domingo, 28 de julho de 2013

Pepe Escobar – “China: o fator Bo”

26/7/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Bo Xilai isolado no Politburo chinês
HONG KONG. A questão geopolítica-econômica do nosso tempo, maior que a vida, a mãe de todas as questões, hoje, se pode dizer, não é a Síria, nem a espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA contra o mundo. Nada disso. A questão é a China. Como, santo deus, o Partido Comunista da China (PCC) conseguirá conduzir o modelo de crescimento econômico de Pequim, e como a China conseguirá administrar a ascensão agora mais lenta.

Em qualquer caso, antes, a China precisa livrar-se do “julgamento do século” (nada mais, nada menos).

Bo Xilai, ex-superstar do Politburo atualmente caído em desgraça – conhecido por seu “modelo Chongqing” de crescimento – foi, afinal, indiciado essa semana, acusado só por crimes relativamente menores, de ter aceito suborno de US$3,2 milhões, e ter embolsado cerca de (outros) $800 mil.

O roteiro fascinante começa com o modo como a mídia chinesa reagiu. Três minutos depois de a agência oficial Xinhua anunciar o indiciamento, o jornal People’s Daily já se dedicava a traçar uma meticulosa diferença entre “assuntos pessoais de Bo Xilai” e “o sucesso do desenvolvimento econômico e social de Chongqing”.

15 minutos adiante, Xinhua publicou um comentário essencialmente para alertar que Bo caíra porque um “tigre” local tornara-se excessivamente poderoso; e “a estabilidade nacional de longo termo só estará assegurada se se pode proteger a autoridade da liderança central”.

Também 15 minutos depois, Global Times selou o acordo, explicando que figurões corruptos, como Bo, dentro do Partido, são “um câncer” – a ser enfrentado com o peso da lei.

O problema é que toda essa artilharia pesadíssima não ajuda a contar, sequer, o começo da história.

Ferrari versus Hondas

Alto, ativo, energético, carismático, fluente em inglês (que aprendeu ainda na escola, antes da Revolução Cultural) e princeling a ser detonado – filho prodígio de Bo Yibo, um dos “Oito Imortais”, o grupo de companheiros pessoais íntimos de Mao Tse Tung liderado por Deng Xiaoping, que adiante abriria a China ao mundo – Bo Xilai é a matéria prima de que se fazem os épicos de “ascensão e queda”.

Princeling – como a mídia em Hong Kong o definiu no início dos anos 1980s – é cada um dos filhos de líderes do PCC (são centenas) que sempre viveram imersos em dinheiro, poder e privilégios sem limites. Bo – que herdou a teia de relações e contatos de valor inestimável [orig. guanxi] tecida por seu ilustre pai – sempre preferiu a expressão “sucessor vermelho”.

Xi Jinping
É absolutamente impossível compreender o que está acontecendo a Bo sem acompanhar suas complexas interações familiares com o atual presidente chinês Xi Jinping, com o ex-presidente Hu Jintao e com o ex-premiê Wen Jiabao. É como comparar uma Ferrari e um trio de Honda Civics.

Bo, o garanhão, a Ferrari, é homem da aristocracia comunista por direito de sangue e nascimento. Hu e Wen são trabalhadores, gente que veio do nada. A família de Wen, em Tianjin, foi perseguida pelos Guardas Vermelhos dos princeling  durante a Revolução Cultural. Mas adiante, em 1966, quem terminou por meter na cadeia o pai de Bo foram os Guardas Vermelhos pobres, que controlavam a universidade.

O pai de Hu Jintao era vendedor de chá. Foi perseguido durante a Revolução Cultural – e jamais “reabilitado”. Depois, nos anos 1980s, o pai de Bo, devidamente reabilitado, atirou-se à mais furiosa perseguição contra Hu Yaobang – que era então mentor de ambos, Hu e Wen.

O xis da questão é que esse clima de guerra entre essas famílias foi o nome do jogo ao longo de, pelo menos, uma geração.

