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segunda-feira, 23 de junho de 2014

EUA: Destruir o Iraque e redesenhar o mapa do Oriente Médio

21/6/2014, [*] Larry Chin, Global Research, Canadá
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

ISIS/ISIL fuzila população xiita próximo de Mosul, Iraque (16/6/2014)
O Iraque estaria sendo repentinamente invadido por ondas de “terroristas”? Ou o Iraque está sendo sabotado, sacrificado e destruído?

A imprensa-empresa comercial dominante pinta a coisa como “insurgência terrorista” de “extremistas” sunitas que, aparentemente de repente, do dia para a noite, tomaram o país. O governo Obama é criticado por ter sido apanhado “com a guarda baixa”. Se o Iraque for perdido, segundo essa narrativa, todos os “ganhos” dos EUA serão “desperdiçados”.

De fato, o que se vê na região é massiva operação da CIA, um longo plano geoestratégico em construção: fazer naufragar a região numa guerra sectária, um gigantesco banho de sangue, com múltiplas desestabilizações e deliberado show de violência sectária cruzando várias fronteiras, até que todo o mapa do Oriente Médio e da Ásia Central – e para lá disso – seja redesenhado.

Mapa do Projeto Oriente Médio: mapa não oficial da OTAN
e da Academia Militar dos EUA (clique no mapa p/ aumentar)
O mapa acima foi preparado pelo tenente-coronel Ralph Peters. Foi publicado no Armed Forces Journal em junho de 2006. Peters é coronel aposentado da Academia Militar dos EUA (Copyright do mapa, Lieutenant-Colonel Ralph Peters, 2006).

Os EUA estão jogando dos dois lados desse conflito explosivo, com vistas aos objetivos mais amplos de EUA/OTAN.

A força invasora, ISIS/ISIL, é criação da CIA-EUA e dos seus aliados ricos em petrodólares Arábia Saudita, Kuwait e Qatar. É uma frente da Al-Qaeda. A Al-Qaeda é braço da inteligência militar da CIA-EUA desde a Guerra Fria. ISIS/ISIL é o exército da inteligência militar do império em sua guerra contra a Síria.

Há provas que apontam fortemente para uma deliberada retirada das forças de EUA e Iraque, que permitiram que o ISIS tomasse Mosul, Tikrit, Fallujah e, sobretudo, tomasse armas e equipamento norte-americano “miraculosamente” esquecido em grandes quantidades, para serem “encontrados”. 

O ISIS/ISIL controla agora a refinaria de petróleo de Beiji ao norte de Bagdá, o que dá ao grupo fonte de combustível e lucrativa fonte de renda. Os sunitas, incluindo seguidores de Saddam Hussein, “voltaram”.

Num processo horrendamente surreal, o espetáculo militar que está em preparação pode pôr forças militares dos EUA a usar drones e aviões bombardeiros a favor do regime xiita de Maliki e contra as próprias forças sunitas do ISIS/ISIL da CIA que usa armas e equipamento dos EUA. Mentiras e fogo cerrado matarão milhões de iraquianos e devastarão o país.

Tudo isso, para quê?

O Iraque está sendo reinvadido e redestruído, para ser transformado em algo bem próximo do plano original de Bush/Cheney, que queriam o país dividido por linhas sectárias, que deixariam a produção crucial e petróleo e gás no sul, em mãos de empresas aliadas do “ocidente”. Jamais algum desses cogitou de um Iraque estável. O plano sempre foi obter um Iraque maleável. Simples etapa em direção a coisa maior.

Presença operacional do ISIS/ISIL na Síria e no Iraque
(clique na imagem para aumentar)
Tendo fracassado na tentativa de golpe para derrubar Damasco com uma insurgência de “combatentes da liberdade”, a CIA redireciona e realoca seus “procuradores” que agem à distância. O ISIS/ISIL está agora mais forte e mais bem armado. Tem a vantagem estratégica de ter bases tanto na Síria como as recém capturadas em território iraquiano. Está em posição para cercar e pressionar tanto a Síria quanto o Irã.

Desestabilização regional

O objetivo é desencadear tal escala de violência sectária na região que seja difícil de conter e impossível de ignorar. Encene essas atrocidades horríveis à porta das nações-alvo, e os governos são empurrados para tais agitações e conflitos que não terão como evitar. Assim esses governos são enfraquecidos e “caem”. De fato, são derrubados. Mas o modelo é bem conhecido e foi usado sempre em virtualmente todas as “conquistas” imperiais nas décadas recentes, dos Bálcãs ao Oriente Médio e à África. Na Ucrânia.

Michel Chossudovsky
O padrão é sempre o mesmo: na sequência, virá a “restauração da ordem” nos novos territórios, seja militarmente seja sob o disfarce de ajuda humanitária. E instalam-se regimes fantoches. Chegam as empresas, para “reconstruir” e para “investir”, assumindo o controle, sempre, para começar, do petróleo e do gás, e da geografia, pelas bases que se constroem – e das quais se lançam as operações militares/de inteligência.

Os eventos no Iraque podem marcar o início de um apocalipse mais amplo. Segundo Michel Chossudovsky, a agenda de longo prazo dos EUA é “esculpir” ambos, Iraque e Síria, em três territórios separados: um Califato Islamista Sunita, uma República Árabe Xiita e uma República do Curdistão. O Iraque deixará de existir completamente. Toda a região está sob ameaça.

