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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Xi Jinping realinha a política do PC Chinês a novas realidades

13/8/2013, [*] Timothy R. Heath, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mao Tse Tung
Nota da Vila Vudu: O que é a “Linha das massas” (conceito de Mao Tse Tung)? É recolher as ideias das massas, concentrá-las e levá-las de novo às massas a fim de que estas as apliquem fortemente; e chegar assim a elaborar justas linhas de direção. Tal é o método fundamental de direção. Em todo o trabalho prático do nosso Partido, toda direção correta é necessariamente das massas para as massas. Isso significa recolher as idéias das massas (idéias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las (transformá-las por meio do estudo em idéias sintetizadas e sistematizadas), ir de novo às massas para propagar e explicar essas ideias, de modo que as massas as reincorporem e tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em ações; e ainda verificar a justeza dessas idéias no decorrer da própria ação das massas. Depois, é preciso voltar a concentrar as idéias das massas e levá-las outra vez às massas, para que estas persistam nessas idéias e as apliquem firmemente. E assim por diante; repetindo-se infinitamente esse processo, as idéias vão-se tornando cada vez mais concretas, mais vivas e mais ricas. Essa é a teoria marxista do conhecimento.
MAO TSE-TUNG [1/6/1943], em português em O Livro Vermelho. Obras Escolhidas de Mao Tse Tung,   São Paulo: Ed. Martin Claret, 2002, vol. 3, cap. 11, p. 97 e 98.

Xi Jinping
A atual campanha de educação para a Linha das Massas (qunzhong luxian) do Partido Comunista Chinês[1] ecoa, em conteúdo e forma, um esforço similar iniciado por Hu Jintao, antecessor do  Presidente e Secretário-Geral Xi Jinping, para melhorar a capacidade de governança do partido. (...)

A campanha de educação para a Linha das Massas implica renovado esforço para realinhar a liderança do partido e conceitos teóricos, com mudanças estruturais na economia política que provavelmente persistirão durante o mandato de Xi.

Dia 18/6, a alta liderança do PCC reuniu-se em conferência para dar a partida de uma “campanha educacional” ou “atividades de educação” (jiaoyu huodong), para promover a “Educação e Prática da Linha das Massas do Partido”. Imediatamente depois se realizou reunião ad hoc do Politburo, nos dias 22-25 de junho.[2]

As reuniões de seis dias e meio focaram-se em três itens de agenda amplamente repercutidos em conferências de trabalho de nível mais baixo: relatórios sobre a implementação de regulações para enfrentar problemas de estilo de trabalho; conferências sobre se os quadros implementaram adequadamente ou não as exigências; e discussão e estudo de medidas, regras e regulações para melhorar o estilo de trabalho do partido. A expressão “estilo de trabalho” [orig. work style] refere-se à lealdade política, à ética, à integridade e à competência profissional dos membros do partido.

No início de julho, a imprensa de Hong Kong noticiou que 45 equipes supervisoras de alto nível supervisionavam a implementação da campanha. Cada membro dos Altos Comitês do Politburo fazia viagens de inspeção para participar de simpósios com funcionários locais, ouvir relatos de comitês locais do partido e supervisionar os arranjos para o trabalho de educação para a Linha das Massas. Xi visitou a província de Hebei, nos dias 11-12 de julho.

Semelhanças com a campanha “Natureza Avançada”, de Hu

Hu Jintao
A campanha da Linha das Massas têm vários pontos semelhantes com a campanha educacional de 18 meses intitulada “Manter a Natureza Avançada dos Membros do PCC”, lançada pelo então Secretário-Geral Hu Jintao em janeiro de 2005. As duas campanhas foram lançadas no início dos respectivos mandatos como secretário-geral e serviram em parte para ajudar o novo governo a consolidar o controle sobre o aparelho do partido. As duas campanhas também se apoiam fortemente num repertório de campanhas de “retificação” (zhengfeng) das quais derivaram, incluindo sessões de estudo, crítica, autocrítica e palestras.

As duas campanhas, a de Hu e a de Xi, foram conduzidas em conjunção com outras atividades para padronizar procedimentos partidários, conter a corrupção e estimular a competência geral do partido. Depois da conferência de trabalho de junho, por exemplo, o Politburo distribuiu instruções para que se padronizassem os procedimentos e mecanismos para avaliação de desempenho e promoções. Ordenou também que os governos de todos os níveis padronizassem as listas dos cidadãos em condições para receber moradia, carros, recepções públicas, guardas, benefícios sociais e férias.

As duas campanhas visam, em grande parte, a remodelar o PCC, na direção de que seja “partido governante” (zhizheng dang) cada vez mais competente. O PCC se autodesignou “partido governante” no 16º Congresso do Partido, em 2002; a designação visava a aumentar a capacidade do PCC para liderar uma sociedade pluralista, sob economia de mercado cada dia mais complexa.

