Mostrando postagens com marcador Sharmine Narwani. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sharmine Narwani. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Um “Arco da Segurança” no Oriente Médio contra o terror

21/12/2013, [*] Sharmine Narwani, Al-Akbar, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também: 25/12/2013, Asia Times Online (traduzido em redecastorphoto): Pepe Escobar: “Tudo em disputa no Novo Grande Jogo.

Mapa do “Arco da Segurança” (de S. Narwani, E. Adaime, A. Amacha)
(clique na imagem para aumentar) 
Muitos observadores acertam, ao perceber que está em andamento outra mudança sísmica no Oriente Médio, a qual – com a destruição dos arsenais químicos da Síria, negociada com intermediação dos russos; uma reaproximação EUA-Irã; a queda na importância estratégica de Arábia Saudita e Israel; e a retirada dos EUA do Afeganistão – contribuirá, como as demais, para alterar consideravelmente a sempre mutável dinâmica regional.

Mas que nova deriva é essa? De onde virá, a que levará, o que a definirá?

Já se vê agora claramente que o novo “rumo”, essa nova deriva, no Oriente Médio é dirigido, primariamente, contra a “ameaça de segurança” gerada pela proliferação de combatentes islamistas extremistas sectários em número jamais visto, nem no Afeganistão ou no Iraque. Esse perigo que ameaça todos foi o ímpeto que fez surgirem inúmeros acordos diplomáticos globais que abriram inesperadas áreas de cooperação entre grupos diversos de países, alguns dos quais adversários.

Mas esses desenvolvimentos recentes vêm com marca nova, rara, pós-imperialista. Pela primeira vez em décadas, essa deriva será comandada de dentro da Região, pelos estados, grupos, seitas e partidos do Oriente Médio mais diretamente ameaçados pelo extremismo. Porque hoje já não aparecerá ninguém para “salvar” o Oriente Médio.

Com militantes salafistas voando em bandos através de várias fronteiras – do Levante ao Golfo Persa, ao Norte da África e noutros pontos – estados desintegram-se, com a integridade e a soberania territoriais sob ameaça, as instituições e a economia em ruínas, as respectivas forças armadas impotentes contra a guerra de guerrilhas que os infratores praticam.

Mas, de dentro desse caos, um grupo de países na linha de frente dos combates decidiu construir uma solução.

A resposta deles é enfrentar diretamente os militantes, arrancá-los de suas áreas e cortar-lhes as raízes. Atualmente, já partilham inteligência e cooperam nos combates com recursos coletivos, trabalhando para obter apoio da comunidade internacional.

Assim, enquanto alguns estados noutros pontos da região estão enfraquecendo, está emergindo uma aliança de segurança numa vasta área, do Levante ao Golfo Persa: Líbano, Síria, Iraque e Irã.

Segundo várias fontes bem informadas no Levante, entrevistadas ao longo de vários meses, esse “Arco de Segurança” visará a alcançar vários objetivos. Primeiro, manter a integridade e a soberania territoriais dos países participantes. Segundo, estabelecer rigorosa cooperação militar e de segurança contra ameaças imediatas e futuras que venham de extremistas. Terceiro, forjar uma visão política de mundo comum àqueles países, que fortaleça a aliança e possa levar a futura cooperação em outras arenas.

O rei sunita Abdullah da Jordânia chamou certa vez essas quatro nações de “Crescente Xiita”, denominação extraordinariamente sectária, logo quando começava a crescer a influência de governos e partidos políticos xiitas naquelas quatro nações. Mas a aliança de segurança que se está formando entre os quatro estados muito pouco tem a ver com alguma “seita” comum. Em vez disso, o rei Abdullah e seus aliados têm responsabilidade direta no desenvolvimento desse grupamento.

Afinal, foram as monarquias árabes apoiadas pelo ocidente que lançaram a “contrarrevolução” para esmagar os levantes populares árabes e redirecioná-los contra seus adversários regionais, via a Síria. Qatar, Arábia Saudita, Bahrain, Jordânia, Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e seus aliados ocidentais fizeram chover dinheiro, armas, treinamento e recursos para derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad – numa jogada para enfraquecer o Irã, isolar o Hezbollah e acabar com a tal “ameaça xiita” de uma vez por todas.

Ed Husain
Mas em seu obcecado movimento para esmagar inimigos, as monarquias árabes (apoiadas por aliados ocidentais) apoiaram quaisquer dos seus “parceiros religiosos” preparados para envolver-se naquela guerra, e ignoraram as ideologias sectárias, extremistas, a que aderiam aqueles combatentes. Calcularam, contra qualquer lógica e qualquer bom-senso, que, quando a missão estivesse cumprida, conseguiriam controlar aqueles militantes fanáticos.

Como escreveu Ed Husain, do Council on Foreign Relations, em agosto de 2012:

O cálculo político jamais declarado entre os políticos dos EUA é, primeiro, livrar-se de Assad – enfraquecendo a posição do Irã na região – e, depois, lidar com a al-Qaeda.

