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terça-feira, 18 de março de 2014

A nova Rússia: Entrevista com Aleksandr Solzhenitsyn em 1994 (Forbes Magazine)

15/3/2014, [*] Paul Craig Roberts, The 4th Media News, Pequim  
Excerto da entrevista concedida por A.  Solzhenitsyn à Revista Forbes em 9/5/1994, traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Caros leitores: Lembrei corretamente dos meus estudos russos, há meio século, que os líderes soviéticos doaram territórios russos à Ucrânia. Mas cometi um engano, ao atribuir todas as transferências a Khrushchev.

Foi Lênin quem, pela primeira vez, em 1919, doou territórios russos à Ucrânia.

[assina] Paul Craig Roberts

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Aleksandr Solzhenitsyn [há 20 anos]


Excerto traduzido:

Aleksandr Solzhenitsyn
Forbes: O ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski diz que os EUA têm de defender a independência da Ucrânia.

Aleksandr Solzhenitsyn: Em 1919, quando seu regime chegou à Ucrânia, Lênin deu ao país várias províncias russas. Essas províncias jamais, historicamente haviam pertencido à Ucrânia. Falo dos territórios do leste e do sul da Ucrânia que conhecemos hoje.

Depois, em 1954, Khrushchev, com a leviandade arbitrária de um sátrapa, deu a Crimeia, “de presente” à Ucrânia. Mas nem ele conseguiu “dar de presente” à Ucrânia o porto de Sebastopol, que permaneceu como cidade separada, sob a jurisdição do governo central da URSS. Tudo foi feito pelo Departamento de Estado dos EUA, primeiro verbalmente, através do embaixador Popadiuk em Kiev e, depois, de modo mais oficial.

Por que o Departamento de Estado decidiria quem devia ficar com Sebastopol? Se alguém se lembra das declarações, absolutamente sem qualquer tato, do presidente Bush, sobre apoiar a soberania da Ucrânia, mesmo antes do referendo sobre o assunto, pode-se concluir que tudo isso só tem a ver com um único objetivo comum: usar todos os meios, não importam as consequências, para enfraquecer a Rússia.

Forbes: Por que a independência da Ucrânia enfraquece a Rússia? 

Aleksandr Solzhenitsyn: Como resultado da repentina e violenta fragmentação de povos eslavos, todos interconectados, as fronteiras romperam milhões de laços de família e de amizade. Pode-se aceitar isso? As recentes eleições na Ucrânia, por exemplo, mostram claramente as simpatias russas dos povos da Crimeia e de Donetsk. Uma democracia tem de respeitar isso.

Eu próprio sou quase metade ucraniano. Cresci ouvindo os sons da língua ucraniana. Amo a cultura ucraniana e desejo sinceramente todo o sucesso à Ucrânia, mas dentro de seus reais contornos étnicos, sem tomar outras províncias russas.
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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Arrogância, Húbris e a Maldade dos EUA criaram a base para a guerra

3/3/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por João Aroldo

Políticos marionetes
Em algumas partes, a consciência pública está se informando com Stephen Lendman, Michel Chossudovsky, Rick Rozoff, eu e alguns outros para perceber o grave perigo da crise que Washington criou na Ucrânia.

Os políticos marionetes que os EUA pretendem colocar no comando da Ucrânia perderam o controle dos neonazistas organizados e armados, que estão atacando judeus, russos, e intimidando os políticos ucranianos.

O governo da Crimeia, uma província russa que Khrushchev transferiu para a República Soviética da Ucrânia na década de 1950, não reconhece o governo ilegítimo que se apoderou ilegalmente do poder em Kiev, e pediu proteção à Rússia.

As forças militares ucranianas na Crimeia passaram para a Rússia. O governo russo anunciou que também irá proteger as antigas províncias russas na Ucrânia oriental.

