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sábado, 28 de abril de 2012

Egito cancela o fornecimento de gás para Israel


27/4/2012, Franklin Lamb, Al-ManarTV, Beirute
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Franklin Lamb
O povo egípcio está lutando para recuperar a própria soberania. Segundo pesquisa recentemente divulgada, os egípcios entendem que sua soberania foi cedida parcialmente a Israel, por dois ditadores pós-Nasser: Anwar Sadat e Hosni Mubarak, a serviço dos governos dos EUA, de Nixon a Obama.

Acabar com três arranjos humilhantes para os egípcios – o esquema de fornecer gás barato a Israel, os acordos de Camp David de 1979 e o reconhecimento de Israel, a que os EUA obrigaram o Egito – é entendido como objetivo estratégico de segurança nacional para a maioria dos 82 milhões de cidadãos egípcios.

Segundo resultados de pesquisa de opinião realizada pela rede Press TV e divulgada dia 3/10/2011, 73% dos egípcios entrevistados opunham-se àqueles arranjos e acordos. Hoje, se estima que essa porcentagem já alcance os 90%.

Nos últimos oito anos, o arranjo do gás, de 2004, jamais teve o apoio da população egípcia. Uma das acusações que pesam hoje contra Mubarak é que o presidente deposto vendeu a preço vil o gás egípcio, como parte de um acordo ‘entre amigos’, que envolveu familiares do ditador e autoridades israelenses.

Mohamed Shoeib, presidente da empresa estatal de gás Egyptian Natural Gas Holding Company disse em entrevista à AFP, semana passada, que o acordo do gás foi “anulado com a empresa israelense Israeli East Mediterranean Gas Co. (EMG), porque a empresa não respeitou cláusulas contratuais”. [1]

Depois que Mubarak foi derrubado, e as 14 agências de polícias secreta de seu governo começaram a perder o poder de onipresença, o gasoduto que leva gás para Israel foi atacado 14 vezes em 12 meses, numa série de explosões que já haviam reduzido em 40% o fornecimento de gás que Israel usa para gerar eletricidade.

Na campanha eleitoral para as recentes eleições parlamentares, e atualmente, na campanha eleitoral para as eleições presidenciais, os egípcios têm discutido as relações com Israel, pela primeira vez publicamente. Mubarak sempre foi protetor de Israel e, como outros líderes árabes que ainda se agarram ao poder, sempre ignorou os desejos populares, para que o país apoiasse ativamente a luta pela libertação dos palestinos e da Palestina ocupada.

No final de janeiro de 2011, em visita que fiz à Universidade de Alexandria, conversei com alunos egípcios, americanos e europeus, todos nós sentados nos bancos à frente da magnífica Grande Biblioteca da cidade. Um daqueles alunos explicou, relembrando as manifestações da Praça Tahrir, dia 25/1/2911:

“Nossos slogans na Praça Tahrir eram pão, liberdade, dignidade e justiça social. Faz quase exatamente um ano. Se Deus quiser, logo alcançaremos as demandas de nossa revolução histórica, que incluíam o fim de Camp David e o cancelamento do reconhecimento do regime sionista que continua a ocupar a Palestina. Cabe ao Egito liderar a nação árabe, e cumprir a obrigação sagrada de libertar Jerusalém e todos os palestinos, do rio até o mar.”

Uma linda estudante, coberta com o hijab, também ofereceu sua opinião:

“Os EUA compraram nossos líderes com bilhões de dólares roubados de nosso povo, mas que nunca foram usados para melhorar a nossa vida ou nos trouxeram qualquer benefício. Camp David foi essencialmente um acordo privado assinado por Sadat e depois por Mubarak. O povo não foi ouvido e jamais nos perguntaram se concordávamos. Os que protestaram foram presos, e até muito pior. Agora, o povo egípcio está ganhando poder, apesar do que parece ser um golpe da junta militar do Conselho Superior das Forças Armadas, antes das eleições marcadas para junho”.

