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domingo, 2 de junho de 2013

Juan Manuel Santos e a conspiração contra a Venezuela e a Aliança do Pacífico

1/6/2013, Atilio Borón, Contrainjerencia    
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Henrique Capriles (E) e Juan Manuel Santos em recente visita do primeiro à Colômbia

ATUALIZAÇÃO: 1/6/2013, Telesur (em espanhol)
“Presidente Juan Manuel Santos solicitará ingreso de Colombia a la OTAN” (informação distribuída, por e-mail, por Jacob Blinder)

Atílio Borón
ATÍLIO A. BORÓN - Por mais que se discuta, qualquer acordo econômico é também um compromisso político. O pensamento neoliberal apresenta suas opções políticas (por exemplo, promover um modelo econômico que enriquece os ricos e espolia os pobres) como se fossem resultado de cálculo técnico ou de alguma racionalidade abstrata, quando, na verdade são exatamente o contrário.

Isso vale tanto para os acordos firmados no plano doméstico quanto no plano internacional. Por isso não surpreende a provocação que vem do governo de Juan M. Santos – que agora diz que tudo não passou de “mal entendido” – ao receber o candidato derrotado da direita venezuelana Henrique Capriles. Ao fazê-lo, o presidente colombiano emprestou alguma legitimidade às escandalosas “denúncias” de Capriles – refutadas por sucessivas auditorias que examinaram os resultados das eleições de 14 de abril – e alinhou-se irresponsavelmente com o líder da ala fascista e mais radical e golpista da direita venezuelana.

Nicolás Maduro
Mas... só com essa? Não, porque a estratégia de desgaste em que trabalha o antichavismo não é criação original venezuelana, mas expressão da orientação que continua a ser distribuída de Washington, para conseguir concretizar seu projeto de desconstruir o chavismo e apagá-lo para sempre da face da terra. Por isso a Casa Branca ainda não reconheceu a legalidade e a legitimidade do triunfo de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais na Venezuela. A teimosa reação do insólito Prêmio Nobel da Paz não é teimosia pessoal, mas cumprimento meticuloso do projeto para reverter a correlação de forças no hemisfério que, em 2005, já fez naufragar o projeto da ALCA em Mar del Plata.

Componente fundamental desse projeto é o ataque ininterrupto, a tentativa de deslegitimar e de desestabilizar os governos bolivarianos e progressistas da Região. O sonho impossível dos EUA é restabelecer na América Latina a situação que houve antes da Revolução Cubana, quando as ordens da Casa Branca eram obedecidas sem contestação pelos governos da Região.

Esse é o sentido da tão divulgada e propagandeada Aliança do Pacífico, constituída de México, Colômbia, Peru e Chile, que, empurrada por Washington, já organizou nada menos que sete reuniões de cúpula em pouco mais de um ano.

O objetivo desse hiperativismo diplomático [1] é, principalmente, político e, em menor medida, econômico. É político, porque visa a refazer o mapa sociopolítico regional, acabando com os governos dos países da ALBA e inclusive com seus aliados, como os governos de Argentina e Brasil, “cúmplices”, segundo Washington, no processo que derrotou a ALCA. E é objetivo econômico, porque a Aliança do Pacífico é a mais importante peça da contraofensiva imperialista destinada agora, de fato, a tentar conseguir uma “outra” ALCA, sob novo nome, e a potencializar o papel dos “cavalos de Tróia” que Washington tem enviado contra os governos “inimigos”, para boicotar, por dentro, projetos que a Casa Branca rejeita visceralmente, como a  UNASUR, a CELAC e, um pouco menos, o MERCOSUL.

Não surpreende que governos e políticos os mais reacionários da América do Sul – e também os da Europa! – disputem entre si o duvidoso privilégio de ser o primeiro a unir-se à Aliança do Pacífico, concebida e orquestrada pelos EUA para defender seus próprios interesses, servindo-se de seus peões latino-americanos e europeus.

Que sentido teria que países como Espanha, Austrália e Japão, que hoje têm status de observadores, tenham declarado que solicitarão, ainda em 2013, o direito de converter-se em membros plenos da Aliança do Pacífico? Austrália e Japão precisam talvez desse instrumento norte-americano, para vincular-se ao novo centro de gravidade da economia mundial, que está, não distante, mas precisamente em seu entorno? Ou o fazem exclusivamente porque são países submetidos militar, econômica e diplomaticamente à vontade da Casa Branca e, assim, fazem o que são mandados fazer?

