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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Para o Irã, o ano termina com importante vitória de inteligência


Mahan Abedin

22/12/2011, Mahan Abedin, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

As imagens no domingo, pela TV estatal iraniana, de Amir Hekmati, suspeito de espionar para a CIA-EUA, são mais um episódio do que parece ser importante sequência de vitórias da contrainteligência do Irã, sobre os serviços de espionagem dos EUA. 

Hekmati, 28 anos, nascido no Arizona, EUA, de família iraniana, foi acusado pelo Ministério de Inteligência e Segurança do Irã (MISI) [ing. Ministry of Intelligence and Security (MOIS)] de ter-se aproximado do MISI, para conhecer fontes externas, e de ter fornecido informações falsas.

Ex-membro do Corpo dos Fuzileiros (Marines) dos EUA, Hekmati parece ter sido preso em setembro, mas só há poucos dias apareceram as primeiras notícias sobre a prisão. 

Esse, que parece ser significativo sucesso da contrainteligência do Irã, acontece imediatamente depois da captura, em território iraniano, no início de dezembro, do ultrassecreto avião-robô comandado à distância, o drone US RQ-170 Sentinel. O Irã noticiou que unidades de especialistas em cyberguerra do exército iraniano conseguiram localizar e rastrear o drone [de tecnologia stealth, que o torna invisível aos radares, e considerado o mais moderno drone em ação no mundo] e pousaram o aparelho, também por comando à distância. Vídeos mostrados pela televisão iraniana – nos quais se vê o drone imaculadamente intacto – parecem comprovar o feito dos especialistas iranianos. 

Esses feitos indiscutivelmente impressionantes dos iranianos, nos campos da guerra de inteligência, da eletrônica e das tecnologias de ponta, ocorrem em momento de deterioração muito rápida nas relações entre o Irã e EUA, e outros países do ocidente. 

No final de novembro, manifestantes atacaram a sede da embaixada da Grã-Bretanha em Teerã, o que levou ao fechamento de embaixadas nos dois países. O ataque à embaixada também foi considerado uma extensão da guerra de inteligência entre o Irã e países ocidentais, dado que a embaixada britânica em Teerã era conhecido local onde a espionagem ocidental coletava e distribuía enorme quantidade de informação secreta. 

Tudo faz crer que o governo do Irã decidiu minimizar o alcance da interferência ocidental nas eleições parlamentares marcadas para março 2012. Em termos mais amplos, a República Islâmica parece estar mobilizando seus principais ativos de inteligência, para enfrentar o cerco econômico que está implantado, já previsível há muito tempo. 

A CIA bate em retirada 

Informação colhida de várias fontes na mídia iraniana e do jornal Asia Times Online em Teerã sugerem que a CIA teria construído uma complexa operação, para introduzir Amir Hekmati no MISI, como informante confiável do Ministério. 

Com experiência de combate no Afeganistão, Hekmati, depois de deixar o Corpo de Marines, trabalhou para várias empresas privadas “de segurança” que operam na região, todas suspeitas de conexão com a CIA. 

Acredita-se que tenha feito contacto com o MISI antes de viajar para o Irã, no verão passado, ostensivamente para visitar a família dos pais (sua família ampliada). Hekmati abordou o MISI iraniano de forma “normal”, mas levava informação suficientemente interessante, que atraiu o interesse da inteligência iraniana; mesmo assim, muitas fontes acreditam que o MISI sempre suspeitou de que ele trabalhasse para a CIA. 

Parece que a informação que Hekmati entregou ao MISI foi uma espécie de “mistura” de verdades, meias verdades e pura ficção criada pela CIA; praticamente em todos os casos, informações sobre operações militares, de inteligência e políticas dos EUA no Afeganistão. 

Embora a mídia iraniana, repetindo notícias distribuídas pelos serviços de inteligência do Irã, repita que a principal missão de Hekmati seria ganhar a confiança do MISI, para construir operação de penetração no ministério, a verdade parece ser muito mais complexa. 

Para começar, “penetrar” no Ministério de Informação e Segurança do Irã, mesmo nos setores mais periféricos, é tarefa praticamente impossível, se se consideram as muitas camadas de poderosas defesas construídas para desviar (e, eventualmente, prender em suas malhas) até os espiões mais eficientes. Evidentemente, um cidadão norte-americano e ex-Marine, com experiência de combate no Afeganistão e ex-empregado e empresas que contratam mercenários para trabalhar no Oriente Médio, jamais ultrapassaria nem a primeira trincheira de defesa da contrainteligência iraniana. 

O mais provável, embora não passe de conjectura, é que a CIA estivesse tentando identificar – para depois manipular – as questões que a inteligência iraniana estivesse considerando como prioritárias, em sua ação no Afeganistão. A “mistura” de informações de inteligência genuínas e ficcionais que Hekmati tinha para oferecer, e a muito provável promessa de continuar a fornecer o mesmo tipo de material por período prolongado, apontam imediatamente na direção dessa conjectura. 

A prisão de Hekmati acontece como mais uma, numa sequência de vitórias da contrainteligência do MISI, contra a CIA e praticamente toda a comunidade norte-americana de inteligência. A evidência de que o MISI iraniano é capaz de infligir repetidas derrotas à CIA e aos seus métodos e equipamentos mostrados (e vendidos) ao mundo com “tecnologias inexpugnáveis”, de altíssima inovação tecnológica, reforça a reputação de que os iranianos já gozam, de terem construído uma das, senão a maior, organização de inteligência e contrainteligência ativa hoje no planeta. 

O rastreamento e a captura do drone RQ-170 Sentinel, operado pela Força Aérea dos EUA a serviço da CIA, sem dúvida devem fazer aumentar as aflições dos EUA, acrescentando credibilidade a informações já circulantes, de que o Irã já é centro sofisticado de contraespionagem, guerra tecnológica e cyberguerra. 

O duro golpe assestado contra o prestígio dos EUA pareceu ainda maior, depois que o presidente Barack Obama dos EUA “solicitou” que o Irã devolvesse o drone capturado, depois de já circularem em todo o mundo notícias sobre as extraordinárias circunstâncias que cercaram o rastreamento e o pouso do aparelho[1]. Os iranianos sequer consideraram a “solicitação” dos EUA. 

Guerra econômica 

O aumento dramático da atividade da CIA dentro do Irã em 2011 reforçou a certeza, entre as lideranças políticas iranianas, de que potências ocidentais estão decididas a forçar o confronto, com alta probabilidade de agressão militar contra a República Islâmica. 