No final de 2007, Bo perdera a disputa interna no 17º Congresso do Partido para tornar-se vice-premier. Chegara ao Politburo – mas foi “exilado” para Chongqing, em Sichuan – a 1.500 km de Pequim. Chongqing era município, mas com nível de província, desde 1997. A cidade, que não para de crescer, já tem população de 7 milhões, mas a grande metrópole no vale do Yangtze já alcançou os 33 milhões e continua crescendo. Chongqing foi um dos nós centrais da política de “Rumo ao Oeste” do final dos anos 1990 – o movimento para industrializar em ritmo vertiginoso o interior da China.

Bo chegou a Chongqing pronto para fazer acontecer. 2008 foi o ano crucial, quando o PCC introduziu uma nova narrativa, de uma China autoconfiante que afinal superaria “um século de humilhação” sob o poder de potências coloniais estrangeiras. A resposta de Pequim à crise financeira provocada por Wall Street foi um pacote de quase $600 bilhões de estímulo – o maior da história – para injetar turbopotência na economia chinesa. Mas, antes, foi preciso introduzir mais uma narrativa, para justificar que o PCC tivesse o monopólio do poder.

Hu Jintao
Bo farejou uma jogada para ganhar. Capitalizou o disseminado senso de alienação na população, o ressentimento contra a desigualdade e a nostalgia dos idos tempos de socialismo igualitário. Ao mesmo tempo, capitalizou a seu favor a campanha que Hu e Wen moviam contra a desigualdade, e a ambivalência de ambos quanto ao papel do capital privado. Bo mobilizou todos esses elementos e andou firmemente na direção da esquerda, cada vez mais à esquerda.

Canalizou com mestria o ressentimento popular, o que levou a um “despertar das massas”. Bo voltava a falar outra vez contra o coringa – a burguesia – serviço completo, com produção de valores dos tempos revolucionários (com canções e citações de Mao, que ele sempre conheceu de cor, desde que passou cinco anos numa prisão durante a Revolução Cultural).

Foi a campanha “Cante Vermelho”. Que Bo combinou com o envio de 200 mil funcionários para o interior da província, no melhor estilo Mao, para “aprender com o povo”; e com um programa econômico batizado “PIB Vermelho” – vermelho, como em “igualdade socialista”, com orgia de moradias a preços módicos e excelentes novas rodovias, cenário que já começava a seduzir as gigantes globais (Hewlett-Packard, Foxconn, Samsung, Ford), interessadas em fazer bases em Chongqing... o que fez com que o PIB anual da municipalidade crescesse espantosíssimos 16%.

O problema é que grande parte disso tudo foi financiado com dinheiro emprestado de outras partes da China. Em quatro anos, os bancos de Chongqing endividaram-se muito. Mesmo assim, já estava impressa na mentalidade das massas a ideia de que a China se mobilizava para objetivo mais alto – embora oficialmente Bo sempre repetisse todos os mantras da “sociedade harmoniosa” pregados por Hu e Wen. A diferença é que, ali, havia fatos reais em campo, não apenas retórica vazia.

O tigre caiu na armadilha

Até que o céu se abriu, e o mundo veio abaixo. Logo chegaria o dia em que os brados vagos de Wen, falando de alguma “democracia”, colidiriam frontalmente contra o neomaoísmo de Bo. Em 2010 e 2011 já havia guerra praticamente declarada no Politburo entre Wen e Bo. E aqui havia outro subenredo também crucialmente importante.

Wen Jiabao
Bo sempre foi muito próximo do ex-presidente Jiang Zemin. Jiang sempre protegeu Bo, sempre muito ativamente; e estava apoiando todos os movimentos de Bo contra Wen – inclusive os que visavam a garantir para Bo a posição mais alta na hierarquia da segurança da China, então ocupada por outro protegido de Jiang, Zhou Yongkang, que deixaria o cargo ao se aposentar do Comitê Central do Politburo, no 18º Congresso do Partido.