Mentiras e ambigüidades

Dentro das fronteiras dos EUA, reina a morte cerebral mais desinteressada de tudo. A vasta maioria dos norte-americanos de nada sabe, de nada quer saber e não se importa. O cidadão médio reage a questões sociais, como igualdade de direitos para casar ou o racismo em jogos de futebol (que são questões sem importância alguma aos olhos das grandes potências), e absolutamente não dá nenhuma atenção às grandes ameaças que pesam sobre a humanidade – dentre as quais a maior é a guerra que continua a consumir vidas de norte-americanos, que norte-americanos usam como bucha de canhão.

As massas norte-americanas não acordaram, não importa o quanto tantos fatos tenham sido amplamente expostos. A narrativa de propaganda, falsa, do 11/9, está firmemente implantada, talvez para sempre: os EUA estão em guerra contra “os terroristas que nos atacaram dia 11/9” e “temos de defender a liberdade”.

A esquerda política (em larga medida cooptada por atividades de tipo ‘'programas de contrainteligência'’) caça o próprio rabo, aceitando as narrativas produzidas em Washington, vez ou outra embarcando tolamente em visões limitadas como “o revide”, sempre disposta a crer na “inocência atrapalhada” de Washington... e engolindo praticamente todas as mentiras que ouça.

 Dianne Feinstein
(Donkey-Hotey)
Na Washington capital da corrupção, a cena está além de qualquer cenário orwelliano. Reinam a propaganda e todos os tipos de mentiras. O círculo mais interno do poder sabe do que se passa e transpira, mas a arrogância e a disputa do poder entre dois “partidos” persiste. A imprensa-empresa recusa-se a noticiar fatos e vive de repetir a mais desgastada propaganda, como é mandada repetir. A “guerra ao terror” vai muito bem, obrigada.

A senadora Dianne Feinstein está alertando contra “consequências devastadoras” das “forças sunitas em marcha” – e não diz que os EUA estão por trás das tais “consequências” e das tais “forças”. E conclama “os dois lados” (Democratas e Republicanos) a se “unirem”.

Não por coincidência, John McCain, senador que abertamente apoia os terroristas da Al-Qaeda e as atrocidades clandestinas, está outra vez no centro do palco, na primeira linha. Vive a cuspir desaforos contra a “fraqueza” e a “estupidez” do governo, que não reinvade o Iraque:

Todos nessa equipe de segurança nacional, inclusive o Comandante do Estado-Maior têm de ser substituídos. É um colossal fracasso.

McCain exige que os EUA ataquem militarmente já (e provavelmente apoia cada um dos passos de Obama). É o mesmo McCain sempre diretamente envolvido em fornecer armas aos terroristas da Al-Qaeda na Líbia e na Síria. Não há dúvida possível de que McCain, sempre pronto a apoiar e armar e enriquecer “combatentes da liberdade” da Al-Qaeda da CIA, está ao lado, também, dos terroristas do ISIS/ISIL.

McCain com líderes terroristas da Al Qaeda e do Exército Sírio Livre
O bom amigo de McCain e inventador de guerras como ele, senador Lindsey Graham (R-SC), também “exige” ataques aéreos imediatos e só faz promover a ideia de que “o próximo 11/9 está sendo preparado”.

Obama está “falhando”?

E Obama? Agora que é presidente “pato-manco”, sem ter de preocupar-se com política e imagem falsificadas para a re-eleição, Obama e o seu aparelho de segurança nacional parecem mover-se em duas frentes: uma real; a outra, propaganda.

O governo Obama está promovendo a agressão contra Ucrânia/Síria/Iraque a novos níveis, em busca desenfreada por alcançar rapidamente objetivos pelos quais anseia há muito tempo (a realpolitik), ao mesmo tempo em que se vai autossacrificando politicamente (na narrativa que a propaganda lhe cobra).

Politicamente, Obama estará “tombando sobre a espada”? Aparentemente, como todos os presidentes antes dele, Obama está sendo dispensado do cargo como completo fracasso de política externa nos anos finais do mandato – o que abre o caminho para o sucessor, que fará novamente e sempre a mesma coisa. É sempre assim.

Se, de agora em diante, Obama não conseguir “restaurar a ordem”, sairá como o presidente que “perdeu o Iraque”, “abandonou o Iraque antes da hora”, não conseguiu deter os terroristas, não conseguiu livrar-se de Assad, não pôs fim ao Irã, etc., etc..

Agora, Obama está sendo culpado pela “paralisia política” do governo Maliki. O governo, e a provável candidata Democrata à presidência, a ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, já se viram envolvidos em escândalo gigantesco, como “a equipe que perdeu Benghazi” e encobriu tudo.

Somada ao fato de que Obama ampliou muito a geoestratégia assassina dos anglo-norte-americanos iniciada por Bush/Cheney (Obama ampliou exponencialmente as agressões, ao mesmo tempo em que manteve máscara de político democrático), os EUA devem esperar uma forte guinada à direita – outra vez, de volta à linha Bush/Cheney: o mesmo tipo de fascismo de direita “movido a ódio” que está tomando conta da Europa e que se vê claramente exemplificado na Ucrânia neonazista.

George Bush (E) e Dick Cheney na Casa Branca (set/2001)
Para o próximo estágio da guerra mundial, e para controlar também os seus próprios dissidentes em território nacional, os EUA precisarão de presidente aberta e declaradamente brutal, na Casa Branca. Talvez alguém como Jeb Bush, com gabinete formado dos criminosos de guerra da equipe Republicana de Bush/Cheney, todos arrancados das respectivas tumbas para infernizar outra vez os vivos.

Ameaça ao futuro da humanidade

O império norte-americano continua a trabalhar a favor da guerra total, usando todos os meios necessários para alcançar o controle do subcontinente eurasiano, diretamente contra Rússia e China.

