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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Xi Jinping realinha a política do PC Chinês a novas realidades

13/8/2013, [*] Timothy R. Heath, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mao Tse Tung
Nota da Vila Vudu: O que é a “Linha das massas” (conceito de Mao Tse Tung)? É recolher as ideias das massas, concentrá-las e levá-las de novo às massas a fim de que estas as apliquem fortemente; e chegar assim a elaborar justas linhas de direção. Tal é o método fundamental de direção. Em todo o trabalho prático do nosso Partido, toda direção correta é necessariamente das massas para as massas. Isso significa recolher as idéias das massas (idéias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las (transformá-las por meio do estudo em idéias sintetizadas e sistematizadas), ir de novo às massas para propagar e explicar essas ideias, de modo que as massas as reincorporem e tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em ações; e ainda verificar a justeza dessas idéias no decorrer da própria ação das massas. Depois, é preciso voltar a concentrar as idéias das massas e levá-las outra vez às massas, para que estas persistam nessas idéias e as apliquem firmemente. E assim por diante; repetindo-se infinitamente esse processo, as idéias vão-se tornando cada vez mais concretas, mais vivas e mais ricas. Essa é a teoria marxista do conhecimento.
MAO TSE-TUNG [1/6/1943], em português em O Livro Vermelho. Obras Escolhidas de Mao Tse Tung,   São Paulo: Ed. Martin Claret, 2002, vol. 3, cap. 11, p. 97 e 98.

Xi Jinping
A atual campanha de educação para a Linha das Massas (qunzhong luxian) do Partido Comunista Chinês[1] ecoa, em conteúdo e forma, um esforço similar iniciado por Hu Jintao, antecessor do  Presidente e Secretário-Geral Xi Jinping, para melhorar a capacidade de governança do partido. (...)

A campanha de educação para a Linha das Massas implica renovado esforço para realinhar a liderança do partido e conceitos teóricos, com mudanças estruturais na economia política que provavelmente persistirão durante o mandato de Xi.

Dia 18/6, a alta liderança do PCC reuniu-se em conferência para dar a partida de uma “campanha educacional” ou “atividades de educação” (jiaoyu huodong), para promover a “Educação e Prática da Linha das Massas do Partido”. Imediatamente depois se realizou reunião ad hoc do Politburo, nos dias 22-25 de junho.[2]

As reuniões de seis dias e meio focaram-se em três itens de agenda amplamente repercutidos em conferências de trabalho de nível mais baixo: relatórios sobre a implementação de regulações para enfrentar problemas de estilo de trabalho; conferências sobre se os quadros implementaram adequadamente ou não as exigências; e discussão e estudo de medidas, regras e regulações para melhorar o estilo de trabalho do partido. A expressão “estilo de trabalho” [orig. work style] refere-se à lealdade política, à ética, à integridade e à competência profissional dos membros do partido.

No início de julho, a imprensa de Hong Kong noticiou que 45 equipes supervisoras de alto nível supervisionavam a implementação da campanha. Cada membro dos Altos Comitês do Politburo fazia viagens de inspeção para participar de simpósios com funcionários locais, ouvir relatos de comitês locais do partido e supervisionar os arranjos para o trabalho de educação para a Linha das Massas. Xi visitou a província de Hebei, nos dias 11-12 de julho.

Semelhanças com a campanha “Natureza Avançada”, de Hu

Hu Jintao
A campanha da Linha das Massas têm vários pontos semelhantes com a campanha educacional de 18 meses intitulada “Manter a Natureza Avançada dos Membros do PCC”, lançada pelo então Secretário-Geral Hu Jintao em janeiro de 2005. As duas campanhas foram lançadas no início dos respectivos mandatos como secretário-geral e serviram em parte para ajudar o novo governo a consolidar o controle sobre o aparelho do partido. As duas campanhas também se apoiam fortemente num repertório de campanhas de “retificação” (zhengfeng) das quais derivaram, incluindo sessões de estudo, crítica, autocrítica e palestras.

As duas campanhas, a de Hu e a de Xi, foram conduzidas em conjunção com outras atividades para padronizar procedimentos partidários, conter a corrupção e estimular a competência geral do partido. Depois da conferência de trabalho de junho, por exemplo, o Politburo distribuiu instruções para que se padronizassem os procedimentos e mecanismos para avaliação de desempenho e promoções. Ordenou também que os governos de todos os níveis padronizassem as listas dos cidadãos em condições para receber moradia, carros, recepções públicas, guardas, benefícios sociais e férias.

As duas campanhas visam, em grande parte, a remodelar o PCC, na direção de que seja “partido governante” (zhizheng dang) cada vez mais competente. O PCC se autodesignou “partido governante” no 16º Congresso do Partido, em 2002; a designação visava a aumentar a capacidade do PCC para liderar uma sociedade pluralista, sob economia de mercado cada dia mais complexa.