Até aí, Xi Jinping – outro “sucessor vermelho” e posicionado para substituir Hu Jintao como presidente – apoiava Bo, pelo menos teoricamente; e ambos eram fiéis a Jiang Zemin. Bo sempre foi e continuaria a ser uma Ferrari, comparado a Xi-Honda-Civic.

O pai de Bo, ao longo de 70 anos, sempre esteve um passo à frente e acima do pai de Xi. E, na comparação direta, Bo superava Xi em todos os quesitos: mais bonito, mais brilhante, mais inteligente e infinitamente mais carismático que Xi. A verdade que todos conheciam, mas da qual ninguém falava em Pequim, era que Xi jamais conseguiria manter Bo sob seu controle, se os dois se cruzassem em ação, no ambiente rarefeito do Comitê Central do Politburo.

Todas as tensões acumularam-se e alcançaram o pico em março de 2012, no Congresso Nacional do Povo. Começou com Wen referindo-se aos “erros da Revolução Cultural e do feudalismo” que ainda se repetiam; e pintando Bo como homem do passado, que queria impedir que se fizessem as necessárias reformas econômicas na China, a abertura para o mundo e a plena modernização. Wen sugeriu muito claramente que Bo teria de sair, para que fosse possível enterrar o passado maoísta. Com Bo, disse Wen, “uma tragédia histórica como a Revolução Cultural sempre poderá voltar a acontecer”. O vencedor (póstumo) teria de ser Hu Yaobang – não por acaso mentor de Wen e amigo muito íntimo do pai de Xi.

Tudo isso é jogo duro, muito duro. Dia seguinte, Bo foi demitido, sem cerimônias, do posto de líder do Partido em Chongqing. E, como se não bastasse, até um assassinato foi acrescentado ao roteiro – parte de uma cascata de erros e crimes que já começava a correr solta desde que o chefe-de-polícia de Bo, Wang Lijun, se refugiara e pedira asilo político ao consulado dos EUA em Chengdu, no início daquele ano.

Gu Kailai
Gu Kailai, esposa de Bo e advogada, apareceu como personagem central na trama de negociatas de um advogado inglês (Neil Heywood) que teria sido envenenado pela esposa de um dos grandes do Politburo. E abriram-se as portas do inferno. Em pouco tempo, já se divulgava que Bo teria grampeado os telefones de Hu Jintao; que os filhos de Gu Kilai teriam patrimônio no valor de cerca de $130 milhões; que os filhos do futuro presidente Xi Jinping teriam patrimônio familiar no valor de mais de $1 bilhão; e que a família de Wen, grande cruzado pró “democracia”, era proprietário de bens que ultrapassavam o total de $2,7 bilhões. O mundo conheceu uma imagem do Politburo como vasta e amplíssima cleptocracia.

Bo foi suspenso do Politburo e do Comitê Central por violações “sérias” da “disciplina” do Partido. Todos pararam de falar sobre o “modelo chinês”. Bo passou meses sob a custódia da sinistra Comissão Central para Inspeção Disciplinar – que, traduzida, significa prisão incomunicável e tortura hardcore (nada que Bo não conhecesse, depois de seus cinco anos de prisão durante a Revolução Cultural). Entrementes, o PCC debatia o que fazer dele.

Agora, já se sabe. Mas ainda não se sabe que tipo de “julgamento do século” será esse. O “julgamento do século 20” chinês – estrelado pela “Gangue dos Quatro” – foi integralmente televisionado. Imaginem a imagem de Bo em todas as televisões do país, sete dias por semana, 24 horas por dia, em todos os formatos imagináveis. Não acontecerá. O mais provável é que vejamos um tribunal meticulosamente coreografado – e muito rápido – como no julgamento de Gu Kailai. Ainda assim, o roteiro pode revelar-se uma caixinha de surpresas, no caso de Bo decidir que de nada lhe serviria arrastar prisioneiros, desviar-se do roteiro microgerenciado imposto pelo PCC e puser a boca no trombone.