Esse holocausto tem escala e objetivos além da compreensão dos homens e mulheres de bem. Eventos no Iraque, Síria e Irã andam lado a lado com eventos na Ucrânia, todos inscritos numa única e desesperada agenda global. Só se busca o controle do que resta de petróleo e gás no planeta, dos oleodutos, dos gasodutos, das rotas de transmissão de energia, enquanto essas fontes de energia vão sendo exauridas e estarão esgotadas em poucas décadas.

Os eventos que se desenrolam no Iraque não são resultados de “fracassos da inteligência”, mas, como o 11/9 e outras atrocidades, são operação planejada pela inteligência; mais uma operação, numa sempre a mesma repetida horrorosa sequência.
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[*] Larry Chin é um jornalista freelance e editor colaborador do Journal Online e do Global Research, além de outras publicações impressas e online.

domingo, 22 de junho de 2014

Pepe Escobar: “Ardei, Homens de Preto, ardei”

20/6/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“O que realmente interessa ver em tudo isso é que Teerã identificou o desfile do ISIS/ISIL em sua passarela do deserto, pelo que ele de fato é: uma armadilha.”


ISIS/ISIL cruza o deserto do Iraque e da Síria
Vamos logo ao que interessa. Como a coleção primavera-verão Zara, completa, com rifles de assalto último tipo, tênis de passeio Nike branquinhos novinhos em folha e Toyotas-zero-quilômetro com o tanque cheio, cruzando o deserto sírio-iraquiano: os BBJB, Bad-Boys Jihadistas in Black.

Era uma vez (faz pouco tempo!), o governo dos EUA só ajudava “terroristas do bem” (na Síria), em vez de “terroristas do mal”. Era eco de outro tempo (menos recente) quando os EUA só apoiavam “Talibã do bem”, não “Talibã do mal”.

Bandar "Bush" bin Sultan 
Mas, então... O que aconteceu, se até os ditos “especialistas” da Brookings Institution já cacarejaram que o Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) é, sim, o pior grupo jihadista do planeta (afinal, foram expulsos da al-Qaeda)? Será que são tããããão péssimos que, nos termos da lógica pervertida do duplifalar, já estariam alcançando a neonormalidade?!

Desde o ano passado, segundo o duplifalar do governo dos EUA, “terroristas do bem” na Síria são a gangue da Frente al-Nusra, descendente da al-Qaeda; o príncipe (tombado em desgraça) Bandar bin Sultan, codinome Bandar-Bush; e a Frente Islâmica, subgrupo, de fato, da Frente al-Nusra de várias frentes. Mas ambos, a Frente e o ISIS juraram lealdade a Ayman “o Doutor” al-Zawahiri, capo perene da al-Qaeda e duro-de-matar.

Tudo isso nos deixa o problema de saber o que os BBJBBad-Boys Jihadistas in Black do ISIS/ISIL, soldados degoladores e astros de passarela & foto, reunião (ou amontoado) de sunitas tribais de linha duríssima e “remanescentes” (lembram-se de Rumsfeld em 2003?) do partido Ba’ath – realmente querem.

Interrompemos esse desfile pela passarela do deserto, para anunciar que eles NÃO invadirão Bagdá. Mas, sim: estão ocupadíssimos acelerando a balcanização – e eventual partilha de ambos os estados, Síria e Iraque. Não são criação da CIA [como é que Langley (sede da CIA) nunca pensou nisso?!]; são, de fato, filhos bastardos do cartão de (infindável) crédito do (caído em desgraça) Bandar Bush.

Vista aérea da sede da CIA em Langley
O fato de que o ISIS/ISIL NÃO esteja diretamente na folha de pagamento da CIA−Langley não implica que a estratégica do ISIS/ISIL seja essencialmente diferente da agenda do Império do Caos. O governo Obama pode até estar enviando alguns poucos marines para proteger as piscinas da maior embaixada do universo, do tamanho do Vaticano, e mais uns poucos “conselheiros militares” para “retreinarem” o Exército (em dissolução) do Iraque. Mas são uma gota de Coca-Zero no deserto ocidental iraquiano. Não há sinal de que Obama esteja a ponto de autorizar “apoio cinético” contra o ISIS/ISIL, apesar de Bagdá já ter autorizado.

Ainda se Obama pirar-total e/ou inventar uma nova lista de itens humanos a serem pulverizados por seus drones (“ação militar focada”), sempre será pouca coisa & diversionismo. O que interessa é que as agendas do ISIS/ISIL e da Av. Beltway continuam idênticas: livrar-se do primeiro-ministro do Iraque, al-Maliki (não por acaso o novo bicho-papão nas páginas da imprensa-empresa nos EUA); pôr fim à influência político/econômica do Irã sobre o Iraque; apagar, de cabo a rabo, o Acordo Sykes-Picot; e estimular mais “dores do parto” (lembram-se de Condoleezza?) em vastas áreas onde sunitas tribais linha duríssima já atropelaram o poder central e governam.

Para o Império do Caos, o ISIS/ISILé o agente provocador que lhes caiu do céu (presente de Alá?): perfeito instrumento fantasiado com balaclava para manter em ritmo de Operação Liberdade Duradoura, para sempre, a Guerra Global ao Terror.

A cereja do bolo (azedo) é que a casa de Saud negou oficialmente que esteja apoiando o ISIS/ISIL. Parece ser verdade, já passando por cima da carcaça de Bandar Bush. Pista para entender a narrativa oficial da Casa de Saud e Casa de Thani sobre o ISIS/ISIL: não têm nada a ver com o que está acontecendo no Iraque. Tudo lá é organizado pelos “remanescentes” do partido ba'athista.