No final, o que se vê é que Assad não caiu, o Irã não foi enfraquecido, o Hezbollah tem cada vez mais prestígio e poder, e russos e chineses pularam para dentro do caldeirão. Com o conflito sírio ampliado e convertido em batalha geopolítica internacional, com armas pesadas, fronteiras porosas e retórica cada vez mais sectária, criou-se oportunidade ótima – do Líbano ao Iraque – para salafistas militantes, inclusive para a Al Qaeda, ganharem influência e criarem um corredor altamente desejável para eles, do Levante ao Golfo Persa.

Michael Hayden
Michael Hayden, ex-diretor da CIA, diz:

A história dominante que se vê na Síria é uma tomada sunita fundamentalista de parte significativa da geografia do Oriente Médio, a explosão do estado sírio e do Levante como o conhecemos.

Hoje, essa griffe ideológica de violência política, marcada por execuções sumárias, suicidas-bombas, degolas e sectarismo ameaça incendiar toda a área e converter-se em lócus de ação ideal para “emires’ e seus feudos governados pela Lei da Xaria. Para alguns, é preço que vale a pena pagar – os sauditas continuam ininterruptamente a financiar e armar esses conflitos. Outros apoiadores, sobretudo no ocidente, começam a temer que a avançada jihadista não se deterá ante nenhuma fronteira.

Mas poucos tomaram qualquer medida concreta para inibir – financeiramente ou militarmente – a proliferação desse extremismo. Assim, coube aos países atacados enfrentar o problema.

O mesmo “eixo” árabes-ocidentais que tentou sustar o crescimento “xiita” no Oriente Médio, estimulando o sectarismo e produzindo uma reação “sunita” armada, acabou por oferecer uma causa comum, de urgência, que está unindo iranianos, sírios, libaneses e iraquianos; não necessariamente por alguma comunidade de religião, mas baseada, quase completamente, na ameaça à “segurança” daqueles países. Há quem diga que é profecia que se autocumpriu.

Não é união uniforme

No Líbano, na Síria e no Iraque, há significativa população (principalmente sunita), que atualmente não apoia uma união de segurança entre os quatro estados. Décadas de propaganda sectária, vinda do Conselho de Cooperação do Golfo e do ocidente, tornaram essas populações altamente desconfiadas das intenções do Irã xiita e seus aliados.

Apesar de essas população também já serem alvos de militantes salafistas, que já assassinaram sunitas moderados (além de cristãos, curdos e xiitas) na Síria, no Iraque e no Líbano, a relutância ante a possibilidade de verem crescer seus inimigos políticos já significou várias vezes que lhes caberia dar “cobertura” a militantes de mesma fé religiosa; isso os fez proliferar localmente. É escolha dolorosa para essas populações: ou deixar crescer seus adversários, ou deixar os extremistas agir livremente.

Mas no início desse ano, quando o Hezbollah tomou a decisão de engajar-se diretamente e abertamente na guerra em Qusayr, Síria, lutando ao lado do exército sírio, tornou-se claro que os partidos que apoiam essa aliança de segurança não mais se dedicariam a satisfazer os dissidentes. O “Arco de Segurança” seria constituído, com ou sem o acordo dos que discordavam dele. E forte estímulo para que se dê atenção total ao imperativo da segurança está vindo de fonte muito improvável até agora: dos EUA.

Nos últimos meses, Washington repentinamente mudou: de apoiar uma “rebelião” principalmente sunita na Síria, para recompor-se com o Irã. Essa quase meia-volta total é resultado da percepção de que os EUA arriscaram perigosamente demais no seu jogo geoestratégico e permitiram que a militância religiosa crescesse muito além do ponto do qual os EUA poderiam fazê-la retroceder. Nem Washington nem seus parceiros armados da OTAN poderão fazer retroceder a onda, sem ajuda.

De fato, Washington e a OTAN falharam miseravelmente ao longo da tal superficial “guerra ao terror” que se arrastou por uma década, e que, para dizer o mínimo, só fez ajudar a semear cada vez mais extremismo. Os EUA entendem agora que precisam da ajuda de parceiros estatais regionais e de potências locais emergentes, que enfrentam ameaça mais iminente vinda dos militantes – Irã, Rússia, China, Índia, Síria, Iraque. E não só para combater o extremismo, mas, também, para cortar a linha que o abastece... na Arábia Saudita, no Paquistão, no Iêmen, na Líbia, no Afeganistão e em outros pontos.

A posição dos EUA é extremamente difícil: para conter a expansão dos extremistas, têm de apoiar soluções militares e de segurança controladas pelos seus antigos inimigos na região: Irã, Síria, Hezbollah. Para começar, implica que mais de 30 anos de “política” externa dos EUA serão literalmente postos no lixo; e os EUA correm o risco de afastar seus mais antigos aliados regionais. Para piorar, o sucesso nessa nova empreitada – quer dizer: eliminar o extremismo – quase com certeza implicará ver aumentar a influência do Irã e ver diminuir a influência da Arábia Saudita, aliada dos EUA, dentre muitas outras reverberações que haverá no Oriente Médio.