Nessa linha, os analistas e estrategistas iranianos provavelmente usarão as recentes vitórias no campo da contrainteligência para alcançar três objetivos de curto e médio prazos. Em primeiro lugar e sobretudo, a liderança política em Teerã induzirá o MISI a entrar em disputa direta contra a CIA e outras agências ocidentais de espionagem, campo no qual é possível encontrar meios que ajudem o Irã a sobreviver ao feroz bloqueio econômico hoje imposto pelos EUA e para, eventualmente, neutralizar o bloqueio. 

A ideia dominante em Teerã é que o regime de sanções tornar-se-á ainda mais feroz em 2012, podendo chegar ao estado de total sítio econômico até o final do próximo ano; cenário sempre mais provável, no caso de o Ocidente decidir boicotar o gás e o petróleo que o Irã exporta. 

Em segundo lugar, é objetivo importante da liderança iraniana impedir que os serviços de espionagem ocidentais infiltrem-se no processo eleitoral e interfiram nas eleições parlamentares marcadas para março. Teerã suspeita que as agências de espionagem ocidentais, operando direta e indiretamente com elementos dos partidos de oposição, trabalharão para incitar tumultos e sequestrar manifestações populares que ocorram no país, em ação semelhante à que já se viu na capital iraniana em junho de 2009, depois das eleições presidenciais. 

O ataque à embaixada britânica foi, em parte, motivado por essa preocupação. O fechamento da embaixada britânica em Teerã privou os governos da Grã-Bretanha e dos EUA de fonte importantíssima de informações; e cortou, sobretudo, os vasos comunicantes que ligavam os espiões dos EUA e Grã-Bretanha e seus contatos no “nível da rua”. 

Em terceiro lugar, a República Islâmica muito provavelmente usará os importantes sucessos de inteligência e contrainteligência do MISI para ampliar e reforçar as estruturas de segurança que começaram a ser implantadas no país depois das eleições presidenciais de junho de 2009 e dos tumultos que se seguiram, muito maiores do que se poderia esperar que fossem, considerado o real prestígio político e popular dos líderes locais da “contestação”. 

Embora sempre apresentada como solução apenas temporária, todos os níveis da República Islâmica trabalham para reforçar a segurança, preparando o país para resistir a uma agressão militar que Teerã já considera inevitável.


Nota dos tradutores
[1]  Ver, sobre isso, “O caso do drone-espião: Obama entra em cena pisando leve”, 15/12/2011, MK BhadrakumarIndian Punchline (em português).

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Inteligência iraniana impõe dura derrota à CIA-EUA


Mahan Abedin

30/11/2011, Mahan Abedin, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A prisão de 12 espiões que trabalhavam para a CIA-EUA, anunciada recentemente pelas autoridades iranianas, pode vir a revelar-se muito duro golpe contra os esforços da agência norte-americana que busca coletar informações sobre o Irã e, no geral, contra toda inteligência dos EUA. Essas prisões recentes acontecem imediatamente depois da prisão, em maio passado, de outros 30 suspeitos de também trabalharem para a CIA; e indicam que o Irã já conta com importantes capacidades de contrainteligência.

Os mais recentes sucessos iranianos são reforçados pela descoberta e desmontagem de uma cadeia de espionagem da CIA que operava dentro do grupo Hezbollah no Líbano. Todas essas notícias já foram confirmadas, muito a contragosto, por atuais e antigos funcionários da inteligência dos EUA – o que sugere fortemente que se trate, sim, de grave derrota da inteligência dos EUA, ou, mesmo, de desastre de grandes proporções.

Recentes sucessos da contrainteligência do Hezbollah contra Israel e EUA (em junho, o Hezbollah prendeu dois espiões da CIA que trabalhavam infiltrados na organização) são outros bons resultados devidos, pelo menos em parte, à crescente colaboração que o Hezbollah tem recebido da contrainteligência iraniana.

Fontes do jornal Asia Times Online em Teerã dizem que, nos últimos meses, o Ministério de Inteligência e Segurança do Irã [ing. Ministry of Intelligence and Security (MOIS)] tem-se mostrado mais disposto a partilhar técnicas e know-how extremamente sensíveis de contraespionagem, com o Hezbollah e com os serviços oficiais da inteligência do Líbano.

Quanto à prisão, no Irã, dos 12 suspeitos de espionar a serviço da CIA, além de ser indicação clara da escalada de missões clandestinas da inteligência dos EUA dentro do Irã, há duas observações necessárias. Primeira: é patente que a CIA opera hoje sob baixos padrões de qualidade, seja no recrutamento seja na gestão de seu pessoal. Segunda: há sinais de que o Ministério de Inteligência e Segurança do Irã já está conseguindo converter o Irã em espaço inacessível aos serviços de inteligência estrangeiros hostis.

Informação obtida de muitas fontes na imprensa iraniana – e confirmada por fontes de Asia Times Online em Teerã – sugere que a CIA estaria operando sem objetivo claro (‘atire para todos os lados’), e recolhendo informação de praticamente qualquer cidadão.

Em maio, circularam notícias de que haveria “operadores” do governo entre os suspeitos de espionagem então presos; agora, o ministro da Inteligência do Irã Heydar Moslehi já disse a jornalistas locais, no domingo, que não há funcionários do governo entre os 12 novos suspeitos de espionagem presos.

Falando dos bastidores da reunião semanal do Gabinete, Moslehi deu fortes indícios de que muitos, se não todos os presos recentes são ou jovens cientistas ou estudantes de famílias abastadas que viajam frequentemente ao exterior, em viagens de estudos ou para congressos e seminários científicos.

Informação que se encontra em muitos veículos da mídia iraniana ao longo dos últimos seis meses – e também confirmada por fontes de Asia Times Online em Teerã – parece indicar que, além do alvo principal (o programa nuclear iraniano e o establishment de defesa do país), a CIA opera também conta outros alvos dentro do Irã: o sistema bancário e financeiro iraniano; as redes de logística e transporte (principalmente transporte aéreo); o planejamento urbano; o setor de petróleo e gás; e a indústria de softwares, principalmente empresas privadas que criam e operam os programas especialistas usados dentro do governo iraniano.