E vêm-aí, isso sim, é mais golpe de “mudação de regime”...

O ângulo mais amplo, que tudo abarca, é o do Irã, porque todo o drama, inteiro, é sobre “conter” o Irã.

Basta você conseguir ler o Washington Post, para ter certeza: é a mesma regurgitação “jornalística” de sempre sobre “provas” de que “o Irã e seus aliados sírios” muito “cooperaram” com o ISIS/ISIL, e de que Bashar al-Assad da Síria mantém uma “parceria comercial” com o ISIS/ISIL. E não esqueçam o quanto eles precisam de mais guerra, guerra, guerra: há aí à frente um “Irã nuclear” em luta contra um “mundo árabe sunita”; e o grande coringa continua a ser a al-Qaeda.

Quanto à propaganda neoconservadora de “denúncia” de que o governo dos EUA estaria na cama com Teerã contra o ISIS/ISIL... esqueçam: mais uma vez, é puro jornalismo para desinformar.

O general Mohammad Reza Naqudi, comandante dos Guardas Revolucionários do Irã, aproximou-se muito da verdade, quando disse que:  

(...) grupos takfiri e salafistas em vários estados regionais, especialmente na Síria e no Iraque, são apoiados pelos EUA; e que os EUA estão manipulando os terroristas takfiri para comprometer a imagem do Islã e dos muçulmanos.

E foi o que disse também o presidente do Parlamento (Majlis) Ali Larijani:

É perfeitamente óbvio que os norte-americanos e demais países aqui à nossa volta são responsáveis pelo que hoje se vê no Iraque. (...) O terrorismo converteu-se em ferramenta que as grandes potências usam para promover seus objetivos.

ISIS/ISIL em Mosul com seus tênis branquinhos...
O que realmente interessa ver em tudo isso é que Teerã identificou o desfile do ISIS/ISIL em sua passarela do deserto, pelo que ele de fato é: uma armadilha.

Além do mais, o Irã também está convencido de que Washington não romperá com seus vassalos na Casa de Saud. Tradução: Washington permanece comprometida com a velha-guarda da Guerra Global ao Terror.

Na prática, isso sim, Teerã já está apoiando – e também com “conselheiros” em campo – uma miríade de milícias xiitas que estão sendo deslocadas para proteger Bagdá e, especialmente, as cidades sagradas dos xiitas, Najaf e Karbala.

Os EUA, entrementes, na volta dos neoconservadores mortos-vivos, insistem na vomitação do tema preferido deles: Maliki Maliki Maliki. Nada do que se passa hoje no Iraque tem qualquer coisa a ver com a Operação Choque e Pavor, nem com a invasão, nem com a ocupação, nem com a destruição do país praticamente todo; nem tem nada a ver com Abu Ghraib; nem com a guerra sectária que se vê hoje, absoluta e completamente incitada por Washington (Dividir para Governar, tudo outra vez). Nada disso. A culpa é de Maliki. Então... Maliki tem de ser posto para fora de lá!

Quando tudo fracassa – ao custo de trilhões de dólares – o manual dos neoconservadores manda resetar e voltar ao modelão-padrão: “mudação de regime”.

Aos trancos, por um sunistão linha duríssima

Abu Bakr al-Baghdad
Tudo é oculto e impalpável sobre o líder do ISIS/ISIL, Abu Bakr al-Baghdadi, também conhecido como Abu Dua, nascido em Samarra em 1971, “remanescente” de Saddam mas – e mais importante – ex-prisioneiro de uma prisão do governo dos EUA em Camp Bocca, de 2005 a 2009, além de ex-líder da al-Qaeda-no-Iraque. Não é segredo no Levante que os Homens de Preto do ISIS/ISIL foram treinados em 2012 por instrutores norte-americanos numa base secreta em Safawi, no deserto ao norte daquela ficção disfarçado de país, a Jordânia, para que, adiante, pudessem lutar fantasiados como “rebeldes” aprovados pelo ocidente, na Síria.

Foi al-Baghdadi quem mandou um grupo de Homens de Preto para montar a Frente al-Nusra (“terroristas do bem”, lembram-se?) na Síria. É provável que tenha rompido com a Frente no final de 2013, mas continuou a mandar sobre vasta porção de deserto, do norte da Síria ao oeste do Iraque. É o novo Osama bin Laden (a bênção que nunca para de cair dos céus, sempre e sempre), Emir mais do que com certeza de um califato islamicamente correto no coração do Levante.

Esqueçam Osama no Hindu Kush; a coisa agora é muito mais sexy!

Um sunistão linha duríssima entre o norte curdo do Iraque e o sul xiita, nadando em petróleo, que se estende de Aleppo, Rakka e Deir ez-Zor na Síria, entre os dois rios – Tigre e Eufrates – com Mosul como capital, devolvida ao papel ancestral de eixo de transmissão entre os rios gêmeos e o Mar Mediterrâneo. Sykes-Picot comerão os próprios pés, de raiva.