Nouri al-Maliki
Os sinais conflitantes que saem de Washington sobre o Oriente Médio são resultado dessa escolha torturante. Mas ações sempre falam mais alto que discursos: os EUA acabam de firmar um acordo nuclear com o Irã, em Genebra, em tempo recorde, depois de ter aberto e usado canais secretos de comunicações. Mês passado, o presidente dos EUA solicitou um encontro com o presidente do Iraque, Nouri al-Maliki. Pouco depois, os EUA começaram a partilhar informações de inteligência com o Iraque, pela primeira vez desde a retirada das tropas norte-americanas daquele país.

Segundo Az-Zaman, a primeira peça de inteligência cedida pelos EUA foi sobre o movimento de militantes armados no deserto de Anbar.

Hoje as relações EUA-Sauditas azedaram a ponto de até funcionários já se perguntarem se ainda há alguma convergência real de interesses entre os dois países; embaixadores europeus começam a trilha de volta para Damasco, com seus funcionários de inteligência fazendo fila para reuniões com os contrapartes sírios, para partilharem informações sobre os jihadistas; os inarredáveis israelenses foram deixados de lado em algumas decisões cruciais sobre o Oriente Médio; a Turquia, membro da OTAN, tem de fazer horas extras de trabalho para melhorar suas relações com Irã e Iraque. E a lista continua.

Esses desenvolvimentos extraordinários seriam irrealizáveis há apenas seis meses, quando os antolhos permaneciam levantados. A velocidade com que se iniciou e pôs-se em marcha uma “nova era de concessões” entre adversários é prova da absoluta urgência com que se está tratando o problema jihadista/salafista – e mostra até que ponto os países irão para resolvê-lo. Mesmo que isso implique detonar políticas profundamente entrincheiradas e virá-las de cabeça para baixo.

Como me disse importante fonte do Hezbollah:

Os EUA estão focados em conseguir acordos com os inimigos deles, para não dependerem dos aliados deles.

Bandeira do Partido Hezbollah, Líbano
E há boas razões para isso. Muitos dos aliados regionais históricos de Washington são as fontes da instabilidade e estão tendo de ser conversados, seduzidos ou forçados, coercitivamente, a aceitarem as novas realidades.

Alguns desses aliados são partidos políticos dentro do Arco de Segurança. Estão sendo postos na linha mais rapidamente agora, em parte porque as ameaças terroristas já estão chegando aos quintais deles. No Líbano, por exemplo, um exército nacional até aqui dominado por interesses políticos pró-sauditas parece pronto para enfrentar militantes salafistas nas cidades chaves, em vilas e em campos de refugiados, onde aumentou muito o número desses militantes. É mudança tremenda, depois de três anos durante os quais aquele exército descansou sobre o muro, à espera que a guerra Síria “respingasse” sobre o Líbano e sem tomar praticamente nenhuma medida para evitar que acontecesse.

O Arco da Segurança: Plano de Ação

Em todos os fronts as coisas estão andando depressa. A convergência de milícias sectárias para formar a “Frente Islâmica”, de 50 mil homens, deu mais coesão à causa comum que une o lado adversário. EUA e Reino Unido, semana passada, cortaram o apoio que vinham dando aos “rebeldes”, temendo, com meses de atraso, uma radicalização da “rebelião”. E o Irã lançou esforços diplomáticos nos vizinhos estados do Golfo, para dividir as fileiras locais e quebrar as velhas solidariedades; o primeiro sucesso já surgiu: Omã recusou-se a apoiar uma iniciativa saudita pela união do Conselho de Cooperação do Golfo.

Mas para derrotar o jihadismo na Síria, é preciso alcançar três objetivos – e para alcançá-los será indispensável o esforço coletivo:

Primeiro, arrancar os extremistas das áreas nas quais crescem em número e influência e onde há vontade política: dentro do Arco de Segurança, de dentro do Líbano, Síria, Iraque e Irã. É solução primariamente militar – embora alguns militantes possam sair/render-se mediante negociação, ou onde estados ou lideranças individuais locais obtenham que se rendam/retirem.

Patrick Cockburn
Segundo, estabelecer um regime de sanções globais para bloquear financeiramente redes jihadistas/salafistas, atacando suas fontes de financiamento. Já está sendo feito em pequena escala, mas as relações do ocidente com muitos dos estados e indivíduos violadores sempre impediu, no passado, que essa via avançasse. Como Patrick Cockburn escreveu recentemente em coluna no The Independent (“Mass Murder in The Middle East is Funded By Our Friends The Saudis):

Todo mundo sabe onde a Al-Qaeda obtém dinheiro, mas, por mais sectária que seja a violência, o ocidente nada faz.

A nova reaproximação EUA-Irã – em ritmo de urgência, para controlar o terror – pode mudar isso, dado o dramático realinhamento das prioridades e das novas alianças criadas a partir dali.