Mais especificamente, a CIA parece interessada em descobrir e entender como o Irã está conseguindo contornar e superar as sanções internacionais e unilaterais impostas por EUA e países europeus; como e em que extensão o Irã está usando o sistema financeiro internacional para manter em andamento vários projetos críticos, e os negócios do dia-a-dia da vida do país; vulnerabilidades que haja na rede logística e de transportes; os níveis de prontidão e preparo das organizações iranianas de socorro humanitário e resposta a emergências; e, em termos mais gerais, a resistência da infraestrutura iraniana crítica que esteja disponível para operar no país no caso de grande desastre ou longo período de estresse (como, evidentemente, se o país for militarmente atacado).
 
Para alcançar esses objetivos, o Serviço Nacional Clandestino [ing. National Clandestine Service (NCS)] da CIA criou uma equipe dedicada de operadores e analistas, que trabalham, basicamente, em países que têm fronteiras com o Irã, mas também mais longe, especialmente em países onde vivam número significativo de estudantes iranianos, como a Malásia.

Essa rede dedicada é excepcionalmente bem treinada. Por exemplo, todos esses agentes de campo e analistas têm de ser falantes super eficientes da língua persa e ter competências de alto nível nas “trocas interculturais”.

Há sinais de que a CIA-EUA começou a construir essa vasta rede dedicada em 2003; e em meados de 2008, a maioria dos agentes já estava em campo. Tudo isso ajuda a ver a extensão e a importância dos recentes sucessos da contrainteligência do Irã, a qual, agora, já expôs, neutralizou e tornou inócuos praticamente todo o gigantesco aparato e vastos investimentos da contrainteligência da CIA-EUA no país.

Ao longo das investigações e trabalho especializado de contraespionagem, o Ministério de Inteligência e Segurança do Irã diz já ter identificado 42 oficiais do NCS-CIA que trabalham em vários países e já ter recolhido informação detalhada sobre o objetivo e a natureza de seu trabalho.

As equipes desse serviço NCS-CIA parecem trabalhar embutidas em várias organizações oficiais e não oficiais dos EUA, como embaixadas dos EUA, corporações multinacionais, organizações comerciais de porte médio, consultorias e empresas de recrutamento de empregados, serviços de imigração e outros serviços oficiais mais amplos, em universidades e instituições para-acadêmicas de renome, e em institutos, think tanks e empresas menos conhecidas.

Se se pode crer em matérias distribuídas pela imprensa online iraniana, a obsessão com cientistas e estudantes iranianos de ciências pode ter sido o calcanhar de Aquiles da operação, a partir do qual toda a operação pôde ser desmontada. Já se sugeriu que a existência de uma rede de 30 pessoas e suas sub-redes, já desmanteladas no início desse ano (anúncio feito no final de maio) chamou a atenção das autoridades iranianas graças a informações prestadas voluntariamente por um estudante iraniano que suspeitou, ao ser abordado por uma instituição para-acadêmica (que lhe ofereceu bolsas de estudo e dinheiro), na Malásia.
 
O Ministério de Inteligência e Segurança do Irã passou então a investigar aquela instituição e rapidamente descobriu que mantinha contato direto com a CIA. A partir daí, a investigação ganhou fôlego e, em pouco tempo, mais de trinta suspeitos de atividades de espionagem foram identificados e localizados.

Já se sabe que 75% dos acusados de espionagem esse ano têm altas qualificações acadêmicas. Por um lado, pode sugerir novidade na abordagem pela CIA, que agora andaria à caça de cientistas iranianos e estudantes mais bem dotados, pensando em recolher informações a serem utilizadas em curto e médio prazos.

Mas, por outro lado, o fato de estarem sendo abordados estudantes “em geral” (não agentes ou funcionários do governo que têm acesso a informação de melhor qualidade), indicam, também, que a CIA está sem rumo, pressionada pelo tempo e pelo desespero; indica que a Agência não está em condições de selecionar melhor nem a informação que mais lhe interesse nem o melhor informante a recrutar, e tem de operar com recrutas “de baixo nível”, na esperança de poder “aquecer” rapidamente esses agentes “frios”, uma vez que esses estudantes e cientistas só muito raramente têm acesso a qualquer tipo de informação realmente classificada – além de serem alvos sempre expostos às investigações dos serviços da inteligência iraniana.

Não há dúvidas de que, depois desse mais recente sucesso da inteligência do Irã, as próprias organizações iranianas (entre as quais os serviços de inteligência do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, mas, igualmente, todo o establishment iraniano de defesa) estão em melhores condições para operar, livres de inúmeros espiões dos EUA e, em todos os casos, mais seguros do que antes.

Além do mais, pode-se dizer que, quanto mais a CIA vê-se obrigada a baixar os critérios de exigência e a ter de recrutar agentes “frios”, a própria CIA passa a expor-se a riscos maiores, no longo prazo, e mais difícil vai-se tornando a operação dentro do Irã, uma vez que já está bem provado que o Ministério de Inteligência e Segurança do Irã é, sim, perfeitamente capaz de desmontar as redes norte-americanas de espionagem e, como se viu, bem no início daquelas operações.

Em resumo, parece haver hoje certa disparidade entre as tentativas de escalada, nos movimentos de espionagem da CIA no Irã, e a eficácia das respostas de contraespionagem que saem do Ministério de Inteligência e Segurança do Irã. Não parece haver qualquer dúvida de que, hoje, os espiões iranianos estão vencendo essa disputa.

Contudo, apesar de haver progressos muito visíveis nas capacidades de contraespionagem no Irã, o país ainda não alcançou o ponto em que as atividades de espionagem dentro do país tornem-se proibitivas custosas, a ponto de agências ocidentais não conseguirem operar lá. De fato, hoje, todos os serviços secretos dos principais países ocidentais, do Leste Europeu, dos EUA e de Israel ainda operam, ou diretamente dentro do Irã, ou fora, associados a elementos da diáspora iraniana.

Seja como for, há claros sinais no ar de que, em termos exclusivamente de guerra de inteligência (que nada tem a ver com ações de sabotagem e “assassinatos pré-definidos” [targeted assassinations]), o Irã já começou a virar o jogo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Khamenei lançou a luva

Mahan Abedin

20/9/2011, Mahan Abedin, Asia Times Online  
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Além dos aspectos ideológicos e inspiracionais, o discurso de Khamenei, anteontem, na abertura da Conferência “Despertar Islâmico” [1] abraçou assumidamente questões estratégicas chaves como, dentre outras, a ansiedade que consome as grandes potências não-ocidentais, como Rússia e China; e também potências ainda emergentes, como Brasil e Índia, ante o que possa acontecer se aumentar a influência do ocidente no mundo muçulmano – sobretudo, é claro, depois da intervenção e ocupação militar, pela OTAN, na Líbia.

