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domingo, 7 de setembro de 2014

Ucrânia: Sobre o acordo de cessar-fogo na Novorússia (e o acordo)

7/9/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Caros amigos,

Vi o texto em russo na página da Organização para Segurança e Coordenação da Europa e, agora, Gleb Bazov mandou-me a tradução que fez para o inglês [adiante, aqui traduzida ao português (NTs)].

Dizer que o documento não me impressionou favoravelmente é muito pouco. Devo anotar também que muitas fontes bem informadas falaram de um plano com 14 itens. Haverá mais dois pontos mantidos em sigilo? O que é absolutamente certo é que é documento impreciso, nebuloso, ambíguo e vago a tal ponto que eu diria, desde já, que é plano basicamente inaplicável.

Conhecendo o quanto os diplomatas russos são maniacamente detalhistas e pedantemente cuidadosos com as palavras, posso concluir que eles sabotaram deliberadamente esse “acordo”, de modo que o “acordo” só servisse para baixar o tom e a atitude belicosos do pessoal reunido na cúpula da OTAN.

Mas, como base para cessar-fogo real é inútil, para nem falar de documento resultante de real negociação para um acordo final ou acordo de paz.

A primeira regra para qualquer tipo de acordo de paz é que ofereça um cronograma, que tem de ser minuciosamente acurado, para a implementação de medidas para desescalar os combates, que têm de ser muito claramente expostas e cuja implementação seja verificável; além disso, deve haver também agenda muito precisa para implementar medidas para construir confiança, as quais têm de poder ser mutuamente verificáveis. Nesse “acordo” não há nada disso. Os pontos 5, 6, 7, 8, 10, 11 significam rigorosamente nada; os demais são, para dizer o mínimo, vagos e ambíguos. É dos piores acordos de cessar-fogo que já li.

Seja como for, vários relatos indicam que o acordo de cessar-fogo já foi violado em inúmeras locações. Algum tipo de entendimento terá de acontecer, e talvez esse primeiro passo simbólico seja, talvez, um modo para pôr o processo em andamento. Mas, como está hoje, esse documento é imprestável.

The Saker


PS: Amanhã (8/9/2014) estarei fora todo o dia. A página fica aberta a comentários.

Situação Militar (Mariupol - 5/9/2014)
(clique na imagem para aaumentar)
Situação Militar (Lugansk - 5/9/2014)
(clique na imagem para aumentar)

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Protocolo do Grupo Trilateral de Contato
Minsk, 5/9/2014 (texto em russo e em inglês)
(tradução de trabalho, não oficial [NTs])

Do resultado de consultas entre os membros do Grupo Trilateral de Contato, sobre os passos conjuntos para implementar o Plano de Paz do Presidente da Ucrânia, P. Poroshenko, e as iniciativas do Presidente da Rússia, V. Putin

Depois de consideradas e discutidas as propostas feitas pelos participantes das reuniões de consultas em Minsk, dia 1/9/2014, o Grupo Trilateral de Contato, formado de representantes da Ucrânia; da Federação Russa; e da Organização para Segurança e Cooperação da Europa [OSCE], chegou a um entendimento comum sobre a necessidade de implementar os seguintes passos:

1. Garantir a imediata cessação bilateral do uso de armas.

2. Garantir o monitoramento e a verificação, pela OSCE, do regime de não uso de armas.

3. Implementar a descentralização do poder, inclusive mediante meios para aplicar a Lei da Ucrânia “com respeito ao status temporário de autogoverno em algumas áreas das regiões de Donetsk e Lugansk” (Lei sobre Status Especial).

4. Garantir monitoramento e verificação permanentes da fronteira ucraniana-russa pela OSCE, além da criação de uma área de segurança nas regiões fronteiriças da Ucrânia e da Federação Russa.

5. Libertação imediata de todos os reféns e pessoas detidas ilegalmente.

6. Por em vigência lei que proíbe que se processem e punam-se pessoas por atos conectados aos eventos que tiveram lugar em algumas áreas da Ucrânia, das regiões de Donetsk e Lugansk.