De lá até hoje, o foco em melhorar a capacidade para governar aprofundou-se sempre. Por exemplo, o 4º Pleno do 16º Congresso do Partido em 2004 acrescentou exigências de “institucionalizar, padronizar e regularizar” procedimentos do partido; de que o partido governe sob o império da lei; e de que “sirva ao povo e governe para o povo” – exigências que foram reafirmadas em congressos subsequentes.

De modo semelhante, os teóricos do partido dedicaram-se a delinear uma abordagem “sistemática” e “científica” da ideologia – por exemplo, o “conceito de desenvolvimento científico” de Hu –, para apoiar análises políticas que visem a melhorar a governança. Esse modo de abordar a política e a ideologia facilitou a busca, pelo PCC, de uma nova identidade como ator burocrático estável e competente, capaz de produzir políticas que realizem os objetivos nacionais racionalmente definidos.

A busca por alavancagem política

Deng Xiaoping
À primeira vista, Xi invocar um conceito profundamente associado com Mao Tse Tung – o conceito da Linha das Massas – aparece como forte contratendência, em oposição à tendência geral reformista da política chinesa. Apesar de Deng Xiaoping e seus sucessores terem oferecido reinterpretações próprias de inúmeros conceitos (reinterpretaram virtualmente todos os conceitos maoístas), nenhum deles dedicou muita energia aos conceitos reinterpretados.

Mas o conceito de “linha das massas” manteve-se sempre intimamente associado ao Grande Timoneiro. Como que para destacar ainda mais esse aspecto, Xi marcou sua campanha para a “linha das massas” com uma visita solene à antiga residência de Mao, ocasião em que elogiou a herança chinesa revolucionária, como “nosso melhor alimento”. Mas ninguém, de fato, está dando muita atenção à China pré-reformista. Além de alguns elogios a virtudes revolucionárias, o partido não fez qualquer esforço para reviver políticas radicais [3], ou o tipo de espetáculo e encenações “vermelhos” associados a Bo Xilai, hoje caído em desgraça.

Há várias razões que explicam por que os líderes do PCC têm interesse em invocar a autoridade de Mao servindo-se agora da “linha de massas”. Evocar os ideais igualitários de Mao pode ajudar a conter as críticas contra as desigualdades geradas pelas políticas econômicas do partido. Servir-se de um princípio maoísta fundamental do partido é também uma esperta tática política, para pressionar quadros recalcitrantes. Com Mao como bandeira política, Xi e seu grupo impuseram ônus formidável sobre os que cogitam de resistir às reformas em curso.

Mais importante, atualizar a autoridade de Mao na campanha acrescenta um senso de seriedade e urgência à necessidade de reformas, ante as circunstâncias sempre em processo dramático de mudanças, as mais importantes das quais são econômicas. (...) Altos líderes responderam às novas tendências com alertas inusualmente firmes, mesmo para um partido habituado a uma rotina de autocrítica.

O 18º Congresso do Partido alertava, sombriamente, para “graves perigos” pelos quais o partido passa, criticava membros (“sem capacidade de comando, incompetentes, sem contato direto com o povo, corruptos e pouco dignos”. A corrupção, dizia o relatório, poderia comprovar-se “fatal” para o partido e até provocar o “colapso do partido e a queda do estado”. O problema é bem mais grave que “umas poucas maçãs podres”.

18o. Congresso do Partido Comunista da China (14/11/2012)
A liderança declarou então que muitas ideias, noções, políticas e arranjos políticos estavam a exigir rápida atualização, ante circunstâncias em rápida mutação. Hu declarou no 18º do Congresso do partido que o PCC devia “descartar resolutamente” (jiejue pochu) todas as noções e conceitos que hoje impedem esse desenvolvimento científico”. Outros altos líderes também defenderam esse processo intelectual e político de atualização. Na conferência anual de trabalho sobre economia de 2012, o premiê Li disse que o PCC deve “descartar resolutamente todas as velhas ideias, conceitos, estruturas e mecanismos que obstruem o desenvolvimento científico”.

O desafio de Xi: reforma estrutural

A intensa pressão para fazer grandes reformas estruturais para sustentar o crescimento econômico e garantir a estabilidade social é o contexto crítico que explica o senso de urgência que cerca a campanha da linha das massas.

O impacto da globalização econômica, décadas de crescimento e as expectativas que não param de subir entre a população são fatores que geram estresse profundo sobre a sociedade chinesa e o sistema político. Em vários sentidos, a China está conhecendo um fenômeno semelhante ao que também está gerando agitações em tantos países, do Egito à Turquia e ao Brasil: rápido crescimento econômico, que gerou demanda para bens e serviços públicos de melhor qualidade, uma prestação que não raras vezes excede a capacidade das autoridades.