A Conferência “Despertar Islâmico”, que se realizou em Teerã no final de semana foi ocasião para que a República Islâmica do Irã expusesse sua narrativa a respeito da chamada “Primavera Árabe”. 

Participaram da Conferência centenas de intelectuais, líderes espirituais e ativistas políticos do mundo islâmico e de fora dele, recepcionados, na abertura, pelo Grande Aiatolá da Revolução Islâmica Seyed Ali Khamenei e pelo presidente Mahmud Ahmadinejad. 

O discurso do Aiatolá Khamenei na abertura da Conferência é documento muito importante, porque ali estão postas, do modo até aqui mais completo e claro, as ideias da República Islâmica sobre os levantes populares em todo o mundo árabe e sobre o projeto do Irã, para enquadrar, num paradigma revolucionário islâmico, as mudanças que estão ocorrendo. 

É importante examinar em detalhe as palavras de Khamenei, porque esse foi o mais importante de seus discursos públicos, desde junho de 2009, quando comentou, na fala das Orações da 6ª-feira, as manifestações de rua, em Teerã, depois das eleições. 

Aquele discurso, rico de mensagens sutis e complexas, foi instrumento vitalmente importante para que a República Islâmica e seus apoiadores conseguissem desarmar a infraestrutura política, intelectual e organizacional que começava a constituir-se no movimento que já aparecia em todo mundo sob o nome de “movimento Verde”. 

Antes de analisar o discurso do Grande Aiatolá Khamenei, vale a pena resumir os conceitos básicos, fundacionais, que subjazem ao atual debate. Os discursos de Khamenei ao longo dos últimos 21 anos, desde que assumiu a liderança da República Islâmica, têm sido construídos para enquadrar, delinear e expandir a compreensão e as interpretações de questões chaves – econômicas, sociais, culturais, políticas nacionais e regionais e de política exterior. 

São discursos que podem ser considerados como declaração de intenções, no que tenham a ver com pressupostos ideológicos; mas só muito raramente (se algum dia aconteceu) as ideias que aparecem pela primeira vez nos discursos do Grande Aiatolá são implementadas diretamente, sem demorada consideração a outros pontos também definidos como relevantes – como interesses pragmáticos e viabilidade. 

Na esfera da política externa, os discursos de Khamenei visam, sobretudo, a expor orientações ideológicas e metas a serem buscadas diretamente nas relações exteriores. Mas, embora o conteúdo ideológico que Khamenei acrescenta seja sempre importante elemento da concepção da política externa da República Islâmica – e ele tenha, sim, a palavra final em todas as questões relevantes de Estado –, não se pode deixar de observar que em nenhum caso a política externa iraniana pode ser definida exclusivamente em termos ideológicos. 

Não é objetivo desse artigo avaliar detalhadamente a formulação e a implementação da política exterior da República Islâmica. Basta-nos, aqui, anotar que, para entender correta e profundamente aquela política, é preciso conhecer os temas fundacionais sobre os quais se construiu a política exterior do Irã desde o início do século 19, e o quanto, daqueles temas, foram cooptados, adaptados e modificados pelo discurso da Revolução Islâmica de 1979. Outro estrato adicional de pesquisa deve dedicar-se ao estudo das instituições existentes, cuja missão é interpretar, adaptar e, afinal, implementar a simbiose resultante. 

Para nos dar condições para entender melhor o mais recente discurso de Khamenei, vale a pena examinar as raízes ideológicas e fundacionais do que pensa o Irã sobre a islamização. As ideias e o discurso da República Islâmica sobre islamização repousam sobre três fundamentos.

Primeiro e principal, no plano mais profundo da autodefinição e autoidentificação da Revolução Islâmica Iraniana, estão as raízes e a força gerativa constituinte que vêm do xiismo, mais especificamente da experiência histórica ou imaginada dos “Doze Xiitas Muçulmanos” [ing. Twelver Shi'ite Muslims] [2]. 

Segundo, nos planos intelectual e político, a Revolução Islâmica critica a modernidade ocidental, não com vistas à total rejeição, mas para destacar a divergência entre as respectivas experiências históricas, que marcam diferenças entre o campo ocidental judeu-cristão e o mundo islâmico. Resultado disso é uma crítica profunda do secularismo à maneira do ocidente, mas aceitação com restrições da democracia de estilo ocidental, considerada sempre, contudo, sem os sobretons liberais. 

Terceiro, na esfera das relações exteriores, a Revolução Islâmica adota visão e política do panislamismo e, em resumo, aspira à unidade política do mundo do Islã. 

Pode-se dizer que esse terceiro fator é o mais importante, na medida em que controla o cerne da energia da Revolução Islâmica para a esfera geopolítica e modela sua visão política e suas as políticas, em direta oposição à visão e às políticas das potências ocidentais dominantes hoje. Esse é ponto de partida importante para demarcar diferenças entre a visão islâmica iraniana e de outros casos notáveis, como, por exemplo, dos turcos, cujos islamistas “soft” [ing. no original], reunidos principalmente no Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), associam a islamização ao paradigma de democratização mais radical e desenvolvimento econômico. 

Similar ao partido AKP turco, a ala reformista da República Islâmica prioriza a democratização, o desenvolvimento da sociedade civil e a resiliência econômica, em detrimento de inovações e radicalismo na política externa. 

Mas o ponto chave que se deve considerar é que, embora os reformistas da República Islâmica tenham conseguido incorporar suas ideias e visão sobre política e sociedade civil, hoje entretecidas no próprio tecido da sociedade política e intelectual do Irã, as suas ideias sobre política externa têm sido consideradas ainda pouco claras, em termos conceituais; por isso, têm sido, em larga medida, excluídas do processo de tomada de decisões nas instituições da política exterior do Irã. 

A coordenação, no tempo, entre essa Conferência sobre o “Despertar Islâmico” e o discurso de Khamenei, também é fator importante a considerar, porque coincidem com a visita de líderes ocidentais à Líbia[3]e com o tour regional do primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan[4]– que teve seu ponto mais alto na visita ao Cairo. 

Teerã vê como ameaças esses dois eventos, embora em graus diferentes de intensidade e consequências. A visita do primeiro-ministro britânico David Cameron e do presidente Nicolas Sarkozy da França, apresentadas como visita “em triunfo” a Trípoli, está sendo interpretada em Teerã como declaração, pelas potências ocidentais, de sua intenção de intervir diretamente – inclusive intervenção militar, se necessária – nos processos políticos que estão modelando as convulsões em todo o mundo árabe; e intervenção que visará, também, a renovar e consolidar a influência política e econômica do ocidente na região. 