Obviamente, al-Baghdadi jamais conseguiria montar sozinho esse festim fantástico. É onde entra seu auxiliar “remanescente” de Saddam e teórico do partido Ba'ath, o extraordinário Izzaat Ibrahim al-Douri, filho precisamente da estratégica Mosul. E, principalmente, sobretudo e todos, entra também o Conselho Geral Militar dos Revolucionários do Iraque – espantosa organização “secreta” que tem as gingas dos infernais Lionel Messi e Luiz Suarez somadas e está driblando todo o aparelho de inteligência ocidental, inclusive a Panopticon-orwelliana Agência de Segurança Nacional dos EUA. [1]

Cidades sírias e iraquianas atacadas pelo ISIS/ISIL
Bem... Não chega a ser tudo isso, assim, completamente, porque a coalizão das vontades do ISIS/ISIL e ba'athistas foi negociada por ninguém menos que Bandar Bush – quando ainda estava na ativa e com a contribuição crucial de um passe da lateral que lhe veio do primeiro-ministro Erdogan, da Turquia. Não há aí nem jamais alguém conseguirá encontrar aí “a mão” de Washington, porque, aí, a Av. Beltway não piou.

O que o Conselho Geral Militar dos Revolucionários do Iraque conseguiu reunir é nada menos que todos os “remanescentes” da boa velha resistência iraquiana do início dos anos 2000s, os principais xeiques tribais, misturou-a com o ISIS/ISIL, e criou o que bem se pode chamar de um “Exército da Resistência” – aqueles, os BBJB, Bad-Boys Jihadistas in Black & suas pick-ups Toyotas branquinhas, feitos da matéria da qual hoje se escrevem as lendas, pois conseguiram obrar o milagre de não serem detectados pela rede de satélites da Agência de Segurança dos EUA. Os rapazes da máscara preta e tênis branco & fuzil & Toyotas-zero estão tão, tão, tão na moda, que têm até página “no Face” com 33 mil "curtidas”.

Balkanização ou morte

Enquanto isso, a agenda do Império do Caos continua sem se alterar. A balcanização já é fato. O ministro de Relações Estrangeiras do Iraque, Hoshyar Zebari (que é curdo), pediu a “cooperação” da guerrilha curda (Peshmerga) ao exército iraquiano, para manter Kirkuk, rica em petróleo, bem longe do ISIS/ISIL. Operando com precisão de relógio, os Peshmergas anexaram Kirkuk, para todas finalidades práticas. O Grande Curdistão já nos acena de perto...

O Grande Aiatolá Sistani, também para todas as finalidades práticas, lançou uma jihad sunita contra o ISIS/ISIL. Por seu lado, o líder do Conselho Islâmico Supremo do Iraque, Sayyid Ammar al-Hakim, praticamente ressuscitou aquele formidável corpo de paramilitares, o Badr – muito próximo do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã. São corpos militares contra os quais o ISIS/ISIL não tem a mínima chance. E Muqtada al-Sadr está lançando suas “Brigadas da Paz”, para proteger as cidades santas xiitas e também igrejas cristãs. Reina a guerra civil. Enquanto isso, na Terra de Oz, o Pentágono com certeza conseguirá obter fundos extras para sua cruzada perene que visa a salvar a civilização ocidental contra o terror islamista. Afinal, um neo-Osama bin Laden (em balaclava) espreita no mato.

Oriente Médio BALCANIZADO.
Sonho do Império Anglo-Sionista

(clique na imagem para aumentar)
Embora a maioria dos iraquianos rejeitem a balcanização, os sunitas continuam a acusar os xiitas de trabalharem a favor dos iranianos, e os xiitas continuam a acusar os sunitas de serem uma 5ª Coluna a favor da Casa de Saud. O ISIS/ISIL continuará a receber montanhas de dinheiro de ricos “doadores” sauditas. O governo dos EUA continuará a armar os sunitas contra os xiitas na Síria e (provavelmente) manterá seus “ataques militares focados” a favor dos xiitas e contra sunitas no Iraque. E foi assim que “Dividir para Governar” enlouqueceu completamente.
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Nota dos tradutores
[1] Ver também, na mesma linha dessa reflexão: 21/6/20014, redecastorphoto: O fiasco ISIS/ISIL: na realidade, um ataque ao Irã, Mike Whitney, Counterpunch, trad. Mberublue.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Árabes! Atenção à opção “Pequenos Estados”

29/7/2013, [*] Sharmine Narwani - Al-Akhbar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No âmago de todas as políticas jaz o mais duro, o mais frio oportunismo. Novas circunstâncias alteram as alianças e eventos inesperados sempre conspirarão para modificar os planos que se façam com vista a promover uma agenda núcleo.
Mohamed Mursi

Hoje, no Oriente Médio, todos os cálculos e projetos estão tendo de ser ajustados com frequência e rapidez que não se viam há décadas.

No Egito e na Síria, por exemplo, o sentimento popular é genuinamente dividido para acompanhar as alianças e os respectivos interesses. Metade dos egípcios parecem convencidos de que o deposto presidente Mohamed Mursi é o vilão-representante-residente de EUA-Israel; a outra metade acredita que quem defende e promove essas agendas estrangeiras são os militares egípcios.

Bashar al-Assad
Na Síria, pode-se dizer o mesmo dos sírios conflagrados, metade para cada lado, sobre se o presidente Bashar al-Assad ou o Conselho Nacional Sírio [orig. Syrian National Council (SNC)] é o principal promotor dos interesses hegemônicos de Israel e dos EUA na Região.

Mas egípcios e sírios, que apontam dedos alternativamente acusatórios ou contra os islamistas ou contra o Estado, que consideram ferramentas do imperialismo, enganam-se todos num ponto: o império é oportunista. E tem meios para beneficiar-se tanto dos islamistas como do Estado.

Há outro cenário muito mais destrutivo, que os árabes não levam em consideração, enquanto se ocupam com conspirações e minúcias especulativas: há uma terceira opção, mais daninha para todos os envolvidos.

