de governar a Europa e sair globalmente fortalecida da crise, parece alcançar níveis antes insuspeitados.”


A nova tese teológica diz que a crise do euro foi ocasionada pelo descalabro orçamental dos países da Europa meridional. A sua verdadeira origem parece ter-se volatilizado: a irresponsabilidade financeira dos bancos e dos investidores. O verdadeiro contexto geral, que envolvia, tanto os estúpidos investimentos especulativos do capital obtido pela Alemanha graças à sua egoísta estratégia exportadora, ou os correspondentes investimentos dos bancos franceses, como a ladroagem espanhola ou os enganos orçamentais gregos, que eram citados nos media como sendo óbvios no Outono de 2008, foi substituído por um pesadelo que tem a dívida no centro.

A dívida pública criada pelos milhões dedicados a salvar os bancos, é apresentada como a causa de todos os males, mas já não se atribui nem aos bancos, nem às políticas neoliberais dos últimos vinte anos, que reduziram impostos a empresas e aos mais ricos da forma mais desavergonhada.

Nos últimos doze anos, os impostos a empresas foram reduzidos na Europa em 12%. Na Alemanha a redução foi de 27% em vinte anos. Desde 1990, os impostos aos mais ricos baixaram 9,5% na Alemanha, 13% em França e Espanha e 6% em Itália…

Nada de tudo isso tem que ver com a dívida, contraída, diz-se, porque «vivemos acima das nossas possibilidades», pelo que, concluem, a crise deve combater-se com uma combinação de cortes sociais e do setor público, e de aumento de impostos ao consumo, o que prepara o terreno para a recessão e a estagnação.

Os jornalistas continuam lendo os mesmos relatórios dos bancos, os mesmos «peritos», e os mesmos meios de comunicação «de referência», que demonstraram a sua completa incompetência, o seu cinismo, ou as duas coisas ao mesmo tempo, antes da crise. Para valorizar as mensagens que hoje nos estão lançando, há simplesmente que recordar os disparates que nos diziam antes da quebra, quando o «serviço de estudos» do Deutsche Bank assegurava, por exemplo, que; «na Espanha, a festa continuará até 2020», ou quando San Rodrigo Rato, considerado pouco menos que um gênio pela direita de Madrid, proclamava, na qualidade de Director do FMI, durante a sua visita a Pequim em vésperas da quebra, a «excelente saúde» da economia mundial.

Para compreender a atual política europeia, há que recordar quem são os seus cozinheiros. Por exemplo, em matéria de «regulação dos mercados financeiros», ou seja, as medidas que devem ser introduzidas como paliativo para a economia de cassino na Europa, a Comissão Europeia se assessora com 19 «grupos de peritos», entre os quais se contam 229 «representantes da indústria financeira», ou seja, lobbysts dos bancos, que têm uma maioria de quatro contra um respectivamente aos peritos procedentes das universidades, dos sindicatos ou da sociedade civil, assinala a Netzwerk Alter-UE.

A linha política da disciplina fiscal, da redução do défice, da dívida, das dimensões do governo e do setor público, que nos governou antes da crise, esgrime-se agora como programa para sair dela. Trata-se de reduzir o Estado de bem-estar, cortar os direitos laborais, debilitar os sindicatos, reduzir os salários e aumentar a exploração para, por fim, aumentar os lucros das classes empresariais. Muitos advertem que esta linha condenará à recessão e à estagnação países como a Grécia, Espanha, Portugal e talvez outros.

A impressão é clara: a direita utiliza a crise para impor o seu programa em nível global, e parece que com isso nos arrasta para um segundo estouro, mas o seu líder na Europa já não são os Estados Unidos, mas a Alemanha, um país que quer, «aproveitar a crise para se ver fortalecida no G-20», como diz a Chanceler Angela Merkel.