A passagem de Erdogan pela região, com várias paradas, está sendo interpretada em Teerã como tentativa de Ancara de, não só salvaguardar interesses chaves, econômicos e políticos da Turquia, mas, também, para divulgar “o modelo turco”, a visão que os turcos têm de uma democracia “local” com desenvolvimento econômico para a região – marcadamente diferente (mas não fundamentalmente) diferente da visão ocidental. 

A Conferência “Despertar Islâmico” em Teerã acontece também em momento em que crescem os ataques contra o Irã, por líderes ocidentais importantes, como o secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, que acusou o Irã de hipocrisia, por apoiar revoluções no mundo árabe, depois de ter reprimido movimentos de protesto no próprio país, em 2009; e por apoiar também o fragilizado regime sírio. 

Por sua vez, o Irã também acusa o ocidente de hipocrisia; chama a atenção para os laços que, por muito tempo, uniram o ocidente e líderes árabes autoritários (entre os quais o Irã inclui Muammar Gaddafi na Líbia); apoio a ditadores que, por oportunismo, o ocidente, depois, converteu em apoio à Primavera Árabe. O Irã também acusa países ocidentais de apoiarem algumas revoluções (como na Líbia) e, simultaneamente, fechar os olhos ante a repressão violenta contra manifestantes, em outros casos (como no Bahrain). 

Nesse discurso, o Grande Aiatolá Khamenei elabora sobre três fatores crucialmente importantes para que se compreenda o pensamento iraniano sobre o que se denominou “Despertar Islâmico”. A saber: raízes históricas e identidade ideológica dos movimentos árabes de protesto; perigos e ameaças que cercam esses movimentos revolucionários embrionários; e sugestões, derivadas da experiência direta da Revolução Islâmica Iraniana, para evitar e neutralizar aqueles perigos e ameaças. 

Sobre o caráter dos movimentos de protesto, Khamenei os conecta aos 150 anos de movimentos islâmicos revivalistas no mundo muçulmano. Distingue-os das mudanças políticas imediatamente pós-coloniais em países como Egito, Argélia e Líbia, que foram liderados por pequenas elites militares que apenas pressupuseram que teriam apoio popular para suas ações; e chama a atenção para a natureza de “movimento de massa” dos movimentos hoje em curso; chama atenção, também, para a evidência de que são milhões de pessoas que clamam por mudança política. No caso dos movimentos em curso, o apoio popular à mudança não é só pressuposto, mas visível a olho nu. 

Sempre em espírito de celebrar o poder dos movimentos de massa, Khamenei condena fortemente a intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia e interpreta a intervenção como flagrante tentativa, pelas grandes potências ocidentais, de alcançar posição da qual possam controlar o movimento árabe revolucionário, e conseguir dirigi-lo, de modo a que sirva aos interesses ocidentais (ideológicos, políticos e econômicos). 

Ao ligar os movimentos da Primavera Árabe aos 150 anos de luta por um renascer islâmico, Khamenei trabalha para definir os movimentos de rua no mundo árabe, hoje, como “parentes próximos” do modelo da Revolução Islâmica Iraniana. Essa modelagem ganha níveis mais densos quando Khamenei fala sobre as mais profundas aspirações dos manifestantes árabes. 

Segundo o Grande Aiatolá Khamenei, os manifestantes são arrastados por quatro aspirações principais: reviver a honra nacional, depois de décadas de governo ditatorial, caracterizado pela subserviência ao ocidente; manter alto o padrão islâmico, ao mesmo tempo em que lutam por justiça social e desenvolvimento econômicos autênticos – os quais, para Khamenei, só são possíveis sob as regras da lei islâmica, a Xaria; resistir contra a influência política e cultural dos EUA e da Europa; e para que se unam todos os países árabes, na batalha contra Israel, descrita como “regime usurpante” e “governo sionista fantoche”, implantado pelo ocidente na região na forma de um “reino Cruzado”, para expulsar todo um povo de sua terra original e histórica e manter cravado permanentemente um punhal, no corpo político da Região. 

O modo como Khamenei vê as motivações subjacentes nos movimentos populares da Primavera Árabe e, pode-se conjecturar, também sua visão dos possíveis resultados políticos, acompanham bem de perto, como sinônimos, o que a República Islâmica pensa como o principal significado de islamização: luta para recompor o mapa geopolítico da região, que prevê expulsar influências estrangeiras não buscadas ou que se tenham imposto à força – referindo-se sempre e sobretudo à massiva presença militar dos EUA no Golfo Persa. 

Khamenei relembra que imediatamente depois da vitória da Revolução Iraniana em 1979, os novos líderes revolucionários (inclusive ele próprio) esperavam que o Egito os seguisse no processo revolucionário, dado o potencial que viam naquele país para mudança revolucionária, consideradas as profundas raízes do revivalismo no Egito e os muitos grandes intelectuais e líderes islâmicos que o Egito produziu. 

Para Khamenei, o retardo do processo revolucionário no Egito explicar-se-ia pelo argumento de que, hoje, a revolução egípcia aparece “em momento adequado”. É possível que o foco específico no Egito seja casual, reforçado pelo fato de que aquele país desempenha papel central nas questões árabes e no destino comum de todos os árabes. 

Mas é mais provável que o destaque que Khamenei deu ao Egito seja expressão de alguma frustração entre os líderes iranianos, e apelo direto aos sentimentos pró-iranianos que há no vasto movimento islâmico egípcio, incorporado, sobretudo, mas não exclusivamente, na Fraternidade Muçulmana. 

Os segundo e terceiro tópicos (ameaças às revoluções árabes; e meios para enfrentar essas ameaças) refletem a experiência direta da Revolução Iraniana, com vistas à luta dos novos revolucionários contra seus inimigos internos e externos. 

Khamenei divide as ameaças presentes em duas amplas categorias: ameaças que brotam de dentro das fileiras dos revolucionários; e ameaças cuidadosamente planejadas pelos inimigos externos dos revolucionários. 

Sobre as primeiras, Khamenei alerta contra o excesso de complacência em relação aos avanços da revolução e a ambição pessoal de alguns dos aspirantes a líderes da revolução. Alerta também contra moderar demais as exigências e os objetivos da revolução, ante ameaças reais ou pressentidas e a corrupção agenciada pelas potências “arrogantes” – expressão que sempre designa os EUA e seus aliados. 