A balkanização dos estados-chaves do Oriente Médio

"Dividir e Conquistar"- Projeto Imperial Anglo-Americano para o Oriente Médio
Clique na imagem para visualizar melhor este exemplo
Em evento realizado dia 19/6/2013, na Escola de Políticas Públicas Gerald R. Ford, da Universidade de Michigan, o ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, tocou num alarmante novo refrão que se ouve no discurso ocidental sobre resultados no Oriente Médio; uma terceira estratégia, caso todas as demais deem em nada, para redesenhar fronteiras acompanhando linhas sectárias, étnicas, tribais ou nacionais que farão desaparecer o alcance político/militar de países árabes chaves, e permitirão que o ocidente reforce seu controle (hoje em rápido processo de evanescimento) sobre a região. Eis o que diz Kissinger sobre essas duas nações 
Henry Kissinger
Há três resultados possíveis (na Síria). Uma vitória de Assad. Uma vitória sunita. Ou um resultado no qual as várias nacionalidades concordam com co-existirem juntas, mas em regiões mais ou menos autônomas, de modo que uns não possam oprimir outros. Esse é o resultado que eu preferiria ver. Mas não é ideia muito popular... Primeiro de tudo, a Síria não é estado histórico. Foi criada na forma atual em 1920, e recebeu essa forma para facilitar o controle que a França exercia sobre o país, depois do mandato da ONU (...). O vizinho Iraque recebeu formato ‘'estranho'’, exclusivamente para facilitar o controle pelos ingleses. E o formado dos dois países foi desenhado para dificultar que um ou outro desses dois países viesse a dominar a região.

Enquanto Kissinger assume francamente que prefere a opção de “regiões autônomas”, muitos governos ocidentais declaram que teriam algum interesse em impedir que os territórios sejam fragmentados. Não acreditem nisso. É mais uma vez e sempre narrativa inventada e cenários pré-montados. Repita incansavelmente qualquer coisa – por exemplo, a ideia de que esses países poderiam ser “redivididos” – e as plateias midiáticas já nem lembrarão se você disse que sim, ou disse que não. Guardarão a mensagem de que esses estados podem ser divididos.

O mesmo se passa com o discurso sectário. Os governos ocidentais vivem a alertar contra a escalada da divisão sunita/xiita. Simultaneamente, não fazem outra coisa além de jogar gasolina ao fogaréu dos conflitos em toda a região, sobretudo nos estados nos quais o Irã tem influência considerável (Líbano, Síria, Iraque) ou pode começar a ter alguma influência (Egito, Bahrain, Iêmen).

“Semear” sectarismo, para rachar os estados

Se algum dia houve conspiração com pernas, é essa. Inflar os conflitos árabes-iranianos e sunitas-xiitas a favor dos EUA tem sido objetivo político central dos EUA desde a Revolução Islâmica de 1979 no Irã.

WikiLeaks ajudou a lançar luz sobre as maquinações de Washington, no momento em que os levantes árabes começaram a aparecer nas nossas telas de televisão.

Telegrama do Departamento de Estado, em 2006, que lamenta que o presidente sírio Bashar al-Assad estivesse em posição fortalecida na Síria, oferece, simultaneamente, as linhas gerais de um plano para semear a discórdia dentro do estado sírio, com o objetivo de romper os laços entre sírios e iranianos. O “assunto”? “Explorar” todas as “vulnerabilidades”:

JOGAR COM OS MEDOS QUE OS SUNITAS TÊM DA INFLUÊNCIA IRANIANA: Há medos na Síria de que os iranianos xiitas estão ativos na propaganda e na conversão de sunitas (quase sempre, dos mais pobres). Embora quase sempre exagerados, esses medos refletem um elemento da comunidade sunita na Síria, cada dia mais perturbada pela influência iraniana em sue país, em atividades que vão da construção de mesquitas a ampliação de negócios. As missões egípcia e saudita locais (além de destacados líderes religiosos sírios sunitas) têm dado atenção crescente ao assunto. E temos de coordenar melhor as nossas ações com aqueles governos, para obter melhores resultados de publicidade e conseguir orientar o foco regional para essa questão.

Somos levados a questionar se semelhantes acusações sobre a “disseminação do xiismo” no Egito seriam também verdadeiras, ou se não passariam de intriga com vista a semear sentimentos de antixiismo e anti-Irã num país que, até esse mês, era governado pela Fraternidade Muçulmana Sunita.

Telegrama de 2009, da Embaixada dos EUA em Riad Arábia Saudita, insiste no mesmo tema. Mohammad Naji al-Shaif – líder tribal ligado por laços pessoais muito próximos ao então presidente do Iêmen, Ali Abdallah Saleh e seu círculo pessoal mais íntimo – diz que figuras chaves “têm-se mostrado muito céticos, em contatos privados, sobre o que Saleh tem dito sobre ajuda iraniana aos rebeldes Houthi”:

Shaif disse ao [oficial de embaixada encarregado de contatos econômicos, orig. EconOff], dia 14/12, que membros da Comissão [gabinete especial do governo saudita para assuntos do Iêmen] têm repetido, em conversas privadas, que Saleh tem mentido ou distribuído informação exagerada sobre auxílio que os iranianos estariam dando aos rebeldes Houthis, para obter envolvimento diretos dos sauditas e regionalizar o conflito. Shaif disse que um membro da Comissão lhe disse que “sabemos que Saleh está mentindo sobre o Irã. Mas não podemos fazer coisa alguma, agora, para desmenti-lo.

Hillary Clinton
Nada disso jamais impediu que a secretária de Estado, Hillary Clinton continuasse a mentir desavergonhadamente a uma Comissão do Senado, apenas alguns poucos anos adiante: “Sabemos que eles – os iranianos – estão profundamente envolvidos nos movimentos de oposição no Iêmen”.