De lá até hoje, o foco em melhorar a capacidade para governar aprofundou-se sempre. Por exemplo, o 4º Pleno do 16º Congresso do Partido em 2004 acrescentou exigências de “institucionalizar, padronizar e regularizar” procedimentos do partido; de que o partido governe sob o império da lei; e de que “sirva ao povo e governe para o povo” – exigências que foram reafirmadas em congressos subsequentes.

De modo semelhante, os teóricos do partido dedicaram-se a delinear uma abordagem “sistemática” e “científica” da ideologia – por exemplo, o “conceito de desenvolvimento científico” de Hu –, para apoiar análises políticas que visem a melhorar a governança. Esse modo de abordar a política e a ideologia facilitou a busca, pelo PCC, de uma nova identidade como ator burocrático estável e competente, capaz de produzir políticas que realizem os objetivos nacionais racionalmente definidos.

A busca por alavancagem política

Deng Xiaoping
À primeira vista, Xi invocar um conceito profundamente associado com Mao Tse Tung – o conceito da Linha das Massas – aparece como forte contratendência, em oposição à tendência geral reformista da política chinesa. Apesar de Deng Xiaoping e seus sucessores terem oferecido reinterpretações próprias de inúmeros conceitos (reinterpretaram virtualmente todos os conceitos maoístas), nenhum deles dedicou muita energia aos conceitos reinterpretados.

Mas o conceito de “linha das massas” manteve-se sempre intimamente associado ao Grande Timoneiro. Como que para destacar ainda mais esse aspecto, Xi marcou sua campanha para a “linha das massas” com uma visita solene à antiga residência de Mao, ocasião em que elogiou a herança chinesa revolucionária, como “nosso melhor alimento”. Mas ninguém, de fato, está dando muita atenção à China pré-reformista. Além de alguns elogios a virtudes revolucionárias, o partido não fez qualquer esforço para reviver políticas radicais [3], ou o tipo de espetáculo e encenações “vermelhos” associados a Bo Xilai, hoje caído em desgraça.

Há várias razões que explicam por que os líderes do PCC têm interesse em invocar a autoridade de Mao servindo-se agora da “linha de massas”. Evocar os ideais igualitários de Mao pode ajudar a conter as críticas contra as desigualdades geradas pelas políticas econômicas do partido. Servir-se de um princípio maoísta fundamental do partido é também uma esperta tática política, para pressionar quadros recalcitrantes. Com Mao como bandeira política, Xi e seu grupo impuseram ônus formidável sobre os que cogitam de resistir às reformas em curso.

Mais importante, atualizar a autoridade de Mao na campanha acrescenta um senso de seriedade e urgência à necessidade de reformas, ante as circunstâncias sempre em processo dramático de mudanças, as mais importantes das quais são econômicas. (...) Altos líderes responderam às novas tendências com alertas inusualmente firmes, mesmo para um partido habituado a uma rotina de autocrítica.

O 18º Congresso do Partido alertava, sombriamente, para “graves perigos” pelos quais o partido passa, criticava membros (“sem capacidade de comando, incompetentes, sem contato direto com o povo, corruptos e pouco dignos”. A corrupção, dizia o relatório, poderia comprovar-se “fatal” para o partido e até provocar o “colapso do partido e a queda do estado”. O problema é bem mais grave que “umas poucas maçãs podres”.

18o. Congresso do Partido Comunista da China (14/11/2012)
A liderança declarou então que muitas ideias, noções, políticas e arranjos políticos estavam a exigir rápida atualização, ante circunstâncias em rápida mutação. Hu declarou no 18º do Congresso do partido que o PCC devia “descartar resolutamente” (jiejue pochu) todas as noções e conceitos que hoje impedem esse desenvolvimento científico”. Outros altos líderes também defenderam esse processo intelectual e político de atualização. Na conferência anual de trabalho sobre economia de 2012, o premiê Li disse que o PCC deve “descartar resolutamente todas as velhas ideias, conceitos, estruturas e mecanismos que obstruem o desenvolvimento científico”.

O desafio de Xi: reforma estrutural

A intensa pressão para fazer grandes reformas estruturais para sustentar o crescimento econômico e garantir a estabilidade social é o contexto crítico que explica o senso de urgência que cerca a campanha da linha das massas.

O impacto da globalização econômica, décadas de crescimento e as expectativas que não param de subir entre a população são fatores que geram estresse profundo sobre a sociedade chinesa e o sistema político. Em vários sentidos, a China está conhecendo um fenômeno semelhante ao que também está gerando agitações em tantos países, do Egito à Turquia e ao Brasil: rápido crescimento econômico, que gerou demanda para bens e serviços públicos de melhor qualidade, uma prestação que não raras vezes excede a capacidade das autoridades.