Em relação aos fatores externos, o líder iraniano identifica, como principal e mais perniciosa ameaça, a persistente tentativa, pelo Ocidente, de infiltrar-se em todos os níveis da revolução. Khamenei diz que, depois da queda “inevitável” de seus asseclas locais, o ocidente continuará a tentar manter no poder os velhos respectivos “sistemas”, para impedir que os frutos das revoluções sejam fruídos e gerem, como se deve prever que aconteça, sistemas completamente novos. 

Como conselho para superar essas ameaças, Khamenei lembra que o desvio dos movimentos revolucionários, hoje, já é visível nos slogans e objetivos declarados. E, aí, o líder iraniano lança ataque direto contra os EUA, a OTAN e os “regimes criminosos” do Reino Unido, França e Itália, os quais, diz ele, já foram potências ocupantes e de exploração nas mesmas terras às quais hoje voltam como falsos libertadores. 

Khamenei alerta contra extremistas religiosos e chama a atenção para que se identifiquem e administrem-se as diferenças religiosas no mundo islâmico. Aconselha que a islamização não se deixe acompanhar por tendências reacionárias, intolerância e chauvinismo religiosos – os quais, diz ele, podem gerar violência “cega”. 

Aí se vê expressão do medo, entre os líderes iranianos, de que um dos efeitos imediatos da instabilidade provocada pelo colapso da ordem árabe possa ser o aprofundamento de divisões sectárias na região, com escalada nos conflitos já existentes. 

Além de listar ameaças pontuais, Khamenei diz que a principal tarefa à qual os revolucionários árabes terão de dedicar-se é propor e construir novos “sistemas”, os quais, diz o líder iraniano, são a mais firme garantia contra a contaminação nos planos intelectual e político, por outros sistemas político-ideológicos, principalmente contra o secularismo, o liberalismo, o nacionalismo e as ideologias do esquerdismo ocidentais. 

Por fim, diz que a criação de uma Umma (comunidade) islâmica unificada e o florescimento de uma nova civilização islâmica baseada na “religião, na lógica, na ciência e na ética” devem ser postos como objetivos máximos dos movimentos revolucionários no mundo árabe. O destaque que Khamenei dá à unidade islâmica, como principal objetivo dos revolucionários é esforço para harmonizar, de um lado a trajetória política de longo prazo das revoluções árabes, e, de outro, a dimensão aspiracional da política exterior do Irã. 

Esse discurso de Khamenei é evento relevante e significativo e deve ser considerado, em todos os sentidos, uma declaração de intenção. Mais do que orientado para o público que o ouviu diretamente, o discurso foi dirigiu-se às instituições oficiais do governo iraniano e aos apoiadores da Revolução Islâmica na região e fora dela. O discurso é como uma aula, que instrui todo esse grande público, em termos gerais, sobre como ler e interpretar as mudanças políticas pelas quais passa o mundo árabe; para que todos possam, na sequência, calibrar cada respectivo engajamento com cada ator envolvido. 

É reação direta às declarações e ações de líderes ocidentais nas últimas semanas e visa a provocar uma escalada na guerra retórica. Khamenei quer que o mundo veja, com mais clareza e sob foco mais fechado, as profundas diferenças de paradigma que separam as revoluções em curso no mundo árabe, e a ‘resposta’ das potências “arrogantes” àquelas revoluções. 

Além dos aspectos ideológicos e inspiracionais, esse discurso de Khamenei abraçou assumidamente questões estratégicas chaves como, dentre outras, a ansiedade que consome as grandes potências não-ocidentais, como Rússia e China; e também potências ainda emergentes, como Brasil e Índia, ante o que possa vir a acontecer se aumentar a influência do ocidente no mundo muçulmano – sobretudo, é claro, depois da intervenção e ocupação militar, pela OTAN, na Líbia. 

Ao posicionar o Irã em oposição direta e declarada às ideias e planos do ocidente, Khamenei explora muito habilmente a crescente ansiedade em Moscou e Pequim e aumenta o incentivo àqueles países para que apoiem o Irã nesse conflito diplomático, político e potencialmente também militar com o ocidente. 



Notas dos tradutores
[1]  Transcrição integral (em inglês) - em processo de tradução para o português do Brasil.
[2]  Xiitas “Dozistas” [ing. Twelver Shia ou os Ithnā'ashariyyah'] são o maior ramo do islamismo xiita. A denominação deriva da doutrina que segue os ensinamentos de 12 imãs, em sequência fixada por deus, os chamados “Doze Imãs”.
[3] Ver 17/9/2011, Pepe Escobar, “Líbia: ao rei Sarkozy, o butim.
[4] Ver, 14/9/2011, Pepe Escobar, “Turquia, na vanguarda da Primavera Árabe”.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Legados gêmeos do 11/9

Mahan Abedin


12/9/2011, Mahan Abedin, Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



Quando os EUA e aliados choram os ataques de há dez anos, vale a pena pôr aqueles eventos e suas consequências numa perspectiva intelectual e geopolítica coesa, que faça sentido. 

O dia 11/9/2001 ficou na história como data dos mais audaciosos e mortais ataques terroristas da história moderna. O perfeito timing da ação ampliou o impacto do que aconteceu nos dois prédios gêmeos e no Pentágono – e deu aos ataques significado geopolítico não merecido. As atrocidades aconteceram num momento de profunda confusão intelectual sobre o rumo de várias questões mundiais, sobre, afinal, a própria natureza das relações internacionais, na aurora de um novo século. 

Os anos 1990s haviam assistido ao crescimento dramático da teoria da “globalização”, com universidades em todo o mundo ocidental pontificando sobre o declínio do estado nacional e a ascensão de vasta gama de atores não estatais, de empresas multinacionais a redes transnacionais de terrorismo, para preencher o vazio. 

À primeira vista, o assalto da al-Qaeda aos EUA pareceu dar credibilidade a essas teorias, e nem o mais empedernido realista escaparia ao feitiço da simbologia: uma pequena organização terrorista, plena de idiossincrasias, desmoraliza a maior potência da história. Mas, passado o impacto imediato, a natureza e a intensidade da resposta dos EUA e seus aliados rapidamente puseram fim a teorias liberais da globalização e, mais uma vez, obrigaram a repor as principais nações-estados no epicentro das relações internacionais. 