Autoridades israelenses, mancomunadas com o lobby sionista nos EUA, dizem que o cancelamento do arranjo do gás seria “ameaça existencial”. Segundo pesquisador do Serviço de Pesquisas do Congresso dos EUA, no edifício Madison em Capitol Hill, cujo trabalho é historiar as reclamações oficiais de Israel, essa é a 29ª “ameaça existencial” que a colônia sionista registra, em 64 anos de história.

As tais “ameaças existenciais” vão desde o reconhecimento internacional do Direito de Retorno para os palestinos expulsos no processo de limpeza étnica durante a, e a partir da, Nakba de 1948, passando por inúmeros grupos palestinos, e mais de duas dúzias de Resoluções da ONU, entre as quais as Resoluções n. 194 e 242, até o Hezbollah, evidentemente; incluem também todos os movimentos internacionais de solidariedade aos palestinos; um ou dois intelectuais judeus não sionistas; o Irã, também evidentemente; a expansão da internet; e potencialmente todos os cristãos, árabes e muçulmanos do planeta, para nem falar do proclamado crescimento de um antissionismo global, já desclassificado, pelo lobby sionista nos EUA, como sempre, como mais uma modalidade de antissemitismo.

Apesar de todas essas ditas “ameaças existenciais” que, recentemente, passaram a incluir também o chamado “Mapa do Caminho”, os líderes israelenses continuam a boicotar qualquer possibilidade de negociação consequente que possa levar à convivência pacífica de árabes e judeus na Palestina, num único estado democrático e secular, onde cada cidadão valha um voto, e sem qualquer privilégio ensandecido para algum autodeclarado “povo escolhido”.

Yuval Steinitz, ministro das finanças de Israel disse que o Egito questionar suas relações com Israel seria “um perigoso precedente que ameaça os acordos de paz entre Israel e o Egito”.

Ampal, a empresa israelense que compra o gás, declarou que considera o cancelamento do contrato “ato ilegal e de má fé”; e exigiu que fosse imediatamente e plenamente restaurado. A Ampal planeja usar os mecanismos de arbitragem internacional para tentar a restauração do contrato; e já enviou delegação de empresários a Washington para reunião com o AIPAC e funcionários do governo dos EUA, para conseguir que imponham aos egípcios a anulação do ato que cancelou o contrato e os forcem a continuar a fornecer gás a Israel a preços abaixo dos preços de mercado. Funcionário do Congresso escreveu, em e-mail, com ironia, que é mais fácil as empresas israelenses fazerem os congressistas trabalharem a favor delas, que as empresas norte-americanas e, até, que os eleitores que elegem os congressistas.

Semana passada, Israel Hayom, analista político israelense escreveu:

“A triste conclusão do colapso do acordo do gás com o Egito é que estamos voltando aos dias de antes do acordo de paz com o Egito, e o horizonte não parece, de modo algum, rosado. Camp David corre risco mortal. A dolorosa conclusão, mais uma vez, é que não temos amigos genuínos na região. Não, com certeza, com vistas ao longo prazo”.

Abe Foxman, da ADL, lamentou:

“Israel deu muito ao Egito em troca do acordo de paz de Camp David, muito mais do que deveria ter dado. Dentre outras coisas, uma área de livre comércio, na qual nós praticamente forçamos a criação de oficinas de costura e de uma indústria têxtil egípcia para que pudessem exportar facilmente algodão barato e outros bens para os EUA e para Israel. Tornamos os egípcios um povo respeitável aos olhos do público norte-americano. E eles retribuem assim o muito que nos devem?”

O AIPAC, que jamais demora a reagir nesses casos, já está fazendo circular um projeto de resolução, essa semana, entre seus principais operadores no Congresso, para fazer com que o Congresso dos EUA condene oficialmente o cancelamento do contrato de fornecimento de gás, e exigindo a imediata renovação, sob a ameaça de os EUA suspenderem qualquer ajuda ao Egito. O lobby também já começou a pressionar o governo Obama, com ameaças de corte nas doações de dinheiro dos judeus para a campanha eleitoral do presidente, no caso de os EUA nada fazer para obrigar o Egito a “cair na realidade”, nas palavras do ultra sionista Howard Berman, influente deputado Democrata da Comissão de Assuntos Internacionais da Câmara de Deputados.