A imprensa chinesa está atenta a essa associação de cenários, como já se vê em vários comentários. Um artigo, publicado sob pseudônimo de “Zhong Sheng” (que tem sido identificado como manifestação do pensamento de inúmeros importantes líderes do partido), falava de “frequentes eventos de agitação social” e de uma muito disseminada “ansiedade” no Egito, Brasil, Tailândia, Turquia e Grécia. O artigo dizia que os tumultos explicam-se, em última instância, por “uma causa raiz intim
Cúpula dirigente da China com Xi Jinping ao centro
amente relacionada a questões de desenvolvimento”. Reiterando tema frequente em vários discursos dos principais líderes, o artigo apontava o “desenvolvimento científico” como chave para evitar aqueles tumultos.

(...) O partido tem buscado desenvolver instituições e sistemas burocráticos que estabilizem e deem sustentação ao exercício da autoridade do PCC. O 18º Congresso manteve essa exigência de que se consolidem as fundações da acumulação crescente de poder nacional da China, com o estabelecimento de um conjunto de “instituições” (zhidu) e “sistemas” (tixi) econômicos, sociais e políticos.

Bem construídas e adequadamente irrigadas de recursos, os líderes do partido veem aquelas instituições e sistemas como uma espécie de espinha dorsal que conseguirá sustentar um crescimento econômico estável e equilibrado; uma distribuição eficiente e justa de bens públicos; e exercício moderado do poder político e judicial, que, juntos, compõem a essência do “desenvolvimento científico” que Pequim procura.

A liderança chinesa avaliará o sucesso ou o fracasso do mandato de Xi, conforme o que ele consiga cumprir satisfatoriamente dessa tarefa.

Xi Jinping parece bem claramente consciente da responsabilidade que lhe foi entregue pelos companheiros. Nos últimos meses, Xinhua várias vezes falou de esforços para introduzir reformas estruturais dirigidas a modificar sistemas ou a construir sistemas e instituições na economia, no governo e no partido:

Economia: Na Conferência Econômica Anual de Trabalho de 2012, o premiê Li identificou como a mais alta prioridade para o ano seguinte a “reestruturação do modelo de desenvolvimento econômico”, focando os imperativos para fazer o seguinte: aumentar a demanda interna; aumentar a inovação tecnológica independente; e mudar o padrão do desenvolvimento econômico. Para suportar essa transformação, esboçou a necessidade de centralizar decisões políticas chaves mediante um sistema de “decisão de alto nível” (dingceng sheji) como meio para resolver irracionalidades estruturais e melhorar a eficiência da economia de mercado.

Governo: Em março, o 12º Congresso Nacional do Povo e 2ª Plenária do 18º Congresso do Partido aprovou o Plano do Conselho de Estado para Reforma Institucional e Transformação Funcional [orig. State Council Institutional Reform and Functional Transformation Plan]. O plano delineia tarefas e prazos, ao longo dos próximos três e cinco anos, para “acelerar a construção de um governo orientado para serviços que exiba funções científicas, estrutura otimizada, integridade e alta eficiência e produza satisfação entre o povo”. O objetivo é reduzir as exigências de autorizações e permissões, padronizar a aquisição e distribuição de bens, eliminar os serviços e procedimentos burocráticos redundantes, cancelar ou reduzir taxas e impostos desnecessários ou excessivos, estabelecer e aprimorar controles macroeconômicos, melhorar mecanismos de mercado e aprimorar o funcionamento de serviços públicos e sociais.

Partido: Dentre um conjunto de regulações para padronizar a promoção, o recrutamento o outros procedimentos, o PCC publicou dois amplos conjuntos de regulações para organizar os processos mais básicos do partido. O primeiro conjunto declina detalhadamente que órgãos do partido ficam autorizados a decidir, aprovar, publicar, emendar e abolir regulações do partido e que procedimentos ficarão obrigados a seguir. O segundo conjunto declina como se devem registrar, revisar, emendar ou abolir regulações do partido. Embora baseado em regras provisórias que passaram a viger em 1990, as novas regulações introduzem a exigência de que o PCC publique “todas” as suas regulações, exceto em alguns poucos “casos especiais” – o que é mudança muito significativa. Estipula também que o PCC deve manter planos anuais e quinquenais para propor e emendar regras do partido.

Implicações para a política e a ideologia do PCC

No clássico A Propósito dos Métodos de Direção (1/6/1943) [4], Mao explicou que o objetivo da “linha de massas” era “recolher as ideias das massas (ideias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las (transformá-las por meio do estudo em ideias sintetizadas e sistematizadas), ir de novo às massas para propagá-las e explicá-las de maneira que as massas as tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em ação”. (...)

A formulação de Xi pouco lembra essa formulação clássica. Como Xi explicou em sessão de estudo no Politburo, o “ponto principal” da linha de massa é levar o partido a “focar-se em trabalhar para o povo” e levar os quadros a serem “competentes e incorruptíveis”. Outros altos líderes que falaram da “linha de massas” também destacaram o tópico da competência e da integridade dos quadros do PCC, a serem aprimoradas, para que o regime ofereça governança mais efetiva e alcance suas metas e objetivos.