Alexander Solzhenitsyn
Como Aleksandr Solzhenitsyn apontou, foi loucura o Partido Comunista da União Soviética  transferir províncias históricas da Rússia para a Ucrânia. Na época, parecia, para a liderança soviética, uma coisa boa a se fazer. A Ucrânia fazia parte da União Soviética e tinha sido governada pela Rússia desde o século 18. Adicionar território russo à Ucrânia serviu para diluir os elementos nazistas na Ucrânia ocidental, que tinham lutado por Hitler durante a IIª Guerra Mundial. Talvez outro fator na ampliação da Ucrânia foi o fato da herança ucraniana de Khrushchev.

De qualquer maneira, isso não importou até que a União Soviética e, em seguida, o próprio império russo, se desfez. Sob pressão dos EUA, a Ucrânia tornou-se um país independente mantendo as províncias russas, mas a Rússia manteve a sua base naval do Mar Negro na Crimeia.

Os EUA tentaram, mas não conseguiram, tomar Ucrânia, em 2004, com a “Revolução Laranja” financiada por Washington. Segundo a Secretária-Adjunta de Estado, Victoria Nuland, após esta falha, os EUA “investiram” 5 bilhões de dólares na Ucrânia, a fim de fomentar a agitação para a adesão da Ucrânia à UE. A adesão à UE abriria a Ucrânia para saques por banqueiros ocidentais e corporações, mas o objetivo principal de Washington é estabelecer bases de mísseis dos EUA na fronteira da Ucrânia com a Rússia e privar a Rússia de sua base naval do Mar Negro e das indústrias militares no leste da Ucrânia. A adesão da Ucrânia à UE significa adesão à OTAN.

Os EUA querem bases de mísseis na Ucrânia, a fim de degradar a dissuasão nuclear da Rússia, reduzindo assim a capacidade da Rússia de resistir à hegemonia dos EUA. Apenas três países estão no caminho da hegemonia de Washington sobre o mundo, a Rússia, a China e o Irã.

O Irã está totalmente cercado por bases militares dos EUA-OTAN (vide estrelas no mapa)
O Irã está cercado por bases militares dos Estados Unidos e há frotas dos EUA em sua costa. O “Pivot para a Ásia” anunciado pelo regime belicista Obama, está cercando a China com bases aéreas e navais. Washington está cercando a Rússia com mísseis dos EUA e bases da OTAN.

Os corruptos governos poloneses e tchecos foram pagos para aceitar bases de mísseis e radares norte-americanos, o que torna os estados fantoches poloneses e tchecos alvos principais para aniquilação nuclear.

Os EUA compraram a antiga província russa e soviética da Geórgia, terra natal de Joseph Stálin, e está em processo de colocar este fantoche na OTAN.

Fantoches de Washington da Europa Ocidental são demasiado gananciosos pelo dinheiro de Washington para tomar conhecimento do fato de que esses movimentos altamente provocativos são uma ameaça estratégica direta à Rússia. A atitude dos governos europeus parece ser, “depois de mim, o dilúvio” (Après moi, le déluge – fala de Luis XV).

A Rússia tem sido lenta a reagir aos muitos anos de provocações de Washington, esperando por algum sinal de bom senso e boa vontade surgir no Ocidente. Em vez disso, a Rússia tem experimentado crescente demonização dos EUA e países europeus com denúncias viciosas por presstitutes do Ocidente espumando pela boca.


A maior parte das populações americanas e europeias estão sofrendo lavagem cerebral para ver o problema que a intromissão de Washington tem causado na Ucrânia como se fosse culpa da Rússia. Ontem, ouvi na National Public Radio um presstitute da New Republic descrevendo Putin como o problema.

A ignorância, a falta de integridade e a falta de independência da mídia dos EUA aumentam muito as chances de guerra. A imagem sendo desenhada para americanos despreocupados é totalmente falsa. Um povo informado teria desatado a rir quando o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, denunciou a Rússia por “invadir a Ucrânia” em “violação do direito internacional”.