A realidade política é que diplomatas dos EUA, o AIPAC e autoridades israelenses, muitas vezes difíceis de distinguir uns dos outros, vêm fazendo o possível para encontrar um meio de reparar as relações entre Egito e Israel, desde as manifestações da primavera passada na Praça Tahrir. Todos temem, por boas razões, que os acordos de Camp David e a embaixada de Israel no Cairo sejam os próximos a ter a cabeça no cepo, à medida que o povo egípcio vai-se tornando senhor do próprio destino.

Sobre o já esperado fechamento da embaixada de Israel no Cairo, segundo o jornal Yedioth Ahronoth:

“O que temos hoje é uma lenta deterioração de relações: israelenses já não podem por o pé no Egito, e o consulado egípcio em Telavive não tem autorização para emitir vistos de entrada. Quem insista em ir ao Egito, saindo de Israel, mesmo que tenha passaporte estrangeiro, deve preparar-se para enfrentar problemas. Pode ter seu nome incluído na lista de ‘espiões’ e de ‘agentes do Mossad’. Não nos querem lá. É simples assim. E o Egito tornou-se muito perigoso, hoje, para os israelenses”.

Segundo o porta-voz de Netanyahu, Mark Regev,

“Ninguém quer alugar um prédio para a embaixada de Israel no Cairo, para abrigar a pequena equipe chefiada pelo embaixador Yaakov Amitai. Por questões de segurança, já reduzimos muito a semana de trabalho lá. A equipe chega 2a-feira à tarde e parte na 5a-feira pela manhã. A cada viagem, vão para endereço diferente (alugado sempre a preços exorbitantes), negociado por agentes locais de segurança. No que tenha a ver com os egípcios, os diplomatas israelenses melhor fariam se ficassem em Jerusalém até a eleição do próximo presidente; depois, veremos o que acontece”.



Nota dos tradutores

domingo, 18 de setembro de 2011

Morreu a esquerda sionista

Yitzhak Laor


18/9/2011, Yitzhak Laor, Haaretz, Telavive
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Sete anos depois de Oslo, os encontros de Camp David acabaram em fracasso, e a liderança em Israel – civil, como militar – preparou-se fortemente para a possibilidade de manifestações na Cisjordânia.

Há exatos 11 anos, morreu a esquerda sionista, capturada pelo então primeiro-ministro Ehud Barak. Até outubro de 2000, Israel violou os Acordos de Oslo, ao continuar a construir colônias exclusivas para judeus, a construir estradas reservadas para os colonos judeus e ao consolidar as colônias já existentes. Essa ação foi acompanhada de separação ainda maior – embora, então, ainda não houvesse o muro – entre territórios sem recursos de emprego, e Israel, que dava preferência a trabalhadores estrangeiros. Sete anos depois de Oslo, os encontros de Camp David acabaram em fracasso, e Israel – os civis e os militares – preparou-se fortemente para a possibilidade de manifestações na Cisjordânia.

Quem, hoje, se sinta inchar de orgulho da democracia israelense ante a violenta repressão dos protestos na Síria, deve lembrar aqueles dias – não só do cruzamento de estrada na cidade árabe de Umm al-Fahm em Israel, onde a revolta começou, mas também dos confrontos nos territórios ocupados entre manifestantes desarmados e o exército de Israel. Só na Cisjordânia, nas primeiras três semanas de manifestações, foram disparados meio milhão de balas. E, claro, aconteceu antes de o mundo começar a ouvir falar de ataques terroristas.

As repetidas tentativas para ocultar essas diferenças e para misturar tudo, no tempo, inventando diferentes contextos para aqueles eventos de 2000 e o que se vê hoje, foram a última pá de cal sobre o esquife da esquerda sionista. Foram mais: também deram origem ao atual Parlamento israelense que – com poucas exceções – é monoliticamente de direita. Tudo isso começou em 2000.