Beidaihe Beach Resort (China)
Tudo leva a crer que nas próximas férias de verão em Beidaihe, os pesos-pesados do PCC finalmente decidirão sobre o destino de Bo. Toda essa fascinante saga pode ser vista como luta mortal de escorpiões numa caixa (ou guerra interna no Politburo chinês, que só terá um vencedor definitivo – Xi; dois vencedores relativos – Hu e Wen; e um definitivo perdedor – Bo). É a cada dia mais e mais estranho que Jiang Zemin tenha imperialmente rompido o próprio silêncio, como fez essa semana, para divulgar seu veredito, estilo última palavra: anunciou publicamente que apoia Xi.

E assim o fracionado Politburo, depois de um rápido julgamento, poderá finalmente voltar a ser “harmonioso” – a postos para enfrentar a questão tectônica de “dar uma ajeitada” no modelo chinês.

Mas nem assim farão sumir o espectro de Bo. Bo virou a política chinesa de cabeça para baixo, ao revelar muitas de suas práticas extremamente sombrias. Nenhum cineasta chinês será jamais autorizado a tocar em material tão sensível. Mas... quem sabe alguém se interessa, em Hollywood? Que tal? Sugiro Chow Yun-Fat, no papel de Bo: Tigre caído, Dragão cruel. Quem se candidata?

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes The Real News Network TV e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto .
Livros


Rússia e Irã: contradança pós-moderna

26/7/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin
Se, como se espera, o presidente Vladimir Putin da Rússia viajar mesmo a Teerã em agosto, será viagem rica em simbolismo – mesmo que venha a trocar o avião por um barco que atravesse o Mar Cáspio, até a costa iraniana. Jamais houve qualquer dúvida de que há congruências de interesses entre as duas potências regionais, que são vizinhas.

Mas esse ano, por curiosa coincidência, marca também o 70º aniversário da Conferência de Teerã de 1943, evento importante nas relações russo-iranianas, uma rica tapeçaria de história, salpicada aqui e ali com sangue e traição.

A história das relações russo-iranianas é surpreendente. Putin foi o único líder russo a visitar Teerã, desde a Revolução Bolchevique em 1917. Mesmo assim, os dois países são jogadores antigos na arena geopolítica.

O retorno de Putin a Teerã, quase sete anos depois do sucesso estrondoso da primeira visita, em 2007, é como o desfecho de um conto e respectiva “moral da história”. A política exterior russa completou um ciclo. Putin espera limpar os estábulos áugicos, removendo, literalmente, os detritos que se acumularam durante os anos quando não estava no Kremlin.

Conseguirá? Dará certo? Putin, sim, é visto como governante carismático pelos iranianos. Mesmo assim, como seus anfitriões avaliarão as intenções de Moscou? Essa última pergunta torna desafiadora a missão de Putin – além de arriscada.

O corte mais violento

Dmitry Medvedev
A “distância” que se infiltrou no relacionamento russo-iraniano deve ser vista como um dos legados da presidência de Dmitry Medvedev (2008-2012), período quando Moscou só se preocupou com explorar o conteúdo do “reset” com os EUA, que o presidente Barack Obama ofereceu de bandeja. Os “ocidentalistas” que ocuparam o Kremlin durante aqueles anos encaravam o Irã com má vontade e desdém.

O Irã tornou-se preocupação secundária ou terciária para os russos, e a compreensão estratégica que Putin forjara naquela visita histórica começou a atrofiar-se. A Rússia continuou a arrastar-se na questão da usina nuclear de Bushehr, para atender ao que os EUA desejavam.

O Kremlin não resistiu quando os EUA introduziram a questão do Irã nuclear como vetor da cooperação russo-norte-americana no âmbito do “reset”. A cooperação da Rússia, país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, era vital para que o governo Obama conseguisse apertar os parafusos contra o Irã, no que adiante se constatou que seria um regime de sanções incapacitantes com vida própria, que muitos países (como Índia e Japão) aceitaram contra a vontade.

Mesmo assim, Moscou entendeu imediatamente que a questão nuclear iraniana levantava algumas questões fundamentais de legislação internacional e da Carta da ONU, e que teria implicações profundas na operação de todo o sistema internacional.