A imprensa chinesa está atenta a essa associação de cenários, como já se vê em vários comentários. Um artigo, publicado sob pseudônimo de “Zhong Sheng” (que tem sido identificado como manifestação do pensamento de inúmeros importantes líderes do partido), falava de “frequentes eventos de agitação social” e de uma muito disseminada “ansiedade” no Egito, Brasil, Tailândia, Turquia e Grécia. O artigo dizia que os tumultos explicam-se, em última instância, por “uma causa raiz intim
Cúpula dirigente da China com Xi Jinping ao centro
amente relacionada a questões de desenvolvimento”. Reiterando tema frequente em vários discursos dos principais líderes, o artigo apontava o “desenvolvimento científico” como chave para evitar aqueles tumultos.

(...) O partido tem buscado desenvolver instituições e sistemas burocráticos que estabilizem e deem sustentação ao exercício da autoridade do PCC. O 18º Congresso manteve essa exigência de que se consolidem as fundações da acumulação crescente de poder nacional da China, com o estabelecimento de um conjunto de “instituições” (zhidu) e “sistemas” (tixi) econômicos, sociais e políticos.

Bem construídas e adequadamente irrigadas de recursos, os líderes do partido veem aquelas instituições e sistemas como uma espécie de espinha dorsal que conseguirá sustentar um crescimento econômico estável e equilibrado; uma distribuição eficiente e justa de bens públicos; e exercício moderado do poder político e judicial, que, juntos, compõem a essência do “desenvolvimento científico” que Pequim procura.

A liderança chinesa avaliará o sucesso ou o fracasso do mandato de Xi, conforme o que ele consiga cumprir satisfatoriamente dessa tarefa.

Xi Jinping parece bem claramente consciente da responsabilidade que lhe foi entregue pelos companheiros. Nos últimos meses, Xinhua várias vezes falou de esforços para introduzir reformas estruturais dirigidas a modificar sistemas ou a construir sistemas e instituições na economia, no governo e no partido:

Economia: Na Conferência Econômica Anual de Trabalho de 2012, o premiê Li identificou como a mais alta prioridade para o ano seguinte a “reestruturação do modelo de desenvolvimento econômico”, focando os imperativos para fazer o seguinte: aumentar a demanda interna; aumentar a inovação tecnológica independente; e mudar o padrão do desenvolvimento econômico. Para suportar essa transformação, esboçou a necessidade de centralizar decisões políticas chaves mediante um sistema de “decisão de alto nível” (dingceng sheji) como meio para resolver irracionalidades estruturais e melhorar a eficiência da economia de mercado.

Governo: Em março, o 12º Congresso Nacional do Povo e 2ª Plenária do 18º Congresso do Partido aprovou o Plano do Conselho de Estado para Reforma Institucional e Transformação Funcional [orig. State Council Institutional Reform and Functional Transformation Plan]. O plano delineia tarefas e prazos, ao longo dos próximos três e cinco anos, para “acelerar a construção de um governo orientado para serviços que exiba funções científicas, estrutura otimizada, integridade e alta eficiência e produza satisfação entre o povo”. O objetivo é reduzir as exigências de autorizações e permissões, padronizar a aquisição e distribuição de bens, eliminar os serviços e procedimentos burocráticos redundantes, cancelar ou reduzir taxas e impostos desnecessários ou excessivos, estabelecer e aprimorar controles macroeconômicos, melhorar mecanismos de mercado e aprimorar o funcionamento de serviços públicos e sociais.

Partido: Dentre um conjunto de regulações para padronizar a promoção, o recrutamento o outros procedimentos, o PCC publicou dois amplos conjuntos de regulações para organizar os processos mais básicos do partido. O primeiro conjunto declina detalhadamente que órgãos do partido ficam autorizados a decidir, aprovar, publicar, emendar e abolir regulações do partido e que procedimentos ficarão obrigados a seguir. O segundo conjunto declina como se devem registrar, revisar, emendar ou abolir regulações do partido. Embora baseado em regras provisórias que passaram a viger em 1990, as novas regulações introduzem a exigência de que o PCC publique “todas” as suas regulações, exceto em alguns poucos “casos especiais” – o que é mudança muito significativa. Estipula também que o PCC deve manter planos anuais e quinquenais para propor e emendar regras do partido.

Implicações para a política e a ideologia do PCC

No clássico A Propósito dos Métodos de Direção (1/6/1943) [4], Mao explicou que o objetivo da “linha de massas” era “recolher as ideias das massas (ideias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las (transformá-las por meio do estudo em ideias sintetizadas e sistematizadas), ir de novo às massas para propagá-las e explicá-las de maneira que as massas as tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em ação”. (...)