Terceiro, os estados vizinhos – e mesmo outros, fora da região – devem fechar as fronteiras e impor segurança total na imigração. Nas fronteiras da Síria, já se veem Turquia e Jordânia implantando medidas drásticas, mas a fronteira do Iraque continua porosa e perigosa. Daí a recente reaproximação das inteligências norte-americana e iraquiana.

A gravitação na direção da segurança como prioridade

Vê-se que o cálculo já vai mudando também em nações fora do Arco de Segurança. Muitos facilmente entendem o papel vital que esses quatro países terão de desempenhar para conter os militantes jihadistas. Todos os olhos estão voltados para a Síria, onde a situação é a mais precária para toda a região – sobretudo no Egito, Jordânia e Turquia.

Esses três são os estados regionais que mais provavelmente virão a apoiar os objetivos de segurança do Arco de Segurança, embora com reservas, que correspondem a algumas bem demarcadas diferenças políticas.

A Jordânia, por exemplo, “hospedou” todos os tipos de forças especiais estrangeiras, soldados, agências de inteligência e mercenários, todos dedicados a derrubar o atual governo sírio. Mas nem a dependência financeira da vida inteira que liga a Jordânia aos sauditas vale o risco de manter milhares de jihadistas em território jordaniano, à espera de entrar em ação em áreas de conflito. A mídia árabe fala de aterradores 1 milhão de jihadistas de origem jordaniana dentro da Jordânia. E os europeus, por sua vez, vivem aterrorizados ante a possibilidade de meia dúzia de seus próprios islamistas militantes começarem a voltar para casa.

Segundo fonte libanesa muito bem relacionada, há cerca de quatro meses Jordânia, Síria e Iraque iniciaram discussões discretas (em grupos bilaterais separados) sobre cooperação econômica e de segurança. De início, os jordanianos reclamaram das mudanças de segurança; depois se compuseram. Não estão preocupados só com o extremismo, mas também com o colapso econômico – qualquer dos dois pode reforçar o outro. O pior de tudo sempre será a total irrelevância numa região que passa por mudanças rápidas. Os jordanianos não são lobos solitários; apertados entre Síria e Iraque, não é difícil adivinhar o rumo que adotarão.

Em Amã, cortes de segurança do estado já estão prendendo salafistas proeminentes e jihadistas jordanianos que tentam cruzar a fronteira para a Síria. A Jordânia fechou as fronteiras, reforçou a segurança em torno do campo Zaatari para refugiados sírios, e provavelmente tomará outras medidas, enquanto as relações com o governo sírio continuam a melhorar.

Recep Erdogan
Os turcos também tomaram medidas para fechar as fronteiras – na prática. No plano interno, prossegue terrível disputa dentro d establishment islâmicos, com um primeiro-ministro temperamental, Recep Tayyip Erdogan, que há apenas três anos apostou todas as suas fichas na oposição síria. Sua intransigência nessa questão custou caro à Turquia: militantes armados refugiaram-se do lado turco da fronteira com a Síria, a violência avançou dentro do país, a popularidade da Turquia despencou no mundo árabe, em todas as seitas; a ação de repressão que o próprio Erdogan ordenou contra manifestações de rua o marcaram como hipócrita; e a “autonomia” curda na Síria faz crescer a ambição dos curdos também na Turquia.

Os turcos compreenderão o imperativo da segurança, mas o fator decisivo será o econômico. A Síria precisa de muita reconstrução, e o Iraque tem o dinheiro do petróleo para gastar quando voltar a calma. Além do mais, o traçado de um gasoduto que irá do Irã ao Mediterrâneo pode passar ao largo, bem longe da Turquia – se a Turquia não jogar o jogo.

O Egito provavelmente se incorporará ao Arco da Segurança, pela simples razão de que, hoje, enfrenta problemas iguais. Por mais endividado que esteja o governo militar provisório, dependente dos petrodólares da Arábia Saudita e outros patrocinadores do Golfo, o Egito estará em total bancarrota se facções religiosas armadas tomarem conta do país, como agora ameaçam fazer. Ataques contra forças de segurança no Sinai já aconteceram durante o levante popular no Egito no início de 2011; e ganharam ímpeto desde o verão passado, quando o establishment militar voltou ao poder. Hoje, militantes não beduínos de fora da área acorrem em enxame para o Sinai, com o armamento pesado que trouxeram dos conflitos da Líbia e do Sudão. Durante o curto reinado da Fraternidade Muçulmana, que apoiava “rebeldes” sírios, milhares de egípcios partiram para lutar na Síria. É muito provável que um estado governado ou dominado por um establishment militar secular acompanhe o exemplo sírio e implemente pesadas soluções de segurança para partir a espinha dorsal dos extremistas.

Sejam quais forem as inclinações políticas, não cabe dúvida alguma de que a inação contra jihadistas salafistas, na atual conjuntura, levará à desintegração de estados em todo o Oriente Médio.

Os estados que estão hoje em situação mais perigosa são a Síria e o Irã, nessa ordem, porque são estados política e geograficamente centrais na região; e há risco real de acabarem cercados por vizinhos menores e mais fracos tomados pelo caos.