Numa entrevista ao Financial Times em Maio passado, o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, explicava de forma muito clara o programa continental: cada país deve usar a crise para realizar as «reformas» com que sempre sonharam os seus empresários: cortar nas despesas sociais e no subsídio de desemprego na Alemanha, tirar aos trabalhadores franceses os seus supostos privilégios derivados da «rigidez do sistema laboral», acabar com o setor público do Sul da Itália… A respeito da Espanha, dizia Schäuble naquela entrevista, «deve resolver o problema do seu mercado laboral demasiado regulado». «Cada país tem os seus problemas específicos e dispõe da sua própria margem orçamental de manobra», resumia.

O problema consiste em como manter certa estabilidade e consenso social na aplicação desta linha, tendo em conta que a imensa maioria da população não é composta por empresários, mas antes por assalariados e usuários do Estado social. Em Berlim fala-se nestes dias do Professor Herfried Münkler, da Universidad Humboldt, um «historiador das ideias» que afirma, na revista da Sociedade Alemã de Política Externa (DGAP), que não nos faria mal um pouco de ditadura e reabilita, «a necessidade de uma solução Bonapartista» para a crise na Europa, enquanto outro «pensador», o filósofo de amplo consumo televisivo, Peter Sloterdijk, denuncia no seu último livro a «ditadura do Estado social» e do sistema impositivo. São mensagens do mesmo teor das que lançou o Presidente da Comissão Europeia, José Durão Barroso, na reunião que manteve em Junho com representantes sindicais europeus: «se não se aplicarem os pacotes de medidas de austeridade nos países mais endividados poderá desaparecer a democracia como a conhecemos actualmente», disse Barroso, segundo palavras do sindicalista John Monks.

Bonapartismo? Ditadura? No mundo desenvolvido não são necessários tais recursos. Como qualificar a forçada volta de Zapatero à Espanha, ou dos socialistas gregos, obrigados ambos em questão de horas, a praticar o contrário do que foi o seu discurso ou as suas promessas eleitorais?

Algo muito parecido a um golpe de estado derrubou, em 24 de Junho, o primeiro ministro australiano Kevin Rudd, que tinha entrado em choque com os interesses do poderoso setor mineiro, ao qual pretendia impor um milionário «Imposto aos super-lucros com recursos» (RSPT).

A imprensa de Robert Murdoch, que controla o grosso da informação no país, havia levado a cabo uma agressiva campanha contra o imposto, apresentado como uma ameaça ao investimento e ao emprego. Rudd também apoiava uma perspectiva de retirada do Afeganistão, em dois ou quatro anos, do contingente australiano ali destacado, que era apoiada por 61% dos australianos e irritava Washington. A sucessora de Kudd, Julia Gillard, elevada ao cargo de primeira ministra pelo golpe no seio do Partido Trabalhista, voltou atrás com tudo. Ninguém se mexeu na Austrália, nem em Espanha. Só a Grécia, com as suas cinco greves gerais traz, de momento, algo ao conceito «democracia», mas o filme ainda não acabou e ninguém pode prever por donde irá, digamos, no ano que vem.

Adiantando-se a qualquer eventual e complicado intento, por exemplo dos gregos, de reduzir unilateralmente a sua dívida, como fizeram os argentinos (que não tinham o inconveniente de estar sujeitos ao câmbio do Euro), a Alemanha já está urdindo uma estratégia para Setembro. Segundo Der Spiegel a Chanceler Angela Merkel e o seu ministro Schäuble encomendaram já um projeto de medidas para o caso de o pacote de ajuda ao euro se mostrar insuficiente para tirar de apuros os bancos europeus e as economias nacionais. Tratar-se-ia do seguinte:

A troco da reestruturação da dívida, tirar aos governos de países como Grécia, Portugal, Espanha e outros, o pouco que lhes resta de soberania, criando um diretório com amplos poderes, com base em Berlim, que governe amplos aspectos das suas economias e políticas orçamentais. Este cenário, assinala o documento, “requereria restrições da soberania” e colocaria a política orçamental sob controlo de, “um indivíduo, ou grupo de indivíduos, familiarizados com as características regionais da nação devedora”, e que seriam nomeados pela Alemanha entre um comité de peritos.