7. Conduzir diálogo nacional inclusivo.

8. Adotar medidas que visem a melhorar a situação humanitária no Donbass.

9. Garantir a realização de próximas eleições locais nos termos da Lei da Ucrânia “com respeito ao status temporário de autogoverno em algumas áreas das regiões de Donetsk e Lugansk” (Lei sobre Status Especial).

10. Remover formações militares ilegais, equipamento militar, além de militantes e mercenários, do território da Ucrânia.

11. Adotar um programa para o renascimento econômico do Donbass e a recuperação da atividade econômica na região.

12. Prover garantias de segurança pessoal aos participantes das reuniões de consulta.

Participantes do Grupo Trilateral de Contato:

Embaixador Heidi Talyavini (assinou)
2º (ex-) presidente da Ucrânia, L.D. Kuchma (assinou)
Embaixador da Federação Russa na Ucrânia, M.Y. Zurabov (assinou)
A.V. Zakharchenko (assinou) 
I.V. Plotnitskiy (assinou)

domingo, 18 de setembro de 2011

Morreu a esquerda sionista

Yitzhak Laor


18/9/2011, Yitzhak Laor, Haaretz, Telavive
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Sete anos depois de Oslo, os encontros de Camp David acabaram em fracasso, e a liderança em Israel – civil, como militar – preparou-se fortemente para a possibilidade de manifestações na Cisjordânia.

Há exatos 11 anos, morreu a esquerda sionista, capturada pelo então primeiro-ministro Ehud Barak. Até outubro de 2000, Israel violou os Acordos de Oslo, ao continuar a construir colônias exclusivas para judeus, a construir estradas reservadas para os colonos judeus e ao consolidar as colônias já existentes. Essa ação foi acompanhada de separação ainda maior – embora, então, ainda não houvesse o muro – entre territórios sem recursos de emprego, e Israel, que dava preferência a trabalhadores estrangeiros. Sete anos depois de Oslo, os encontros de Camp David acabaram em fracasso, e Israel – os civis e os militares – preparou-se fortemente para a possibilidade de manifestações na Cisjordânia.

Quem, hoje, se sinta inchar de orgulho da democracia israelense ante a violenta repressão dos protestos na Síria, deve lembrar aqueles dias – não só do cruzamento de estrada na cidade árabe de Umm al-Fahm em Israel, onde a revolta começou, mas também dos confrontos nos territórios ocupados entre manifestantes desarmados e o exército de Israel. Só na Cisjordânia, nas primeiras três semanas de manifestações, foram disparados meio milhão de balas. E, claro, aconteceu antes de o mundo começar a ouvir falar de ataques terroristas.

As repetidas tentativas para ocultar essas diferenças e para misturar tudo, no tempo, inventando diferentes contextos para aqueles eventos de 2000 e o que se vê hoje, foram a última pá de cal sobre o esquife da esquerda sionista. Foram mais: também deram origem ao atual Parlamento israelense que – com poucas exceções – é monoliticamente de direita. Tudo isso começou em 2000.

A luta anticolonialista ganhou uma interpretação israelense segundo a qual se negava a natureza anticolonialista do movimento nacional palestino. A versão israelense rezava que “Yasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina, estava voltando aos velhos tempos”, como se o líder do movimento palestino tivesse aceitado a recusa dos israelenses, decididos a não sair da Cisjordânia. Como sempre, a estupidez venceu. 

O único líder palestino que poderia chegar à paz mediante negociação e concessões foi apresentado como um demônio. Nisso, a esquerda sionista muito ajudou.

Os líderes levaram os israelenses a acreditar que os palestinos haviam declarado guerra contra Israel, embora se pudesse ver, claramente, a olho nu, que a verdade era exatamente o contrário disso. Naquele novembro, começaram os ataques terroristas contra Israel, seguidos de assassinados massivos de palestinos, em toda a Cisjordânia. Hoje os israelenses sabemos que, do ponto de vista dos palestinos, aqueles assassinatos foram a declaração de guerra. Hoje os israelenses sabemos também que a comunidade de inteligência israelense sabia que aqueles assassinatos de palestinos foram declaração de guerra.

