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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Os verdadeiros propósitos da invasão da Líbia

Muammar Kadafi

Se é que esteve mesmo durante 41 anos no poder, Kadafi proporcionou ao povo líbio os maiores benefícios sociais possíveis. Através de sua liderança, a mulher obteve toda a possibilidade de participar da sociedade, 95 % dos desertos foram irrigados e, dentre outros, recentemente Kadafi obteve o reconhecimento do atual presidente da África do Sul, Jakob Zuma, em ter contribuído com a luta contra o apartheid, regime de segregação racial então vigente no país sede da última Copa do Mundo. Em suma, o argumento de que Kadafi deve cair a qualquer custo por estar a 41 anos no poder é totalmente simplista. É um argumento pragmático, de impacto matemático, que esconde os principais propósitos das potências ocidentais em plena crise econômica com suas contas públicas.

Desertos irrigados significam um acesso extremamente mais fácil à água, este recurso natural sagrado à existência humana que aos poucos, ou em escala cada vez maior, se torna de acesso cada vez mais difícil em razão da indiferença ambiental praticada por aqueles que... que hoje invadem a Líbia! As mesmas potências endividadas que destroem o mundo e ao invés de pagarem a conta, buscam novas fontes de combustíveis fósseis para manterem seus parques industriais funcionando (a Líbia é a sétima maior reserva de petróleo do mundo, só pra constar).

Na Líbia não há respeito aos direitos humanos pelas potências ocidentais endividadas que bombardeiam cidades e lugares reduzidos à condição análoga de colinas ocas. O petróleo líbio, que hoje tem suas divisas investidas em benefícios sociais que fazem do seu povo o usufrutuário do maior IDH da África, a partir de agora será utilizado na reconstrução ocidental do país.

Quanto ao Conselho Nacional de Transição, não passa de um bando de vendidos. É muito fácil desempenhar o papel de rebeldes insurretos com US$ 5 bilhões de dólares iniciais para começar a governar a Líbia. Não há qualquer vestígio de soberania ou autodeterminação dos povos, mas tão somente o financiamento das potências ocidentais, endividadas, em financiar um governo marionete que corrobore seus interesses.

Recentemente Kadafi questionou a que renunciaria, já que não desempenhava nenhuma função governamental na Líbia. Onde a grande mídia divulgou isto e com que veemencia? Se a questão fosse tão somente uma insatisfação com ele, bastaria o povo líbio resolver tal questão a partir de sua autodeterminação e soberania. O que na verdade ocorre no país é a invasão por potências ocidentais em crise econômica, com suas contas públicas endividadas, que veem na riqueza do país árabe norte-africano em evidência a cobertura dos rombos de seus déficits públicos, enquanto que o divulgado pela grande mídia ocidental e reacionária é a salvação de um povo através de bombardeios e assassinatos de inocentes.

Lucas Rafael Chianello, em 18 de setembro de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

Robert Fisk: “Ditadores árabes seguram-se... mas até quando?”


Robert Fisk

30/7/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Embora se saiba que vive mudando de direção conforme sopre o vento, Walid Jumblatt começou a fazer comentários pessimistas sobre a Síria.
O líder druso, chefe do Partido Socialista Progressista do Líbano, “senhor-da-guerra”, foi quem sugeriu que dever-se-ia esquecer o Tribunal Especial da ONU e as investigações sobre o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri, em nome de defender “mais a estabilidade que a justiça”. Ouviu urros de ira de Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro, que atualmente perambula pelo mundo para ficar bem longe do Líbano – o que é compreensível, porque teme ser também assassinado – enquanto a Irmã Síria cala-se para o oriente. Agora, Jumblatt anda dizendo que há forças na Síria que impedem qualquer reforma.

Ex-presidente egípcio Hosni Mubarak vai a julgamento na próxima quarta
Ex-presidente egípcio Hosni Mubarak vai a julgamento na próxima quarta
Parece que “alguns” no regime do Partido Baath não querem ver traduzidas em ação as promessas de reforma que o presidente Bashar al-Assad tem feito. Soldados não devem atirar contra civis. Jumblatt diz que a lição da Noruega é útil também para o regime sírio; o mundo árabe não deixou de anotar que as sandices que Anders Breivik distribuída pela internet incluíam a exigência de que os árabes deixassem para sempre a Cisjordânia e Gaza.

Esse seu correspondente para o Oriente Médio não está prometendo nada, talvez, talvez, nada é garantido, mas é possível que esteja próximo – e como detesto esse clichê – para a Síria, o ponto de não-retorno. 100 mil pessoas (no mínimo) nas ruas de Homs; há notícias de deserções entre os soldados da academia militar síria. Um trem inteiro descarrilado – por agentes “sabotadores” segundo autoridades sírias; pelo próprio governo, segundo os manifestantes que exigem o fim do governo do partido Baath. E tiroteios à noite, em Damasco. Assad ainda estará contando com que medos sectários mantenham o apoio que a minoria alawita e os cristãos e os drusos ainda lhe dão? Manifestantes dizem que seus líderes estão sendo assassinados por pistoleiros do governo; que centenas de manifestantes, talvez milhares, foram presos. Será verdade? Será mentira?