A formulação de Xi pouco lembra essa formulação clássica. Como Xi explicou em sessão de estudo no Politburo, o “ponto principal” da linha de massa é levar o partido a “focar-se em trabalhar para o povo” e levar os quadros a serem “competentes e incorruptíveis”. Outros altos líderes que falaram da “linha de massas” também destacaram o tópico da competência e da integridade dos quadros do PCC, a serem aprimoradas, para que o regime ofereça governança mais efetiva e alcance suas metas e objetivos.

Em sua viagem “de pesquisa” a Hebei, para modelar o comportamento de todos os oficiais, Xi concentrou-se em tópicos como disponibilidade de bens de consumo para populações rurais; qualidade dos serviços sociais; e oportunidades para progredir. Sob Xi, a “linha das massas” parece tratar menos de mobilizar as massas contra elites encasteladas, para realizar visões sociais utópicas; e parece tratar mais de mobilizar elites partidárias para gerenciar mais efetivamente as massas, de modo a tê-las como apoiadoras dos objetivos econômicos e políticos dos líderes nacionais.

A reorientação da liderança do partido rumo à provisão de bens e serviços para atender às carências que se vão diversificando numa sociedade cada vez mais próspera e pluralista já é ‘marca registrada’ das políticas do partido e dos conceitos ideológicos no governo Xi. Esses traços são evidentes no “Sonho Chinês”, que Xi concebeu. O “Sonho Chinês” baseia-se fortemente no ideal nacional coletivo do “rejuvenescimento do povo chinês” (zhonghua minzu de weida fuxing) refinado por gerações de líderes do partido.

"Sonho Chinês"
A contribuição de Xi tem sido destacar o quanto o rejuvenescimento a China beneficiará o cidadão médio. Em seu discurso de posse como presidente da República Popular da China, Xi explicou que o sonho chinês deve manter-se “próximo do povo” e “beneficiar o povo”. Xi também explicou que “satisfazer o desejo do povo por vida melhor é precisamente nossa missão”.

O PCC liderado por Xi não tem mostrado qualquer interesse em reformas liberais que possam comprometer o exercício do governo pelo partido. (...) Mesmo assim, as tendências que se veem na campanha pela linha das massas apontam para o reconhecimento de reformas de longo prazo (...).

O desenvolvimento futuro da China dependerá muito mais do consumo que venha a ser feito por um grande corpo de cidadãos prósperos, que serão também bem educados. Com o poder de compra como alavanca, esses cidadãos tenderão a exigir bens e serviços de nível superior e governo mais competente do que têm recebido das autoridades.

Mediante a campanha da linha das massas e reformas institucionais e sistêmicas, além de outras medidas para dar sustentação e melhorar o desempenho do governo, Xi e seus colegas estão buscando alinhar melhor a política e a ideologia do partido às novas realidades. A tarefa é gigantesca e exigirá provavelmente anos de trabalho. Por isso, a campanha de educação segundo a linha das massas manifesta as preocupações e os temas fundamentais que provavelmente dominarão a política e o pensamento político durante o resto do mandato de Xi.



[*] Timothy R Heath é analista do comando dos EUA no Pacífico [US Pacific Command].Heath tem mais de 10 anos de experiência como analista da China no governo dos EUA; obteve seu mestrado em Estudos Asiáticos da Universidade George Washington. As opiniões expressas são pessoais e não representam de forma alguma representam as opiniões do Comando do Pacífico ou do governo dos EUA. Este artigo foi publicado pela primeira vez pela Fundação Jamestown.
O pessoal da Vila Vudu excluiu algumas frases do texto acima, que manifestam a opinião do comando dos EUA no Pacífico sobre Mao Tse Tung, sobre Lênin e sobre temas da teoria marxista que é opinião que absolutamente NÃO NOS INTERESSA. Mesmo assim, o artigo pareceu-nos interessante, nesse deserto de ideias aproveitáveis, mesmo que só informacionalmente, que é a discussão sobre a China, (des)conduzida pela imprensa-empresa brasileira