O Ministro Schäuble compara os países com empresas. «Quando uma empresa entra em falencia, os credores devem renunciar a uma parte dos seus créditos. O mesmo se deve aplicar em casos de falência nacional”, diz. O pequeno inconveniente é que tal plano “colocaria a nação devedora numa posição de submissão colonial”, observa o Financial Times. E o colonialismo e a paz nunca se deram bem. A torpeza do governo alemão na sua nova ânsia de governar a Europa e sair globalmente fortalecida da crise, parece alcançar níveis antes insuspeitados.


* Jornalista, actualmente correspondente do jornal catalão La Vanguardia em Berlim.
Este texto foi publicado no diário catalão La Vanguardia de 18 de Julho de 2010
Tradução de Carlos Coutinho d'ODiário.info

Segredos imperiais

Entrevista com *John Perkins (vídeo legendado em português) 

extraído de Cidadã do Mundo
*John Perkins (Hanover, New Hampshire, 1945) nasceu nos Estados Unidos da América. É ativista na área do meio ambiente e culturas indígenas e também escritor. Seu livro mais conhecido é Confissões de um Assassino Econômico. (Wikipedia)

As Sete Fases de Uma Crise - II

Link to O Brasil Que Dá Certo
Em outubro de 2008, escrevi um artigo na Veja com o mesmo título, e estes estágios se confirmaram. Estamos agora na Fase 6, assunto deste artigo. Mas primeiro vamos repetir o essencial do artigo anterior. "Toda crise tem sete fases....

"Toda crise tem sete fases.

Fase 1. Não há problema na economia, diz a autoridade econômica, é tudo boato.

Fase 2. Sim, temos um problema mas tudo está sob controle.

Fase 3. O problema é grave mas medidas corretivas já foram tomadas.

Fase 4. O problema é muito grave mas as medidas emergenciais surtirão efeito.

Fase 5. Pânico geral e salve-se quem puder.

Fase 6. Comissões de inquérito e caça aos culpados.

Fase 7. Identificação e prisão dos inocentes.


Os Estados Unidos e a Europa estão na Fase 5. Brasil, China e Índia estão na Fase 3. Precisamos nos proteger contra a possibilidade de chegarmos na Fase 5, quando basta um entrevistado na televisão afirmar “que esta crise é igual ou pior que a de 1929”, como vários já falaram, ou escrever no jornal “as consequências da crise chegaram definitivamente no Brasil”, como já foi publicado, e gerar pânico por aqui.


Não, a crise ainda não chegou no Brasil, ainda estamos na Fase 3 e mesmo se crescermos 0% este ano, o que ninguém prevê, toda empresa irá vender a mesma coisa no ano que vem. Sua promoção pode estar em risco, mas não o seu emprego.


Ademais essa crise nada tem a ver, nem terá, com a severidade da crise de 1929, quando 25% dos trabalhadores perderam seus empregos e que durou até 1940 com 14%. Na pior das hipóteses, o desemprego nos Estados Unidos aumentará 3%, mesmo assim só por 24 meses.

Se tivessem líderes administrativos socialmente responsáveis, eles já teriam ido a público garantir que manteriam o nível de emprego de suas empresas nos próximos 12 meses. Hoje, custa mais para se treinar um novo funcionário do que para mantê-lo fazendo algo por 12 meses. (Nota: Hoje, Julho de 2010, 95% das famílias americanas acredita que um dos membros do casal pode perder o emprego - mas isto só se sabe via diretores de RH, não pelo FED.)


Depois que Alan Greenspan e Nouriel Roubini saíram dizendo que a crise era igual à de 1929, todos os americanos pararam de gastar, aumentando sua poupança e prevendo o pior. Ninguém sabe quem serão os 25% de desempregados.



Na crise de 1929, 4.000 bancos quebraram, e a mera referência a 1929 como fizeram Greenspan e Roubini, leva pessoas leigas a correr para os bancos, o que aconteceu agora na Europa.


O Brasil não está alavancado. Nossos créditos diretos ao consumidor não passam de 36% do PIB, e devem crescer para 40% no ano que vem. Os Estados Unidos estão alavancados em 160% do PIB e é esta desalavancagem súbita que está causando problemas."