Em sua viagem “de pesquisa” a Hebei, para modelar o comportamento de todos os oficiais, Xi concentrou-se em tópicos como disponibilidade de bens de consumo para populações rurais; qualidade dos serviços sociais; e oportunidades para progredir. Sob Xi, a “linha das massas” parece tratar menos de mobilizar as massas contra elites encasteladas, para realizar visões sociais utópicas; e parece tratar mais de mobilizar elites partidárias para gerenciar mais efetivamente as massas, de modo a tê-las como apoiadoras dos objetivos econômicos e políticos dos líderes nacionais.

A reorientação da liderança do partido rumo à provisão de bens e serviços para atender às carências que se vão diversificando numa sociedade cada vez mais próspera e pluralista já é ‘marca registrada’ das políticas do partido e dos conceitos ideológicos no governo Xi. Esses traços são evidentes no “Sonho Chinês”, que Xi concebeu. O “Sonho Chinês” baseia-se fortemente no ideal nacional coletivo do “rejuvenescimento do povo chinês” (zhonghua minzu de weida fuxing) refinado por gerações de líderes do partido.

"Sonho Chinês"
A contribuição de Xi tem sido destacar o quanto o rejuvenescimento a China beneficiará o cidadão médio. Em seu discurso de posse como presidente da República Popular da China, Xi explicou que o sonho chinês deve manter-se “próximo do povo” e “beneficiar o povo”. Xi também explicou que “satisfazer o desejo do povo por vida melhor é precisamente nossa missão”.

O PCC liderado por Xi não tem mostrado qualquer interesse em reformas liberais que possam comprometer o exercício do governo pelo partido. (...) Mesmo assim, as tendências que se veem na campanha pela linha das massas apontam para o reconhecimento de reformas de longo prazo (...).

O desenvolvimento futuro da China dependerá muito mais do consumo que venha a ser feito por um grande corpo de cidadãos prósperos, que serão também bem educados. Com o poder de compra como alavanca, esses cidadãos tenderão a exigir bens e serviços de nível superior e governo mais competente do que têm recebido das autoridades.

Mediante a campanha da linha das massas e reformas institucionais e sistêmicas, além de outras medidas para dar sustentação e melhorar o desempenho do governo, Xi e seus colegas estão buscando alinhar melhor a política e a ideologia do partido às novas realidades. A tarefa é gigantesca e exigirá provavelmente anos de trabalho. Por isso, a campanha de educação segundo a linha das massas manifesta as preocupações e os temas fundamentais que provavelmente dominarão a política e o pensamento político durante o resto do mandato de Xi.



[*] Timothy R Heath é analista do comando dos EUA no Pacífico [US Pacific Command].Heath tem mais de 10 anos de experiência como analista da China no governo dos EUA; obteve seu mestrado em Estudos Asiáticos da Universidade George Washington. As opiniões expressas são pessoais e não representam de forma alguma representam as opiniões do Comando do Pacífico ou do governo dos EUA. Este artigo foi publicado pela primeira vez pela Fundação Jamestown.
O pessoal da Vila Vudu excluiu algumas frases do texto acima, que manifestam a opinião do comando dos EUA no Pacífico sobre Mao Tse Tung, sobre Lênin e sobre temas da teoria marxista que é opinião que absolutamente NÃO NOS INTERESSA. Mesmo assim, o artigo pareceu-nos interessante, nesse deserto de ideias aproveitáveis, mesmo que só informacionalmente, que é a discussão sobre a China, (des)conduzida pela imprensa-empresa brasileira

Notas dos tradutores:
[1]  1/7/2013, People’s Daily comentava editorial de Xinhuanet, engajado na mesma campanha (People’s Daily editorial stresses stronger ties with masses)
Pequim, 30/6/, Xinhua – O Partido Comunista Chinês (PCC) e seus membros devem ter sempre em mente que se separarem das massas é a maior ameaça ao partido governante, segundo editorial do People’s Daily, órgão do PCC.
O Partido Comunista Chinês brota do povo e recebe do povo a sua energia, o que implica que o Partido não deve abandonar o princípio de “identificar-se com as massas do povo”, diz editorial do People’s Daily comemorativo ao 92º aniversário de fundação do PCC.
Em junho, Xi Jinping, Secretário-Geral do Comitê Central do PCC, destacou que a linha das massas, com aprofundamento dos laços com o povo, são fonte vital de alimento para o Partido e sua rota fundamental de trabalho.
A campanha de educação que se inicia, incluindo o combate aos estilos indesejáveis de trabalho, criarão laço mais estreito entre o partido e o povo, diz o editorial.
E o editorial prossegue: “Estilos indesejáveis de trabalho – o formalismo, o burocratismo, o hedonismo e a extravagância – são como paredes invisíveis que separam o partido e o povo, e privam o Partido Comunista Chinês de ter acesso ao povo, que é o fundamento do partido. Ante os desafios da nova era, todos os membros do Partido Comunista da China devem fazer avançar a gloriosa tradição de luta árdua e de conduta exemplar”, diz o editorial. E convoca mais de 85 milhões de membros do partido, para que se mantenham decentes e livres de corrupção e possam continuar a servir ao povo.