Telegramas da embaixada dos EUA, de Manama, Bahrain, em 2008, ainda insistiam nessa mesma tecla:

Funcionários do governo do Bahrain, às vezes, em contatos privados, têm dito a visitantes norte-americanos que alguns oposicionistas xiitas estão sendo apoiados pelo Irã. Cada vez que se fala disso, pedimos que o Governo do Bahrain distribua as provas que tenha. Mas até agora não vimos qualquer prova convincente de armas ou dinheiro do governo iraniano por aqui, desde, pelo menos, meados dos anos 1990s. Na avaliação desse embaixador, se o governo do Bahrein tivesse provas de subversão iraniana recente, teria interesse em partilhá-las conosco o mais rapidamente possível.

Mas, como os governantes do Bahrain continuam a reprimir com violência os protestos pacíficos da maioria xiita, já passados dois anos desde o início dos levantes populares naquele país, vê-se ali o mesmo discurso que se vê também em Washington: de que seria resultado de interferência iraniana. 

Washington tem sido extremamente rápida ao ativar as narrativas anti-xiitas e anti-Irã, desde o início dos levantes árabes. Já em março de 2011, os militares norte-americanos executaram um exercício secreto para construir uma “linha narrativa” que perpetue diferenças entre árabes e iranianos, sunitas e xiitas.

Eis aqui alguma das premissas e questões incluídas no exercício do CENTCOM, de árabes versus iranianos. (Atenção: no texto, os iranianos são referidos como “persas”).

Premissa: “Há uma divisão na dinâmica árabes-persas. História, religião, idioma e cultura impõem obstáculos demais para que sejam superados”.

Premissa: “Um complexo árabe de inferioridade em relação aos persas implica que muitos árabes temem a expansão e a hegemonia persa em todo o Oriente Médio. Em sua mente, o Império Persa jamais deixou de existir e é mais autossuficiente que muitos estados árabes”.

Premissa: “Simples choque de civilizações – i.e., cruzados modernos, Islã versus judeu-cristãos; guerra entre ocidente/Israel versus árabes/presas – não parece ser cenário no qual árabes e persas venham a unir forças contra os EUA/Ocidente”.

Pergunta: “Seria apropriado circunscrever a discussão em termos de ‘árabes-persas’, ou a divisão ‘sunita-xiita’ é circunscrição mais apropriada?”.

Pergunta: “Assumindo o cisma, o que uniria árabes e persas, ainda que só temporariamente?”.

Todas essas narrativas assumem duas coisas: que a divisão entre iranianos e árabes é fato; e que a maior unidade dos dois grupos no início dos levantes árabes é ameaça potencial aos interesses dos EUA. Daí a pergunta seguinte, em tom preocupado: o que os uniria, mesmo que só temporariamente?

“Pequenos Estados” enfraquecem os árabes

Com o aumento de conflitos pré-fabricados na Região, as opções também diminuem. Dada a importância estratégica do Oriente Médio e suas reservas vitais de petróleo e gás... por causa do desejo de manter a estabilidade em estados-chaves que salvaguardam interesses dos EUA, como Israel, Jordânia, Turquia (membro da OTAN), monarquias do Golfo Persa... conflitos sem prazo para terminar em vários estados são, dito em fórmula simples, indesejáveis.

Modelo de "balcanização" da Síria
Ao longo do conflito sírio – e com certeza ao longo do ano passado, quando a partida de Assad parecia menos provável – o ocidente, através da mídia e de intermediários “especialistas”, frequentemente trouxe à tona a ideia de dividir o estado em várias partes menores, seguindo linhas sectárias e étnicas. Embora apresentada como meio para “impedir conflito futuro”, essa ideia atualmente acompanha o experimento de federalismo iraquiano que os EUA tentam implantar e que efetivamente tentaram implantar, dividindo o Iraque em três zonas distintas (sunita, xiita e curda).

Esqueça o fato de que não se encontram cinco sírios não curdos ou iraquianos não curdos que tenham renome nacional e que apóiem a divisão da própria nação. A ideia é claramente ideia dos EUA, na visão de Washington. Ou é visão ocidental, na qual se veem as impressões de Israel por, de fato, todos os cantos.

A visão de Israel, dos “Pequenos Estados”

Em 1982, com Israel aquecendo as máquinas para invadir o Líbano, o estrategista do Ministério de Relações Exteriores de Israel, Oded Yinon rascunhou um plano para redesenhar o Oriente Médio,  dividido em vários pequenos cantões que jamais representariam qualquer tipo de ameaça à supremacia regional do estado judeu:

A total dissolução do Líbano, em cinco províncias, serve como precedente para todo o mundo árabe, incluindo o Egito, a Síria, o Iraque e a Península Arábica, e já está em andamento. A dissolução da Síria e do Iraque, logo depois, em áreas étnicas ou religiosas puras, como no Líbano, é o alvo primário de Israel no front oriental no longo prazo; e a dissolução do poder militar desses estados serve como alvo primário de curto prazo. A Síria rachará, acompanhando suas linhas internas de estrutura étnica e religiosa, em vários estados, como o Líbano hoje; e haverá um estado xiita alawita junto à costa; um estado sunita na área de Aleppo; outro estado sunita em Damasco, hostil contra o vizinho do norte; e os drusos, que não terão estado, talvez mesmo no nosso Golan; e com certeza em Hauran e no norte da Jordânia.