Notas dos tradutores:
[1]  1/7/2013, People’s Daily comentava editorial de Xinhuanet, engajado na mesma campanha (People’s Daily editorial stresses stronger ties with masses)
Pequim, 30/6/, Xinhua – O Partido Comunista Chinês (PCC) e seus membros devem ter sempre em mente que se separarem das massas é a maior ameaça ao partido governante, segundo editorial do People’s Daily, órgão do PCC.
O Partido Comunista Chinês brota do povo e recebe do povo a sua energia, o que implica que o Partido não deve abandonar o princípio de “identificar-se com as massas do povo”, diz editorial do People’s Daily comemorativo ao 92º aniversário de fundação do PCC.
Em junho, Xi Jinping, Secretário-Geral do Comitê Central do PCC, destacou que a linha das massas, com aprofundamento dos laços com o povo, são fonte vital de alimento para o Partido e sua rota fundamental de trabalho.
A campanha de educação que se inicia, incluindo o combate aos estilos indesejáveis de trabalho, criarão laço mais estreito entre o partido e o povo, diz o editorial.
E o editorial prossegue: “Estilos indesejáveis de trabalho – o formalismo, o burocratismo, o hedonismo e a extravagância – são como paredes invisíveis que separam o partido e o povo, e privam o Partido Comunista Chinês de ter acesso ao povo, que é o fundamento do partido. Ante os desafios da nova era, todos os membros do Partido Comunista da China devem fazer avançar a gloriosa tradição de luta árdua e de conduta exemplar”, diz o editorial. E convoca mais de 85 milhões de membros do partido, para que se mantenham decentes e livres de corrupção e possam continuar a servir ao povo.

[2] Imagens das relações dos dirigentes com a população podem ser vistos em: In pictures: Officials urged to promote “mass line” campaign   
[3] Não parece ser exatamente assim. Ver, por ex. em 13/7/2013, “Xi urges China to keep red” [Xi convoca a China para que continue vermelha]. 
[4] Vide Nota da Vila Vudu acima: Linha das massas  

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Novo quadro conceitual para a segurança: China repensa a Defesa


“A gente aqui aproveita, da CIA, o que nos interesse”

26/4/2013, Timothy Heath, The Jamestown Foundation
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Essa The Jamestown Foundation é um think-tank, instituto de pesquisa e análise, com sede em Washington, fundado em 1984, como plataforma de apoio para dissidentes soviéticos. É instituto de propaganda pró-EUA, que sempre manteve contato muito estreito com a CIA. Mas tem duas interessantes qualidades: não publica exclusivamente “opinionismo acadêmico de repetição” pró-EUA; e só resenha documentos de primeira mão, o que nos interessa, sobretudo em temas, como o que aqui se discute, que absolutamente não aparecem na pauta dos interesses da esquerda brasileira, por mais crucialmente importantes que sejam para a própria esquerda. No instante em que começa a propaganda pró-EUA, paralela à resenha, excluímos os parágrafos. Ver Nota [2].


Esse ano, a China organizou o protocolo oficial anual sobre Defesa em torno do conceito de missões históricas como quadro principal para compreender a missão e as atividades do Exército Chinês [orig. People’s Liberation Army (PLA) (Exército de Libertação do Povo)]. O conceito de “interesses-núcleo”, motor chave das missões históricas, também aparece com destaque no documento anual. [1] O alto destaque que se dá a esses conceitos reflete o maior peso de autoridade que passam a ter, tanto quando o maior poder e influência da China no mundo. Por essas razões, deve-se esperar que Pequim amplie seus esforços para consolidar o controle sobre seus direitos de soberania e para modelar uma ordem internacional favorável.

O título do documento anual de Defesa, “O uso diversificado das Forças Armadas Chinesas” [orig. “The Diversified Employment of China’s Armed Forces”] refere-se às “tarefas diversificadas” (duoyanghua renwu), coração das “missões históricas das forças armadas no novo período do novo século”, referidas quase sempre, mais simplificadamente, como “missões históricas”. O conceito de missões refere-se à orientação estratégica que o (então) presidente da Comissão Militar Central, Hu Jintao, deu aos militares no final de 2004 e que continuou a ser mencionado nos documentos anuais da Defesa até 2006. As missões históricas definem-se por quatro exigências:

(1) oferecem considerável garantia de segurança ao Partido para consolidar sua posição de governante;
(2) oferecem forte garantia de segurança para salvaguardar o período de oportunidade estratégica importante para o desenvolvimento nacional;
(3) oferecem poderoso suporte estratégico para salvaguardar interesses nacionais; e
(4) têm papel importante para salvaguardar a paz mundial e promover o desenvolvimento comum (Constituição do Partido Comunista Chinês [orig. Constitution of the Chinese Communist Party [CCP]). O Exército de Libertação Popular oferece essencialmente substrato fundamental para a primeira exigência, mas não se trata dele, diretamente, no documento. Os demais fatores aí listados dão o quadro geral de todo o conteúdo do documento.

Os interesses núcleo ganham mais importância

O documento de 2012 revisto e agora divulgado dá maior destaque e eleva em importância o conceito de “interesse-núcleo” (hexin liyi). Esse conceito já apareceu de alguma forma nos documentos anuais da Defesa desde 2002. O termo é um conceito do partido que se refere aos mais importantes interesses nacionais, definidos pelos analistas chineses como o coletivo “das demandas materiais e espirituais de um estado e povo”.