[2] Imagens das relações dos dirigentes com a população podem ser vistos em: In pictures: Officials urged to promote “mass line” campaign   
[3] Não parece ser exatamente assim. Ver, por ex. em 13/7/2013, Xi urges China to keep red [Xi convoca a China para que continue vermelha]. 
[4] Vide Nota da Vila Vudu acima: Linha das massas  

domingo, 28 de julho de 2013

Pepe Escobar – “China: o fator Bo”

26/7/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Bo Xilai isolado no Politburo chinês
HONG KONG. A questão geopolítica-econômica do nosso tempo, maior que a vida, a mãe de todas as questões, hoje, se pode dizer, não é a Síria, nem a espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA contra o mundo. Nada disso. A questão é a China. Como, santo deus, o Partido Comunista da China (PCC) conseguirá conduzir o modelo de crescimento econômico de Pequim, e como a China conseguirá administrar a ascensão agora mais lenta.

Em qualquer caso, antes, a China precisa livrar-se do “julgamento do século” (nada mais, nada menos).

Bo Xilai, ex-superstar do Politburo atualmente caído em desgraça – conhecido por seu “modelo Chongqing” de crescimento – foi, afinal, indiciado essa semana, acusado só por crimes relativamente menores, de ter aceito suborno de US$3,2 milhões, e ter embolsado cerca de (outros) $800 mil.

O roteiro fascinante começa com o modo como a mídia chinesa reagiu. Três minutos depois de a agência oficial Xinhua anunciar o indiciamento, o jornal People’s Daily já se dedicava a traçar uma meticulosa diferença entre “assuntos pessoais de Bo Xilai” e “o sucesso do desenvolvimento econômico e social de Chongqing”.

15 minutos adiante, Xinhua publicou um comentário essencialmente para alertar que Bo caíra porque um “tigre” local tornara-se excessivamente poderoso; e “a estabilidade nacional de longo termo só estará assegurada se se pode proteger a autoridade da liderança central”.

Também 15 minutos depois, Global Times selou o acordo, explicando que figurões corruptos, como Bo, dentro do Partido, são “um câncer” – a ser enfrentado com o peso da lei.

O problema é que toda essa artilharia pesadíssima não ajuda a contar, sequer, o começo da história.

Ferrari versus Hondas

Alto, ativo, energético, carismático, fluente em inglês (que aprendeu ainda na escola, antes da Revolução Cultural) e princeling a ser detonado – filho prodígio de Bo Yibo, um dos “Oito Imortais”, o grupo de companheiros pessoais íntimos de Mao Tse Tung liderado por Deng Xiaoping, que adiante abriria a China ao mundo – Bo Xilai é a matéria prima de que se fazem os épicos de “ascensão e queda”.

Princeling – como a mídia em Hong Kong o definiu no início dos anos 1980s – é cada um dos filhos de líderes do PCC (são centenas) que sempre viveram imersos em dinheiro, poder e privilégios sem limites. Bo – que herdou a teia de relações e contatos de valor inestimável [orig. guanxi] tecida por seu ilustre pai – sempre preferiu a expressão “sucessor vermelho”.

Xi Jinping
É absolutamente impossível compreender o que está acontecendo a Bo sem acompanhar suas complexas interações familiares com o atual presidente chinês Xi Jinping, com o ex-presidente Hu Jintao e com o ex-premiê Wen Jiabao. É como comparar uma Ferrari e um trio de Honda Civics.

Bo, o garanhão, a Ferrari, é homem da aristocracia comunista por direito de sangue e nascimento. Hu e Wen são trabalhadores, gente que veio do nada. A família de Wen, em Tianjin, foi perseguida pelos Guardas Vermelhos dos princeling  durante a Revolução Cultural. Mas adiante, em 1966, quem terminou por meter na cadeia o pai de Bo foram os Guardas Vermelhos pobres, que controlavam a universidade.

O pai de Hu Jintao era vendedor de chá. Foi perseguido durante a Revolução Cultural – e jamais “reabilitado”. Depois, nos anos 1980s, o pai de Bo, devidamente reabilitado, atirou-se à mais furiosa perseguição contra Hu Yaobang – que era então mentor de ambos, Hu e Wen.

O xis da questão é que esse clima de guerra entre essas famílias foi o nome do jogo ao longo de, pelo menos, uma geração.