A luta anticolonialista ganhou uma interpretação israelense segundo a qual se negava a natureza anticolonialista do movimento nacional palestino. A versão israelense rezava que “Yasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina, estava voltando aos velhos tempos”, como se o líder do movimento palestino tivesse aceitado a recusa dos israelenses, decididos a não sair da Cisjordânia. Como sempre, a estupidez venceu. 

O único líder palestino que poderia chegar à paz mediante negociação e concessões foi apresentado como um demônio. Nisso, a esquerda sionista muito ajudou.

Os líderes levaram os israelenses a acreditar que os palestinos haviam declarado guerra contra Israel, embora se pudesse ver, claramente, a olho nu, que a verdade era exatamente o contrário disso. Naquele novembro, começaram os ataques terroristas contra Israel, seguidos de assassinados massivos de palestinos, em toda a Cisjordânia. Hoje os israelenses sabemos que, do ponto de vista dos palestinos, aqueles assassinatos foram a declaração de guerra. Hoje os israelenses sabemos também que a comunidade de inteligência israelense sabia que aqueles assassinatos de palestinos foram declaração de guerra.

Ninguém que examine hoje aqueles eventos de 2000 levará a sério o que nos diziam, em Israel, naquele momento: “Eles querem guerra”. Mentira. Eles não queriam guerra. Queriam um estado, e nunca cogitaram de desistir. 

Os palestinos também avaliaram corretamente o perigo da armadilha que o primeiro-ministro Barak pusera no caminho deles, Barak, o Chefe do Exército de Israel Shaul Mofaz e o comandante geral da espionagem israelense, major-general Moshe Ya'alon.

Foi o período mais feio da esquerda israelense, que logo se manifestou “perturbada”. A revista Haaretz rapidamente juntou tudo e pôs ordem na narrativa, aproximando apoiadores do Partido Trabalhista [Labor Party] e do Partido Meretz, um depois do outro, tomando o cuidado de só entrevistar os que se declarassem “confusos”  e/ou “perturbados”, deixando que culpassem, à vontade, os palestinos, as vítimas. Essa narrativa e esse discurso nunca mais esteve ausente da agenda pública em Israel.

O assalto militar massivo aos territórios ocupados, que continuou, sempre em escalada, com horrendos ataques terroristas israelenses na Cisjordânia reocupada continuaram, praticamente sem nenhuma oposição de nenhuma esquerda em Israel, exceto algumas poucas vozes da esquerda radical, que em outubro, ainda saíra às ruas. Em pouco tempo, chegaram a algumas centenas. Erraram ao escolher suspender as manifestações nas ruas de Israel. 

Nesses últimos 11 anos, vimos muitas mortes, como vimos as colônias exclusivas para judeus crescerem e se consolidarem. Vimos também a total emasculação da esquerda sionista a qual, de um ponto de vista histórico, deveria ser porta-estandarte empenhada, da paz.

Essa semana, os israelenses têm de lembrar a desgraça daqueles dias, sobretudo porque o que hoje está começando ameaça, outra vez, não ver e não deixar ver a última tentativa de ocupação militar colonial no mundo.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A Fraternidade Muçulmana: novas luzes para o Egito

Mahan Abedin

4/3/2011, Entrevista a Mahan Abedin, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A Fraternidade Muçulmana (Ikhwan Al-Muslimeen) foi fundada em 1928. Ao longo de 80 anos, tornou-se organização política, social e religiosa com enorme e profunda influência em todo o Egito, onde nasceu. A Fraternidade Muçulmana também é movimento internacional com ramos em vários países árabes e no ocidente. 

A derrubada do presidente Hosni Mubarak em fevereiro e o período de governo de transição que se iniciou no Egito abriram caminho para que a Fraternidade Muçulmana participe ainda mais plenamente na vida nacional do Egito. Depois de décadas de repressão, a Fraternidade prepara-se para beneficiar-se o mais possível do sistema político emergente. 