A luta contra o extremismo, pois, começa dentro do Arco da Segurança e receberá imediato apoio dos países BRICS e dos países do Movimento dos Não Alinhados. O ocidente pode escolher permanecer nos papeis protagonistas, embora por trás das cortinas, para não incomodar seus aliados regionais – pelo menos por algum tempo. Mas, à medida que o confronto crescer, os países terão de “escolher lados claros” nessa batalha crucial, seja no Oriente Médio ou longe de lá. Deve-se esperar que o oportunismo mostrará a cara – em algum ponto, é possível que o “impasse” seja desejável para alguns. Ninguém se atreverá a defender ou apoiar extremistas. Assim sendo, deve-se esperar algumas importantes mudanças nas narrativas, com “mocinhos” e “vilões” trocando de nome, no Oriente Médio.

Agora, sim, começa a verdadeira Guerra ao Terror. Mas, dessa vez, será conduzida de dentro do próprio Oriente Médio, obterá apoio universal e mudará o equilíbrio político regional por muitas gerações, para o futuro.





[*] Sharmine Narwani é analista de política e comentarista de geopolítica do Oriente Médio além de ser professora sênior no St Antony’s College, Oxford University (julho de 2013). Ela é também, articulista regular do jornal libanês Al-Akhbar (edição em inglês). Seus artigos ocasionalmente são publicados no The Guardian (UK)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Árabes! Atenção à opção “Pequenos Estados”

29/7/2013, [*] Sharmine Narwani - Al-Akhbar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No âmago de todas as políticas jaz o mais duro, o mais frio oportunismo. Novas circunstâncias alteram as alianças e eventos inesperados sempre conspirarão para modificar os planos que se façam com vista a promover uma agenda núcleo.
Mohamed Mursi

Hoje, no Oriente Médio, todos os cálculos e projetos estão tendo de ser ajustados com frequência e rapidez que não se viam há décadas.

No Egito e na Síria, por exemplo, o sentimento popular é genuinamente dividido para acompanhar as alianças e os respectivos interesses. Metade dos egípcios parecem convencidos de que o deposto presidente Mohamed Mursi é o vilão-representante-residente de EUA-Israel; a outra metade acredita que quem defende e promove essas agendas estrangeiras são os militares egípcios.

Bashar al-Assad
Na Síria, pode-se dizer o mesmo dos sírios conflagrados, metade para cada lado, sobre se o presidente Bashar al-Assad ou o Conselho Nacional Sírio [orig. Syrian National Council (SNC)] é o principal promotor dos interesses hegemônicos de Israel e dos EUA na Região.

Mas egípcios e sírios, que apontam dedos alternativamente acusatórios ou contra os islamistas ou contra o Estado, que consideram ferramentas do imperialismo, enganam-se todos num ponto: o império é oportunista. E tem meios para beneficiar-se tanto dos islamistas como do Estado.

Há outro cenário muito mais destrutivo, que os árabes não levam em consideração, enquanto se ocupam com conspirações e minúcias especulativas: há uma terceira opção, mais daninha para todos os envolvidos.

A balkanização dos estados-chaves do Oriente Médio

"Dividir e Conquistar"- Projeto Imperial Anglo-Americano para o Oriente Médio
Clique na imagem para visualizar melhor este exemplo
Em evento realizado dia 19/6/2013, na Escola de Políticas Públicas Gerald R. Ford, da Universidade de Michigan, o ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, tocou num alarmante novo refrão que se ouve no discurso ocidental sobre resultados no Oriente Médio; uma terceira estratégia, caso todas as demais deem em nada, para redesenhar fronteiras acompanhando linhas sectárias, étnicas, tribais ou nacionais que farão desaparecer o alcance político/militar de países árabes chaves, e permitirão que o ocidente reforce seu controle (hoje em rápido processo de evanescimento) sobre a região. Eis o que diz Kissinger sobre essas duas nações 
Henry Kissinger
Há três resultados possíveis (na Síria). Uma vitória de Assad. Uma vitória sunita. Ou um resultado no qual as várias nacionalidades concordam com co-existirem juntas, mas em regiões mais ou menos autônomas, de modo que uns não possam oprimir outros. Esse é o resultado que eu preferiria ver. Mas não é ideia muito popular... Primeiro de tudo, a Síria não é estado histórico. Foi criada na forma atual em 1920, e recebeu essa forma para facilitar o controle que a França exercia sobre o país, depois do mandato da ONU (...). O vizinho Iraque recebeu formato ‘'estranho'’, exclusivamente para facilitar o controle pelos ingleses. E o formado dos dois países foi desenhado para dificultar que um ou outro desses dois países viesse a dominar a região.

Enquanto Kissinger assume francamente que prefere a opção de “regiões autônomas”, muitos governos ocidentais declaram que teriam algum interesse em impedir que os territórios sejam fragmentados. Não acreditem nisso. É mais uma vez e sempre narrativa inventada e cenários pré-montados. Repita incansavelmente qualquer coisa – por exemplo, a ideia de que esses países poderiam ser “redivididos” – e as plateias midiáticas já nem lembrarão se você disse que sim, ou disse que não. Guardarão a mensagem de que esses estados podem ser divididos.