Caça Aos Culpados e Prisão dos Inocentes


Agora estamos na Fase 6 da caça aos culpados. A economista Eliana Cardoso publica interessante artigo escolhendo 21 livros que apontam os culpados.


"How Markets Fail", culpa a ideia utópica liberal que indivíduos (não) sabem perseguir o seu proprio interesse.


"Myth of The Rational Market", culpa a ideia fracassada que o mercado é racional e eficiente.

"13 Bankers", culpa os bancos.


"Capitalism 4.0" culpa o capitaismo.


"The Greatest Trade", culpa Henry Paulson, meu colega administrador de Harvard e Secretário do Tesouro.


Além dos suspeitos de sempre, a ganância, os administradores de fundos de hedge, os auditores das Ratings, os executivos de bancos e seus bônus. Nenhum menciona os subsídios Keynesianos para a compra da casa própria, o Mortgage Interest Deduction, estimados em US$ 6 trilhões de dólares, quase metade da dívida imobiliária.



Ninguém quer perder esta boquinha, porque interesses próprios estão em jogo.


Dependendo da sua faixa de Imposto de Renda, o governo americano irá pagar entre 60% a 84% da sua casa própria. Com uma entrada de 10%, o risco do banco é de somente 6%. Repito, 6%! Você emprestaria, sem olhar muito a situação financeira do comprador, sabendo que o Governo pagará 84% e você já tem nas mãos 10%?


Nos Estados Unidos, dívidas não são corrigidas por correção monetária o que significa que todo ano fica 3% mais fácil pagar uma dívida. Portanto, ao contrário de tudo que foi publicado, dívidas imobiliárias eram de pequeno risco para o Banco, 60% ou mais pagas pelo governo, com juros reais de 1% ao ano ou até negativos na era Greenspan, e decrescentes ao longo da vida.


Mas os verdadeiros culpados disto tudo não divulgam a verdade.


Vocês acham que isto é ganância excessiva? Ou generosidade excessiva dos neo-keynesianos e dos monetaristas ao estimular a economia e ao maior endividamento familiar na história da humanidade?

Eu conheço um médico "ganancioso" que cobra R$ 1.200,00 a consulta. Sua clínica está vazia. Todo mundo pode ser ganancioso, mas não adianta nada se não há competência.


Eu conheço outro médico que cobra R$ 1.000,00, mas ele cobra isto porque sua clínica está abarrotada de clientes.


Então a pergunta é: Por que nos Estados Unidos é tão fácil vender "dívidas imobiliárias"?


Dívidas para mim são como uma injeção na testa, é para serem evitadas.


Como os bancos podem ganhar tanto dinheiro, se alavancar tanto, dar generosos bônus, vendendo dívidas que a rigor ninguém quer?


Devido ao generoso estímulo fiscal neo-keynesiano, sobre o qual curiosamente ninguém escreveu nem comenta. A verdadeira "verdade inconveniente", que historiadores jamais saberão.

Escrevi na época outra previsão profética.


Lembre-se que os verdadeiros culpados já estão se movimentando para culpar os inocentes, e assim saírem incólumes e mais poderosos.


Obviamente, os verdadeiros culpados foram os primeiros a perceber a encrenca, justamente os que a causaram. E como todo ser humano, se preparam, e muito bem, para culpar os outros, e acharem um bode expiátorio.


Nossa primeira reação na vida é culpar os outros pelos nossos erros, e nas empresas esta reação é ainda maior, devido ao medo de perder o emprego.


Então, como achar os verdadeiros culpados? Como impedir que os inocentes sejam crucificados em praça pública, como já está ocorrendo?


Esta é a verdadeira função da imprensa, e a resposta é relativamente fácil de se encontrar.


By Stephen Kanitz

JABURU, ESCURINHO E A TOUCA DE VARGINHA

Laerte Braga


À falta de programa, argumentos e qualquer vestígio de compromisso com o Brasil e os brasileiros a coligação PSDB/DEM/PPS parece que vai investir no medo. Receita de Regina Duarte. A ofensiva começa com a propaganda gratuita a partir do dia 17 de agosto.