No final de 2007, Bo perdera a disputa interna no 17º Congresso do Partido para tornar-se vice-premier. Chegara ao Politburo – mas foi “exilado” para Chongqing, em Sichuan – a 1.500 km de Pequim. Chongqing era município, mas com nível de província, desde 1997. A cidade, que não para de crescer, já tem população de 7 milhões, mas a grande metrópole no vale do Yangtze já alcançou os 33 milhões e continua crescendo. Chongqing foi um dos nós centrais da política de “Rumo ao Oeste” do final dos anos 1990 – o movimento para industrializar em ritmo vertiginoso o interior da China.

Bo chegou a Chongqing pronto para fazer acontecer. 2008 foi o ano crucial, quando o PCC introduziu uma nova narrativa, de uma China autoconfiante que afinal superaria “um século de humilhação” sob o poder de potências coloniais estrangeiras. A resposta de Pequim à crise financeira provocada por Wall Street foi um pacote de quase $600 bilhões de estímulo – o maior da história – para injetar turbopotência na economia chinesa. Mas, antes, foi preciso introduzir mais uma narrativa, para justificar que o PCC tivesse o monopólio do poder.

Hu Jintao
Bo farejou uma jogada para ganhar. Capitalizou o disseminado senso de alienação na população, o ressentimento contra a desigualdade e a nostalgia dos idos tempos de socialismo igualitário. Ao mesmo tempo, capitalizou a seu favor a campanha que Hu e Wen moviam contra a desigualdade, e a ambivalência de ambos quanto ao papel do capital privado. Bo mobilizou todos esses elementos e andou firmemente na direção da esquerda, cada vez mais à esquerda.

Canalizou com mestria o ressentimento popular, o que levou a um “despertar das massas”. Bo voltava a falar outra vez contra o coringa – a burguesia – serviço completo, com produção de valores dos tempos revolucionários (com canções e citações de Mao, que ele sempre conheceu de cor, desde que passou cinco anos numa prisão durante a Revolução Cultural).

Foi a campanha “Cante Vermelho”. Que Bo combinou com o envio de 200 mil funcionários para o interior da província, no melhor estilo Mao, para “aprender com o povo”; e com um programa econômico batizado “PIB Vermelho” – vermelho, como em “igualdade socialista”, com orgia de moradias a preços módicos e excelentes novas rodovias, cenário que já começava a seduzir as gigantes globais (Hewlett-Packard, Foxconn, Samsung, Ford), interessadas em fazer bases em Chongqing... o que fez com que o PIB anual da municipalidade crescesse espantosíssimos 16%.

O problema é que grande parte disso tudo foi financiado com dinheiro emprestado de outras partes da China. Em quatro anos, os bancos de Chongqing endividaram-se muito. Mesmo assim, já estava impressa na mentalidade das massas a ideia de que a China se mobilizava para objetivo mais alto – embora oficialmente Bo sempre repetisse todos os mantras da “sociedade harmoniosa” pregados por Hu e Wen. A diferença é que, ali, havia fatos reais em campo, não apenas retórica vazia.

O tigre caiu na armadilha

Até que o céu se abriu, e o mundo veio abaixo. Logo chegaria o dia em que os brados vagos de Wen, falando de alguma “democracia”, colidiriam frontalmente contra o neomaoísmo de Bo. Em 2010 e 2011 já havia guerra praticamente declarada no Politburo entre Wen e Bo. E aqui havia outro subenredo também crucialmente importante.

Wen Jiabao
Bo sempre foi muito próximo do ex-presidente Jiang Zemin. Jiang sempre protegeu Bo, sempre muito ativamente; e estava apoiando todos os movimentos de Bo contra Wen – inclusive os que visavam a garantir para Bo a posição mais alta na hierarquia da segurança da China, então ocupada por outro protegido de Jiang, Zhou Yongkang, que deixaria o cargo ao se aposentar do Comitê Central do Politburo, no 18º Congresso do Partido.

Até aí, Xi Jinping – outro “sucessor vermelho” e posicionado para substituir Hu Jintao como presidente – apoiava Bo, pelo menos teoricamente; e ambos eram fiéis a Jiang Zemin. Bo sempre foi e continuaria a ser uma Ferrari, comparado a Xi-Honda-Civic.

O pai de Bo, ao longo de 70 anos, sempre esteve um passo à frente e acima do pai de Xi. E, na comparação direta, Bo superava Xi em todos os quesitos: mais bonito, mais brilhante, mais inteligente e infinitamente mais carismático que Xi. A verdade que todos conheciam, mas da qual ninguém falava em Pequim, era que Xi jamais conseguiria manter Bo sob seu controle, se os dois se cruzassem em ação, no ambiente rarefeito do Comitê Central do Politburo.

Todas as tensões acumularam-se e alcançaram o pico em março de 2012, no Congresso Nacional do Povo. Começou com Wen referindo-se aos “erros da Revolução Cultural e do feudalismo” que ainda se repetiam; e pintando Bo como homem do passado, que queria impedir que se fizessem as necessárias reformas econômicas na China, a abertura para o mundo e a plena modernização. Wen sugeriu muito claramente que Bo teria de sair, para que fosse possível enterrar o passado maoísta. Com Bo, disse Wen, “uma tragédia histórica como a Revolução Cultural sempre poderá voltar a acontecer”. O vencedor (póstumo) teria de ser Hu Yaobang – não por acaso mentor de Wen e amigo muito íntimo do pai de Xi.