Moscou também não deixou de perceber que o verdadeiro problema do ocidente com o Irã estava, sim, na ideologia de justiça e resistência; e que nada tinha a ver com Oriente Médio desnuclearizado.

O mais violento dos cortes aconteceu quando Medvedev interpretou as sanções da ONU como causa para que os russos desistissem de um negócio de armas assinado em 2007 para o fornecimento de mísseis S-300, com os quais Teerã contava como item crucialmente importante de sua defesa contra ataques de EUA e Israel.

Medvedev tomou a “decisão final” de desfazer o negócio sob pressão dos EUA, e o Kremlin desmentiu a percepção ainda dominante entre setores influentes do establishment em Moscou, de que a Rússia ainda poderia cumprir suas obrigações contratuais com o Irã.

Konstantin Kosachyov
O então presidente da Comissão de Assuntos Internacionais do Parlamento russo, Konstantin Kosachyov, havia dito que “foram acrescentados [na lista da ONU, de armas sob sanção] oito itens. Mas nenhum item de defesa, como os mísseis S-300. A resolução não terá efeito direto sobre a Rússia”.

Considerado em retrospectiva, o People’s Daily não errou, quando observou, em comentário seco, naquele momento, que “abundam as contradições nas intenções de Moscou relacionadas ao Irã”. De fato, sem a grande mão russa, os EUA jamais teriam conseguido transferir a ‘questão iraniana’ para a ONU.

Colher o momento

Hoje, o balanço do “reset” já é, ele mesmo, um romance. A Organização do Tratado de Segurança Coletiva ainda é pária, na guerra da OTAN no Afeganistão. A independência do Kosovo ganhou pompa e circunstância.

A OTAN lançou suas redes sobre o espaço pós-soviético, continua a avançar rumo às fronteiras da Rússia e pode já ter chegado ao Cáucaso. Os EUA juraram derrotar o projeto de uma União Eurasiana, de Moscou. Claro, a Rússia não pôde impedir a “mudança de regime” na Líbia e, até agora, têm sido ignoradas as objeções russas contra o programa de mísseis de defesa dos EUA.

Tudo isso considerado, vê-se que há um pano de fundo muito complexo a enquadrar a recente iniciativa russa para consertar seus laços com o Irã. A Rússia, ao render-se ao “reset” imposto pelos EUA, feriu muito terrivelmente o Irã, num momento em que o Irã precisava contar com todos os aliados, para sobreviver à incansável pressão que lhes vinha dos EUA. Mas fato é que, mesmo sem Rússia, o Irã, afinal, sobreviveu.

Ataque militar contra o Irã já não é sequer pensável, exceto sob custos gigantescos e riscos ainda mais gigantescos no plano regional; a melhor probabilidade, hoje, é que o impasse EUA-Irã tenha de ser negociado.

Hassan Rouhani
Já se preveem conversações diretas entre EUA e Irã. A Rússia, pois, está “colhendo o momento”: Putin será o primeiro chefe de Estado a visitar o Irã na presidência de Rouhani.

Por outro lado, a compreensão e o apoio dos russos podem ajudar a abrir espaço para que o Irã encontre melhor posição para negociar com os EUA. Do ponto de vista do Irã, a firmeza da Rússia – ao impor seu veto como membro do Conselho de Segurança da ONU – é tendência encorajadora. A firme decisão dos russos de rejeitar os resultados de um relatório da ONU sobre testes de mísseis no Irã foi fator decisivo para virtualmente impedir qualquer ampliação do regime de sanções.

Mas a Rússia ter voltado atrás no negócio dos mísseis S-300 ainda “está pegando”. O Irã formalizou ação contra a Rússia, reclamando indenização de US$4 bilhões por danos, no tribunal internacional de arbitragem em Genebra. O caso do Irã é forte, mas a verdadeira questão é política – a crise de confiança que se criou no relacionamento entre os dois países, quando Medvedev assinou o decreto de 20/9/2010 que cancelou unilateralmente aquele negócio e uma série de outros contratos para fornecimento de armas ao Irã, além de impedir a entrada e o trânsito, por território russo, de vários cidadãos iranianos conectados com o programa nuclear iraniano, impedindo, simultaneamente, que cidadãos russos, indivíduos e entidades legais prestem serviços financeiros relacionados às atividades nucleares iranianas.