Kerry é o ministro das Relações Exteriores de um país que invadiu ilegalmente o Iraque, o Afeganistão, a Somália, organizou a queda do governo na Líbia, tentou derrubar o governo na Síria, ataca as populações civis do Paquistão e Iêmen com drones e mísseis, constantemente ameaça o Irã com ataque, desencadeou o exército georgiano treinado pelos EUA e Israel sobre a população russa da Ossétia do Sul, e agora ameaça a Rússia com sanções por defenderem os russos e os interesses estratégicos da Rússia. O governo russo observou que Kerry levou a hipocrisia para um novo nível.

Kerry não tem resposta para a pergunta:

Desde quando o governo dos Estados Unidos realmente apoia e defende o conceito de soberania e integridade territorial?

Kerry, como é sempre o caso, está a mentir descaradamente. A Rússia não invadiu a Ucrânia. A Rússia enviou mais algumas tropas para se juntar àquelas em sua base do Mar Negro tendo em vista as declarações e ações anti-russas violentas que emanam de Kiev. Enquanto os militares ucranianos na Crimeia desertam para a Rússia, as tropas russas adicionais mal foram necessárias.

O estúpido Kerry, chafurdando na sua arrogância, húbris e maldade, fez ameaças diretas à Rússia. O ministro das Relações Exteriores russo rejeitou as ameaças de Kerry como “inaceitáveis”. O palco está montado para a guerra.

John Kerry
Observe o absurdo da situação. Kiev foi tomado por ultranacionalistas neonazis. Um bando de bandidos ultranacionalistas é a última coisa que a União Europeia quer ou precisa de um Estado-membro. A UE está centralizando o poder e quer suprimir a soberania dos Estados-membros. Observe o alinhamento do regime neoconservador Obama com antissemitas neonazis.

A gangue neoconservadora que dominou o governo dos EUA desde o regime Clinton é fortemente judaica, muitos dos quais são cidadãos de dupla nacionalidade israelense/estadunidense.

Os neoconservadores judeus, a secretária-assistente de Estado, Victoria Nuland e a Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, perderam o controle de seu golpe para os neonazistas que pregam “morte aos judeus”.

Moshe Reuven Azman
O jornal israelense Haaretz informou em 24 de fevereiro que o rabi ucraniano, Moshe Reuven Azman aconselhou “os judeus de Kiev a deixar a cidade e até mesmo o país”. Edward Dolinsky, chefe de uma grande organização de judeus ucranianos, descreveu a situação para os judeus ucranianos como “terrível” e pediu a ajuda de Israel.

Esta é a situação que Washington criou e defende, enquanto acusa a Rússia de sufocar a democracia ucraniana. Uma democracia legítima é o que a Ucrânia tinha antes que Washington a derrubasse.

Neste momento não há nenhum governo legítimo ucraniano.

Todo mundo precisa entender que os EUA estão mentindo sobre a Ucrânia, assim como mentiram sobre Saddam Hussein e as armas de destruição em massa no Iraque, assim como mentem sobre as armas nucleares iranianas, assim como os EUA mentem sobre presidente sírio Assad usar armas químicas, assim como os EUA mentiram sobre Afeganistão, Líbia, espionagem NSA, tortura.

Sobre o que os EUA não mentiram?

Washington é composta por três elementos: a arrogância, húbris e a maldade. Não há mais nada lá.
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Nota do tradutor
[1] A húbris ou hybris (em grego ϐρις, “hýbris”) é um conceito grego que pode ser traduzido como “tudo que passa da medida”; “descomedimento” e que atualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção ou insolência (originalmente contra os deuses), que com frequência termina sendo punida.
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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Jacob Appelbaum, sobre Assange


18/8/2012, Jacob Appelbaum* - Pastebin
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Um dos traços mais inspiradores de Julian [Assange] é que ele sempre soube dos riscos & fez o que fez em benefício de toda a *humanidade* #wikileaks

Jacob Appelbaum
As ações de Julian não são baseadas em egoísmo ou megalomania – são baseadas em princípios de justiça universal, que depende de as pessoas conhecerem a verdade.