O mesmo se passa com o discurso sectário. Os governos ocidentais vivem a alertar contra a escalada da divisão sunita/xiita. Simultaneamente, não fazem outra coisa além de jogar gasolina ao fogaréu dos conflitos em toda a região, sobretudo nos estados nos quais o Irã tem influência considerável (Líbano, Síria, Iraque) ou pode começar a ter alguma influência (Egito, Bahrain, Iêmen).

“Semear” sectarismo, para rachar os estados

Se algum dia houve conspiração com pernas, é essa. Inflar os conflitos árabes-iranianos e sunitas-xiitas a favor dos EUA tem sido objetivo político central dos EUA desde a Revolução Islâmica de 1979 no Irã.

WikiLeaks ajudou a lançar luz sobre as maquinações de Washington, no momento em que os levantes árabes começaram a aparecer nas nossas telas de televisão.

Telegrama do Departamento de Estado, em 2006, que lamenta que o presidente sírio Bashar al-Assad estivesse em posição fortalecida na Síria, oferece, simultaneamente, as linhas gerais de um plano para semear a discórdia dentro do estado sírio, com o objetivo de romper os laços entre sírios e iranianos. O “assunto”? “Explorar” todas as “vulnerabilidades”:

JOGAR COM OS MEDOS QUE OS SUNITAS TÊM DA INFLUÊNCIA IRANIANA: Há medos na Síria de que os iranianos xiitas estão ativos na propaganda e na conversão de sunitas (quase sempre, dos mais pobres). Embora quase sempre exagerados, esses medos refletem um elemento da comunidade sunita na Síria, cada dia mais perturbada pela influência iraniana em sue país, em atividades que vão da construção de mesquitas a ampliação de negócios. As missões egípcia e saudita locais (além de destacados líderes religiosos sírios sunitas) têm dado atenção crescente ao assunto. E temos de coordenar melhor as nossas ações com aqueles governos, para obter melhores resultados de publicidade e conseguir orientar o foco regional para essa questão.

Somos levados a questionar se semelhantes acusações sobre a “disseminação do xiismo” no Egito seriam também verdadeiras, ou se não passariam de intriga com vista a semear sentimentos de antixiismo e anti-Irã num país que, até esse mês, era governado pela Fraternidade Muçulmana Sunita.

Telegrama de 2009, da Embaixada dos EUA em Riad Arábia Saudita, insiste no mesmo tema. Mohammad Naji al-Shaif – líder tribal ligado por laços pessoais muito próximos ao então presidente do Iêmen, Ali Abdallah Saleh e seu círculo pessoal mais íntimo – diz que figuras chaves “têm-se mostrado muito céticos, em contatos privados, sobre o que Saleh tem dito sobre ajuda iraniana aos rebeldes Houthi”:

Shaif disse ao [oficial de embaixada encarregado de contatos econômicos, orig. EconOff], dia 14/12, que membros da Comissão [gabinete especial do governo saudita para assuntos do Iêmen] têm repetido, em conversas privadas, que Saleh tem mentido ou distribuído informação exagerada sobre auxílio que os iranianos estariam dando aos rebeldes Houthis, para obter envolvimento diretos dos sauditas e regionalizar o conflito. Shaif disse que um membro da Comissão lhe disse que “sabemos que Saleh está mentindo sobre o Irã. Mas não podemos fazer coisa alguma, agora, para desmenti-lo.

Hillary Clinton
Nada disso jamais impediu que a secretária de Estado, Hillary Clinton continuasse a mentir desavergonhadamente a uma Comissão do Senado, apenas alguns poucos anos adiante: “Sabemos que eles – os iranianos – estão profundamente envolvidos nos movimentos de oposição no Iêmen”.

Telegramas da embaixada dos EUA, de Manama, Bahrain, em 2008, ainda insistiam nessa mesma tecla:

Funcionários do governo do Bahrain, às vezes, em contatos privados, têm dito a visitantes norte-americanos que alguns oposicionistas xiitas estão sendo apoiados pelo Irã. Cada vez que se fala disso, pedimos que o Governo do Bahrain distribua as provas que tenha. Mas até agora não vimos qualquer prova convincente de armas ou dinheiro do governo iraniano por aqui, desde, pelo menos, meados dos anos 1990s. Na avaliação desse embaixador, se o governo do Bahrein tivesse provas de subversão iraniana recente, teria interesse em partilhá-las conosco o mais rapidamente possível.

Mas, como os governantes do Bahrain continuam a reprimir com violência os protestos pacíficos da maioria xiita, já passados dois anos desde o início dos levantes populares naquele país, vê-se ali o mesmo discurso que se vê também em Washington: de que seria resultado de interferência iraniana. 