Ibrahim Mounir
Ibrahim Mounir nasceu em 1937 no Egito. É formado em Direito e sempre trabalhou como advogado. Ligou-se à Fraternidade Muçulmana ainda na adolescência, e passou por todos os vários escalões da organização. Hoje, é dos mais antigos e prestigiados membros do comitê executivo, Maktab Al-Irsha (“Comitê de Orientação”) do movimento Fraternidade Muçulmana.

Mahan Abedin: Na sua opinião, os protestos no Cairo e em outras cidades, chegaram às ruas cedo demais? 
Ibrahim Mounir: A revolução ainda está em andamento. A multidão nas ruas foi indispensável para derrubar Mubarak. Nos estágios seguintes da revolução talvez sejam necessárias outras formas de protesto e resistência. 

MA: Em que medida se pode falar de mudança de regime no Egito? 
IM: Mubarak saiu do palco, mas a estrutura do regime permanece. Mas é estrutura frágil, sem filosofia ou ideologia que lhe dê sustentação. 

MA: Parece que o regime egípcio voltou aos pontos de apoio de sempre, ou seja, às forças armadas. O exército egípcio diz que conduzirá o processo de transição e preparará o terreno para a democracia. Os comandantes militares são confiáveis? 
IM: Em princípio, confiamos no exército. Ponto importante, ao qual os observadores internacionais têm dado pouco destaque, é que o governo Mubarak sempre usou a estratégia de dividir para governar. Mubarak criou cisões dentro do exército e entre o exército e outras instituições, sobretudo as várias brigadas políticas e as forças de segurança. 

Há 1,5 milhão de soldados nas forças de segurança; no exército, 500 mil. Mubarak semeou a animosidade entre Omar Suleiman [ex-chefe das forças de segurança] e Habib el-Adly, ex-ministro do interior e chefe das forças de segurança. Mubarak criou divisões até dentro de seu próprio partido [Partido Nacional Democrático, ing. National Democratic Party (NDP)]. O principal objetivo dessa política era manter as instituições frágeis, para não comprometer a base de poder de Mubarak. Nenhuma instituição jamais se fortaleceu, no Egito, nem o exército. Não se devem superestimar as capacidades políticas ou de segurança do exército. 

MA: O senhor está dizendo que confia no exército e há salvaguardas adequadas para obrigar o exército a fazer o que promete? 
IM: Primeiro, o mundo está de olhos no exército egípcio, à espera de que cumpra o que prometeu. Segundo, há divisões entre o oficialato mais antigo e os oficiais mais jovens. Os mais jovens estão mais próximos da população e resistem a tomar atitudes que agridam os interesses do povo. Terceiro, ainda que quisesse, o exército, com meio milhão de homens, não conseguirá controlar todo o país. 

MA: Isso significa que se o exército faltar às promessas, os manifestantes voltarão às ruas? 
IM: Os egípcios já venceram a barreira do medo. Mostraram que estão seriamente empenhados em buscar a realização de suas legítimas aspirações políticas. 

MA: A mídia ocidental tem especulado muito sobre o papel (ou o nenhum papel) da Fraternidade Muçulmana nos protestos. Qual foi a real extensão da participação da Fraternidade na revolução? 
IM: Ninguém pode falar com absoluta precisão sobre o que aconteceu nas ruas. Houve protestos em todo o país, não só na Praça Tahrir no Cairo. Posso confirmar que fora da capital a Fraternidade Muçulmana e suas redes locais organizaram parte importante dos protestos. 