Claro está que é movimento engendrado nos EUA, do qual Santos é o principal articulador (não esqueçamos e a última e fundamental reunião da “aliança” aconteceu há poucos dias, 22-23 de maio, em Cali, Colômbia), e que exige de seus protagonistas submissão abjeta aos éditos e prioridades dos EUA.

John Kerry
Para a Casa Branca hoje, nada é mais importante que aproveitar o momentâneo desconcerto provocado pela morte de Hugo Chávez para “pôr ordem” no que o secretário de Estado John Kerry chamou de “quintal dos fundos de Washington”– expressão que, de tão reveladora, deixara de ser usada há muito tempo. E Santos obedeceu e recebeu um político desprestigiado e já derrotado nas urnas, que é apoiado pelo que há de pior na direita latino-americana e europeia – principalmente pelo corrupto Partido Popular de España (PPE), cujo chefe clandestino é José M. Aznar – culpado por haver instigado a prática de crimes que culminaram no assassinato de onze chavistas e de mais de uma centena de feridos, além da destruição de clínicas populares de atendimento médico e prédios públicos na Venezuela.

O objetivo do giro latino-americano de Capriles é desprestigiar a qualquer custo o governo de Maduro, inclusive deteriorando ainda mais as já difíceis relações entre Colômbia e Venezuela. É Washington fazendo ver aos seus estados-clientes que não haverá limites éticos ou escrúpulo de tipo algum, para tentar isolar o governo da Venezuela, caracterizá-lo como “estado bandido”, e enfraquecê-lo, no confronto com Washington.

Para isso se combinarão estratégias de sedução hipócrita – Joe Biden elogiando o Brasil como potência já “emergida”, mas sem dizer que o Brasil é o país mais cercado por bases militares dos EUA, de toda a América Latina – e outras estratégias mais brutais, como as que Biden com certeza comunicou ao presidente Santos na visita que lhe fez.

Dilma Roussef e John Biden em 31/5/2013
E haverá também iniciativas como a da Aliança do Pacífico, que, por causa dos objetivos que tem e da extraordinária mobilização de recursos, será arriscado não levar em conta. Tudo indica que o povo e o governo da Venezuela estão bem conscientes da ameaça que pesa contra eles, que saberão resistir e vencer.

A Venezuela e o povo venezuelano sabem que contarão com a solidariedade militante da maioria dos povos e governos de Nuestra América, os quais, com suas lutas, derrotarão outra vez a velha ideia da velha ALCA, que agora reaparece com outro nome. No nauseabundo contexto internacional que se configura, deve-se destacar o honrado gesto do presidente Rafael Correa, o qual, por seu Chanceler, informou que o Equador não receberia Capriles.


Nota dos tradutores:

[1] Sobre o “hiperativismo diplomático” dos EUA, ver também:

terça-feira, 5 de março de 2013

¡Gloria al bravo Chávez!


5/3/2013, Distribuído na Internet por Rosa Cristina Báez Valdéz
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Custa muito assimilar a dolorosa notícia do falecimento de Hugo Chávez Frías. Impossível não maldizer o infortúnio que priva Nossa América de um dos poucos “imprescindíveis”, no dizer de Bertolt Brecht, na luta ainda em curso por nossa segunda e definitiva independência.

A historia dará seu veredicto sobre a tarefa que Chávez cumpriu, e não se duvida de que será veredicto muito positivo. À parte qualquer discussão que se possa travar legitimamente no interior do campo antiimperialista – nem sempre suficientemente sábio para distinguir com clareza entre amigos e inimigos –, é preciso começar por reconhecer que o líder bolivariano virou uma página da história da Venezuela e, por que não?, também da história da América Latina.

A partir de hoje se falará de uma Venezuela e de uma América Latina antes e de outras depois, de Chávez, e não seria temerário conjecturar que as mudanças que impulsionou e que protagonizou como bem poucos em nossa história levam a marca da irreversibilidade. Os resultados das recentes eleições na Venezuela – reflexo da maturidade da consciência política de um povo – dão base a esse prognóstico. Talvez haja regressões na trilha das nacionalizações e se privatizem empresas públicas, mas é infinitamente mais difícil conseguir que um povo que afinal conheceu a própria liberdade e a própria potência, volte atrás e se deixe outra vez submeter.

Em sua dimensão continental, Chávez foi o protagonista na derrota que o continente impusemos ao mais ambicioso projeto do Império para a América Latina: a ALCA. Bastaria isso para instalá-lo na galeria dos grandes de Nuestra América. Mas fez muito mais.