José Arruda Serra interpretando o caçador que vai salvar Chapeuzinho Vermelho do Lobo Mau. Foi o que restou aos tucanos. Perdido por um, perdido por mil; afinal, estão investindo num “negócio” assim como um Paulo Maluf com alguma sofisticação.


Contam que Zezé Moreira, técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1954 e várias vezes do Botafogo e do Fluminense, chamou o excelente ponta esquerda do tricolor Escurinho (fez oitenta anos outro dia) e disse a ele que mirasse na bandeira de corner quando fosse chutar para acertar o gol. A expressão usada à época por Zezé é que Escurinho fazia tudo certo, mas tinha o pé torto. Lenda ou não, num sei, mas Escurinho deu um chute certeiro dentro da pequena área e Marcial goleiro do Flamengo fez uma defesa garantindo que a lei da gravidade pode ser desafiada. Assegurou o título ao Flamengo, naquele ano. O chute de Escurinho foi preciso.


O mesmo Zezé Moreira teria mandado colocar um barril num determinado ponto atrás do gol, num plano elevado e dito a Jaburu, centro-avante contratado ao Olaria, que quando fosse chutar tentasse alvejar o barril para acertar no gol.


Num Fla Flu disputado num campeonato carioca, Fleitas Solich (um paraguaio) era o técnico do Flamengo e Zezé o do Fluminense. Naquele dia o tricolor estreava Humberto Tozzi, recém chegado da Itália, veterano e centro-avante estilo rompedor. O primeiro tempo terminou com a vitória do Fluminense por quatro a um.

Incomodado com a goleada, o compositor Ari Barroso, que narrava o jogo para a antiga TV TUPI, chamou o comentarista José Maria Scassa, ambos rubro-negros e disparou a pergunta – “Scassa, pelo amor de Deus, será que o Solich não percebeu que o Zezé escalou o Humberto para chutar para fora enquanto o Telê faz os gols?” Scassa concordou e ainda explicou as razões que levaram a Zezé Moreira escalar um centro-avante para chutar para fora e despistar a defesa do Flamengo. O jogo acabou quatro a três.


Em Varginha, terra visitada por ETs, um técnico de nome Baroninho resolveu que seu time, o Varginha Esporte Clube vai treinar com toucas, ao invés de coletes para diferenciar os titulares do reserva. Segundo o técnico, com apoio da diretoria, jogador de touca tem que olhar para cima, de colete distrai e olha para baixo e no “no meu time quem não olha para cima não joga”.


Tucano não dorme de touca e muito menos joga de touca. Inventaram agora um texto atribuído à apresentadora Marília Gabriela, já desmentido pela assessoria de imprensa da moça, descendo o sarrafo em Dilma Roussef. Assim, as declarações da veneranda senhora Regina Duarte reproduzidas com outra signatária. Invenção.


Deveriam ter tentado Ana Maria Braga. Em meio a uma receita de bolo ou coisa que o valha, dispararia seus medos. Com o cuidado, evidente, de não ter entre os convidados o jogador Petkovic. O moço disse a Ana que ao contrário do que havia sido afirmado pela apresentadora, não nasceu num país pobre, pois o “socialismo dava educação, saúde e emprego às pessoas, ao contrário de hoje, drogas, prostituição, etc”.


A verdade é que José Arruda Serra nem chuta no barril, tampouco mira a bandeira de corner, muito menos treina de touca. É um escárnio que num país como o Brasil uma figura dessas possa pretender ser presidente da República. Causa engulhos a possibilidade de imaginar que isso possa vir a acontecer, pois cada vez é mais remota essa possibilidade.


Mas é preciso não dormir de touca. São trapaceiros lato sensu, não vão medir esforços e nem trapaças para tentar alcançar o objetivo.