O Ministro de Defesa do Irã, general Ahmad Vahid, comentou em termos muito ácidos, quase instantaneamente, o decreto de Medvedev; disse que o decreto mostrava que “não se pode confiar neles [nos russos], o que já se sabia”; e que o embargo era prova de que a Rússia “não consegue agir com independência, nem quando se trata de assunto menor e questão pequena”.

O jornal Kommersant da Rússia noticiava essa semana, na 4ª-feira, citando fontes do ministério de Relações Exteriores em Moscou, que Putin oferecerá a Teerã um sistema alternativo de defesa aérea, Antey-2500 que Teerã pode considerar com evolução interessante para o sistema S-300.

  
O Antey-2500 é um impressionante sistema de armas, capaz de destruir simultaneamente até 24 aviões inimigos, num raio de 200 km; ou interceptar até 16 mísseis balísticos. Pode-se dizer que o sistema é especificamente adequado para as necessidades de forças terrestres; e é possível que atenda perfeitamente às necessidades do Irã.

Kommersant também noticia que Putin discutirá o programa de expansão para a usina nuclear de Bushehr. Outros relatos indicam que os físicos nucleares iranianos já estão retomando seus estudos em instituições russas. E, há uma semana, Rússia e Irã fizeram um raro exercício de manobras navais conjuntas no Mar Cáspio.

Vista geral mdas instalações nuclears em Bushehr no Irã
Durante a recente visita do presidente do Irã Mahmud Ahmedinejad a Moscou, no contexto da reunião de cúpula dos países produtores de gás, houve discussões sobre a cooperação no campo da energia.

Pragmatismo perfeito, sem emendas

Rússia e Irã contam com exímios diplomatas, mas, mesmo com todo o pragmatismo perfeito, sem emendas e costuras improvisadas, com que contam hoje, nem assim será fácil a missão de Putin, que aspira a fazer reviver a confiança nas relações russo-iranianas.

A questão é que é indispensável um entendimento estratégico de base, entre as duas potências regionais, para que as discussões consigam avançar. Por exemplo, o ímpeto das políticas iranianas na Síria é derivado da política regional do Oriente Médio – e não se sabe até que ponto Moscou tem interesse em identificar-se com aquela política.

De fato, o presidente Hassan Rouhani recém-eleito tem repetido que as relações do Irã com os estados regionais serão a prioridade de sua política externa. Podem-se espera algumas grandes mudanças nos contatos entre o Irã e os estados do Conselho de Cooperação do Golfo, especialmente Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. A abordagem cautelosa que Teerã adotou em relação aos eventos no Egito reforça o pensamento nessa direção.

Edward Snowden
E os modelos estão em transformação, também nas relações EUA-Rússia. Apesar de manter posição consistente no caso de Edward Snowden, Moscou tem cuidado, também de não queimar pontes nos contatos com o governo Barack Obama.

A última coisa que o Irã desejaria é ver-se convertido em moeda de troca na détente EUA-Rússia. Atribui-se a Rouhani a ideia de que, sob a política de “olhar para o oriente” [orig. “Look East”] de Ahmadinejad, “o Irã teve de confiar nas políticas dualistas de países como Rússia, China e Índia no plano internacional”. Rouhani teria dito que:

Apesar das políticas de “olhar para o oriente”, a Rússia considerou que lhe seria interessante fortalecer suas relações com o ocidente. O apoio da Rússia às resoluções de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança e o cancelamento de compromissos militares foram algumas das medidas anti-Irã, adotadas pelos russos. Usar da carta “Irã” em seu jogo com o ocidente e, especialmente, com os EUA, sempre trouxe vantagens à Rússia.