Tudo isso é jogo duro, muito duro. Dia seguinte, Bo foi demitido, sem cerimônias, do posto de líder do Partido em Chongqing. E, como se não bastasse, até um assassinato foi acrescentado ao roteiro – parte de uma cascata de erros e crimes que já começava a correr solta desde que o chefe-de-polícia de Bo, Wang Lijun, se refugiara e pedira asilo político ao consulado dos EUA em Chengdu, no início daquele ano.

Gu Kailai
Gu Kailai, esposa de Bo e advogada, apareceu como personagem central na trama de negociatas de um advogado inglês (Neil Heywood) que teria sido envenenado pela esposa de um dos grandes do Politburo. E abriram-se as portas do inferno. Em pouco tempo, já se divulgava que Bo teria grampeado os telefones de Hu Jintao; que os filhos de Gu Kilai teriam patrimônio no valor de cerca de $130 milhões; que os filhos do futuro presidente Xi Jinping teriam patrimônio familiar no valor de mais de $1 bilhão; e que a família de Wen, grande cruzado pró “democracia”, era proprietário de bens que ultrapassavam o total de $2,7 bilhões. O mundo conheceu uma imagem do Politburo como vasta e amplíssima cleptocracia.

Bo foi suspenso do Politburo e do Comitê Central por violações “sérias” da “disciplina” do Partido. Todos pararam de falar sobre o “modelo chinês”. Bo passou meses sob a custódia da sinistra Comissão Central para Inspeção Disciplinar – que, traduzida, significa prisão incomunicável e tortura hardcore (nada que Bo não conhecesse, depois de seus cinco anos de prisão durante a Revolução Cultural). Entrementes, o PCC debatia o que fazer dele.

Agora, já se sabe. Mas ainda não se sabe que tipo de “julgamento do século” será esse. O “julgamento do século 20” chinês – estrelado pela “Gangue dos Quatro” – foi integralmente televisionado. Imaginem a imagem de Bo em todas as televisões do país, sete dias por semana, 24 horas por dia, em todos os formatos imagináveis. Não acontecerá. O mais provável é que vejamos um tribunal meticulosamente coreografado – e muito rápido – como no julgamento de Gu Kailai. Ainda assim, o roteiro pode revelar-se uma caixinha de surpresas, no caso de Bo decidir que de nada lhe serviria arrastar prisioneiros, desviar-se do roteiro microgerenciado imposto pelo PCC e puser a boca no trombone.

Beidaihe Beach Resort (China)
Tudo leva a crer que nas próximas férias de verão em Beidaihe, os pesos-pesados do PCC finalmente decidirão sobre o destino de Bo. Toda essa fascinante saga pode ser vista como luta mortal de escorpiões numa caixa (ou guerra interna no Politburo chinês, que só terá um vencedor definitivo – Xi; dois vencedores relativos – Hu e Wen; e um definitivo perdedor – Bo). É a cada dia mais e mais estranho que Jiang Zemin tenha imperialmente rompido o próprio silêncio, como fez essa semana, para divulgar seu veredito, estilo última palavra: anunciou publicamente que apoia Xi.

E assim o fracionado Politburo, depois de um rápido julgamento, poderá finalmente voltar a ser “harmonioso” – a postos para enfrentar a questão tectônica de “dar uma ajeitada” no modelo chinês.

Mas nem assim farão sumir o espectro de Bo. Bo virou a política chinesa de cabeça para baixo, ao revelar muitas de suas práticas extremamente sombrias. Nenhum cineasta chinês será jamais autorizado a tocar em material tão sensível. Mas... quem sabe alguém se interessa, em Hollywood? Que tal? Sugiro Chow Yun-Fat, no papel de Bo: Tigre caído, Dragão cruel. Quem se candidata?

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes The Real News Network TV e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto .
Livros


quinta-feira, 14 de março de 2013

China usa o embalo das forças de mercado


13/3/2013, Francesco Sisci, Asia Times Online - Sinograph
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

12º Congresso Nacional do Povo, em Pequim, de 13 a 17/3/2013
Há dois aspectos profundos e de longo prazo nas reformas administrativas anunciadas ao final da primeira sessão plenária do Parlamento chinês no 12º Congresso Nacional do Povo, em Pequim, hoje, 13[14]/3/2013 [ing. 12.th National People’s Congress (NPC)]: primeiro, a tradição imperial de concentrar poder no centro, alimentando forças centrípetas que tantos problemas já causaram (...) e sobre as quais já falamos (Asia Times Online, 7/1/2011, Too many cooks spoil foreign-policy stew-“Muitas panelas no fogo, ao mesmo tempo, na política externa”).
F. Sisci

Para conseguir manter-se assim, o Partido Comunista Chinês abraça o segundo aspecto: uma grande reforma liberal. De fato, a reforma dos ministérios que emana da atual reunião do Congresso Nacional do Povo não é simples questão de números, mas grande e profunda reestruturação da filosofia e das funções relacionadas ao trabalho dos próprios ministérios.