Ninguém que examine hoje aqueles eventos de 2000 levará a sério o que nos diziam, em Israel, naquele momento: “Eles querem guerra”. Mentira. Eles não queriam guerra. Queriam um estado, e nunca cogitaram de desistir. 

Os palestinos também avaliaram corretamente o perigo da armadilha que o primeiro-ministro Barak pusera no caminho deles, Barak, o Chefe do Exército de Israel Shaul Mofaz e o comandante geral da espionagem israelense, major-general Moshe Ya'alon.

Foi o período mais feio da esquerda israelense, que logo se manifestou “perturbada”. A revista Haaretz rapidamente juntou tudo e pôs ordem na narrativa, aproximando apoiadores do Partido Trabalhista [Labor Party] e do Partido Meretz, um depois do outro, tomando o cuidado de só entrevistar os que se declarassem “confusos”  e/ou “perturbados”, deixando que culpassem, à vontade, os palestinos, as vítimas. Essa narrativa e esse discurso nunca mais esteve ausente da agenda pública em Israel.

O assalto militar massivo aos territórios ocupados, que continuou, sempre em escalada, com horrendos ataques terroristas israelenses na Cisjordânia reocupada continuaram, praticamente sem nenhuma oposição de nenhuma esquerda em Israel, exceto algumas poucas vozes da esquerda radical, que em outubro, ainda saíra às ruas. Em pouco tempo, chegaram a algumas centenas. Erraram ao escolher suspender as manifestações nas ruas de Israel. 

Nesses últimos 11 anos, vimos muitas mortes, como vimos as colônias exclusivas para judeus crescerem e se consolidarem. Vimos também a total emasculação da esquerda sionista a qual, de um ponto de vista histórico, deveria ser porta-estandarte empenhada, da paz.

Essa semana, os israelenses têm de lembrar a desgraça daqueles dias, sobretudo porque o que hoje está começando ameaça, outra vez, não ver e não deixar ver a última tentativa de ocupação militar colonial no mundo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Fatah e Hamas firmam acordo de paz

Novo Egito e festa na Faixa de Gaza 
27/4/2001, Palestine Chronicle
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fatah e Hamas, as duas organizações políticas que governam a Palestina uniram-se e trabalham para formar um governo de transição, com eleições a serem marcadas no prazo de um ano – informou hoje o serviço de inteligência do Egito.

Em fevereiro, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina e do partido Fatah, convocou eleições legislativas e presidenciais para setembro, movimento que, naquelas circunstâncias, o Hamás rejeitou.

“Consultas e reuniões a partir daquele momento resultaram em pleno entendimento e acordo sobre todos os pontos em discussão, inclusive a formação de um governo de transição com tarefas específicas, entre as quais definir data para eleições” – disse ontem um funcionário da inteligência do Egito.

O acordo, que colheu muitos de surpresa, foi discutido no Egito, em vários encontros não divulgados à imprensa.

“Os dois lados assinaram memorandos iniciais com vistas ao acordo. Todos os pontos de conflito foram superados” – disse Taher Al-Nono, porta-voz do governo do Hamas em Gaza, à agência Reuters de notícias. Disse também que, em breve, o governo do Egito convidará Fatah e Hamas para a cerimônia de assinatura do acordo, que acontecerá no Cairo. 

Falando à Al Jazeera, de Gaza, Ghazi Hamad, membro da alta cúpula do Hamas, disse: “Estamos otimistas, porque afinal há acordo oficial entre Hamas e Fatah, e entendo que demos um grande passo rumo à unidade dos palestinos. Mas não deve surpreender ninguém: o acordo é resultado de muitas conversas e discussões”. 