Existe ainda uma boa parte do patrimônio público para ser vendido (a PETROBRAS e o BANCO DO BRASIL, por exemplo), rende uma bela propina e o Brasil é vital para a política de recolonização da América Latina pelos EUA. Arruda Serra é “funcionário” de Washington.


Jaburu e Escurinho foram profissionais dignos e honrados no exercício de suas profissões. O técnico Baroninho pode até ter razão. Mas a quadrilha tucano/DEMO, com Roberto Freire capitaneando o PPS não dorme de touca.


Leva a sério o parecer de Roberto Campos a Paulo Maluf sobre investir cem milhões para ser presidente. O rendimento em cima do capital em quatro anos proporciona ganhos de dez vezes sobre esse capital.


E isso na década de 80, hoje o ganho é maior. E por trás de José Arruda Serra o golpe de 1964 com todo o seu aparato repressor e corrupto, comandado de fora, em nova roupagem.


Quem dorme de touca é quem acredita nisso, nessa gente.


E tem outra, a disputa eleitoral não tem só para contrapor-se a José Arruda Será a candidata Dilma Roussef. Pelo menos, além de Marina da Silva (a verde que está vermelha com os seus financiadores), tem Ivan Pinheiro, Plínio de Arruda Sampaio e José Maria. Todos esses três, em seus programas e em suas condutas, passado, são figuras dignas e brasileiros maiores que qualquer bandido tucano, exatamente por serem brasileiros e não “brazileiros”.

Mensagem da Pérsia, para Obama

31/7/2010, M K Bhadrakumar, Asia Times Online

Traduzido por Caia Fittipaldi do coletivo Vila Vudu


Mais uma vez, aproxima-se outra primavera da diplomacia sobre a questão nuclear iraniana. Foi-se mais um duro inverno. A retórica já opera em modo de lucros cessantes.


A conclusão lógica do pacote de sanções do Conselho de Segurança da ONU, EUA e União Europeia, e da supermilitarização do Golfo Persa, terá de ser a aplicação das sanções mediante inspeção de navios iranianos. Essa é via de perigosas consequências, porque Teerã retaliará.


Simultaneamente, Teerã ofereceu uma escada aos EUA, para que desça do perigoso cavalo alto em que se montou. – Teerã anunciou que está disposto a discutir uma troca de combustível nuclear “sem precondições”. Washington fez o que devia fazer, e aceitou a abertura oferecida pelo Irã. As potências da Europa estão visivelmente aliviadas.


O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA Philip Crowley pôs a bola em jogo na 4ª-feira, ao dizer que “Estamos, é claro, plenamente preparados para conversações com o Irã sobre detalhes de nossa proposta inicial envolvendo o reator de pesquisas de Teerã (...) além de, vocês sabem... as questões mais amplas de tentar compreender plenamente a natureza do programa nuclear iraniano. Esperamos que haja mais reuniões nas próximas semanas, como as que houve em outubro passado.”


A “proposta inicial” a que se referiu Crowley tem a ver com um plano para fornecer combustível para um reator de pesquisa em Teerã, em troca de urânio baixo-enriquecido. O plano foi discutido em Genebra entre o Irã e “O sexteto do Irã” [ing. the “Iran Six”] – EUA, Grã-Bretanha, China, Rússia, França e Alemanha.


De repente, se ouvem ‘bips’ em vários pontos da tela do radar diplomático. Já transpirou que houve confabulações sobre “reunião prospectiva” que envolverá a União Europeia e o Irã, representados por Catherine Ashton e Manouchehr Mottaki, respectivamente alta representante da UE e ministro das Relações Exteriores do Irã, dia 20 de julho, confabulações que aconteceram paralelas à Conferência Internacional sobre o Afeganistão.


Seis dias depois daquele encontro em Cabul, Teerã enviou comunicação à Agência Internacional de Energia Atômica, na qual sugere que o Irã estaria pronto para negociar detalhes da troca de 2.646 libras (1.200 kg) de seu próprio urânio baixo-enriquecido (3%), por 265 libras de urânio enriquecido a 20%. Outra vez, o ministro de Relações Exteriores da Rússia fez três declarações conciliatórias, entre a 3ª e a 5ª-feira, visivelmente desdizendo as declarações abrasivas dos meses anteriores em relação à questão nuclear iraniana.