Ma Kai
O Vice-Primeiro Ministro encarregado da reforma, Ma Kai, explicou que o propósito da reestruturação é dar poder aos mercados e à sociedade; reduzir a intervenção do governo em assuntos menores, para aumentar a habilidade do governo para administrar questões macroeconômicas e supervisionar.

Nesse espírito, o número de ministros foi reduzido a quase a metade: de 44 para 25. Os dois números têm profundo significado político. Significa que a nova liderança de Xi Jinping – evidentemente apoiado pelo líder que está de saída, Hu Jintao, o qual, até o final dessa sessão do Parlamento, que será encerrada dia 17/3, ainda é o presidente do Estado – conseguiu afirmar o próprio projeto e impôs-se sobre os milhares de interesses conflitantes da poderosa burocracia.

Wang Qishan
E há mais, como se vê nos comunicados oficiais. Wang Qishan, que preside a poderosa Comissão de Disciplina do Partido e influencia as finanças chinesas, insistiu que o povo chinês leia Tocqueville e sua crítica ao ancien régime. O pensador francês, que exaltou as virtudes do sistema norte-americano, já é, portanto, bestseller. De fato, as atuais reformas parecem inspiradas por Tocqueville. O Partido Comunista Chinês quer tornar-se mais liberal e mais “norte-americano”, e mais conforme àquele sistema.

A primeira grande vitória foi obtida na disputa pelo Ministério das Estradas de Ferro, o qual, contra qualquer lógica, conseguiu resistir às reformas de 1998 e era o último ministério que ainda administrava diretamente as próprias finanças – na operação dos trens. Hoje, como todos os demais ministérios, as funções administrativas do Ministério das Estradas de Ferro serão separadas das funções econômicas e entregues a empresas estatais. Mais: passará a ser operado pelo Ministério dos Transportes. Persiste o mistério sobre o que acontecerá à polícia e aos tribunais que agiam sob o poder direto do Ministério das Estradas de Ferro.

Xi Jinping
Além da abolição de vários ministérios, estão sendo criadas novas entidades. Haverá a partir de agora um Administrador Nacional de Energia, responsável por coordenar atividades que, antes, estavam distribuídas entre grupos que supervisionavam a eletricidade, o petróleo, a mineração de carvão, etc..

Serão necessários meses para que essas reformas sejam digeridas, pelo aparelho do Estado. Mas depois das reformas de 1998, em menos de um ano a natureza de todo o sistema já estava modificada. O centro teve de dar mais poder econômico às empresas estatais, liberando-as de obrigações administrativas e sociais. Aquelas reformas foram tão bem-sucedidas que, passada já uma década, as empresas estatais dominam a economia chinesa, criando monopólios e não deixando qualquer espaço a empresas privadas.

Agora, então, a urgência real é dar espaço ao mercado. Esse é objetivo perfeitamente claro para Xi Jinping.

Giulio Tremonti
Em 2010, em encontro de portas fechadas entre o futuro presidente Xi e o então Ministro da Economia da Itália, Giulio Tremonti, o italiano, provavelmente para mostrar cordialidade, elogiou o papel da intervenção do estado chinês na economia, que impedira que a crise das finanças dos EUA contaminasse a China. Mas Xi não pareceu muito entusiasmado com o elogio. Respondeu que tão logo a crise estivesse ultrapassada, o Estado deveria afastar-se do mercado e deixar que opere livremente, por regras de mercado.

Além das medidas de economia doméstica, a reforma administrativa inclui uma medida muito importante para a política externa: cria uma única administração para as áreas marinhas. A entidade será encarregada de todas as áreas costeiras, inclusive dos arquipélagos contestados do Mar do Sul da China e as Ilhas Diaoyu, ou Senkaku, que o Japão reivindica. A nova administração foi criada oficialmente, de modo que os chineses podem defender o domínio dessas áreas, o que está irritando os vizinhos. O Japão já começou a protestar.

Hu Jintao
Por outro lado, cria uma ordem no caso de fricções futuras, atacando diretamente o problema do qual tratei em 2011. Em várias ocasiões no passado, o governo central viu-se obrigado a dar cobertura, ou conter, no último momento, alguma iniciativa independente de algum capitão de barco pesqueiro ou algum raro oficial naval rebelde.

As novas funções que se esperam do mercado devem assegurar a plataforma de lançamento para um plano de urbanização de 40 trilhões de Yuan (US$6,4 trilhões), que deve atrair para as cidades milhões de chineses nos próximos dez anos.