Além disso, praticamente todos os serviços logísticos na Praça Tahrir foram prestados pela Fraternidade Muçulmana (banheiros químicos, por exemplo, foram instalados pela Fraternidade e apoiadores [a BBC noticiou fartamente a participação de médicos, enfermeiros, socorristas voluntários, muitos deles entrevistados ao vivo, e todos ligados mais diretamente ou menos, aos serviços sociais oferecidos, em todo o país, pela Fraternidade Muçulmana; a BBC também destacou, em inúmeras matérias, que equipamentos médicos e medicamentos também foram fornecidos, além dos hospitais-tendas montados na Praça Tahrir, pela Fraternidade Muçulmana (NTs)]. Esses recursos, como se sabe, são determinantes para manter um movimento de rua que se estime que deva ser mantido por longo período. 

MA: Tem-se dado muita atenção ao exército e pouca atenção ao Estado, a saber, aos serviços da inteligência egípcia. Parece que a revolução não conseguiu deslocar essas organizações, que conservaram seus privilégios e sua posição, embora secreta, na cena política. Que planos tem a Fraternidade Muçulmana para desmobilizar essas organizações secretas e obrigá-las a se reorganizar em termos democráticos? 
IM: As entidades a que você se refere continuam mobilizadas, como você diz, e são muito influentes, mas não têm o poder que se atribui em geral a elas. É preciso tempo para reformar essas instituições. É programa que envolverá todos os elementos da política egípcia, não só a Fraternidade Muçulmana. Todos os principais atores políticos, inclusive o exército, terão de participar do processo de reforma dos serviços de inteligência e segurança no Egito. 

MA: Alguns observadores dizem que, a menos que se reformem os serviços de segurança de cima abaixo, reforma institucional e cultural, não se construirá democracia sustentável no Egito. 
IM: Estamos falando de coisas diferentes: o curto prazo e o longo prazo. No curto prazo, o fim das Leis de Emergência, para garantir a independência do Judiciário e a liberdade de imprensa, já será grande passo para obter mais transparência para tudo, no país; essas mudanças ajudarão a pressionar os próprios serviços de segurança, para que se autolimpem, eles mesmos. As reformas culturais de que você fala, são reformas demoradas. É preciso treinar os oficiais de segurança e da polícia, para que aprendam a pensar em termos de servir a população e respeitar normas internacionais e padrões de direitos humanos. 

MA: Qual é o status legal preciso e a situação de Ikhwan e sobretudo de Khairat al-Shater[1]? Ainda estão presos? 
IM: Sim, continuam presos. Em termos mais amplos, tão logo a Lei de Emergência seja cancelada e a Constituição seja reformada, a Fraternidade Muçulmana poderá a voltar a participar mais amplamente da política. 

MA: Falando sobre o presente, diminuíram a repressão policial direta e a pressão dos órgãos judiciários sobre a Fraternidade Muçulmana, depois da derrubada de Mubarak? 
IM: Em linhas gerais, pode-se dizer que sim. Mas prossegue a luta de gato e rato entre a Fraternidade e o aparato de segurança. Mas Sobhi Saleh, da Fraternidade, é membro da comissão encarregada de reformar a Constituição. A Constituição terá de marcar um referendum para, o mais tardar, daqui a dois meses. 

MA: Há eleições marcadas para daqui a seis meses; as eleições para o Parlamento e para a Presidência serão simultâneas? 
IM: Não se sabe. Mas esperamos que o exército entregue o poder ao final do governo de transição. Muitos esperam que o exército saia do centro do palco, no final da transição, e que continue a acompanhar os acontecimentos. Esse tipo de ‘supervisão’ é semelhante ao que fizeram os militares na Turquia, nas últimas décadas. 

MA: A Fraternidade Muçulmana apresentará candidato próprio às eleições presidenciais? 
IM: Não. 

MA: Por que não? 
IM: Ninguém, nem interna, nem externamente, defende essa via, nesse ponto dos acontecimentos. 

MA: Pode-se dizer que a Fraternidade Muçulmana tem medo de vencer as eleições no Egito?! 
IM: Há 60 anos, o Egito e a comunidade internacional são bombardeados com propaganda contra a Fraternidade Muçulmana. Não somos partido político e não visamos ao poder político. Queremos mudar o modo como o povo egípcio nos vê e o que pensam sobre nós. Nesse estágio inicial, quem governe o Egito não é o fator mais importante. O fator realmente importante é como o Egito será governado. 