“Acho que hoje nos aproximamos realmente desse acordo, depois que chegamos a um acordo sobre alguns pontos. O que temos hoje é como um bom rascunho, e acho que é ótimo começo. Depois do que já começamos, podemos implementar o acordo, que será imediatamente traduzido e posto em prática” 

“Situação Geopolítica” 

Para Marwan Bishara, editor-chefe de política da rede Al Jazeera, “É notícia importante. A situação geopolítica não parecia exatamente favorável [à reconciliação], mas depois se passaram os últimos seis meses de levantes, e vê-se aí claramente a ação também do Egito.

“No final, pode-se dizer que o presidente Abbas perdeu o apoio que tinha no Egito, do presidente Mubarak, e o Hamás enfrenta hoje, pode-se dizer, problema semelhante na Síria, com Bashar Al-Assad que enfrenta oposição em Damasco.”

“Assim, com os EUA mantidos à distância e Israel sem jamais se decidir a trabalhar pela paz e a favor do bom relacionamento com os palestinos dos territórios ocupados, os próprios palestinos encontraram a via do acordo e da paz. De fato, tudo que agora se formaliza em acordo já estava acordado, de fato, há quase um ano e meio”. 

Benyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, disse ontem que Abbas não pode esperar conseguir qualquer paz com Israel, se assinou acordo de reconciliação com o Hamás. “A Autoridade Palestina tem de escolher ou a paz com Israel ou a paz com o Hamás e não há paz possível com os dois lados” – disse.

O Hamás não reconhece o estado de Israel, ao qual se refere sempre como “a entidade sionista”. 

“Divisão amarga” 

O partido Fatah governa a Cisjordânia ocupada, e o Hamás – eleito em eleições parlamentares em 2006 –, teve de derrotar forças militares de Abbas em 2007, para conseguir assumir o governo ao qual havia sido eleito na Faixa de Gaza.

Rawya Rageh, correspondente da rede Al Jazeera no Cairo, disse que “Agora, afinal, o acordo porá fim efetivamente à divisão amarga em que vivem os palestinos desde 2007.”

“Espera-se para as próximas horas um anúncio formal, quando se conhecerão os detalhes do acordo de reconciliação entre Hamás e Fatah”.

Rageh disse que o acordo deve ser assinado na próxima semana, em cerimônia da qual participarão Abbas e Khaled Meshall, líder político do Hamás que vive em Damasco.

Para Nicole Johnston, correspondente da rede Al Jazeera em Gaza, “Um dos principais grupos de organização da sociedade civil em Gaza está convocando todas as facções palestinas para que se reúnam na praça central na cidade de Gaza – a Praça do Soldado Desconhecido –, para iniciar as celebrações

“Gaza precisa muito de alguma boa notícia. Foi mês particularmente difícil por aqui, em vários aspectos, com ataques cada vez mais violentos que vêm de Israel e o sequestro e assassinato de um estrangeiro. Portanto, esse tipo de novidade, primeira boa notícia depois de tanto tempo, merece, sim, muita festa.” 

O acordo decidido ontem foi divulgado, em primeira mão, pelo serviço de inteligência egípcio, que organizou os encontros e discussões.

Em declaração divulgada pela agência estatal egípcia de notícias MENA, o serviço de inteligência do Egito disse que o acordo foi firmado por delegação do Hamás liderada por Moussa Abu Marzouk, vice-presidente do comitê político do Hamas, e por Azzam al-Ahmad, do comitê central do partido Fatah.

Al-Ahmad e Abu Marzouk disseram que o acordo cobre todos os pontos em que havia discordância, inclusive a formação de governo de transição, acordos de segurança e reestruturação da OLP (Organização de Libertação da Palestina), de modo a que o Hamás posse ser integrado a ela.

Falando à televisão estatal egípcia, al-Ahmad disse que as eleições gerais estão previstas para acontecer dentro de um ano. E Mahmoud al-Zahar, do Hamás, disse que todos os prisioneiros sem condenação criminal serão libertados (de Al Jazeera e agências).