A imprensa chinesa explicou com riqueza de detalhes como a evolução de interesses nacionais levou os militares a alterar, atualizando sempre, a própria missão. O desenvolvimento mais recente foi a adição de “interesses do desenvolvimento” [pode-se traduzir também como “interesses desenvolvimentais” (NTs)], ao grupo mais antigo de interesses da segurança e da soberania, assim como um refinamento do significado de todos os três grupos de interesses à luz do crescente poder da China e de sua integração na economia global. Em artigo típico, o Diário do Exército Chinês explicava que o crescimento econômico da China exige agora que o Exército Chinês proteja os “interesses do desenvolvimento” (fazhan liyi) tanto quanto os “interesses da sobrevivência” (shengcun liyi). Comparava as missões e as funções dos militares na “era da agricultura e da indústria”, que se focava no “controle das fronteiras e em defender os territórios”, com as novas exigências das novas missões, de “proteger o desenvolvimento pacífico e o status de grande potência da China” na “era da informação” (Diário do Exército Chinês, 8/12/2005).

Mao Tse Tung
Como as missões históricas, o conceito de “interesse-núcleo” oferece modo mais claro para organizar o pensamento sobre segurança, que a linguagem política das eras Mao (Tse Tung) e Deng (Xiaoping).

Discutir ameaças de segurança em termos furiosamente hiperbólicos, rigidamente ideológicos, é um luxo que se podem dar países comunistas autárquicos, economicamente debilitados; mas que não se possa permitir uma grande potência emergente, sobretudo quando cercada por nações modernas, desconfiadas e pesadamente armadas.

Deng Xiaoping
A modernização do Exército Chinês da era Deng e da era Jiang não se deixou prender nessa armadilha, mas a sempre presente influência da ortodoxia comunista contribuiu para o baixo nível de rigor e para a falta de clareza no pensamento. Por outro lado, delinear categorias de interesses-núcleo que se ligam diretamente às mais altas prioridades estratégicas da China, facilitam as análises mais precisas e permitem que o Exército Chinês priorize responsabilidades; avalie ameaças; e desenvolva planos e capacidades de maneira racional e mais adequada às necessidades de uma grande potência com interesses globais.

Por que os conceitos cresceram em importância

Ambos, os interesses-núcleo e as missões históricas derivam de avaliações formalizadas por volta do ano 2000 – início do que o Partido Comunista Chinês refere como o “novo período no novo século”. Dois importantes desenvolvimentos levaram ao aumento de importância dos conceitos que se constata no documento de 2012: um aumento da capacidade política para decidir [orig. political authoritativeness]; o crescimento relativo do poder chinês, que fez aumentar a viabilidade e a urgência de implementar novas orientações.

A capacidade dos conceitos estratégicos do Partido para conduzir a política é determinada em parte pelo nível de autoridade dos conceitos. Quanto maior a autoridade de um conceito estratégico, maior a probabilidade de que políticas relacionadas a ele encontrem apoio. O mais alto status que um conceito estratégico pode alcançar é ser adotado como parte da “ideário guia” (zhidao sixiang) [no orig. “ideologia guia”, que é tradução errada ou, no mínimo, enviesada (NTs)]. Quando um conceito estratégico alcança esse status, tem autoridade suprema e as políticas a ele associadas sobem em prioridade e em importância.

Os dois conceitos, das missões históricas e dos interesses-núcleo, são associados ao Conceito do Desenvolvimento Científico articulado por Hu Jintao, pouco depois de assumir o poder em 2002. Quando o 17º Congresso do Partido incorporou o Conceito de Desenvolvimento Científico à Constituição do Partido Comunista Chinês, ele acrescentou legitimidade extra aos conceitos de missões históricas e interesses núcleo. No 18º Congresso do Partido, o Conceito do Desenvolvimento Científico ganhou status de “ideário guia”, refletindo forte consenso em toda a liderança (“The 18th Party Congress Work Report: Policy Blueprint for the Xi Administration”, China Brief, 30/11/2012). Assim se afirmou que os conceitos relacionados, de missões históricas e de interesses núcleo, desempenhariam papel definitório no pensamento chinês de segurança. O lançamento do documento da Defesa em formato já revisto é evidência desse desenvolvimento.

18º Congresso do Partido Comunista Chinês (nov/2012)
Além disso, a China viu seu poder nacional relativo continuar a crescer nos anos recentes. Quando a economia chinesa sobrepujou a do Japão, e passou a ser a segunda maior do mundo, em 2010, os chineses viam a economia da União Europeia sempre patinando, e os EUA permanentemente presos em impasses políticos, enquanto os militares chineses continuavam a ganhar poder. Sintoma desse aumento de poder, os esforços de Filipinas e Japão para melhorar suas posições relativas em disputas marítimas contra a China foram contidos pelas reações firmes de Pequim nos casos de Scarborough Reef e das ilhas Diaoyu/Senkaku.
 