Washington tem sido extremamente rápida ao ativar as narrativas anti-xiitas e anti-Irã, desde o início dos levantes árabes. Já em março de 2011, os militares norte-americanos executaram um exercício secreto para construir uma “linha narrativa” que perpetue diferenças entre árabes e iranianos, sunitas e xiitas.

Eis aqui alguma das premissas e questões incluídas no exercício do CENTCOM, de árabes versus iranianos. (Atenção: no texto, os iranianos são referidos como “persas”).

Premissa: “Há uma divisão na dinâmica árabes-persas. História, religião, idioma e cultura impõem obstáculos demais para que sejam superados”.

Premissa: “Um complexo árabe de inferioridade em relação aos persas implica que muitos árabes temem a expansão e a hegemonia persa em todo o Oriente Médio. Em sua mente, o Império Persa jamais deixou de existir e é mais autossuficiente que muitos estados árabes”.

Premissa: “Simples choque de civilizações – i.e., cruzados modernos, Islã versus judeu-cristãos; guerra entre ocidente/Israel versus árabes/presas – não parece ser cenário no qual árabes e persas venham a unir forças contra os EUA/Ocidente”.

Pergunta: “Seria apropriado circunscrever a discussão em termos de ‘árabes-persas’, ou a divisão ‘sunita-xiita’ é circunscrição mais apropriada?”.

Pergunta: “Assumindo o cisma, o que uniria árabes e persas, ainda que só temporariamente?”.

Todas essas narrativas assumem duas coisas: que a divisão entre iranianos e árabes é fato; e que a maior unidade dos dois grupos no início dos levantes árabes é ameaça potencial aos interesses dos EUA. Daí a pergunta seguinte, em tom preocupado: o que os uniria, mesmo que só temporariamente?

“Pequenos Estados” enfraquecem os árabes

Com o aumento de conflitos pré-fabricados na Região, as opções também diminuem. Dada a importância estratégica do Oriente Médio e suas reservas vitais de petróleo e gás... por causa do desejo de manter a estabilidade em estados-chaves que salvaguardam interesses dos EUA, como Israel, Jordânia, Turquia (membro da OTAN), monarquias do Golfo Persa... conflitos sem prazo para terminar em vários estados são, dito em fórmula simples, indesejáveis.

Modelo de "balcanização" da Síria
Ao longo do conflito sírio – e com certeza ao longo do ano passado, quando a partida de Assad parecia menos provável – o ocidente, através da mídia e de intermediários “especialistas”, frequentemente trouxe à tona a ideia de dividir o estado em várias partes menores, seguindo linhas sectárias e étnicas. Embora apresentada como meio para “impedir conflito futuro”, essa ideia atualmente acompanha o experimento de federalismo iraquiano que os EUA tentam implantar e que efetivamente tentaram implantar, dividindo o Iraque em três zonas distintas (sunita, xiita e curda).

Esqueça o fato de que não se encontram cinco sírios não curdos ou iraquianos não curdos que tenham renome nacional e que apóiem a divisão da própria nação. A ideia é claramente ideia dos EUA, na visão de Washington. Ou é visão ocidental, na qual se veem as impressões de Israel por, de fato, todos os cantos.

A visão de Israel, dos “Pequenos Estados”

Em 1982, com Israel aquecendo as máquinas para invadir o Líbano, o estrategista do Ministério de Relações Exteriores de Israel, Oded Yinon rascunhou um plano para redesenhar o Oriente Médio,  dividido em vários pequenos cantões que jamais representariam qualquer tipo de ameaça à supremacia regional do estado judeu:

A total dissolução do Líbano, em cinco províncias, serve como precedente para todo o mundo árabe, incluindo o Egito, a Síria, o Iraque e a Península Arábica, e já está em andamento. A dissolução da Síria e do Iraque, logo depois, em áreas étnicas ou religiosas puras, como no Líbano, é o alvo primário de Israel no front oriental no longo prazo; e a dissolução do poder militar desses estados serve como alvo primário de curto prazo. A Síria rachará, acompanhando suas linhas internas de estrutura étnica e religiosa, em vários estados, como o Líbano hoje; e haverá um estado xiita alawita junto à costa; um estado sunita na área de Aleppo; outro estado sunita em Damasco, hostil contra o vizinho do norte; e os drusos, que não terão estado, talvez mesmo no nosso Golan; e com certeza em Hauran e no norte da Jordânia.

O Egito é dividido e esfacelado em vários focos de autoridade. Se o Egito esfacelar-se, países como a Líbia, o Sudão e mesmo estados mais distantes deixarão de existir sob a forma que têm hoje e acompanharão a decadência e a queda do Egito. A visão de um estado cristão copta no Alto Egito, ao lado de vários estados fracos com poder bem local e sem governo centralizado a enfrentar, é a chave para um desenvolvimento histórico que só foi contido pelo acordo de paz, mas que parece inevitável, no longo prazo.