A disposição de Julian para aparecer na arena pública só é desqualificada como “dispensável” por gente que ainda terá de demonstrar que basta(ria) o anonimato para fazer todo o serviço.

Daniel Ellsberg tampouco é sujeito egoísta – poderia ter vazado anonimamente os Pentagon Papers, mas quis que se conhecesse seu nome, porque nunca acreditou que bastaria o anonimato.

Gente inspirada pela coragem das ações de Assange/Ellsberg inspiram outros e outros a, pelo menos, fazer alguma coisa protegido pelo anonimato, enquanto não se decide a fazê-lo também publicamente.

Não temos de criar e cultuar ídolos, mas não podemos deixar que os que assumem plenamente os seus riscos sejam desmoralizados, apenas porque se conhecem sua identidade e sua história pessoal.

Nem podemos desacreditar a ação positiva, apenas porque os valentes também têm defeitos, como todos nós temos.

Nelson Mandela
Nelson Mandela é grande exemplo de sujeito que, embora não seja perfeito, provocou mudanças profundas que merecem elogios, e não pode ser acusado de ter ego/id doentes.

Tanta gente tão sensacional, que trabalha por melhor justiça, é tão cheia de defeitos... E é bem fácil esquecer o quanto de intriga, ofensas, agressões, eles enfrentam na luta que fazem.

Tome qualquer um dos que lutam por justiça social, contra as guerras injustas, contra forças de opressão de, praticamente, todos os tipos – como são tão duramente atacados, sem alívio!

Esses ataques, ainda que haja na motivação alguns traços de verdade, não podem ser usados para desqualificar a luta que eles lutam, os objetivos positivos pelos quais lutam e os objetivos que as lutas buscam alcançar.

Alguns dos pais fundadores dos EUA foram racistas, mas lá estavam, lutando contra a tirania dos britânicos. Temos de tocar adiante a luta.

Nelson Mandela usou táticas que podem ser melhoradas, como fizeram os revolucionários norte-americanos contra os ingleses. E #wikileaks jamais recorreu à violência.

O fato de que #wikileaks obteve todo o impacto que se vê, trabalhando sobre as lições de lutas passadas, é a causa, precisamente, de tantos atacarem tanto o movimento e Assange.

Sem disparar um tiro, #wikileaks alterou resultados de eleições, expôs assassinos, mostrou corrupção massiva – expôs e impediu um sem número de ações de violência e de corrupção.

#wikileaks não seria #wikileaks sem Julian Assange e toda a equipe envolvida com ele, que assumiram riscos bem conhecidos, em nome de um mundo melhor.

Mesmo que alguém não goste de Julian em termos pessoais, ninguém pode permitir que seja enforcado. A humanidade ganhou muito, com o trabalho de #wikileaks. Assange não fez mal a ninguém, nem expôs alguém que não merecesse ser exposto [e só expôs gente que já estaria exposta há muito tempo, não fosse a grande empresa-imprensa, em todo mundo, o que é]. Assange ajudou o mundo.

Há os que dizem que #wikileaks não precisa de Assange e que Assange é um risco para #wikileaks, mas essa é, exatamente, a conclusão mais errada. Ninguém tem o direito de não ajudar Assange a conseguir o que quer conseguir para todos.

Quando falei a HOPE, substituindo Julian, citei Solzhenitsyn:

“E a única salvação possível para a humanidade depende de cada um fazer de todas as questões, assunto seu, e de o povo do ocidente tornar-se vitalmente envolvido em tudo que se pensa no ocidente, e de o povo do ocidente envolver-se vitalmente com o que acontece no oriente”.

Aleksandr Solzhenitsyn
Isso precisamente é o que #wikileaks e Julian Assange fizeram: tornaram possível, para nós, fazer exatamente o que Aleksandr Solzhenitsyn esperava que se fizesse.