Vitaly Naumkin
Isso posto, os especialistas russos são realistas sobre Rouhani e o veem como membro “moderado” da elite religiosa no Irã – “preparado para fazer concessões ao mundo, homem que sabe que não há sentido algum em guerrear contra moinhos de vento”, nas palavras de Vitaly Naumkin, Diretor do Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências da Rússia.

Há otimismo cauteloso entre os especialistas em Moscou, para os quais um “aquecimento” nas relações entre Irã e o ocidente não implica necessariamente prejuízo para os interesses russos. Estima-se que esse aquecimento será limitado e incremental, porque “o regime iraniano não poderá renunciar imediatamente a todos os seus valores básicos que tanto incômodo causam no ocidente” – como Naumkin observou.

O processo é facilitado por que Moscou não vê o Irã como fonte de extremismo religioso e a Rússia não enfrenta qualquer ameaça que lhe venha do extremismo xiita. Em princípio, portanto, não há obstáculos a uma cooperação russo-iraniana. O desafio está em construir a complementaridade dos interesses.

A classe média e os tecnocratas iranianos preferem a tecnologia ocidental – e as elites russas (diferentes dos “orientalistas” soviéticos) não nutrem qualquer verdadeira paixão pelo Irã. Simultaneamente, a China é o parceiro comercial e a fonte de investimento com que os iranianos mais sonham.

Quando o Irã abre-se como uma última fronteira para exportar gás, pode até ferir algumas suscetibilidades em Moscou, se as exportações algum dia chegarem ao mercado europeu, fazendo concorrência ao gás russo. Mas os russos levam vantagem em dois domínios chaves: cooperação militar e energia nuclear.

Enquanto isso, a Rússia também está diversificando suas relações com os países da região, o que implica que uma parceria privilegiada com o Irã não pode acontecer em detrimento de laços que começam a se tecer com a Turquia ou com Israel. Em resumo, as duas potências regionais vão-se agrupando e construindo os fundamentos de um relacionamento pós-moderno, diferente de tudo que elas jamais conheceram, até agora.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

OS DEUSES DO FUTEBOL



[*] Laerte Braga 

O futebol é mágico, tem deuses próprios. Mortais. Morreu, por exemplo, Djalma Santos, o maior lateral direito da história de nosso futebol e um dos maiores da história do futebol e o Atlético Mineiro conquistou a Taça Libertadores da América nas mãos do técnico Cuca.

É preciso chamar Celso Barros, o homem da UNIMED no Fluminense e apresentá-lo a realidade, maior que a pretensão. Dispensou Cuca que havia salvo o clube do rebaixamento e chamou outro pretencioso, Muricy, para conquistar a Libertadores. Muricy saiu falando de ratos no vestiário do tricolor.

Heleno de Freitas, numa partida do Botafogo,irritou-se quando o companheiro não aproveitou um dos seus passes geniais. Mostrou a camisa, a sua era de seda, e disse – “jogamos no mesmo time”. Terminou no campo de concentração de Barbacena, durante algum tempo chamado de hospício.

Foi um deus irado.

“Deem-me Zizinho e serei campeão”. Frase de Bela Gutman aos diretores do São Paulo quando chamado a trabalhar no clube. Zizinho foi para o tricolor paulista e Bela Gutman cumpriu a palavra, 1957. Em anos antes Gentill Cardoso havia dito aos diretores do Fluminense a mesma coisa só que em relação a Ademir Menezes, outro deus do futebol. 

O São Paulo repetiu o fato anos mais tarde com Gérson e depois com Pedro Rocha.

Os dois últimos jogadores capazes de integrarem esse Olimpo foram Romário e Ronaldo o Fenômeno. Zico era um craque, mas a mídia o transformou num deus sem condições para isso, no máximo semi-deus.

Pelé perdeu a condição de Zeus depois que abriu a boca. Segundo Romário, Pelé foi o maior jogador de futebol do mundo, mas  que "calado, era um poeta". Tem o defeito de falar bobagens o tempo inteiro e servir aos seus senhores.