O “11/9”, como passou a ser chamado, parece ter deixado dois restos-legados duradouros, os quais, ambos, modelarão a política internacional na primeira metade do século 21. Primeiro, o esforço concentrado dos EUA para acumular a máxima hegemonia possível, para tentar gerir o próprio declínio, que os EUA temem que venha com a segunda metade do século, assegurando ‘pouso suave’. Segundo, a provável evolução política do Islã, como fator estável na política regional. 

Catarse estratégica 

Inevitavelmente, os ataques terroristas do 11/9 passaram por intensa e prolongada avaliação política, por analistas que recomendavam a presença decisiva dos EUA no cenário mundial e analistas que se opunham a ela. Também inevitavelmente, surgiram muitas teorias conspiracionais, a maioria das quais centrada na premissa de que teria havido interferência do governo dos EUA nos ataques, na expectativa de colher benefícios estratégicos.

A narrativa oficial sobre os ataques do 11/9, corporificada no relatório da comissão oficial de investigação, deixa sem respostas muitas perguntas e não é resultado de investigação exaustiva; mesmo assim, é, provavelmente, a mais próxima que há, da verdade.

Os chamados jihadis da al-Qaeda que planejaram e executaram os ataques contra os dois prédios do Centro Comercial Mundial em New York e contra o Pentágono em Washington DC agiram, muito provavelmente, movidos por seus próprios desejos e projetos políticos e estratégicos. Mas houve muita especulação, muitos erros de informação jornalística e análises quase sempre superficiais sobre as origens, a natureza da ideologia dos jihadis e sobre a precisa relação entre eles e movimentos políticos mais amplos e mais conhecidos no mundo árabe. 

Ingrediente importante nessa confusão foi o crescimento astronômico da indústria dos “estudos sobre o terrorismo” nos EUA e, em menor escala, em toda a Europa ocidental, indústria que se apresenta como produtora de pesquisa independente, mas que, longe disso, existe exclusivamente como arrimo ou das políticas oficiais ou de uma chusma de interesses políticos e ideológicos – privados –, nos EUA, a maioria dos quais são abertamente calvinistas e, em muitos casos, islamofóbicos. 

O trabalho determinado de várias entidades e empresas político-intelectuais nos EUA (com raízes profundas no governo e nas grandes corporações empresariais) para construir laços diretos entre os ataques terroristas e o Islã político e, portanto, laços também com o próprio Islã, não é apenas manifestação de visão intelectual e política estreita, que deixa sem considerar um muito amplo conjunto de questões políticas, históricas e teológicas; é trabalho também intelectualmente desonesto e impressionante exemplo de perversão intelectual. 

Não se trata de desassociar completamente os ataques aos EUA, de um lado, e, de outro, a perspectiva ideológica, política e estratégica do pensamento árabe islamita dominante e, mais especificamente, da Fraternidade Muçulmana (FM) e de suas décadas de trabalho para reformular toda a infraestrutura política e social do mundo árabe pelo parâmetro da própria específica visão islâmica da própria FM. 

Mas, dada a natureza religiosa da ideologia da al-Qaeda e, mais importante, dada a evidência de que o movimento formula em termos religiosos os seus objetivos políticos e estratégicos, o mais provável é que haja conexões indiretas e polinização cruzada de ideias e visões entre os vários principais grupos islâmicos. Para realmente entender essas conexões é preciso pesquisa séria, detalhada, e alto padrão de seriedade e respeitabilidade intelectuais. 

O fator motivador mais imediato para os ataques do 11/9 foi a maturação de um conjunto de ressentimentos profundamente enraizados, reais ou sentidos como tais, contra as políticas dos EUA no mundo árabe e no mais amplo mundo muçulmano. As décadas de apoio que os EUA garantiram a regimes árabes autoritários, justificadas pela busca de segurança no campo da energia, afetaram profundamente a rua árabe, ressentimento fundo que foi vorazmente explorado pela al-Qaeda, que se autoapresenta como vanguarda da opinião pública árabe e muçulmana. 

A aquiescência dos EUA (em vários casos o apoio direto) com o papel desestabilizador que Israel desempenha no Oriente Médio, também foi profundamente ressentida e, mais uma vez, também pôde ser facilmente explorada por grupos que se apresentam como vanguarda da consciência no mundo muçulmano. 

Motivações mais profundas podem ser encontradas na experiência direta dos jihads árabes no Afeganistão nos anos 1980s; e a crença genuína (com a correspondente húbris) de que o envolvimento da chamada Jihad afegã teria sido fator decisivo que forçou a retirada dos soviéticos do Afeganistão em 1989, o que teria precipitado o colapso da União Soviética, dois anos depois. Alguns dos líderes da al-Qaeda contaram com que o movimento teria destino semelhante na disputa contra os ainda mais formidáveis EUA. 

Essa surpreendente fantasia explica em boa parte que, embora a al-Qaeda e seus aliados sejam adeptos da propaganda e de construir narrativas complexas, sejam incapazes de produzir pensamento estratégico elaborado e próprio. 

O fato de o terrorismo da al-Qaeda ter-se conectado com as correntes intelectuais e ideológicas mais amplas do pensamento árabe islamita é resultado de a al-Qaeda ter sabido explorar, com oportunismo, a inabilidade da Fraternidade Muçulmana, que jamais conseguiu expor, nem em versão mínima, seus objetivos políticos. Nesse ponto, a al-Qaeda respondia à frustração dos elementos mais radicais, nas franjas da Fraternidade Muçulmana e grupos associados, que declaradamente rejeitavam a violência, ao mesmo tempo em que, em segredo, esperavam ansiosamente qualquer chance de acertar golpe forte contra a fonte ressentida de seus fracassos. 

A soma desses fatores levou a grau altíssimo de estresse e de expectativa, que direta e indiretamente levaram à concepção e ao planejamento dos ataques, cuja execução eventual visava a alcançar uma espécie de catarse estratégica, e a conseguir ampliar o conflito com os EUA, levando-o a um novo nível. 

O efeito imediato da resposta de vingança e retaliação dos EUA jogou a favor da agenda da al-Qaeda, resposta automática, não refletida, que foi reforçada em seguida com conteúdos intelectuais-ideológicos incorporados sobretudo na declaração de uma “guerra ao terror” – contra-ataque retórico surpreendentemente inadequado e pouco inteligente, manifestação do que há de mais superficial na cultura política dos EUA. 