MA: Supondo que as eleições sejam relativamente livres e justas, a Fraternidade espera ser maioria no próximo Parlamento? 
IM: Contamos com cerca de 30% dos votos. Talvez mais, se concorrermos às eleições parlamentares como parte de uma coalizão política, com outros grupos. Mas essa decisão só será tomada quando se conhecerem as condições objetivas. 

MA: Até que ponto a Fraternidade Muçulmana tem planos para alterar a política exterior do Egito? 
IM: Até o ponto que o povo egípcio decidir alterá-la. Respeitaremos o voto popular. 

MA: Mas política externa é tema de alta especialização, tratado por especialistas, não pelo povo, diretamente. Minha pergunta é: se a Fraternidade Muçulmana alcançar posição mais firme na paisagem política do Egito, até que ponto “os Irmãos” gostariam de alterar a política externa? 
IM: É pergunta que não posso responder agora. Em qualquer caso, os eventos estão acontecendo em ritmo muito veloz e em diferentes campos, inclusive, também, no conflito Israel-palestinos e nos relacionamentos dentro do próprio campo palestino. Em termos gerais, hoje, a única resposta possível é que as políticas regionais do Egito e nossas políticas globais serão decididas pelo povo, pelo voto. 

MA: Mesmo assim, permita-me fazer algumas perguntas específicas. A Fraternidade Muçulmana tem algum projeto para reestruturar as relações Egito-EUA? 
IM: Gostaríamos de deter a influência ilegítima dos EUA nos negócios do Egito. Ninguém, em sã consciência, pode ignorar os EUA, especialmente os avanços no campo científico; mas, como qualquer nação independente, o Egito aspira a impedir que qualquer influência vinda de fora determine nossos negócios e nossa posição no quadro regional e global. 

MA: A Fraternidade deseja ver diminuída ou, mesmo, completamente suspensa, a ajuda militara anual que o exército egípcio recebe dos EUA? 
IM: A Fraternidade Muçulmana rejeita todo o conceito de ajuda militar, por princípio. Mas o que tenha a ver com relações entre os dois exércitos, tudo dependerá do processo democrático no Egito. 

MA: A Fraternidade Muçulmana, portanto, não exclui a possibilidade de um futuro governo egípcio cortar a ajuda que os militares recebem anualmente dos EUA? 
IM: Nossa resposta é muito clara. Nunca pedimos essa ajuda. Parte considerável da corrupção que devasta o Egito tem raízes nesse pacote de ajuda. 

MA: E quanto ao cerco de Gaza. Quando será a aberta a fronteira? 
IM: A posição da Fraternidade Muçulmana é que a fronteira já deveria ter sido plenamente aberta. 

MA: Quanto antes seja aberta, melhor? 
IM: Exatamente. 

MA: Quais são os cenários de longo prazo mais prováveis para as relações Egito-Israel? 
IM: Israel é uma ameaça e sempre criou dificuldades profundas e intrincadas para toda a Região, desde 1948. Mas não conhecemos os fatos, nem há informação confiável sobre esse assunto. Não faz sentido propor essa pergunta, quando ainda não temos acesso à informação pertinente. 

MA: A que tipo de informação o senhor refere-se? Fala exclusivamente de informações sigilosas? 
IM: Falo de toda a informação que existe e de fatos. Teremos de revisar toda a informação que ainda não está acessível, antes de tomar posições e tomar decisões políticas. 

MA: A Fraternidade Muçulmana não exclui a possibilidade de renegociar o acordo de paz de Camp David? 
IM: Outra pergunta sem sentido, hoje. Como já disse, temos de revisar muitas informações, antes de concluir. Além do mais, o povo egípcio terá de participar e não posso antecipar, aqui, o que o povo decidirá. Temos de ouvir e considerar os valores, as crenças, os sentimentos da rua, também nos conflitos internacionais. E também, a posição de outros países.