O braço sírio é longo. Em Sidon, cinco soldados italianos da ONU foram feridos, depois que Berlusconi uniu-se à União Europeia e condenou a Síria. Depois, Sarkozy uniu-se à mesma condenação e – bang! – cinco soldados franceses foram feridos na mesma cidade, essa semana. Bomba sofisticada. Todos desconfiam da Síria, mas, com certeza, nada se sabe. A Síria tem apoiadores entre os palestinos do campo Ein el-Helweh em Sidon. 

E, então, Hassan Nasrallah do Hezbollah anuncia que seus militantes vão dar proteção e cobertura aos campos libaneses submarinos de petróleo ainda não prospectados: o perigo é Israel. São 550 milhas quadradas de águas mediterrâneas ao largo de Tiro – e não se sabe sequer, com certeza, se são águas territoriais libanesas. Aí há, claramente, motivo para mais uma guerra.

E, lá no Egito, o velho ex-presidente irá a julgamento com seus filhos Gamal e Alaa Mubarak, na 4ª-feira, além de outros dos favoritos da corte de Hosni Mubarak. Os ministros da Justiça e da Inteligência, hoje, são antigos auxiliares de Mubarak: permanecem, pois, no poder. O que significa isso? Os velhos Mubarakistas seguram-se? Os sauditas ofereceram milhões ao exército egípcio para que Mubarak não fosse julgado – muitos querem condená-lo à morte; o exército gostaria de executá-lo hoje mesmo. E enquanto isso, os sauditas dão tudo que podem para defender o Bahrain e outros potentados do Oriente Médio. Estão preparados para deixar Gaddafi ser derrubado (Gaddafi tentou assassinar o rei, vezes demais). Os sauditas ainda não entenderam qual a posição de Obama em relação à Síria – desconfio que Obama, tampouco. Mas o presidente dos EUA deve estar contentíssimo por não ter soldados norte-americanos no Líbano, nas tropas de paz da ONU. Todos sabemos o que aconteceu com o último pelotão de norte-americanos que lá esteve (1983, na base dos Marines, 241 mortos, um suicida-bomba, a maior explosão que o mundo ouviu desde Nagasaki).

“Foram obrigados a levar Mubarak a julgamento” – disse-me um jornalista egípcio, semana passada. “A rua incendiaria o país, se não fosse levado a julgamento”. Promete ser o julgamento do século no Egito (o Independent lá estará).

O que me leva de volta ao nosso velho amigo Gaddafi, o ditador árabe que não combina exatamente com os demais déspotas. Nesse momento, o mundo político na Líbia é enxame de Kerenskys. – Os Aliados não terem vencido a guerra para os Russos Brancos contra os Bolcheviques depois do conflito 1914-18 acorda alguns fantasmas infelizes que bem farão se assombrarem hoje os também tão infelizes quanto cobertos de medalhas comandantes da OTAN. (Deveriam estudar, na biblioteca da OTAN, o envolvimento de Churchill.)

De fato, o fracasso dos “rebeldes” líbios parece mais semelhante à exaustão de Sharif Hussain depois de capturar Mecca, em 1916; foram necessárias armas de Lawrence e dos britânicos (e muito dinheiro e muitos coturnos em terra) para por em pé novamente o herói, para enfrentar os turcos. Infelizmente, não há Sharif Hussain na Líbia. Assim sendo, porque, diabos, os britânicos nos metemos naquela loucura? (Desconsidero, nesse raciocínio, os assassinatos e confusão geral em Benghazi nas últimas 48 horas.) Teria sido para proteger civis em Benghazi? Há quem acredite que sim. Mas... por que, então, Sarkozy atacou primeiro?

O professor Peter Dale Scott da Universidade da Califórnia em Berkeley tem opinião formada: Gaddafi estava trabalhando para criar uma “União Africana” apoiada na moeda do Banco Central da Líbia e em suas próprias reservas em ouro; se fizesse o que planejava fazer, a França perderia a extraordinária influência financeira que sempre teve em suas principais ex-colônias da África Central. 

O muito divulgado plano de Obama, de impor sanções à Líbia – confiscar dinheiro do “Coronel Gaddafi, seus filhos e sua família e dos principais membros de seu governo” – ajudou a ocultar a parte das sanções que confiscaram também “todas as propriedades e investimentos do Governo da Líbia e do Banco Central da Líbia”. 

No subsolo do Banco Central, em Trípoli, há, em ouro e moedas, 20 bilhões de libras, guardadas para implantar três projetos da federação centro-africana.

E já que estamos nesse tema, examinemos rapidamente uma guerra de ingleses no Afeganistão. Eis o que escreveu uma comissão que investigou a participação (e já quase completa derrota) dos britânicos, naquela guerra: “Nosso objeto (...) é auxiliar nossos concidadãos a entender as vias pelas quais foram envolvidos numa guerra contra a nação afegã e o que tenham a declarar, sobre o sentido dessa guerra, os autores. 

Não apenas o governo não consultou o Parlamento nem houve qualquer comunicação àquele corpo político de qualquer mudança na política britânica que nos levasse a envolver-nos naquele conflito, mas, além disso, quando o governo foi interrogado sobre suas razões, respondeu por vias oblíquas, respostas construídas para nada informar e desviar a atenção do Parlamento. De fato, assim aconteceu: o governo conseguiu enganar até os mais atilados funcionários e especialistas e, através deles, toda a nação.” A citação lá está, no relatório final da investigação, pelo Parlamento britânico, da Segunda Guerra do Afeganistão. A data? 1879.