Hoje sabemos muito mais sobre quanta gente o Estado assassinou com as próprias mãos – apesar de o Estado não se deixar julgar e condenar por suas guerras e mentiras.

Conhecemos muito mais, hoje, sobre as táticas de corrupção do Quênia ao Iraque; da Líbia, da Tunísia – do ocidente, do oriente e do Sul Global.

A ação de Julian com #wikileaks não foi pensada para acabar morta, nem exilada, nem famosa. Suas ações criaram oportunidade para que todos nós também entremos em ação.

Quando Howard Zinn falava sobre democracia, mostrava que é muito mais do que apenas votar, é conhecimento, cultura, discussões, informação transparente.

Quando Julian fala sobre democracia, ele age para criar condições melhores para o conhecimento, a cultura, para que as discussões melhorem, para abrir avenidas que levam à transparência.

Ninguém tem o direito de esquecer que Julian empreendeu ações de luta contra o autoritarismo que há em todas as estruturas exploráveis de governo.

No “ocidente”, falamos hoje de dissidentes e ativistas, como os do Bahrain, que praticamente não tem voz alguma. Até o departamento de Estado fala deles!

Ninguém tem o direito de esquecer que o povo oprimido do Bahrain merece liberdade, não porque seja povo do Bahrain, mas porque é gente que vive e sofre.

Por todo o mundo, Julian e muitos outros viabilizaram muitas lutas porque as conectaram a fatos há muito tempo conhecidos, mas que não se podiam provar.

O que está vindo e vira depois, terá de vir de nós, se não desperdiçarmos nossa geração. Não haverá mártires e, tampouco, não nos deixaremos ser esmagados pelo Estado.

Nunca mais poderemos esquecer que o Estado mente – todos os estados que se envolveram na caçada contra Assange mentiram e mentem aos seus cidadãos. Essa é uma questão estrutural.

A estrutura dos governos modernos pega gente boa e os mete em situações impossíveis. Uma corrente de realimentação que nós podemos alterar. 

A estrutura desses governos é uma melhora em relação ao que havia antes, mas temos de melhorar a estrutura, para melhorar os resultados.

Muitos dos governos modernos, em parte como efeito de escala, perderam a confiança das pessoas, que já não confiam que façam a coisa certa, no exercício da representação.

Temos de lembrar a todos que vivem nas estruturas dos governos, que a justiça não é coisa que só apareça para gente que ocupa o centro do palco, como Julian.

Como faremos isso? Como comunicar esses objetivos? Como comunicaremos nossas ideias partilhadas de unidade e nossos objetivos de justiça?

Faremos o que fizermos, com ações. Ações individuais e ações tomadas em conjunto, como um todo, na busca para alcançar aqueles pontos de unidade, aqueles objetivos.

Temos de começar por fazer ver a todos que estejam em posição de poder que: acreditamos firmemente que o que acontece a Julian acontecerá a TODOS nós, mais dia, menos dia.

Julian Assange
Temos de convencê-los também de que, se o que se teme acontecer a Julian, acontecerá, exatamente igual, a eles, antes que aconteça a todos nós.

Temos de descobrir nomes e cargos de todos os responsáveis e impedir, a todo custo, que escapem. Iniciem ações judiciais, tranquem as portas, imprimam panfletos.

Temos de descobrir quem sabe o quê, quem sabia, quem não se manifestou – dos assassinatos com drones à caçada/perseguição contra Julian Assange – todos terão de responder pelo que tenham feito ou deixado de fazer.

Eu, que sou cidadão norte-americano, fui preso pelo exército dos EUA/ICE/DHS em solo norte-americano – roubaram-me os objetos que eu carregava, impediram que procurasse um advogado, ameaçaram me matar – é esse o mundo que queremos?

Nada disso representa qualquer avanço na direção da justiça , quando a polícia é protegida e tem o direito de mentir – e quando os militares não têm nenhum limite.

Todos esses são exemplos de tirania, de injustiça, de sistemas estruturalmente falhados.