O Iraque, rico em petróleo por um lado, mas internamente rachado por outro lado, é candidato certo a ser alvo dos israelenses. A dissolução é ainda mais importante para nós, que a da Síria. No curto prazo, a maior ameaça hoje, contra Israel, é o poder iraquiano. Uma guerra Iraque-Irã rachará ao meio o Iraque e levará à queda, antes de o país conseguir organizar a luta em front mais amplo contra nós. Qualquer tipo de confronto intra-árabes nos ajudará no curto prazo, e apressará o processo para alcançarmos o objetivo mais importante de rachar o Iraque entre as diferentes denominações, como na Síria e no Líbano.

No Iraque, é possível a divisão em províncias, acompanhando linhas étnicas/religiosas como nos tempos otomanos. Assim, três (ou mais) estados existirão em torno de três grandes cidades: Basra, Bagdá e Mosul; e áreas xiitas no sul separarão as áreas sunitas e o norte curdo. É possível que o atual confronto Irã-Iraque aprofunde essa polarização.

Não há chance de a Jordânia continue a existir em sua estrutura atual por muito tempo; e a política de Israel, tanto em paz quanto em guerra, tem de ser dirigida para liquidar a Jordânia sob seu regime atual, com transferência de poder para a maioria palestina.

O sonho sionista de Oded Yinon. A linha vermelha demarca as "novas fronteiras de Israel"
Cuidado com a ruptura artificialmente provocada dos estados

Na via oposta às narrativas ocidentais sobre “revoluções” árabes que anunciariam uma era de “liberdade e democracia”, os russos adotaram via de análise dos eventos muito mais cautelosa.

Dmitry Medvedev
Já em fevereiro de 2011, o então presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, alertou que as revoluções que começavam a eclodir no mundo árabe levariam ao poder, mais provavelmente, grupos de fanáticos, o que por sua vez determinaria “anos de fogo e a disseminação do extremismo na Região e no tempo”. E a quebra de estados, na sequência desses eventos, disse ele, era clara possibilidade a ser levada em conta:

A situação é dificílima. Podemos estar falando da desintegração de estados grandes, densamente povoados. Podemos estar falando da pulverização desses estados, de sua redução a pequenos cacos.

Os russos acertaram perfeitamente. Os norte-americanos erraram – grave e perigosamente

O Oriente Médio um dia precisará fazer correções de fronteiras, mas, para ser bem-sucedido, terá de fazê-lo como processo determinado de dentro para fora, por interesses indígenas. As batalhas que incendeiam a Síria, o Iraque, o Líbano, o Iêmen, o Bahrain e outros países são manifestação de luta maior que se disputa entre dois “blocos”, cada um deles com desejos diferentes para toda a região. E um desses desejos é um novo traçado para as fronteiras do Oriente Médio.

O primeiro grupo, um bloco agressivamente liderado pelos EUA busca manter a hegemonia regional a qualquer custo; para isso, usa narrativas cuidadosamente construídas para promover divisões locais e levar a população a apoiar “a causa” das novas fronteiras apoiadas pelo ocidente. Essas fronteiras dividirão os países segundo linhas sectárias, étnicas e tribais, de modo a garantir que haja conflito eterno entre os “novos” estados e respectivas “novas” fronteiras, os quais contribuirão para que os novos estados tenham de ocupar-se com conflitos locais e sejam assim “redirecionados” de qualquer luta contra o maior poder imperial. Um Oriente Médio unificado, afinal de contas, mais ou menos naturalmente se organizaria contra o sempre odiado Império – e as fronteiras de Israel seriam as primeiras a ser sacrificadas. E nesse clima, revisões de fronteiras fomentadas pelo ocidente serão dramaticamente mais caóticas do que [o acordo] Sykes-Picot jamais foi.  
O segundo bloco (Irã, Iraque, Síria, Rússia, China e um pequeno grupo de estados - grupamentos independentes) que se opõe à hegemonia ocidental-israelense não tem nem meios nem força ou competência para impor soluções de fronteira exceto em sua própria base geográfica, o que cada vez mais se aproxima de uma linha traçada do Líbano ao Iraque (e não por acaso, porque é aí que está canalizada a maior parte do caos). Esse grupo tem uma estratégia de defesa, baseada largamente em desconstruir tramas que semeiam divisionismos, minimizar a luta e esvaziar insurgências cevadas do exterior, inclusive por meios militares, se necessário.

Do ponto de vista desse bloco, Sykes Picot será desfeito, mas dentro de um processo orgânico de correções de fronteiras baseado em consenso regional e considerações racionais. Na verdade, esse bloco está menos focado em redesenhar fronteiras do que em controlar e dosar os confrontos criados para gerar divisões prejudiciais para todos.

Árabes e muçulmanos têm de começar a prestar máxima atenção a essa terceira opção de “pequenos estados”. Se não se dedicarem a isso, todos cairão na perigosa armadilha de deixar-se distrair-se por detalhes de somenos, enquanto suas nações estarão sendo retalhadas, e seus povos lançados em conflitos e guerras perpétuas.


[*] Sharmine Narwani é autora, comentarista e analista política, que cobre o Oriente Médio para várias publicações.
Pode ser encontrada pelo Twitter, @snarwani .