Didi  um dos que se assentam no trono de Zeus foi explicar a Feola e Carlos Nascimento em 1958 que não ganharíamos a Copa sem Garrincha, Pelé e Zito. Não estava criticando a Joel, ou a Dida ou a Dino Sani. Foi o contrário, perguntou a Feola e Nascimento se já haviam vistos os globe trotters jogarem basquete. E explicou que Dino era globe trotter, mas se esquecia que o gol era o objetivo.

Em 1958 deixamos aqui Maurinho, superior a Joel. Canhoteiro, superior a Pepe e Zagalo. Julinho e Evaristo Macedo porque jogavam-no futebol estrangeiro. Ou Gino, centro-avante do São Paulo e bem melhor que Mazzola.

Vem cá Celso de Barros, lembra-se desse rapaz? É o Cuca, campeão da Libertadores da América.

Lembra-se dessa arrogância? É o Muricy, invenção de Rogério Ceni para derrubar Paulo Autuori no seu mau caratismo já denunciado pela mulher de um jogador.

Mané Garrincha, talvez o deus dos deuses. Comprou um rádio de pilhas na Suécia e deu de presente a Newton Santos, o maior lateral esquerdo do mundo em todos os tempos. “Quero isso não, só fala em sueco”

Na Copa de 70 Jairzinho inventou essa mania de entrar no meio da barreira adversária e Rivelino fez a bola passar por ali, Jair caiu propositadamente na hora do chute. Rivelino assenta-se no trono de Zeus. Era um fenômeno quase no nível de Pelé e Maradona ou Messi, hoje.

Nem falo de Di Stéfano ou Puskas, para ficar só nos brasileiros. Ou Néstor Rossi quando lhe perguntaram como fazia para jogar daquele jeito – “toco e me voy”.

Quero saber onde está Amarildo, o da Rocinha. 

Nunca joguem com o time da PM, nem a guisa de treino. É a velha cavalaria de Átila, “por onde passa não medra grama”. Só coquetel Molotov.

E cuidado com Brilhante Ulstra. Joga com pau de arara, choque elétrico, bastões de basebol e tem mania de ser “patriota”, o “último refugio dos canalhas” na opinião de Samuel Johnson.

Zizinho assenta-se no trono de Zeus como um dos maiores. Gérson também. O drible formidável de Clodoaldo em quatro adversários lhe vale um trono. Pena que Pagão tenha morrido cedo, mas foi para o Olimpo.

A vitória do Atlético, mesmo nos pênaltis, como diria Nélson Rodrigues estava escrita há mil anos. O gol aos 41 minutos explica isso.
E há um trono especial para Leônidas da Silva, o Diamante Negro.

Há muito mais tronos, mas gastaríamos um dia inteiro para relacioná-los.

O drible de corpo de Tostão nos ingleses. A jogada de Pelé, no gol que não entrou, sobre o goleiro do Uruguai e o fantástico gol contra o País de Gales em 1958.
Tim, mais tarde técnico, segundo os especialistas da época, passava meses sem errar um passe

E Castilho. Reserva de Veludo no Fluminense e titular da seleção brasileira com Veludo na reserva. Mais tarde passaram a fazer revezamento. Era assombroso como goleiro.

E hoje a mídia rotula de craque qualquer perna de pau que faz um gol diferente,

É lógico, o futebol evoluiu, a questão do condicionamento físico, mas duvido que esses supermen segurassem Garrincha ou um passe de Didi, de Zizinho, de Gérson ou de Rivelino.

Nem vou falar de Dirceu Lopes. Deixa para lá, quero saber onde está o Amarildo e fora Cabral, o homem do novo AI-5.

Cabral não tem trono, tem cela.

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[*] Laerte Braga é jornalista, trabalhou no Diário Mercantil e no Diário da Tarde de Juiz de Fora, para os Diários Associados e pela agência Meridional (primeira grande agência de notícias do Brasil) e também dos Diários e Emissoras Associadas, tendo sido correspondente do Estado de Minas de Juiz de Fora e Zona da Mata, e também trabalhou como freelancer para revistas e jornais do Brasil e de outros países. Laerte escreve sazonalmente para a redecastorphoto.