Ilhas Diaoyu/Senkaku
O maior poder da China não apenas reforçou sua alavancagem; também fez aumentar o senso de urgência no que tenha a ver com segurança. Em particular, a crescente ansiedade na região, alvo de maior atenção dos EUA (o “reequilibramento” e o “movimento de pivô”) aumentou a importância, para Pequim, de ajustar sua estratégia de segurança, para reduzir vulnerabilidades, proteger interesses-núcleo e modelar um ambiente estável e favorável de segurança, para que a nação possa manter-se concentrada no desenvolvimento rápido e equilibrado.

O contexto da Nova Segurança, no documento de 2012

Assim como (i) as implicações do crescente poder da China numa era de globalização estão no coração do conceito de interesses-núcleo, está no coração do conceito de missões históricas (ii) o desafio de equilibrar um ambiente de segurança pacífico e estável; de proteger um conjunto crescente de interesses núcleo; e a necessidade de reduzir vulnerabilidades estratégicas e proteger um crescente conjunto de interesses núcleo. O documento de 2012 trata das duas questões, oferecendo descrição muito mais aprofundada dos interesses núcleos vistos co ponto de vista dos militares; e expondo o modo como os militares implementam a orientação para as missões históricas.

Interesses-núcleo. O terceiro capítulo do documento trata dos interesses-núcleo de “soberania” e “segurança”. O documento reconhece que, de todos, esses são os interesses-núcleo mais básicos e mais importantes. Além de apresentar as “necessidades-núcleo de segurança” como “defesa nacional, resistência contra agressão estrangeira e defesa da pátria”, o capítulo discute questões de integridade territorial no ar, na terra e nos mares.

Embora não seja novidade, a maior alavancagem que lhe é assegurada pelo poder crescente forçou Pequim a reinterpretar seus interesses de soberania e segurança. Para dar apenas um exemplo, o documento menciona que a Marinha do Exército Chinês faz agora “treinamento para águas profundas” [orig. blue water training], que inclui “alerta remoto precoce” e “interceptação em águas internacionais” [orig. open sea interception].”

A China ampliou, em profundidade, o que entende como saudável necessidade de segurança. O documento também menciona que a China agora tem “interesses de segurança espacial e de cibersegurança”, conceitos que não apareciam em documentos oficiais de dez anos passados.

O quarto capítulo trata dos interesses relacionados ao desenvolvimento nacional. Dois grandes grupos são destacados: direitos e interesses marítimos e interesses no exterior da China [orig. overseas interests]. Os primeiros referem-se a direitos econômicos e legais – minérios, pescado e outros recursos – aos quais a China se sente com direitos. O crescente apetite da China por recursos fez aumentar a importância das regiões marítimas. Além disso, muitas das áreas que envolvem interesses marítimos chineses diretos sobrepõem-se com seus interesses de segurança e soberania, o que faz aumentar o valor estratégico daquelas águas.

Os interesses em regiões distantes do território chinês [orig. overseas interests] destacam linhas marítimas de comunicação e cidadãos chineses que vivem em outros países. Essa é uma área crescente de responsabilidade militar, como se vê na discussão que o documento oferece sobre as missões continuadas para evacuar cidadãos do Golfo de Aden e da Líbia. Essas semelhanças refletem a expansão dos interesses estratégicos chineses, como parte de seu poder crescente e integração na economia global.

Missões históricas. O documento está organizado, em grande parte, em torno do desafio militar para equilibrar o imperativo de garantir segurança ao conjunto crescente de interesses-núcleo, com o imperativo de ajudar a modelar um ambiente favorável de segurança. Isso exige que o Exército Chinês responda a ameaças não tradicionais, como desastres e terrorismo, que podem ameaçar interesses chineses no próprio território e fora dele. O documento usa a expressão ocidental “operações militares não bélicas” [orig. military operations other than war (MOOTW)] para falar desses deveres. Mas o documento deixa claro que a expressão “tarefas diversificadas” [orig. diversified tasks] refere-se à habilidade do Exército Chinês para executar operações de guerra e de não guerra, em apoio ao desenvolvimento nacional. O segundo capítulo do documento relata como a modernização do Exército Chinês o está capacitando para atender a essas novas responsabilidades.

Os capítulos 3 e 4 destacam o papel dos militares, em íntima coordenação com autoridades civis, para proteger a soberania, a segurança e os interesses do desenvolvimento chineses. O quadro mostra que os militares devem oferecer apoio direto a todos os esforços do governo para ampliar incrementalmente o controle administrativo, legal e econômico, de-facto, nas disputas de questões marítimas e outros interesses. Como exemplo, o documento relata como a Marinha do Exército Chinês assegura “apoio de segurança” às polícias marítimas, aos pesqueiros e à exploração de petróleo e gás. Também discute a cooperação com corpos internacionais, para proteger interesses chineses em outras regiões do mundo, fora do território chinês.