Mais importante, o ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoglu já revelou que Teerã garantiu a Ancara que suspenderá o enriquecimento de urânio a 20%, se se confirmar o acordo agora em discussão. Disse também que Mottaki transmitira a importante mensagem durante visita à Turquia, semana passada; dissera que, se o acordo com Teerã for assinado e o Irã passar a receber o urânio de que necessita para suas atividades de pesquisa, “nesse caso eles [o Irã] não continuarão a enriquecer o urânio a 20%” –, palavras de Davutoglu.


A grande questão hoje não é quando recomeçarão as discussões entre EUA e Irã, mas o que será discutido. Ashton, da União Europeia, ao sugerir que as conversações sejam iniciadas o mais brevemente possível, manifestou a opinião de que se concentrem exclusivamente no programa nuclear iraniano. Mas a agenda tem de ser mais ampla e deve incluir questões de segurança que subjazem ao impasse EUA-Irã.


Como disse Suzanne Dimaggio, diretora de estudos políticos do grupo Asia Society, à BBC, semana passada, há muitos outros temas a discutir. “Os iranianos repetem que vivem em área difícil, cercados por Estados nucleares: Rússia, Paquistão e Israel. E têm duas grandes guerras junto às fronteiras (...) Que tipo de atmosfera de segurança os iranianos querem ver no Iraque e no Afeganistão? Quais as possibilidades de se construir algum tipo de acordo de cooperação que vise à estabilização daqueles países?"


Os EUA, sobretudo, devem buscar engajar o Irã, ativamente, na questão do Afeganistão.


Vê-se muito claramente, hoje – e é o ponto mais importante dos documentos que a página WikiLeaks divulgou e expôs no domingo – que os EUA enredaram-se terrivelmente no Afeganistão porque se tornaram espantosamente muito dependentes dos militares paquistaneses. E boa parte da tolice de deixar-se prender em posição de dependência do Paquistão, no caso dos EUA, pode ser explicada pelas limitações da estratégia para o Afeganistão pensada pelo governo Obama e limitada, essa estratégia, pelo impasse EUA-Irã.


Qualquer correção séria de rumo na questão do Afeganistão, pelo governo Obama, obriga a engajar o Irã. Negociações amplas não serão fáceis. Como algum compromisso entre EUA e Irã poderia, efetivamente, mudar o jogo no Afeganistão, considerada a estratégia AfPak de Obama?


Primeiro, se a história ensina alguma coisa, deve-se lembrar que, nas semanas imediatamente depois do 9/11, Teerã manifestou inequívoca disposição para trabalhar com Washington durante a invasão pelos EUA em 2001. Nesse caso, Teerã esperava que alguma empreitada de cooperação com Washington contribuiria para moderar a hostilidade contra o regime em Teerã. Se o projeto limitado de curto prazo que só sobreviveu até a Conferência de Bonn em dezembro de 2001 não chegou a dar os frutos que Teerã esperava, a culpa não é dos iranianos, mas, exclusivamente, da miopia do governo Bush.


Segundo, que as preocupações de Irã com os Talibãs são antigas e, de fato, são idênticas às do governo Obama. O Irã teme absolutamente qualquer possibilidade de os guerrilheiros Talibãs voltarem ao comando da política no Afeganistão. O Irã está, mesmo, um passo adiante na compreensão e avaliação do processo, porque vê a ideologia dos Talibãs Wahhabistas também como perniciosa. Para Teerã, a chamada “rede Haqqani” [ver, sobre isso, “O Paquistão e suas batalhas”, 8/7/2010, Syed Saleem Shahzad, AToL] é um peão, para projetar no Afeganistão a influência do Paquistão e da Arábia Saudita. Teerã teme, tanto quanto Washington, que, no instante em que os soldados dos EUA deixem Cabul, os Talibãs tomem o poder.