Líder popular, representante genuíno de seu povo, com o qual se comunicava como nenhum governante antes dele soubera fazer, sentia desde jovem o mais visceral repúdio pela oligarquia e o imperialismo. Esse sentimento evoluiu até tomar a forma de projeto racional: o socialismo bolivariano, socialismo do século 21.

Chávez foi quem, em plena noite neoliberal, reinstalou no debate público latinoamericano – e, em grande medida, também no debate internacional – a atualidade do socialismo. Mais que isso, a necesidade do socialismo como única alternativa real, não ilusória, ante o inexorável desmonte do capitalismo, denunciando as falácias das políticas que procuram solucionar sua crise integral e sistêmica preservando os parâmetros fundamentais de uma ordem econômico-social historicamente já desencaminhada.

Como recordávamos acima, foi Chávez, também, o comandante-em-campo que impôs ao imperialismo a histórica derrota da ALCA em Mar del Plata, em novembro de 2005. Se Fidel foi o general estrategista dessa longa batalha, aquela vitória teria sido impossível sem o protagonismo do Chávez bolivariano, cuja eloquência persuasiva precipitou a adesão do anfitrião da Cúpula de Presidentes das Américas, Néstor Kirchner; de Luiz Inacio “Lula” da Silva; e da maioria dos chefes de Estado ali presentes e, de início, pouco propensos – quando não abertamente contrários – a desagradar o imperador bem ali, nas barbas dele.

Quem, senão Chávez, teria podido virar aquela mesa?

O instinto de sobrevivência dos imperialistas explica a implacável campanha que Washington lançara contra seu governo, desde antes do primeiro dia. Cruzada que, ratificando uma deplorável constante histórica, contou com a colaboração do infantilismo ultraesquerdista que, dentro e fora da Venezuela, pôs-se objetivamente a serviço do Império e da reação.

Por isso, a morte de Chávez deixa um vazio difícil, senão impossível, de preencher. Àquela excepcional estatura como líder de massas unia-se a clareza de visão de que, como poucos, sobre decifrar e agir inteligentemente na complexa trama geopolítica do Império que visa a perpetuar a subordinação da América Latina.

Àquela trama só se poderia dar combate se se fortalecesse – alinhado às ideias de Bolívar, San Martín, Artigas, Alfaro, Morazán, Martí e, mais recentemente, de Che e de Fidel – a união dos povos da América Latina e Caribe.

Força livre da natureza, Chávez “reformatou” a agenda dos governos, partidos e movimentos sociais da região, com uma interminável torrente de iniciativas e de propostas integracionistas: da ALBA à Telesur; da Petrocaribe ao Banco do Sul; da UNASUR e do Conselho Sulamericano de Defesa à CELAC. Iniciativas, todas essas, que têm um mesmo indelével código genético: o fervente, firme, jamais vacilante anti-imperialismo de Chávez.

Chávez já não estará entre nós, irradiando essa transbordante cordialidade; o rico, fulminante senso de humor que desarmava os arranjos de protocolo; sua generosidade, o altruísmo que o faziam tão querido. Martiano até a medula, sabia que, como disse o Apóstolo cubano, nenhum homem sem leitura será jamais livre. Foi homem de curiosidade intelectual sem limites.

Em tempos em que praticamente nenhum chefe de Estado lê coisa alguma – o que leriam os seus detratores, Bush, Aznar, Berlusconi, Menem, Fox, Fujimori? – Chávez foi o leitor com que todos os autores sonham para seus livros. Lia muito, apesar das pesadas obrigações e responsabilidades de governo. E lia com paixão, tendo sempre a mão lápis, canetas, marcadores de texto de várias cores, com que ia marcando e anotava as passagens que o interessavam, as melhores frases, os argumentos de mais peso, de tudo que lia.

Esse homem extraordinário, que me honrou com sua amizade, está morto.

Deixou-nos um legado imenso, inapagável, e os povos de Nuestra América, inspirados por seu exemplo continuarão a andar pela trilha que leva à nossa segunda e definitiva independência.

Acontecerá com ele o que aconteceu ao Che: a morte, em vez de apagá-los da cena política, agigantará sua presença e sua gravitação nas lutas de nossos povos e de nosso tempo. Por um desses paradoxos que a história reserva só aos grandes, a morte o converte em personagem imortal. Parafraseando o hino nacional venezuelano:

¡Gloria al bravo Chávez! 
¡Hasta la victoria, siempre, Comandante!