O capítulo 5 refere-se à necessidade de “salvaguardar a paz mundial e a estabilidade regional” e trata do papel do Exército Chinês na modelagem de um ambiente favorável de segurança. O Exército Chinês desempenha papel crucialmente importante para promover a estabilidade global e regional, fator crítico para que o desenvolvimento chinês seja possível. Participação nas Operações do Corpo de Paz da ONU [orig. United Nations Peacekeeping Operations (PKO)] também fornece útil cobertura política para aumentar a segurança dos interesses em territórios não chineses; o Exército Chinês já participou em operações da ONU contra a pirataria, para proteger suas linhas marítimas de comunicação, na área próxima do Chifre da África. (...) [2]



Notas dos tradutores

[1]  O documento “The Diversified Employment of China’s Armed Forces” [Uso diversificado das forças armadas chinesas], aqui comentado, é acessível, na íntegra, na página Internet do Ministério da Defesa Nacional da China.  
Outros documentos chineses anteriores sobre a Defesa são encontráveis na página Internet do Governo da China. 

[2]  No item seguinte dessa resenha (“Implicações”), o autor - resenhista separa-se da resenha e põe-se a COMENTAR o documento resenhado, numa intromissão de caráter pragmático, na qual o autor dessa resenha interpreta o documento resenhado PARA O SEU GRUPO DE INTERESSE.
Aproveitamos da resenha o que é resenha interessante e excluímos o comentário dirigido à CIA, que não nos interessa (“Implicações”).

Do conjunto de missões do Exército Chinês, a mais desafiadora parece ser a missão de promover a estabilidade regional. A China procura evitar o que considera concessões inadmissíveis no campo de seus interesses, ao mesmo tempo em que evita também instabilidade causada por disputas quanto àqueles interesses.

Fator chave para escapar desse dilema, é colaboração íntima do Exército Chinês com autoridades civis, que desempenham a função sensível de promover as reivindicações marítimas da China.

Para destacar esse ponto, o documento oferece o argumento político, para justificar qualquer potencial resposta militar para defender suas reivindicações e outros interesses.

O documento requenta o dictum de Mao: “Não atacaremos a menos que sejamos atacados; mas com certeza contra-atacaremos, se atacados”, num argumento de defesa contra invasão e ataque nuclear, convertendo-o num alerta a potências vizinhas: a China “tomará resolutamente todas as medidas necessárias para salvaguardar a soberania nacional e a integridade territorial”.

Essa abordagem, espertamente, abre a via para permitir à China consolidar silenciosamente seus objetivos, ao mesmo tempo em que joga, sobre as costas das potências vizinhas, o ônus de arriscar-se em qualquer movimento dramático para impedir qualquer invasão ou infiltração chinesa, todos informados, desde já, de que “a China explorará qualquer mínimo passo errado, para consolidar cada vez mais as suas conquistas”.

A viabilidade permanecerá como chave para a rapidez e a profundidade com que a China promoverá seus interesses-núcleo. Se os chineses sentirem que sua capacidade de alavancagem aumentou, a ponto de que possam obter ganhos com mínimo custo, provavelmente agirão nessa direção. Na medida em que suas ações revelem-se desestabilizadoras demais, dada a alavacagem insuficiente, Pequim pode muito bem reduzir a velocidade da consolidação de seus interesses. Além disso, as tensões entre os imperativos para ampliar o controle sobre interesses núcleo e manter ambiente de segurança estável não são manobráveis pela China, cujas capacidades não lhe permitem manobrá-las sozinha.

Esforços para apertar o controle nas questões em disputa, afinal de contas, sempre geram instabilidade, e a China não tem poder de alavancagem para obrigar potências vizinhas, como o Japão, a desistir dos próprios interesses nas disputas marítimas. A China pois continuará a depender do auxílio dos EUA e outras potências, para promover a estabilidade internacional e ajudar a China a consolidar o controle dos interesses dos próprios chineses.

O Documento Defesa 2012 da China mostra quadro mais claro que os documentos anteriores de como a China vê a segurança, considerados já seu crescente poder e novos interesses globais. O consenso político por trás dessa abordagem foi confirmado no recente 18º Congresso do Partido Comunista Chinês e garante que essa será a estratégica de segurança em que a China estará trabalhando no futuro, no mínimo, de curto e médio prazos. Compreender a centralidade dos conceitos de interesses-núcleo e de missões históricas, no pensamento estratégico chinês, pode ajudar os políticos a antecipar e responder mais efetivamente a desenvolvimentos que incluam questões de segurança com os chineses.