Mas é erro supor que a resposta de médio e de longo prazo dos EUA, em campo – especificamente o maior envolvimento militar no Oriente Médio e Sul da Ásia, além do avanço gradual rumo à Ásia Central (que a Rússia, por muito tempo, considerou quintal seu) – teria sido diretamente influenciada pela experiência do 11/9, na busca da chamada guerra ao terror, que os estrategistas do Pentágono, adiante, rebatizaram de “Guerra Longa”. 

Apesar do indiscutível golpe no prestígio nacional norte-americano, os ataques do 11/9 serviram aos interesses dos EUA, porque levaram as melhores cabeças dos EUA a focarem-se no estudo das perspectivas futuras, em inúmeros campos de atividade profissional, dos militares aos intelectuais de academia. Todos se puseram a estudar a questão do declínio nacional dos EUA e os melhores modos de adiá-lo, e, logo depois, de administrá-lo, quando de fato for realidade estabelecida. As políticas que os EUA tentam implantar atualmente na Eurásia, sejam quais forem os objetivos estratégicos e políticos declarados, visam todas a criar ambiente intelectual e estratégico favorável àqueles dois objetivos. 

A transformação do Islã político 

O fato de que muçulmanos terem sido a força motriz que levou aos ataques do 11/9 levou todos, inevitavelmente, a ter de considerar o papel do Islã, sobretudo do Islã político, no mundo contemporâneo. Nem toda a publicidade, que levou o assunto às massas, foi força só negativa, o que se vê no aumento dramático do número de conversões ao islamismo em todo o mundo, inclusive na Europa, na Austrália e nos EUA, regiões tradicionais do império judeu-cristão. 

Muitos jornais e televisões ocidentais foram rápidos ao apontar um dedo acusador contra o Islã político. Empresas e veículos de comunicação ainda mais míopes tentam ainda implicar um fenômeno vasto e muito diversificado como o Islã, nas artes negras do terrorismo e da chicana política. 

O Islã, como religião planetária, não é mais nem menos violenta que qualquer outra religião ou ideologia comparável. Nesse sentido, a vasta maioria dos atores políticos no mundo árabe e muçulmano que se autodescrevem ou são descritos como “islamitas” têm-se manifestado publicamente contra a violência política. 

Mesmo assim, a proximidade ideológica entre os Jihadis e os islâmicos em geral gerou dúvidas legítimas (desde que não exageradas) sobre a visão política e, mais especificamente, sobre o comportamento potencial desses atores políticos, no caso de virem a ocupar posições de poder político em seus respectivos países. 

Os regimes árabes autoritários e Israel trabalharam para explorar, precisamente, esses medos, desde os primeiros momentos depois do 11/9, em patética tentativa para, de uma vez por todas, remover do mapa político todos os islâmicos. Esses esforços, inspirados em questões de segurança, pouco conseguiram, porque não deram o peso devido à resiliência ideológica e a conectividade social dos movimentos islâmicos no Oriente Médio e Norte da África. 

Imediatamente depois do 11/9, os islâmicos perceberam os perigos que se formavam no horizonte, mas também identificaram ali ampla gama de oportunidades, dentre as quais – e a principal – a evidência de que o Islã e os atores políticos que mais intimamente se identificam com o Islã, haviam sido lançados para o topo da agenda global e política, presentes em todas as manchetes de jornais e televisões, em todo o mundo; foi efeito dos ataques terroristas. 

Os mais espertos, nas fileiras islâmicas, invadiram imediatamente, e ativamente, o debate ocidental contra o terrorismo, não pensando em subvertê-lo, mas em modificar, pelo menos, alguns dos traços mais desagradáveis, conceitualmente mais errados e intelectualmente mais distorcidos daquele debate. 

Até aqui, no que tenha a ver com as atenções da mídia e dos políticos, o 11/9 trabalhou mais a favor dos islâmicos, não só no mundo árabe, mas em todo o planeta. Mas é no mundo árabe, território do Islã, que o Islã político pode afinal mostrar se é ou não capaz, em termos de versatilidade e visão política, para cumprir suas promessas de reformas e progresso autênticos. 

O 11/9 criou condições favoráveis de propaganda e “mídia” para a narrativa islâmica; em seguida, a Primavera Árabe fez começarem a surgir condições políticas e socioeconômicas para a implementação da agenda política islâmica. Afinal, a extensão de sucessos ou fracassos não será avaliada pela reação de estados como o Egito à possibilidade de acolher islamitas no governo, mas, sim, pelo resultado das lutas ideológicas internas, dentro do próprio movimento islâmico. 

No que tenham a ver com a Fraternidade Muçulmana no Egito, as principais lutas ideológicas travam-se entre (a) uma nova geração de reformadores e pensadores progressistas, que querem aprofundar reformas socioeconômicas, e (b) a geração mais velha, ou envelhecida, de islâmicos conservadores cuja visão pouco alcança além de uma muito superficial pregação a favor da implementação também superficial da Xaria islâmica. 

Para serem bem sucedidos no mundo político, os islamitas árabes terão de passar por importante transformação, não só em termos de visão, mas também em termos táticos, das ações diárias indispensáveis a implementar qualquer nova visão. 

Os dois restos/legados mais duradouros do 11/9 aqui alinhavados – a saber: a luta dos EUA para conseguir acumular mais e mais poder nacional na primeira metade do século 21, para ter melhores condições para administrar o declínio que virá na segunda metade do século; e as dores do parto de uma nova geração de políticos islamitas no mundo árabe – , mais cedo ou mais tarde estarão em contato íntimo. Se haverá colisão ou não, depende de o quanto os islâmicos conseguirão, na trilha de converterem-se, eles mesmos, em fator de estabilização da política regional, entrincheirados fundamente na estrutura de governos nacionais. 

Enquanto sua segurança energética não for diretamente ameaçada, os EUA são capazes de conviver com islamitas árabes no poder – mais ou menos como os EUA conviveram durante as últimas três décadas com a República Islâmica do Irã. Entendimento mais estável e duradouro só será possível se os EUA modificarem suas políticas regionais, a começar, e principalmente, o apoio aparentemente sem restrições e incondicionado, dos EUA a Israel. 

Por mais que seja fantasioso, pelo menos no futuro hoje previsível, esperar que os EUA abandonem Israel ao próprio destino, um apoio um pouco mais racional, com condições mais claras e explicitadas ao estado judeu, seria passo importantíssimo para fazer avançar consideravelmente as condições geopolíticas subjacentes na região, com resultados benéficos, de longo prazo, para os interesses de EUA no Oriente Médio e no norte da África.