O Egito é dividido e esfacelado em vários focos de autoridade. Se o Egito esfacelar-se, países como a Líbia, o Sudão e mesmo estados mais distantes deixarão de existir sob a forma que têm hoje e acompanharão a decadência e a queda do Egito. A visão de um estado cristão copta no Alto Egito, ao lado de vários estados fracos com poder bem local e sem governo centralizado a enfrentar, é a chave para um desenvolvimento histórico que só foi contido pelo acordo de paz, mas que parece inevitável, no longo prazo.

O Iraque, rico em petróleo por um lado, mas internamente rachado por outro lado, é candidato certo a ser alvo dos israelenses. A dissolução é ainda mais importante para nós, que a da Síria. No curto prazo, a maior ameaça hoje, contra Israel, é o poder iraquiano. Uma guerra Iraque-Irã rachará ao meio o Iraque e levará à queda, antes de o país conseguir organizar a luta em front mais amplo contra nós. Qualquer tipo de confronto intra-árabes nos ajudará no curto prazo, e apressará o processo para alcançarmos o objetivo mais importante de rachar o Iraque entre as diferentes denominações, como na Síria e no Líbano.

No Iraque, é possível a divisão em províncias, acompanhando linhas étnicas/religiosas como nos tempos otomanos. Assim, três (ou mais) estados existirão em torno de três grandes cidades: Basra, Bagdá e Mosul; e áreas xiitas no sul separarão as áreas sunitas e o norte curdo. É possível que o atual confronto Irã-Iraque aprofunde essa polarização.

Não há chance de a Jordânia continue a existir em sua estrutura atual por muito tempo; e a política de Israel, tanto em paz quanto em guerra, tem de ser dirigida para liquidar a Jordânia sob seu regime atual, com transferência de poder para a maioria palestina.

O sonho sionista de Oded Yinon. A linha vermelha demarca as "novas fronteiras de Israel"
Cuidado com a ruptura artificialmente provocada dos estados

Na via oposta às narrativas ocidentais sobre “revoluções” árabes que anunciariam uma era de “liberdade e democracia”, os russos adotaram via de análise dos eventos muito mais cautelosa.

Dmitry Medvedev
Já em fevereiro de 2011, o então presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, alertou que as revoluções que começavam a eclodir no mundo árabe levariam ao poder, mais provavelmente, grupos de fanáticos, o que por sua vez determinaria “anos de fogo e a disseminação do extremismo na Região e no tempo”. E a quebra de estados, na sequência desses eventos, disse ele, era clara possibilidade a ser levada em conta:

A situação é dificílima. Podemos estar falando da desintegração de estados grandes, densamente povoados. Podemos estar falando da pulverização desses estados, de sua redução a pequenos cacos.

Os russos acertaram perfeitamente. Os norte-americanos erraram – grave e perigosamente

O Oriente Médio um dia precisará fazer correções de fronteiras, mas, para ser bem-sucedido, terá de fazê-lo como processo determinado de dentro para fora, por interesses indígenas. As batalhas que incendeiam a Síria, o Iraque, o Líbano, o Iêmen, o Bahrain e outros países são manifestação de luta maior que se disputa entre dois “blocos”, cada um deles com desejos diferentes para toda a região. E um desses desejos é um novo traçado para as fronteiras do Oriente Médio.

O primeiro grupo, um bloco agressivamente liderado pelos EUA busca manter a hegemonia regional a qualquer custo; para isso, usa narrativas cuidadosamente construídas para promover divisões locais e levar a população a apoiar “a causa” das novas fronteiras apoiadas pelo ocidente. Essas fronteiras dividirão os países segundo linhas sectárias, étnicas e tribais, de modo a garantir que haja conflito eterno entre os “novos” estados e respectivas “novas” fronteiras, os quais contribuirão para que os novos estados tenham de ocupar-se com conflitos locais e sejam assim “redirecionados” de qualquer luta contra o maior poder imperial. Um Oriente Médio unificado, afinal de contas, mais ou menos naturalmente se organizaria contra o sempre odiado Império – e as fronteiras de Israel seriam as primeiras a ser sacrificadas. E nesse clima, revisões de fronteiras fomentadas pelo ocidente serão dramaticamente mais caóticas do que [o acordo] Sykes-Picot jamais foi.  
O segundo bloco (Irã, Iraque, Síria, Rússia, China e um pequeno grupo de estados - grupamentos independentes) que se opõe à hegemonia ocidental-israelense não tem nem meios nem força ou competência para impor soluções de fronteira exceto em sua própria base geográfica, o que cada vez mais se aproxima de uma linha traçada do Líbano ao Iraque (e não por acaso, porque é aí que está canalizada a maior parte do caos). Esse grupo tem uma estratégia de defesa, baseada largamente em desconstruir tramas que semeiam divisionismos, minimizar a luta e esvaziar insurgências cevadas do exterior, inclusive por meios militares, se necessário.

Do ponto de vista desse bloco, Sykes Picot será desfeito, mas dentro de um processo orgânico de correções de fronteiras baseado em consenso regional e considerações racionais. Na verdade, esse bloco está menos focado em redesenhar fronteiras do que em controlar e dosar os confrontos criados para gerar divisões prejudiciais para todos.

Árabes e muçulmanos têm de começar a prestar máxima atenção a essa terceira opção de “pequenos estados”. Se não se dedicarem a isso, todos cairão na perigosa armadilha de deixar-se distrair-se por detalhes de somenos, enquanto suas nações estarão sendo retalhadas, e seus povos lançados em conflitos e guerras perpétuas.


[*] Sharmine Narwani é autora, comentarista e analista política, que cobre o Oriente Médio para várias publicações.
Pode ser encontrada pelo Twitter, @snarwani .