#wikileaks trabalhou e trabalha para nos informar sobre, precisamente, esses sistemas. Não podemos perder essa chance. Não podemos permitir que o mundo desperdice Julian!

Cada um, cada pessoa impactada por ação do Grande Júri nos EUA deve vir a público e falar de suas experiências. Não podemos permitir que continuem a dizer que o que está acontecendo não está acontecendo.

Cada um, cada pessoa, que tenha o que dizer contra o artigo 1021 da NDAA [1] que se manifeste. Nenhuma prisão sem tempo definido e sem julgamento, em lugar algum, nunca.

Temos de falar alto e falar forte, temos de escrever sempre que virmos mentiras impressas no New York Times ou no Washington Post.

Não podemos deixar nos esmagar pelo medo ou pelo medo de represálias – temos de nos recusar a nos deixar silenciar. Temos de expor os que nos pressionem e tentem nos ferir.

Quando alguém disser que Julian é irracional e paranoico – temos de responder e mostrar que os EUA estão rompendo todas as suas regras, nossas regras, na perseguição que move contra ele.

Em poucos anos, se não consertarmos os vícios e problemas estruturais que vemos hoje, nós já encontraremos a total tecnologia para o totalitarismo total, aí, à nossa espera, à nossa espreita.

O silêncio não nos protegerá – só estaremos protegidos se nos mantivermos unidos e fortes, apesar de todas as nossas fraquezas e defeitos, contra a injustiça, qualquer injustiça, todas as injustiças.

Enviem um amicus brief  [2] ao processo Jewel vs NSA para lutar contra a tirania dos mandados genéricos de prisão. Enviem um amicus brief à ação contra o artigo n. 1.021, sectário.

Registrem manifestação a favor do FOIA [Freedom of Information Act], a propósito de tudo, qualquer causa – agitem, usem a verdade como instrumento de agitação social, forcem os desgraçados a prestar contas de tudo que façam de errado, sempre que usarem contra nós o poder que têm.

Se você está em Londres, a hora agora é de ocupar a Embaixada do Equador – sejam os olhos do mundo contra a tirania do Reino Unido.

Para cada um semelhante a Julian ou Bradley Manning, há dúzias cujos nomes não sabemos – temos de apoiar todos eles, em sua luta.

Não desesperem, se não conseguirmos ganhar todas as lutas. O importante é não nos deixar desanimar. A luta moral é lutada em nome da moral, não da chance de vencer.

Não desanimem, porque encontrem alguns covardes. Mostrem a cada covarde que eles podem mudar de ideia e, quando o covarde, afinal, estiver pronto, ajudem-no, na luta dele.

Nossa geração pode vencer a apatia e todos os fracassos das últimas décadas. Rejeitamos a noção de que o Estado seria perfeito ou honesto.

O destino de Julian Assange está em nossas mãos; agora, é hora de agir! Vamos à luta antes que seja tarde demais, para Julian e para nós.



Nota dos tradutores
*Os que não conheçam Jacob Applebaum, podem vê-lo em entrevista a Assange, no programa “The World Tomorrow”,Russia Today, transcrita e traduzida na redecastorphoto em: - “Assange entrevista n. 6: Cypherpunks” (partes 1 e 2).

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Notas de rodapé
[1] National Defense Authorization Act” é a lei de segurança nacional dos EUA. A seção 1.021 (do subtítulo D – “Contraterrorismo”), autoriza as forças armadas dos EUA a prender qualquer pessoa suspeita de ação terrorista, com uso de força militar.
[2] Amicus brief [lat.: amicus curiae] é o documento jurídico pela qual qualquer cidadão que tenha conhecimento de informação relevante para causa que esteja sendo julgada pode apresentar-se espontaneamente ao juiz para dizer o que sabe. Cabe à corte, em cada caso, aceitar ou não a contribuição espontânea do amicus curiae, literalmente, “amigo do tribunal”.