Em terceiro lugar, o Irã tem total e absoluto compromisso com apagar da região todos os traços, vestigiais que sejam, da al-Qaeda.


Quarto, há ponto de confluência entre as posições do Irã e dos EUA quanto à “reintegração” dos guerrilheiros não ligados à al-Qaeda.


Quinto, nem o Irã nem os EUA são intransigentes quanto a um arranjo, com partilha do poder, em cabul, que manifeste a diversidade social do país.


Sexto, a abordagem de Teerã, que visa a desenvolver várias alianças no Afeganistão, e o fato de que Teerã sabe que necessita de equilíbrio regional, item indispensável em qualquer acerto com o Afeganistão, pode ser muito útil para o governo Obama.


A estratégia de “reconciliação” de Karzai já está gerando efeitos nefastos entre as comunidades não-pashtuns, que também são aliadas afegãs do Irã. O Irã pode vir a ser uma ponte útil para conter esses grupos, enquanto, ao mesmo tempo, os auxilia na luta contra os Talibãs renascidos. Em resumo, o Irã pode ser de grande ajuda na estratégia dos EUA para reduzir o risco de nova guerra civil no Afeganistão.


Teerã vê que qualquer ocupação estrangeira gera ressentimentos entre parcelas consideráveis da população afegã; e que esses ressentimentos operam a favor dos Talibãs. Assim sendo, então, pode-se dizer que Teerã e Washington talvez tenham interesses comuns também no desenvolvimento de uma “estratégia de retirada” em prazo determinado.


Em resumo, há enorme espaço para estratégias norte-americanas e iranianas complementares. O esforço, nas negociações vindouras, deve-se concentrar em sanar os déficits de confiança que separam os dois lados. Teerã vê Washington como hostil aos seus interesses e, portanto, fará o máximo que puder para garantir que os soldados que hoje estão no Afeganistão não venham a atacar o Irã, trabalhar para desestabilizar seu governo ou seu sistema político seja mediante operações clandestinas seja reforçando os rivais regionais do Irã.


Desnecessário dizer que, depois de um início promissor, o governo Obama não faz outra coisa além de sistematicamente desdizer as próprias ideias iniciais sobre o Irã. Mas, nas atuais circunstâncias, os EUA terão de andar o metro-e-meio que falta andarem para persuadir o Irã a cooperar mais uma vez com os EUA no Afeganistão. Não há outra via, além de relembrar as antigas aflições de Teerã em relação aos Talibãs e as preocupações com o equilíbrio do poder regional; e de reposicionar as intenções dos EUA em relação ao Irã.


Na primeira reação aos documentos divulgados pela página WikiLeaks, Obama disse que “O fato é que esses documentos não revelam coisa alguma que já não fosse conhecida da opinião pública no debate nacional sobre o Afeganistão” (itálicos meus).


O problema é que, não raras vezes, são as opiniões que interessam, o modo de ver a coisa, mais que algum fato. Além do mais, a guerra do Afeganistão não é tema de debate só nos EUA, nem de interesse só dos norte-americanos; a guerra também afeta o povo afegão.


O povo afegão extraiu dos documentos vazados pela página WikiLeaks, para dizer o mínimo, impressão muito salgada. Verdade é que os afegãos logo começarão a rolar de rir, ao perceber o quanto aquela tão arrogante superpotência foi completamente “conversada” pelos espertíssimos generais paquistaneses. Seria muito útil que os figurões reunidos por Obama na Casa Branca ouvissem os ecos das gargalhadas que já começam a ecoar pelos vales e montanhas do Hindu Kush.


A credibilidade dos EUA foi gravemente comprometida e será muito difícil recompô-la, sobretudo no Hindu Kush. Dito numa linha, objetivamente: é hora de os EUA aceitarem a grande barganha que o Irã está propondo, porque os EUA estão muito próximos – perigosamente próximos demais – do fracasso estratégico no Afeganistão.


Embaixador M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira que serviu no Ministério de Relações exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União sovoética, Coreia do Sul Sri Lanka, Aemanha, Aeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait, e Turquia.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: A Persian message for Obama